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TRAVESSIA ALTO GRANDE X ESPELHO: Cume da Serra do Mar - UBATUBA-SP


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  • Membros de Honra

                                               ALTO GRANDE X ESPELHO

          Estávamos à beira do abismo colossal quando ele apareceu, vindo sei lá de onde. Como um dragão cuspidor de fogo, parecendo ter saído das páginas do apocalipse, veio em nossa direção, sobrevoou os vales do Rio Cachoeira, Puruba e Verde, passou próximo da Montanha mais alta de toda a Serra do Mar Paulista e botou força nos seus motores e suas hélices. Ninguém sabia o que estava acontecendo, uns gritavam que era a Polícia Militar, outros insistiam que se tratava da Federal, eu mesmo só pensava em não cagar nas calças diante daquela cena dantesca e inusitada. Aquela era sem dúvida uma das montanhas mais isoladas de Ubatuba, lugar onde pouca gente já teve a honra de botar os pés e o seu nome refletia a angustia presente no olhar de cada um daqueles dez aventureiros que ali estavam, depois de uma jornada duríssima até o seu cume, esquecido pela civilização. Quando pairou sobre nossas cabeças, há 5 metros do chão, eu pensei em fugir, mas atrás de mim uns 500 metros de vazio me dizia que era caminho sem volta e aquela frase clássica escapou da minha boca num sussurro quase inaudível: “ AGORA FUDEU! Agora fudeu de verdade “ 

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    A EQUIPE: Régis ferreira, Paulo Potenza, Luciano Carvalho, VGN Vagner, Daniel Trovo, Divanei Goes de Paula, Rafael Araujo, Alan Flórido, Maurício Carbone e Thiago Silva(fora da foto)

          Se fizéssemos uma pergunta sobre qual o CUME da Serra do Mar de São Paulo, muitos daqueles que estão acostumados com os esportes de aventura e detêm um mínimo de conhecimento, vão dizer logo, com razão, que essa montanha é sem dúvida o TIRA CHAPÉU ( 2088 M) , mas outros poderiam contestar e chutariam que a mais alta é a Pedra da Bacia( 2090 m , mas nunca provado) , as duas turística e de fácil acesso, situadas lá pelas bandas de São José do Barreiro, no Parque Nacional na Serra da Bocaina. Pois bem, mas quando nós dizemos Serra do Mar Paulista sempre estamos nos referindo a sua parte litorânea, seu espigão fantástico, coberta de florestas quase intocadas, de onde rios selvagens escorrem do planalto em direção ao mar, num dos mais lindos ecossistemas do mundo. Dos 16 municípios que compõem o nosso litoral, QUAL SERIA A MONTANHA COM MAIOR ALTITUDE E ONDE ESTARIA LOCALIZADA, ou seja, QUAL O CUME DA SERRA DO MAR PAULISTA, em todo seu litoral?

          Durante muitos anos em que estivemos explorando a Serra do Mar, essa pergunta sempre martelou em nossas cabeças, muito porque nos faltavam mapas confiáveis e cartas com divisas de municípios e unidades de conservação. Quando meus estudos técnicos começaram antes da EXPEDIÇÃO que descobriu o Cume da Serra dos Itatins/Juréia, fui empurrado para o litoral norte tentando descobrir se aqueles picos gigantes, em se tratando de Serra do Mar, estavam ou não localizados na Bocaina e sinceramente na época, não consegui angariar informações convincentes, tanto que os 1425 metros do Pico Desmoronado nos Itatins, que eu pensava ser o cume da Serra, acabamos nem nos apegando a isso, porque faltava uma confirmação.

          Para muita gente, ou pelo menos para uns 99 % delas, o CORCOVADO de Ubatuba seria o cume de Ubatuba e para alguns vai muito mais além, alguns afirmam que seria o ponto mais alto também da Serra do Mar, inclusive até para alguns órgãos oficiais, uma vergonha gigantesca, uma desinformação que chega a ser patética diante do nanismo do Corcovado que não passa de míseros 1.181 metros. Outros mais antenados apostariam suas fichas no Cuscuzeiro (1278 m), ainda que pertencendo a Bocaina, mas situado também em Ubatuba. E por fim, alguma meia dúzia de gato pingado, e gente mais letrada em se tratando de estudos de mapas, irá dizer que existe um pico na divisa com Parati que atende pelo nome de PEDRA DO ESPELHO, mesmo que jamais tenha botado seus pés lá.

          A PEDRA DO ESPELHO eu já tinha ouvido falar e havia chegado a ela nas pesquisas dos mapas, mesmo não tendo essa certeza toda, mas havia algo que me intrigava: Pouco mais de dois quilômetros e meio ao norte/noroeste do Espelho, um cume proeminente me dava quase a certeza de que o Espelho era mais baixo e quando tive acesso a alguns mapas mais detalhados, a minha dúvida começou a ruir. Era certo que aquela montanha estava acima dos 1600 metros, mais de 100 metros acima do Espelho, mas tinha um, porém: Aquele pico até então desconhecido e sem nome, ao menos para mim, pertencia a Cunha-SP ou a Ubatuba-SP, pertencia a Serra do Mar ou a Serra da Bocaina?  Aí alguém poderá me perguntar que diferença faria isso e eu simplesmente diria que se esse pico pertencesse a Cunha ou pior ainda, a Paratí-RJ, não faria o menor sentido se preocupar com ele, porque seria mais um, dentre tantos outros picos altos naquela região. Aliás, mesmo a PEDRA DO ESPELHO, apesar de pertencer a Ubatuba, estaria inserida no Parque Nacional da Serra da Bocaina, que é compartilhada tanto por São Paulo, mas também pelo Rio de Janeiro, mas mesmo assim ainda seria o ponto mais alto do LITORAL DE SÃO PAULO, só que nem isso seria verdade, como descobriríamos mais adiante.

          Sem saber como acessar nem o Espelho e nem muito menos essa montanha que eu supunha ser o Cume da Serra, mas não tinha certeza, fui cuidar de outras expedições à essa Serra onde a aventura te chama para qualquer lugar que você olhe e numa dessas aventuras foi que conhecemos o Alan Flórido e o Thiago Silva, dois conhecedores do litoral norte, inclusive o Flórido foi convidado por nós na expedição que ascendeu ao cume da Pedra da Boracéia( 1270 m) por uma nova rota, mas como estava às  voltas com outra viagem e por infelicidade ficou fora de combate por causa de uma hérnia de disco, acabou abortando sua ida, mas numa discussão informal, acabou deixando vazar que conhecia uma rota para o Espelho e que o Thiago também já havia estado nessa montanha que eu buscava e não tardou em a gente alinhar uma data para irmos juntos desvendar esse mistério, mesmo que ainda pairasse no ar a dúvida sobre se essa montanha pertenceria ou não a Ubatuba.

          Dessa vez então deixamos o roteiro e os convites a cargo do Flórido e do Thiago e eu me mantive firme atrás de outros mapas e em pesquisas mais avançadas, mas infelizmente , mesmo pesquisando até no limbo da internet, nada encontrei sobre essa montanha, que agora sabia o nome que foi dado pelos locais das fazendas vizinhas e seu nome não poderia ser outro, ALTO GRANDE , um nome sugestivo para o gigantismo geográfico que ela representava, mesmo que nenhum desses nativos tivesse ciência disso, aliás nem mesmo os nossos “guias” haviam se dado conta da importância dela, pensando que fosse apenas mais uma grande montanha no caminho da lenda chamada Espelho. Bom, mas isso eu também ainda não sabia, mas tudo mudou quando sem querer cai num mapa que me deu a divisa exata entre UBATUBA E CUNHA e melhor ainda, esse mapa delimitava as divisas do Parque Estadual da Serra do Mar com o Parque Nacional da Serra da Bocaina e BINGO!  O ALTO GRANDE era Paulista, o ALTO GRANDE era terras de UBATUBA, o ALTO GRANDE pertencia ao Parque Estadual da Serra do Mar e nesse dia eu fui dormir feliz, aquilo que eu buscava já estava definido e com o grupo que tínhamos nas mãos, com os caras mais experientes em se tratando de Serra do Mar, era questão de tempo para que botássemos os pés no cume dessas montanhas.

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      (VERDE- Pq.Nac. Serra da Bocaina- Rj/SP) (BRANCO - Pq. Est. Serra do Mar- SP)

          O Flórido montou o grupo e no final acabamos ficando com 10 integrantes, um número grande, mas infelizmente outros companheiros ficaram de fora, alguns já vinham mesmo não querendo mais participar dessas travessias incertas, outros compareciam esporadicamente, mas paciência, dessa vez eu mesmo não tinha controle sobre isso e me mantive apenas como convidado, ainda que ajudando na logística da coisa. Outro problema era que não tínhamos mais nenhum feriado prolongado nesse inverno, então tudo teria que ser resolvido em um único final de semana e para ajudar aqueles que trabalhavam aos sábados, escolhemos o fim de semana com o feriado da Independência. Partimos da capital Paulista em dois veículos rumo a Cunha-SP e depois rodamos uns 15 km em direção à Parati, entramos à direita numa estrada de terra, andamos mais uns 06 km até estacionarmos enfrente da fazenda onde partira nossa trilha, mas como ainda era alta madrugada, tratamos de montar nossas barraquinhas enfrente a porteira e deixamos para conseguir as tais autorizações quando o dia amanhecesse.

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          Como disse a previsão, o dia amanheceu lindamente ensolarado e pouco depois da 6 da manhã já estávamos de pé, bem a tempo de dar explicações para um dos habitantes da fazenda que deve ter se assustado com nossa invasão. Estávamos apreensivos porque uma fonte havia nos dito que os fazendeiros estavam barrando quem se atrevesse a passar por suas terras rumo aos picos, mas fomos atendidos muito bem pelo seu Lourival, com toda simplicidade do homem do interior que nos recebeu com um cafezinho quente e ainda nos ofereceu para guardar nossos carros. Pouco depois das sete já estávamos prontos para partir, jogamos as mochilas às costas e nos pusemos a caminhar pelos Campos de Cunha, sua direção a partir de agora era para o alto, em busca do Cume da Serra do Mar Paulista.

          Nossa jornada começa por adentrarmos um portão de fazenda do lado direito da estrada, ganha logo uma casa e intercepta uma trilha que vai atravessar uma língua de mata em direção ao sul e uns 800 metros depois viramos à direita numa cama de pinhões, um amontoado de sementes da araucária, disposta em um cercado, que não faço a mínima ideia para que serve. Cruzamos mais alguns metros de mato e subimos o barranco e começamos a ganhar altitude de vez, sempre acompanhado alguma trilha de cavalo. Perdemos um pouco de altitude e descemos à um riacho onde aproveitamos para um gole de água e voltamos a subir, atravessamos uma cerca e nos enfiamos num corredor de samambaias mais alto até sairmos de frente para um vale bonito de onde se descortina grandes montanhas a nossa frente, que revelam toda a beleza desses Campos de Cunha.

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          O sol já se mostra impiedoso mesmo sendo ainda muito sedo e a próxima subida já não é feita no mesmo ritmo das anteriores. Cruzamos uma porteira e quando nosso GPS marca 1480 metro de altitude nos diz que já andamos quase 4 km desde a fazenda, tropeçamos na placa que delimita a divisa entre Cunha e Ubatuba e ao mesmo tempo nos diz que estamos entrando no Parque Estadual da Serra do Mar, geograficamente tudo que havíamos estudo acaba confirmando que estamos no rumo certo e aproveitando que a trilha entra na mata fechada, descemos por mais 300 metros até desembocarmos bem no meio de um vale, juntamente a nascente de uma das pernas do Rio Puruba, que na carta topográfica consta como Rio Cachoeira, hora de parar, sentar, tomar um gole de água e morder alguma coisa.

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          Geograficamente estamos num bico do mapa bem nos cafundós mais distantes de Ubatuba, encima do Planalto Paulista. E é mesmo surpreendente estar ali naquele riacho onde o rio Puruba pode ser cruzado com a água pela canela. Mais surpreendente ainda foi a capacidade que tivemos em unir dessa vez tanta gente diferente umas das outras, um dos grupos mais heterogêneos que já formamos, mas uma coisa acaba igualando todo mundo que ali estava: A PAIXÃO INCONTROLÁVEL PELA SERRA DO MAR DE SÃO PAULO, gente capaz de largar tudo por uma aventura nessas montanhas e florestas e esse amor incondicional acaba por ligar essa gente a ponto de se tornarem quase uma família.

          Como eu já havia dito, os caras que puxavam a fila eram o Thiago Silva e o Alan Flórido, sendo o Thiago o único que já estivera no Alto Grande. A nossa jornada continua agora por uma trilha estreita no meio da mata sombreada, mas como havia sido uma semana chuvosa, o caminho era uma lama só e parar em pé era um desafio do tamanho daquelas montanhas que buscávamos. Quando a subida começou de verdade, o grupo se fragmentou e alguns ficaram para trás e como a subida não faz distinção de idade, velhos e novos se alternavam como cú de tropa, experientes e novatos arrastavam suas línguas no chão até que sem prévio aviso ela surgiu à nossa frente e sorrindo nos chamou para uma conquista, mas antes era melhor estacionarmos por um momento sobre uma grande pedra no caminho à 1579 m, juntar todo o grupo antes da subida final. Pelo meu gps aquela pedra que marcava a saída da trilha principal para ascendermos ao cume, marcava também a divisa de Ubatuba com Paratí, portanto, dividia também São Paulo do Rio de Janeiro e ia muito mais além, dividia Parque Estadual da Serra do Mar do Parque Nacional da Serra da Bocaina  e essa informação era o “X” de toda a questão, porque sempre pairava uma dúvida se o cume ficaria ou não em terras Paulistas e agora diante dos nossos olhos , na palma das nossas mãos, a confirmação final e incontestável diante da tecnologia, faltava agora confirmar a altura aproximada do Cume, distante menos de meia hora de onde estávamos.

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          Escondemos as mochilas no mato, mas nem precisava, e adentramos na mata rala em direção ao cume. Uns 200 m mais acima, um grande amontoado de pedras nos dá uma visão maior. O horizonte já se ampliou consideravelmente e já é possível avistar a Serra da Mantiqueira e seus famosos cumes, além da baia de Paratí e a cumeada da Bocaina. A subida final é suave, passa por uma toca e só aí começa a inclinar de vez, atravessamos um capão de mata mais fechada e desembocamos de cara com duas grandes rochas, uma do lado esquerdo e outra do lado direito e uma delas marca geograficamente o CUME DO LITOAL PAULISTA.

          Durante anos eu olhei para os mapas e cartas e agora diante dos meus olhos aquilo que era apenas um ponto aleatório, se materializou na minha frente. Para muitos poderia ser apenas uma pedra jogada no cume de um morrote qualquer naquele fim de mundo perdido encima do Planalto Paulista de Ubatuba, mas para mim era a consolidação de uma busca de anos, porque foram muitas noites de sono perdidas estudando mapas, buscando informações onde elas estivessem e agora nós estávamos prestes a fincar os pés naquele cume lendário. Um a um, fomos nos agarrando a qualquer coisa que desse sustentação e como era um cume não muito grande, nos amontoamos em grupos sobre ele e um abraço coletivo marcou a CONQUISTA FINAL, o CUME MAIS ALTO DA SERRA DO MAR PAULISTA era nosso, o ALTO GRANDE agora não era só uma montanha isolada nas bordas da serra, acabará de ganhar outro patamar com a nossa presença, não éramos nem de longe os primeiros, mas coube a nós revelá-la ao mundo da Aventura e talvez mudar a geografia da Serra do Mar que de agora em diante e para todo o sempre e para o conhecimento de todos, tem um cume oficial, não só o mais alto de todo o litoral, mas também o mais alto de UBATUBA.

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    (Alto Grande)

          Na realidade o Cume é composto por essas duas rochas, mas a da esquerda é levemente maior, então foi nela que juntamos os 3 GPS para uma medição oficial, claro que é uma medição aproximada e num futuro, poderá se usar equipamentos ultramodernos e precisos, mas os números que achamos condiz com o que estão nas cartas, nas análises das curvas de nível. Juntos e no mesmo local os nossos equipamentos marcaram praticamente a mesma coisa, com uma miséria diferença de 1 metros entre os 3 equipamentos, então diante disso, o número estabelecido para a altitude do ALTO GRANDE foi de 1.662 metros acima do nível do mar. Se a rocha da esquerda é o cume da serra, foi a rocha da direita que escolhemos para instalar o nosso LIVRO DE CUME, bem debaixo de uma pedra, protegido da chuva e do vento e de qualquer outras intemperes do tempo, foi uma doação nossa, um presente para Serra do Mar Paulista.

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          Tirando a importância geográfica dessa montanha, nós sinceramente não achávamos que teríamos algum visual que prestasse, pensávamos que seria um cume cercado de mato por todos os lados, porque é assim que ele se apresenta nas fotos de satélite, mas nos enganos bonito e se não é possível daqui ver o mar de Ubatuba e o litoral Paulista, vamos ter as vistas soberbas da Baia de Paratí, das montanhas que fecham o vale da Toca do Ouro , de toda a cadeia de montanhas da Bocaina, inclusive com a Pedra da Macela e o Pico do Frade, além da incrível Mantiqueira e seus ícones rochosos. Olhando para o sul/sudoeste, que é a direção do litoral Paulista, vamos ver uma sequência de montanha com cerca de 100 metros mais baixa que o Alto Grande, mas por incrível que pareça, uma delas reina como o segundo ponto mais alto do nosso litoral, com altitude em torno de 1550 metros, mas por não parecer ter nenhum cume rochoso, essa espécie de k2 da Serra do Mar, que resolvi então chamar de UB 2, por pertencer a Ubatuba, decidimos não perder tempo com ela, nosso próximo objetivo então seria o terceiro cume nessa hierarquia , a não menos fantástica e LENDÁRIA , PEDRA DO ESPELHO, de onde o mar de São Paulo te convida para um deslumbramento inesquecível.

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          O dia quase se aproximava da sua metade quando abandonamos o Alto Grande. A descida foi rápida e sem entreveros e assim que chegamos na bifurcação, não perdemos tempo e pegamos logo para a direita e não demora muito a trilha já volta a entrar na mata fechada e entre sobe e desce, intercepta algum riachinho mais caudaloso. É uma trilha bem consolidada porque vai percorrer todo o vale até Paratí, 20 km de pernada que teremos que fazer na manhã seguinte, mas hoje o objetivo é abandoná-la em favor de outra trilha que nos levara direto para o sul em direção a Pedra do Espelho. Uma hora de caminhada desde o Alto Grande, nos faz sairmos em campo aberto e já é possível avistar a imponência do Espelho assim que cruzamos uma porteira. Os nosso “guias” sussurram que está perto, mas não passa de conversa fiada, logo se vê que a montanha está lá na puta que o pariu, mas eu mesmo me enganei ao fazer essa análise de distância, nunca vi puta que o pariu ser tão longe.

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            ( Rumo a Pedra do Espelho)

          A trilha começa a descer bruscamente em campo aberto e agora o grupo voltou a se fragmentar, porque alguns fizeram questão de ficar apreciando o visual e angariar umas boas fotos. Vamos perdendo altitude até que ela volta a entrar na mata e quando chega a uma outra bifurcação, nos detemos por um instante até que todo o grupo se juntasse novamente. Nessa bifurcação vamos pegar para direita e abandonar a trilha principal. Então descemos a ribanceira até sairmos novamente em campo aberto junto a um rancho e um bucólico riacho e subimos a colina à frente até pararmos no mirante do vale, hora de nos determos por mais um momento e apreciarmos as paisagens até onde a vista alcança.

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          A chegada ao mirante marca definitivamente o fim da trilha, de agora em diante é só mato no peito e as vezes alguma picada ou outra, mas sem gps não se vai a lugar nenhum. Reunido todos ali já se vê que o cansaço já tomou conta de boa parte do grupo. Viajamos quase a noite toda, dormimos quase nada e nos alimentamos muito pouco e a maioria não vê a hora de esticar o esqueleto, mas a pior parte da trilha ainda estava por vir. Deixamos o descampado e caímos logo na capoeira, uma mata fechada e não deu nem 5 minutos para o Daniel Trovo soltar um galho no olho do Vagner e aí tivemos que nos deter por um tempo para prestar os primeiros socorros, mas isso não foi nada porque o Vagner ia “tomar no zóio” mesmo era lá no cume do Espelho. Restabelecido o moribundo, seguimos enfrente, sempre rumando para sudoeste, descendo e subindo pequenos vales, cruzando riachos e atravessando vegetação fechada.

          A quilometragem total não passa de míseros 3 km desde o rancho , mas para quem já está no bagaço, 100 metros subindo é uma tortura. O calor tá de matar e a umidade acaba por ir minando a energia da gente. Alguns já vão ficando para trás, Luciano perna manca e joelho podre, assume a rabeta de vez e pega para si o título de cu de tropa da subida final. Rafael é só mais um zumbi vagando sem rumo tentando acompanhar o grupo, ao seu lado, Paulo Potenza vai tentando lhe dar um conforto psicológico, mas não demora muito para ele anunciar que o Rafa teve um mal súbito e agora jaz ali caído no meio da mata a espera do SAMU. Um km depois nosso caminho se vira para o sul e embica para cima e os “fi duma égua” do Thiago e do Flórido anunciam que logo estaremos passando pela última água antes do cume, mas, ou se enganaram ou estavam de onda com a nossa cara, porque essa água nunca chegava, passávamos por centenas de riachos, mas nunca era o último.

          O tempo vai passando e cada vez mais a língua da maioria vai se arrastando pelo chão, tirando 2 ou 3 novinhos, o resto arrasta seu sofrimento montanha acima e o problema não é por estarem fora de forma, mas é que no primeiro dia sem dormir e como a tarde já bate as portas, aquela leseira vai se acentuando, a fome vai tomando conta e quando é anunciado que o último ponto de água chegou, enchemos todos os reservatórios e sem perder tempo começamos a galgar a rampa final rumo ao cume. Até caras forte como Trovo e Régis já vão dando sinal de fraqueza e o Maurício é outro que resolveu trazer comida para todo mundo e se enrosca carregando uma mochila muito acima do necessário. Mas eu não, apesar de me manter firme no grupo de elite que vai à frente, meus quase 50 anos já viraram 100 faz tempo, minha perna direita resolve que não iria subir mais e fez corpo mole, se acabando em câimbras. Sem querer pagar mico e pedir para o grupo parar na reta final, apenas dou ordem para que minha perna esquerda se vire e araste a direita e quando um grande clarão surge no meio das árvores logo vem o grito do homem à frente: “CUME GALERA”.

 

          A chega ao cume da PEDRA DO ESPELHO é feita aos poucos, porque é um grande platô plano, quase do tamanho de um campo de futebol e quanto mais perto da borda, mais a paisagem vai se abrindo para um mundo de sonhos e beleza e antes mesmo de irmos a borda final, jogamos nossas mochilas numa clareira de mato mais ralo e nos cumprimentamos ali mesmo, com a sensação do dever comprido e com a certeza de que todo o nosso planejamento tinha tido êxito. Aquele mar visto lá de cima do Espelho era algo mágico e inexplicável, não só por estarmos em uma das regiões mais isoladas do litoral norte, mas também por fazermos partes dos poucos aventureiros que tiveram a honra de colocar os pés naquele cume lendário. Extasiados e sem saber para que lado olhar, corremos todos para onde o terreno despenca mais abruptamente, porque a Pedra do Espelho está virada para sudoeste, de onde vales gigantes emolduram um cenário incrível e olhando para aquele vale, quase que hipnotizados, vimos surgir ao longe um helicóptero que vinha em nossa direção, voando baixo, mas apenas ficamos ali, apreciando seu magnífico voo, mas quando ele embicou de vez para o cume do Espelho, um frio na barriga foi inevitável.

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             Quando o troço voador começou a vir em nossa direção, dando pinta que pousaria mesmo no Espelho, não quisemos acreditar, mas quando a ficha caiu de vez, começou a gritaria de opiniões desencontradas: “ Caralho mano, é o Águia da Policia Militar”, gritou alguém. “ Que nada, é um helicóptero da POLÍCIA FEDERAL”, retrucou o Trovo do outro lado. Outros, como eu, não gritaram absolutamente nada, apenas não acreditavam no que estava acontecendo: Estava na cara que a casa havia caído para a gente. Sairíamos dali presos, multados e com os equipamentos apreendidos. O pior é que para evitar qualquer confusão com parques ou coisa assim, subimos pelas fazendas do Norte, onde tecnicamente o caminho é permitido e necessita apenas a liberação dos donos das propriedades. O helicóptero pairou no ar como um beija-flor e vagarosamente foi descendo. Eu já não sabia se corria, mas quando pensei na possibilidade, me vi acuado na beira de um abismo de mais de 500 metros de altura e parte dos exploradores, sem ter mais o que fazer diante da situação, correram em direção ao helicóptero que ameaçava pousar encima das nossas mochilas.

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          O HELICÓPTERO foi baixando até tocar o solo. O mais perto da aeronave era o Thiago e notou logo que quem pilotava era uma mulher, acompanhada de outro homem e ao ver que corríamos (menos eu) na direção deles, permaneceu no chão por algum segundo e alçou voo rapidamente. É provável que ao verem aquele monte de malacabados indo em sua direção, ficaram com medo e picaram a mula do topo. A gente ficou a ver navios, sem saber do que se tratava, mas aliviados de mais uma vez sermos deixados em paz naquele cume sombrio e distante da civilização, 10 homens isolados do mundo, donos absolutos daquelas paragens, soberanos sobre o TERCEIRO CUME mais alto do LITORAL PAULISTA.

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          Depois desse acontecimento inusitado, foi uma festa só, comemoração e risadas sem fim. Estávamos felizes e aproveitamos as horas de sol para montarmos nossas barracas e fazer uma comida e enquanto o fogareiro trabalhava, fomos apreciar o pôr do sol que pela localização da montanha ficava quase que paralelo ao mar, num dos cenários mais fabulosos do litoral Paulista. Dentre outras paisagens se destacava a Baia de Ubatumirim, Ilha Bela, Ponta da Joatinga, além do distante pico do Corcovado e dezenas de outras ilhas, num mar qualhado de belezas inigualáveis, além do proeminente cume do Alto Grande e o UB2, que fechava os abismos da serra. Vales e gargantas profundas podia se contar em dezenas, numa selva isolada, de onde rios desciam do planalto em direção a planície litorânea, enfim, a Serra do Mar Paulista com tudo que tem direito.

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          Foi um dia longo e de múltiplas experiências e com a ida do sol era hora de nos voltarmos para o jantar e para o descanso merecido. Eu e o Régis dividimos a barraca e o rango, que dessa vez, como era uma única refeição quente, resolvi levar uma carne seca já dessalgada e cozida na panela de pressão, nela juntei cebola, alho, pimenta e outros temperos diversos, coloquei azeitonas picadas e quando o bacon fritou, misturei com uma caixinha de creme de leite e fizemos um super strogonoff e para complementar cobrimos com queijo  ralado e para beber um suco de jabuticaba, nossa típica fruta da Serra do Mar, tudo isso com um arroz quentinho e uma saladinha de tomate cedido gentilmente pelo Mauricinho, que trouxe 5 kg pra não faltar mesmo, porque miséria não é com ele.

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          Quando juntamos aquele grupo com  os novos integrantes (Flórido, Mauricio e Thiago), a galera combinou de fazer uma grande confraternização no cume do Espelho e dessa vez resolveram que levariam um aperitivo para tomar lá encima. Eu mesmo, que não sou dado ao álcool, nem me intrometi, mas a intenção de levar uma garrafa de vinho acabou se multiplicando por vária garrafas de bebidas diversas e enquanto eu e o Regis nos recolhemos cedo depois de quase morrer de tanto comer, a galera ficou lá fora bebendo e comemorando e vez ou outra eu acordava com a algazarra, mas voltava a dormir novamente. Sei que alguns exageraram a ponto de a meia noite surgirem convites para ver disco voador colorido à beira do abismo. Mas nada se comparou ao “VGN Valita Vagner”, que passou a noite inteira espremendo laranjas. Dá barraca de onde estávamos, só ouvíamos suas “gorfadas” que iam parar na cabeça dos turistas lá no litoral. Parecia um espremedor de laranjas em ação, vomitando no mundo e até na cabeça do próprio Trovo, seu companheiro de barraca avistador de nave espacial.

          É mais um lindo dia que nasce e antes que o sol explodisse no horizonte, o grupo já estava de pé para saudá-lo, menos o Vagner que ainda estava às voltas com fabricação de suco de laranja, aliás, ele mal parava em pé e essa ressaca ia perdurar pelo menos até a metade daquele dia. Com a iluminação da manhã, novos cenários vão surgindo  e novos ângulos vão nos dando a dimensão desse lugar. Fica até impossível escolher o melhor ângulo para uma foto diante de tantas possibilidades. E estar no topo da Pedra do Espelho é ter o privilégio de avistar um mundo diferenciado e de cima daquele pico isolado, o litoral Paulista em nada parecia com aquele lugar agitado, ali de cima o silencio reina absoluto e é possível ficar olhando aquela paisagem pela eternidade sem se cansar.

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          Já havíamos feito as medições do cume do Alto Grande e instalado um livro de cume nele, mas para completar o serviço, também levamos uma capsula para deixarmos um livro no Espelho e aproveitamos também para atualizarmos a marcação de altitude. Pelas cartas topográficas e satélite, imaginávamos que a altitude pudesse chegar a ultrapassar a linha dos 1500 metros e realmente estávamos totalmente certos quanto a nossa expectativa. Quem chega já vê que existe uma pequena elevação uns 50 metros afastado das bordas, que o Thiago disse se chamar Cabeça do Tigre, mas minha imaginação não conseguiu saber de que tigre se tratava, mas mesmo assim é uma elevação muito pequena e irrelevante, então resolvemos proceder as marcações na borda da montanha, onde o mundo acaba em abismos colossais e foi lá também que escolhemos para instalar o LIVRO DE CUME, onde o amarramos em um pequeno arbusto para que não seja levado pelo vento e foi ali que travamos nossos GPS  e marcamos a altitude que nos deu PEDRA DO ESPELHO – 1504 METROS de altitude acima do nível do mar, o terceiro maior cume de Ubatuba e também de toda a Serra do Mar Paulista.

 

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          A gente se apegou aquela montanha de tal maneira que ninguém fazia menção de descer, ficamos todos reunidos ali nas suas bordas vislumbrando e conversando sobre expedições futuras na Serra do Mar, mas chega uma hora que é preciso voltar para o mundo dos homens e alguém nos acorda daquele sonho e avisa que é hora de descermos, porque ainda teremos um longo dia de caminhada pela frente. Devagar e meio contrariados, fomos desmontando as barracas, tomamos café, jogamos tudo para dentro das mochilas e partimos rumo a Paratí. Aliás, quando acaba  o cume plano do Espelho e entramos na mata, automaticamente estamos também cruzando a linha imaginária que separa São Paulo do Rio de Janeiro e como agora estamos descansados e bem alimentados, a descida do cume em direção ao interior mais plano da floresta é feita numa velocidade inimaginável e o sofrimento do dia anterior, desta vez vira um bonito passeio sombreado e os 3 km até o rancho é feito com os pés nas costas, em meio a muita conversa e descontração de todo o grupo e até o Vagner já se recuperou e voltou a ser o VGN de sempre.

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          Chegando à bifurcação acima do rancho, desta vez pegamos para a direita, vamos começar a descer o VALE DA TOCA DO OURO em direção a Parati. A trilha se enfia mata à dentro e vai alternando entre grandes descidas e pequenas subidas, mas sempre perdendo altitude, mesmo que sejam mínimas. É uma caminhada gostosa e sombreado e por não exigir muito esforço e a gente ainda estar com o nível de energias lá no alto, vamos ganhando terreno com uma certa velocidade, até que uma hora depois de termos pego essa trilha principal, galgamos uma subida exposta até sermos obrigados a nos desfazermos das nossas mochilas e pararmos para contemplarmos a PEDRA EMPILHADA. Essa formação rochosa é belíssima, num cenário de sonhos, sendo uma pedra arredondada, sustentada por outra quadrada, no início de um vale aberto, donde montanhas pontudas e picos bicudos, emolduram uma paisagem incrível.

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          Diante daquele cenário ninguém quer ir embora e cada qual busca o melhor ângulo para uma boa foto e com a ajuda do Thiago, consigo ir ao cume da rocha redonda e depois um a um foram brincar de escalar o monumento rochoso e aproveitando a parada, nos detemos mais um pouco para comer alguma coisa e descansar numa sombra. Quando retomamos a pernada , nossa direção que era sudeste , virou drasticamente para o sul, mas 300 m depois vai dar uma guinada e seguir para o leste, ainda continuando em campo aberto, com montanhas e paredões nos acompanhando pelo lado esquerdo do vale , mas depois de queimar o couro em campo aberto, voltamos para mata e caminhamos por uns 500 metros de sombra até  voltarmos novamente para o sol e mais 500 metros darmos de cara com um rio que veio para salvar nossa pele e nossa garganta já seca.

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          Aquele era mais um rio bucólico dessas serras, água cristalina onde alguns resolveram se jogar e se refrescar de vez, enquanto outros resolveram usar o tempo para tirar as botas e apenas refrescar os pés. Do outro lado do rio, um rancho de madeira bem construído faz inveja a quem gostaria de largar tudo e passar uma boa temporada longe da civilização e nossa trilha começa por atravessar o próprio rio, contornar a casinha de madeira e ganhar novamente a descida entre grandes rochas e caminho desimpedido, hora ou outra tendo de correr de alguma vaquinha mais perigosa. A caminhada segue, mas agora estamos bem próximo do fundo do vale com o Rio do Ouro emoldurando a paisagem e menos de uma hora de caminhada já estamos novamente atravessando mais um capão de mata e passando encima de outro afluente, mais uma pausa para m gole de água e um refresco.

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          O dia vai passando e a gente enfurnado dentro daquele vale sem ver uma viva alma além de nós mesmo. Uma meia hora depois, desde o último riacho, nos enfiamos mais uma vez dentro da floresta e sem aviso prévio, somos apresentados a tal TOCA DO OURO que nomeia esse vale incrível. Antes da Travessia, ainda nas conversas de organização, eu perguntava para o Alan sobre que raios de toca seria essa que dava nome ao vale e ele sempre desconversava, então a chegada a esse marco natural acabou por se tornar uma surpresa muito agradável para mim, achei um cenário bem marcante e bem interessante, mais um lugar para um bivac em caso de emergência, aliás, atravessar esse vale é muito possível sem ter que carregar uma barraca, apenas usando os abrigos naturais como moradia provisória .

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          Mais 2 km vagando por campos aberto nos leva até um outro bonito rancho, vazio por sinas, aí o contornamos pela esquerda, passamos a descer bruscamente até passarmos embaixo de uma grande rocha e mais uma vez adentrarmos floresta à dentro, onde outro grande córrego nos convida para um banho mais demorado. A tarde já se anuncia e o calor vai batendo seus recordes nesse inverno e nossa energia já não é mais a mesma, muito porque estamos caminhando desde as nove da manhã e o terreno parece não querer perder altitude. Ao longe vemos Paratí e seu aeroporto e sua linda baia, mas a sensação é que o mar foge da gente. Abandonamos o riacho pelo lado errado, mas logo descobrimos que era hora de cruzar o Rio do Ouro para seu lado esquerdo e quando fizemos isso, tivemos que engolir uma subida que não esperávamos ter que enfrentar.

 

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          Nesses próximos 500 metros vamos torar ao sol e depois ganhar novamente a sombra por mais 1 km e saindo novamente no aberto, vamos nos deslumbrar com um MIRANTE SENSACIONAL, onde é impossível desgrudar os olhos do mar e mesmo tendo que aguentar as altas temperaturas, nos sentamos ali naquela colina e ali ficamos grudados e hipnotizados com a paisagem. Ao longe a visão da Igrejinha da Penha já nos alegra a alma por sabermos que não está muito longe nosso destino, então adiantamos o passo, cruzamos por um vale bonito onde um desmoronamento nos surpreende pelo tamanho e agora sim, parece que estamos perdendo altitude considerável, ziguezagueando floresta à dentro até o fundo de outro vale de onde uma CACHOEIRA despenca e somos obrigados a parar para mais um banho.

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   ( Thiago Silva)

          Engraçado que quando estudei esse roteiro, jurava que quase todo o vale era servido por uma estradinha, ainda mais por avistar diversos ranchos ao longo do caminho, mas vejam só, são quase 20 km de trilhas perdidas no meio de um vale selvagem e é incrível que esse lugar ainda não tenha sido descoberto pelos caminhantes do Brasil, sinal que esse nicho ainda continua a palmilhar pelos mesmos caminhos de sempre e a exclusividade desse roteiro nos deixa ainda mais satisfeitos. Mas chega uma hora que é preciso dar fim a caminhada, então por mais 2 km apertamos o passo, agora despencando freneticamente até que sem percebermos, caímos bem nos encontros do Rio do Ouro com o Rio do Sertão, numa pontinha que cruza um fim de estrada, um rio lindo demais e é à beira desse Rio que nos cumprimentamos, chegamos ao fim de mais uma jornada, mais uma empreitada bem-sucedida pela Serra do Mar Paulista e desta vez o final glorioso acabou no Rio de Janeiro, Paratí está sob nossos pés. Aproveitamos o Rio do Sertão, que logo mais à baixo vai se chamar Perequê-Açu e tomamos um belo de um banho para lavar a lama e a alma, trocamos de roupa e ganhamos a estrada até estacionarmos numa lanchonete mais à frente, para tentarmos retornar aos nossos veículos, estacionados ainda lá no início da fazenda de onde havíamos partido 2 dias atrás.

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          Na lanchonete rural, conseguimos o contato de um carro que mediante um pagamento, nos ofereceu para resgatar os veículos. Então decidimos que os motoristas (Alan e Luciano) subiriam, enquanto nós esperaríamos eles voltarem, mas o Mauricio e o Potenza, na ânsia de experimentar o tal leitinho do Jambú lá na fazenda do seu Lourival, fizeram questão de ir fazer peso no carro do resgate. Foram e voltaram só depois de umas 2 horas e sem muita pressa, cada carro tomou seu destino e fomos chegar de volta a capital Paulista beirando as duas da manhã, o que obrigou parte do grupo a dormir como mendigo esticado num canto qualquer da Estação Tatuapé do metrô até que um novo dia nascesse e nos mostrasse a cara cinzenta de uma segunda feira de trabalho.

 

          Levou quase uma década para que puséssemos os pés nessas montanhas lendárias e eu acho que jamais sossegaríamos até nos vermos no tão sonhado CUME DA SERRA DO MAR PAULISTA. Esse era um MARCO GEOGRÁFICO que buscávamos e mesmo que essa montanha seja subida por alguns nativos oriundos das bordas dos Campos de Cunha, coube a nós a honra de desvendar esse mistério ou ao menos revela-lo ao MUNDO DA AVENTURA. Eu tive o prazer de me perder nos mapas e cartas topográficas, buscar referencias e divisas, vasculhar o submundo da internet atrás de informações que comprovasse nossa tese de que aquelas montanhas estariam no topo do nosso litoral, mas toda a glória dessa “expedição” deve cair nas costas do Thiago e do Flórido, que foram os exploradores que botaram a cara e nos lideraram até esses cumes. O resultado final dessa “EXPEDIÇÃO GEOGRÁFICA” foi a confirmação de que o ALTO GRANDE reina absoluto sobre Ubatuba e todos os picos do litoral de São Paulo e mesmo que seus 1662 metros de altitude careça um dia de uma medição mais precisa, com equipamentos de ponta, sua magnitude quanto a geografia será “inderrubável”. Já a PEDRA DO ESPELHO não precisa de glamour altimétrico porque a seu favor conta o deslumbramento, o fascínio e a soberba visão do Litoral Norte Paulista e dos mares Fluminenses e mesmo figurando entre os três maiores cumes do litoral, seus 1504 metros não fica devendo nada a nenhuma outra montanha.

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                                                                               Divanei Goes de Paula- setembro/2019

 

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    • Por G.barbozaaa
      Alguém sabe me dizer como está a trilha/caminho da cachoeira da usina, desde a cidade até chegar a cachoeira! Queria saber se está tendo fiscalização na linha do trem, ou se estão proibindo. 
      Bom proibido sempre foi mas nós vamos mesmo assim, porém parece que a fiscalização está mais prestativa.
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    • Por divanei
      VALE DO ITAMAMBUCA
      Aquele foi um duro golpe na minha carreira de Explorador Selvagem. Pela primeira vez em anos estudando mapas, eu não conseguia chegar há lugar nenhum. Foi mesmo uma madrugada perdida aquela, fui dormir frustrado pela minha incompetência para encontrar uma rota que pudesse nos levar às nascentes do rio Itamambuca, no Litoral Norte Paulista. Aquele era um rio perdido, uma nascente que possivelmente nasceria num fim de mundo inacessível ou pelo menos, com uma rota inviável pelo tanto de dias que sempre despúnhamos para essas expedições. Partindo do último ponto que era possível avistar o rio no mapa de satélite, o lugar habitado mais perto ficava ao norte, por intermináveis quase 10 km de florestas e montanhas selvagens e quase a mesma distância a oeste, conseguíamos localizar uma estrada e diante disso, chegar ao rio e interceptar seu nascedouro, era tarefa praticamente impossível e talvez não valesse o esforço, então deixei para lá e fui cuidar da minha vida, investir em outros roteiros.

      Apesar de ter deixado esse rio de lado, sempre quando podia, voltava novamente meus olhos para ele e numa noite vazia, com mapas mais modernos, sem querer, um ponto perdido na imensidão verde me chamou a atenção: ao aproximar a imagem e ir mudando os mapas, consegui localizar uma construção isolada no meio da floresta, uns 3 km a oeste do rio. Na hora levei um susto e me enchi de alegria por encontrar o que me pareceu um barracão e, mesmo sem demostrar qualquer caminho para lá chegar, era obvio deduzir que haveria uma trilha ou uma estrada, mesmo que abandonada, o que nos daria uma chance de subir o rio partindo do litoral, varar esses 3 km de florestas até essa construção e lá tentar achar um caminho que nos levasse para a estrada.
      Esse roteiro ficou lá, guardado por anos, como um tesouro escondido, uma riqueza para ser gasta no futuro, até a chegada de novos exploradores ao nosso grupo. Thiago e Alan estavam acostumados a se embrenharem em Ubatuba e quando me falaram que também tinham interesse em explorar o Itamambuca, juntar forças e conhecimento, foi questão de tempo. Eles também tinham “ganhado” a construção e igual a mim, viviam esse dilema de tentar solucionar esse entrevero, achar um caminho que pudesse nos levar direto para a nascente ou ao menos, nos devolver para a civilização, caso optássemos por subir o rio.
      Tocamos alguns outros projetos juntos, enquanto a solução não vinha e com a advento de novos mapas, observamos que um caminho partindo perto da Osvaldo Cruz poderia nos levar nessa construção perdida na floresta, mas foi numa noite de sorte que um desses meninos conseguiu um Traklog( caminho marcado no gps) dizendo que existia mesmo uma estrada até o casarão e ia mais além, a estrada continuaria por mais uns 10 km , passando bem na cabeceira do Rio Itamambuca e diante desse achado, o mistério havia sido solucionado, era preciso achar uma data e montar um grupo que se dispusesse a tirar aquele vale selvagem do anonimato.
      Por diversas vezes, tentamos marcar uma data, mas o tempo sempre se encarregava de passar a perna na gente e por outro lado, um dos integrantes só dispunha de 2 dias, contando com uma segunda feira, então ficava sempre complicado conciliar previsão de tempo boa e dias disponíveis. Além do mais, parte do grupo se recusava a enfrentar essa expedição se a previsão não nos desse 100 % de certeza de tempo favorável e para piorar, um dos meninos do Norte, numa outra expedição, acabou por fraturar o pé, o que nos levou a dar uma brochada e ir deixando esse rio de lado. Mas chega uma hora, que é preciso tomar uma decisão e sair da moita e com uma previsão perfeita uma semana antes, resolvemos que o Itamambuca iria virar história naquele fim de semana combinado com uma segunda feira, formamos um grupo forte e partimos para Ubatuba.
      Num sábado à tarde, Thiago Silva passou na Rodoviária do Tietê e pegou a mim, o Paulo Potenza e o Júlio Ronchese e debaixo de uma chuva dos infernos, nos dirigimos para o litoral Norte. Pois é, o tempo virou de última hora e a metade do grupo que se recusava a botar a expedição em pratica com mal tempo, foi de São Paulo à Ubatuba praguejando e tentando convencer a outra metade que era loucura seguir com aquela chuvarada toda, que a chance de dar merda era grande, mas eu e o Júlio não arredávamos o pé, queríamos seguir de qualquer jeito, confiando de que a temperatura prevista de mais de 30 graus e apenas 10 milímetros de chuvas, não era motivos para cancelamento , mas estava causado o impasse : Eram dois votos a favor e dois contra, mas faltava o voto de minerva do quinto elemento, um nativo de Ubatuba seria o fiel da balança, seria dele o voto pelo sim ou pelo não .

      ( Ubatuba - foto net)
      Chegamos em Ubatuba na boca da noite e fomos muito bem recebidos pelo Tomaz “Pontes” Lamosa, o cara que organizou toda a logística para nos deixar no topo da serra, de onde partiríamos para tentar achar a nascente do Itamambuca, mas surpreendente, o nativo ficou atrás da moita. Uma hora queria ir, outra hora achava que poderíamos abandonar a ideia e irmos explorar outro rio ali pelo litoral mesmo, fazer turismo, achar pocinho, ou seja, se manteve neutro e o impasse continuava, com o Potenza e o Thiago pesando na nossa cabeça pelo cancelamento. Nada se resolvia, ninguém queria ceder, ninguém queria abrir mão das suas convicções, até que resolvemos parar de discutir e ir comer algo numa lanchonete, antes de chegarmos a um acordo e foi nessa hora que eu e o Júlio montamos uma estratégia perfeita: Teríamos que subornar um dos 3 e fazer com que viesse para o nosso lado, o lado do “ FODA-SE O TEMPO, VAMOS DESCER O RIO NEM QUE SEJA O DIA DO JUIZO FINAL”.
      De todos os três que ali estavam, não haveria outro mais propenso a ser subornado. Na fila da lanchonete, colamos atrás dele e o encostamos na parede. No início ele se fez de difícil, dizendo que a gente poderia morrer com o rio cheio, poderíamos pegar uma cabeça d’água, deslizar barranco abaixo, morrer afogados, trucidados por um raio, uma árvore poderia cair na nossa cabeça, mas a gente não queria saber de conversa fiada e quando dissemos a frase: “ A GENTE TE PAGA UM PÃO DE QUEIJO”, Paulo Potenza foi definhando em suas convicções, amoleceu as pernas, perdeu o rumo, gaguejou, fingiu demência até que não mais aguentou: “- TÁ BOM GENTE, MAS TEM QUE SER PÃO DE QUEIJO DOS GRANDES. ”( rsrsrsrsrsr)
      Uma vez decididos seguir com a expedição, nos jogamos no transporte descolado pelo Pontes e rumamos serra acima e quando chegamos ao topo, abandonamos a Osvaldo Cruz em favor de uma estradinha de terra que margeia o Rio Paraibuna e pouco mais de 1 km depois, saltamos na escuridão da noite e adentramos numa porteira. A porteira estava fechada com cadeado, mas não foi necessário pular, porque existe uma abertura lateral destinada a pedestres. A placa indicava o caminho para várias cachoeiras, mas tão pouco dizia nada sobre ser proibido passar pela estrada, mas ficamos ligeiros, não queríamos dar de cara com nenhuma guarita do Parque que nos fizesse voltar, então nos pusemos a caminhar com muita cautela, numa estradinha de terra que corta uma floresta exuberante.
      Caia uma fina garoa, tão fina que mal era sentida. Os passos eram rápidos e decididos e a noite já ia alta quando nossas lanternas iluminaram algo que nos pareceu ser uma placa ou mesmo a parede de uma casa, pelo menos foi o que nos passou pela cabeça e imediatamente, um facho de duas lanternas nos interceptou. Uma luz alta explodia na nossa cara sem que tivéssemos um poder de reação rápida. Nossa ação foi atabalhoada, corremos para o lado errado da estrada e acabamos por trombar num barranco de uns 3 metros de altura à nossa direita. Quem conseguiu, escalou o barranco e se escondeu floresta à dentro, mas os outros não conseguiram em tempo hábil e ficaram encostado nele, com a bunda de fora e a cara na terra, feito um avestruz envergonhado. A cena era trágica e cômica ao mesmo tempo. As lanternas se aproximando da gente e nós com o coração e a respiração parada, com medo de sermos pegos e deportados imediatamente para fora da rota. Ficamos ali, inertes, numa posição constrangedora, parecendo facínoras fugitivos da polícia, enquanto o cara com a lanterna na mão, gritava para que saíssemos, porque ele já havia nos vistos.
      Naquela hora, na minha cabeça, a casa tinha caído, seríamos enxotados, teríamos que dar explicações, seríamos humilhados e teríamos que engolir um fim de expedição que nem havia começado. Poderíamos ter tentado nos enfiarmos floresta à dentro, mas nem isso era mais possível, o jeito era aceitar a derrota, era preciso reconhecer que dessa vez havíamos perdido, tínhamos que sair, enfrentar nossos pesadelos de frente e antes mesmo que tentássemos qualquer discussão do que poderíamos fazer, Thiago e Pontes caíram na estrada, bem aos pés do que pensávamos ser o vigilante de alguma possível guarita que havia por ali.
      O Thiago já foi tentando se explicar e eu cheguei logo dizendo que não tinha armas, que não era caçador e nem palmiteiro, varrendo o tal segurança de cima a baixo, procurando saber onde ele carregava a arma, mas nada encontrei, o máximo que vi, foi um cara super educado, de fala mansa, um pouco assustado com a nossa presença repentina. Tratava-se de um casal de biólogos, que procuravam sapos na estrada e a expressão “ vai caçar sapos” nunca me pareceu tão atual. O biólogo se ligou logo que éramos aventureiros, muito porque, nossa roupa não deixava qualquer dúvida de que estávamos apenas a procura de aventura e não oferecíamos mal a ninguém. Ele nos perguntou para onde iríamos e eu lhes disse que dormiríamos na construção uns 5 km à frente e na manhã seguinte, voltaríamos para estrada por outra trilha. Claro, não quis dizer que a verdadeira intenção era achar a nascente do Itamambuca e descê-lo até o mar. Então, não tendo mais nada a dizer e como ele não fez menção de nos barrar, nos despedimos e seguimos enfrente, agora numa velocidade de foguete, querendo sair o mais rápido dali, antes que eles mudassem de ideia.
      Os próximos 5 km passaram voando, fomos passando por rios que atravessavam a estrada e pulando por cima de jararacas que cruzavam nosso caminho e antes da meia noite, tropeçamos no casarão perdido no meio da selva e aí vimos que se tratava de uma base de pesquisa e fiscalização, por sorte, completamente vazia. Claro, não íamos ficar dando bobeira ali, esperando que chegasse alguém que pudesse nos mandar embora, então fizemos uma parada rápida e logo seguiríamos enfrente, na intenção de acampar no mato, já na nascente do Itamambuca, mas fomos obrigados a mudar nossos planos e mais uma vez voltarmos a viver sob tensão.
      Paulo Potenza se apresenta a nós com cara de choro, dizendo que a expedição acabara para ele, que a bota nova havia destruído seu pé e que no outro dia iria voltar. Pior ainda, disse que não poderia ir a lugar nenhum naquela noite e que teríamos que pernoitar ali mesmo, na varanda da base de fiscalização. Foi um verdadeiro balde de água fria, muito porque, eu não tinha certeza de como o grupo reagiria àquela situação, se deixaria ele voltar sozinho, afinal de contas, era apenas uma estrada ou se dariam por encerrada a expedição. O certo é que fizemos de tudo para tentar recuperar o pé do Potenza, lhe enfiando remédios potentes e tentando achar uma solução para que ele seguisse e consequentemente a travessia também. Mas naquela noite ainda embaçada, teríamos que ariscar a nossa pele, teríamos que dormir ali e se tivéssemos sorte, às 5 da manhã, partiríamos para cumprir nossa jornada.
      Jogamos os sacos de dormir no chão e alguns montaram suas redes nas pilastras, mas eu apenas encostei por ali, meio que desolado e crente que a qualquer momento seríamos apanhados, portanto, mal preguei o olho e quando o relógio bateu 5 da manhã, me levantei e fiquei apressando todos para partir. O pé do Potenza estava melhor e o Júlio se propôs a trocar de bota com ele, cedendo-lhe suas botas macia para que ele continuasse e, antes mesmo que o sol resolvesse nascer, botamos o pé na estrada e demos início a travessia.
      Retomamos novamente à estradinha no meio da floresta, mas desta vez, ela se transformou numa trilha, cheio de árvores caídas onde era impossível passar qualquer carro, foi aí então que me dei conta de que a partir dali, estávamos por conta e risco e o sucesso da empreitada só dependia da nossa competência e não de interferências externas. Por mais 3 km fomos ganhando um pouco de altitude e por quase uma hora rasgamos o caminho até estacionarmos numa placa que divide os núcleos dos parques, bem encima de onde havíamos marcando o início da nascente do rio, era chegada a hora, voltar atrás já não era mais possível.
      Enfrente a placa, nos enfiamos no mato e fomos descendo levemente, nos desviando de alguma vegetação mais espinhenta, tentando escapar de um ou outro bambuzinho até que, sem ter como fugir, nossas botas empaparam. Um filete de água começou a escorrer e a cavar o chão, até que uma pequenina queda d’água nos faz pensar que estamos dentro do Itamambuca, mas 20 minutos de caminhada nos leva a um pequeno riacho, esse sim a verdadeira nascente do rio. E como é lindo e prazeroso pegar um rio com as mãos, meio palmo de água cristalina que escapa do seio da terra.

      A partir dali, só havia um caminho a seguir, o rio seria nossa trilha, nossa estrada, nosso rumo, nossa linha de salvação por pelo menos 2 dias, seria a ele que nos apegaríamos, mesmo porque, foi para isso que viemos, foi para isso que perdemos dias e dias nos debruçando em mapas e montando logística. A cada passo, a cada metro percorrido, vamos vendo o rio crescer e se enfiar em valetas cada vez maiores, onde cachoeirinhas, mesmo que ainda tímidas, vão despencando para o fundo do vale.
      Os primeiros trechos iniciais de um rio são, na maioria das vezes, feitos para contemplação, porque são planos e com vegetação exuberante, donde pequenos afluentes vão fazendo com que ele vá aumentando de tamanho, formando vários pocinhos cênicos e é um caminhar gostoso e desimpedido, mas por ainda ser bem de manhã, mesmo já ensopados, vamos tentando fugir da água, até que que alguma gargantinha nos fecha a passagem e somos obrigados a nos jogarmos nas pequenas correntezas .

      O rio vai crescendo e vamos avançando rapidamente. Partimos de 1.100 metros, que é a altitude de sua nascente, e quando chegamos a 915 metros de altitude, depois de termos avançados por quase 3 km, somos obrigados a nos determos por um momento, mesmo porque, não há mais chão para prosseguir. A nossa frente, o vazio se apresenta e a água que corria calma e serena, se joga no nada para formar uma CACHOEIRA em forma de catarata, não muito alta, mas assim mesmo de encher os olhos.

      A passagem para descer aos pés da cachoeira, parecia bem obvia pela esquerda, tanto que o Potenza e o Júlio já se encaminharam para lá, na tentativa de ganharem uma fenda e fazer a descida, mas logo esse caminho se mostrou um tanto exposto, então o Thiago e o Pontes puxaram a fila pelo caminho da direita. Uma descida bem ruim, onde tivemos que usar nossas bundas como freio para não sermos arremessados no vazio, tendo que nos enfiarmos em baixo de uma rocha gigante e usá-la como proteção até conseguirmos escorregar rente a parede e nos vermos em segurança, apreciando aquele espetáculo em forma de água caindo da pedra, uma abertura digna e da grandeza que aquele rio representa para a Serra do Mar Paulista.

      As CATARATAS DO ITAMAMBUCA, marcam definitivamente o início do encachoeiramento do rio, que vai alternar entre corredeiras e pequenas quedas, encontros com afluentes maiores. Agora era preciso muito pula pedra, sobe e desce. Muito escorrega de cima de grandes matacões para dentro da água. É mesmo um caminhar lento e cansativo, mesmo porque, estamos praticamente sem dormir e isso vai minando a nossa energia, mas não há tempo para murmúrios e lamentações, é preciso seguir e uns 100 de desnível abaixo das Cataratas, cerca de 1500 metros depois, um grande poço nos diz que é hora de nos determos por um instante, tomarmos um folego, comermos alguma coisa e aproveitarmos para estudarmos os mapas.

      Apesar de já termos andado muito, o dia mal passava das onze da manhã, mas o dia permanecia lindo, com o sol brilhando e sem nenhuma nuvem no céu. Até então, a previsão de chuvas não se confirmou e isso ajudava muito a manter o moral do grupo bem elevado. Quase sempre o Júlio seguia à frente, abrindo caminho e nos levando a perder altitude, não com muita velocidade, mas qualquer metro perdido era muito comemorado e quando podíamos, nos jogávamos para dentro do rio e virávamos passageiros da aventura, deixando com que as águas mais furiosas, nos conduzisse para mais abaixo no rio, ganhando assim metros e tempo preciosos.

      Quando o rio não nos parecia seguro, era hora de cair no mato por um breve tempo, tentando perder altitude e transpor trechos muito técnicos, onde passar sem corda poderia ser potencialmente perigoso, mas assim que víamos que o perigo havia passado, era hora de voltar ao rio e seguir por dentro dele. Uma cachoeirinha é deixada para trás, até que uma outra, mas desta vez bem grande, nos barra o caminho e nos faz novamente nos pendurarmos em barrancos até conseguirmos descer diante dela.

      É sem dúvida outra bonita queda e ele vai marcar também uma nova faze na nossa Expedição, porque após ela começa uma sequência de lajes, hora de estacionar novamente, pensar bem qual caminho seguir, porque uma oposta mal feita, uma caminho mal planejado, poderá nos tomar um tempo e comprometer nossa jornada.

      A nossa frente, o vale abriu. O rio começou a descer em pequenas cachoeiras, que iam debruçando suas águas em lajes que desciam em patamares, aparentemente lisas e impossíveis de descer. Ao lado o barranco do rio se transformou em paredes altas onde teríamos que nos desdobrarmos para tentar escapar delas. Mas o Júlio deslumbrou uma passagem, uma descida pelas lajes do rio. Aquilo era algo meio insano, mas a gente foi encontrando passagens perfeitas, nos aproveitando de pequenas ranhuras, pequenos patamares, onde fomos usando uma fita para nos dar sustentação e fomos avançando, perdendo altitude.
      Era uns quebra cabeças que iam se juntando, peça por peça, até que montamos a descida perfeita. Conseguimos descer quase 500 metros de distância da cachoeira, foi sem dúvida uma das mais bem-sucedidas descidas de rocha de todos os tempos e para comemorar, paramos numa pedra exposta ao sol para almoçarmos e planejarmos os próximos passos.

       
      Com a barriga cheia e o ânimo renovado, pela estratégia vitoriosa, retornamos nossa jornada, descendo o rio como dava, as vezes tendo que cair no mato para transpor algum trecho mais técnico. O avanço é lento, moroso e por vezes cansativo, mas é preciso continuar. Por vezes pouco nos falávamos, concentração total para descer e subir pedra, um ajudando o outro ou cada um escolhendo o caminho que mais lhe convém, prezando pela sua segurança, tentando economizar energia até que uma nova CACHOEIRA cruza o nosso caminho.

      Metade do dia já havia escorrido pelos nossos dedos já fazia mais de hora e o sol, ainda a pino, iluminou aquela cachoeira, transformando-a em alguma bela queda de águas clara do Cerrado mineiro. Nem era uma grande queda, mas se estendia de um lado a outro do rio, escorrendo suas águas numa bonita laje de pedra. A gente estava bem contente com o avanço da expedição, todo mundo bem, apesar do sono, e então, fizemos mais uma parada estratégica para jogarmos um pouco de conversa fora e guardar aquela paisagem para sempre na memória.

      Daí para frente, o rio vai se transformando, ficando cada vez mais complicado. Vamos avançando muito pouco e a altimetria não baixa de jeito nenhum. Vamos perdendo tempo em pequenos trechos técnicos, onde a passagem exige esforços descomunais, até que uma GARGANTA interrompe de vez a nossa jornada. Abrir a carta topográfica do gps era necessário, mas demos bobeira e acabamos tentando passar pela direita e fomos dar com os burros n’água. Escalamos paredes perigosas, beirando precipícios. Mas quanto mais nos enfiávamos mato à dentro, mais diminuíamos as chances de dar certo e quando resolvemos estudar a carta topográfica, foi que nos demos conta de que estávamos indo para um caminho sem volta e seríamos barrados por um afluente profundo, com chances muito poucas de conseguirmos descê-lo. Apesar de ser uma decisão sempre difícil, resolvemos voltar para a garganta, cruzamos o rio para o outro lado e só nessa ação desastrada, gastamos um tempo precioso.

      A passagem pelo lado esquerdo da garganta foi mesmo providencial. Escapamos da garganta e voltamos novamente ao rio, que continuava terrivelmente complicado, com uma infinidade de pula pedras e descidas exaustivas e quando o relógio chegou às 4 da tarde, o Potenza já começou a aloprar a gente para acampar. Eu era quase um zumbi vagando pelo rio, efeito de uma noite inteira sem dormir e um dia de atividades físicas intensas, mas não me passava pela cabeça, interromper a caminhada tão cedo, haja vista que ainda poderíamos avançar por pelo mais uma ou duas horas de sol. A minha preocupação era simplesmente porque não havíamos descido nem até a parte crítica do rio, verdade mesmo é que estávamos bem longe na cota 550, que era a passagem pelos cânions e desfiladeiros gigantes e se déssemos bobeira, não acabaríamos a travessia no tempo previsto, então protestei contra a parada, protestei veementemente.

      O empasse estava instalado no grupo. Parte queria acampar, mas eu e o Júlio achávamos que deveríamos seguir, mas como não houve um acordo satisfatório, a minoria perdeu e democraticamente, engolimos a derrota. Não que eu não gostasse de um bom acampamento com mais tempo, longe disso, sempre voto por acampar com o máximo de luz possível, mas dessa vez estávamos mega atrasados, mas acatei a decisão da maioria e nos dirigimos para uma encosta do lado esquerdo do rio e ao encontrarmos um bosque favorável, que dava para acomodar todas as redes, jogamos nossas mochilas ao chão e encerramos esse dia de caminhada, de aventuras intensas.

      Localizei 2 árvores, retirei um cipó enrolado em uma delas. Fixei meu toldo e em seguida minha rede. Uma ação que não levou mais que 15 ou 20 minutos. Era eu, um ser totalmente alienado ao ambiente, meu mundo se resumiu a mim mesmo, só ouvia murmúrios dos meus companheiros de aventuras, numa luta incessante para tentarem estabelecer um acampamento descente. Só ouvia os esporros do Potenza tentando ensinar os caras velhos de mato a montarem suas redes. Depois de tantos anos de expedições selvagens, não entendo qual a dificuldade de montar esse tipo de acampamento, algo tão simples, que poderia ser feito com os olhos fechado, mas enfim, nem tinha mesmo forças para ajudar ninguém, então minha crítica chega a ser cretina e nem deve ser levada em conta. O certo é que esquentei 300 ml de água e tentei fazer uma comida liofilizada, que outrora me agradou o paladar, mas que dessa vez, foi difícil de engolir. Então dei umas três colheradas e me joguei para dentro do meu saco de dormir e parti para outro mundo e só voltei a me ver como ser vivente, lá pela meia noite, quando me levantei para ir regar uma moita na escuridão daquela noite de verão, no centro selvagem da Serra do mar.
      Às 6 da manhã caiu uma chuva, mas não durou nem 5 minutos e já cessou. Foi a deixa para pularmos para fora da rede e desmontamos tudo. Mas eu estava preocupado, principalmente ao consultar o gps e descobrir que estávamos ainda na cota 630, uma altitude absurda diante do desafio que teríamos pela frente e era de se pensar que talvez não conseguiríamos terminar o roteiro naquele dia, o que me deixava um pouco angustiado. Às oito partimos! E a nossa partida, como sempre, já foi tendo que nos enfiarmos para dentro do rio gelado, uma atitude inevitável, já que teríamos que cruzar para a margem direita.
      A caminhada segue o ritmo do dia anterior, varando mato quando necessário e voltando novamente para o rio, perdendo altitude lentamente, escorregando para patamares mais abaixo, até que 1 hora abaixo de onde acampamos, o chão desapareceu mais uma vez, nos obrigando a nos deter, analisar o terreno e apreciar um monstro de Cachoeira que se jogava no vazio.

      Estávamos a cerca de 550 metros de altitude e ali marca definitivamente a entrada do Rio Itamambuca nas GRANDES GARGANTAS E Cânions e a partir de agora, serão mais de 300 metros de desnível para serem vencido. Hora de fazer o sinal da cruz e enfrentar o inferno de frente, hora de se apegar um ao outro e tentar escapar vivo do que há de vir.
      Não havia mais como seguir pelo rio e por isso traçamos uma estratégia tentando escalar uma parede íngreme pela direita, tentando dar a volta na abertura da garganta para podermos nos posicionar do outro lado e tentar apreciar a queda d’agua do lado oposto de onde estávamos. O Júlio seguiu à frente, escalou um arvore e isso nos fez elevar barranco acima, mas a segurança foi deixada em segundo plano, mesmo assim, passamos encostado a uma parede e fomos descendo até ganhar um patamar mais abaixo, subir outro barranco e conseguir descer até ficarmos com a CACHOEIRA sorrindo para nossa cara.

      A Cachoeira se jogava para dentro da garganta, onde era impossível descer sem equipamentos de rapel, então nos contentamos em apreciá-la lá de cima, cientes que nem sempre era possível ter o prazer de poder estar em baixo delas, mas conscientes de que éramos um dos poucos a botar os olhos nessa maravilha, onde possivelmente, como sempre digo, recebeu menos gente que o solo lunar.

      Retornamos um pouco mais acima, tentando escapar das paredes escarpadas. O terreno nos pareceu de fácil locomoção, mas as vezes as aparências tende anos derrubar. Passamos um bom tempo caminhando com uma vegetação bem favorável, apesar de termos que descer e subir elevações com algum potencial de perigo. Mas logo a coisa começou a encrencar. O terreno começou a ficar cada vez mais profundo e ver as grandes cachoeiras era possível apenas por trás das grandes árvores e aí teve uma hora que o negócio ficou mesmo feio e fomos obrigados a estacionar para uma releitura do caminho.
      Estava claro que tínhamos nos afastado muito do rio, bem mais do que gostaríamos. Mas não foi por falta de aviso, porque eu e o Júlio estávamos sempre gritando para que o rumo fosse colado às gargantas, assim, quando possível fosse, voltaríamos para a água , mas o Potenza estava sempre aprontando um berreiro quando a gente tocava no assunto, ele ficava sempre insistindo que a gente ia morrer se passasse junto aos cânions e talvez o safado tivesse até razão, mas já é sabido que parte de nós sempre presa por andar colado às paredes , mas como não há um líder eleito e nem instituído, quem grita mais leva e nisso o Potenza ganha de longe. Eu da minha parte nem fiz questão de opinar muito, mesmo porque, minha opinião não havia mudado e então, nem me estranhou o fato de terem decidido se distanciar ainda mais, tentando contornar um vale lateral perto da sua cabeceira, ao invés de ariscar uma descida de volta para ao rio.
      Ao chegarmos à cabeceira desse afluente, fomos obrigados a descer de corda ralando a cara no barranco e acabamos sendo travados num beco sem saída. Enquanto o Júlio tentava ganhar a parede oposta, Paulo Potenza insistia que deveríamos descer por dentro do próprio afluente, nos valendo de uma escadaria de pedra. A ação foi toda descoordenada, nenhuma das alternativas parecia viável, até que o Júlio conseguiu ganhar um arbusto mais acima e se jogar para o alto e puxar o resto do grupo com a ajuda da corda.

      Da minha parte, esse caminho tomado, foi uma rota escolhida com a bunda. Na continuação, teríamos que ascender uma parede de quase 90 graus de inclinação, passando com a barriga encostada a um abismo, onde era preciso e possível, apenas nos segurando com a força da alma. Pior ainda para os que vem por último, que já não tem nem mais uma lasca de vegetação para uma segurança psicológica. Minha mochila pendeu para o lado, porque o barranco insistia em querer me jogar para o abismo, fiquei vendido. Não conseguia mais ir para frente e nem retornar. Pé esquerdo travado na terra e cara encostada na pedra com a unha da mão direita grudada no musgo. A força da gravidade rindo da minha cara e eu só pensando se já não estava velho para ficar passando por isso, mas antes mesmo que eu chegasse a alguma conclusão filosófica sobre o assunto, minha mão esquerda encontra uma raiz, onde cravo minhas unhas na terra molhada e me impulsiono para fora linha da “morte”, estabilizo o corpo e dou uma banana para o abismo, ganhando a linha de arvores acima da minha cabeça.
      Uma parada para consultar os mapas e a conclusão era mais do que óbvia: teríamos que fazer uma diagonal direta para a esquerda, voltar para o rio agora era prioridade, então nos empenhamos nisso, fazendo uma descida alucinante, rasgando a floresta no peito até escorregarmos novamente para dentro do rio. Essa ação de subir e descer barranco nos tomou pelo menos umas 2 ou 3 horas de caminhada, portanto, estávamos exaustos e havidos por um bom banho e por sorte, nossa volta ao rio se deu bem em frente à uma cachoeira com um poço enorme, que nos sugou para dentro dele e lá ficamos por um bom tempo até recobrarmos as forças e o ânimo.

      Havíamos descido mais de 200 metros de desnível e nos encontrávamos a 350 metros, o que me deixou mais confiante que poderia ser possível terminar ainda hoje aquela travessia. Mas o rio não queria se entregar e continuamos a sofre muito para perder altitude, mas dessa vez ao invés de ser só sofrimento, o rio também nos deixou brincar, deslizar de cima de grandes pedras para dentro de poços incríveis, pulos cinematográficos nos fazia darmos muitas risadas, feitos crianças no parque de diversão.

      A travessia foi se alternando entre ir pelo rio e seguir pela sua margem. Tudo era questão de permissão do terreno, que as vezes parecia que nos deixaria avançar rapidamente, mas logo nos fechava o caminho, fazendo com que a gente tivesse que voltar a nadar e atravessar poços gigantes, alguns até com uns 100 metros de comprimento. Caíamos na correnteza e ela nos conduzia rio abaixo e a gente apenas se mantinha na superfície da agua, aproveitando a carona até que o rio voltasse a despencar em alguma pequena gargantinha, um pouco perigosa para continuarmos.
      Pequenas cachoeiras são tantas que é impossível contar e catalogar todas, às vezes, nem foto a gente tira. É uma descida alucinante. Entra num poço e já cai em outro, pula de cima de uma cachoeira e já é obrigado a se jogar de outra. O dia vai passando nesse ritmo, fora dali o mundo não existe, só temos olhos para a frente, não há espaço para outros pensamentos, é preciso que a concentração esteja onde se coloca os pés, onde se pula, onde se agarra, que galho ou que raiz servirá para a continuação do caminho. Cuidado com a cobra, cuidado com o buraco, fica esperto com a pedra lisa e instável.

      A tarde chegou e com ela o cansaço também se instala, então a todo momento vamos tentando encontrar alguma trilha, já que estamos abaixo dos 200 metros , mas surpreendentemente, nenhum vestígio de que algum ser humano tenha passado por ali, não no vale, talvez lá encima na crista, mas no vale nem a presença de palmiteiros e caçadores é notada , o que nos indica que o Itamambuca é um rio ainda em estado bruto , que ainda se mantém longe dos olhos humanos , mas isso nos pareceu estranho devido a estarmos num parte plana, com as margens abertas, o que facilitaria muito a subida de alguém mais ousado .
      O rio vai nos fazendo alternar de margem, entre um ou outro pulo em algum poço, que as vezes de tão grande, acaba se transformando em lago, mas chega uma hora que a nossa pergunta sobre porque não encontramos trilhas e nem sinal de gente é respondida: O rio é espremido por duas paredes gigantes e somos obrigados a escalar algumas paredes pela direita e voltar a pular grandes pedras, nos enfiando novamente dentro do rio e nos tornando mais uma vez, passageiro de correnteza. Quando era possível, caminhávamos pela sua margem esquerda, vendo passar dezenas de outros grandes poços até que um deles nos chama a atenção.
      Já se aproximava das 4 da tarde e uma nuvem marota nos ameaçava, deixando o céu escuro. Atravessamos o lago, que se chama POÇO DA PEDRA RASA e do outro lado, nos surpreendemos com uma trilha larga e consolidada, que fez nosso coração disparar, era nosso caminho de volta para casa, nossa linha de fuga de volta para a civilização, já não era sem tempo, estávamos inchados de tanto nadar.
      Pegamos essa trilha, que estava na cota dos 180 metros de altitude e por elas nos adiantamos, mas em menos de cinco minutos, o céu desabou sobre nossas cabeças e uma tempestade de verão veio para lavar nossa alma, não que precisássemos. Mas do mesmo jeito que chegou, foi embora e não tardou para que o sol voltasse a brilhar novamente. A trilha foi se enfiando mato à dentro, atravessando alguns pequenos riachos, se elevando sobre alguns morrotes e se transformou em duas, uma para esquerda e outra para direita. Tocamos para a direita, mas ela se perdeu. Voltamos e pegamos para a esquerda e ela também não nos levou a lugar nenhum, apenas nos devolveu novamente para o rio, que havia feito uma curva. Resolvemos tentar novamente para a direita e dessa vez descobrimos o erro e achamos a sequência dela, depois de algumas árvores caídas.
      A trilha atravessa mais mato e volta para o rio e o segue na paralela da direita, até que ela se abre de vez e finalmente, avistamos uma casa. Saímos nos fundos de um sítio e a pedidos do Tomaz, tivemos que passar em silêncio, mas não era preciso, não havia mesmo ninguém. A estradinha do sítio nos levou à uma porteira e como não havia nenhuma placa dizendo que era proibido sair, só entrar, pulamos o portão e ganhamos a rua.


      Uns 20 minutos de caminhada nos leva até uma fazenda de plantação de palmitos, que nos sopraram ser um antigo quilombo, que mais parece um bairro e sobre o olhar incrédulo de parte dos seus habitantes, passamos na cara dura, sem dar nenhuma satisfação, até cruzarmos um grande portão e nos pormos para fora, agora livres, sem a necessidade de dar mais conta da nossa vida a quem quer que seja. A estrada da Casanga vai acompanhar o Itamambuca de longe e uns 20 minutos depois, somos devolvidos à Rio-Santos em Ubatuba, hora de oficializar as comemorações finais, os cumprimentos da vitória, mas uma travessia concluída com sucesso.

      Todo projeto ousado, primeiro nasce de uma ideia que num primeiro momento pode parecer estúpida, até que apareça alguém e diga que é possível. Anos atrás era só um sonho, sonhado por mim e por mais 2 ou 3 malucos e agora, quando olhamos para trás, nos bate aquele sentimento de vitória, de satisfação pessoal, de saber que valeu a pena tanta dedicação. Enquanto estávamos no Centro da Selva Paulista, banhista e surfista se deleitavam na foz do Rio Itamambuca, sem nem imaginar que aquele rio calmo e manso, desaguando numa das mais famosas praias do Brasil, nasce há mais de mil metros de altitude, se jogando em cachoeiras gigantes, abrindo caminho a força na Serra do Mar. Uma grande expedição não se faz com homens bravos, mas sim de gente disposta a resistir, a aguentar as agruras da natureza, gente que carrega dentro de si o amor incondicional pela AVENTURA, e quanto a isso, esses caras que me acompanharam nessa jornada alucinante, não devem nada pra ninguém.

      (Foz do Itamambuca - foto net )

      Divanei - 2018
       
       
       
    • Por divanei
      Travessia Cuscuzeiro x Forquilha- De Paratí ao Patrimônio
       
          (Vagner, Thiago, Divanei, Trovo e Tomaz )
            Todos em fila indiana. Cabeças baixas, passos lentos e olhares laterais. Respiração presa e movimentos friamente calculados a fim de não irritar nenhum índio. Na hora me lembrei do Alemão Hans Staden, que quase foi devorado pelos índios Tupinambás quando foi capturado nessa região, 500 anos atrás. Agora não era o caso, mas mesmo assim, estávamos apreensivos com aquela situação. Atrás de nós, uns 30 índios nos seguiam, enquanto um que parecia ser o líder, nos dizia desaforos impronunciáveis a fim de mostrar poder e, se a intenção dele era fazer com que nos cagássemos de medo, no tocante a minha pessoa, ele estava tendo um grande sucesso. A caminhada nos leva onde me pareceu ser a casa de reza da aldeia e ali se encontravam alguns velhos índios, que também nos queimavam com os olhos, enquanto alguns de nós pediam perdão, esperando que aquele pesadelo acabasse logo.......................
                Não foram poucas as vezes em que me vi pesquisando sobre a clássica travessia da Trilha do Corisco, uma caminhada que outrora ligava Ubatuba à Parati, cortando as escarpas da Serra do Mar, na divisa entre São Paulo e Rio, partindo na altura da Praia da Fazenda, num dos cenários mais bonitos do país. Acontece que sempre achei uma caminhada muito curta, coisa de um dia, para me deslocar da minha casa no interior paulista até lá. Mas com a chegada dos mapas de satélite e com maior acesso às informações, comecei a notar que no alto da serra poderíamos acessar o PICO DO CUSCUZEIRO, um gigante visto das cercanias de Picinguaba, em formato de um grande vulcão.

       (foto Thiago silva)
       
                O tempo foi passando e outras montanhas tomaram meu tempo, mas quase todo fim de ano, lá estava eu em Picinguaba ou na praia da Fazenda, olhando para o gigante, assim que o tempo permitia, já que nem era sempre que as nuvens deixavam. Mas eis que um dia o Thiago Silva me manda uma mensagem me convidando para tal empreitada e achei que era essa a deixa para ir lá riscar esse ícone quase desconhecido do montanhismo paulista, da minha lista de montanhas a serem subidas.

           (Cuscuzeiro e Forquilha)    
                O Pico do Cuscuzeiro é um gigante, em se tratando de Serra do Mar, mais alto que o Pico do Corcovado, e abre a cadeia de montanhas que separa Ubatuba de Parati, no extremo norte paulista, que ainda vai contar com mais 2 montanhas, o FORQUILHA e o Pico do Papagaio. Nossa intenção, portanto, ia muito mais além do que subir o próprio Cuscuzeiro, pensávamos em cruzar toda a serra da divisa, mas não sabíamos nada sobre a continuação dela depois do Cuscuzeiro, nem se havia trilha, tão pouco se a inclinação do terreno permitia um vara-mato selvagem até o cume do Forquilha, mas resolvemos pagar para ver.
                Oito horas da noite de uma sexta-feira, Thiago Silva nos apanha no terminal rodoviário do Tietê, na Capital Paulista, onde eu, o Daniel Trovo e o Vagner já o esperávamos ansiosamente. Aquele era um grupo de respeito, mas ainda faltava conhecer o quinto elemento, um amigo do Thiago que só conheceríamos em Ubatuba.
                A viagem para o litoral foi tranquila, muita conversa sobre expedições passadas e muitas risadas de presepadas presentes, até desembocarmos na charmosa cidade litorânea, vazia por estarmos no inverno. Foi hora de sermos apresentado ao Tomaz Lamosa, um Ubatubense jovem, praticante de artes marciais, mas que nos deixou uma impressão não muito boa, ao aparecer com uma mochilinha do jardim de infância, donde pendia um saco de dormir para fora, parecendo que iria numa excursão de acampamento de igreja, mas logo demos um jeito de ficar mais apresentável, colocando as coisas no seu devido lugar (rsrsrsrsr)
                A recepção do Tomaz foi de primeira, organizou a logística impecável, com um transporte que nos deixaria na boca da trilha, lá nas cercanias do Bairro do Corisco, em Parati, já que optamos por subir a trilha do Corisco partindo do lado Fluminense, por ser menos íngreme e mais curta até o ombro da serra, no marco que divide os 2 Estados.
                Já era alta madrugada quando apeamos um pouco acima do Bairro do Corisco, um fim de estrada até onde achamos que dava para ir motorizado. Mas a estrada continuava, é por ela que seguimos a passos largos. Thiaguinho imprimiu um ritmo alucinante e eu e o Tomaz fomos no encalço dele, mas o Trovo e Vagner que não queriam saber de correria desnecessária, ficaram para trás até nos juntarmos num providencial ponto de água, ainda na estradinha meio que abandonada.
               
                A estradinha histórica vai ganhando altura e ficando cada vez mais intransitável, cruza por um rio mais largo, onde passamos pulando pedras para não molhar as botas e uns 3 km desde quando saltamos do veículo, começa a curvar-se para a direita, mas não é para lá que seguimos, vamos abandoná-la em favor de outra estradinha que saí a esquerda, tendo que pular mais um rio e intercepta-la mais à frente. Nesse pedaço, por estar noite, demos uma bobeira e pensamos que a trilha subia paralela ao rio, mas logo sacamos o erro e retornamos e localizamos a estradinha do outro lado do rio e por mais uma meio hora, talvez menos, demos de cara com uma porteira junto a um córrego onde atravessamos e nos estacionamos 100 m mais à frente, junto a uma grande clareira e ali resolvemos dar por encerrada nossa caminhada noturna, porque já se aproximava das três horas da manhã. O local é ótimo para montar barraca, redes, mas eu resolvi apenas bivacar, montar uma loninha e esticar um isolante térmico com meu saco de dormir até que o sol da manhã de sábado viesse para nos dizer que era chegado a hora de recomeçar.

                Quando clareou, foi que ficamos sabendo que havíamos adentrado em propriedade particular e acima de onde acampamos, havia uma casa de grande porte e por sorte pareceu estar vazia. Desmontamos tudo, saímos para fora da propriedade, fechamos a porteira e interceptamos a trilha do lado esquerdo de quem chega. Verdade mesmo que é preciso forçar passagem no mato ao lado da cerca para encontrar o rabo da trilha, que logo se estabelece e um minuto depois, surpreendentemente reencontra a estradinha vindo da casa que acampamos. Sem saber, ao interceptarmos a estrada, pegamos para a esquerda, quando o caminho correto é justamente entrar na porteira a direita da trilha, com quem vai adentrar na direção da casa, mas imediatamente subir a esquerda para dentro da mata, agora definitivamente.
                A trilha vai subindo, ganhando altitude, mas as vezes meio confusa e aí é preciso tomar cuidado e se valer da experiência para não se perder ou estar o tempo todo grudado no gps para se manter na direção correta. E assim vamos, subindo aos poucos, passamos pelo último ponto de água e nos abastecemos com 2 litros por pessoa e mais ou menos hora e meia, depois que deixamos o acampamento, tropeçarmos no marco da divisa de Estado, datado de 1954 (720 m), hora de pararmos, jogarmos as mochilas ao chão para um breve descanso e uma alimentação mais descente.
                O MARCO DA DIVISA significa que estamos no ponto mais alto da Trilha da Corisco e se continuássemos por ela, poderíamos descer à Ubatuba por mais uns 7 km até a Casa da Farinha, mas nosso caminho parte a esquerda do marco e agora vai subir um caminho de matar mula por mais ou menos 4 km. Logo no início já é preciso subir se apoiando em uma corda que foi providencialmente instalada ali para diminuir o sofrimento, mas quem aqui sobe com uma cargueira carregada, não vai encontrar nenhuma moleza.
       
         
      ( Marco da divisa RJ/SP )
                A caminhada vai seguindo lentamente, muito lentamente, o tempo fechado faz chover sobre nossa carcaça e só nos faz lamentar a possibilidade de chegar no cume e não conseguir ver nada. Mas montanhista experiente já sabe que esse excesso de neblina molhada, é sinal de que vai fazer um grande dia de sol, mas como se aproxima das 11 da manhã, a gente já começa a desconfiar que vamos chegar ao topo com mal tempo. Hora ou outra, um tímido raio de sol aparece para alegrar nossas almas, mas some com uma rapidez impressionante e nos faz voltarmos a praguejar contra a má sorte. Pouco mais de uma hora depois, atingimos um ombro da montanha e vamos galga-la por mais de uma hora até que um pequeno selado se apresenta a nossa frente onde se poderia acampar, mas ainda é cedo para pensar nisso e apertamos o passo para a subida final em busca da gloria, mas a única coisa que vemos é mato atrás de mato, um cume fechado, sem visão para lugar nenhum, uma decepção coletiva e silenciosa.
       
                Nossa jornada passa por cima do cume, sem nem perceber , já que não existe algo proeminente que nos diga que ali é realmente o ponto mais alto e segue enfrente até que o mundo desaba sob os nossos pés, fim da linha, fim da montanha e por causa da intensa neblina, não conseguimos enxergar um palmo à frente do nariz. Não há grandes árvores no cume , só pequenos arbustos de pouco mais de metro e meio e foi entre  esses arbustos que buscamos alguma visão do litoral de Ubatuba ou da parte voltada para Paratí, mas sem nenhum sucesso, até que um pequeno trilho é encontrado e demos a missão de investigar para o Vagner , que em menos de um minuto  gritava feito um gata copulando no telhado. 

                Todo mundo correu como deu e quando lá chegamos, um vento forte soprava e aos poucos o litoral foi descortinando à nossa frente, como a nos dizer : " Venham meus amigos , aqui está o vosso presente, aqui está a recompensa pela vossa ousadia e determinação , apreciaí-vos essa maravilha,  bem vindos ao CUSCUZEIRO ( 1278 M) , o cume mais alto do extremo norte de Ubatuba. 

                O vento que soprava das montanhas em direção ao litoral, fazia as nuvens dançarem. Por baixo da branquidão algodoada, era como se um novo mundo surgisse do nada, um mundo fascinante e encantador, que ia devastando a nossa mente com uma beleza hipnotizante. Um sonho de litoral, um mundo vazio de gente e entupido de sonhos, resumido em praias selvagens num dos mais belos cartões postais do Brasil. Ninguém arreda pé, olhos vidrados, olhares fixos para não perder cada minuto do espetáculo. Lá está a Praia da FAZENDA com o rio Picinguaba lhe inundando de água doce. Lá está o complexo da Ilhas das Couves, pontilhando o litoral de pequenas outras ilhotas. Do lado direito, a Baia de Ubatumirim complementa o cenário que se estende até onde a vista alcança, num mar de montanhas verdejantes como em nenhum outro lugar. Mais abaixo, aos nossos pés, um vale gigante nos encanta com seus abismos até a planície litorânea, por onde repousa a outra metade da Trilha do Corisco até seu fim junto a Casa da Farinha.

                As caras, até então meio carrancudas pela pouca expectativa, agora sorriam por qualquer coisa, afinal de contas, havíamos sido agraciados com aquele espetáculo indescritível, quando já não esperávamos mais nada. Sem querer ir embora, decidimos ficar por mais uma hora no cume, tempo suficiente para cozinharmos um almoço e nos aquecermos ao sol do meio dia. Mas a gente sabia que não poderíamos viver de ilusão, tínhamos uma meta a cumprir, chegamos num pico, que mesmo com trilha consolidada, ainda pode-se contar nos dedos os que já tiveram a honra de lá chegarem, mas dali para frente saltaríamos rumo ao desconhecido, um mundo de incertezas seria o nosso futuro naquela travessia, hora de respirar fundo e deixar que a aventura nos guie .

               
                Eu havia traçado um caminho usando as curvas de nível para tentar descer com segurança de cima do Cuscuzeiro em direção ao Pico da Forquilha, mas esperávamos encontrar uma trilha que nos conduzisse direto para ele. Na nossa inocência, achávamos que outros montanhistas pudessem vislumbrar o mesmo que nós, mas outra vez quebramos a cara. Ali, onde o Cuscuzeiro simplesmente deixa de existir, só abismos profundos foi o que encontramos e sem muito tempo a perder, nos jogamos para o vazio, já descendo para os degraus mais abaixo da montanha, como a dar adeus para o cume de um cuscuz, como a deslizar de cima de um bico de funil e começar a nos perder na descida de um vulcão.

                Eu e o Thiaguinho vamos à frente, colados um ao outro e alguns metros abaixo do cume, já foi o suficiente para nos darmos conta da encrenca em que havíamos nos metido: Nos penduramos numa árvore e nos jogamos de cima dela para o fundo do vale, bem a tempo de parar antes que fossemos tragados pelo nada. Atrás de nós, Tomaz, Daniel Trovo e Vagner já começaram a caçar outra rota porque se ligaram que aquela era suicida. Trovo tomou a dianteira e encontrou uma passagem junto a uma grande rocha e abriu caminho lateralmente, mas logo se viu acuado pelo abismo que lhe chamava, mas recusando o convite, deu passagem para que o Vagner tentasse. Vagner, macaco velho, já deitou no chão e gritou para o abismo que o dia dele estava contado. Alguém gritou para que sacassem a corda que o bicho ia pegar, mas o Vagner se atirou numa canaleta rochosa e deslizou nela usando a força da gravidade, até repousar em segurança no fundo do buraco.  Sem perder tempo, usamos a canaleta como tobogã e um a um fomos baixando, um festival de rolagem e eu me enrosquei num cipó e fiquei pendurado feito Siri no pau até que alguém conseguiu me libertar para que eu despencasse e fosse também repousar num patamar mais abaixo.
                As encrencas iam sendo resolvidas conforme iam surgindo e por sorte, não demorou muito para encontrarmos um filete de água, o suficiente para molharmos a goela e nos alegramos com a possibilidade de não passar mais sede naquela travessia. A vegetação se alterna entre palmeiras, cipós espinhudos e bambus entrelaçados, aquela vegetação típica de altitude da Serra do Mar, seca e que vai enervando a gente, mas logo o filete de água vai ganhando corpo e vai nos proporcionando um corredor que vai sendo cavado, agora por um riacho e é por ele que vamos, desescalando pequenas cachoeirinhas e de olho na direção. Mas chega uma hora que a inclinação do riacho nos obriga a cair fora e tentar seguir pela crista rumo ao nosso primeiro objetivo, que era um selado antes da subida final do cume que buscávamos.
                A tarde já era nossa companheira e o avanço pela vegetação era lento e modorrento, corcovavas  vão sendo subidas e descidas, sempre tentando acompanhar a linha previamente traçada até que desembocamos no SELADO, um marco importante, mas que surpreendentemente não encontramos nenhuma trilha de conexão que pudesse nos dar um caminho fácil até o cume do Forquilha. Até encontramos uma marca de facão, mas estava claro que poderia ser alguma passagem entre as 2 montanhas, mas nada que denunciasse que alguém tenha subido ao cume por ali. O selado em questão era uma área muito promissor para se acampar, mas a expectativa de podermos pegar um possível pôr do sol no cume, fez com que tirássemos força sei lá de onde para continuar.

                E é mesmo uma subida dos diabos, uma parede em pé onde é preciso ir se agarrando onde dá para não voltar a descer novamente, ir desviando de algumas grandes rochas, procurando um caminho mais desimpedido, subindo cada ombro , cada curva topográfica até que uma hora depois, estávamos encima do platô , faltava apenas localizar onde seria o ponto que marcava o cume daquela montanha isolada do mundo, no meio da linha que divide os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, a meio caminho de lugar nenhum, numa quiçaça de dar dó. Bambuzinhos vão sendo arrastados no peito, pequenos arbustos são cruzados, as vezes nos rastejando para um melhor deslocamento. Em algum lugar ali haveríamos de localizar o cume exato, um lugar que nos desse uma vista do horizonte, mas a noite foi caindo e a gente não avançava e para piorar, não havia um só lugar para montarmos nossas barracas.
                Por causa da densa neblina, a vegetação encharcou toda nossa roupa e alguns de nós já estava com muito frio e não via a hora de acampar, mas cada vez mais, nos enfiávamos em algum buraco, tentando localizar algo descende para passar a noite. Até achamos uma pedra que poderia nos dar um abrigo, mas uma urubu fêmea chocava um ovo embaixo dela e a todo momento nos dizia que não seria um bom negócio usar ali de casa. O desespero aumentou, já estávamos no nosso último bastão de energia e quando alguém gritou que iria ficar por ali mesmo, foi a deixa para os outros jogarem suas mochilas ao chão e dar por encerrado aquele dia de caminhada.
                Aquela área para acampar era o que tinha de pior, não havia um palmo de terra plana e para piorar, beirava um barranco de uma dezena de metros. Não havia o que fazer, não havia como limpar coisa alguma, era jogar as barracas encima das raízes e assimilar o duro golpe. O Daniel Trovo estava de rede e conseguiu monta-la, usando 2 arremedos de árvore, bem ou mal resolveu seu problema. Tomaz e Thiaguinho iriam dividir uma barraca em conjunto e o Vagner acamparia numa barraca individual e esses 3 últimos se foderam bonito, tendo que aguentar pau no lombo a noite inteira. Eu estava sem rede e sem barraca, havia levado apenas um isolante térmico e um plástico mequetrefe, mas encontrei um lugar incrível embaixo de uma grande rocha e ali montei meu bivac, um grande achado que me proporcionaria uma noite de sono perfeita e assim que a janta ficou pronto, me joguei para debaixo dela e dormi por 12 horas quase seguidas, até que o sol viesse nos dizer que era hora de voltar para a aventura.
       

                O dia nasceu radiante, mas os meninos das barracas amaldiçoaram a noite mal dormida. Uma choradeira dos infernos! Nosso plano de continuar galgando a crista da serra foi por água abaixo, sabíamos que era impossível realizar tal façanha de descer o Forquilha e emendar com a Crista do Papagaio num dia só, então havia chegado a hora de pormos em pratica o plano B, traçado justamente para ser usado caso isso acontecesse, mas os caras das barracas (Thiago e Tomaz) tramaram um motim durante a noite e quando o dia nasceu, haviam decidido que mandaria também o plano B a merda e traçariam um plano C. O plano B consistia em descer o Forquilha pela sua continuação em direção ao Papagaio e quando chegássemos no selado, viraríamos a esquerda e interceptaríamos uma possível trilha que nos levaria direto para a estrada e para o Bairro do Patrimônio, junto à Rio-Santos. Mas diante da possibilidade de ter que voltar a arrastar bambu no peito por mais um pedaço da crista e depois enfrentar um desnível de abismos gigantes, eles resolveram que tentaríamos começar a descer imediatamente, mas antes, para marcar nossa presença ilustre naquela montanha isolada do mundo, deixamos um livro de cume, uma CAPSULA DO TEMPO, improvisada com uma garrafa, onde um manuscrito exibe a data, o nome dos exploradores e o caminho que fizeram para até ali chegarem.

               ( capsula do tempo)
                Pois bem, falamos de tudo, mas faltou falar do principal, daquilo que nos leva a empreender tal jornada árdua para subir esse tipo de montanha: As largas vistas que presenteiam nossas almas. Tomando, portanto, o rumo leste, que é a direção na reta de Parati, escalamos a rocha que eu havia bivacado embaixo e ascendemos ao cume, simplesmente para descobrimos que era ali que estava o nosso presente. Diante de nossos olhos a imponência gigantesca da encosta do Cuscuzeiro, que havíamos descido no dia anterior. Não tivemos duvidas, ali marcava o topo daquela montanha, o PICO DA FORQUILHA ( 957 m ) estava ao nossos pés e de cima dele as largas vistas da Baia de Parati, de toda a Reserva da Joatinga , Ilha Grande e por incrível que parece, até o imponente Pico do Frade desfilava na paisagem. A visão lá de cima é realmente grandiosa e a gente estava feliz de ter podido no último minuto, encontrar essa visão lá de cima e aproveitando que ali estávamos, era hora de aproveitar para desenvolver melhor a nossa fuga lá de cima.

       
       
       

               ( Ao fundo Baia de Parati-RJ)
       
                Tomamos em mãos o mapa eletrônico, nos baseando no satélite e na carta topográfica. De cima do Forquilha, localizamos ao longe em meio a floresta, uma habitação solitária, de onde saia fumaça pela sua chaminé. Se há uma casa, com certeza teríamos uma rota de fuga, que nos levaria ao litoral. Azimutamos a direção e calculamos que poderíamos lá chegar em cerca de umas 4 horas de caminhada, um cálculo cretino, só para animar o grupo, porque na real mesmo, não tínhamos a menor ideia de como seria a nossa descida e o que a jornada até lá nos reservaria. Traçado o plano e estratégia, abandonamos o cume do Forquilha e já despencamos da pedra em direção ao vale, tentando achar um caminho que nos fizesse ir perdendo altitude, mas outra vez nos vimos acuados numa encosta de abismos perigosos, desescalando barrancos escorregadios, onde lajes pedregosas, pontilhada por vegetação rasteira e arbustos soltos, iam nos dizendo que a gente havia entrado em outra encrenca. Trovo e Vagner tomam à frente e vão nos metendo em uma roubada atrás da outra e a gente vai vendo que aquele caminho começa a nos levar para uma rota suicida, onde apenas samambaias soltas são o fio que nos segura antes da desgraça final. É hora de parar, analisar e ter a consciência que a rota tem que ser mudada e é justamente isso que os caras da frente fazem, tomam a rota lateral, numa diagonal reta para a esquerda a fim de ganharem uma linha de árvores e retomarmos novamente a direção combinada.
                A estratégia deu resultado e não demora muito cruzamos por uma nascente de onde brota um filete de água, que vai se encaminhando por cima de uma pedra lisa dentro da floresta de árvores gigantes. Uma descida rápida em meio à vegetação mais fechada, nos leva a um degrau e ali um grito dado por um membro da equipe faz com que paremos imediatamente: “ Uma ponte gente, corre aqui, tem uma ponte atravessando para o outro lado”. Eu estava atrás e logo levei um susto. Aquilo era inacreditável, estávamos numa encosta de montanha onde era possível que jamais teria recebido pés humanos e como poderia uma ponte naquela altitude, que aparentemente não ligaria nada a lugar nenhum. Corremos para ver a tal ponte e lá só encontramos um tronco velho, caído encima de uma laje de pedra, nada mais que isso, pura obra da natureza. Tomaz Lamosa, o menino da mochilinha dourada, já começava a ter alucinações naquela descida e a gente achando que Lamosa era sobrenome muito pomposo para compor aquela expedição de gente rude e sem grife, resolvemos batizar nosso novo amigo como Tomaz Pontes e assim será chamado nas expedições em que esse valoroso expedicionário participar em nossa companhia.

                Estávamos agora enfiados dentro de um vale profundo, justamente por onde a nascente que encontramos corria e ia cada vez mais se transformando num rio. Pulando pedra por dentro do riacho ou até mesmo tendo que subir o barranco para nos livrarmos dos degraus de mais de uma dezena de metros, vamos prosseguindo a trancos e barrancos, mas nos preocupa a direção que aquele rio vai tomando, abrindo muito para a esquerda, nos tirando da direção traçada. A tarefa é árdua, o rio vai aumentando de volume e pequenas cachoeiras começam a despencar em vales cada vez mais profundo. A hora vai passando e a gente perdendo altitude vagarosamente até que ao avistarmos um grande poço, resolvemos nos deter por um instante para comer alguma coisa, enquanto alguns corajosos resolvem se jogar na água fria daquele final de manhã, gente sem noção, porque para mim, quem faz isso no inverno, é capaz de qualquer coisa. ( rsrsrsrs)
       
                Havíamos decidido que qual fosse o rumo que aquele rio tomasse, seria por ele que seguiríamos, na esperança de quando chegasse ao fundo do vale, poderíamos encontrar alguma trilha junto a talvez, algum rio maior, mas um golpe de sorte, ou talvez nem tanto, viria para mudar o rumo daquela expedição, algo que jamais esperaríamos, algo que transformaria uma travessia de montanha em mais uma experiência para contar para os nossos netos.
                Saímos do rio e fomos margeando, sempre andando a não mais que uns 50 metros da margem, quando se supetão alguém gritou que haviam encontrado um rabo de trilha, um arremedo de caminho, mas estava claro que não era trilha de bicho e quando um corte de facão na diagonal de um galho foi encontrado, tivemos certeza de que poderíamos contar com uma saída mais rápida daquela expedição. Mas nem precisou ir muito longe, 15 minutos de caminhada nos levou ao que nos pareceu ser uma ponte no meio da floresta, agora algo feito pelas mãos humanas, mas logo percebemos que era apenas um tablado grande, onde era usado como apoio para cortar madeira. Logo imaginei que poderia ser um daqueles lugares usados para se construir canoas parcialmente, quando se derruba uma árvore gigante e lapida-se até ficar no formato da embarcação, aliviando o peso da mesma até que se aguente puxa-la para fora do mato.

                A minha tese não foi confirmada, mas isso pouco importava, o certo era que a partir dali, uma trilha consolidada nos serviria de caminho. Num primeiro momento ficamos apreensivos porque poderia haver algum rancho de caçadores por perto e não seria muito bom para nós, irmos chegando de supetão, vindos de lugar nenhum. Caminhando devagar e em silêncio, poucos minutos foram o suficiente para eu avistar um telhado reluzente entre as folhagens e já cantar a bola para que os cuidados fossem redobrados e 5 minutos depois a trilha deixou de existir e deu lugar para um roçado em um descampado, num morro na descendência, donde do outro lado, também encima de outro morrote, sem que estivéssemos preparados, um amontoado de casas foi nos apresentados pelo destino.

       
                Sem óculos e sem acreditar naquilo que meus olhos pareciam ver, esperei que o meu cérebro processasse a informação: Puta que o pariu, aquilo era uma tribo indígena ou eu estava vendo coisas? À frente seguia o Thiaguinho e o Pontes, ninguém os escolheu para serem os caras que iriam fazer o contato antropológico, mas nessa vida tem que ter uns trouxas para liderarem, mas esses aí entraram mesmo de gaito no navio e coube a eles botarem o peito para levarem a primeira flechada e, ela veio, mas veio sem dó e nem piedade, aquela intimada que ecoou desde o Cuscuzeiro até Forquilha:
               - PAREM IMEDIATAMENTE, SE APRESENTEM ANTES DE CHEGAR.
               Nessa hora nem sei para onde foi parar o Daniel Trovo, eu já fiz menção de sair correndo de volta para a mata, mas logo vi que seria inútil, principalmente porque tudo que era índio daquela tribo, resolveu abandonar sua maloca e ir ver que quiproquó era aquele que estava acontecendo. À minha frente, e atrás dos nossos “antropólogos”, Vagner parecia o documentarista de uma expedição sertanistas, filmando e fotografando os novos povos da floresta, parecia alheio a gravidade do problema, cagando e andando para a situação, mas logo foi atingido por uma flecha certeira:
             - PODE PARAR DE TIRAR FOTO DE ALDEIA, NÃO É PARA TIRAR FOTO DE ÍNDIO NÃO !
                O instrumento do nosso documentarista de araque, que na verdade era seu celular, quase rodopiou no ar e em um segundo já foi parar no fundo da mochila e esse coitado foi outro que teria fugido comigo para o mato se pudesse.
                Enquanto isso, Thiaguinho e Tomaz Pontes gaguejavam mais que carro velho à álcool no inverno, tentando explicar o inexplicável, muito porque os índios não estavam a fim de ouvir explicações cretinas.
               - QUEM É O GUIA DE VOCES? ESTÃO INVADINDO TERRA DE ÍNDIO. VOCES ESTÃO VINDO DE ONDE? ESTÃO PERDIDOS?
               
               Aquelas eram perguntas que não podíamos responder, eram flechadas que não conseguíamos nos desviar. A comunicação era aos berros, mas nós berrávamos mansos, enquanto eles nos derrubavam com as palavras. Aos poucos, vendo que a vaca já havia ido para o brejo, nos juntamos em um só grupo. Ali, naquela maloca de índios, éramos reféns do destino, estávamos a mercê das circunstâncias, não dependíamos mais de nós, já não controlávamos mais a situação e eu já estava extremamente nervoso pelo rumo que aquilo estava tomando.
                De cima do morrote, esse índio que parecia querer mostrar poder, nos dizia palavras duras e impronunciáveis. Uma velha índia pede que esse líder nos pergunte se temos armas, mas ele não nos repassa a pergunta, apenas continua a nos esculhambar.
                - VOCES NÃO PODERIAM INVADIAR TERRA INDÍGENA, VÃO EMBORA SE NÃO VAMOS CHAMAR O REPRESENTANTE.
                Não ficou claro se ele iria chamar o representante máximo da tribo, talvez o verdadeiro CACIC ou se ele estaria se referindo ao pessoal da Funai, ou órgão Federal que lhes dá apoio, mas para a gente pouco importava, queríamos era sair voados dali imediatamente, picar a mula para o mato, cortar volta, desaparecer da frente deles, sumir no tempo e no espaço.
                Atendendo à solicitação do índio, começamos nosso processo de cair fora de lá e fomos nos dirigindo pela esquerda do morrote, como a dar a volta na aldeia para cair na capoeira. Fomos cruzando o pequeno roçado, agora no máximo uns 20 metros de onde a tribo nos observava e finalmente começamos a achar que o pesadelo estava próximo do fim, íamos passar e ir embora definitivamente, mas outra flecha foi nos atirada, uma flechada agora à queima roupa.
               - NÃO, NÃO, NÃO ! PODEM SUBIR, VENHAM PARA O MEIO DA TRIBO, VÃO PASSAR POR AQUI AGORA.
                Viche , agora fudeu ! Estava claro que não iam nos deixar ir embora assim, primeiro era preciso nos impor uma humilhação que talvez até merecêssemos, mas eu particularmente já estava no meu limite de apreensão, sabíamos que nada poderíamos fazer, nem nos defender poderíamos, éramos seres indefesos diante daquela situação. Em fila indiana, um atrás do outro, subimos do roçado para o meio da tribo. Alguns de nós só fazia era pedir desculpas, perdão por ter ido parar ali, mas eu se pudesse, já estaria era implorando clemencia.
                Agora atrás de nós, uma multidão de índios nos empurrava, nos encurralava para o meio da aldeia, um lugar onde me pareceu ser a casa de reza, o barracão das festas tradicionais. Sob uma saraivada de impropérios, seguíamos a passos lentos, respiração presa, sem movimentos bruscos que viesse a irritar qualquer um índio daqueles. Eram velhos, mulheres, homens, crianças, índio magro, índio gordo, sei lá, tinha de tudo atrás de nós.
                A situação era desfavorável, mas segundos de pensamentos tem o poder de nos remeter ao passado, um passado muito distante, mas o cérebro não quer nem saber, quer sabotar nossa capacidade de acreditar que tudo vai dar certo e logo me traz à tona a história, faz nos lembrar de que no passado, aqui mesmo nessa região, os índios Tupinambás teriam nos devorado em rituais antropofágicos, que começava , numa narração simples e simplória, por dar uma paulada na cabeça e depois outro pau era enfiado no rabo para que nada de lá saísse. Por sorte os tempos são outros, a tribo é outra, mas por azar, nós somos nós mesmos.

                Enfrente a casa de reza, alguns velhos índios conversavam em línguas estranhas, talvez em tupi, certamente não era português e se nada compreendemos, pelo menos esses xingamentos também não absorvemos, mas dos olhares nos queimando não tivemos como escapar. Ali era o ponto crucial, o centro da aldeia, era ali que a questão teria que ser resolvida. 
                A gente continuava implorando para ir embora, mas sem deixar de caminhar, apenas olhando de rabo de olho, mostrando humildade e sem querer afrontar nenhum daqueles índios. A multidão nos seguia, não sei qual o propósito daquele cortejo, mas o alivio só veio quando o índio mais bravo gritou:
               - PEGUEM ESSA ESTRADA E SUMAM DAQUI!
                Mais que depressa quebramos a direita e ganhamos o caminho de terra batida, descendo do morrote em direção à um córrego de aguas cristalinas, uns 100 metros mais abaixo, mas na minha cabeça só havia uma frase que não escapuliu por muito pouco: COOOOOOORRE NEGADA! ( rsrsrsr)
                Mais que depressa e sem perder tempo, nos pusemos a caminhar aceleradamente, na tentativa de sairmos o mais rápido possível das vistas dos índios, mas eles não arredaram pé do alto do morro, muitos com o peito estufado, felizes de terem nos enxotados de lá feito cães sarnentos. Menos de 5 minutos nos leva até o riacho, onde uma placa intimidatória nos avisa que ali é a Reserva Indígena , com entrada proibida, mas no caso nem nos preocupamos, já estávamos saindo mesmo e ali nos vimos mais aliviados, pensando já estarmos a salvo da “panela”, mas nem tudo é tão ruim que não possa piorar.
       
                Enquanto os índios ainda nos fitavam com cara de poucos amigos de cima do morro, tratamos logo de subir a ladeira que nos levaria em definitivo para longe das vistas deles, mas 100 metros acima, quando o terreno se nivela, uma paulada nas nossas esperanças foi dada pelo destino: Eu mal conseguia acreditar no que estava vendo, mais uma vez estávamos encurralados. À nossa frente, estacionado bem na nossa passagem, um carro do Órgão Federal nos "convidava" para arrancar as nossas penas. Mas que inferno! Não tínhamos nem acabado de nos recuperar da experiência traumáticas com os índios e já teríamos que enfrentarmos mais um pesadelo. E agora era muito sério, se aqueles caras que protegem os índios nos pegassem, iriam arrancar o nosso couro, seríamos multados, esculachados, estuprados, espancados e talvez conduzidos para uma delegacia, onde mais uma vez iram arrancar a nossa pele ou o que sobrasse dela. Pelo menos era isso que passava na minha cabeça, enquanto andávamos à passos lentos e modorrentos em direção aos nossos novos algozes.
                Nessa hora, por azar, estou à frente. Nem respiro, arrasto meus pés como quem monta uma defesa para não ir à lugar nenhum. Se pudesse teria parado os batimentos cardíacos para não fazer qualquer barulho, mas é aí que o coração desanda a bater rapidamente, com uma substancia que inunda o estomago e faz as pernas dar uma amolecida. Dou uma olhada de rabo de olho para ver se alcanço a profundidade do problema, ao mesmo tempo que rezo para que meus olhos não consigam mirar outros olhos humanos. A estratégia não dá certo, abaixo a cabeça e passo ao lado do veículo branco e noto estar vazio. Na sede do Órgão Federal, do lado direito, simplesmente não consigo enxergar, não posso nem relatar do que se trata, apenas deixo que o meu cérebro me conduza para longe e só paro quando uma curva mais à frente nos tira das vistas de quem quer que seja. Já passava do meio dia e muito provavelmente a fiscalização deveria estar almoçando e antes mesmo que a gente virasse a sobremesa, desembestamos ladeira abaixo e só paramos quando a estradinha nos desovou em uma estrada maior, já fora da reserva indígena – mais uma vez à salvos, mas passou perto. UFA!

                Somos agora um grupo em êxtase! Cinco aventureiros maravilhados com a Aventura vivida, com o desdobramento que aquela expedição acabou nos levando. Parecemos não acreditar no que acabávamos de presenciar. Atrás de nós, todo o esplendor da Serra que divide Rio e São Paulo, desde o Cuscuzeiro, passando pelo Forquilha até a sensacional Serra do Papagaio.
       
                A euforia acaba por tomar conta do grupo e virando à esquerda, depois que deixamos a estradinha da aldeia, nos pomos a caminhar numa leveza estonteante, quase a levitar pela alegria da conquista e quando nos deparamos com a ponte que cruza por cima do RIO PARATÍ-MIRIM, justamente o mesmo rio que descemos desde o Forquilha, jogamos as mochilas ao chão e comemoramos o nosso sucesso, não só da empreitada, mas de sabermos que escrevemos mais um capítulo de uma vida bem vivida.

               
                Aproveitamos o rio, não só para lavar a alma, mas também para nos livrarmos do barro impregnado nas nossas roupas, já que saímos dessa travessia só o farrapo humano. O caminho à frente nos reserva uma caminhada tranquila e como o sol estava bem quente, 40 minutos depois nos detemos em mais um rio para fazermos um lanche e em outros 40 minutos já adentrávamos no Povoado do Patrimônio, onde o pai do Tomaz nos esperava para nos dar uma carona salvadora de volta para Ubatuba.
                Era para ser uma travessia entre montanhas, uma caminhada selvagem até o topo desconhecido( Forquilha) ou quase nunca frequentado de uma montanha perdida no extremo norte de Ubatuba, mas o destino fez com que pudéssemos viver uma grande aventura, um encontro inusitado com esses maravilhosos povos da floresta, um choque cultural inusitado, não programado, até um pouco conturbado, mas encantadoramente surpreendente. Saímos dessa travessia inebriados pelo momento vivido, pela experiência adquirida, pelo novo amigo que ganhamos, o mesmo que nos fez torcer o nariz com uma mochilinha de escola, mas que surpreendeu com bom humor e competência. E essa aventura entra para o nosso vasto currículo de roubadas e perrengues memoráveis, numa busca incansável por fazer a vida valer a pena.

       
               IMPORTANTE: Esse relato reflete o sentimento de quem o escreveu, sua visão de ver a aventura e talvez não seja a mesma visão dos outros participante. Por vezes , mesmo sendo uma escrita rude e de quem conhece pouco da lingua portuguesa, há de se conisiderar as licenças poéticas e literárias, mas mesmo assim, o texto se mantendo fiel aos acontecimentos.
                                                                                                 Divanei - junho - 2018
    • Por Tadeu Pereira
      Salve salve mochileiros!
      Segue o relato com algumas dicas para fazer uma bela trilha de nível médio onde irão encontrar duas grandes cachoeiras, uma bela floresta, uma natureza fantástica bem perto da cidade de São Paulo e de baixíssimo custo.
      --> 15km ida e volta (Iniciando a trilha na balança no Km77)
      --> Passagem metrô/trem/ônibus R$17,30
      --> Nível de dificuldade: DIFÍCIL (trilha com várias bifurcações)
       
       
      Partida - 18/02/19 - Partida 08:00am - São Paulo x Mogi das Cruzes x Biritiba Mirim (Serra do Mar) - Metrô e Trem R$4,30 - Ônibus R$4,50
         Partindo de São Paulo do bairro Perdizes Zona Oeste, peguei o Metrô na estação Vila Madalena (linha verde) até a estação Paraíso (linha Azul) para baldear para a linha vermelha seguindo até a estação Sé (linha Vermelha) sentido Itaquera e descendo na estação Brás (linha Vermelha) onde encontrei mais duas amigos para pegarmos o trem da CPTM sentido Guaianases (Linha Coral) e finalmente após a troca de trem pegamos para o sentido final e para nossa primeira parada, a Estação Estudantes (Linha Coral). 
           Na Estação Estudantes existem 3 formas de você chegar nesta trilha: A 1ª é de lotação de carros ou vans. Logo que você cruza as catracas da estação de trem você já irá ser abordado por alguém te perguntando se precisa descer para o litoral pela estrada Mogi x Bertioga. Essas pessoas lotam um carro ou uma van e descem até as cidades de Bertioga e do Guarujá cobrando o valor de R$25,00 a R$30,00 por pessoa. O único problema desta opção seria o valor que é mais alto e as vezes ter que ficar esperando lotar o carro ou van e isso levaria mais tempo para iniciar a trilha. Já a 2ª forma de chegar ao início desta trilha seria de ônibus. Saindo da estação de trem pelo lado esquerdo você encontrará um terminal de ônibus onde realizam também a descida pela rodovia Mogi x Bertioga feita pela empresa de ônibus Breda. O valor é aproximadamente R$29,00 e é só pedir para o motorista parar no KM81 para iniciar a trilha. A ª3 forma de chegar no início da trilha e foi a que nós escolhemos e é também de ônibus, porém de ônibus circulares. Saindo da estação você encontra uma passarela que te leva para o lado direito da estação Estudantes. Chegamos em uma rua e caminhamos para a esquerda por alguns metros e já de frente vimos um terminal de ônibus onde pegamos um ônibus circular de transporte público intermunicipal até o ponto final que fica no KM77. O ônibus é o NºE392 (Manoel Ferreira) que nos levou em 30 minutos até o KM77 seu ponto final.
        
           No ponto final do ônibus existe uma balança, um pequeno bar e uma feirinha com várias frutas, uma ótima opção pra levar pra trilha como bananas, mangas, uvas etc. Compramos água e algumas frutas e iniciamos a caminhada pela rodovia para iniciar a trilha mata a dentro. Neste trecho de 4km andamos pelo acostamento da rodovia até o KM81 onde fica a entrada da trilha. O inicio da trilha fica antes de uma placa amarela e preta escrito "DESCIDA DA SERRA DESÇA ENGRENADO". Quando ver esta placa após caminhar até o KM81 terá uma entrada à direita, e é ali que se inicia a trilha para cachoeira do elefante. 

        
       

      Entrada da trilha direita -->
       
           Andamos por aproximadamente 10 minutos e encontramos uma ponte destruída pela erosão onde demos a volta pelo lado e continuamos em frente até chegarmos na travessia do rio. A travessia é tranquila pois o rio é bem raso neste ponto, então conseguimos atravessar sem precisar molhar nada além dos nossos pés. Do outro lado do rio tem um bom local para camping pois o local é como uma praia de água doce. Tem areia, pedras e um ótimo local pra um mergulho.
       
        

       

           Após a travessia do rio seguimos pela trilha que segue atrás da área de camping onde nos levou a uma bifurcação que seguimos pela esquerda para a cachoeira do Elefante. Já a trilha que segue pela direita leva para as torres de energia elétrica.
       

           Então neste ponto da trilha após o rio Itapanhaú é preciso seguir a trilha atras da area de camping rente ao rio e continuar a trilha até a primeira bifurcação onde se seguirá também para esquerda pois pela direita se chega nas torres de energia elétrica que também tem uma vista fantástica das praias de Boracéia, São Lourenço, Juquei, Barra do Una etc,  mas o esforço nesta trilha é de nível alto pois as ladeiras são muito ingrimes e isso nos desgastou bastante. Entrar pela direita foi um erro que nos mostrou uma paisagem fantástica de cima da montanha mas aconselho a chegarem somente na primeira torre, as outras não são tão interessantes.  A trilha de modo geral é bem demarcada e contém algumas fitinhas amarradas nas arvores de cor azul e amarela informando a direção da trilha, então é só ficar ligado nelas para seguir a trilha corretamente.  

           Após este erro na trilha retornamos e fizemos a trilha corretamente pela esquerda onde a trilha segue do lado do rio e de algumas cachoeiras. Uma delas é a cachoeira do Limo que fica virando a esquerda logo depois da bifurcação que entramos a esquerda também.

        

      É uma cachoeira pequena mas muito legal de conhecer, ficamos por alguns minutos contemplando e retornamos pela mesma trilha que viemos e  logo seguimos em frente. Andando por mais alguns minutos do lado da trilha começamos a ouvir o som de uma enorme queda d'água. Seria a primeira queda da cachoeira que se chama Véu da Noiva. Resolvemos descer e contemplar também esta cachoeira. Ficamos pouco tempo pois o volume d'água estava muito grande neste dia impossibilitando de entrar na águas do véu da noiva. Mas vale a pena ir pois é uma queda muito bonita para contemplar. 
       
        
       
           Voltamos para a trilha principal e caminhamos por mais alguns bons minutos até que encontramos uma placa pequena escrito "Recicle Leve seu Lixo" de cor branca e verde e neste ponto da trilha seguimos as fitinhas coloridas que estão amarradas nas árvores e não descemos a trilha passando a placa, nós seguimos reto na trilha que segue ao lado direito.  
               

      Após mais 1 hora de caminhada de uma descida intensa chegamos em mais uma bifurcação do rio Rio Itapanhaú, para a direita a trilha segue junto da margem do rio e leva a um local conhecido como Casarão e para a esquerda a trilha segue para o nosso destino, a base da Cachoeira do Elefante. Neste ponto a trilha depois de alguns minutos a trilha ira atravessar o rio novamente e continuar do outro lado. A travessia no dia foi tranquilo sem precisar entrar na água, atravessamos por pedras e continuamos do outro lado.  Neste ponto da trilha passamos por diversos locais para camping e algumas grutas que até dá para abrigar algumas pessoas. Um lugar muito bacana para acampar.
       
           Andamos por alguns minutos e logo ouvimos o som ensurdecedor das gigantescas quedas da cachoeira e quando mais nós caminhávamos o som ia ficando mais alto. La estava ela, após aproximadamente quase três horas de trilha e duas tentativas sem sucesso em dias anteriores nós finalmente conseguimos encontrar a famosa Cachoeira do Elefante. A forte queda faz com que tudo fique molhado pelas gotículas d'água que ficam no forte vento que vem das fortes quedas. A cachoeira realmente é uma imponente obra da natureza com milhares de litros d'água descendo pelas pedras criando um cenário fantástico da natureza. A cachoeira oferece diversos locais para um bom banho. Do seu lado direito onde a correnteza é mais forte estava mais perigoso de se banhar mas mesmo assim conseguimos ficar debaixo de uma enorme pedra onde em um fenda se tem uma ótima cachoeira. Mas é do lado esquerda da cachoeira que aproveitamos melhor. Existem diversas quedas ótimas para banho e descendo mais um pouco contém um poço bom para mergulho.
       
       
       
       
       

       
       

           Ficamos por diversas horas contemplando o lugar, fizemos um lanche para recarregar as energias pois ainda teríamos a volta que já no começo nos aguardava a subida mais foda de toda a trilha ahahahha. Mas depois de lavar a alma, tirar as urucas, banhar os piolhos dos dreads rs e recarregar todas nossas energias nas águas da cachoeira do elefante nós estávamos dispostos a subir até na lua se for preciso hahahaha.
      Volta - 18/02/19 - Volta 18:00am - Biritiba Mirim (Serra do Mar) x Mogi das Cruzes x São Paulo - Ônibus R$4,30 - Metrô e Trem R$4,50
           Arrumamos nossas mochilas e começamos o caminho de volta, andamos por aproximadamente duas horas e meia e retornamos toda trilha até o início que fica na rodovia no KM 81, dali caminhamos pela rodovia até o bar no KM 77 onde aguardamos por alguns minutos o ônibus R$4,50 para retornar ao terminal urbano de Mogi das Cruzes e para a Estação Estudantes da CPTM R$4,30 onde finalizamos mais uma fantástica trilha. Vlw mundão!
       
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