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ITAGUARÉ-GUAÇU : Travessia Expedicionária- Serra do Mar-SP

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                                                               De Biritiba-Mirim à Bertioga-SP

     Chafurdados no pântano até o pescoço, cinco criaturas se arrastam na lama, se esgueirando entre camas de jararacas e casas de jacarés do papo amarelo, tentando fugir das desgraças aquáticas proporcionada pela aquela EXPEDIÇÃO que havia partido do Planalto Paulista três dias atrás. A tarde já vai pela metade e  já dão por certo ter que dormir dentro d’água e virar comida dos mais terríveis insetos asquerosos que habitam aquele inferno alagado. A resiliência parece já ter tomado a alma de cada um daqueles infelizes, isolados do mundo, sem comunicação nenhuma, largados à própria sorte e fadados a pagar seus pecados antes de se transformarem em criaturas do brejo, melhor seria se fossem logo comidos por uma sucuri gigante, seria um desfecho mais glorioso para aquele sofrimento. ” 

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    (Da esquerda para direita : Anderson , Potenza , Divanei , Vagner , Trovo .  )

           Alguns roteiros são planejados e quando se vê a impossibilidade momentânea de realiza-los, são jogados e esquecidos numa gaveta ou num arquivo qualquer do computador, indo parar numa espécie de limbo digital até que alguém te faça lembrar que ele exista. O Rafael Araújo me consultou sobre a possibilidade de botar essa expedição em pratica já que os planos iniciais para o feriado do Carnaval acabaram indo por água a baixo. Acontece que essa Travessia tinha um entrevero que até então eu não havia achado solução, aí foi preciso voltar às pesquisas nos mapas e cartas topográficas a fim de desvendar o mistério.

       O projeto inicial da travessia partiria de Biritiba-Mirim, mais precisamente nas dependências da SABESP, num lugarejo conhecido como CASA GRANDE, mais de 20 km do centro do citado município, um fim de mundo servido por uma estrada de terra toda zoada. Partindo de Casa Grande ainda seria preciso mais 5 ou 6 km de andanças até interceptar a trilha de acesso para a CACHOEIRA DO DIABO, uma queda d’água quase que desconhecida nas nascentes do rio Guacá, descer o próprio rio por mais de  1 km e a partir de aí abandoná-lo pela esquerda e se jogar num mundo desconhecido varando mato montanha acima até a crista da serra e despencar para fundo do vale, ganhando as nascentes do RIO GUAÇU, afluente do grande Rio ITAGUARÉ. Do topo da serra à quase 800 m, desceríamos o despenhadeiro até a planície litorânea de Bertioga e aí é que estava o enrosco: Como passar pela área alagada, um mundo feito de água, pântano, mangue e charco?  A solução inicial pensada foi a de traçar uma linha reta quando o rio arrefecesse, direto para uma estrada a 3 ou 4 km a sudoeste (direita de quem desse o rio) e deixar que o destino nos guiasse no final da travessia, mas já prevendo que o capiroto poderia fazer sua morada naquele caminho.

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   (laranha- trilha até cachoeira do Diabo)   ( vermelho - caminho da expedição selvagem)

          Ultimamente o grupo de gente disposta a enfrentar essas Expedições incertas acabou por diminuir drasticamente, alguns simplesmente começaram a achar que algumas travessias vinham se enveredando por lugares extremamente perigosos, outros acabaram por buscar atividades com menos perrengues, indo aprender novos esportes ligados ao mundo da aventura e outra parte já haviam sinalizado com compromissos familiares. No final apenas cinco míseros corajosos se dispuseram a enfrentar esses caminhos nunca dantes navegados e então numa sexta-feira cinzenta o grupo se juntou depois das 10 horas da noite na Estação Estudantes, em Mogi das Cruzes de onde partiria nossa VAN com destino à Casa Grande, no município de Biritiba-Mirim.

          A viagem de Mogi até Casa Grande deve ter levado umas duas horas e meia, o certo é que estávamos tão envolvidos jogando conversa fora e revivendo expedições passadas que nem nos demos conta do tempo. Depois de chegar até as instalações da SABESP (Companhia de Águas Paulista) , ainda foi preciso que o nosso transporte se metesse por mais uns 5 km de estradas enlameadas até o PESQUEIRO DO LUCIANO, que na verdade nem pesqueiro era e muito menos pertencia ao Luciano , o caseiro do criador de carpas. Como o Vagner já conhecia o caseiro de outra passagem por ali, não se fez de rogado e já intimou o nativo a nos conseguir um lugar para passarmos a noite e, entre cachorro, gatos e galinhas, nos acomodamos no chão do casebre e apagamos até depois das seis da manhã.

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    ( o cão BINGO : mergulha, pesca e caça)

          A previsão do tempo era péssima, marcando quase 40 milímetros de chuva para o sábado de Carnaval, mas surpreendentemente o dia amanheceu seco e quente e tão logo o café ficou pronto, nos despedimos dos nossos anfitriões e partimos para a aventura. Ganhamos novamente a continuação da estrada que havíamos chegado na noite anterior e avançamos por mais uns 1500 metros, coisa de meia hora e quando a estrada se bifurcou, com uma perna indo para direita e outra para esquerda, não pegamos nenhuma das duas e a abandonamos em favor de uma trilha em frente, para sudeste, que no começo é meio apagada e confusa, passando por uma casinha em ruínas a nossa esquerda. Tão logo nos distanciamos do casebre abandonado, a trilha volta a ficar mais nítida porque na verdade, trata-se de uma antiga estrada que muito provavelmente serviu para extrair madeira para as carvoarias, mas hoje a mata voltou a se regenerar e o antigo caminho foi engolido pela floresta, restando apenas o antigo corte no barranco. A trilha vai seguir praticamente em nível, cruzando uma infinidade de riachinhos e quase 3 horas depois vai desembocar no leito do Rio Guacá, bem perto das suas nascentes.

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          O RIO GUACÁ é um velho conhecido meu, foi nele que comecei minha vida mateira há 25 anos atrás, muitas são as lembranças de acampamento e explorações nas imediações da sua foz, junto ao Rio Itapanhaú, então ter a oportunidade de conhecer sua nascente é sempre um grande prazer. Chegar a esse rio já é um grande trampo, pela logística ruim e pelas horas de caminhada, mas ainda falta a cereja no bolo, uma cachoeira selvagem e praticamente desconhecida, visitada apenas pela galera mais casca-grossa e experiente. O grande problema é que não há trilha para se chegar a essa cachoeira e será preciso varar mato meio que pelo rumo ou ir seguindo a direção do GPS até sua base. Claro que ao chegar ao rio é possível tentar encontra-la descendo por dentro da água, mas aí seria caminhar por mais de 1 km, perdendo assim tempo precioso. Como o Vagner já havia estado nessa cachoeira tempos atrás, atravessamos o rio e menos de 100 m depois chegamos a uma clareira de acampamento, o único vestígio de vida humana por essas paragens. Não há nenhuma trilha que ligue essa clareira direto para a cachoeira, então descemos mais um pouco até tropeçarmos em um afluente e nos enfiamos nele na certeza que uma hora ele encontraria com o rio principal, mas como começou a fazer muitas curvas, também o abandonamos e seguimos nossos instintos , apontando o nariz para a direção do rio e menos de meia hora depois tivemos  êxito , encontrando um grande poço e aí foi só varar mato subindo pela margem direita até avistarmos a deslumbrante e selvagem CACHOEIRA DO DIABO.

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          Gastamos pouco mais de 3 horas do “pesqueiro” até a cachoeira e foi uma grande alegria poder chegar ali e se maravilhar com aquela queda d’água onde poucos já tiveram a sorte de botar os olhos e ainda poder desfrutar de tamanha beleza com sol, coisa que jamais esperávamos com uma previsão tão ruim para aquele dia. A Cachoeira do Diabo é daquelas quedas clássicas, que se espalham de um lado ao outro do rio. Com o rio normal forma dois véus d’água , mas com o rio mais cheio os véus se juntam formando uma só . É possível se banhar embaixo das quedas, mas para isso é preciso se equilibrar sobre umas pedras mais lisas e escorregadias, a sorte é que um tombo ali causará pouco estrago.

          Já passava do meio dia quando resolvemos partir de vez e retomar nossa travessia, ainda mais porque a chuva que deveria ter chegado cedo, acabou dando o ar da sua graça. Descemos o rio nos valendo novamente de sua margem até estarmos novamente de volta ao grande poço, contornamo-lo pela sua  esquerda e continuamos seguindo , alternando caminhada pelo mato e pelo próprio leito do rio Guacá até que nos surpreendemos com uma outra grande queda que nem esperávamos que havia e aí fomos obrigados a varar mato pra valer, subindo um pouco a encosta da esquerda e depois traçando uma diagonal até a base da cachoeira, onde eu e o trovo nos metemos dentro da água para ter uma visão privilegiada do salto .

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          Um pouco mais abaixo desse salto, outras pequenas cachoeirinhas são vencidas e logo nosso GPS nos avisa que é hora de abandonar o lendário Rio Guacá, havia chegado o momento de nos jogarmos de corpo e alma para a aventura que almejamos buscar. Nos despedimos do rio e começamos nossa jornada rumo ao desconhecido, primeiramente subindo um grande barranco à esquerda e nos enfiando de vez mato à dentro e montanha acima. Encontramos uma espécie de rampa que nos deu um caminho bem promissor e nos fez ganharmos altitude rapidamente, mas logo que nos vimos bem acima, tivemos que abandoná-la porque ela tomou um rumo que não serviria aos nossos propósitos. Estávamos navegando com um aplicativo do celular, que já há muito tempo tem nos servido muito bem, mesmo nessas expedições selvagens, mas é preciso aceitar que às vezes um pequeno delay (atraso) pode dar uma desorientada básica e é preciso corrigir o rumo sem muito estresse. Nosso objetivo era ao atingirmos a crista da serra a quase 800 m de altitude, ganharmos a descida até as nascentes do Rio Guaçu e a partir de aí, nos jogarmos por dentro do vale e foi exatamente o que fizemos, só que primeiro tivemos que fazer um desvio para nos livrarmos de um vale que seria inútil descer para ter que subir novamente, então ganhamos uma subida a esquerda e quando nos vimos no alto da serra, concertamos o caminho voltando mais para a direita e por incrível que possa parecer, encontramos uma trilha larga correndo por cima da serra.

          Essa trilha, por sinal, muito consolidada, correndo por cima da crista, poderia tomar vários rumos que até então não tínhamos conhecimento, mas com certeza não nos serviria para nada, então a usamos apenas como descanso breve, antes de nos despencarmos terreno abaixo. E despencar era o termo correto, uma vez encontrado a calha do vale foi só nos mantermos dentro dele, avançando cada vez mais para baixo, desescalando o leito seco de um córrego até que a própria chuva que ameaçava desabar, desabou de vez e o que era seco e sem vida se inundou rapidamente até que finalmente chegamos ao que nos parecia ser as nascentes ou uma das nascentes do Rio Guaçu. A chuva castigou legal e o desnível foi aumentando e se transformando em um verdadeiro cânion, onde tínhamos que nos livrar de grandes pedras, às vezes sobrepostas por grandes árvores tombadas.  O dia vai se findando, mas a gente resolveu estabelecer como meta chegarmos aos pés da grande queda que supúnhamos haver em um afluente vindo do lado esquerdo do rio, mas conforme a chuva aumentava, as dificuldades iam se multiplicando e alguns do grupo já vislumbravam a possibilidade de acampar logo e nos livrarmos daquele molhaceiro todo. Acontece que não encontrávamos um palmo de área plana para acondicionar todo o grupo, então a única alternativa era continuar navegando.

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          A chuva aumentou de vez, mas por sorte a temperatura não caiu. Matacões eram descidos e a carta topográfica nos avisava que o terreno se abriria à frente, com linhas espaçadas, o que significa área mais plana e a possibilidade de estarmos perto da grande queda d’água que buscávamos e não deu nem quinze minutos para que um clarão alvo viesse a ofuscar nossos olhos em meio a selva densa. Foi o momento de euforia, estávamos bem perto de nos encontrarmos com aquilo que havíamos visto apenas por imagens de satélite. Abandonamos o rio em favor de um vara-mato em direção ao clarão branco formado pela cachoeira, cruzamos um riachinho para o outro lado, subimos mais um barranco e ao tropeçarmos no próprio afluente do qual desabava a cachoeira, jogamos as mochilas ao chão e saímos correndo, feito adolescentes indo ao encontro de um amor ainda desconhecido.

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          Por sorte, bem nessa hora a chuva havia dado uma trégua, o que nos ajudou a fazer uma escalada pelas grandes rochas com mais segurança. Ao nos posicionarmos diante da parede onde despencava a grande queda, foi que nos demos conta da grandiosidade da Cachoeira. Uma parede inclinada de uns 70 ou 80 metros com um véu branco turbinado pela chuva que acabara de cair. Tiramos algumas fotos e partimos de volta para onde deixamos as mochilas, sabíamos que era hora de conseguirmos um lugar para acampar, tínhamos que aproveitar a trégua da tempestade para tentarmos montar nossas redes, muito porque, o Anderson já estava em estado terminal, inclusive ele foi o único que não teve forças nem para ir ver a grande cachoeira e acampar ali por perto lhe daria mais uma chance de conhecer a cachoeira no dia seguinte.

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          Retrocedemos um pouco antes do riachinho e ali conseguimos uma meia dúzia de árvores descente para montarmos nossas redes. O primeiro dia de caminhada é sempre o mais complicado e cansativo porque se dorme muito pouco na noite anterior, então depois de montarmos nossas camas de mato e prepararmos uma janta, cada qual foi morrer na sua rede. Ali naquele vale onde o mundo não sabe que existimos, a noite passa de vagar, os bichos fazem barulho ao longe e o som das águas correndo sobre as pedras reina absoluto , só sendo ofuscado quando alguma grande árvore tomba na escuridão da floresta, gigantes que despencam arrastando tudo que tem em volta e assombram a nossa alma porque sabemos que se uma dessa cai sobre nossas redes, não sobra um pra contar história.

          O dia que amanhece é sem chuvas, mas a previsão ainda não nos é favorável. Foi uma noite de reis, quase 12 horas de sono e descanso merecido. Lenta e vagarosamente vamos desmontando nosso acampamento e nos preparando para aquele segundo dia de expedição e quando todas as mochilas ficaram prontas, partimos novamente para uma visita mais prolongada da GRANDE CACHOEIRA. O reencontro com o monstro despencando da pedra chega a ser mais prazeroso que o do dia anterior porque agora o grupo está todo reunido e sem as chuvas, fica fácil escalar as grandes pedras lisas para uma foto panorâmica. Falando em fotos, ao posicionar minha câmera numa rocha para um registro fotográfico de todo mundo junto, um vento se encarregou de joga-la dentro do rio e essa foi mais uma que a Serra do Mar comeu para todo o sempre, amém! Ali onde estávamos o nosso GPS marcava uma altitude de uns 550 m e surpreendentemente encontramos uma “inscrição rupestre” muito antiga em uma árvore onde se podia ler “ ALEMÃO”. A única explicação plausível para que alguém antes de nós tivesse chegado até aquela cachoeira perdida do mundo é que aquela trilha que encontramos na crista da serra, poderia ter descido rapidamente pelas encostas do lado direito da nascente e vindo desembocar aqui, mas esse foi o último vestígio humano que encontramos naquele vale e para ser justo com o nobre “europeu” que veio de tão longe para visitar essa queda d’água antes de nós, vou marcá-la como CACHOEIRA DA LAGE DO ALEMÃO.

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          Deixamos, portanto, aquela cachoeira perdida e entregue a própria sorte e partimos descendo pelo próprio afluente, que mais nos pareceu ser mesmo o rio principal formador do Rio Guaçu e logo quando se encontra com o rio que descemos até ele, se encorpa de vez e cresce, tomando forma e jeito de rio digno dessas serras fabulosas. A retomada pelo rio principal segue praticamente a mesma toada do dia anterior, nos fazendo escalar e pular muita pedra, são matacões gigantes, onde é preciso se esgueirar dentro de pequenas grutas, atravessar pequenos corredores alagados, dar salto de uma rocha para outra, se segurar em rampas escorregadias e vez por outra se jogar no rio em ziguezague, cruzando de uma margem para outra, sempre procurando o melhor caminho. Poucos são os esportes em que você é obrigado a usar todos os músculos do seu corpo, aprender todas as técnicas de escalada livre que existem, tendo que se manter ligado em 100 % do tempo, porque uma bobeada, mínima que seja, você vai pagar caro e correr o risco de ver sua cabeça explodir numa pedra rio abaixo, sem contar que os olhos tem que estar fixo também no mato, tem que ficar esperto para não enfiar uma mão numa jararaca e sofrer um acidente sem volta, num lugar onde o resgate é quase que impossível por não haver comunicação com o mundo externo.

          O dia vai passando rapidamente e a chuva que ameaçou cair a manhã toda, desaba de vez e o rio que era manso e cristalino se rebela contra nós, tornando a aventura ainda mais desafiadora. Nosso grande objetivo desse segundo dia era encontrar outra cachoeira que nos pareceu bem grande no mapa de satélite e quando estávamos chegando perto do ponto marcado no gps, ficamos esperto com todos os afluentes que vinham do nosso lado esquerdo, porque era desses cursos d’água que pretendíamos encontrá-la, em um paredão gigante. Quando o terreno aplainou de vez, intuitivamente já sabíamos que ela estava perto e não demorou muito para alguém do grupo gritar eufórico que havia visto ela despencando ao longe.

          Era mais um gigante a nos surpreender, a gente de queixo caído, ficamos ali, hipnotizados diante daquela parede que ao longe ainda, nos fazia querer largar a mochila e correr ao seu encontro já que ainda seria necessário tentar escalar seu afluente, com outras quedas d’água com transposição difícil. A chuva não parava de cair e diante das dificuldades que enfrentaríamos para chegar até a base da cachoeira, decidimos deixar nossas mochilas e subir apenas com as câmeras ou celulares para tentar um registro e como eu não queria ariscar em perder meu telefone, como acontecer com minha câmera, decidi subir com a mochila estanque apenas me livrando temporariamente de alguns pesos desnecessários. Ainda era cedo, mal havíamos passado da metade do dia, mas o Anderson Rosa não estava se sentindo muito bem e decidiu não ir até a queda d’água. O Daniel Trovo tomou a frente e seguindo seu instinto, descobriu uma rampa inclinada que cortava as duas vertentes de água, dois rios que se formavam e se dividiam vindo da cachoeira. A rampa apontava para o céu e foi sendo vencida palmo a palmo até que fomos obrigados a subir o riacho da esquerda, escalando por dentro da água com o turbilhão aquático querendo jogar a gente abismo abaixo. A massa de água sobre nossas cabeças era assombrosa, um turbilhão que mal deixava a gente progredir, um espetáculo impressionante, 40 ou 50 metros de altura de cachoeira reinando soberana no coração daquele vale selvagem sem vestígio de passagem humana e para marcar esse ponto no mapa, vou dar o nome de CACHOEIRA DO ITAGUARÉ, para homenagear o rio que domina essas paragens.

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          Essa cachoeira estava assentada sobre um degrau numa parede lateral e dela era possível avistar o mar e toda a área alagada da Restinga de Bertioga, infelizmente não conseguimos uma boa foto dela por causa da chuva intensa e de volume avassalador, mas vamos deixar gravado na memória esse dia incrível, de descobertas e explorações, o dia em que acrescentamos mais uma joia nos mapas da Serra do Mar. Não nos demoramos muito, estávamos com frio por causa da água e do deslocamento de ar provado pela queda e se já foi complicado subir, descer então foi muito pior, tanto que tivemos que contar um com a ajuda um do outro para passar pela beira da garganta, até ganharmos a descida da rampa e voltarmos ao rio principal, onde o Anderson nos esperava, dormindo sobre uma rocha.

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          Retomamos a caminhada pelo rio, sempre espertos com o volume intenso e com alguma possível cabeça d’água, já que o rio havia se tornado totalmente escuro. O ritmo, agora mais lento tanto por causa de alguns já cansados pelo desgaste, tanto pelo terreno extremamente acidentado, com pequenas quedas e rios correndo por baixo de grandes rochas, nos causando um esforço físico para serem transpostas. As vezes era preciso correr para o mato e desescalar barrancos para tentar fugir das rampas mais íngremes que não nos oferecia uma segurança razoável para descermos. Nossa meta estabelecida eram dois grandes poços que havíamos identificados no mapa, mas que pareciam cada vez mais longe com as chuvas a nos castigar o lombo, mesmo em se tratando de chuvas com temperaturas altas, e quando esses dois poços foram encontrados, nos decepcionamos um pouco porque esperávamos e pretendíamos nadar neles, mas estavam com a água muito turva e só fizemos olha-los e partir imediatamente já que havíamos decidido começar a procurar um lugar para acampar.

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          Abaixo desses dois grandes poços tivemos que cruzar o rio para sua margem direita e para isso tivemos que saltar de uma pedra não muito alta e tomar impulso para não sermos arrastado pela corredeira e foi nesse momento que o Vagner se lascou todo ao explodir com o joelho numa pedra rasa do qual não nos demos conta. Na hora já paramos para tentar prestar os primeiros socorros e ver se ele teria condições de progredir ou se seria preciso parar imediatamente e tentar acampar. Passada a dor inicial, o Vagner deu sinal positivo para que continuássemos até localizarmos um lugar mais descente para montarmos nossas redes. O Trovo se adiantou, mas a ilha a nossa frente não nos convenceu a ficar, então resolvemos empreender uma vara-mato pela esquerda porque era quase impossível passar diante de um abismo do qual o rio se jogava numa laje perigosa. Retornamos ao rio quando foi possível, bem aos pés de uma CACHOEIRA INCLINADA que havíamos sinalizado no mapa, uma bonita QUEDA de uns 50 metros, que nos fez parar para  respirar um pouco e nos alimentarmos.

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          A situação ia ficando angustiante porque a noite se avizinhava e nada de encontrarmos um lugar descente para acampar e cada vez que o terreno dentro do rio piorava e tínhamos que cair no mato, pior ficava, porque era uma floresta com transposição difícil, muitas árvores caídas e quando uma grande parede nos barrou do lado esquerdo, fomos obrigados a escorregar de cima do barraco nos valendo de grandes árvores, como se fôssemos bombeiros escorregando pelos troncos. Estando de volta ao rio, o Anderson e o Trovo se recusaram a fazer um pequeno desvio para conhecer uma outra cachoeira deslumbrante, alegando que estavam preocupados com o Vagner e seu joelho estourado, mas o próprio moribundo do Vagner já tratou de arrastar o Potenza varando mato até a cachoeira e logo me cheguei a eles e ficamos nós três a nos maravilharmos  com mais um espetáculo em forma de massa aquática , batendo continência para uma CACHOEIRA de uns 20 metros , muito parecida com a própria cachoeira do Diabo, no Rio Guacá.

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           Retrocedemos até onde o Trovo e o Rosa nos esperavam e descemos por mais uns 100 metros até que finalmente resolvemos acampar. E foi realmente um lugar incrível que a primeira vista não parecia lá grande coisa, mas depois de um estudo mais profundo da área, conseguimos alocar todas as redes e toldos de uma forma excelente, com conforto e espaço e assim que as redes se esticaram, fomos cuidar do jantar, já que o dia havia sido de andanças intensas.

          As atividades no acampamento são sempre intensas porque é preciso deixar as redes e os toldos impecáveis ou corre-se o risco de acordar durante a noite, molhado, e isso é uma coisa que ninguém quer, além do mais, fazer tudo direitinho é a certeza de dormir muito confortável. Uma vez deitado na rede, o corpo relaxa e o "marulhar" do rio embala aquele sono que é impossível ter nas grandes cidades, ainda mais se estivermos protegidos com um bom mosquiteiro, um conforto essencial contra os inúmeros insetos da floresta.

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          Mais uma vez tivemos sorte, não caiu uma gota durante a noite e com a trégua das chuvas, o rio amanheceu novamente cristalino, uma água bonita e encantadora. Dormimos não muito acima dos 100 metros de altitude e sabíamos que logo estaríamos na planície litorânea, mas  no início da caminhada daquele terceiro dia já fomos obrigados a descer umas cachoeiras e cruzar rio o rio várias vezes, o que não é muito agradável pela manhã, mas como já saímos do acampamento com as roupas molhadas, não há nem o que pensar muito, é se jogar na água e esperar o corpo se adaptar com a temperatura. Por sorte o sol apareceu logo pela manhã, ainda tímido, mas já era um grande começo.  Pouco mais de uma hora de caminhada e nos deparamos com um GRANDE LAJEDO, uma formação rochosa diferente das que estávamos acostumados na Serra do Mar, uma pedra mais lixada, mais nem por isso mais escorregadia.

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          O rio foi ficando cada vez mais plano, algumas ilhas vão surgindo, a gente já caminha com uma certa facilidade, já relaxados porque nossa carta topográfica  já nos diz que  o final do rio ou a parte mais complicada, a parte escarpada, já havia terminado e ao nos posicionarmos em um afluente para um gole d’água, encontramos um vestígio de trilha, que infelizmente mais à frente terminou no nada, mas nos deu a certeza que o rio finalmente havia chegado na planície litorânea, estávamos na chamada Restinga de Bertioga , mas ainda muito, mas muito longe de algum lugar habitado e civilizado , mesmo assim comemoramos muito essa conquista. Uma comemoração inútil porque era na próxima curva que o diabo nos espreitava, ia começar uma das maiores sagas desde que começamos com essas travessias selvagens na Serra do Mar Paulista.

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(Final dos cânyons, inicio da Restinga de Bertioga)

          A descida pelo rio plano era um passeio, se comparado com a descida dos cânions, íamos de um lado ao outro, batendo papo e acompanhando o nosso deslocamento no mapa, onde pretendíamos abandoná-lo de vez e tentar um vara mato de uns 3 ou 4 km até uma possível estrada, mas foi aí que uma nova trilha surgiu de repente e mudou o nosso destino completamente, mudou os rumo daquela expedição e nos jogou em uma das maiores furadas das nossas vidas. A trilha que encontramos era aberta e logo pensamos que ela poderia nos conduzir diretamente para a civilização no litoral. Rio se dividiu em dois e nem percebemos, então quando chegamos em um lugar onde a trilha se perdeu, resolvemos atravessar para direita até que tropeçamos em um rancho de caçadores que parecia estar abandonado há muito tempo.

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(RIO GUAÇU)

          Surpreendentemente,  não vimos palmitos cortados naquela região, demoramos muito tempo para fazer a leitura do lugar, estava na cara que aquele lugar era totalmente inóspito e quem por lá andava, só o fazia porque chegava de canoa devido a dificuldade de acesso, mas como perto desse barraco de caça abandonado havia uma trilha, imaginamos que ela poderia nos tirar daquele fim de mundo, e ela realmente foi enveredando para a direção que nos favorecia, mas do nada acabou bem no RIO ITAGUARÉ , um rio bonito ,mas sinistro, cheio de algas e de cor avermelhada , onde a qualquer momento parecia que um jacaré do papo amarelo saltaria para fora e arrastaria um de nos .

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(Rio ITAGUARÉ)

          Fizemos uma pausa para mastigar alguma coisa e para pensar qual o rumo que tomaria aquela expedição e então enquanto as coisas não se resolviam, decidi tomar um banho naquele rio sinistro e a galera vendo que o caminho realmente havia se fechado, resolveram tentar seguir subindo o Rio Itaguaré até uma ponte que aparecia no mapa, uns 2 ou 3 km acima e realmente ao atravessar o rio para o lado esquerdo de quem sobe, encontramos algo parecido com uma trilha e decidimos seguir por ela.

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          No início parecia mesmo ser uma trilha, mesmo que a gente tivesse que atravessar áreas alagadas até a cintura, mas o caminhar não progredia, não avançávamos e 15 minutos depois um pântano nos barrou de vez, fim da linha para a gente. Metade do dia já se fora e era preciso achar uma solução, alguns queriam abrir caminho rio acima por uns 2 km, mas outros insistiam que deveríamos voltar até a curva do rio e tomar um destino que pudesse nos deixar longe dele, tentando evitar a área pantanosa. Nesse momento era o Anderson que comandava o GPS, então como foi ele quem gritou mais alto, saiu como vencedor na contenda e puxou a fila de volta para o local onde havíamos atravessado o Itaguaré.

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          O plano era descer um pouco o rio e para depois varar mato numa direção paralela a subida, porque isso nos deixaria longe dele e consequentemente longe também da sua área alagada, pelo menos foi o que pensávamos. Mas antes disso acontecer uma ideia estúpida quase acabou sendo posta em pratica: Parte do grupo vislumbrou descer boiando pelo rio e se isso tivesse acontecido, estaríamos lá até hoje, perdido naqueles pântanos dos infernos, já que o rio faz curva atrás de curva e se perda num mar de florestas antes de se jogar no mar. E foi realmente por pouco que a gente não tomou essa decisão, parte do grupo já estava boiando na correnteza, inclusive eu, quando alguém sensato foi obrigado a intervir e a colocar aquela expedição de volta aos seu rumo natural. (Mas pensando bem, o cara que convenceu a gente a não ir boiando é mesmo um filho da puta dos infernos, porque o que estava por vir não seria bonito de ser ver, rsrsrsrsrsrsrr)

          Descemos o rio por uns 100 metros e miramos uma diagonal para a possível estrada e então começamos a vara mato. No início, um brejo dos infernos, mas logo o brejo deu lugar para um PÂNTANO, área alagada em meio a uma floresta baixa e com algumas raras árvores espaçadas. O Trovo ia à frente e eu logo no seu encalço, mas a progressão era lenta, morosa e modorrenta, não avançávamos 200 metros por hora e quando pensávamos que o terreno poderia melhorar, a água subia na altura do peito, em meio a uma selva de bromélias, onde possivelmente jararacas lambiam os beiços com a nossa passagem, já que costumam fazer dessas plantas suas camas.

          Para nossa sorte a chuva prevista para depois do almoço não veio e na minha cabeça um pensamento macabro de não conseguirmos sair daquele lugar e termos que dormir dentro d’água, já que em certos lugares não existiam nem árvores descentes para montar uma rede. A gente andou, andou, andou e quando vimos, estávamos no mesmo lugar. Havíamos rodado em círculos, mesmo com o GPS do celular. Ninguém disse coisa alguma, mas estava estampado em cada rosto o sofrimento passado ali naquela área alagada e eu mesmo cheguei a me perguntar se já não estaria passando da idade para me meter em tamanha encrenca, mas quando vejo alguns com a metade da minha idade, compartilhando do mesmo sofrimento, me conformo e continuo abrindo caminho metro a metro, tentando afastar da minha mente qualquer preocupação com possíveis cobras gigante e jacarés alados que possam cruzar o nosso caminho.

 

          Não há felicidade no sofrimento, mas a todo momento eu tentava transformar aquela jornada ao inferno pelo menos em algo mais divertido, fazendo troça da desgraça, pelo menos não havia ninguém machucado e era um grupo extremamente forte e se fosse preciso resistir, resistiríamos o tempo que precisasse. Acabaram-se as camas de jararacas e apareceram os capins navalha que iam cortando a pele de quem se atreveu a entrar ali de mangas curtas, os cipós espinhudos mancomunados com as palmeiras de espinhos, se encarregavam de fazer os estragos que faltavam. Muitos ali gritariam por suas mães se pudesses, mas sabedores que elas não os ouviriam naquele fim de mundo alagado, apenas se mantinham de cabeça baixa, fazendo suas orações ou praguejando em voz baixa. Mas navegar é preciso e sair vivo também e como o GPS do Rosa começou a brincar de delay por causa da bateria já combalida, coube ao Potenza assumir os trabalhos de navegação. Mais para esquerda, mais para a direita, volta, segue, diagonal reta. Eram muitos os comando, mas o terreno não nos deixava ir para onde deveríamos e isso só fazia com que ficássemos mais angustiados.

          Estar ali , presos sem poder avançar nos causa um sofrimento indescritível, é uma sensação de impotência diante de uma natureza bruta e selvagem e se alguém fosse picado por um cobra naquele alagado, morreria sem socorro, porque mesmo os que poderiam se adiantar para buscar um resgate, estavam presos e isolados também . Éramos cinco criaturas perdidas num mundo alagado, cinco seres que sobreviviam como monstros do pântano, incorporados a paisagem hostil em meio a algas e plantas aquáticas, passageiros de uma agonia em comum que parecia não ter fim.

          Uma decisão foi tomada a fim de tentar salvar pelo menos o moral do grupo que já se encontrava em frangalhos. Resolvemos mirar nossos narizes de volta para o rio Itaguaré, talvez não resolvesse coisa alguma, mas era um plano, porque até então, nada que tentamos resolveu. A labuta de abrir caminho numa vegetação quase que intransponível se estendeu por muito mais tempo, atravessar aquele mundo alagado com uma infinidade de árvores caídas, onde era preciso pular por cima, foi minando as energias e a nossa paciência. O traçado no GPS parecia não sair do lugar e a cada passo dado parecia nos enfiarmos ainda mais num caminho sem volta até que conseguimos encontrar meio metro de terreno mais alto e ali demos uma parada. Engraçado é que cercado de água pôr todos os lados e a maioria com a garganta seca, sem coragem e nem forças para captar água das bromélias, já que ainda não achávamos que era hora de partir para o desespero e bebermos água do pântano. Mas chegou uma hora que era preciso parar de sofrer, pelo menos de cede e já que havíamos parado  mesmo, enchi meu cantil de um litro com a água pantanosa e nele acrescentei um suco de jabuticaba para disfarçar o gosto, tomei uns dois goles e passei para o Anderson que já estava em estado lastimável, não muito pior que o resto do grupo e quando ele me retornou a garrafa, não continha mais nada além de baba ( rsrsrsrsr) , se água do pântano matasse, esse aí não tinha voltado vivo para contar história.

          Hidratados e procurando colocar os pensamentos em ordem, assumi a liderança momentaneamente, tentando chegar até as barrancas do Rio Itaguaré, mas me arrependi amargamente porque ali onde estávamos já era a própria vasão do rio e em certos momentos a água quase que alcançava o pescoço. Aquilo era algo totalmente insano, onde estávamos com a cabeça quando deixamos que a situação chegasse àquele ponto e o pior era não haver nenhuma perspectiva de sairmos daquela enrascada tão cedo. Puxei capim, abri floresta de espinhos, abri caminho em meio às algas gosmentas. Meu olhar se perdia no vazio procurando uma referência em que eu pudesse me apoiar, nem que fosse psicologicamente, mas nada nos era favorável, nem mesmo a tal margem do rio conseguíamos avistar, muito porque, ela nem existia e só descobrimos isso quando já estávamos no meio do leito do rio Itaguaré, cercados de vegetação aquática por todos os lados.

          Por sorte o Itaguaré ali era um rio raso e com correnteza pouca, que nos possibilitou subir por dentro dele caminhando e quando não dava mais pé, nadávamos correnteza acima ou nos puxando pelas algas aquáticas. Aquela era uma cena sul-real, cinco pontinhos humanos subindo um rio obscuro no meio de uma floresta perdida num pântano a meio caminho de lugar nenhum. Trovo vai à frente abrindo caminho dentro do rio, enquanto o resto do grupo ainda sem acreditar na situação em que havia se metido, segue atrás, com o Paulo Potenza ganhando uma certa vantagem até que o próprio Potenza da meia volta e desce o rio desembestado correndo de um jacaré do papo amarelo que emergiu das profundezas do rio e veio em nossa direção. Por sorte o tal jacaré que o Paulo havia visto, não passava da perneira do Trovo que havia se soltado e ficado boiando no rio em meio às algas.

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          A situação não melhorou nada ao interceptarmos o rio porque vimos no mapa que ele se perderia em curvas, indo para uma direção totalmente oposta às nossas necessidades, que era a de encontrar uma possível estrada que poderia nos devolver as civilizações no litoral. A gente sabia que nossa situação não era nada confortável e tentávamos criar uma reserva psicológica para aguentar o que viria pela frente, mas foi literalmente numa curva do rio que o nosso destino mudaria. Numa entradinha despretensiosa, eu e o Trovo localizamos um barquinho de fibra afundado em meio as algas, tão pequeno que mais parecia uma caixa d’água com um bico e inventamos de tirá-lo do fundo e surpreendentemente ele boiou. Enquanto nos entretínhamos com a rustica embarcação, o Trovo adentrou no pequeno canal em direção a um terreno mais alto e bingo, achou uma canoa antiga no meio do mato, ainda com seu remo e a puxou para dentro do rio. Imediatamente um pensamento macabro tomou conta da minha mente: “ Vamos roubar essa porra. ” Sei que não era nada bonito de se fazer, mas são pensamentos que permeiam nossas mentes quando o desespero já tomou conta da gente. Achei que o único jeito de saímos daquele inferno alagado era nos apossarmos daquela canoa velha e remarmos rio acima até a tal ponte e desembarcarmos nela, ganhando assim essa possível estrada que nos tiraria dali.

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          Subimos na canoa para fazer um teste e ver se aguentaria todo mundo e se iríamos nos adaptar com o remo. Subimos remando por um tempinho, mas eu me mantive no barco reserva, sendo puxado pela embarcação, mas logo retornamos ao local de onde partimos e ao investigarmos mais a fundo, descobrimos uma trilha que vinha de algum lugar até ali, talvez da própria estrada que buscávamos, e desembocava ali na beira do rio. O plano de roubar a canoa foi deixado de lado e o trocamos por essa trilha suspeita, mas que foi se abrindo e nos apontando uma saída e surpreendentemente, nos desovou bem na estrada, estávamos salvos, a civilização estava a não mais de uns míseros 2 ou 3 km e não levamos mais que uns 40 minutos para desembocarmos na Rio Santos, bem ao lado de uma subestação de energia, 300 metros de um posto de gasolina e a menos de 2 km do litoral. Abraços e comemorações marcaram o final daquela expedição e nos sentimos orgulhos de mais uma vez escaparmos inteiros de mais uma Travessia Selvagem e até então inédita. Conseguimos pegar um ônibus coletivo que nos levou de volta à Bertioga e de lá embarcamos imediatamente para Mogi das Cruzes e cada um foi se perder para um rumo, naquela selva de pedra, chamada São Paulo.

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          E essa aventura pela Serra do Mar Paulista teve o poder de nos surpreender positivamente, porque até então desconfiávamos desse novo caminho proposto, mas nunca, nunca mesmo, podemos subestimar a grandiosidade dessas florestas e dessas montanhas , que despencam do Planalto Paulista para a Planície litorânea e conseguem desafiar o homem a ponto de quase poder vencê-lo, mesmo em tempos modernos onde ainda temos as tecnologias a nosso favor. Tomamos uma surra, por certo quase fomos humilhados, mas sobrevivemos com as reservas e a experiência adquirida em Expedições passadas, travamos uma luta ferrenha entre homem e natureza, resistimos até sermos cuspidos para fora e ao invés de prometermos nunca mais nos metermos em um terreno tão hostil como aquele, saímos do outro lado desse vale mais fortes do que nunca, prontos para enfrentar qualquer adversidade, seja em outras travessias como essa ou na busca por novas descobertas, porque em se tratando de AVENTURAS,essa serra Paulista é insuperável.

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                                                      Divanei Goes de Paula – março/2019

           

 

 

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Em 26/05/2019 em 16:38, casal100 disse:

@divanei Essa sim é uma aventura de respeito!  Parabéns pela façanha. 

Como eu sempre disse , já cruzei quase todo o Brasil e mais 06 países da América do Sul , mas aventura autêntica só encontrei na Serra do Mar Paulista. Abraços!

 

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Em 05/06/2019 em 03:14, Leandro Renan disse:

top Divanei lança um livro ou um filme logo kkk

kkkkkkkk, livro é coisa para letrados, eu sou apenas uns aventureiro tupiniquim que gosta de explorar caminhos selvagens, abraços meu amigo .

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    • Por Renato37
      Travessia realizada em 17/08/2019.
      Todas as fotos da travessia estão em: https://photos.app.goo.gl/iALbK8QSahnj7Lku6

      - Introdução -
       
      Fazia algum tempo que não batia perna na região de Paranapiacaba, ainda mais por conta da proibição e o aperto da fiscalização nas tradicionais trilhas do entorno da vila, como a da Fumaça e Cristal. Então, para evitar problemas, tenho optado por ir para outros lugares, como na Serra do Mursa, Itapety e Mogi, entre outros.

      Já tendo feito um batevolta na pouco conhecida Pedra Grande do Quatinga em 2013, es que me surge a ideia de retornar a mesma, mas não mais como um simples batevolta, mas sim, como travessia com 1 pernoite. Chamei várias pessoas, mas dado a logística e ter que acampar, apenas 5 toparam ir comigo na empreitada.

      Passava das 9:00 da manhã qdo saltei do metrô da linha 2 (verde) na estação de Tamanduateí, local previamente marcado com parte da turma. Lá encontrei o Marcio, Janaína e a Suzana que já me aguardavam no local. Sem perder tempo, logo embarcamos no trem da linha 10 da CPTM sentido Rio Grande da Serra, onde encontraríamos a 5º integrante da trupe, a Monike que é do ABC e que iria nos encontrar diretamente lá.

      Na Estação de Rio Grande da Serra esperando a ultima integrante da trupe, a Monike.

      Com toda a trupe reunida e após um breve café da manhã reforçado, embarcamos no latão rumo a Paranapiacaba que por sorte, estava com problemas na catraca e por isso, não houve cobrança da passagem, para a alegria de todos.


      1º Dia - Da Vila de Paranapiacaba ao Topo da Pedra Grande do Quatinga.
      Desembarcamos do ônibus em uma Paranapiacaba incrivelmente ensolarada e de céu estupidamente azul, coisa rara e que poucas vezes se vê por lá, com a ausência total do famoso "Fog" tradicional da vila inglesa. Para quem não sabe, o tradicional nevoeiro e os dias sem visual algum faz parte da vila inglesa, construída no Século XIX.


      O Relógio marcava pouco depois das 11:30 e precisaríamos apertar o passo afim de chegarmos até o topo da Pedra Grande a tempo de ver o por-do-sol. Após alguns clicks de praxe da vila inglesa e a tradicional foto clássica da trupe em frente a igreja, iniciamos a caminhada descendo a ladeira que liga a parte alta a baixa da vila.


      A turma na tradicional foto antes de começar a caminhada.
      Durante a caminhada na vila de Paranapiacaba, notei que muita coisa mudou desde a ultima vez que lá estive, anos atrás: O Bar da Zilda parecia um bar de balada, os quiosques do lado da passarela já não existiam mais e por fim o baixo movimento da vila para um Sábado ensolarado, reflexo da decadência que se tornou o local, que teve inicio após a proibição abusiva de acesso ao que foi um dos principais atrativos da vila: As trilhas que levam a várias cachoeiras da região.

      Pelo menos restauraram o velha replica do big ben de Londres da vila. Percebi tb que os moradores tiveram que ser criativos para atrair novos turistas para a região, que estavam espalhados pela vila, mas de nada lembrava a epoca boa de quando aquilo lá bombava.
      Acredito que, o que deve estar mantendo a vila de Paranapicaba em pé são os artesanatos, os vários festivais que são realizados ao longo do ano e que atraem centenas de milhares de turistas, como o tradicional festival de inverno.


      O novo "Big Ben" restaurado
      Com pouco tempo disponível, nem tiramos muitas fotos, pois tinhamos pela frente, vários quilômetros de caminhada até a Pedra Grande.
      As 12:15, deixamos Paranapiacaba e adentramos a pacata e tranquila estrada de terra do Taquarussu, palco inicial de várias outras trilhas feitas anteriormente. Essa estrada também liga o Bairro de Mogi a vila de Paranapiacaba.
      O trajeto começa logo de cara com uma subida que parecia assustar, mas como estavamos em um pequeno vale, esse trecho inicial de subida não foi um problema, pois aqui há enormes árvores que nos brindaram com uma refrescante sombra, o que foi um alívio para todos.

      Passamos por uma portaria e uma placa indicando que ali pertence ao parque natural nascentes de Paranapiacaba e que o acesso as trilhas requer a contratação de um guia, o que ignoramos é claro. Afinal, nosso destino estava bem distante dali, numa trilha em outro municipio. Algumas placas pelo caminho sugerem que essa mesma estradinha também faz parte do conhecido "caminho do sal".
      30 minutos de caminhada desde a vila de Paranapiacaba, passamos pela conhecida entrada da trilha que leva a cachoeira da Agua fria, onde havia um pessoal parado na beira da estrada e que  parece ter ido a cachoeira.
       Minha vontade de adentrar na trilha para rever a cachoeira foi reprimida pela obrigatoriedade de acompanhamento de um monitor, já que a trilha faz parte do pseudo parque natural de Paranapiacaba. Então, passamos batido por ela.
      Mais 15 minutos e passamos pelo marco divisor que divide os municipios de Sto André e Mogi das Cruzes, localizado no ponto mais alto da estradinha. A partir dai, inicia-se uma grande descida até o pitoresco vale do Taquarussu, pequeno vilarejo com meia duzia de casinhas simples.


      O Marco divisor fica do lado dessa placa, fincado da terra.
       
      Durante a descida, cruzamos com vários bikers e chegamos na pitoresca vila de Taquarussu as 13:20hs, mas nos limitamos a apenas algumas fotos, já que ainda tinhamos muito chão pela frente.
      Deixamos Taquarussu por volta das 13:30h e a partir dai, iniciamos um trecho pela mesma estrada de terra ainda mais deserta e em meio a um enorme vale. Aqui, as árvores são mais espaçadas e o sol passou a nos cozinhar, literalmente.
      2 horas de caminhada desde a vila de Paranapiacaba, resolvemos fazer um pit-stop para forrar o estomago e molhar a goela seca em um pequeno descampado ao lado da estrada.


      A Pitoresca Vila do Taquarussu, por ser uma propriedade particular, agora é toda cercada e fechada

      Descansados e saciados, voltamos a caminhada e as 14:20hs, chegamos a uma bifurcação, com uma placa indicando o camping simplão de tudo a direita, mas o caminho correto a seguir é a esquerda, em linha reta em direção ao pesqueiro trutas pedrinhas.
      Mais 10 minutos e chegamos em uma trifurcação, sendo que a esquerda vai para o Bairro de Quatinga sem passar pela Pedra Grande e a direita segue para o camping simplão de tudo. Mas o caminho correto é seguir em frente, em linha reta.


      Chegando nesse ponto, siga em frente ignorando os caminhos a esquerda e a direita

      Depois da trifurcação, passamos pelo 2º ponto de água, um enorme poção de água potavel que em um dia de calor de verão poderia ser a deixa para um convidativo tchibum. Aproveitamos para pegar água para o restante do dia e o seguinte. Como não lembrava de mais nenhum novo ponto confiável de agua a frente, sugeri a turma que coletasse toda a agua que fosse precisar a partir dali.


      O Poção e 2ºponto de água. O primeiro ponto é no acesso a cachoeira da Agua Fria, antes da vila de Taquarussu
      Recarregados com o precioso líquido, continuamos a caminhada e as 15:00hs, finalmente alcançamos o tal pesqueiro trutas pedrinhas. Mais uns 100 metros após o pesqueiro, chegamos a uma bifurcação, onde o caminho a seguir é para a direita. A partir desse ponto, passamos a caminhar por uma estrada mais estreita e precária, com a visão da face oeste da Pedra Grande agora visivel a maior parte do tempo. Passamos por alguns sitios e um lago a direita, enquanto a estradinha vai dando voltas pelo vale em direção a base da Pedra Grande e após passarmos por um grande vale, inicia-se uma sequencia de pequenas subidas.


      Pouco depois do pesqueiro, vire a direita.


      A Estrada correta vai levar diretamente a base da Pedra Grande, esse pico com a face careca logo acima na foto

      Face oeste da Pedra Grande visivel a maior parte do tempo
      Em uma curva a esquerda, já quase na base da Pedra Grande, uma trilha a direita serve de atalho e nela, havia uma placa indicando que ali é a continuação do conhecido "caminhos do sal." Adentramos a trilha e começamos uma das primeiras subidas em direção ao topo em uma trilha cheio de erosões e bem escorregadia, devido a constante passagem de motos. Muito cuidado nesse trecho.
      Durante a subida, passamos por mais um ponto de água, o último antes de chegar a base. Pegue toda a agua que for precisar desse ponto, que é o último. No topo e durante o restante da subida, não encontramos mais nenhum outro ponto de água.


      O acesso da trilha atalho: notem a placa no tronco indicando que ali é o caminhos do sal


      Trilha enlamenada, erodita e escorregadia por conta da passagem constante de motos
      Enfim, finalmente chegamos a entrada da trilha as 15:50hs. No meio das arvores ao lado da trilha, era possível ver o topo da Pedra Grande com seu topo bem visível dali. Agora iria começar a parte mais puxada desse primeiro dia, depois de quase 4 horas e 14 km de caminhada, que é subir até o topo, ainda mais com cargueira nas costas.
      A trilha é bem aberta e seu trecho inicial é composto por uma leve subida, sem grandes dificuldades. Caminhamos por cerca de 350 metros e chegamos a uma bifurcação, onde o caminho correto a seguir é para a esquerda, marcada por uma fita vermelha presa no tronco de uma árvore.


      Trecho inicial da trilha
      A partir desse ponto, a moleza acaba e a trilha inicia uma das várias subidas fortes em direção ao topo. Como acontece nos picos em geral, a medida que avançavamos, a subida ia ficando mais ingreme e o auxílio das mãos passou a ser constantemente necessários para impulso nos troncos, rochas e pedras.
      A subida é ardua, e com o peso da cargueira e o cansaço da longa caminhada até aqui, vou parando algumas vezes para retomar o fôlego.
      A Janaína e a Monike esboçavam sinais de estarem nas últimas e foram subindo em ritmo de tartaruga manca com muletas, mas não tinham escolha, pois subir era preciso!
      Felizmente, os trechos mais íngremes não duram muito tempo e logo adentramos a um trecho de ombro, com a subida mais forte dando uma trégua. 20 minutos desde a estradinha lá embaixo, eu e a Suzana emergimos da mata fechada e passamos a subir na parte descampada do topo, que era o trecho final da subida, mas que voltou a ficar bem íngreme e dessa vez com o sol forte na cachola.
      Finalmente, com pouco mais de 30 minutos de subida desde o inicio da trilha lá embaixo, chegamos ao topo dos 1.155 metros de altitude da Pedra Granda do Quatinga as 16:32hs, encerrando a caminhada desse 1ºdia de travessia. Não havia ninguém no topo e é claro que fomos donos absolutos do lugar, para a alegria da Suzana que passou a se fartar de fotos do topo.
      O cume tem um visual de 360 graus e lá do topo, consegue-se visualizar todas as cidades do entorno, como Mogi das Cruzes, Suzano e até Mauá bem distante.
      Sem perder tempo, fui logo procurando um lugar plano e protegido para montar a barraca. Qdo estava montando a barraca, Marcio, Janaina e a Monike chegaram ao topo, uns 15 minutos depois.







      Com a trupe reunida novamente, montamos rapidamente as barracas e ficamos só de boa só aguardando o Astro-rei repousar no horizonte que mais uma vez, foi um espetáculo a parte. A noite, a bola da vez foi as luzes das cidades do entorno todas iluminadas.
      Depois cada um foi preparar a sua janta e ficamos só jogando conversa fora e  vendo as estrelas com um plus a mais: O nascer da lua as 19:20hs toda avermelhada que foi um espetáculo único a parte.
      Mas com o vento frio e o sono vindo, nem fiquei muito tempo fora da barraca e fui dormir por volta das 21:30hs.

      2º Dia - Do Topo da Pedra Grande ao Bairro do Quatinga em Mogi

      Nascer do Sol
      O domingo amanheceu sem vestígio de nuvem alguma e apenas uma leve nevoa nos vales. Como de praxe, todos ficamos aguardando o surgimento do Astro-rei e após os clicks, fomos preparar o café da manhã. O meu foi com pão e um café bem quentinho para espantar o frio da manhã.
      Barraca desmontada e mochila nas costas, iniciamos a descida por volta das 8:30 com o belo visual da cadeia de morros e vales do alto da Serra do mar bem a nossa frente ainda encoberto por uma fina camada de névoa, o que foi mais um atrativo a parte.
      Descemos por uma trilha alternativa que faz algumas curvas para diminuir o desnível de quem sobe, evitando a pirambeira que sobe direto. Mas no restante da trilha, e as meninas sofreram um pouco, principalmente a Janaina que estava só com uma mochila comum carregando a barraca e isolante térmico nas mãos (que coragem).


      Vales tomados pela nevoa


      Com a descida muito íngreme, os escorregões dela foram inevitáveis, o que me deixou um pouco preocupado, dado o fato que poderia se machucar gravemente e ter que chamar o resgate. Mas felizmente o Marcio deu um auxilio nos trechos mais pirambeiros e a descida foi tranquila.
      Pouco depois das 9:00hs já estavamos todos de volta ao inicio da trilha e a partir dai, passamos a seguir pela continuação da estrada de terra da trilha atalho em que viemos no primeiro dia. 20 minutos após sair da trilha da Pedra Grande, a estrada começa uma longa, mas sinuosa descida até um grande vale, para depois virar a direira, subir um pouco e novamente descer.
      As 9:32, chegamos ao primeiro ponto de água desse trecho, que é um riozinho que corre paralelo a estrada e depois cruza ela um pouco a frente. A turma aproveitou para recarregar seus cantis pq segundo infos, seria o unico ponto de agua limpa e confiavel de todo o trecho. Como eu tinha 1 litro de suco e 500ml de agua de coco que eram mais que suficientes para mim para o trecho final, nem me preocupei.
      Após o trecho do rio, a estrada de terra passa a ficar mais movimentada, aparecem os primeiros sitios e casas e junto com eles, os carros, que nos fazem comer poeira.
      Mais 1 hora de caminhada tediosa pela estradinha, passamos por uma bifurcação com uma placa indicando que a esquerda, segue para o sítio Itaguassu e aproveitamos para fazer um rapido pit-stop nesse ponto para um lanche e molhar a goela seca.
      E enfim, após 2 horas desde o topo da Pedra Grande, alcançamos o bairro de Quatinga bem a tempo do próximo ônibus para Mogi .
      Após uma viagem de quase 1 hora, saltamos na estação central de Mogi das cruzes, onde pegamos o trem de volta para SP, chegando em casa por volta das 14:30h, cansado, mas feliz.

      Dicas:

      --> Durante toda a travessia, existem poucos pontos de água, mas bem distribuidos, não sendo necessário sair carregado de agua da vila ou de casa. O 1º ponto está na base da cachoeira da agua fria, após a trifurcação no poção e no inicio da trilha atalho.
      No segundo dia, o unico ponto de agua está bem na metade do caminho.

      --> Se for acampar, pegue toda a agua que precisar no ultimo ponto, pois na trilha e no topo não há água. Eu carreguei comigo 1 litro de agua e outro de suco que foram mais do que suficientes pra mim.

      --> No topo não há areas protegidas dos ventos, somente adentrando na trilha a esquerda que parte na direção sul. Lá há uns pequenos descampados para 1 ou 2 barracas em cada trecho e que são uma boa opção de area protegida. É só descer uns minutos pela trilha para achar os pequenos descampados planos e protegidos no meio da mata.

      --> As linhas de ônibus para o terminal Central de Mogi são:
      C192 Quatinga via Tomoki hiramoto e C193 Quatinga via Barroso.
      A Linha C192 tem poucos horários, mas a C193 tem vários horários, mesmo aos domingos.
      Ambos as linhas são municipais e a tarifa é de R$ 4,50 (Ref.Agosto/19)

      Maiores informações podem ser obtidas no site www2.transportes.pmmc.com.br ou pelo telefone 0800-195755.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
    • Por felipenedo
      Fala Viageiros!!!!!
       
      Voltei de uma viagem sensacional para a Patagônia e vou compartilhar aqui com vocês um pouco dessa experiência!
       
      Mas antes, quem puder, segue a conta do meu blog no Instagram: @profissaoviageiro
       
      E vai lá no www.profissaoviageiro.com que tem mais detalhes e fotos desse rolê!
      Segue lá no blog que sempre tem coisa nova por lá!!!!
       
      Bom, hoje além de passar minhas impressões de Torres del Paine, vou tentar deixar algumas informações básicas para quem quer ir e ainda está cheio de dúvida, como eu estava quando ainda planejava a viagem.
       
      Tem coisa que parece óbvia quando se conta de uma viagem para as outras pessoas, mas que no fundo se você não sabe o funcionamento das coisas no lugar, fica impossível saber se seu roteiro vai dar certo ou não… E foi nisso que eu esbarrei na montagem do roteiro.
       
      Como sempre em meus roteiros, eu tenho pouquíssima margem de erro e isso me fez perder um bom tempo na pesquisa. Vou tentar deixar algumas informações aqui para quem quer visitar esse lugar maravilhoso!
       
       
      Vamos lá!
       
      O que é?
      O Parque Nacional de Torres del Paine foi criado em Maio de 1959 e está localizado na Pataônia Chilena, na região de Magallanes.
      As suas torres principais dão nome ao parque, que são imensas torres de granito modeladas pelo gelo glacial.
      Mas as belezas do parque não se resumem a suas torres. O lugar inteiro é sensacional!
       
      Como chegar?
      Existem dois aeroportos próximos de Torres del Paine:
      – Um fica em Puerto Natales, que é a cidade base para a maioria das pessoas que visitam Torres del Paine. A cidade está localizada a 80km do Parque.
      O problema é que só existem voos para Puerto Natales no verão, e mesmo assim não é todo dia.
      Isso faz com que contar com um voo para lá seja praticamente descartado logo de cara.
       
      – A melhor opção então é voar para Punta Arenas.
      Existem voos regulares de Santiago para Punta Arenas.
      Inclusive, se não me engano, lá é destino mais barato para se chegar na Patagônia (Argentina ou Chilena)
      Eu fiz isso. Saí de São Paulo em um voo com conexão em Santigo e chegada em Punta Arenas. Tudo bem tranquilo!
       
      -Para quem não for utilizar avião, tenha Puerto Natales como sua referencia de destino.
       
       
      Onde ficar?
      – Punta Arenas:
      A porta de entrada da maioria das pessoas que vão para TdP via o próprio Chile (Muitas outras pessoas vão para TdP via El Calafate, na Argentina)
      Cidade grande, com vida própria. Possui muitas atrações turísticas, shoppings, hotéis, hostels, restaurantes e tudo mais.
      Fica a 3 horas de ônibus de Puerto Natales.
       
      – Puerto Natales:
      Cidade pequena que gira em torno do turismo de TdP.
      Muitos turistas o ano inteiro por lá, consequentemente muitos restaurantes e vendinhas para as compras da galera que vai fazer os trekings.
      Como já falei é a base para a maioria das pessoas, pela sua proximidade e preços acessíveis. Comparado às hospedagens dentro ou ao lado do parque é muito mais barato ficar em Puerto Natales.
       
      – Hospedagens dentro do Parque:
      Existem muitas opções de hospedagem dentro do Parque, desde áreas de camping onde você é responsável por ter com você absolutamente tudo que vai usar e comer, até luxuosos hotéis com vistas deslumbrantes.
      Tudo dentro do parque é caro. Transporte, hospedagem, comida… Tudo!
       
      São três “empresas” que possuem hospedagens dentro do parque, e para dormir lá dentro você precisa ter reservado antes de chegar (mesmo que esteja levando todo equipamento com você e queira apenas reservar um espaço de camping), pois não se pode entrar sem reserva prévia. As empresas são:
      CONAF;
      Fantástico Sur; e
      Vertice.

       
      Quando ir?
      Torres del Paine pode ser visitado o ano inteiro, mas a alta temporada é no verão, quando as temperaturas estão mais agradáveis e as paisagens mais coloridas.
      Eu fui na primavera. Dei muita sorte com o tempo e achei que valeu muito a pena. Não estava lotado e não passei nenhum perrengue de frio ou vento a ponto de transformar algum rolê em algo penoso.
      Se tem alguma coisa que eu mudaria no meu rolê para deixar ele ainda mais perfeito, é que eu preferia ter visto o lago no Mirador Base de Torres del Paine descongelado. Quando eu fui ainda estava congelado. Não que eu ache isso um problema, mas acho que descongelado seria muito lindo também.
       
      Quanto custa?
      Caro!    
      Não é um passeio barato. Mesmo fugindo o máximo que pude das hospedagens dentro do parque, é um passeio caro. Mas não é nada que não se possa dar um jeito.
      Aqui alguns exemplos de preços aproximados:
      – Entrada no Parque, válida por 3 dias de entrada: US$ 35,00 (se já estiver dentro do parque, não tem problema, pode ficar mais que 3 dias)
      – Aluguel de barraca completa no parque: US$ 70 – para 2 pessoas, por noite
      – Catamarã para Paine Grande: US$ 35,00 por pessoa, por trecho (Comprando ida e volta junto fica um pouquinho mais barato). IMPORTANTE: Não aceita cartão! Só dinheiro.
      – Ônibus interno do Parque: US$ 10,00 ida e volta
      – Ônibus Puerto Natales – Torress del Paine: US$ 25,00 ida e volta
       
      E por aí, vai…
       
       
      O que fazer???
      Bate e volta, Circuito W, ou Circuito O?
       
      Eu escolhi o W!
       
      – No circuito W estão as principais atrações do parque na minha opinião.
      Claro que quem faz o Circuito O vê muito mais coisa, mas para isso é necessário muito mais tempo e preparo, pois as partes do parque que estão fora do W, são bem menos estruturadas, então depende muito mais de você e do equipamento e mantimento que você carrega.
      – No bate e volta de Puerto Natales, você consegue fazer o Mirador Base, que é a vista mais famosa de lá, mas depois que se faz o W, você vê que aquilo é só um pequeno pedaço das belezas daquele lugar.
      Também dá para fazer o lado do Glaciar Grey, ou até um trecho da trilha beirando o lindíssimo Lago Nordenskjold.
       
      IMPORTANTE!
      Nesses casos de bate e volta, você sempre vai ter seu tempo limitado ao horário dos transportes internos do parque, seja do ônibus ou do catamarã. Então controlar o tempo e seus objetivos no dia será algo muito importante. Os horários são fixos e limitados, não deixando margem para erros.
       
      – Uma outra opção, que eu jamais faria, é um bate e volta de El Calafate, como muitas agências de lá oferecem… Me parece um grande programa de índio.
       
      – Fazer um mix disso tudo aí também é possível! É só estudar direitinho o roteiro e partir para cima!!!!
       
       
      Bom, esse é o básico. Vou contando agora como foi o meu rolê e tentando explicar como tudo funcionou para mim!
       
      Vamos lá!!!!!!!!
       
      Dia 1:
      Bom, eu decidi fazer o W da seguinte forma… Fazer as 2 pernas externas no esquema de bate e volta, e a parte central do W dormindo uma noite no camping Francês.
      Dessa forma faria o rolê em 4 dias, que é bem puxado. A maioria das pessoas faz em 5 dias o W, que depois eu entendi o por quê!
      Como a entrada do parque vale por 3 dias, eu fiz as 2 pontas primeiro, e depois a parte interna, que daria certinho os 3 dias de entrada no parque.
      Para mim não fazia diferença por onde começar, então deixei o dia que a previsão do tempo estava melhor para fazer o Mirador Base e fui no primeiro dia, que o tempo estava pior, na perna do Glaciar Grey.
      E a parte interna eu fiz saindo de Las Torres e chegando no outro dia em Paine Grande.
      No final, deu tudo certo!!!!
      Como comentei, eu cheguei em Puerto Natales vindo de Punta Arenas. Como não sabia da estrutura da cidade, acabei fazendo compras do que iria comer no parque no dia seguinte em Punta Arenas mesmo.
      A viagem de ônibus entre Punta Arenas e Puerto Natales demora 3 horas. A passagem é bem fácil comprar. Os ônibus que fazem esse trajeto têm seus terminais no centro da cidade e todo mundo lá sabe indicar onde ficam esses terminais. Existem diversos horários de saída, então não precisa de stress quanto a reserva antecipada ou qualquer coisa.
      Em Puerto Natales as coisas são perto da rodoviária. A maioria dos lugares nem precisa de taxi… Dá para chegar andando.
      Já aproveitei que estava na rodoviária na chegada e comprei a passagem de ônibus para o dia seguinte de ida e volta para o parque.
      São algumas empresas que fazem o trajeto e todas fazem mais ou menos no mesmo horário, pois os transportes internos no parque são sincronizados com as chegadas dos ônibus de Puerto Natales.
      O horário de saída é por volta das 7 da manhã e o retorno por volta das 7:30 da noite saindo da Laguna Amarga (entrada do parque). São quase 3 horas de trajeto entre o parque e Puerto Natales.
      No dia seguinte estava lá bem cedinho na rodoviária aguardando meu ônibus sair.
      Chegando em Torres del Paine, a primeira coisa a se fazer é comprar o ticket de entrada. Havia uma pequena fila mas não demorou muito todo o tramite. Eles aceitam Pesos Chilenos e Dólares. Talvez aceitem Euros também, mas não tenho certeza.
      Depois é aguardar o ônibus interno que vai te levar para o Refúgio Las Torres (De onde sai a trilha para o Mirador Base e também a trilha em direção ao Refúgio Francês) e depois segue para Pudeto, de onde sai o Catamarã para Paine Grande (Onde começa a trilha para o Glaciar Grey).
      Como fui em direção ao Glaciar Grey nesse primeiro dia, segui no ônibus até Pudeto. Cheguei lá por volta das 10:30 e o catamarã só sai as 11hs.
      Assim aproveitei e tomei um reforço do café da manhã por lá enquanto aguardava a saída para Paine Grande.

       
      O catamarã é espaçoso e possui um deck em cima para quem quer ver a paisagem e tirar umas fotos. Duro é aguentar o frio, mas vale a pena!
      O trajeto é curto e em pouco mais de 20 minutos já estava em Paine Grande

       
      Muitas pessoas se hospedam no refugio, então já entram para seu check in. Eu não ia ficar lá, então só me arrumei, usei o banheiro e saí.
      Primeiro grande desafio da viagem: Aprender a usar os sticks de caminhada!

       
      Eu sei que parece ridículo, mas no começo é difícil coordenar! Mas depois de alguns minutos, vai que vai!
      Não sei como eu consegui voltar a andar sem eles quando voltei de viagem! Esse treco é bom demais!!!!!
      Bom, foi nesse primeiro dia que eu entendi por que a maioria das pessoas faz o W em 5 dias e não em 4… É porque o refúgio Grey é longe que dói!
      Eu tinha o meu tempo de trekking limitado pelo horário do catamarã. Não podia estar de volta depois das 18:30hs, que é o último horário de saída do catamarã no dia.
      As pessoas normalmente dormem no refúgio Grey e depois voltam no dia seguinte. Ou também vão até o refugio Grey e voltam para dormir em Paine Grande, sem grandes compromissos com o horário. Aí tudo faz mais sentido.
      No meu caso eu tive que ir até onde o relógio permitiu, e não consegui chegar até o refugio. Mas isso não tem muita importância… Pude apreciar a beleza do glaciar durante minha trilha sem nenhum problema!
      A trilha desse trecho não foi das piores do W. Existem outras partes com muito mais subidas e descidas. Isso foi bom, pois estava ainda aquecendo os motores!
      Eu que já tenho dois joelhos completamente destruídos, que me impedem de fazer algumas coisas, estava, para piorar, vindo de uma lesão no ligamento. Consequentemente minha condição física não era das melhores, vindo de um período de um mês sem poder exercitar minhas pernas.
       
      Bora caminhar!!!!

       
      A primeira parada, já para o almoço, foi na Laguna Los Patos.
      Uma lagoa bonita, que apesar do nome, não tinha tantos patos assim quando passei por lá!


       
      Sigo então em direção ao glaciar, tentando aproveitar o máximo essa paisagem linda!


       
      Daí a recompensa… O Glaciar Grey!!!

       
      Encontro um lugar para parar e apreciar essa vista!

       
      Depois de um tempo por lá o relógio me lembra que era preciso voltar, sem grandes possibilidades de paradas.


       
      A volta foi bem tranquila e cheguei a tempo inclusive de fazer um lanche e tirar umas fotos antes de embarcar


       
      Na fila do embarque percebo esse cara indo para um mergulho bem tranquilo nesse lago de degelo!!!

      Um mergulho com uma vista dessa não é nada mal!!!!
      Daí foram só mais uns 30 minutos de catamarã até Pudeto e já o imediato embarque no ônibus para Laguna Amarga.
      Dalí peguei o ônibus de volta para Puerto Natales.
      Chegando em Puerto Natales, foi só o tempo de passar em uma vendinha para comprar os mantimentos para o dia seguinte e correr para tomar banho, comer e dormir, pois sobram poucas horas de sono para quem tem que pegar o ônibus no outro dia as 7 da manhã!!!
       
      Dia 2
      E lá vamos nós!!!! Acorda de madrugada, toma banho, toma café, corre para a rodoviária e tenta descansar um pouco no ônibus no caminho…
      No parque foi só mostrar que já tinha o ingresso e aguardar pela saída do ônibus para Las Torres.
      Lá em Las Torres se faz um breve registro de entrada para controle e já pode sair para a caminhada.


       
      Esse dia era o primeiro grande desafio. São 20km ida e volta, com muita montanha, incluindo um trecho matador no último quilômetro que faz você pensar seriamente que não vai conseguir!
      Mas consegue!!!!
      A caminhada começa com 2km bem tranquilos e planos ainda em uma área dentro do complexo de Las Torres.
      Depois…… Bom, depois é bom estar com a saúde em dia, porque não é fácil a brincadeira.


       
      O que sempre te dá forças em um lugar como esse são as paisagens… Elas vão nos lembrando por que estamos lá!!!!

       
      Vale cada gota de suor!

       
      E vai subindo…
      Subindo…

       
      Subindo mais…

       
      Até que chega no Km 9 e eu já estou esgotado, com muita dor e cansaço.
      E aí o negócio começa a ficar sério. A subida é bem no limite entre caminhar e escalar, inclusive passando pelo espaço onde a água do degelo desce, para ajudar ainda!
      Pelo menos quando dava sede era só abaixar e beber água!
      Eu acho que eu bobeei… Acho que tem um lugar para deixar o peso extra ali no km 9 antes de começar a subida. Eu não fui atrás disso e acabei subindo com tudo nas costas… Foi treta!
      Como eu não tinha forças nem para tirar foto, tenho poucos registros desse dia. Uma pena, porque o lugar é maravilhoso.
      Essa subida é terrível, e quando se acha que acabou você descobre que ainda falta um tanto! Todos os lugares por lá são assim… Você acha que chegou no final, mas não chegou!!!!
      Para de reclamar e continua andando!!!!!
      Realmente nem acreditei quando cheguei lá!!!!

       
      Mas o visual vale qualquer esforço!!!

       
      Infelizmente cheguei lá 15 minutos depois do horário que tinha que iniciar a descida! Isso limitou muito o quanto eu pude aproveitar lá em cima.
      Foi o tempo de comer alguma coisa, tirar meia dúzia de fotos e sair desesperado para baixo, quase com a certeza que não daria tempo.


       
      Isso foi a pior parte do rolê… Não consegui aproveitar quase nada a descida, forcei meus joelhos de um jeito que não poderia ter forçado e fiquei horas no stress de não ter ideia do que iria fazer se perdesse o transporte.
      Não sei explicar como, arrumei forças não sei da onde para sair em uma disparada nos últimos 2 quilómetros para tentar chegar no ônibus…
      E não é que consegui!!!!!!! O pessoal já estava quase todo embarcado! Aí pedi para o motorista para esperar uns 2 minutos até a Tati chegar e ele falou que beleza!
      Nossa, foi por pouco!
      Eu sentia tanta dor no meu corpo depois disso que nem sei explicar… Doía pé, tornozelo e principalmente meus joelhos… Achei que tinha comprometido todo o rolê…
      Chegando em Puerto Natales foi só a correria para deitar logo, depois do mercadinho, banho e janta.
       
      Dia 3
      Esse dia tinha a ideia que seria mais tranquilo, pois além da distancia a se caminhar ser menor, não precisava me preocupar com horário, pois poderia chegar a qualquer hora no Camping Francês.
      Mas eu me enganei… Foi mais um dia puxado que no final minhas pernas já estavam esgotadas.

       
      Já no refugio Las Torres, comecei a caminhar para o Acampamento Francês. O inicio é tranquilo e ainda estava com a sensação que seria um dia de recuperação, e não de grandes esforços.

       
      Começo a encontrar alguns morros, mas nada de mais… A caminhada ainda está sob controle.

       
      Passados alguns quilômetros eu encontro um novo caso de amor!!!!!
      Se trata do Lago Nordenskjöld!
      Que visual maravilhoso! Andar com esse lago ao seu lado o dia inteiro foi lindo demais!





       
      As paradas para comer sempre eram em pontos estratégicos para comer apreciando aquele azul espetacular!


       
      O problema é que esse trecho tem muita montanha, subindo e descendo toda hora… Eu fui me cansando e já ficava perguntando pra galera que cruzava no caminho se estava muito longe ainda!
      Isso é claramente sinal de desespero!!!!



       
      E então já no final do dia chego no Acampamento Francês!
      O acampamento é bem bacana. O banheiro é bom e a água para tomar banho bem quente! Isso foi maravilhoso!
      Lá eles também têm um pequeno restaurante e uma “vendinha” que você pode comprar um refrigerante, por exemplo.
      Na recepção do camping eles tinham ovos para vender. Não estava tão caro. O problema é que eu não tinha onde cozinhar os ovos, pois não estava carregando um fogareiro comigo. A menina que estava lá foi bem gente boa e ofereceu de cozinhar os ovos para nós no fogareiro dela! Então já fechei negócio e consegui comer algo quente nessa noite, que estava programado apenas comida fria.
      Então depois de um ótimo banho já fui jantar meu sanduíche, ovos e um vinho que estava carregando para saborear na noite!


      A barraca estava montada. Não tive trabalho nenhum. É chegar, pular para dentro do saco de dormir e até amanhã!!!!!

       
      Dia 4
      Depois de uma boa noite de sono que não passei nenhum tipo de problema na barraca, me preparei para partir.
      Nesse dia os objetivos eram Mirador Francês, Mirador Britânico e a chegada em Paine Grande para tomar o catamarã de volta no final da tarde.
      Então tomei meu ziriguidum e pé na estrada!

       
      Até o acampamento Italiano o caminho é curto mas já com algumas subidas chatinhas.

       
      No acampamento Italiano você pode deixar seu equipamento para fazer a subida para o Mirador Francês e Britânico só com o necessário.

       
      A subida até o Mirador Francês é de um nível médio… Dá para ir na boa.
      Acabei me perdendo um pouco no caminho… Ainda bem que olhei para trás e vi umas pessoas passando por outro lugar. Percebi que o errado era eu e voltei para a trilha certa!

       
      Lá é um lugar bem interessante. Existe uma geleira com pequenas avalanches a cada 10, 15 minutos…

       
      É muito legal ficar um tempo por lá vendo as avalanches e principalmente escutando os estrondos do gelo se rompendo. É um barulho de trovão bem alto! Muito bacana!




       
      Fiquei lá um tempo, fiz meu lanche e olhei para o caminho do mirador Britânico…………
      Que caminho????

       
      O tempo fechou e não dava para ver nada lá para cima…..
      Então após algumas considerações decidi desistir de ir até o mirador Britânico. Ainda faltava uma boa pernada até lá e eu não queria gastar esse tempo e essa energia para ir até um mirador de onde não haveria nada para “mirar”.
      Bom, com isso pude desfrutar mais algum tempo no mirador Francês e fazer meu caminho de volta sem stress por conta do horário do catamarã.


       
      De volta ao acampamento Italiano não estava muito bem… Não sei bem o que era, mas preferi ficar por lá um tempo até me recuperar.

       
      Daí peguei minhas coisas e segui…

       
      O caminho a partir de lá é bem mais tranquilo. Não me lembro de ter nenhuma montanha bizarra para subir e descer depois de lá. Isso foi ótimo… Já estava cansado!
       (Calafate)
       
      Um dos pontos altos desse trecho da caminhada é o Lago Skottsberg! O mirador do lago tem uma vista que chega a ser indecente!



       
      Depois dessa parada, já estamos quase lá!
      É um trecho cheio de emoções boas! De que consegui cumprir o objetivo… De que vou completar o W!
      Isso parecia tão longe na minha vida há 6 meses atrás….
      Pensar em cada pedra, cada montanha, cada arbusto, cada pássaro, cada lago, cada pessoa que cruzei, cada parte do meu corpo que doía, cada gole de água de cachoeiras de degelo, e cada sentimento delicioso de conquista com o visual que se abria na minha frente por tantas e tantas vezes nesses dias……..
      Foi bom demais!
      Então a última parada antes da chegada triunfante!

       
      Dessa vez para admirar o Lago Pehoé, a poucos metros de chegar em Paine Grande.
      Não tem lugar melhor para comemorar a vitória!!!!!!

       
      E então a chegada!
      Exausto;
      Com dor;
      Realizado!!!
       
       Consegui, po**a!!!!!!

       
      Daí foi o roteiro já conhecido…
      Catamarã de Paine Grande para Pudeto, ônibus interno de Pudeto para Laguna Amarga (com parada em Las Torres), ônibus para Puerto Natales, pousada e cama!
      Hora de descansar, mas não muito, porque no dia seguinte embarcaria para El Chaltén pela manhã.
      Mas essa história fica para depois!
      É isso!!!! Quem quiser qualquer ajuda, pode escrever aqui que vou ajudar com todo prazer no que for possível!
      Críticas e elogios também são bem vindos!!!!!
      Não esqueçam de seguir lá no Instagram!
       
      @profissaoviageiro
       
      Valeu!!!!!!!!!!!!!
      Abraço,
      Felipe

       
    • Por Vgn Vagner
      RELATO DE AVENTURA
      Já havia algum tempo que eu gostaria de levar minha filha para fazer trilhas mais selvagens. Com 8 meses de vida, na "carcunda" do papai, já estava alguns conhecendi alguns caminhos pela Ilha Grande, no estado do Rio de Janeiro. Aos 2 anos e meio colocou as perninhas pra trabalhar na trilha que leva à Piscina Natural de Caxadaço, em Trindade/RJ. Uma caminhada um tanto quanto longa para uma criança dessa idade. Ainda mais por se tratar de uma boa parte da caminhada ser sobre o solo arenoso e fofo das praias que antecedem Caxadaço. Mas, observando com atenção, notei que a parte onde a trilha segue por mata fechada, com chão repleto de raízes sobre a terra e folhas caídas formando tapetes, minha pequena sorria ao tocar e deslizar seus pequeninos pés descalços sobre a lama que havia pelo caminho. Ela segurava em minha mão e seguia sem medo de cair nas subidas e descidas escorregadias, enquanto crianças da mesma estatura chovavam querendo o colo de suas mães. Isso já era um grande sinal de que ela adorou e adoraria qualquer contato com a natureza a partir daquele instante. 
      Seria pedir demais, para ela voltar caminhando. Cansada, retornou todo o percuso no colinho de papai, rs.
      Por conta dessas, e outras vivências, meu desejo era de levá-la logo para um acampamento selvagem, mas, era minha obrigação ter o bom senso de saber esperar o momento oportuno para isso. Pois, a cada pensamento de estar na mata com ela me deixava receoso...
      "Alergia causadas por picadas de insetos poderiam aparecer, medo por estar em um ambiente conhecido por ter animais de todas as espécies e peçonhas, estranheza, fadiga, frio durante a noite, etc e tal."
      Mas, algo me tranquilizava: toda vez que eu saia de casa para fazer alguma trilha, ou travessia, minha pequena pedia para que eu a levasse comigo para o mato. Eu sempre respondia que estava indo para lugares perigosos e difíceis de caminhar, mas, que algum dia eu a levaria para acampar na mata junto comigo. E essw dia chegou.
      Era Julho de 2019, o ápice da temporada de montanhas no Brasil, que se inicia em Abril e se estende até Setembro. As temperaturas baixíssimas no sul e sudeste do país (as vezes abaixo de zero) proporcionavam lindos dias de sol, e, longas noites geladas pelos pontos mais altos de cada região. 
      Eu estudava a melhor maneira de como fazer uma "atividade pesada" se tornar divertida para uma criança de 4 anos e 9 meses. Primeiro, escolhi para qual montanha gostaria de levá-la. Em seguida, trabalhei uma forma de atrair seu interesse pelo lugar, monstrando fotos de vezes que estive na Pedra. Eu contornava o formato do sapo com a ponta do dedo para aguçar sua imaginação. E, quando lhe fiz a pergunta decisiva: filha quer que o papai leve você na Pedra do Sapo? A gente faz a trilha, escala as cordas e acampa do lado do Sapo. Quer?
      SIIIMMMMM!!!! foi a resposta que ela deu, com o sorriso mais radiante que ela poderia estampar no rosto.
      - onde a gente vai fazer cocô e tomar banho, papai? - indagava dando risada kkk
      A partir daí foi só ansiedade até chegar a data de nossa aventura, que ainda não estava com data definida. Parecia que eu era a criança que sairia para seu primeiro passeio. Cheio de nervosismos, receios e expectativas fui cuidando para não despertar os mesmos sentimentos nela. Eu fazia e refazia a lista de itens que deveria, ou não, levar para garantir o conforto, a segurança e a alegria dela.
      Decidi que o acampamento seria feito no final de semana do Dia dos Pais (10 e 11 de Agosto/2019). No sábado, às 14h, após a aula de Ballet, onde foi feita uma homenagem paternal que me fez suar pelos olhos, saímos às pressas para trocar de roupas e seguir a viagem de 1h30 até o Rancho da Dona Maria - estrutura base para quem vai caminhar pelas trilhas da região. Chegando lá às 15h50, só tivemos tempo para papear pouco tempo com a simpática senhorinha, que havia levado uma mordida de seu próprio cachorro, que causou um ferida enorme, e se encontrava sentada segurando uma bengala. Pude ver o medo se desennhando no rosto da Cristal, quando um bicho passou correndo entre nós, à mil por hora. Dona Maria mencionou ser um Preá. Cristal se enfiou entre minhas pernas e perguntou.
      - o que era aquilo, papai? - disse
      - é um Preá, filha. Igual a um coelhinho. Ele é bonzinho e não faz nada com a gente. - respondi sereno para tranquilizá-la.
      Coloquei minha cargueira de 70L nas costas, ela vestiu sua mochilinha de alça, cabendo apenas sua blusa de frio e sua garrafinha d'água, vestiu a lanterna de cabeça se sentindo pronta, e começamos a caminhada pela estrada de chão batido, às16h em ponto. Calculei que gastaríamos, entre paradas para descanso, lanches, beber água e fazer xixi, algo perto de 1h30 até o topo da Pedra. Tive medo de ela não gostar de adentrar a mata, chorar, fazer manhas e querer dar meia volta pedindo para retornarmos até o carro e ir embora dalí. Algo que seria muito comum vindo de uma criança daquele tamanho.
      Ao invés disso, ao primeiro sinal de insegurança, ela me pediu: segura na minha mão, papai. E, ao longo de todo o percurso, poucos foram os momentos em que sua pequenina mão não estava grudada na minha. Ela caminhava tranquila e alegre, questionando o porquê de os passarinhos não virem pousar em nossos dedos, igual nos fimes e desenhos. Ela desejava muito ver passarinhos voando perto de nós. Expliquei que para isso seria necessário ficarmos em silêncio, mas a matraquinha não parava de falar 1 minuto se quer, rs. Ela apontava as direções dos sons, querendo que eu varasse mato, pois, os cantos de passarinhos vinham de todos os lados, mas, o máximo que conseguimos foi avistar um pardalzinho há uns 10 metros a nossa frente. Logo em seguida paramos para beber água no riozinho que cruza a trilha. Sabendo que ali era nosso último ponto de coleta, fui obrigado a subir com 2,5 litros para passarmos a noite.
      Quando acabou o trecho mais estreito da estradinha, a trilha afunilou de vez, ganhado uma inclinação forte logo de cara. Começava ali o nosso desafio. Onde a subida rasga uma floresta de eucaliptos e segue forte. Uma subida que nos faz tropeçar em galhos que se escondem sob as folhas secas que estalam sob nossos pés, nos obrigando a andar mais devagar e parar para descansar mais vezes. A alegria da Cristal ainda seguia na mesma sintonia, mesmo estando na parte mais exaustiva da trilha (subir com o auxílio de cordas) que, consequentemente, seria a parte mais lúdica para ela.
      Minha pequena já foi metendo as mãos na corda e me olhando com a maior felicidade do mundo. Teve dificuldades para se equilibrar nos primeiros metros da ascensão, mas, com as orientações que passei, logo se familiarizou com a escalada, e pôde se equlibrar com facilidade. Se apoiva em raizes e pedras, debruçava sobre as rochas, escorregava vez ou outra, mas se sentia forte e confiante a ponto de não pedia ajuda. Quando se cansava, sentava em algum degrau da ladeira, pedia água e algo para comer. Bolinhos recheados e suco de caixinha eram seus "belisquetes" preferidos. Foram três paradas estratégicas, a quarta pausa foi feita no mirante, depois de não haver mais subidas fortes. Sentamos para puxar um pouco de fôlego, adimirar a linda vista de um final de tarde, com o sol colorindo de laranja as Pedras da Forquilha e do Sapo.
      Faltavam mais ou menos 15 min até o alto da Pedra. Expliquei para ela que dali pra frente não teríamos grandes dificuldades, a não ser as duas pequenas rampas cravejadas de raízes que servem de degraus. A quinzena de minutos passou rápido, pois apostamos corrida na parte plana da trilha, e, claro que ela ganhou, rs.
      Novamente escalando as raízes que saltam do solo, Cristal continuava animada, olhava para trás para saber se eu ainda estava por perto, pois a mata havia ficado um pouco escura no trecho mais fechado. E ela percebeu. Enquanto eu gravava pequenos vídeos, ela não perdia o pique, e me acelerava: AAANDA, Pai (rs). Quando a última ascensão permitiu um clarão de luz do sol mais à frente, ela bradou: CHEGAAAMOS o/
      - uaall, que lindo. - disse.
      Estávamos aos pés do Sapo, onde há uma pequena clareira que comporta, bem juntas, duas barracas.
      Caminhamos mais uns 40 metros até o alto da Pedra, onde pude ouví-la dizer novamente: que lindo, papai. E não era pra menos! O sol já começaria seu espetáculo em instantes, mas já deixava o horizonte alaranjado sob um céu sem nuvens, e refletia seu brilho sobre as águas da Represa de Taiaçupeba. Ventava forte, mas, era um vento com ar quente - devido aos 29°C que fez naquele sábado. A vista de 360° para toda a região, possibilita avistar até o litoral de Bertioga. Eram 17h30, e, até o final do poente nos sobrou tempo para comer, beber, brincar e fotografar tudo. Ela, sentadinha na rocha, se encantou quando a bola de fogo que se deitou lentamente por trás das montanhas. E, quando a última pontinha de luz não pôde ser mais vista...
      - tchau sol. - disse minha pequena, balançando a mão.
      Quando começamos a montar a barraca, ela entrou em eudoria total ao ver que três gaivotas planavam sobre nós, há uns 4 metros de altura, no máximo. Quando terminamos, ela já me pedia para entrar e brincar com ela, mas, ainda havia muita coisa a ser organizada pelo lado de fora da casinha. Mas, não tardou, logo me vi lá dentro brincando com as massinhas e moldes de modelar que separamos para levar. Fizemos uma infinidade de bonequinhos, flores, bichinhos, montanhas e lanches, tudo de massinha.
      Ela me disse que queria ver as estrelas, mas, ainda não era possível. Não passava das 19h, e o crepúsculo ainda era predominante. Toda hora ela colova a cabeça para fora da barraca e perguntava:
      - Papai, já dá para ver as estrelas? Tem umas bolinhas aparecendo no céu.
      Tive que responder por umas quatro vezes que ainda não dava para vé-las, rs. Fiz macarrão para ela, depois fritei hambúrguer e preparei um lanche por que ela estava faminta. Quando bateu 21h, lá estávamos nós, trilhando o curto caminho até a parte mais alta.
      Dessa vez a surpresa se deu por conta das luzes das cidades vizinhas. Eram centenas de milhares de luzinhas acesas, na terra e no céu. A lua crescente nos iluminava a ponto de não usarmos nossas lanternas de cabeça. Fizemos do lugar nosso palco de apresentações. Cantamos e dançamos músicas infantis que tocavam no celular. Fizemos a festa. Quando paramos um pouco a figura deita no chão com as pernas dobradas, cruza as mãos na nuca e solta:
      - Papai, "tô de boa" vendo as estrelas e a lua.
      Eu ri demais, e fui obrigado a me juntar à ela nesse momento de relaxamento e contemplação, pois a noite estava perfeita, e eu tinha a melhor companhia.
      Por volta das 22h já estávamos dentro da barraca, ela brincando, eu fazendo seu "tetê com chocolarte." Meia hora depois já estávamos em sono profundo (eu, nem tanto). Acordei várias vezes para verificar se ela estava coberta e dormindo bem. Às 2h20 da chegou um pequeno grupo (talvez três), comemorando a chegada na Pedra àquela hora da madrugada. Fiquei em alerta, ouvi meia hora de conversas, depois o silêncio voltou a reinar. Deveriam estar fazendo bate e volta com navegação noturna para treinar, ou superar algum desafio pessoal. Sei lá.
      Com a intenção de ver o nascer do sol, programei o celular para despertar às 06h00, mas a previsão me pregou uma peça, e o que eu pude ver ao abrir o ziper da barraca foi muita neblina e garoa fina molhando o solo. Às 6h23, Cristal se espreguiçou como nunca, e acordou de prontidão pulando sobre meu peito, me abraçando e desejando bom dia. Em casa ela não acorda antes das 10h, rs.
      - Papai, vamos levantar pra brincar lá fora. Eu já acordei. - disse, toda animada, com os olhos cheios de remela, rs.
      Preparei o café da manhã, depois ficamos brincando por um longo tempo, lá dentro mesmo. Não dava para sair. Às 09h00, enquanto ela permanecia abrigada, comecei a ajeitar as coisas na mochila para poder iniciar logo o nosso retorno, que se deu 30 minutos depois.
      A descida foi menos cansativa, porém, muito divertida por conta dos escorregões sem quedas que dávamos. Ela sorria a cada um deles, tropeçava em tudo que era galho pelo chão e dizia que era engraçado, rs. Ela também estava mais atenta aos detalhes na volta. Apontava teias de aranha cobertas pelo orvalho, formigueirosem plena atividade, flores e pedras de cores e formatos diferentes ao seu conhecimento, e pedia para tirar foto de tudo.
      Às 11h00 chegamos ao Rancho da Dona Maria. Cuidei de trocar nossas roupas molhadas, que enxugaram a chuva que caiu sobre a mata da trilha. A levei ao banheiro, e, comemos mais algumas coisinhas antes de dar como encerrada nossa aventura do dia dos pais.
      Ao volante, olhando pelo retrovisor interno do carro, eu olhava minha pequena, cansada, dormindo toda torta em sua cadeirinha, com a cabeça balançando feito um pêndulo (coitadinha) estava super cansada)) Mas, acima de todo aquele cansaço, eu estava crente de que, a partir daquele momento, brotava um novo gostar no coraçãozinho de minha filhota. Pois o contato direto com a natureza só poderia estar fazendo dela uma criança ainda mais feliz e saudável, agregando valores e conhecimentos super válidos para lhe fazer crescer uma pessoa de bem.
      Eu, como papai coruja, pude sair de lá com o coração transbordando felicidade. Me sentia orgulhoso e satisfeito em ver que "minha continuidade" pôde me proporcionar um momento tão emocionante/marcante: o acampamento mais feliz de toda minha vida






    • Por Renato37
      Travessia feita entre dias 24 e 25.08.2019.
      Todos as fotos estão em: https://photos.app.goo.gl/66XjHffMpRPdHuqA8
      - Introdução -

      Tempos atrás, tinha ouvido falar que na região de Jundiai tinha a Serra do Japi que outrora cheguei a tentar uma investida, mas sem sucesso. Isso pq é proibido o acesso as trilhas em boa parte da Serra. Mas nunca imaginei que na cidade vizinha, Varzea Paulista, houvesse uma simpática serra com um belo visual e 3 picos com facil acesso e sem restrições.

      Um amigo me falou de uma  tal Serra da Mursa e como chegar lá. E é claro que fui conhecer em um reles batevolta sem muita pretenção de ver algo lá "grande coisa". Mas acabei me surpreendendo e depois de conhecer um dos seus acessos principais por Varzea Paulista, fico sabendo que há outros acessos e até de uma travessia, a tal travessia do Mursa. E curioso como eu sou, planejo a logística e retorno novamente a Serra do Mursa, mas dessa vez para fazer uma travessia, entrando por um lado e saindo pelo outro.
       
      1ºdia - Da Estação de Botujuru ao topo do Mursa

      Passava das 11 da manhã qdo saltei do trem na Estação de Botujuru da linha 7 da CPTM em companhia do Marcio, Paola, Felipe e Adriano e lá ainda esperaríamos a Suzana e o Diogo que não haviam chegado ainda. A pacata estação, localizada em um bairro de Campo Limpo Paulista, mas parecia uma estação fantasma. O Sol tentava aparecer timido entre muitas nuvens, mas o vento gelado e o friozinho da manhã insistiam em permanecer no comando.
      15 minutos depois, Suzana e Diogo chegaram e com toda a trupe reunida, saimos da estação e fomos para uma lanchonete em frente fazer um rapido café da manhã reforçado.


      Estação Botujuru
      Saciados, as 11:40hs, demos inicio enfim a travessia em direção a Serra da Mursa, descendo a ladeira da rua a esquerda que fica em frente a estação até chegarmos ao inicio da "Estrada do Botujuru". Nela, seguimos até o trecho onde acaba a parte asfaltada e começa a de terra. Bem no inicio da estrada de terra, chegamos a uma bifurcação, onde abandonamos a estrada principal em favor de estrada a direita que vai no sentido desejado e inicia uma forte subida morro acima. E dá-lhe pirambeira!!!

      Chegando ao final do trecho asfaltado


      Trecho inicial da estrada de terra bem íngreme
      As casas do pequeno bairro de Botujuru e o movimento constante dos carros vão ficando para trás, dando lugar a calmaria e ao silêncio da pacata estradinha, para alivio de todos. Durante a caminhada, alguns poucos carros passavam pela gente, nos fazendo comer poeira. Na paisagem, só se via pequenos sítios e chácaras. Ao passar ao lado de uma delas, um cãozinho solitário late a nossa passagem.
      A Estrada segue alternando entre subidas e trechos planos com o sol castigando a todo momento. Olhava para a galera e as vezes perguntava como estavam e a expressão era de bufadas e mais bufadas, por causa das subidas constantes. A região é cheia de morros e já tínhamos a visão de todo o entorno, com a estação de trem e o pequeno bairro de Botujuru ficando cada vez mais para trás.
      30 minutos de caminhada desde a Estação, chegamos ao alto de um morro e a subida dá uma trégua. A partir de agora, passamos a caminhar em meio a várias arvores de eucaliptos em meio a sombra, com o sol dando uma aliviada.

      Trecho mais plano com sombra
      Ignoramos 2 bifurcações a esquerda e só viramos na 3ºbifurcação, que fica praticamente no alto do morro, depois de já ter subido tudo que já tinha que subir. O caminho a seguir é em direção a Rodovia SP-354 pela "Estrada do Moinho". Se caso tiver dúvidas qto ao caminho, pergunte a moradores dos sítios do entorno o caminho para chegar a rodovia que não tem erro.
      Mais 30 minutos e chegamos ao ponto mais alto do morro, onde já é possível avistar a Serra da Mursa com suas cristas bem imponente a sua frente. A partir desse ponto, a estada de terra que antes só subia, inicia uma longa descida pirambeira até chegar a Rodovia.
      Pouco antes das 13:00hs, terminamos a descida e chegamos enfim na SP-354, onde o caminho a seguir é virar para a esquerda. Seguimos por cerca de 1,5 km e ao passarmos por uma placa marcando Km 51, andamos mais por mais uns 10 minutos até chegarmos a um trecho plano da rodovia e lá, se avista outra placa amarela do lado direito, que é a referência que a trilha está próxima. A entrada da trilha fica a uns 50 metros a direita ANTES dessa placa em meio a um capinzal fora de contexto. É preciso olhar bem, já que a entrada é meio discreta.

      No ponto mais alto dos morros, a Serra do Mursa fica visível a maior parte do tempo

      Trecho de caminhada final pela SP 354
      Enfim, após quase 2 horas de caminhada desde a Estação, finalmente chegamos ao inicio da trilha, para a alegria de todos.
      Esse trecho inicial segue quase que em nível, sem grandes dificuldades. Ela dá uma longa volta pelo sopé da Serra do Mursa antes de começar a subir e logo em seguida, inicia-se os primeiros trechos de subida, mas dando algumas voltas afim de reduzir o desnível para quem sobe.
      A medida que vamos avançando pela trilha, os sons dos carros vão ficando para trás, dando lugar ao silêncio e a calmaria da mata fechada, para a alegria de todos que não viam a hora de chegar lá no topo. 15 minutos desde a rodovia, resolvo fazer um pit stop em um descampado no meio da trilha afim de molhar a goela seca e forrar o estômago, após 2 horas de caminhada desde a estação.

      Trecho inicial da trilha bem tranquila
      Descansados e revigorados, retomamos a caminhada, e mais trechos de subidas a frente. Vamos ganhando altitude rapidamente e a trilha vai dando voltas no vale para diminuir o desnível da subida. O suor começa a escorrer do rosto de cada um, mas não demora muito e logo emergimos no trecho de capim ralo e exposto do Mursa, sinal que estávamos nos aproximando do trecho final e mais aberto da trilha. Aqui, nos presenteamos com todo o visual do entorno, deixando em euforia a turma da primeira vez. A partir desse ponto, a antena de um dos 3 picos do Mursa, fica bem visível a nossa frente.
      As 14:00hs, alcançamos o trecho final, onde a trilha termina em uma estrada de terra concretada e o restante da subida agora segue por essa estrada. O trecho de subida final acaba se revelando uma pirambeira daquelas e por isso, acabo parando pelo menos 2 vezes para retomar o fôlego. Felizmente o trecho não dura muito tempo e logo chego ao topo, para o merecido descanso. Em seguida, chega a Susana e os demais. Já no topo, não vimos ninguém em praticamente toda a extensão.

      Trecho final da subida pela estradinha concretada
      Com toda a trupe reunida, damos um tempo aqui, enquanto alguns se fartavam de clicks de 1ºvez. Depois, partimos para o trecho final da travessia, que é a caminhada pela crista do Mursa até a outra ponta, onde estão localizados os descampados protegidos dos ventos. Atravessamos o primeiro vale e após um pequeno trecho de subida com uma leve escalaminhada, chegamos ao ponto mais alto do Mursa, com 1.080 metros de altitude onde fizemos mais um pit-stop para clicks e apreciação da paisagem de 360 graus. Daqui, é possível ver até o Pico do Jaraguá, a serra da Cantareira, as cidades de Jundiaí, Campo Limpo Paulista e várias outras no entorno. É um belo visual.

      Caminhando pela crista
      Aqui encontro vestígios de acampamento, o que mostra que muita gente acampa aqui por ser o ponto mais alto dos 3 picos do Mursa. Mas como o local é exposto aos ventos, acho arriscado acampar aqui e por isso vou para outro ponto com descampados protegidos dos fortes ventos na outra extremidade e perto do primeiro pico. Ele não é longe e leva-se em torno de 15 minutos até lá. Não havia ninguém no local e é claro que fomos donos absolutos do lugar.

      Enfim, o merecido descanso 🤗

      O belíssimo pôr-do-sol do topo do Mursa
      Após cada um montar seus respectivos aposentos, aproveitamos para fazer um rápido desjejum e depois fomos a um dos picos para ver o pôr-do-sol.
      Após ver o Astro-rei repousar no horizonte, voltamos para as barracas e preparamos nossa janta, que foi arroz, feijão e picadinho de bife em pedaços, uma delícia!
      O Marcio preparou um chá que foi ótimo para reidratar e esquentar o corpo e ficamos só de boa jogando conversa fora!
      A temperatura diminuiu bastante a noite e com os ventos gelados, nem fiquei muito tempo fora da barraca e logo fui dormir.
      ___________________
      2ºdia - Dos descampados do Mursa a Estação Varzea Paulista

      Nascer do sol

      Cidade de Jundiaí vista do topo do Mursa
      O domingo amanheceu com um pouco de névoa e sem vestígio de nuvem alguma. A temperatura estava em torno de 07ºC e só se ouvia os ventos batendo forte nas copas das arvores. O Silêncio imperava no local e só alguns corajosos como eu, o Marcio, Felipe, Paola e o Adriano saímos para ver o nascer do sol.
      Depois retornamos e preparamos nosso café da manhã que foi com pão de leite e café quentinho para espantar o frio. Depois, começamos a desmontar as barracas e ficamos esperando os demais.
      Barraca desmontada e mochila nas costas, as 9:00hs, iniciamos a caminhada de descida pelo lado oposto do Mursa no lado de Varzea Paulista. A descida foi tranquila e de volta a estradinha de terra, caminhamos por cerca de uma hora até chegarmos ao trecho de asfalto. As 11:00hs, chegamos à uma lanchonete, onde fizemos uma parada para um lanche reforçado, antes de pegarmos o trem de volta para SP.
      Cheguei em casa pouco antes das 14:00hs um pouco cansado como de praxe, mas feliz.
      _________________
      DICAS:
      --> A Serra do Mursa possui vários acessos e é possível acessa-la tanto pela Estação de Várzea Paulista, qto por Boturuju. Em ambas, a distancia média é de 1 a 2 horas de caminhada da Estação a trilha mais próxima, dependendo do acesso.
      --> Não há água em nenhum ponto da trilha e no topo. Por isso, traga toda a água que for precisar de casa ou encha os garrafas em algum dos sítios do entorno, ANTES de adentrar a trilha. Recomendo iniciar a trilha com pelo menos 2 a 3 litros, caso contrário, corre o risco de ficar sem água. Utilize aquelas garrafas PET.

      --> O tempo médio de subida na trilha varia do acesso escolhido. Do acesso via Botujuru, a subida da trilha é tranquila e levamos pouco mais de 40 minutos da Rodovia até o topo.
      --> Não há áreas de sombra em toda a extensão do topo, por isso protetor solar e um boné são itens indispensáveis para proteger do sol forte.
      --> Não existem linhas de ônibus que partem da estação até a entrada de qualquer um dos acessos, mas por Varzea Paulista, é possível ir de Uber até a entrada de uma das trilhas, a mais longa. Mas só se o motorista ou você já souberem o caminho.
      --> Por Botujuru, a caminhada (quilometragem) é menor, mas só da para ir a pé. Não existem linhas de ônibus e não acredito que Uber leve por estradas de terra.
      --> Se for acampar e não tiver uma barraca apropriada para ventos, acampe nos descampados protegidos que ficam na ponta do Mursa, no ponto onde há várias arvores no topo. Há uma bifurcação que sai do topo e leva até os descampados. É um local bem amplo e que cabe várias barracas do tipo "iglu"

      --> Por Varzea Paulista, há 2 acessos. Um mais longo e íngreme, que deixa no pico mais alto do Mursa e que tem água bem no comecinho da trilha, mas é o acesso mais distante da Estação, com cerca de 7km de caminhada até lá e é tb a trilha mais longa...

      --> Para acessar a trilha que sobe o Mursa pela Estação Botujuru, deve-se descer pela estrada do Botujuru pelo lado esquerdo da Estação até chegar ao fim do Asfalto. Logo que começar a estrada de terra, vire a direita na estrada que sobe morro acima. Na duvida, pergunte a moradores dos sítios do entorno de como chegar a Rodovia SP 354.

      --> Assim que se chega na SP 354, deve-se virar à esquerda e seguir por cerca de 1,5km até chegar a um trecho reto da rodovia. Qdo ver uma placa amarela do outro lado da rodovia, é sinal que está bem próximo a entrada da trilha. A mesma começa a uns 100 metros antes da placa, em um capinzal amarelo. Uma vez adentrado a trilha, é só seguir reto nela até o fim. Não tem erro.
      --> Não gravei tracklog, pois há vários tracklogs disponíveis dessas trilhas no Wikilog e em outros.

      É isso 🤗
       

       


       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
    • Por divanei
      PEDRA DA BORACÉIA
                É na escuridão de uma noite fria de inverno que avançamos lentamente rumo a lugar nenhum. Nossa referência não passa de um ponto distante que miramos para fora da floresta, que nos faz esgueirar entre moitas e moitas de bambuzinhos espinhudos, onde provavelmente jararacuçus nos espreitam assustadas com tal ousadia. Não são nossas pernas que nos carregam, mas nossa vontade de escapar inteiros de uma das maiores aventuras dos últimos tempos e a maioria de nós apenas se arrasta, deixando que a resiliência comande nossos passos e que a luz das nossas lanternas e o céu qualhado de estrelas nos leve à civilização.

         ( Rafael, Júlio , Vagner , Luciano , Potenza , Régis , Trovo e Divanei . )
                A PEDRA DA BORACÉIA talvez seja dentre as montanhas da Serra do Mar de São Paulo, uma das mais isoladas, não só por estar em uma área de acesso restrito, mas também por se situar em uma parte em que a serra acaba se distanciando do mar, sendo guardada por terras indígenas em meio a florestas quase que intransponíveis com paredões abruptos de centenas de metros. Na carta topográfica consta como PEDRA QUEIMADA e independente de qual seja o verdadeiro nome, alcançar seu cume é estar mais de 100 metros acima do Corcovado de Ubatuba, outro ícone do litoral paulista.

               Por mais de uma década sonhávamos em conquista-la, mas conseguir as tais autorizações junto à SABESP (Companhia de Águas Paulista) ficava cada vez mais impossível e seria mesmo uma mão na roda porque era a oportunidade de avançar até a pedra por barco, navegando pela Represa do Ribeirão do Campo até a tal Cachoeira da Escada e de lá partir varando mato por umas cinco horas até o cume. Até tentamos por intermédio do Luciano Carvalho, que por lá esteve, perguntando sobre essa tal autorização, mas recebeu um não na fuça e a alegação era que o grande reservatório estava agora infestado de jacarés do papo amarelo.
                Diante da situação apresentada, nos restava apenas tentar angariar informações de alguns raros aventureiros que conseguiram ascender a pedra por trilhas e picadas de mateiros, palmiteiros e caçadores, portanto, ao invés de ir por água, ir tudo por terra. Alguns desses antigos exploradores nem se deram ao trabalho de nos responder, outros responderam com desdenho, alguns até que foram prestativos, mas suas informações foram tão genéricas que era impossível absorver algo. Na verdade, o que queríamos mesmo era um traklog, já que sabíamos que alguns detinham o caminho marcado no GPS, mas esses caras nos enrolaram, como a nos dizer: “ Querem conquistar aquela montanha, se virem, deem seus pulos “.
                Cansamos de esperar pela boa vontade de alguém, mandamos todo mundo a merda e decidimos que se fosse para conquistar  a Boracéia, faríamos isso com nossos proprios esforços, iríamos traçar um novo caminho, uma rota inédita até o cume, nem que essa rota gastasse o dobro do tempo.
                Eu e o Vagner nos debruçamos sobre mapas de satélite e cartas topográficas, buscando informações que nos levasse a um ponto de partida. Encontramos a pouco mais de 5 km em linha reta a leste da Barragem da SABESP, um atrativo turístico conhecido por POÇO BONITO, localizado no Rio Claro, sendo que uma trilha de uns 6 km poderia facilmente nos levar até ele no meio da densa floresta. Acima do Poço Bonito, uma cachoeira marcaria a nossa despedida do Rio Claro.  Esmiuçando a carta topográfica vimos que um grande corredor plano, como se fosse um vale subindo levemente, poderia nos conduzir ao sul até uma grande linha de transmissão de energia e de lá faríamos a curva para oeste novamente, seguindo até perto da base da Boracéia, na teoria poderia dar certo, um plano estava traçado.

                Traçado o plano, o roteiro e a estratégia, faltava formar o grupo, alguém que comprasse o projeto, mesmo sabendo que poderia ser a maior furada dos infernos. No início praticamente todo mundo fez cara de paisagem, os convites foram sendo negado e alguns exploradores, parceiros nossos das antigas, apenas se mantiveram em silêncio, outros estavam as voltas com compromissos familiares, trabalho e até mudanças e acabamos ficando com 3 integrantes confirmados, além de mim e do Vagner, o Rafael era o outro que desde o começo garantiu seu rabo na expedição. O certo é que joguei uns 10 nomes no grupo de WhatsApp e quando jogamos as cartas sobre a mesa, a maioria da galera tomou ciência da ousadia da Expedição, sabiam eles que seria uma oportunidade única e um a um foram saindo do armário, aniversário de parente, mudança de casa, trabalho, mudança de sexo, tudo foi se perdendo pelo caminho e a Expedição à Pedra da Boracéia ganhou força e corpo.
                No mapa estava tudo pronto, faltava agora ir lá nos cafundós de Salesópolis investigar essa tal trilha até o poço Bonito. O Vagner, o Trovo e o Rafa se prontificaram e coube a eles esse trabalho importante de investigação, aliás, para uma expedição sair do papel é preciso que pessoas se comprometam, botem a mão na massa e o pé na trilha. E os caras fizeram um trabalho lindo, acharam uma trilha de conexão da área rural que nos levaria até o poço e a Cachoeira Bonita, a primeira parte estava pronta, agora era montar a logística e reunir os expedicionários em torno do projeto.
                Agora com todo mundo motivado, escolhemos um feriado de junho para a expedição e seria a primeira vez que a gente se jogaria na Serra do Mar em pleno inverno e só fizemos isso justamente porque o nosso motivo maior seria uma montanha e não a exploração de rios selvagens, mas o tempo nos mostraria que não era bem assim como pensávamos. No horário marcado, nos encontramos todos (menos o safado do Rafa que chegou com uma hora de atraso) na Estação Estudantes, em Mogi das Cruzes, onde uma van nos esperava para nos desovar lá na área rural de Salesópolis. O motorista sentou o cacete e quando chegou no município citado, passou batido até interceptar a Estrada da Petrobras e transitou por ela cerca de uns 8 km, entrou à direita e uns 5 km depois saltamos no escuro, sei lá onde, num tal de Bairro dos Pintos e por mais uma meia hora nos pusemos a caminhar até que o Vagner localizou a tal trilha que passa ao lado de um sítio e embrenha na mata, vai descendo em nível, passa pelo Rio Clarinho, onde o Trovo e o Potenza resolveram cair de uma pontinha de madeira, segue sempre no aberto e uma hora e meia depois de iniciarmos na estrada, desembocamos na bucólica prainha do Poço Bonito do Rio Claro.


         ( Prainha do Poço Bonito)
                A madrugada já ia alta, mas surpreendentemente não fazia frio e decidimos montar um grande bivac sobre a areia da prainha. Sacamos uma corda, enfincamos um grande galho na areia e amarramos a corda no galho e em uma árvore nas margens do rio, jogamos a lona por cima e outra por baixo e jogamo-nos para debaixo com nossos sacos de dormir. Foi uma noite de cão para alguns que quase congelaram de frio, mas eu dessa vez não economizei nos agasalhos e dormi feito pedra até pouco depois das 6 da manhã. O dia amanheceu ensolarado, o que ajudou a animar a galera, que a partir de agora sabia que o passeio havia terminado e pela frente havíamos de enfrentar 4 longos de dias de aventuras selvagens.

                O Poço Bonito é um lugar lindo, um espelho d’água ótimo para um banho demorado em suas piscinas naturais, mas não no inverno. Então abandonamos ele pela esquerda, interceptando uma trilha que em alguns minutos nos levou até a CACHOEIRA DO POÇO BONITO, uma queda d’água não muito alta, mas muito cênica, muito parecida com a Cachoeira do Diabo, mas em menores proporções, provando que esse Rio Claro é realmente impressionante, mas o melhor ainda estava para ser descoberto. Depois de alguns clics da cachu , já fomos nos encaminhado para abandoná-la pela direita, mas antes disso uma chuvinha fina despencou sobre nossas cabeças antes das nove da manhã , mas isso não foi o suficiente para nos tirar o bom humor, porque a previsão do tempo já havia nos dito que haveria uma possibilidade pequena de precipitação.

         (Cachoeira do poço Bonito)
                Um a um fomos nos enfiando na mata e rasgando a floresta no peito, agora tendo como referência o traklog desenhado por mim e pelo Vagner no mapa de satélite que iria de encontro a um possível vale, um corredor que pudesse nos conduzir direto para o sul até que alcançássemos a tal rede de Alta Tensão, nosso próximo objetivo. O Trovo seguiu à frente porque já havia avançado por aquele terreno na semana passada, mas logo resolveu mudar de rumo para se livrar de umas moitas de bambu. Fomos ziguezagueando meio que para sudeste, fazendo uma diagonal até que pudéssemos interceptar de vez o caminho traçado para o gps e não demora muito, coisa de 20 minutos, tropeçamos em um rancho de palmiteiros/caçadores, incrivelmente bem preservado e sendo usado constantemente, provando que fiscalização ali não existe ou é totalmente ineficiente, a ponto dessa gente deitar e rolar, devastando florestas e florestas de palmeira Jussara.

                Concertamos o rumo e logo nos apareceu um rabo de trilha e alguém cantou que poderia nos levar para o rumo desejado, mas sem que percebêssemos, acabou nos fazendo rodar em círculos, perdendo tempo precioso. Andar com gps, principalmente um instalado no celular, parece fácil, parece que é só ir seguindo a bolinha, a setinha, sempre corrigindo o rumo, mas só parece. Algumas vez acontece um pequeno deley, um atraso que acaba confundindo o navegador, muito porque não é possível e nem viável ficar o tempo todo com os olhos grudados no aparelho, então qualquer desvio acaba fazendo a gente tomar o rumo errado e tendo que gastar energia preciosa para voltar para o rumo certo.
                Entre acertos e erros, uma picada nos fez voltar para o sul e nos deixou bem perto da linha que havíamos marcado no mapa e quando encontramos um córrego, na verdade um rio até que caudaloso, pensamos ter encontrado o nosso caminho definitivo, mas uma burrada monstro nos fez descer o rio ao invés de subir e de uma hora para outra , perdemos a direção , o bom senso e a nossas faculdades mentais, estávamos perdidos em algum lugar que até então  estava difícil sabermos qual foi o erro cometido, principalmente quando avistamos um outro rio muito maior do que o que havíamos descido e de onde despencava uma cachoeira gigante que nunca imaginávamos existir.

                Tudo estava confuso, de onde brotou aquele rio enorme? Que cachoeira seria aquela já que não constava em lugar nenhum, em mapa nenhum? Houve um momento de estresse, cada um dava um palpite diferente, cada um queria seguir por um caminho diferente para nos recolocar na rota, mas antes que a gente nos pegássemos na porrada para saber quem tinha razão, deixamos aquela discussão estéril de lado e fomos nos deslumbrar com aquela cachoeira perdida. A diversão e o encantamento fizeram com que colocássemos nossa cabeça para funcionar e a partir daí o Luciano sacou seu gps com bussola embutida, azimutou a direção e disse: “ Caralho, cometemos um erro tosco, ao invés de subirmos o rio, acabamos descendo “. Bingo! Isso mesmo, nossa rota para o sul era surpreendentemente subindo o rio, que depois descobri chamar-se RIO DO ALEGRE, um grande afluente do Rio Claro. Claro mesmo era que viramos tanto para sudeste que acabamos voltando de novo para o rio principal, só que muito mais acima dele. O erro foi dantesco, mas acabou nos dando de presente uma paisagem incrível, até então não relatada na literatura “internética”, conhecida somente por algum mateiro local e revelada ao mundo agora por nós, que sem conhecermos o nome, resolvemos chama-la de CACHOEIRA PADRE DÓRIA, até que alguém nos sopre o nome verdadeiro.

       
           (Cachoiera Padre Dória)
                Abandonamos, portanto, a grande queda d’água e voltamos a subir esse tributário do Rio Claro e quanto chegamos a um girau de caça o rio deu uma curvada e se abriu numa sequência de cachoeirinhas e degraus. Até então não sabíamos se esse rio realmente iria continuar seguindo para sul,mas enquanto ele nos favorecesse, seria o nosso guia, mesmo que fizesse muitas curvas porque ter um caminho livre de mato, bambu e cipó seria ouro no meio daquela floresta fechada. Os degraus foram aumentando e as cachoeiras se multiplicando até que o rio se estabilizou de vez e começou a subir suavemente, com a água hora pela canela, hora pela cintura, mas como a temperatura havia caído e o sol havia deixado de dar as caras desde as onze da manhã, a água gelada começava e incomodar e quando podíamos, fugíamos pela margem para evitar a friaca. 

                Apesar de estarmos subindo o rio e a tendência era de que ele fosse ficando cada vez com menos água, porque iria perder afluentes ao longo do caminho, isso não se confirmou e ele acabou ganhando foi piscinas naturais conforme ia se aproximando do planalto e era inevitável que de vez enquanto molhássemos acima da cintura e isso começou a fazer estragos e não demorou para surgirem as primeiras vítimas: Rafael foi o primeiro a sucumbir e foi preciso que o Luciano intervisse já que o menino tem os dotes de massagista e logo deu um jeito , mas não demorou muito e lá estava o Vagner estirado no chão se contorcendo por causa das câimbras também . Engraçado que sempre a pessoa que mais sofre com as baixas temperaturas sou eu, mas dessa vez os novinhos começaram a cair um a um e para variar a outra perna do Vagner travou também e lá foi novamente o Luciano fazer um carinho no menino.

                O tempo foi passando, o rio curvando para todo lado, mas sempre se mantendo para o sul. A temperatura caindo vertiginosamente conforme a tarde foi se aproximando e a sensação de que nunca chegávamos a tal Linha de Transmissão foi aumentando. Eu mesmo com uma camisa de neopremo sofria e gastava energia preciosa para fugir dos poços mais fundo porque a margem do rio era feita de bambus entrelaçados que dificultava o avanço. As vezes fazíamos algumas paradas para mordiscar alguma coisa, mas a retomada da caminhada era lenta e sofrível por causa do esfriamento dos músculos. O moral do grupo estava baixo, ninguém conversava mais, era nítido o sofrimento estampado no rosto de cada um e finalmente quando o Rio do Alegre cruzou a tal LINHA DE ALTA-TENSÃO e o nosso gps marcou a hora de virar para OESTE, o que estava ruim se transformou em pesadelo.
                Ainda sem encontrar um lugar descente para acampar e passando das cinco da tarde a chuva que ameaçou desabar durante as últimas horas, caiu toda de uma vez e a gente que já vinha sofrendo com a temperatura da água, agora nos encontrávamos em semi- hipotermia. Subimos o barranco à direita e tentamos nos abrigar na floresta, agora com terreno um pouco mais plano. Cada qual corre para tentar achar duas árvores descentes para montar sua rede e seu toldo, mas por sermos em oito foi difícil conciliar espaço para todo mundo.

                Não é possível narrar o sentimento alheio por completo, mas eu estava verdadeiramente na lona. O frio era tanto que não conseguia parar de tremer e muito menos conseguia pensar em uma solução. Árvores que pudessem me atender, eu não encontrava e quanto mais eu ficava exposto as intemperes do tempo, mais eu ia definhando, murchando e aquele aguaceiro dos infernos que não cessava ia fazendo com que a temperatura do meu corpo caísse de uma forma preocupante. Precisa fazer algo por mim, sair da chuva. Estiquei a lona em duas árvores esparsas e me enfiei embaixo e por lá fiquei, parado, inerte, pensado se ainda tinha idade para passar tamanho perrengue, pensando se já não estava na hora de parar de me enfiar nessas furadas. Poderia estar em casa, comendo bem e dormindo lindamente numa cama quentinha e macia, mas não, estava ali todo molhado, enfiado a um dia de caminhada do lugar habitado mais próximo, dentro de uma floresta fechada com uma chuva de inverno castigando sem dó e nem piedade a meio caminho de lugar nenhum.
                Era preciso agir. Saí do estado de inércia em que me encontrava, larguei minha mochila ao chão e fui esticar as beiradas da lona plástica. Retirei minha rede seca da mochila e amarrei nas duas árvores que por sorte deram espaço suficiente entre uma e outra. Tirei a roupa molhada, vesti uma seca e me enfiei dentro do saco de dormir, muito bem agasalhado. Aos poucos fui me aquecendo, a tremedeira passando e quando me dei conta já estava no mundo de Nárnia, num sono profundo, em estado de hibernação. Uma hora depois, já recuperado, levantei-me e fui cuidar do jantar que fiz juntamente com o Régis e embaixo da lona dele, ficamos até mais tarde jogando conversa fora até que definitivamente apanhei minhas coisas e fui morrer na escuridão da noite num canto isolado do grupo, mas ainda assim a ponto de ouvir o Júlio fazer um discurso na alta madrugada, porque não basta ser maluco, tem que ser sonambulo e incorporar espíritos.
                O dia amanhece sem chuvas, mas ainda com muitas nuvens. Desarmar o acampamento é uma coisa lenta e vagarosa, ninguém parece querer sair da rede quentinha e só lá pelas nove da manhã é que nos animamos a partir. A primeira coisa a fazer é localizar uma grande torre de Alta Tensão que pelos nossos cálculos não estava muito longe, já que agora bem visível sobre nossas cabeças passavam os fios de eletricidade, bem altos, mas mesmo assim ainda visíveis por entre as grandes árvores. Bastou um vara-mato despretensioso e logo a tal torre nos saltou aos olhos, reinando sobre uma pequena colina verdejante e desprovida de árvores e foi para lá que seguimos, agora no aberto e enfim com um pouco de horizonte e sol para nos alegrar a alma. Chegar a TORRE foi um marco, uma virada no ânimo da equipe. Subimos alguns metros, mas nem era preciso, do chão mesmo agora era possível avistar toda a imponência da cadeia de montanhas de onde a Pedra da Boracéia reinava absoluta ainda com seu topo sendo varrido por nuvens de algodão.

                Outra coisa logo de cara nos chamou atenção: Toda a extensão do terreno onde as torres passavam e que no satélite parecia capim alto, na verdade tratava-se de um emaranhado de pequenos arbustos e uma vegetação de passagem complicada, onde uma quiçaça entrelaçada não parecia dar passagem tão facilmente como imaginávamos, mas a simples segurança de poder nos guiar quase pelo resto do dia pelos fios de energia, já nos deixava feliz e se fosse preciso iríamos  arrastar aquela vegetação espinhuda no peito até o tão desejado cume.

                Agora nos valendo da direção oeste, vamos galgando o terreno ondulado até a próxima torre, uns 300 ou 500 metros à frente. Trovo vai abrindo caminho e a gente segue atrás, cada um ajudando o companheiro da frente a se livrar dos cipós que vão enroscando nas mochilas. As vezes o terreno acaba nos levado um pouco para fora da linha das torres, mas é só uma estratégia a fim de trilhar por melhores caminhos e uns 40 minutos depois atingimos a segunda torre e a cada torre conquistada é motivo para uma parada mais demorada a fim de comer algo, beber uma água e jogar conversa fora admirando a paisagem ao redor.
                 Pelo resto do dia essa foi a toada, conquistar torres! Foram 2 km varando mato e vales entre uma e outra até que aportamos na quinta torre, a uns 300 metros da base rochosa da Boracéia. Eram umas três da tarde e poderíamos tentar alcançar mais uma torre e de lá virar novamente para o sul varando mato até o pé da Pedra, mas estamos ansiosos demais e entramos em consenso para traçarmos um caminho direto para a face pedregosa da montanha, nossos pés estavam ávidos por pisar naquelas rochas lendárias.
                Juntamos o grupo e traçamos o caminho mentalmente. Fizemos uma diagonal para sudoeste e despencamos no buraco, quase um abismo no mato, descendo um barranco, escorregando para o fundo do vale até interceptarmos um riacho, cruzá-lo para o outro lado e pegar a direção da Pedra, subindo. Mais no alto conseguimos achar uma picada e seguimos por ela sempre na ascendência até que  uma meia hora acima do córrego ela acabou no capim, mas aí já estávamos sentindo o cheiro da rocha exposta, varamos uma língua de vegetação alta e ganhamos a face exposta da Pedra da Boracéia, agora não tinha erro, o caminho era escalaminhado a parede rochosa até o cume, mas antes uma parada para juntar a equipe, tomar um gole de água e mordiscar alguma coisa.

                Diante de nós uma rampa gigantesca se apresentava. Os mais ousados subiram pelo meio, se agarrando ao pouco de aderência que a pedra nos proporcionava, caminhando no limite da força da gravidade, um vacilo e o rola montanha abaixo seria certo. Os mais tímidos se encaminharam para as laterais onde alguma vegetação conseguia dar uma maior segurança, mesmo que apenas psicológica. O grupo acabou se dividindo em várias frentes, cada qual no seu ritmo, cada um tentando buscar sua própria força, física e mental. A caminhada é lenta, o avanço é moroso, a ansiedade vai servindo de combustível para a conquista. De repente o Luciano e o Rafael ficaram muito para trás se arrastando nos seus sofrimentos individuais, mas como o caminho é óbvio, os grupos vão seguindo, sempre para o alto, galgando cada lombada do terreno. Enquanto o cume não é conquistado nos restam as paisagens ao Norte, onde a Represa do Ribeirão do Campo nos alegra a alma, um mundo de água perdido em meio a uma das florestas mais exuberantes do mundo.

                Com o cume da montanha ainda sendo visitado esporadicamente por nuvens, que dançavam ao sabor do vento, resolvemos nos deter em uma área abrigada, junto a alguns pequenos arbustos para esperar que todo o grupo se unisse e quando os retardatários chegaram, nos juntamos em uma só equipe e partimos para a conquista final. Não há um caminho definido que nos leve direto para lá, então vamos abrindo a vegetação no peito mesmo até que, sem percebermos, o mundo acaba sob os nossos pés e outro mundo, o mundo dos abismos, o mundo das largas vistas, um mundo feito de águas oceânicas e areias prateadas se descortina, enfim no topo da PEDRA DA BORAÇEIA (1270 m), o gigante perdido, a lenda da Serra do Mar Paulista, onde poucos tiveram o prazer de colocar os pés, estava definitivamente conquistada.

                Como era finalzinho de tarde e o tempo ainda estava meia boca, com muitas plumas, resolvemos deixar  o dia seguinte para maiores contemplações e nos voltamos para assistir ao pôr do sol que já ia se jogando para oeste e também para planejarmos a nossa estadia no cume. Em meio as caratuvas e pequenos arbustos que compõem o cume propriamente dito, não encontramos nada que nos servisse, talvez uma ou outra arvorezinha aguentasse uma rede, mas a exposição seria um preço muito alta a pagar, então decidimos que desceríamos uns 100 metros e tentaríamos um bivac coletivo junto a uma área mais abrigada do vento.
                Enquanto o grupo se unia para conseguir um lugar abrigado e descente para todos, eis que que surgem 2 desertores, traidores do movimento montanhista e travessias selvagens na serra do Mar Paulista. Daniel Trovo e Rafael Araújo, abandonaram o grupo e mancomunados um com o outro, resolveram que montariam suas redes individuais, se valendo de um ou outro arbusto perdido na vegetação rasteira. Enquanto o alto comando (que não existe) assistia perplexo a traição sorrateira e covarde, voltamos a nos concentrar no abrigo. Em meio a um canto quase que beirando o abismo voltado para a face leste, nos concentramos na limpeza de uma área, retirando pequenas raízes no intuito de deixar o chão com possibilidade de podermos ter uma noite de sono razoável. Feito o trabalho, jogamos as lonas por cima dos arbustos e as amarramos, formando assim uma grande tenda para abrigar 06 exploradores. Jogamos uma grande lona no chão para isolar do frio e cada um escolheu seu canto e ali montou sua cama se utilizando de sacos de dormir.
                Estávamos todos  embaixo do nosso abrigo, nossa casa de montanha, felizes a contar causos de aventuras passadas, enquanto nossos fogareiros ronronavam exalando o puro perfume da boa comida, foi quando ouvimos um estrondo que ecoou em todo o cume daquela montanha isolada do mundo: Corremos a tempo de ver os traidores estatelados no chão, depois que o arbusto que haviam se pendurado com as redes veio a baixo e como usavam em parceria, lá ficaram as duas bestas, caídas na relva molhada de uma noite fria, no cume da Pedra da Boracéia. Imediatamente NÃO corremos para socorrê-los, apenas nos cagamos todos de tanto dar risada. ( kkkkkkk). Depois desse episódio, os desertores pediram clemência e se humilharam para se abrigarem junto com a gente, inclusive um deles teve que se deitar aos nossos pés e lá ficou, quase como um cão de guarda, rsrsrsrsrsrs.
                Oito almas viventes se espremeram naquele fim de mundo e na madrugada fria o vento varreu o cume e ameaçou jogar nosso abrigo lá para os abismos do litoral. Eu me encolhi o quanto pude, virei quase um tatu bola dentro do meu saco de dormir e não sei em que hora comecei a ouvir um zum zum, mas pensei ser novamente o Júlio recebendo o espírito do Dr. Fritz, então não ousei a colocar a cabeça para fora e depois fiquei sabendo que a nossa lona havia se rompido e a galera teve que se virar para deixar nosso abrigo novamente de pé, mas não foi só eu não. Daniel Trovo também se fingiu de morto e não levantou para ajudar. Eu era um safado, mas esse Trovo já estava passando dos limites, (rsrsrsrsrsrs).

                O dia que amanhe é lindo. Nenhuma nuvem no céu, nenhum vento, temperatura fria, mas agradável. Todo o grupo se levantou para ver o sol nascer e depois que a bola de fogo se estabilizou, corremos para o cume a fim de nos encantarmos definitivamente com a paisagem. Verdade mesmo que o melhor lugar para esses deslumbramentos não é no cume, mas alguns metros mais abaixo, onde uma pedra exposta é capaz de acomodar todo o grupo. Estar no cume da Boracéia ou PEDRA QUEIMADAcomo alguns preferem chamar e como consta em alguns mapas, é ter a honra de entrar para a galeria de meia dúzia de aventureiros e melhor ainda, é pensar que chegamos ali pelos nossos próprios méritos, uma rota nova criada por nós, uma verdadeira expedição até o cume. O espetáculo ao longe, numa visão de 360 graus ao nosso redor. Praias, ilhas, montanhas, abismos, florestas, um oceano incrivelmente belo. Do cume verdadeiro se abre ainda mais um horizonte extenso, onde é possível ver desde a baixada Santista até muito mais ao norte, passando pela famosa Ilha Bela e seus contornos gigantes. Bem aos nossos pés a praia da Boracéia e a Reserva Indígena da Tribo Silveiras, uma planície litorânea lindíssima forrada de florestas, onde rios quase que intocados desfilam como cobras a serpentear até o mar. Falando em reserva indígena, num primeiro momento pensávamos em estabelecer uma rota para o litoral, descendo em direção as terras dos índios, mas como o tempo se encurtou e alguns ainda estavam receosos de não conseguirmos finalizar essa expedição em 4 dias, resolvemos que não desceríamos até o mar, voltaríamos para o norte, voltando novamente por Salesópolis.
       

                Haviam dois ou três que ainda tentaram persuadir o grupo a seguir o plano original, mas como fomos vencidos, batemos o pé para voltar por outro caminho, quem sabe o caminho tradicional, voltando pela Represa do Ribeirão do Campo, mas havia um porém; não tínhamos informação de como fazer isso, apenas sabíamos que deveríamos chegar até a tal CACHOEIRA DA ESCADA, que nada mais era do que o local onde o próprio ribeirão do Campo se jogava para formar o grande reservatório, ou seja, seria mais uma expedição de volta pra casa e que Deus tenha piedade das nossas almas .
                Antes das onde horas da manhã abandonamos o cume, deixando aquela pedra selvagem entregue à sua própria solidão e partimos novamente para o norte, descendo aquela encosta íngreme e escorregadia, cada um tentando se manter em pé ou, como fizeram alguns, escorregando com a bunda, sem cerimônia. E é mesmo um grande barato tentar ludibriar a força da gravidade tentando fazer o equilíbrio perfeito com as mochilas às costas enquanto vamos testando os limites da aderência da rocha. A descida por isso mesmo é lenta e vamos perdendo altitude aos poucos até que desembocamos no início da floresta onde localizamos por dentro da mata um canal rochoso que acaba nos conduzindo sem que tenhamos que abrir mato no peito. Mas como ali, a inclinação ao invés de diminuir só fez aumentar e por causa do excesso de umidade não teve jeito, tivemos todos que descer sentados, escorregando no enorme tobogã natural até que ele nos levasse bem abaixo, para dentro de um riacho.

                Uma olhada no GPS e constatamos que aquele acanhado riacho poderia ser um dos afluentes do Ribeirão do Campo e como ele se dirigia para as coordenadas que nos interessava, não tivemos dúvidas, nos agarramos a ele e fomos descendo por dentro d’água até que ele se estabilizou e foi ganhando novos pequenos afluente, formando poços translúcidos em algumas curvas. A caminhada foi avançando e só saímos do rio quando queríamos escapar de alguma parte um pouco mais funda. Uma hora, em uma curva, ele ganhou um afluente bem mais encorpado e acabou crescendo de vez e umas 3 horas depois de partirmos da Boracéia, interceptamos o grande RIBEIRÃO DO CAMPO, que nem era tão maior do que seu afluente principal. Ali no encontro dos dois rios a paisagem começa a mudar e começa a aparecer o leito pedregoso e por vezes encachoeirados. Ao fundo é possível ver a magnitude da PEDRA DA BORACÉIA dominando o horizonte.

                Alguns corajosos, movidos pela novidade da paisagem, resolveram se jogar nos poços, mas outros queriam mesmo era distância da água fria. Seguimos, mas agora com o grupo dividido entre os que se aventuravam pela água e os que comiam capim, tentando escapar do rio emparedado até que todos se juntaram em um grande poço, um espetáculo formado de água represada que de tão bonito, os meninos o compararam aos rios da Serra da Canastra e por isso vou chamar aqui de POÇO CANASTRApara marcar território. Ficamos ali, diante daquele lugar incrível, batendo papo e nos aquecendo ao sol e aproveitando para dar uma forrada no estômago, enquanto assistíamos alguns se jogarem na água e quando resolvemos partir, dividimos novamente o grupo, mas sempre nos mantendo visíveis e quando o rio voltou a ficar raso , voltamos todos a nos encontrar onde finalmente o Ribeirão do Campo se joga de vez de cima de um cachoeira e vai morrer suavemente no GRANDE LAGO que domina aquelas paragens, com quilômetros de tamanho, um gigante no meio da selva.


          ( Poço Canastra)
               A tarde já ia pela metade quando resolvemos abandonar de vez a Cachoeira da Escada. Havíamos gasto 4 horas do cume da Boracéia até ali, mas foi uma caminhada até que tranquila e sem sobressaltos e ficamos até contentes em termos descobertos esse novo caminho sem ter que varar nenhum mato mais substancial ou ficarmos rodando feito barata tonta, então achamos que dali para frente conseguiríamos localizar uma trilha ou uma picada mais consolidada que pudesse nos levar ainda hoje para civilização, achamos errado.

                Logo perto da cachoeira, um largo e aberto caminho nos fez acreditar que sair dali seria mole, mas não deu 2 minutos de caminhada e a tal trilha se perdeu no nada. Rodamos para cima e para abaixo, um pente fino ao redor e para todas as direções até chegarmos à conclusão mais do que óbvia: Já fazia muito tempo que ninguém botava os pés naquele lugar vindo por terra e se alguém chegou ali, foi navegando pelo grande lago. Na verdade, mesmo dentro de mim já cresceu um sentimento, não tinha como esconder o que estava por vir e uma frase na minha cabeça resumia a situação naquele momento:PUTA QUE O PARIU, A GENTE SE FUDEU BONITO!
                Começamos então a varar mato e como primeiro objetivo elegemos tentar chegar no início de um braço grande do lago, onde tentaríamos acampar em alguma prainha, mas acontece que acabou ocorrendo um fato nesse trajeto: A partir daquele momento acabamos por deixar a navegação a cargo do Luciano, porque além de nos mostrar que tinha competência, ainda era o cara com um celular mais moderno contendo bussola, o que facilitaria muito aquele vara-mato dos infernos. Combinamos então que tentaríamos naquele dia no mínimo chegar até aquele braço, mas nós falávamos de um braço e o Luciano falava de outro. O tempo foi passando e a gente enfiado na floresta, as vezes achávamos algo que nos parecia ser uma picada, mas como todos os caminhos que encontrávamos, não dava em nada e ainda tínhamos que ouvir o Trovo dizer: “Também, isso não era trilha, era só o caminho de anta”. Claro que ouvir isso do Trovo não nos era novidade, já que para ele tudo que existe no mundo em matéria de caminho foi feito por elas (hehehehehe), mas ali parece que ele tinha razão.
                A noite chegou, caímos no fundo de um riacho e logo notamos que estávamos novamente perto do lago e quando o Luciano dizia que estávamos perto do nosso objetivo, ficávamos felizes, mas quando pedimos para ver o gps e descobrimos que ainda estávamos longe de onde pensávamos que poderíamos estar, ficamos extremante desapontados. Mesmo assim, não sendo o braço do rio que pretendíamos acampar, resolvemos ao menos tentar acampar nesse fundo de vale, que era nada mais nada menos que o próprio braço menor do lago, mas quando lá chegamos não existia um só palmo de areia, na verdade era uma margem alagada invadindo uma quiçaça, sem conter nenhuma árvore descente para tentar montar uma rede. Estava tão escuro que pouco enxergávamos, então foi preciso ligar as lanternas de cabeça e decidimos pegar água do lago e partir varando mato, ganhando altura até uma área mais espaçada, mais plana que pudesse comportar um acampamento, mesmo que improvisado, meio nas coxas. Então tocamos para cima, nos agarrando onde desse, na tentativa de vencer os grandes barrancos, meio que uma caminhada suicida, correndo o risco de enfiarmos as mãos em alguma cobra ou outro animal peçonhento. Essa é aquela hora que não queríamos estar ali, a noite já estava fria, a fome já consumia nosso estômago, as energias já eram tiradas de onde já não tínhamos. Foi quando alguém mais sensato resolveu dar um basta naquele sofrimento inútil e gritou lá atrás que poderíamos acampar por ali mesmo, um lugar mequetrefe, com poucas árvores descentes, cheio de bromélias espinhudas e cipós entrelaçados. Alguns protestaram, outros resmungaram, mas logo cada qual foi tratar de encontrar 2 árvores que comportasse sua rede e no fim , acabamos por ajeitar todo mundo e aquilo que seria mais um acampamento no inferno, acabou se tornando nosso lar doce lar por mais uma noite.
                
                A noite foi fria, alguns reclamaram, mas eu como estava bem agasalho, dormi muito bem, mas é sempre um drama levantar da “cama” quentinha e voltar a vestir a roupa úmida ou molhada, mas como tecnicamente seria o último dia, resolvi ficar com a roupa seca mesmo. A equipe pareceria estar bem-humorada, mas o Luciano acabou me preocupando. Ele era um dos “novatos” com a gente, não que fosse sem experiência, longe disso, mas era a primeira vez que se metera nessas expedições incertas e por isso mesmo apresentou um comportamento estranho, tremendo, mesmo bem agasalhado e com uma temperatura agradável. Entendi o que acontecia: o nervosismo não tinha nada a ver com medo, mas vinha da sensação de não dar conta de escapar ainda naquele dia  e perder compromissos inadiáveis, é um sentimento estranho de não conseguir controlar o tempo e nem o destino do jeito que queremos, mas o cara frágil da manhã, se transformaria num monstro no final da tarde.
                Desmontamos tudo, tomamos café e partimos. Já que estávamos a meio caminho do topo do morrote, resolvemos ir até o cume e foi entre grandes árvores que acabamos por localizar um vestígio de trilha, um caminho mais aberto dentro de uma floresta de bambuzinhos, que acabou nos levando para nordeste por quase 1 km, mas surpreendentemente fez uma curva e começou a voltar para noroeste, justamente de volta para as margens do lago, onde localizamos um RANCHO. Aí fica aquela sensação de que seria melhor, abandonar essa trilha de vez e seguir varando mato reto até o destino que vislumbramos ou nos apegarmos àquele rasgo na floresta com caminho desimpedido? Optamos por continuar pela trilha na esperança de ganharmos tempo e escaparmos o mais rápido possível dali. Por mais uns 600 metros tivemos caminho fácil e quando desembocamos novamente no lago e começamos a margeá-lo, pensamos que estaríamos com a vida ganha e até paramos em uma grande clareira de acampamento e por lá ficamos descansando e comendo algo.
                Saindo dessa clareira, novamente localizamos a trilha, que suavemente foi contornando o grande braço do lago, passamos por cima de um grande tronco que nos serviu de ponte e sem nem percebermos, começamos a seguir para nordeste novamente, voltamos a virar para oeste e finalmente para norte, a direção que nos favorecia. Trilhas apareciam, trilhas sumiam, uma hora estávamos caminhando desimpedidamente, outra hora rasgando mato no peito até que na descida de mais um vale ouvimos barulho de gente. Nos apressamos para tentar angariar alguma informação, mas o “ morador provisório” do rancho clandestino picou a mula para o mato, caiu na capoeira, escafedeu-se no mundo, fugiu apressado pensando que fossemos algum tipo de fiscalização. Tentamos localizar alguma trilha clandestino por onde esse “ curupira” poderia ter chegado ao rancho, mas nada encontramos. O dia ia passando e a gente rodando entre picadas clandestina que sumiam do nada e varação de mato. Aquilo já estava dando nos nervos e houve uma hora que os espíritos da floresta se apossaram da gente e ninguém mais se entendia quanto a localização, opiniões diversas começaram a surgir, cada qual queria ir para um lado e foi preciso parar e repensar a estratégia e por fim elegemos o Luciano como navegador oficial da Expedição, caberia a ele nos levar de volta para casa, seria melhor mesmo que um só, com equipamento mais preciso assumisse a navegação. Entramos em acordo para onde seguiríamos, decidimos que nosso objetivo seria uma cachoeira perdida no Rio Claro, aquela seria nossa tábua de salvação e era para lá que o Luciano deveria nos conduzir a partir de agora. – DEIXA COM O PAI! (Carvalho, Luciano)

                Pai Luciano ficou encarregado de nos fazer chegar até o vale de um rio, um afluente do Rio Claro que nos levaria direto para o grande rio e realmente não demorou muito, o encontramos e começamos a descer, o que nos deixava bem tranquilos quanto a navegação, mas era um riozinho de planalto entupido de árvores caída, curvas que não acabavam mais, atoleiros e por vezes era melhor tentar varar mato pela margem do que andar por dentro desse riacho. A tarde já apontou sua cara e nós ainda estávamos ali sem avançar, perdidos dentro daquela floresta e correndo o risco de termos que acampar mais uma noite, sem comida. Mais uma vez não aguentamos, paramos para rever a estratégia e tentar bater no navegador, que sem ter culpa de nada, mandou a gente a merda e resolveu abandonar o rio, traçando uma vara-mato direto para a tal cachoeirinha do Rio Claro.

                Subimos e descemos morro, comemos mato de tudo quanto é jeito, de tudo quanto é qualidade e nos alegramos quando ouvimos ao longe o barulho do rio e a felicidade foi geral ao interceptarmos o GRANDE RIO CLARO e suas cachoeirinhas bucólicas por onde passamos usando o leito raso das suas cabeceiras e ali nos prostramos para um descanso demorado e para comemorar mais essa vitória. Enquanto a galera papeava no alto do POÇO REDONDO, saí à procura de alguma trilha que pudesse nos tirar dali e nos levar para o norte. Encontrei uma trilha se dirigindo para oeste, mas não serviria para a gente, muito provavelmente iria voltar para a Barragem do lago, muitos quilômetros longe do nosso destino. Na entrada para o poço redondo encontrei uma picada discreta subindo para o norte e foi por ela que seguimos, mas o dia já estava nas últimas e não demoraria para a escuridão nos apanhar.
                Seguir para o norte era a certeza de encontrarmos alguma estrada, algum vestígio de civilização, ainda mais por termos observado plantações de eucalipto no mapa, então decidimos que seria para aquela direção que o Luciano deveria apontar a bussola do GPS. A distância não parecia ser muita, mas aí que está o engano, 3 km varando mato morro acima já é algo gigante, mas fazer essa mesma quilometragem a noite já é algo quase que inimaginável para quem já vem se arrastando a 4 dias.
                Vamos seguindo, em fila indiana, alguns se revezam na dianteira, mas logo o Júlio, que parece ter um pawer bank no rabo, assumi a ponta de vez e vai lutando bravamente com o mato, o bambu, o capim, o cipó e como a noite já é nossa companheira, é a luz de lanternas que seguimos e os vultos vão nos parecendo monstros a serem vencidos como se participássemos de uma aventura Quixotesca. Não há mais conversa, só sussurros e gemidos ecoando no silencio da noite. Somos agora um bando que se arrasta, quase sem perceber e sem sentir as pernas. Somos fantasmas que deslizam na escuridão de uma noite fria de inverno, com um céu qualhado de estrelas e já perdemos faz tempo a capacidade de reclamar, apenas somos oito almas que resiste e não se entrega, resilientes de que em algum momento todo aquele sofrimento vai chegar ao fim. Quando o mato acabou e já sentíamos o cheiro de eucaliptos, nos deparamos com um rancho abandonado e ali encontramos uma picada que foi crescendo e logo se transformou numa estradinha cheia de mato que mais à frente se consolidou, se abriu de vez e meia hora depois desembocamos definitivamente numa estrada de verdade e desabamos ali mesmo, cansados, exaustos, mas com a certeza que a nossa missão acabara de ser cumprida.
                A estrada segue para leste e mais à frente interceptamos uma casa e ali imploramos por algo para comer e quando apareceram 2 grandes pacotes de bolacha e uma penca de banana, alguns ficaram emocionados e para mostrar que tinha uma educação de lorde, o Júlio que não queria jogar as cascas de banana no mato, pergunta: - Aí, passa lixeiro por aqui? ( kkkkkkk) Eu e o Régis que estávamos num canto já fora da visão do morador, não nos aguentamos e caímos na risada, aquilo ali era um fim de mundo, uma espécie de fiofó de Salesópolis, estava na cara que não passava lixeiro ali e o simplório morador apenas pediu para que ele jogasse no mato mesmo, porque as galinhas se encarregariam de dar conta do lixo orgânico.
                Estávamos a salvo do mato, éramos agora seres pertencentes a civilização, mas ainda teríamos que arrumar um jeito de voltar para Salesópolis que distava uns 15 km dali e não tínhamos a menor ideia de como faríamos isso naquela hora da noite,mas eis que na escuridão surge um motoqueiro visivelmente mamado, com a cara cheia de pinga e quando fizemos sinal, ele parou imediatamente. Não falava nada com nada, dizia coisas sem nexo, palavras desencontradas, jogadas ao vento, mas disse para a gente não se preocupar que ele daria um jeito de nos tirar dali, iria fazer “um corre” com uns conhecidos e se perdeu na escuridão. Claro, não levamos fé no locutor do Silvio Santos e nem nos apegamos àquela possibilidade, mas quando nos aproximamos um tempo depois do centro do amontoado de casas do Bairro dos Pintos, lá veio o motoqueiro nos chamando para um abrigo e dizendo que em pouco tempo nossa carona chegaria para nos tirar dali e nos levar para cidade. Havíamos desacreditado do morador local e agora teríamos que engolir nosso “pré-conceito” e mais uma vez acabamos por nos deslumbrar com a generosidade humana. Não demora muito, um taxi encosta e leva metade do grupo até um ponto de ônibus e volta para buscar a outra metade e foi assim que cada qual foi se perdendo para uma direção, alguns na região metropolitana de São Paulo e outros como eu, em direção ao interior do Estado.
                
                Ir para o interior selvagem da Serra do Mar Paulista é se jogar de cabeça na mais autêntica aventura que se possa imaginar, é onde a palavra Expedição pode ser usada sem que se caia no ridículo, mas para isso é preciso aceitar os riscos, é preciso compreender que não há garantias de nada, vai estar sempre andando sobre o fio da navalha, vai ter que encarar desafios, saber que sua vida corre perigos constantemente, seja imaginário ou real. Mais uma vez conseguimos juntar um grupo, uma equipe em torno de um projeto que nem nós mesmos poderíamos saber se daria certo ou não e tão difícil quanto executar um projeto, é fazer ele sair do papel, dar vida e agregar pessoas disposta a colocá-lo em pratica. Foram oito homens dispostos a conquistar uma montanha selvagem estabelecendo uma nova rota, um novo caminho e hoje posso dizer que esse novo trajeto para o Cume da Pedra da Boracéia é sem dúvida o melhor de todos, pelo menos por terra. Foi sem dúvida uma das maiores aventuras nossas dos últimos tempos, agregamos novos amigos e fortalecemos velhas amizades, sofremos muito, é verdade, mas nos divertimos como nunca, vivemos a vida com uma intensidade poucas vezes vista e voltamos para casa satisfeitos com nós mesmos, sabendo que fizemos história mais uma vez, se não foi história para montanhismo nacional, foi a nossa história, para contar para os filhos, para os netos sobre o dia em que desafiamos uma montanha e vencemos, não a  montanha, mas a inércia da vida.


               
               
               
               
               
               
      Divanei Goes de Paula Publicado em 12/07/2019 16:33
      Realizada de 20/06/2013 até 25/06/2013
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