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EXPEDIÇÃO PEDRA DA BORACÉIA: Serra do Mar-SP

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                                                                                                       PEDRA DA BORACÉIA

          É na escuridão de uma noite fria de inverno que avançamos lentamente rumo a lugar nenhum. Nossa referência não passa de um ponto distante que miramos para fora da floresta, que nos faz esgueirar entre moitas e moitas de bambuzinhos espinhudos, onde provavelmente jararacuçus nos espreitam assustadas com tal ousadia. Não são nossas pernas que nos carregam, mas nossa vontade de escapar inteiros de uma das maiores aventuras dos últimos tempos e a maioria de nós apenas se arrasta, deixando que a resiliência comande nossos passos e que a luz das nossas lanternas e o céu qualhado de estrelas nos leve à civilização.

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   ( Rafael, Júlio , Vagner , Luciano , Potenza , Régis , Trovo e Divanei . )

          A PEDRA DA BORACÉIA talvez seja dentre as montanhas da Serra do Mar de São Paulo, uma das mais isoladas, não só por estar em uma área de acesso restrito, mas também por se situar em uma parte em que a serra acaba se distanciando do mar, sendo guardada por terras indígenas em meio a florestas quase que intransponíveis com paredões abruptos de centenas de metros. Na carta topográfica consta como PEDRA QUEIMADA e independente de qual seja o verdadeiro nome, alcançar seu cume é estar mais de 100 metros acima do Corcovado de Ubatuba, outro ícone do litoral paulista.

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         Por mais de uma década sonhávamos em conquista-la, mas conseguir as tais autorizações junto à SABESP (Companhia de Águas Paulista) ficava cada vez mais impossível e seria mesmo uma mão na roda porque era a oportunidade de avançar até a pedra por barco, navegando pela Represa do Ribeirão do Campo até a tal Cachoeira da Escada e de lá partir varando mato por umas cinco horas até o cume. Até tentamos por intermédio do Luciano Carvalho, que por lá esteve, perguntando sobre essa tal autorização, mas recebeu um não na fuça e a alegação era que o grande reservatório estava agora infestado de jacarés do papo amarelo.

          Diante da situação apresentada, nos restava apenas tentar angariar informações de alguns raros aventureiros que conseguiram ascender a pedra por trilhas e picadas de mateiros, palmiteiros e caçadores, portanto, ao invés de ir por água, ir tudo por terra. Alguns desses antigos exploradores nem se deram ao trabalho de nos responder, outros responderam com desdenho, alguns até que foram prestativos, mas suas informações foram tão genéricas que era impossível absorver algo. Na verdade, o que queríamos mesmo era um traklog, já que sabíamos que alguns detinham o caminho marcado no GPS, mas esses caras nos enrolaram, como a nos dizer: “ Querem conquistar aquela montanha, se virem, deem seus pulos “.

          Cansamos de esperar pela boa vontade de alguém, mandamos todo mundo a merda e decidimos que se fosse para conquistar  a Boracéia, faríamos isso com nossos proprios esforços, iríamos traçar um novo caminho, uma rota inédita até o cume, nem que essa rota gastasse o dobro do tempo.

          Eu e o Vagner nos debruçamos sobre mapas de satélite e cartas topográficas, buscando informações que nos levasse a um ponto de partida. Encontramos a pouco mais de 5 km em linha reta a leste da Barragem da SABESP, um atrativo turístico conhecido por POÇO BONITO, localizado no Rio Claro, sendo que uma trilha de uns 6 km poderia facilmente nos levar até ele no meio da densa floresta. Acima do Poço Bonito, uma cachoeira marcaria a nossa despedida do Rio Claro.  Esmiuçando a carta topográfica vimos que um grande corredor plano, como se fosse um vale subindo levemente, poderia nos conduzir ao sul até uma grande linha de transmissão de energia e de lá faríamos a curva para oeste novamente, seguindo até perto da base da Boracéia, na teoria poderia dar certo, um plano estava traçado.

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          Traçado o plano, o roteiro e a estratégia, faltava formar o grupo, alguém que comprasse o projeto, mesmo sabendo que poderia ser a maior furada dos infernos. No início praticamente todo mundo fez cara de paisagem, os convites foram sendo negado e alguns exploradores, parceiros nossos das antigas, apenas se mantiveram em silêncio, outros estavam as voltas com compromissos familiares, trabalho e até mudanças e acabamos ficando com 3 integrantes confirmados, além de mim e do Vagner, o Rafael era o outro que desde o começo garantiu seu rabo na expedição. O certo é que joguei uns 10 nomes no grupo de WhatsApp e quando jogamos as cartas sobre a mesa, a maioria da galera tomou ciência da ousadia da Expedição, sabiam eles que seria uma oportunidade única e um a um foram saindo do armário, aniversário de parente, mudança de casa, trabalho, mudança de sexo, tudo foi se perdendo pelo caminho e a Expedição à Pedra da Boracéia ganhou força e corpo.

          No mapa estava tudo pronto, faltava agora ir lá nos cafundós de Salesópolis investigar essa tal trilha até o poço Bonito. O Vagner, o Trovo e o Rafa se prontificaram e coube a eles esse trabalho importante de investigação, aliás, para uma expedição sair do papel é preciso que pessoas se comprometam, botem a mão na massa e o pé na trilha. E os caras fizeram um trabalho lindo, acharam uma trilha de conexão da área rural que nos levaria até o poço e a Cachoeira Bonita, a primeira parte estava pronta, agora era montar a logística e reunir os expedicionários em torno do projeto.

          Agora com todo mundo motivado, escolhemos um feriado de junho para a expedição e seria a primeira vez que a gente se jogaria na Serra do Mar em pleno inverno e só fizemos isso justamente porque o nosso motivo maior seria uma montanha e não a exploração de rios selvagens, mas o tempo nos mostraria que não era bem assim como pensávamos. No horário marcado, nos encontramos todos (menos o safado do Rafa que chegou com uma hora de atraso) na Estação Estudantes, em Mogi das Cruzes, onde uma van nos esperava para nos desovar lá na área rural de Salesópolis. O motorista sentou o cacete e quando chegou no município citado, passou batido até interceptar a Estrada da Petrobras e transitou por ela cerca de uns 8 km, entrou à direita e uns 5 km depois saltamos no escuro, sei lá onde, num tal de Bairro dos Pintos e por mais uma meia hora nos pusemos a caminhar até que o Vagner localizou a tal trilha que passa ao lado de um sítio e embrenha na mata, vai descendo em nível, passa pelo Rio Clarinho, onde o Trovo e o Potenza resolveram cair de uma pontinha de madeira, segue sempre no aberto e uma hora e meia depois de iniciarmos na estrada, desembocamos na bucólica prainha do Poço Bonito do Rio Claro.

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   ( Prainha do Poço Bonito)

          A madrugada já ia alta, mas surpreendentemente não fazia frio e decidimos montar um grande bivac sobre a areia da prainha. Sacamos uma corda, enfincamos um grande galho na areia e amarramos a corda no galho e em uma árvore nas margens do rio, jogamos a lona por cima e outra por baixo e jogamo-nos para debaixo com nossos sacos de dormir. Foi uma noite de cão para alguns que quase congelaram de frio, mas eu dessa vez não economizei nos agasalhos e dormi feito pedra até pouco depois das 6 da manhã. O dia amanheceu ensolarado, o que ajudou a animar a galera, que a partir de agora sabia que o passeio havia terminado e pela frente havíamos de enfrentar 4 longos de dias de aventuras selvagens.

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          O Poço Bonito é um lugar lindo, um espelho d’água ótimo para um banho demorado em suas piscinas naturais, mas não no inverno. Então abandonamos ele pela esquerda, interceptando uma trilha que em alguns minutos nos levou até a CACHOEIRA DO POÇO BONITO, uma queda d’água não muito alta, mas muito cênica, muito parecida com a Cachoeira do Diabo, mas em menores proporções, provando que esse Rio Claro é realmente impressionante, mas o melhor ainda estava para ser descoberto. Depois de alguns clics da cachu , já fomos nos encaminhado para abandoná-la pela direita, mas antes disso uma chuvinha fina despencou sobre nossas cabeças antes das nove da manhã , mas isso não foi o suficiente para nos tirar o bom humor, porque a previsão do tempo já havia nos dito que haveria uma possibilidade pequena de precipitação.

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   (Cachoeira do poço Bonito)

          Um a um fomos nos enfiando na mata e rasgando a floresta no peito, agora tendo como referência o traklog desenhado por mim e pelo Vagner no mapa de satélite que iria de encontro a um possível vale, um corredor que pudesse nos conduzir direto para o sul até que alcançássemos a tal rede de Alta Tensão, nosso próximo objetivo. O Trovo seguiu à frente porque já havia avançado por aquele terreno na semana passada, mas logo resolveu mudar de rumo para se livrar de umas moitas de bambu. Fomos ziguezagueando meio que para sudeste, fazendo uma diagonal até que pudéssemos interceptar de vez o caminho traçado para o gps e não demora muito, coisa de 20 minutos, tropeçamos em um rancho de palmiteiros/caçadores, incrivelmente bem preservado e sendo usado constantemente, provando que fiscalização ali não existe ou é totalmente ineficiente, a ponto dessa gente deitar e rolar, devastando florestas e florestas de palmeira Jussara.

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          Concertamos o rumo e logo nos apareceu um rabo de trilha e alguém cantou que poderia nos levar para o rumo desejado, mas sem que percebêssemos, acabou nos fazendo rodar em círculos, perdendo tempo precioso. Andar com gps, principalmente um instalado no celular, parece fácil, parece que é só ir seguindo a bolinha, a setinha, sempre corrigindo o rumo, mas só parece. Algumas vez acontece um pequeno deley, um atraso que acaba confundindo o navegador, muito porque não é possível e nem viável ficar o tempo todo com os olhos grudados no aparelho, então qualquer desvio acaba fazendo a gente tomar o rumo errado e tendo que gastar energia preciosa para voltar para o rumo certo.

          Entre acertos e erros, uma picada nos fez voltar para o sul e nos deixou bem perto da linha que havíamos marcado no mapa e quando encontramos um córrego, na verdade um rio até que caudaloso, pensamos ter encontrado o nosso caminho definitivo, mas uma burrada monstro nos fez descer o rio ao invés de subir e de uma hora para outra , perdemos a direção , o bom senso e a nossas faculdades mentais, estávamos perdidos em algum lugar que até então  estava difícil sabermos qual foi o erro cometido, principalmente quando avistamos um outro rio muito maior do que o que havíamos descido e de onde despencava uma cachoeira gigante que nunca imaginávamos existir.

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          Tudo estava confuso, de onde brotou aquele rio enorme? Que cachoeira seria aquela já que não constava em lugar nenhum, em mapa nenhum? Houve um momento de estresse, cada um dava um palpite diferente, cada um queria seguir por um caminho diferente para nos recolocar na rota, mas antes que a gente nos pegássemos na porrada para saber quem tinha razão, deixamos aquela discussão estéril de lado e fomos nos deslumbrar com aquela cachoeira perdida. A diversão e o encantamento fizeram com que colocássemos nossa cabeça para funcionar e a partir daí o Luciano sacou seu gps com bussola embutida, azimutou a direção e disse: “ Caralho, cometemos um erro tosco, ao invés de subirmos o rio, acabamos descendo “. Bingo! Isso mesmo, nossa rota para o sul era surpreendentemente subindo o rio, que depois descobri chamar-se RIO DO ALEGRE, um grande afluente do Rio Claro. Claro mesmo era que viramos tanto para sudeste que acabamos voltando de novo para o rio principal, só que muito mais acima dele. O erro foi dantesco, mas acabou nos dando de presente uma paisagem incrível, até então não relatada na literatura “internética”, conhecida somente por algum mateiro local e revelada ao mundo agora por nós, que sem conhecermos o nome, resolvemos chama-la de CACHOEIRA PADRE DÓRIA, até que alguém nos sopre o nome verdadeiro.

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     (Cachoiera Padre Dória)

          Abandonamos, portanto, a grande queda d’água e voltamos a subir esse tributário do Rio Claro e quanto chegamos a um girau de caça o rio deu uma curvada e se abriu numa sequência de cachoeirinhas e degraus. Até então não sabíamos se esse rio realmente iria continuar seguindo para sul,mas enquanto ele nos favorecesse, seria o nosso guia, mesmo que fizesse muitas curvas porque ter um caminho livre de mato, bambu e cipó seria ouro no meio daquela floresta fechada. Os degraus foram aumentando e as cachoeiras se multiplicando até que o rio se estabilizou de vez e começou a subir suavemente, com a água hora pela canela, hora pela cintura, mas como a temperatura havia caído e o sol havia deixado de dar as caras desde as onze da manhã, a água gelada começava e incomodar e quando podíamos, fugíamos pela margem para evitar a friaca. 

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          Apesar de estarmos subindo o rio e a tendência era de que ele fosse ficando cada vez com menos água, porque iria perder afluentes ao longo do caminho, isso não se confirmou e ele acabou ganhando foi piscinas naturais conforme ia se aproximando do planalto e era inevitável que de vez enquanto molhássemos acima da cintura e isso começou a fazer estragos e não demorou para surgirem as primeiras vítimas: Rafael foi o primeiro a sucumbir e foi preciso que o Luciano intervisse já que o menino tem os dotes de massagista e logo deu um jeito , mas não demorou muito e lá estava o Vagner estirado no chão se contorcendo por causa das câimbras também . Engraçado que sempre a pessoa que mais sofre com as baixas temperaturas sou eu, mas dessa vez os novinhos começaram a cair um a um e para variar a outra perna do Vagner travou também e lá foi novamente o Luciano fazer um carinho no menino.

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          O tempo foi passando, o rio curvando para todo lado, mas sempre se mantendo para o sul. A temperatura caindo vertiginosamente conforme a tarde foi se aproximando e a sensação de que nunca chegávamos a tal Linha de Transmissão foi aumentando. Eu mesmo com uma camisa de neopremo sofria e gastava energia preciosa para fugir dos poços mais fundo porque a margem do rio era feita de bambus entrelaçados que dificultava o avanço. As vezes fazíamos algumas paradas para mordiscar alguma coisa, mas a retomada da caminhada era lenta e sofrível por causa do esfriamento dos músculos. O moral do grupo estava baixo, ninguém conversava mais, era nítido o sofrimento estampado no rosto de cada um e finalmente quando o Rio do Alegre cruzou a tal LINHA DE ALTA-TENSÃO e o nosso gps marcou a hora de virar para OESTE, o que estava ruim se transformou em pesadelo.

          Ainda sem encontrar um lugar descente para acampar e passando das cinco da tarde a chuva que ameaçou desabar durante as últimas horas, caiu toda de uma vez e a gente que já vinha sofrendo com a temperatura da água, agora nos encontrávamos em semi- hipotermia. Subimos o barranco à direita e tentamos nos abrigar na floresta, agora com terreno um pouco mais plano. Cada qual corre para tentar achar duas árvores descentes para montar sua rede e seu toldo, mas por sermos em oito foi difícil conciliar espaço para todo mundo.

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          Não é possível narrar o sentimento alheio por completo, mas eu estava verdadeiramente na lona. O frio era tanto que não conseguia parar de tremer e muito menos conseguia pensar em uma solução. Árvores que pudessem me atender, eu não encontrava e quanto mais eu ficava exposto as intemperes do tempo, mais eu ia definhando, murchando e aquele aguaceiro dos infernos que não cessava ia fazendo com que a temperatura do meu corpo caísse de uma forma preocupante. Precisa fazer algo por mim, sair da chuva. Estiquei a lona em duas árvores esparsas e me enfiei embaixo e por lá fiquei, parado, inerte, pensado se ainda tinha idade para passar tamanho perrengue, pensando se já não estava na hora de parar de me enfiar nessas furadas. Poderia estar em casa, comendo bem e dormindo lindamente numa cama quentinha e macia, mas não, estava ali todo molhado, enfiado a um dia de caminhada do lugar habitado mais próximo, dentro de uma floresta fechada com uma chuva de inverno castigando sem dó e nem piedade a meio caminho de lugar nenhum.

          Era preciso agir. Saí do estado de inércia em que me encontrava, larguei minha mochila ao chão e fui esticar as beiradas da lona plástica. Retirei minha rede seca da mochila e amarrei nas duas árvores que por sorte deram espaço suficiente entre uma e outra. Tirei a roupa molhada, vesti uma seca e me enfiei dentro do saco de dormir, muito bem agasalhado. Aos poucos fui me aquecendo, a tremedeira passando e quando me dei conta já estava no mundo de Nárnia, num sono profundo, em estado de hibernação. Uma hora depois, já recuperado, levantei-me e fui cuidar do jantar que fiz juntamente com o Régis e embaixo da lona dele, ficamos até mais tarde jogando conversa fora até que definitivamente apanhei minhas coisas e fui morrer na escuridão da noite num canto isolado do grupo, mas ainda assim a ponto de ouvir o Júlio fazer um discurso na alta madrugada, porque não basta ser maluco, tem que ser sonambulo e incorporar espíritos.

          O dia amanhece sem chuvas, mas ainda com muitas nuvens. Desarmar o acampamento é uma coisa lenta e vagarosa, ninguém parece querer sair da rede quentinha e só lá pelas nove da manhã é que nos animamos a partir. A primeira coisa a fazer é localizar uma grande torre de Alta Tensão que pelos nossos cálculos não estava muito longe, já que agora bem visível sobre nossas cabeças passavam os fios de eletricidade, bem altos, mas mesmo assim ainda visíveis por entre as grandes árvores. Bastou um vara-mato despretensioso e logo a tal torre nos saltou aos olhos, reinando sobre uma pequena colina verdejante e desprovida de árvores e foi para lá que seguimos, agora no aberto e enfim com um pouco de horizonte e sol para nos alegrar a alma. Chegar a TORRE foi um marco, uma virada no ânimo da equipe. Subimos alguns metros, mas nem era preciso, do chão mesmo agora era possível avistar toda a imponência da cadeia de montanhas de onde a Pedra da Boracéia reinava absoluta ainda com seu topo sendo varrido por nuvens de algodão.

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          Outra coisa logo de cara nos chamou atenção: Toda a extensão do terreno onde as torres passavam e que no satélite parecia capim alto, na verdade tratava-se de um emaranhado de pequenos arbustos e uma vegetação de passagem complicada, onde uma quiçaça entrelaçada não parecia dar passagem tão facilmente como imaginávamos, mas a simples segurança de poder nos guiar quase pelo resto do dia pelos fios de energia, já nos deixava feliz e se fosse preciso iríamos  arrastar aquela vegetação espinhuda no peito até o tão desejado cume.

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          Agora nos valendo da direção oeste, vamos galgando o terreno ondulado até a próxima torre, uns 300 ou 500 metros à frente. Trovo vai abrindo caminho e a gente segue atrás, cada um ajudando o companheiro da frente a se livrar dos cipós que vão enroscando nas mochilas. As vezes o terreno acaba nos levado um pouco para fora da linha das torres, mas é só uma estratégia a fim de trilhar por melhores caminhos e uns 40 minutos depois atingimos a segunda torre e a cada torre conquistada é motivo para uma parada mais demorada a fim de comer algo, beber uma água e jogar conversa fora admirando a paisagem ao redor.

           Pelo resto do dia essa foi a toada, conquistar torres! Foram 2 km varando mato e vales entre uma e outra até que aportamos na quinta torre, a uns 300 metros da base rochosa da Boracéia. Eram umas três da tarde e poderíamos tentar alcançar mais uma torre e de lá virar novamente para o sul varando mato até o pé da Pedra, mas estamos ansiosos demais e entramos em consenso para traçarmos um caminho direto para a face pedregosa da montanha, nossos pés estavam ávidos por pisar naquelas rochas lendárias.

          Juntamos o grupo e traçamos o caminho mentalmente. Fizemos uma diagonal para sudoeste e despencamos no buraco, quase um abismo no mato, descendo um barranco, escorregando para o fundo do vale até interceptarmos um riacho, cruzá-lo para o outro lado e pegar a direção da Pedra, subindo. Mais no alto conseguimos achar uma picada e seguimos por ela sempre na ascendência até que  uma meia hora acima do córrego ela acabou no capim, mas aí já estávamos sentindo o cheiro da rocha exposta, varamos uma língua de vegetação alta e ganhamos a face exposta da Pedra da Boracéia, agora não tinha erro, o caminho era escalaminhado a parede rochosa até o cume, mas antes uma parada para juntar a equipe, tomar um gole de água e mordiscar alguma coisa.

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          Diante de nós uma rampa gigantesca se apresentava. Os mais ousados subiram pelo meio, se agarrando ao pouco de aderência que a pedra nos proporcionava, caminhando no limite da força da gravidade, um vacilo e o rola montanha abaixo seria certo. Os mais tímidos se encaminharam para as laterais onde alguma vegetação conseguia dar uma maior segurança, mesmo que apenas psicológica. O grupo acabou se dividindo em várias frentes, cada qual no seu ritmo, cada um tentando buscar sua própria força, física e mental. A caminhada é lenta, o avanço é moroso, a ansiedade vai servindo de combustível para a conquista. De repente o Luciano e o Rafael ficaram muito para trás se arrastando nos seus sofrimentos individuais, mas como o caminho é óbvio, os grupos vão seguindo, sempre para o alto, galgando cada lombada do terreno. Enquanto o cume não é conquistado nos restam as paisagens ao Norte, onde a Represa do Ribeirão do Campo nos alegra a alma, um mundo de água perdido em meio a uma das florestas mais exuberantes do mundo.

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          Com o cume da montanha ainda sendo visitado esporadicamente por nuvens, que dançavam ao sabor do vento, resolvemos nos deter em uma área abrigada, junto a alguns pequenos arbustos para esperar que todo o grupo se unisse e quando os retardatários chegaram, nos juntamos em uma só equipe e partimos para a conquista final. Não há um caminho definido que nos leve direto para lá, então vamos abrindo a vegetação no peito mesmo até que, sem percebermos, o mundo acaba sob os nossos pés e outro mundo, o mundo dos abismos, o mundo das largas vistas, um mundo feito de águas oceânicas e areias prateadas se descortina, enfim no topo da PEDRA DA BORAÇEIA (1270 m), o gigante perdido, a lenda da Serra do Mar Paulista, onde poucos tiveram o prazer de colocar os pés, estava definitivamente conquistada.

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          Como era finalzinho de tarde e o tempo ainda estava meia boca, com muitas plumas, resolvemos deixar  o dia seguinte para maiores contemplações e nos voltamos para assistir ao pôr do sol que já ia se jogando para oeste e também para planejarmos a nossa estadia no cume. Em meio as caratuvas e pequenos arbustos que compõem o cume propriamente dito, não encontramos nada que nos servisse, talvez uma ou outra arvorezinha aguentasse uma rede, mas a exposição seria um preço muito alta a pagar, então decidimos que desceríamos uns 100 metros e tentaríamos um bivac coletivo junto a uma área mais abrigada do vento.

          Enquanto o grupo se unia para conseguir um lugar abrigado e descente para todos, eis que que surgem 2 desertores, traidores do movimento montanhista e travessias selvagens na serra do Mar Paulista. Daniel Trovo e Rafael Araújo, abandonaram o grupo e mancomunados um com o outro, resolveram que montariam suas redes individuais, se valendo de um ou outro arbusto perdido na vegetação rasteira. Enquanto o alto comando (que não existe) assistia perplexo a traição sorrateira e covarde, voltamos a nos concentrar no abrigo. Em meio a um canto quase que beirando o abismo voltado para a face leste, nos concentramos na limpeza de uma área, retirando pequenas raízes no intuito de deixar o chão com possibilidade de podermos ter uma noite de sono razoável. Feito o trabalho, jogamos as lonas por cima dos arbustos e as amarramos, formando assim uma grande tenda para abrigar 06 exploradores. Jogamos uma grande lona no chão para isolar do frio e cada um escolheu seu canto e ali montou sua cama se utilizando de sacos de dormir.

          Estávamos todos  embaixo do nosso abrigo, nossa casa de montanha, felizes a contar causos de aventuras passadas, enquanto nossos fogareiros ronronavam exalando o puro perfume da boa comida, foi quando ouvimos um estrondo que ecoou em todo o cume daquela montanha isolada do mundo: Corremos a tempo de ver os traidores estatelados no chão, depois que o arbusto que haviam se pendurado com as redes veio a baixo e como usavam em parceria, lá ficaram as duas bestas, caídas na relva molhada de uma noite fria, no cume da Pedra da Boracéia. Imediatamente NÃO corremos para socorrê-los, apenas nos cagamos todos de tanto dar risada. ( kkkkkkk). Depois desse episódio, os desertores pediram clemência e se humilharam para se abrigarem junto com a gente, inclusive um deles teve que se deitar aos nossos pés e lá ficou, quase como um cão de guarda, rsrsrsrsrsrs.

          Oito almas viventes se espremeram naquele fim de mundo e na madrugada fria o vento varreu o cume e ameaçou jogar nosso abrigo lá para os abismos do litoral. Eu me encolhi o quanto pude, virei quase um tatu bola dentro do meu saco de dormir e não sei em que hora comecei a ouvir um zum zum, mas pensei ser novamente o Júlio recebendo o espírito do Dr. Fritz, então não ousei a colocar a cabeça para fora e depois fiquei sabendo que a nossa lona havia se rompido e a galera teve que se virar para deixar nosso abrigo novamente de pé, mas não foi só eu não. Daniel Trovo também se fingiu de morto e não levantou para ajudar. Eu era um safado, mas esse Trovo já estava passando dos limites, (rsrsrsrsrsrs).

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          O dia que amanhe é lindo. Nenhuma nuvem no céu, nenhum vento, temperatura fria, mas agradável. Todo o grupo se levantou para ver o sol nascer e depois que a bola de fogo se estabilizou, corremos para o cume a fim de nos encantarmos definitivamente com a paisagem. Verdade mesmo que o melhor lugar para esses deslumbramentos não é no cume, mas alguns metros mais abaixo, onde uma pedra exposta é capaz de acomodar todo o grupo. Estar no cume da Boracéia ou PEDRA QUEIMADAcomo alguns preferem chamar e como consta em alguns mapas, é ter a honra de entrar para a galeria de meia dúzia de aventureiros e melhor ainda, é pensar que chegamos ali pelos nossos próprios méritos, uma rota nova criada por nós, uma verdadeira expedição até o cume. O espetáculo ao longe, numa visão de 360 graus ao nosso redor. Praias, ilhas, montanhas, abismos, florestas, um oceano incrivelmente belo. Do cume verdadeiro se abre ainda mais um horizonte extenso, onde é possível ver desde a baixada Santista até muito mais ao norte, passando pela famosa Ilha Bela e seus contornos gigantes. Bem aos nossos pés a praia da Boracéia e a Reserva Indígena da Tribo Silveiras, uma planície litorânea lindíssima forrada de florestas, onde rios quase que intocados desfilam como cobras a serpentear até o mar. Falando em reserva indígena, num primeiro momento pensávamos em estabelecer uma rota para o litoral, descendo em direção as terras dos índios, mas como o tempo se encurtou e alguns ainda estavam receosos de não conseguirmos finalizar essa expedição em 4 dias, resolvemos que não desceríamos até o mar, voltaríamos para o norte, voltando novamente por Salesópolis.

 

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          Haviam dois ou três que ainda tentaram persuadir o grupo a seguir o plano original, mas como fomos vencidos, batemos o pé para voltar por outro caminho, quem sabe o caminho tradicional, voltando pela Represa do Ribeirão do Campo, mas havia um porém; não tínhamos informação de como fazer isso, apenas sabíamos que deveríamos chegar até a tal CACHOEIRA DA ESCADA, que nada mais era do que o local onde o próprio ribeirão do Campo se jogava para formar o grande reservatório, ou seja, seria mais uma expedição de volta pra casa e que Deus tenha piedade das nossas almas .

          Antes das onde horas da manhã abandonamos o cume, deixando aquela pedra selvagem entregue à sua própria solidão e partimos novamente para o norte, descendo aquela encosta íngreme e escorregadia, cada um tentando se manter em pé ou, como fizeram alguns, escorregando com a bunda, sem cerimônia. E é mesmo um grande barato tentar ludibriar a força da gravidade tentando fazer o equilíbrio perfeito com as mochilas às costas enquanto vamos testando os limites da aderência da rocha. A descida por isso mesmo é lenta e vamos perdendo altitude aos poucos até que desembocamos no início da floresta onde localizamos por dentro da mata um canal rochoso que acaba nos conduzindo sem que tenhamos que abrir mato no peito. Mas como ali, a inclinação ao invés de diminuir só fez aumentar e por causa do excesso de umidade não teve jeito, tivemos todos que descer sentados, escorregando no enorme tobogã natural até que ele nos levasse bem abaixo, para dentro de um riacho.

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          Uma olhada no GPS e constatamos que aquele acanhado riacho poderia ser um dos afluentes do Ribeirão do Campo e como ele se dirigia para as coordenadas que nos interessava, não tivemos dúvidas, nos agarramos a ele e fomos descendo por dentro d’água até que ele se estabilizou e foi ganhando novos pequenos afluente, formando poços translúcidos em algumas curvas. A caminhada foi avançando e só saímos do rio quando queríamos escapar de alguma parte um pouco mais funda. Uma hora, em uma curva, ele ganhou um afluente bem mais encorpado e acabou crescendo de vez e umas 3 horas depois de partirmos da Boracéia, interceptamos o grande RIBEIRÃO DO CAMPO, que nem era tão maior do que seu afluente principal. Ali no encontro dos dois rios a paisagem começa a mudar e começa a aparecer o leito pedregoso e por vezes encachoeirados. Ao fundo é possível ver a magnitude da PEDRA DA BORACÉIA dominando o horizonte.

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          Alguns corajosos, movidos pela novidade da paisagem, resolveram se jogar nos poços, mas outros queriam mesmo era distância da água fria. Seguimos, mas agora com o grupo dividido entre os que se aventuravam pela água e os que comiam capim, tentando escapar do rio emparedado até que todos se juntaram em um grande poço, um espetáculo formado de água represada que de tão bonito, os meninos o compararam aos rios da Serra da Canastra e por isso vou chamar aqui de POÇO CANASTRApara marcar território. Ficamos ali, diante daquele lugar incrível, batendo papo e nos aquecendo ao sol e aproveitando para dar uma forrada no estômago, enquanto assistíamos alguns se jogarem na água e quando resolvemos partir, dividimos novamente o grupo, mas sempre nos mantendo visíveis e quando o rio voltou a ficar raso , voltamos todos a nos encontrar onde finalmente o Ribeirão do Campo se joga de vez de cima de um cachoeira e vai morrer suavemente no GRANDE LAGO que domina aquelas paragens, com quilômetros de tamanho, um gigante no meio da selva.

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    ( Poço Canastra)

         A tarde já ia pela metade quando resolvemos abandonar de vez a Cachoeira da Escada. Havíamos gasto 4 horas do cume da Boracéia até ali, mas foi uma caminhada até que tranquila e sem sobressaltos e ficamos até contentes em termos descobertos esse novo caminho sem ter que varar nenhum mato mais substancial ou ficarmos rodando feito barata tonta, então achamos que dali para frente conseguiríamos localizar uma trilha ou uma picada mais consolidada que pudesse nos levar ainda hoje para civilização, achamos errado.

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          Logo perto da cachoeira, um largo e aberto caminho nos fez acreditar que sair dali seria mole, mas não deu 2 minutos de caminhada e a tal trilha se perdeu no nada. Rodamos para cima e para abaixo, um pente fino ao redor e para todas as direções até chegarmos à conclusão mais do que óbvia: Já fazia muito tempo que ninguém botava os pés naquele lugar vindo por terra e se alguém chegou ali, foi navegando pelo grande lago. Na verdade, mesmo dentro de mim já cresceu um sentimento, não tinha como esconder o que estava por vir e uma frase na minha cabeça resumia a situação naquele momento:PUTA QUE O PARIU, A GENTE SE FUDEU BONITO!

          Começamos então a varar mato e como primeiro objetivo elegemos tentar chegar no início de um braço grande do lago, onde tentaríamos acampar em alguma prainha, mas acontece que acabou ocorrendo um fato nesse trajeto: A partir daquele momento acabamos por deixar a navegação a cargo do Luciano, porque além de nos mostrar que tinha competência, ainda era o cara com um celular mais moderno contendo bussola, o que facilitaria muito aquele vara-mato dos infernos. Combinamos então que tentaríamos naquele dia no mínimo chegar até aquele braço, mas nós falávamos de um braço e o Luciano falava de outro. O tempo foi passando e a gente enfiado na floresta, as vezes achávamos algo que nos parecia ser uma picada, mas como todos os caminhos que encontrávamos, não dava em nada e ainda tínhamos que ouvir o Trovo dizer: “Também, isso não era trilha, era só o caminho de anta”. Claro que ouvir isso do Trovo não nos era novidade, já que para ele tudo que existe no mundo em matéria de caminho foi feito por elas (hehehehehe), mas ali parece que ele tinha razão.

          A noite chegou, caímos no fundo de um riacho e logo notamos que estávamos novamente perto do lago e quando o Luciano dizia que estávamos perto do nosso objetivo, ficávamos felizes, mas quando pedimos para ver o gps e descobrimos que ainda estávamos longe de onde pensávamos que poderíamos estar, ficamos extremante desapontados. Mesmo assim, não sendo o braço do rio que pretendíamos acampar, resolvemos ao menos tentar acampar nesse fundo de vale, que era nada mais nada menos que o próprio braço menor do lago, mas quando lá chegamos não existia um só palmo de areia, na verdade era uma margem alagada invadindo uma quiçaça, sem conter nenhuma árvore descente para tentar montar uma rede. Estava tão escuro que pouco enxergávamos, então foi preciso ligar as lanternas de cabeça e decidimos pegar água do lago e partir varando mato, ganhando altura até uma área mais espaçada, mais plana que pudesse comportar um acampamento, mesmo que improvisado, meio nas coxas. Então tocamos para cima, nos agarrando onde desse, na tentativa de vencer os grandes barrancos, meio que uma caminhada suicida, correndo o risco de enfiarmos as mãos em alguma cobra ou outro animal peçonhento. Essa é aquela hora que não queríamos estar ali, a noite já estava fria, a fome já consumia nosso estômago, as energias já eram tiradas de onde já não tínhamos. Foi quando alguém mais sensato resolveu dar um basta naquele sofrimento inútil e gritou lá atrás que poderíamos acampar por ali mesmo, um lugar mequetrefe, com poucas árvores descentes, cheio de bromélias espinhudas e cipós entrelaçados. Alguns protestaram, outros resmungaram, mas logo cada qual foi tratar de encontrar 2 árvores que comportasse sua rede e no fim , acabamos por ajeitar todo mundo e aquilo que seria mais um acampamento no inferno, acabou se tornando nosso lar doce lar por mais uma noite.

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          A noite foi fria, alguns reclamaram, mas eu como estava bem agasalho, dormi muito bem, mas é sempre um drama levantar da “cama” quentinha e voltar a vestir a roupa úmida ou molhada, mas como tecnicamente seria o último dia, resolvi ficar com a roupa seca mesmo. A equipe pareceria estar bem-humorada, mas o Luciano acabou me preocupando. Ele era um dos “novatos” com a gente, não que fosse sem experiência, longe disso, mas era a primeira vez que se metera nessas expedições incertas e por isso mesmo apresentou um comportamento estranho, tremendo, mesmo bem agasalhado e com uma temperatura agradável. Entendi o que acontecia: o nervosismo não tinha nada a ver com medo, mas vinha da sensação de não dar conta de escapar ainda naquele dia  e perder compromissos inadiáveis, é um sentimento estranho de não conseguir controlar o tempo e nem o destino do jeito que queremos, mas o cara frágil da manhã, se transformaria num monstro no final da tarde.

          Desmontamos tudo, tomamos café e partimos. Já que estávamos a meio caminho do topo do morrote, resolvemos ir até o cume e foi entre grandes árvores que acabamos por localizar um vestígio de trilha, um caminho mais aberto dentro de uma floresta de bambuzinhos, que acabou nos levando para nordeste por quase 1 km, mas surpreendentemente fez uma curva e começou a voltar para noroeste, justamente de volta para as margens do lago, onde localizamos um RANCHO. Aí fica aquela sensação de que seria melhor, abandonar essa trilha de vez e seguir varando mato reto até o destino que vislumbramos ou nos apegarmos àquele rasgo na floresta com caminho desimpedido? Optamos por continuar pela trilha na esperança de ganharmos tempo e escaparmos o mais rápido possível dali. Por mais uns 600 metros tivemos caminho fácil e quando desembocamos novamente no lago e começamos a margeá-lo, pensamos que estaríamos com a vida ganha e até paramos em uma grande clareira de acampamento e por lá ficamos descansando e comendo algo.

          Saindo dessa clareira, novamente localizamos a trilha, que suavemente foi contornando o grande braço do lago, passamos por cima de um grande tronco que nos serviu de ponte e sem nem percebermos, começamos a seguir para nordeste novamente, voltamos a virar para oeste e finalmente para norte, a direção que nos favorecia. Trilhas apareciam, trilhas sumiam, uma hora estávamos caminhando desimpedidamente, outra hora rasgando mato no peito até que na descida de mais um vale ouvimos barulho de gente. Nos apressamos para tentar angariar alguma informação, mas o “ morador provisório” do rancho clandestino picou a mula para o mato, caiu na capoeira, escafedeu-se no mundo, fugiu apressado pensando que fossemos algum tipo de fiscalização. Tentamos localizar alguma trilha clandestino por onde esse “ curupira” poderia ter chegado ao rancho, mas nada encontramos. O dia ia passando e a gente rodando entre picadas clandestina que sumiam do nada e varação de mato. Aquilo já estava dando nos nervos e houve uma hora que os espíritos da floresta se apossaram da gente e ninguém mais se entendia quanto a localização, opiniões diversas começaram a surgir, cada qual queria ir para um lado e foi preciso parar e repensar a estratégia e por fim elegemos o Luciano como navegador oficial da Expedição, caberia a ele nos levar de volta para casa, seria melhor mesmo que um só, com equipamento mais preciso assumisse a navegação. Entramos em acordo para onde seguiríamos, decidimos que nosso objetivo seria uma cachoeira perdida no Rio Claro, aquela seria nossa tábua de salvação e era para lá que o Luciano deveria nos conduzir a partir de agora. – DEIXA COM O PAI! (Carvalho, Luciano)

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          Pai Luciano ficou encarregado de nos fazer chegar até o vale de um rio, um afluente do Rio Claro que nos levaria direto para o grande rio e realmente não demorou muito, o encontramos e começamos a descer, o que nos deixava bem tranquilos quanto a navegação, mas era um riozinho de planalto entupido de árvores caída, curvas que não acabavam mais, atoleiros e por vezes era melhor tentar varar mato pela margem do que andar por dentro desse riacho. A tarde já apontou sua cara e nós ainda estávamos ali sem avançar, perdidos dentro daquela floresta e correndo o risco de termos que acampar mais uma noite, sem comida. Mais uma vez não aguentamos, paramos para rever a estratégia e tentar bater no navegador, que sem ter culpa de nada, mandou a gente a merda e resolveu abandonar o rio, traçando uma vara-mato direto para a tal cachoeirinha do Rio Claro.

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          Subimos e descemos morro, comemos mato de tudo quanto é jeito, de tudo quanto é qualidade e nos alegramos quando ouvimos ao longe o barulho do rio e a felicidade foi geral ao interceptarmos o GRANDE RIO CLARO e suas cachoeirinhas bucólicas por onde passamos usando o leito raso das suas cabeceiras e ali nos prostramos para um descanso demorado e para comemorar mais essa vitória. Enquanto a galera papeava no alto do POÇO REDONDO, saí à procura de alguma trilha que pudesse nos tirar dali e nos levar para o norte. Encontrei uma trilha se dirigindo para oeste, mas não serviria para a gente, muito provavelmente iria voltar para a Barragem do lago, muitos quilômetros longe do nosso destino. Na entrada para o poço redondo encontrei uma picada discreta subindo para o norte e foi por ela que seguimos, mas o dia já estava nas últimas e não demoraria para a escuridão nos apanhar.

          Seguir para o norte era a certeza de encontrarmos alguma estrada, algum vestígio de civilização, ainda mais por termos observado plantações de eucalipto no mapa, então decidimos que seria para aquela direção que o Luciano deveria apontar a bussola do GPS. A distância não parecia ser muita, mas aí que está o engano, 3 km varando mato morro acima já é algo gigante, mas fazer essa mesma quilometragem a noite já é algo quase que inimaginável para quem já vem se arrastando a 4 dias.

          Vamos seguindo, em fila indiana, alguns se revezam na dianteira, mas logo o Júlio, que parece ter um pawer bank no rabo, assumi a ponta de vez e vai lutando bravamente com o mato, o bambu, o capim, o cipó e como a noite já é nossa companheira, é a luz de lanternas que seguimos e os vultos vão nos parecendo monstros a serem vencidos como se participássemos de uma aventura Quixotesca. Não há mais conversa, só sussurros e gemidos ecoando no silencio da noite. Somos agora um bando que se arrasta, quase sem perceber e sem sentir as pernas. Somos fantasmas que deslizam na escuridão de uma noite fria de inverno, com um céu qualhado de estrelas e já perdemos faz tempo a capacidade de reclamar, apenas somos oito almas que resiste e não se entrega, resilientes de que em algum momento todo aquele sofrimento vai chegar ao fim. Quando o mato acabou e já sentíamos o cheiro de eucaliptos, nos deparamos com um rancho abandonado e ali encontramos uma picada que foi crescendo e logo se transformou numa estradinha cheia de mato que mais à frente se consolidou, se abriu de vez e meia hora depois desembocamos definitivamente numa estrada de verdade e desabamos ali mesmo, cansados, exaustos, mas com a certeza que a nossa missão acabara de ser cumprida.

          A estrada segue para leste e mais à frente interceptamos uma casa e ali imploramos por algo para comer e quando apareceram 2 grandes pacotes de bolacha e uma penca de banana, alguns ficaram emocionados e para mostrar que tinha uma educação de lorde, o Júlio que não queria jogar as cascas de banana no mato, pergunta: - Aí, passa lixeiro por aqui? ( kkkkkkk) Eu e o Régis que estávamos num canto já fora da visão do morador, não nos aguentamos e caímos na risada, aquilo ali era um fim de mundo, uma espécie de fiofó de Salesópolis, estava na cara que não passava lixeiro ali e o simplório morador apenas pediu para que ele jogasse no mato mesmo, porque as galinhas se encarregariam de dar conta do lixo orgânico.

          Estávamos a salvo do mato, éramos agora seres pertencentes a civilização, mas ainda teríamos que arrumar um jeito de voltar para Salesópolis que distava uns 15 km dali e não tínhamos a menor ideia de como faríamos isso naquela hora da noite,mas eis que na escuridão surge um motoqueiro visivelmente mamado, com a cara cheia de pinga e quando fizemos sinal, ele parou imediatamente. Não falava nada com nada, dizia coisas sem nexo, palavras desencontradas, jogadas ao vento, mas disse para a gente não se preocupar que ele daria um jeito de nos tirar dali, iria fazer “um corre” com uns conhecidos e se perdeu na escuridão. Claro, não levamos fé no locutor do Silvio Santos e nem nos apegamos àquela possibilidade, mas quando nos aproximamos um tempo depois do centro do amontoado de casas do Bairro dos Pintos, lá veio o motoqueiro nos chamando para um abrigo e dizendo que em pouco tempo nossa carona chegaria para nos tirar dali e nos levar para cidade. Havíamos desacreditado do morador local e agora teríamos que engolir nosso “pré-conceito” e mais uma vez acabamos por nos deslumbrar com a generosidade humana. Não demora muito, um taxi encosta e leva metade do grupo até um ponto de ônibus e volta para buscar a outra metade e foi assim que cada qual foi se perdendo para uma direção, alguns na região metropolitana de São Paulo e outros como eu, em direção ao interior do Estado.

          

          Ir para o interior selvagem da Serra do Mar Paulista é se jogar de cabeça na mais autêntica aventura que se possa imaginar, é onde a palavra Expedição pode ser usada sem que se caia no ridículo, mas para isso é preciso aceitar os riscos, é preciso compreender que não há garantias de nada, vai estar sempre andando sobre o fio da navalha, vai ter que encarar desafios, saber que sua vida corre perigos constantemente, seja imaginário ou real. Mais uma vez conseguimos juntar um grupo, uma equipe em torno de um projeto que nem nós mesmos poderíamos saber se daria certo ou não e tão difícil quanto executar um projeto, é fazer ele sair do papel, dar vida e agregar pessoas disposta a colocá-lo em pratica. Foram oito homens dispostos a conquistar uma montanha selvagem estabelecendo uma nova rota, um novo caminho e hoje posso dizer que esse novo trajeto para o Cume da Pedra da Boracéia é sem dúvida o melhor de todos, pelo menos por terra. Foi sem dúvida uma das maiores aventuras nossas dos últimos tempos, agregamos novos amigos e fortalecemos velhas amizades, sofremos muito, é verdade, mas nos divertimos como nunca, vivemos a vida com uma intensidade poucas vezes vista e voltamos para casa satisfeitos com nós mesmos, sabendo que fizemos história mais uma vez, se não foi história para montanhismo nacional, foi a nossa história, para contar para os filhos, para os netos sobre o dia em que desafiamos uma montanha e vencemos, não a  montanha, mas a inércia da vida.

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Divanei Goes de Paula
Divanei Goes de Paula

Publicado em 12/07/2019 16:33

Realizada de 20/06/2013 até 25/06/2013

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      Tem muitas outras informações no meu blog: www.mawaybr.com.br
      Tem um post com os custos desta viagem AQUI e outro sobre como fazer as reservas AQUI.
      Acompanhe nossas aventuras no Facebook ou Instagram
        Relato de Viagem">Relato do trekking realizado de 12 a 16 de Janeiro de 2017. Dia 1 - atento às regras
      Caminhamos desde o nosso hostel em Puerto Natales até a rodoviária. Compramos a passagem no próprio hostel. Existem várias empresas que fazem este percurso e não há diferença significativa no valor.
      A rodoviária fica lotada de trilheiros com suas mochilas enormes! Todos muito animados para a trilha de suas vidas. Durante o percurso até a entrada do parque é possível ver os guanacos pulando as cercas e a linda cadeia de montanhas ao fundo.
      Na Portería Laguna Amarga enfrentamos uma longa fila para preenchermos o termo de compromisso e pagarmos a taxa de entrada.
      É necessário assistir um pequeno vídeo com informações gerais e as regras do parque. Uma das mais importantes: não é permitido fazer fogo fora das áreas delimitadas(!!!). Entramos em outro ônibus (valor já incluso) que nos levou até a Portería Pudeto.
      CRIAMOS UMA COLEÇÃO DE CAMISETAS INSPIRADA NO CIRCUITO W, VEJA AQUI.

      Fomos os últimos a pegar o catamarã que cruzou o Lago Pehoe. A viagem não poderia iniciar de melhor maneira, à nossa direita, o imponente Los Cuernos! Compramos o bilhete do catamarã durante o trajeto.   Chegamos ao Refugio Paine Grande sem reservas e por sermos os últimos a chegar no camping, as meninas da recepção nos deixaram ficar. Muito obrigada, meninas! (AVISO: aconselho fortemente que você não faça isso!! )
      Armamos a barraca, deixamos nossas mochilas e fomos apenas com a mochila de ataque até o mirante Grey. Muito cuidado com as comidas deixadas nas barracas, a raposa-colorada (Lycalopex culpaeus) adora lanchinhos fora de hora. Infelizmente, o que mais me impressionou neste percurso não foi a linda paisagem ao meu redor, mas o resultado do maior incêndio florestal do Chile em 2012: 18 000 hectares  queimados. Uma tristeza  ver as marcas desta grande tragédia e por isso repito: siga as regras do parque, não faça fogo nem use seu fogareiro fora das áreas destinadas. Precisamos cuidar e respeitar a natureza. Aquele lugar é espetacular e todos têm o direito de visitá-lo e apreciá-lo. Depois de quase 3 horas de caminhada e muito vento no caminho, chegamos ao Mirador Grey. O tempo estava bem fechado. A geleira Grey se misturava com o céu e não dava para saber onde terminava a geleira e começava o céu. A geleira é um local impressionante! Dia 2 -  café com montanha
      Após uma noite de muito vento (dica: monte muito bem sua barraca!), tomamos café na cozinha do acampamento com uma vista incrível, arrumamos tudo e saímos.
      Logo no início da trilha, na Portería Lago Pehoe, o guarda-parque pediu para ver nossa reserva impressa do acampamentoItaliano, reservas confirmadas, pé na trilha! A cadeia de montanhas Los Cuernos estava bem escondida, mas conforme nos aproximávamos dela, mais ela aparecia, e uma caminhada de 2,5 horas, fizemos em incríveis 4,5 horas. Haja foto!
      A alegre chegada ao acampamento Italiano é anunciada pela ponte que temos que atravessar e deu um medinho! Como venta muito, ela parece bem instável. Fizemos o check-in no acampamento, conversamos com os guardas e fomos preparar nosso jantar.
      Decidimos não fazer nenhuma outra trilha neste dia pois a trilha para o Mirador Britanico fecha às 17h e a do Mirador Frances às 19h. E quando digo que a trilha fecha, ela fecha mesmo, pois um dos guardas percorre a trilha até o final para garantir que não há mais ninguém na trilha (todos os dias, imagina!).
      Dia 3 - doce ilusão
      O vento faz parte da Patagônia, aceite! Eu acordei assustada a noite, pois dormíamos debaixo da copa das árvores e o vento balançava seus galhos com força. E o medo daqueles galhos caírem sobre nós?
      Não, nenhum galho caiu, ufa! Deixamos nossos pertences no acampamento e seguimos em direção ao Mirador Britanico com nossas mochilas de ataque. Todo mundo larga suas mochilas no acampamento, isso é bem normal (também algo que tive que aceitar me acostumar). Quando chegamos ao Mirador Frances o tempo já estava muito fechado, andamos mais um pouco e decidimos voltar, afinal não conseguiríamos ver nada mesmo. Ficamos sentados um tempo esperando por uma avalanche no topo das montanhas, que também não aconteceu...
      Mesmo assim estávamos só felicidade, afinal estávamos a caminho do Refugio Los Cuernos, onde passaríamos a noite em uma linda cabana de madeira na beira do lago.   Sim, foi puro luxo! Não temos dinheiro para Não ligamos para luxo quando o assunto é hospedagem, mas há anos atrás vimos uma foto no Facebook de um casal em um ofurô com uma paisagem de tirar o fôlego ao fundo. Escrevemos para a pessoa que postou a tal foto perguntando onde era: Refugio Los Cuernos.
      Deste dia em diante, não tiramos mais aquela imagem da cabeça e estava decidido: iríamos naquele ofurô e ponto final. Não era nossa intenção ficar na cabana, mas no site estava bem claro: somente hóspedes das cabanas tinham acesso ao ofurô. Bem, com muita, mas muita dor, reservamos a tal cabana e sonhamos com este dia desde então. Parte deste valor eu havia ganho de presente de aniversário, muito obrigada Celzinha!
      Na trilha para o Refugio Los Cuernos, o sol finalmente resolveu aparecer de forma muito marcante, acentuando ainda mais a cor da lagoa. Para quem está fazendo o W invertido é descida na maior parte. Eu senti por quem estava subindo... Na minha opinião o trecho de trilha mais lindo! O vento intenso levantava a água da lagoa e até DOIS arcos-íris se formavam na nossa frente ao mesmo tempo, arrancando gargalhadas dos dois bobos incansáveis ao admirar tamanha beleza.
      Então, finalmente chegamos às cabanas e, ansiosos, vimos de longe o tal ofurô. Corremos para checar o tão sonhado ofurô de perto. Mas o que encontramos foi uma placa: MANUTENÇÃO!     CRIAMOS UMA COLEÇÃO DE CAMISETAS INSPIRADA NO CIRCUITO W, VEJA AQUI.   Mas que #@$%&! Ficamos muito putos, bravos, arrasados tristes com a notícia, afinal estávamos esperando há anos por aquele dia, mas não tinha nada que pudéssemos fazer. A cabana era linda, tinha uma lareira, toalha limpinha, cama fofinha e chuveiro gostoso!
      Fomos conhecer o refúgio, admirar o Los Cuernos e conversar com nossos amigos e quando retornamos encontramos uma garrafa de vinho chileno e alguns docinhos. A princípio, tive a certeza que havia sido o Antonio quem preparou aquela linda surpresa (tipo cena de filme mesmo! Imaginem que romântico: uma cabana de madeira, um vinho, lareira e aquela vista incrível). Ele perdeu a chance de ganhar muitos pontos (e na sequência perder muitos mais, é claro) ao não confirmar que havia sido ele - não foi, acreditamos que foi a forma do refúgio se desculpar por destruir nossos sonhospelo inconveniente. Após muitas risadas e desapontamento (nunca vou esquecer da cara do Antonio não conseguindo confirmar que havia sido ele o autor da ideia romântica) aproveitamos o delicioso vinho. Dia 4 - meu querido saco de dormir
      A noite na cabana não foi tão tranquila quanto imaginávamos, o vento era tão forte que parecia que a cabana se desmontaria. Não sobrou dinheiro para queríamos comprar a pensão completa no refúgio, fizemos nossa comida na mesma cozinha reservada para o pessoal do camping.
      Seguimos rumo ao acampamento El Chileno. Neste dia enfrentamos as 4 estações do ano, inclusive chuva. Existe um cruzamento, e você pode optar por ir para o Hotel Las Torres ou um atalho para o acampamento - é claro que optamos pelo atalho!
      No caminho vimos os bombeiros resgatando alguém em uma maca, ficamos muito assustados (depois ouvimos boatos de que a menina havia torcido o tornozelo - o que a impossibilitou de terminar a trilha, por isso todo cuidado é pouco).
      Chegando no refúgio, fizemos o check-in e fomos procurar uma plataforma para colocar nossa barraca. Dica: chegue o mais cedo que puder e coloque sua barraca, as plataformas estão colocadas num barranco, e se estiver chovendo (como estava) o chão molhado quase te impedirá de chegar em sua barraca sem cair alguns tombos.
      O jantar no refúgio foi extremamente agradável, nada de macarrão com vina, ou salsinha como vocês dizem. Entrada, prato principal e sobremesa, tudo com raio gourmetizador ativado! Não havia opção de reservar o local de camping sem todas as refeições inclusas (sim, eles são bem espertinhos).
      Ficamos na área de convivência do refúgio até tarde conversando, quando nossa amiga Tânia chega desesperada dizendo que estava entrando água dentro da barraca dela. Conseguimos alguns sacos de lixo e o Antonio foi ajudar o Beto com o "pequeno" problema. Logo em seguida entra outro trilheiro com seu saco de dormir completamente encharcado, eu entrei em desespero! Já imaginei meu saco de dormir molhado, seria o fim (que exagerada!). Pedi ao Antonio que conferisse se nossa barraca estava molhada, e para minha alegria, tudo estava completamente seco. Dia 5 - sonho realizado
      Antonio nunca havia visto neve e sempre falou que se fosse para ver neve, que fosse na montanha. Estávamos tomando café no refúgio quando vejo um ser saindo correndo gritando "Está nevando, está nevando". Parecia uma criança vendo neve pela primeira vez - e na montanha, como ele havia sonhado!
      Eu não fiquei assim tão feliz, afinal isso significava que o tempo estaria fechado nas Torres - e como eu queria ver aquelas meninas!  Tomamos um café super reforçado (incluído em nosso pacote) e seguimos a trilha até às Torres. Ao contrário dos outros dias, neste caminhamos muito rápido e os joelhos reclamaram um tanto (DICA: se puderem fazer a trilha no seu tempo, sem correr, é melhor. Fizemos isso todos os outros dias e não sentimos dor alguma).
      A trilha é pesadinha, mas isso não impede que jovens, crianças e idosos a façam, cada um no seu ritmo, no seu tempo. Eu não sabia quem eu admirava mais, se as famílias com crianças ou o grupo dos mais experientes. Quando fomos chegando pertinho da lagoa o coração foi acelerando. O Antonio foi na frente e lá do alto chamou minha atenção ao gritar uma linda declaração <3.
      Quando finalmente meus olhos encontraram as meninas (as Torres) não pude me conter de emoção - me faltam adjetivos para descrever a beleza deste local. Encontramos nossos amigos Daniel, Daniela, Beto e Tânia lá no topo, foi uma delícia compartilhar aquele momento com nossos novos amigos.
      Mas foi o tempo de contemplarmos a paisagem, tirar algumas fotos (nossa e da Maiza, coitado do Antonio) que o tempo virou completamente. As nuvens encobriram o céu azul e as Torres, e a neve começou a cair - "não era neve que você queria Antonio?"
      Muita neve! O vale também ficou completamente encoberto. A emoção de completar o circuito W, nossa primeira travessia, foi indescritível. Sensação de superação e eterna gratidão.

       
      CRIAMOS UMA COLEÇÃO DE CAMISETAS INSPIRADA NO CIRCUITO W, VEJA AQUI.
      Escrevi um post com os custos desta viagem AQUI.
      Bons ventos!
       
       
    • Por Tadeu Pereira
      Salve salve mochileiros!
      Segue o relato da trilha feita no Réveillon rumo ao Pico do Corcovado situado no município de Ubatuba no litoral norte de São Paulo.
      --> 24km ida e volta 
      --> Nível de dificuldade: DIFÍCIL (trilha extensa com várias bifurcações no início e muita mas muita subida rss)
       
      Partida - 30/12/19 - Partida 18:00pm - São Paulo x Caraguatatuba x Praia da Lagoinha x Praia do Bonetinho - Ônibus R$65,00 - Transporte público R$5,50
           Dia 30 de Dezembro geralmente costumo me organizar com antecedência o que vou fazer na virada pra não passar apuros nas correrias de final de ano. Mas ao contrário deste ano de 2019 eu não segui o protocolo e resolvi tudo na última hora, e lá estávamos nós, eu Tadeu e meu amigo Léo no dia 30 de Dezembro partindo de São Paulo capital sentido Caraguatatuba no litoral norte de São Paulo pelo empresa de ônibus Litorânea onde compramos as passagens por R$65,00. Em meio a milhares de pessoas correndo pra lá e pra cá no Terminal Rodoviário Tietê, nós conseguimos as passagens para às 18:00 com previsão de chegada para às 20:35. Chegamos por volta das 21:30 em Caraguatatuba por causa do trânsito intenso na rodovia de final de ano.

      Terminal Rodoviário Tietê 
           Em Caragua o clima estava abafado mas sem nenhum sinal aparente de chuva. A previsão mostrava clima aberto pro dia 30 e 31 com 20% de chuvas isoladas. Aguardamos por um tempo no terminal para aguardar nosso proximo ônibus e neste tempo aproveitamos e caminhamos por uns 5 minutos até o supermercado Shibata que fica próximo ao terminal rodoviário para comprar comida e água para passar a primeira noite no camping. Compras feitas, retornamos ao terminal e então pegamos um ônibus de transporte público na rodoviária de Caraguatatuba com sentido a Ubatuba por R$5,50 e depois de 1 hora descemos no ponto da praia da Lagoinha próximo ao Mercado Garotão e ao Condomínio SARELA - Recanto da Lagoinha onde caminhamos até sua entrada na 1ª guarita e continuamos por dentro do condomínio até a 2ª guarita que é onde fica o início da Trilha da Sete Praias. Caminhamos por 40 minutos passando pela Praia do Oeste e Praia do Peres caminhando totalmente no escuro iluminando com lanternas até chegar na Praia do Bonete ou Bonetinho onde passamos a primeira noite em camping selvagem ou seja, camping sem estrutura nenhuma, mas com o essencial, mar aberto e uma fonte de água potável. Ai foi só montar as barracas!   

      Camping Praia do Bonetinho

           O camping na Praia do Bonete além de selvagem é um camping proibido, na praia existe uma enorme placa lembrando os visitantes que aquele local ou aquela praia é uma propriedade particular. Então como chegamos já a noite, nós acampamos e desmontamos nossas barracas bem cedinho para ninguém ver e causar maiores problemas. Camping concluído com sucesso!  
      Subida - 31/12/19 - Partida 9:00am - Praia do Bonetinho x Pico do Corcovado - Transporte público R$5,50 

      ;
           Acordamos por volta das 6:00 da manhã e desmontamos rápido nossas barracas. Fizemos um bom café da manhã, tomamos o último banho de mar de 2019, arrumamos nossas mochilas e caminhamos de volta para o começo da trilha das Sete Praias, pois teríamos que pegar um ônibus sentido Ubatuba para descer no ponto da Praia Dura que ficava a 4,7 km de onde estávamos. Então fizemos a trilha da Praia do Bonetinho de volta para o condomínio Recanto da Lagoinha, fomos para a 1ª guarita na entrada do condomínio e caminhamos para a direita na rodovia sentido Ubatuba por uns cinco minutos até chegar em um ponto de ônibus. Até tentamos pegar carona mas os carros pareciam estar todos lotados ou com bagagens ou de pessoas chegando para passar a virada de ano no litoral. Por sorte o ônibus não demorou muito e pegamos rápido um ônibus por R$5,50 sentido Ubatuba e alguns minutos depois descemos no ponto da Praia Dura em frente ao Supermercado Praia Dura que fica também no começo da estrada do Corcovado que seria o começo da nosso caminho rumo ao imponente Pico do Corcovado. Aproveitamos e compramos no supermercado alguns mantimentos e água. Levamos 2 garrafas de água de 1 litro e 1 litro e meio cada um.
       
      (Caminho até o início da trilha)
       Supermercado Praia dura x Casa do Sr. Tozaki - Guarita do Parque Estadual Serra do Mar
      --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

      (Todo caminho percorrido) 
      Wikiloc: https://pt.wikiloc.com/wikiloc/spatialArtifacts.do?event=setCurrentSpatialArtifact&id=45109332
       Supermercado Praia dura x Casa do Sr. Tozaki - Guarita do Parque Estadual Serra do Mar x Pico Do Corcovado
           Começamos nossa caminhada para o pico por volta das 11:00 da manhã. Nosso ponto de partida foi do Supermercado Praia Dura, dali caminhamos por 1 hora os 4 Km da Estrada do Corcovado até a casa do famoso Sr. Tozaki (que infelizmente não tive a oportunidade de encontrar) onde fica situado a guarita do Parque Estadual da Serra do Mar PESM - Núcleo Picinguaba e início da Trilha do Pico do Corcovado.

      Casa Sr. Tozaki
       
      Guarita do Parque Estadual Serra do Mar - Núcleo Picinguaba
           Para subida e pernoitar no Pico do Corcovado é preciso realizar o agendamento com o Núcleo Picinguaba enviando um e-mail para [email protected] ou para [email protected] Nós até fizemos nossa parte e enviamos três e-mails para solicitar o agendamento em três emails diferentes, porém recebemos a resposta de que dois deles estavam desativados. O único e-mail que nos respondeu foi o [email protected] e disse assim: 
      ___________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
      31 de dez de 2019 às 13:59
      "Bom dia!
      Informamos que a Associação Coaquira de Guia de Turismo, Monitor e Condutor de Ubatuba é responsável pelo ecoturismo realizando o controle de acesso, monitoramento e manutenção do atrativo do atrativo Pico do Corcovado por meio do Termo de Autorização de Uso (TAU /FF/CORCOVADO nº 01/2018 - Processo FF nº 726/2018 - NIS 2096616) assinado pela Fundação Florestal no ano de 2018.   O atrativo Pico do Corcovado se encontra em área do Parque Estadual da Serra do Mar, Núcleo Picinguaba, Unidade de Conservação de Proteção Integral, instituída através do Decreto Estadual 13.313/79 e o principal objetivo da associação e a preservação, conservação e prática do Ecoturismo e Montanhismo de mínimo impacto no atrativo. A trilha para o Pico do Corcovado é monitorada, ou seja, há a necessidade de contratação de um Guia de Turismo ou Monitor Ambiental da Associação Coaquira para acessar o mesmo e realizar o procedimento de agendamento.   É necessário realizar o agendamento com antecedência, dessa forma poderemos indicar um condutor para acompanhar o grupo, o procedimento será confirmado após a confirmação da disponibilidade da data solicitada, preenchimento do Ofício de Solicitação de Reserva, Termo de Isenção de riscos, Termo de Responsabilidade e Ficha Médica.    Quanto a pernoite, é permitida seguindo as informações acima, agendamento e contratação de um Guia de Turismo ou Monitor Ambiental que disponibilizamos pela associação e respeitando a capacidade de carga do atrativo de 15 pessoas. As datas propícias e permitidas para atividade de camping são entre os meses de abril a outubro.  Informamos que o atrativo estará fechado para pernoite de 19/11/2019 até 19/03/2020 pois durante esse período as chuvas no local são muito intensas, com a possibilidade de ocorrência de descargas elétricas, erosões e deslizamento do solo, causando graves riscos aos usuários. O trajeto bate e volta permanece liberado, desde que as condições climáticas estejam favoráveis e após feito todo o procedimento.   Feliz 2020!   Qualquer dúvida estamos a disposição.   Att.   Diretoria do Departamento Executivo do Atrativo Trilha do Pico do Corcovado da Associação Coaquira de Guia de Turismo Monitor e Condutor de Ubatuba ______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________   --> https://www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br/pesm/nucleos/picinguaba/contato/?filter=agendar        Como não tínhamos recebido nenhuma resposta dos e-mails enviados com a autorização e o agendamento quando começamos o caminho para o início da trilha por volta das 11:00 da manhã do dia 31 de Dezembro, decidimos ir sem agendamento mesmo. Pensamos em talvez conversar na guarita sobre os emails enviados para solicitar agendamento e que não tínhamos recebido nenhuma resposta, massss não foi necessário nada disso hehehehe. Quando nos aproximamos da guarita percebemos que não havia ninguém, nem mesmo o Sr. Tozaki estava em sua residência que fica no mesmo lugar da guarita do parque. Então decidimos começar a trilha sem falar com ninguém. Sabíamos do risco de encontrar algum guarda do parque que poderia nos multar por ter feito a trilha sem autorização e agendamento, mas estávamos decididos a subir e seguimos em frente.
           Seguimos em frente depois de uma corrente na estrada em frente a guarita e começamos realmente a trilha. A trilha se inicia em um bambuzal ao lado de uma cerca e é neste ponto que a trilha traz a maior dificuldade pois têm algumas bifurcações que levam a alguns lugares diferentes. Realizamos esta trilha com Wikiloc e mesmo assim demos umas vaciladas que foram corrigidas a tempo. Recomendo que façam esta trilha ou com guia ou com gps Wikiloc pois a trilha é muito cansativa, extensa e contém algumas bifurcações principalmente no seu começo. 
           Os primeiros minutos da trilha são tranquilos, passamos por três vezes em riachos de águas geladas e potáveis, ótimas para se refrescar e beber, já que o clima com a mata fechada se torna muito quente e úmido em dias de sol forte nos fazendo suar muito. 
      -->WIKILOC:  https://pt.wikiloc.com/wikiloc/spatialArtifacts.do?event=setCurrentSpatialArtifact&id=45109332
        
       

           A trilha no começo é tranquila, caminhamos por 1 hora aproximadamente passando por 2 pontos de água até chegar na primeira placa da trilha (PESM) e também no terceiro ponto de água. Deste ponto em diante sentimos o que realmente é a trilha do Pico do Corcovado hauhauhua. Tomamos bastante água no riacho, enchemos nossas garrafas e bora começar a subir o morro que nos aguardava ahuhaua. Estávamos em 206 metros de altitude e a partir dali iriamos subir até 460 metros para o primeiro mirante da trilha.  
         
        
      Placa PESM - Parque Estadual Serra do Mar e 3º ponto de água
           Caminhamos por algumas horas e passamos pelo primeiro ponto de corda em 382 metros de altitude. Neste ponto temos um vista muito linda pois é um dos poucos pontos abertos na trilha. A subida até o primeiro mirante foi bem desgastante, mas quando chegamos, vimos o quão lindo é a vista, isso só nos deu mais ânimo para subir. Este ponto também chamado de Igrejinha nos mostrou só uma prévia do que nos aguardava no cume. Diz a lenda que à meia-noite próximo da Igrejinha seria possível ver a imagem do Frei Bartolomeu andando por lá. É claro que não ficamos lá pra ver isso kkkkkk. Neste mirante conseguimos ver o Pico do Corcovado pela primeira vez da trilha e um belo visual de algumas praias do litoral de Ubatuba. Ficamos por alguns bons minutos contemplando aquele visual e logo seguimos em frente. Neste trecho encontramos somente duas pessoas descendo a trilha, eram dois sul africanos que estavam fazendo um bate e volta. Conversando com eles descobrimos que não havia mais ninguém na trilha e nem no cume, isso significaria que não corríamos o risco de algum guarda nos ver e nos multar e também de ter a possibilidade de passar a virada de ano somente nós no cume! Yeahhhh!!! 




      Mirante ou Igrejinha
           Depois deste ponto a trilha vai ficando cada vez mais íngreme e inclinada nos castigando bastante. Caminhamos bem lentamente até chegarmos até o último ponto de água que fica a 767 metros de altitude. Paramos um pouco para mais um descanso, fizemos um lanche, tomamos bastante água, enchemos novamente nossas garrafas pois aquele seria o último ponto de água até o cume. Então levamos água o bastante pra beber no restante da trilha e para pernoitar no cume do pico sem precisar voltar para buscar mais água.

       3 km de trilha percorridos e ainda faltavam 5 km kkkkk
       
      Último ponto de água em 767 metros de altitude

      Neblina surgindo no meio da mata. Estávamos nas nuvens!
           Continuamos caminhando sempre subindo até chegarmos ao Camping 1 em 1000 metros de altitude. A subida mais uma vez nos castigou muito e paramos por diversas vezes para descanso e recuperar o fôlego. Chegamos no Camping 1 e ficamos um bom tempo descansando antes de enfrentar a última e mais difícil subida do percurso.  


      Camping 1


      O camping 1 tem espaço para aproximadamente umas 7 barracas. 
           Após este ponto, no Camping 1, a trilha deu uma trégua na subida e começamos a caminhar olhando alguns momentos para o Pico do Corcovado em uma trilha mais plana e com poucos declives. Afinal já estávamos na crista da Serra do Mar e a mais de 1000 metros de altitude. Esta parte da trilha é simplesmente incrível, havia desfiladeiros dos dois lados que conseguíamos ver por entre as árvores, mas como a visibilidade estava baixa por causa da neblina, fomos ver realmente a dimensão do lugar que estávamos trilhando somente na volta com o tempo aberto. 
       
           Caminhando por aproximadamente mais 40 minutos pela crista da Serra do Mar e chegamos em duas placas informando qual a direção que se deveria seguir. A placa da direita subindo dizia que o caminho estava em recuperação e que o acesso estava restrito, já a placa da esquerda era uma seta informando a direção a se seguir para chegar ao cume. Como estávamos seguindo a trilha com o Wikiloc resolvemos fazer a trilha de acesso restrito que era o que o nosso GPS estava guiando, mas esta trilha foi um das partes mais difíceis do caminho com uma subida quase que impossível e perigosa, mas nós conseguimos! Já a trilha da esquerda é um pouco maior com uma grande descida até um ponto de água que fica ainda mais próximo do cume e depois uma última subida mais tranquila até o cume do Pico do Corcovado, mas isso só ficamos sabendo na volta quando retornamos por este lado da trilha pois subimos pela trilha restrita.    

      Placas direcionando a trilha correta e mais fácil a se seguir
           Após alguns minutos subindo os últimos 100 metros finais e os últimos 60 metros de altitude, onde o corpo já está a ponto de explodir com a mistura de tanta ansiedade, de cansaço, de adrenalina, sede e de todo o esforço feito pra chegar até ali, nós conseguimos vencer com muita superação a última e mais difícil parte da trilha. Uma "escalaminhada" que necessita de pés e mãos livres para subir pelas raízes das árvores que nos custou muito esforço com as mochilas nas costas depois de quase 6 horas de trilha para ai sim conquistar a 1160 metros de altitude o cume do imponente PICO DO CORCOVADO em Ubatuba na Serra do Mar. Foi surreal a primeira vista de lá de cima e as lágrimas simplesmente rolaram pela minha cara suada ahauhauh! Foi incrível! 
          







           Os primeiros minutos em cima do Pico do Corcovado foram simplesmente mágicos. O tempo que estava fechado até então começou a se abrir e nos presenteou com um por do sol fantástico que nos deixou anestesiados pela beleza que estávamos contemplando. Gratidão era a palavra que mais me vinha a cabeça neste momento. Gratidão por estar ali, por ter condições e saúde pra chegar até ali, gratidão por todas as pessoas que estão comigo ou junto comigo de alguma forma, gratidão pela minha família, minha mãe, meu pai, meu irmão e minhas avós, pelos meus amigos e o mais importante grato pela VIDA! Obrigado Obrigado Obrigado... 


       






           E lá se foi o último por do sol de 2019. Após esta fantástica exibição da natureza, nós assinamos os nossos nomes no livro do cume para registrar nossa subida e fomos armar nossas barracas pois de noite faria um pouco de frio com os ventos cortantes no cume. Existem duas áreas de camping no cume do pico, uma fica próxima ao livro do cume com um espaço menor, cabendo aproximadamente umas 4 barracas (camping 3), já o outro com um espaço maior cabendo aproximadamente umas 7 barracas e não tão exposto aos ventos (camping 2). Montamos as barracas na área de camping 2 que tinha um espaço maior e menos exposto ao vento. Camping concluído com sucesso!   
           Acampamento armado, tratamos de fazer a nossa ceia de final de ano kkkk. Fizemos um ensopado de legumes e macarrão para recuperar nossas energias que perdemos nas quase 7 horas de subida intensa até o cume. Tivemos um problema com o nosso gás do fogareiro mas nada que impediu de fazer nosso rango. Barriga cheia ficamos esperando a meia-noite chegar pra ver a queima de fogos nas diversas praias que se consegue ver de cima do pico. Foi fantástico ver por 15 minutos a queima de fogos de quase 17 praias de cima do Pico do Corcovado. Foi uma visão única e surreal e que decidimos não filmar nada para ficar somente nas nossas memórias ahuahuahua. Foi fodástico! 
      Descida - 01/01/2020 - Partida 11:00am - Pico do Corcovado x Praia Dura
           Dormimos por volta de 1:00 da madrugada. Conseguimos descansar um pouco e ainda acordamos por volta das 5:00 horas da manhã para ver o primeiro nascer do sol de 2020. Coloquei o despertador e quando deu o horário sai da barraca e o céu já estava com uma coloração laranja que avisava que o sol estava a caminho. 







      Primeiro nascer do sol de 2020
                Contemplamos o nascer do sol por uns 40 minutos e voltamos a dormir e descansar pois ainda tínhamos a descida pra fazer e tínhamos que ter pernas pra descer tudo que subimos ahuahuha. Consegui ficar na barraca até umas 10:00, pois a partir desse horário o sol começa a esquentar deixando a barraca muito quente. Acordamos tomamos um pequeno café da manhã e ficamos algumas horas contemplando aquela linda paisagem com um dia maravilhoso que a natureza nos presenteou. Gratidão.




       

       
      nam-myoho-rengue-kyo
           Após desmontar nossas barracas e montar novamente as mochilas, iniciamos nossa descida pelo outro caminho. Decidimos fazer o caminho que as placas estavam indicando quando estávamos subindo na trilha e não descemos pela trilha que estava de acesso restrito. A descida começa seguindo pelo camping 2 onde acampamos. Descemos por mais ou menos uns 30 minutos e já começamos a ouvir o barulho das águas. Chegamos em um ponto de água que não sabíamos que havia ali. Descemos a 1066 metros de altitude e encontramos água ainda mais perto do cume em um riacho com águas geladas e da mais pura que já havia bebido antes. Ficamos um bom tempo neste riacho onde fizemos um bom rango, aproveitamos para tomar um bom banho nas águas geladas e seguimos em frente. 
       
       
           A trilha que se deve seguir esta antes do riacho e não seguir a diante atravessando o riacho. Fizemos este caminho e chegamos em um lugar sem saída, então retornamos e começamos a subir novamente até que vimos um trilha a direita e continuamos nela até chegarmos até as duas placas que informava o caminho. Pra quem esta descendo, a trilha correta a se seguir fica um pouco antes do riacho virando a esquerda. Como passamos direto não reparamos nesta entrada. Então retornamos entramos na trilha correta e caminhamos por uns 30 minutos até que depois de uma subida intensa chegamos nas placas que tínhamos visto antes na subida e a partir dai foi só seguir o Wikiloc novamente e seguir a trilha para descer sem se perder. 

      Placas informando o caminho correto para o cume
           Depois das placas a trilha continua por um bom tempo com terreno plano com alguns declives caminhando sobre a crista da Serra do Mar e como comentei anteriormente o visual deste lugar que não conseguimos ver na subida por causa da neblina se mostrou o quanto é mágico e surreal. Dos dois lados haviam precipícios enormes com um visual fantástico e único das cadeias de montanhas de um lado e do outro a serra do Mar contrastando com as praias. Cada vez que parávamos para descansar ficávamos um bom tempo contemplando a natureza. 









           A decida nos cansou mais que o esperado. Fizemos um bastão de trekking improvisado para ajudar na pressão que os joelhos sofrem na descida, isso nos ajudou muito. Gastamos por volta de 6 horas de descida, contando o tempo que ficamos no riacho e o tempo que perdemos na trilha. Chegamos por volta das 18:00 na guarita do PESM e ainda não havia ninguém la, nem mesmo o Sr. Tozaki estava em sua residência. Descansamos por alguns minutos em frente a guarita e seguimos rumo a rodovia para procurar um local para acampar aquela noite. No meio do caminho encontramos um mercado onde paramos para comer, ir ao banheiro, carregar nossos aparelhos de celular, comprar alguns alimentos para o próximo camping e brindar a nossa subida ao Pico do Corcovado com uma bela e gelada cerveja. Yeahhhh!!!

           Conversamos com alguns locais, e conversa vai conversa vem, resolvi perguntar se havia algum local para acampar por ali. O dono do supermercado ouvindo minha pergunta nos informou que na Praia Dura, a praia mais próxima de nós naquele momento, teria uma forma de acampar debaixo de duas pontes que passam sobre o Rio Escuro que deságua na praia. Seguindo esta informação caminhamos até a rodovia e seguimos a esquerda até as tais pontes. Chegamos nelas com pouco tempo de caminhada e logo vimos os caminhos para se chegar debaixo delas e vimos também que havia um enorme banco de areia. Ficamos um pouco receosos e com medo do local mas acampamos por ali mesmo. Camping concluído com sucesso! 
       

      Praia - 02/01/2020 - Partida 9:00am - Praia Dura x Praia da Sununga - Camping R$25,00 
           Acordamos e vimos que a praia fazia parte de um grande condomínio e que a divisa se fazia até as pontes, então estávamos acampando em um lugar que não causaria problema pra ninguém. Isto quem nos disse foi o próprio guarda que ficava rondando a praia. Acordamos tomamos um bom café da manhã, tomamos um banho de rio, desmontamos nossas barracas e fomos ao encontro de alguns amigos na praia da Sununga que ficava a uns 6 km da Praia Dura.

      Pontes sobre o Rio Escuro na Praia Dura 
           Como o trânsito ainda estava carregado na rodovia, optamos em ir a pé para a Praia da Sununga. Caminhamos pela rodovia por quase uma hora, entramos pelo Condomínio Pedra Verde na Paia Domingas Dias e atravessamos a Praia do Lázaro até chegarmos na Praia da Sununga onde encontramos mais dois amigos para finalizar nossa jornada ao Pico do Corcovado com chave de ouro. Pronto! Agora vamos dar um mergulho neste marzão prq nóiz merece! Yeahhhhhhhhhh Gratidão!!! 


      Retorno - 03/01/2020 - Partida 8:00am - Praia da Sununga x Caraguatatuba x São Paulo - Transporte público R$9,00 - Van R$70,00
         Dormimos este dia na Praia da Sununga no Camping Guarani pagando R$25,00 para dormir com chuveiro quente e cozinha compartilhada. Acordamos bem cedo e fomos para o ponto de ônibus na rodovia pegar um ônibus para Caraguatatuba. Pagamos R$9,00 até Caraguá e demoramos umas 2 horas para chegar por causa do trânsito. Na rua ao lado do Terminal Rodoviário de Caraguatatuba haviam várias vans com transportes alternativos para São Paulo. Conseguimos uma por R$70,00 e fomos direto e mais rápido para o Terminal Rodoviário do Tietê em São Paulo finalizando nossa aventura de final e começo de ano hauhauhaua! Valeu! Feliz 2020...

      Paparazzi nos fotografou no ponto de ônibus kkk
       
       
      Gratidão!
       
       
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    • Por rafael_santiago
      Lago Nesbøvatnet
      Início: Finse
      Final: Vassbygdi
      Duração: 3 dias
      Maior altitude: 1643m
      Menor altitude: 89m em Vassbygdi
      Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. A maior subida tem desnível de 419m.
      O Parque Nacional Hallingsskarvet é um parque pequeno ao norte do platô Hardangervidda, maior platô de montanha do norte da Europa. Ele se situa ao norte da famosa estrada de ferro Oslo-Bergen, próximo à estação de Finse, a cerca de 190km de Oslo e 120km de Bergen (em linha reta). 
      Nesse trekking eu percorri de sul a norte o parque e emendei com a caminhada do Cânion Aurlandsdalen, bastante famoso por lá pela incrível beleza.
      Para saber sobre trekking na Noruega sugiro a leitura da introdução do relato www.mochileiros.com/topic/89222-travessia-do-parque-nacional-hardangervidda-noruega-jul19.
      O problema do trekking na Noruega e na Escandinávia em geral é o alto índice de chuva. Eu tive três dias seguidos de sol nessa caminhada e isso foi uma grande sorte.
      Não há problema de escassez de água nesse percurso e nem todos os riachos e fontes estão descritos no texto pois são muitos.

      Lagos parcialmente congelados mesmo no verão
      1º DIA - 01/08/19 - de Finse ao Refúgio Geiterygghytta
      Duração: 5h20 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 1643m
      Menor altitude: 1219m
      Resumo: esse dia tem um desnível considerável de 419m de subida e depois de 424m de descida mas não é cansativo pois é bastante gradual
      No dia 29/07 eu interrompi a longa travessia do Parque Nacional Hardangervidda ao Parque Nacional Hallingsskarvet no 7º dia do percurso (relato em www.mochileiros.com/topic/89222-travessia-do-parque-nacional-hardangervidda-noruega-jul19) por causa da chuva que chegou e ainda duraria mais dois dias. Fui de trem para a cidade de Geilo, me hospedei no Hostel HI e esperei a melhora no tempo prevista no yr.no.
      Nesse dia, 01/08, voltei de trem a Finse e retomei a caminhada com tempo bom. Finalizada a etapa do Parque Nacional Hardangervidda, agora ia entrar no Parque Nacional Hallingsskarvet.
      Embarquei em Geilo às 13h e desci na estação de Finse às 13h38. Altitude de 1228m. Cruzei a estrada de ferro e segui a placa de Geiteryggen após o portão de madeira. Subi pela rua principal de cascalho e segui a sinalização do T vermelho entrando numa trilha à direita, cerca de 300m depois da linha férrea. Subi a colina ao norte, passei pelo local onde acampei no dia 29 e parei por 13 minutos para contemplar a magnífica Geleira Hardangerjøkulen, a sexta maior da Noruega. Ao cruzar o primeiro riacho, às 14h20, estava entrando nos limites do Parque Nacional Hallingsskarvet. Continuei no rumo norte, cruzei uma ponte suspensa e em seguida outro riacho pelas pedras às 14h43. Voltei a subir e a vegetação, que era só rasteira, some de vez, ficando só o terreno de pedras, mas sem dificuldade para caminhar. Às 15h32 começam a aparecer as manchas de neve que tenho de cruzar, com largura de 30m a 70m, mas sem problema de escorregar. A bota impermeável é importante nessa hora também.

      Cruzando campos de neve
      Às 15h57 alcancei o Refúgio Klemsbu, particular e trancado. Fiz uma pausa ali. Algumas pessoas que caminhavam sem mochila (e até com cachorro) tomaram ali uma trilha para o norte e subiram o Pico Sankt Pål. Eu continuei às 16h39 para nordeste (direita na bifurcação) e subi cruzando mais duas manchas de neve até atingir a maior altitude do dia (1643m, desnível positivo de 419m desde Finse). Ali há um campo de neve muito extenso mas felizmente não foi preciso cruzá-lo, está à esquerda do caminho. À direita surge um bonito lago com placas de gelo flutuando como icebergs. Inicia a descida. Cruzo mais uma mancha de neve e depois um riacho pelas pedras. Às 17h52 avisto o Lago Omnsvatnet. A trilha desce, cruza um riacho e se aproxima do lago, voltando a ter vegetação rasteira e depois capim, pasto para as ovelhas. Às 18h23 atravesso mais uma mancha de neve de uns 40m e às 19h outra de cerca de 60m.
      Às 19h21 alcanço um conjunto de lagos e passo a caminhar pelo seu lado direito. Cruzo pelas pedras um riacho que vem de uma bonita cachoeira despencando do paredão à direita. Às 19h55 avisto o refúgio na outra ponta do lago. Cruzo outro riacho às 20h14 e saio dos limites do Parque Nacional Hallingsskarvet. Alcanço o Refúgio Geiterygghytta às 20h32, numa altitude de 1230m. Esse refúgio é da DNT e do tipo staffed (com funcionários), não se pode cozinhar, não há comida para vender (só chocolates e biscoitos) e o anfitrião não me deixou nem usar o banheiro se não consumisse algo ou acampasse na área designada pagando NOK 100 (US$ 12,09)! Perguntei de acampamento livre (selvagem) e ele me mandou acampar longe, fora da visão do refúgio. Pelo que pude ver era um lugar muito bem arrumado, parecendo um hotel, e a presença de barracas espalhadas podia desagradar àquele público sofisticado. 
      Em frente a esse refúgio passa uma estrada de cascalho que começa na rodovia 50 muito próximo de um túnel. Como passa um ônibus nessa rodovia essa estradinha pode ser uma rota de fuga ou um início/final alternativo à caminhada. São 3,6km dali até a rodovia. Porém há pouquíssimos horários: um ônibus por dia (às 13h10) em direção a Flåm (oeste) e um ônibus por dia (às 9h40) em direção a Ål (leste) (horários de julho e agosto de 2019).
      Saí do refúgio às 20h42 e caminhei pela estrada de cascalho para a esquerda (noroeste) até sair da visão do refúgio. Começaram a aparecer as barracas dos alternativos, dos que preferem a liberdade ao conforto. Os melhores lugares, que eram perto da cachoeira à esquerda da estradinha, já estavam ocupados, então entrei na trilha de Østerbø, com placa, à direita, e subi até encontrar um lugar plano e um pouco afastado do caminho. Havia água corrente por perto. Altitude de 1252m.

      Lagos de montanha
      2º DIA - 02/08/19 - do Refúgio Geiterygghytta a Østerbø (ou quase)
      Duração: 5h30 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 1395m
      Menor altitude: 1050m no acampamento do fim do dia
      Resumo: dia de vários sobe-e-desce mas sem desníveis significativos, sendo o maior deles de 320m de descida da maior altitude do dia (1395m) aos 1075m do Refúgio Steinbergdalen
      Deixei o local de acampamento às 11h41 e segui a trilha no rumo norte. Em 4 minutos cruzei um riacho pelas pedras. Às 12h11 o mapa do gps mostrava que eu estaria cruzando a rodovia 50 porém não havia rodovia nenhuma - havia sim, estava muitos metros abaixo de mim na forma de um extenso túnel! E com mais 9 minutos avistei a tal rodovia 50 bem abaixo à esquerda margeando um lago. Infelizmente a trilha vai se aproximar dela e esse dia não será dos mais bonitos e agradáveis. Às 12h40 sigo à esquerda numa bifurcação com placa apontando para o Refúgio Steinbergdalen; à direita se vai a Kongshelleren (refúgio) e Iungsdalshytta (refúgio). Cerca de 6 minutos depois cruzo um riacho mais largo pelas pedras e paro por 18 minutos.
      Às 13h16 atravesso uma ponte metálica sobre um bonito rio com pedras e, subindo, cruzo uma porteira feita de ripas de madeira. Subo mais e atinjo um mirante chamado Bollhoud às 13h37. Passo por bonitos e tranquilos lagos de montanha e às 13h57 cruzo um riacho. Às 14h26 atravesso outra ponte metálica e encontro uma placa com o nome do local: Breibakkao. O riacho que cruzei forma uma bonita cachoeira à minha esquerda. Às 14h44 parei por 30 minutos num bonito mirante chamado Driftaskar, de onde avisto o Refúgio Steinbergdalen (ou Steinbergdalshytta) perto do lago Vetlebotnvatnet e da famigerada rodovia 50. 
      Na descida cruzei um riacho por uma ponte de tábuas às 15h39. No portão na chegada ao refúgio há uma bifurcação em que à direita se vai também a Kongshelleren (refúgio) e Iungsdalen (refúgio). Entrei no Refúgio Steinbergdalen às 15h49 e ele é particular (não é da DNT), mas a anfitriã me deixou usar o banheiro sem pagar pois eu estava só de passagem. É uma casa bem típica norueguesa, de madeira com vegetação sobre o telhado para manter o isolamento térmico e a estabilidade da casa. É recomendável (ou obrigatório em alguns casos) tirar o calçado antes de entrar, a menos que o anfitrião diga o contrário. A rodovia 50 está a apenas 450m e é possível tomar o mesmo ônibus que liga Ål a Flåm se for necessário.
      Saí às 16h04 pelo lado direito do refúgio e tomei uma trilha que subia a encosta à direita com placa de Østerbø. E como subiu!!! Não era uma subida íngreme, mas tinha muitas pedras e parecia não ter mais fim. A visão da rodovia 50 logo abaixo à esquerda tirava todo o clima de montanha e fez daquele trecho longo de subida um tédio. Na descida, ainda pela encosta, parei num riacho às 17h18. Às 18h05 atravessei a ponte de tábuas sobre outro riacho que despencava do paredão à direita em bonitas quedas. Começo a avistar a vila de Østerbø bem abaixo no vale. Desço mais e às 18h40 alcanço um grande campo com uma cachoeira grande ao fundo. Ali já comecei a pensar se valeria a pena ir até Østerbø (ainda 3,8km à frente) pois o local parecia mais urbanizado e eu poderia ter dificuldade para encontrar um lugar para camping selvagem. Cheguei a perguntar sobre isso a uma garota que vinha (sozinha) atrás de mim, mas ela não sabia como era Østerbø. Vi que ela e um casal pararam ali para acampar e resolvi parar também, apesar de muito cedo ainda. Havia água bem próximo dali, no Rio Grøna. Altitude de 1050m.

      Cânion Aurlandsdalen
      3º DIA - 03/08/19 - de Østerbø a Vassbygdi
      Duração: 6h50 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 1074m próximo ao acampamento
      Menor altitude: 89m em Vassbygdi
      Resumo: longa descida de 985m percorrendo o interior do Cânion Aurlandsdalen, famoso na Noruega pela grande beleza
      O trekking de hoje pode ser feito em forma de bate-e-volta de um dia a partir das cidades de Flåm ou Aurland, onde há campings e hotéis. Tomando o ônibus às 8h15 em Flåm ou 8h25 em Aurland se chega às 9h15 a Østerbø, um bom horário para iniciar a caminhada pois há ônibus à tarde para retornar a Flåm e Aurland (veja os horários nas informações adicionais).
      Comecei a caminhar às 8h21, cruzei a ponte de madeira sobre o Rio Grøna, desci até o vale do Rio Grøndalagrovi e o segui para a esquerda (oeste). Descendo, passei por uma casa vazia à minha direita e cruzei um portão de ferro. Atravessei uma mata e às 9h12 cheguei a uma estradinha de terra, onde fui para a direita. Aparecem as primeiras casas. Às 9h18 alcanço uma estrada de asfalto após uma cancela e sigo para a direita, continuando pela esquerda na bifurcação. A rodovia 50 está a apenas 120m à esquerda da cancela e é possível tomar o mesmo ônibus que liga Ål a Flåm se for necessário. Me mantive na estrada principal e cheguei aos refúgios de Østerbø às 9h28. São dois, um ao lado do outro. O primeiro é o Østerbø Fjellstove, particular, e o segundo é o Aurlandsdalen Turisthytte, pertencente à DNT e do tipo staffed. A tão esperada trilha do Cânion Aurlandsdalen começa no meio dos dois.
      Por ser um sábado havia dezenas de pessoas iniciando a trilha, e até um grupo de voluntários (?) dando orientações. O caminho aponta para o norte ainda como uma estradinha de cascalho, que tomei às 9h50. Altitude de 833m. Numa curva de 180º para a esquerda cruzei a ponte sobre o Rio Langedøla e havia uma sinalização um pouco confusa. Não entrei na primeira trilha à direita com T vermelho pintado na pedra, continuei descendo a estradinha e entrei na trilha seguinte à direita também com T vermelho pintado, mas muito mais estreita que a primeira (aqui aparentemente os dois caminhos servem, o importante é se aproximar do lago e evitar as outras trilhas). Passei por mais uma casa à minha esquerda e comecei a contornar o bonito Lago Aurdalsvatnet pela margem norte e depois oeste. Aparece a primeira placa de marcação de distância, 18km para a frente (até Vassbygdi) e 1km para trás (desde os refúgios de Østerbø).

      Cânion Aurlandsdalen
      Quando deixo as margens do Lago Aurdalsvatnet no sentido oeste aparece um espaço plano e gramado ótimo para acampar. Até aí não havia visto nenhum lugar adequado para acampar e daí em diante apareceram bem poucos também pois o solo muitas vezes era de turfeira (?), fofo e úmido. A trilha percorre a mata exuberante, numa mudança significativa de ambiente em relação aos dois dias anteriores no alto da montanha. A placa de 17km se encontra sobre um portão de ferro e na descida seguinte a beleza de Aurlandsdalen começa a se mostrar. Um lindo lago bem abaixo espelha as montanhas verdejantes. A descida até a margem leste desse lago (Nesbøvatnet) foi por uma trilha íngreme beirando a ribanceira. 
      Aurlandsdalen é também uma trilha histórico-cultural e às 10h32 aparece a primeira placa com texto sobre a história e fotos antigas do lugar. Às 10h36 cruzei uma ponte de tábuas sobre um riacho e 2 minutos depois alcancei a casa Nesbø, às margens do Lago Nesbøvatnet, sede de uma fazenda do século 17. A trilha continua margeando o lago e às 10h49 alcanço uma bifurcação num local chamado Tirtesva. A trilha íngreme à direita sobe para outro caminho: Vassbygdi via Bjønnstigen, e uma placa alerta para o risco dessa rota já que cruza uma área de avalanches. Me mantive na trilha mais usada, que segue à esquerda, e uns 520m depois de Tirtesva cheguei a um bonito lago (uma extensão do Lago Nesbøvatnet). Parei para curtir o lugar e tomar água fresca do riacho ao lado. O gramado ali daria um bom local de acampamento também.
      Continuei às 11h19 e o lago se afunila num rio, que seguirei pela margem direita até o final do dia. Agora a sensação é de caminhar no fundo de um cânion mesmo, com a altas paredes se erguendo em ambos os lados. O rio e a vegetação das encostas ficam cada vez mais bonitos. Às 11h43 a trilha é um caminho estreito escavado no paredão de pura rocha. Um corrimão dá segurança nas partes mais estreitas (principalmente se houver neve). Às 11h52 surge abaixo o bonito Lago Vetiavatnet, o último grande lago dessa caminhada. 
      Às 12h05 alcancei uma bifurcação num lugar chamado Heimrebø. À esquerda se vai a Berdalen, que é um local a 370m dali na rodovia 50 onde passa o mesmo ônibus de Ål a Flåm. Segui à direita e a trilha faz uma grande curva embicando para o norte e se afastando muito da rodovia 50 (felizmente não mais visível após Østerbø). Às 12h47 vem da direita a rota Vassbygdi via Bjønnstigen, aquela iniciada em Tirtesva e que vem pelo alto. 
      Às 12h55 cheguei a um local com uma trilha saindo para a esquerda e uma movimentação de pessoas indo e vindo de lá - fui ver o que era. Caminhando cerca de 100m chega-se a Vetlahelvete, ou little hell cave, uma reentrância no paredão rochoso com um pequeno lago dentro e iluminação vindo da abertura no alto. Há um bonito mirante nas pedras mais altas do outro lado. Voltei à bifurcação, tomei um lanche e continuei descendo às 13h16. A marcação ali mostra que estou bem no meio do caminho: já percorri 9km e faltam 10km. Em 5 minutos tenho uma visão espetacular do cânion com o rio correndo lá embaixo e pessoas minúsculas ao longo da trilha bem ao lado do rio, ou seja, tinha uma descida bem grande pela frente. Às 13h24 parei para beber a água fresca de uma quedinha ao lado da trilha. Desci pela trilha em zigue-zague e às 13h46 já estava às margens do rio, onde algumas pessoas mergulhavam e logo saíam pois a água devia estar bem fria. 

      Fazenda Sinjarheim
      Às 14h08 uma nova bifurcação. À esquerda se vai a Stondalen, que é outro local na rodovia 50 onde passa o ônibus de Ål a Flåm, outra rota de fuga, porém essa bem longa (7km). Vou à direita e em 5 minutos avisto, pendurada na enorme encosta, a Fazenda Sinjarheim, principal ponto de parada nesse trekking. Cruzo uma ponte de madeira sobre o riacho que vem de uma imensa cachoeira despencando do paredão e às 14h30 chego à fazenda. Casas de madeira com vegetação sobre o telhado e anunciado apenas em norueguês (demonstrando que poucos estrangeiros passam por ali): "sal av kaffi og mjelkekaker - kom inn", "venda de café e bolo de leite - entre". Muita gente ali descansando e se recuperando do calor pois já estávamos a 591m de altitude e a temperatura havia aumentado com a descida e por causa do horário. Muito calor para os noruegueses pois para mim estava bem agradável. Saindo da fazenda às 14h51, a descida se tornou bastante íngreme e às 15h10 já estava próximo ao rio de novo. Após duas casas de madeira, num local chamado Almen, olhei para trás e o cenário era espetacular, com duas grandes cachoeiras brotando dos paredões, último cenário de tirar o fôlego desse trekking.
      Quando vi os horários de ônibus em Østerbø pensei em tomar o das 19h para Flåm, o último. Mas pelo avanço rápido que vinha fazendo após entrar na mata resolvi apertar um pouco o passo e ver se conseguia pegar o das 16h40. A descida terminou numa clareira às 16h03 e 8 minutos depois alcancei um final de estrada de cascalho, continuando em frente, sempre pela margem direita do rio. Estava apressado por causa do horário do ônibus mas não resistia a comer as framboesas próximas à cerca à direita da estradinha. Para trás me despeço dos grandes paredões do Cânion Aurlandsdalen. Continuando sempre em frente me aproximo das primeiras casas de Vassbygdi e finalmente chego ao ponto de ônibus, em frente a uma lanchonete, às 16h27, e estava lotado. Altitude de 89m. O ônibus apareceu no horário e somente uma parte daquele povo todo o tomou pois a maioria esperava o ônibus de volta a Østerbø, onde deixaram seus carros. A viagem a Flåm durou 30 minutos e percorreu o maravilhoso fiorde Aurlandsfjorden. Em Flåm acampei no Camping e Hostel HI.

      Cânion Aurlandsdalen
      Informações adicionais:
      . para saber os preços de hospedagem e refeições nos refúgios da DNT consulte os valores atualizados em english.dnt.no/routes-and-cabins. Para se tornar membro da DNT e ter descontos o valor da anuidade é NOK 695 (US$ 84), valor de 2019 para adultos de 27 a 67 anos.
      . Camping e Hostel HI em Flåm: NOK 160 (US$ 19,34) para uma barraca com uma pessoa. A ducha quente custa NOK 20 (US$ 2,42) a cada 6 minutos (funciona com moeda ou ficha comprada na recepção). O hostel estava lotado no início de agosto. Site www.hihostels.com.
      . mapa do parque com as trilhas e refúgios: ut.no/kart
      . a temperatura mínima durante a noite fora da barraca foi 7ºC
      . para planejar qualquer viagem de ônibus, trem ou barco na Noruega: en-tur.no (clique em Meny e selecione English)
      . ônibus de Vassbygdi a Aurland e Flåm: 10h20 (sáb e dom), 14h10 (diário), 16h25 (sáb e dom), 16h40 (diário), 19h (diário) (horários de julho e agosto de 2019)
      . trens na Noruega: www.vy.no/en
      . não há supermercado nem em Finse, nem em Vassbygdi e em nenhum lugar desse percurso. Só há mercado em Aurland e Flåm, alcançadas de ônibus a partir de Vassbygdi. Só há refúgios do tipo staffed (da DNT) e particulares nesse caminho e eles não vendem comida para preparar (apenas guloseimas), mas servem café da manhã e jantar.
      . roteiro adaptado a partir das informações do guia Walking in Norway, de Connie Roos, Editora Cicerone
      Rafael Santiago
      agosto/2019
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br


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