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Travessia da Serra Fina Full – 3 dias
Sabe aquela sensação de que “faltou algo”? Então... havíamos concluído uma grande travessia,
que intitulamos de Travessia da Serra Fina Full, acrescendo à travessia tradicional o cume de
todas as montanhas próximas. Subimos, de ataque, o Tartarugão, o Ruah Menor (ou Ruah Leste
– conforme relato de um montanhista que nos precedeu ali), os Camelos 1, 2, 3 e 4, o São Joao
Batista (ou do avião), o Cabeça de Touro...mas não ascendemos ao cume do Ruah Maior (ou
Ruah Norte – conforme o relato desse mesmo montanhista precursor). Ou seja, faltara algo. Na
incursão anterior, cogitamos entre o subir ou não aquela montanha pelo horário em que
começaríamos a ascensão, pois sendo inverno e passando pouco das 15h, seríamos obrigados a
descer a noite, com visibilidade quase zero pela neblina que ameaçava formar, por uma região
desconhecida, sem trilha e com a temperatura abaixo de 0C. A prudência prevaleceu e não
fomos. Terminamos a travessia, mas o não acumear do Ruah Maior nos ficou atravessado...
então, quando o Douglas propôs no grupo, que retornássemos à SF e repetíssemos o feito, dessa
vez, com o Ruah Maior, não lembramos do cansaço, da fome ou do frio... topamos na hora.
A questão agora não era “se”, mas “quando”. Temporada de montanha findando, os
compromissos profissionais de cada um conduziram para a única data viável para 2018 ainda:
aproveitar o feriado do Dia da Independência, 7/9, que cairia numa sexta. Sairíamos de SP assim
que possível, para iniciar a subida à noite e aproveitar o enregelante frescor noturno para
caminharmos mais leves, poupando peso e pernas. Só que isso nos traria outro desafio: o feriado
cairia na sexta, de forma que teríamos apenas 3 dias nas montanhas: sexta, sábado e domingo.
Daríamos conta?!? Procuramos nos lembrar da caminhada anterior, das sobras de tempo, das
dificuldades, do cansaço.... Acreditávamos que sim, mas sabíamos bem como subir montanha
no papel, na fala, difere da realidade... o somar dos infindáveis passos, o perseverar,
independente da falta de folego... balançávamos entre o tentar ou não, quando notamos que
seria Lua Nova. Se na travessia anterior a Lua Cheia tudo iluminava, ao ponto de trilharmos com
as lanternas apagadas nos trechos de crista... dessa vez teríamos o mar de estrelas por
testemunhas do feito. Foi o que bastou para nos decidirmos. Já éramos conhecedores das
incríveis fotos da via láctea a partir da PM, e sabíamos, também que as fotos não faziam jus a
real beleza que veríamos.
Ao grupo original (Douglas, Marinaldo, Rodrigo e Rogério) somaram-se alguns amigos que
acreditávamos darem conta da empreitada: Leonardo, Adilson, Zagaia. Compromissos familiares,
complicações de saúde prejudicaram a participação do Adilson e do Rodrigo. Sob recomendação
do Zagaia, passamos a contar com a Areli, que apesar de nunca ter feito trilha de montanha aqui,
tinha na bagagem larga experiência em ambientes frios e estava treinando para uma corrida de
aventura de 300 km. Não nego que a qualificação do grupo me intimidava... todos em excelente
forma física e eu apegado ao meu sedentarismo... ante os insistentes (e pertinentes) alertas do
Marinaldo quanto ao esforço físico que nos esperava, deixei minha habitual inércia e me
obriguei a duas semanas de academia, com frequência quase perfeita. A posteriori, posso dizer
que foi isso que evitou um constrangedor pedido de resgate, por total exaustão física. Nos
encontramos nas catracas do metro Barra Funda às 15h, demos cabo do primeiro desafio dessa
jornada, acomodando 5 cargueiras, uma dama e 4 marmanjos num (modelo do carro?) e
partimos para Passa Quatro. Na estrada, o Leo nos informou de que o conserto da Kombi ainda
se arrastava. Procuramos otimizar os tempos previstos e concluímos que iniciar a trilha após as
23h colocaria em risco o êxito do primeiro dia. Então, se o Léo não conseguisse estar em Passa
Quatro a tempo de partirmos para a Toca do Lobo até as 22h30, partiríamos sem ele; com a
possibilidade dele nos alcançar pelo Paiolinho e seguirmos juntos. Com o avançar das horas,

ficou claro que o Léo não poderia nos acompanhar, pelo menos nesse primeiro momento, de
forma que acordamos com a Patrícia (que faria nosso resgate) que iríamos direto para a casa
dela e partiríamos assim que possível.
Primeiro dia
A Patrícia nos deixou perto da Toca do Lobo, pouco antes das 23h e, rapidamente, nos
equipamos e nos colocamos a caminhar. Mochilas leves, a maioria com um litro de agua apenas,
em pouco tempo chegamos à Toca do Lobo onde fizemos a primeira foto, ajustamos as
cargueiras e iniciamos a travessia, pouco após as 23h. Subimos a passo as encostas que nos
levariam ao Cruzeiro e, ao pé do Quartzito fiz o primeiro reabastecimento de água, completando
meu inventário para 1 litro. Enquanto eu buscava água (e tirava minha primeira foto dessa
travessia, uma “flor de maio”, avistada ainda em botão na travessia da SF com meu filho, há
pouco mais de um mês, se mostrava agora perdendo o viço em consonância com o findar da
temporada). Os amigos aguardavam, lanchando e curtindo o visual na brisa gélida da crista e
assim que retornei, recomeçamos a ascensão. Em pouco tempo, caminhávamos pelo
encantador Passo dos Anjos, onde a SF revela a origem do seu nome...mesmo sob as luzes da
lanternas, não deixa de impressionar como a crista se estreita naquela parte...aproveitávamos
os trechos de ascensão mais suave para retomar o folego, já que nossa intenção era prosseguir
sem paradas até o alto do Capim Amarelo. Subíamos pouco ansiosos, confiantes do
planejamento e validando a estratégia de caminhar à noite e minimizar o peso nas cargueiras.
Encontramos um pedaço de bastão de caminhada e passamos a levá-lo conosco, certos que em
pouco tempo encontraríamos seu dono. De fato, não tardou, e num dos pontos de
acampamento dos falsos cumes do CA, encontramos dois colegas montanhistas acampados há
pouco, ainda com chocolate quente nas panelas... restituímos a parte perdida, conversamos um
pouco, tomamos uns goles de chocolate quente e retornamos a caminhada. Pouco depois das
2h alcançamos o cume do CA. Fizemos uma breve parada, substituímos o livro de cume, que já
não apresentava espaços em branco e após a devida preparação do livro, identificando o nome
do cume, sua localização, data, responsáveis pela guarda, etc, registramos a composição do
grupo, objetivo e horário de partida, descansamos alguns minutos, procurando não perturbar
muito aos montanhistas acampados ali e retomamos a caminhada, buscando assegurar a
descida do CA pela trilha correta, bem à esquerda. Sem grandes dificuldades, descemos o CA,
notando ao passar pelo Maracanã que havia pelo menos mais sete barracas armadas.... de fato,
o último feriado dessa temporada prometia que a SF estaria lotada de caminhantes... não nos
afetava, já que estaríamos quase que todo o tempo fora da trilha mais batida. Havia uma remota
possibilidade de termos algum contratempo com a lotação da serra, no acampamento do
primeiro dia, no Vale do Ruah. Para essa eventualidade, cogitávamos acampar aos pés do Ruah
Leste, o que exigiria atravessar o capim à noite. No Maracanã, nos abastecemos com o suficiente
para a caminhada até o Rio claro, na base da Pedra da Mina.

Flor na encosta do Quartzito Foto: Rogério Alexandre Cristais de gelo Melano: Foto: Rogério Alexandre
De forma geral, partimos com pelo menos dois litros, sabedores que, com o nascer do Sol, o
consumo de água aumentaria. Com poucas paradas, em breve estávamos começando a longa
ascensão do Melano, um dos desafios propostos quanto à regularidade da caminhada, já que
queríamos apreciar a alvorada em sua crista, de forma a permitir registrarmos o nascer do sol
com a lua minguante ainda visível no céu. Caminhávamos compenetrados, procurando
aproveitar os trechos planos para trocarmos ideias e retomarmos o folego. Talvez pela
adrenalina do desafio, a caminhada transcorreu rápida e alcançamos a crista do Melano perto
das 5h30, passando sobre diversas poças de agua congeladas nas encostas. Fizemos uma parada
para um rápido lanche e retomamos a caminhada, agora em passo mais tranquilo, apreciando o
dia que nascia.
Nascer do Sol e Lua Minguante visto na crista do Melano. Silhueta da PM contra o sol nascente. Fotos: Douglas Garcia
Tocamos em frente pelo sobe e desce da crista do Melano, ganhando altitude devagar, na
diferença entre as subidas e descidas infindáveis desse trecho. Aproveitávamos para apresentar
para a Areli, as montanhas que havíamos passado desde o início da caminhada, as montanhas
que subiríamos antes de acamparmos, nominá-las, fazer comentários e contar causos de
pernadas anteriores por aquelas plagas. Isso nos distraia, e, quase sem perceber, alcançamos a
base da cachoeira vermelha, às 8h.
Preparamos as mochilas de ataque com material para emergência, lanches e água, guardamos
as cargueiras nas moitas, atravessamos a cachoeira vermelha, buscando a trilha que começa
bem próxima da sua queda. Fomos ganhando altitude aos poucos, pelo ombro do Tartaruguinha,
quase que sem nenhum vara-mato e em pouco tempo estávamos aos pés do Tartarugão.
Seguimos a mesma técnica da vez anterior, avançando meio que em paralelo, para minimizar a
possibilidade de um acidente com as pedras soltas, que são abundantes nessa face da montanha

Com as inevitáveis paradas para descansar, levamos cerca de meia hora para alcançar o cume
da primeira montanha fora-da-rota da travessia planejada. Fizemos uma pausa, contemplando
a paisagem, retomando o folego e lanchado. Verificamos que haviam poucos registros no livro
de cume, uma incursão de um colega de montanha, desbravador de ambos os Ruah Norte e
Leste. Registramos os nomes do grupo, algumas impressões da caminhada e das nossas
intenções, horário de partida e destino, acrescemos dois saches de mel no kit perrengue deixado
antes, guardamos tudo no tubo de cume e partimos para explorar parte dos ombros do
Tartarugão, avaliando possíveis alternativas para uma travessia a partir da face sul da PM,
subindo a partir do Vale do Paraíba. Essa avaliação acabou por consumir um tempo precioso
pois descemos o Tartarugão em direção a PM e na face sudeste bem à direita de quem está de
frente para a PM encontramos um ponto de agua corrente, onde nos hidratamos. Por outro lado,
essa investigação nos causou considerável transtorno para retornar, pois os trechos de lajes na
base são intercalados com trechos de vegetação o que exigia varar o mato, com considerável
dispêndio de energia e tempo. Procurando manter a altitude, fomos costeando as encostas do
Tartarugão e do Tartaruguinha, buscando a direção da Cachoeira Vermelha, onde chegamos às
12h.
Pedra da Mina vistas do Tartarugão. Foto: Marinaldo Bruno Contemplando o Vale do Rio Claro. Foto: Douglas Garcia
Retomamos as mochilas e seguimos para a PM, passando pelo Rio Claro, onde nos hidratamos
e coletamos água apenas para a subida da pedra, uma vez que acampando no Ruah, teríamos
fartura de água. Apreciando o visual, fomos ganhando altitude e, perto das 13h estávamos a
2978m, no cume da PM. Encontramos o Rafael preparando o acampamento para um grupo que
o Cainã, ambos guias na SF e amigos de outras caminhadas, que fizeram a gentileza de cuidar
das nossas cargueiras enquanto descíamos em direção ao acampamento da base da PM, no
sentido do Paiolinho, por onde atacaríamos o Ruah Norte. Sabe aquela história de barraca
voando? Então, por pouco não conseguem alcançar uma delas a tempo, rs... Do acampamento
base, fizemos uso do tradicional trepa-pedra para descermos a encosta da área de
acampamento na base da PM em direção ao Ruah, na sua extremidade NO.
Atravessando o vale pelas lajes de pedra, cruzamos com um pequeno curso de água, avaliamos
a direção pela qual faríamos o vara-mato da subida e tocamos para cima, com o Douglas abrindo
a passagem e os demais procurando facilitar a volta, quase consolidando uma trilha... mas a
verdade é que a passagem de 5 pessoas por ali, sem outros que a repitam, talvez não seja
perceptível na próxima temporada. Sob sucessivos alertas de “caminho errado” e “voltem” dos
companheiros de montanha que chegavam na PM via Paiolinho, com pouco mais de 40 minutos
de vara mato, para total deleite da Areli, alcançamos o cume.

Sob congratulações mútuas, entre respirações ofegantes, apreciamos por uns minutos o visual
que se descortinava... ângulos incomuns da travessia, detalhes de ambas as faces da PM e das
montanhas ao redor enchiam nossos olhos. O sentimento de respeito, ante a enormidade do
que propúnhamos fazer, grassava em nosso peito, dividindo espaço com a sensação de
superação e ineditismo. Verificamos no livro de cume, colocado pelo Douglas pouco mais de um
mês antes, a ausência de outros registros, acrescemos ao “kit perrengue” um cobertor de
emergência e dois saches de mel. Tomamos o último lanche do dia, descansamos um pouco e
lembrando que ainda precisaríamos de duas horas para estarmos com o acampamento montado,
iniciamos a descida do Ruah Norte procurando refazer o caminho trilhado na subida. Pegamos
um pouco de água no pequeno curso que escorre na passagem e voltamos sob os nossos passos
até a parede quase vertical do acampamento base.
Usando a já consolidada estratégia de ataque em rotas paralelas fomos tocando para cima até
atingir a área de acampamento na base da PM, onde nos reagrupamos antes de subir a PM, na
rota tradicional de quem chega pelo Paiolinho.
Havíamos cogitado descer a PM com as cargueiras, para depois cortar pela trilha que ouvimos
existir na encosta da PM, ligando a área do acampamento base com o Ruah, mas abandonamos
essa ideia pela segura, ainda que mais cansativa, opção de descer e subir a PM de ataque, pelo
caminho já conhecido. Subimos em passos largos, recuperamos as mochilas e seguimos para o
vale do Ruah, onde acamparíamos. Iniciamos a segunda descida da PM com o sol buscando o
horizonte, e pouco antes do anoitecer, estávamos com as barracas prontas para a noite. Como
cuidados adicionais, ante a afamada geladeira que o Ruah se transforma à noite, colhemos
porções de palha para colocarmos sob as barracas, dando preferência para as folhas mais secas,
que por conterem menos água são mais eficazes como isolamento térmico. Cedi meu cobertor
de emergência ao Marinaldo, que, apesar da minha insistência não aceitou ficar com o saco de
bivaque de emergência. Fizemos a primeira refeição quente, conforme o cardápio que
escolhemos e que nos foi fornecido, abaixo do preço de custo, pela Livre Adventure Tour.
Agradecemos muito pelo apoio, todas as refeições juntas não somavam 2 kg, o que contribui
significativamente na redução de peso das cargueiras. Optei pelo espaguete com frango e
legumes, porção individual, e que pelas menos de 85g de peso que faziam na mochila constituiu
uma excelente refeição, após hidratado com os 240g de água quente recomendados. O processo
de liofilização, preserva muito da textura dos alimentos, assim como do sabor e do seu valor
nutricional. É sempre recomendável, para quem inicia no uso desse tipo de alimento, planejar
com alguma folga, para verificar como se adapta aos tamanhos das porções, principalmente
naquelas que servem duas porções. Cansados pela pernada do dia, alteramos os planos de
vermos o sol nascer no cume do Ruah Leste, optando por estendermos um pouco o repouso e
nos recuperarmos para o segundo dia, que prometia ser tão exaustivo quanto o que se findava.
A temperatura caiu rapidamente, meu relógio marcando 8C pouco mais de uma hora após o pôr
do sol, e todos se recolheram às barracas, não saindo para nada, após o jantar. Ante a previsão
de 2C para a PM, esperava dormir bem tranquilo com o que levava de equipamento: saco de
dormir para -4C, meias de trekking, segunda pele leve para as pernas e duas mais fortes para o
tronco, luvas e gorro. Por praticidade e cansaço adormeci com ambas as segundas-peles, luvas
e gorro... imaginava que acabaria por acordar de madrugada com calor, mas aí já teria
recuperado um pouco das forças... e estava tão agradável daquele jeito, usando quase toda
roupa que tinha disponível... dois isolantes, um de espuma e outro inflável acresciam conforto
e luxo ao necessário. A camada de palha sob a barraca fazia as vezes de colchão e mesmo fora
dos isolantes, o contato com o piso da barraca era agradável.

Segundo dia
Realmente dormi muito bem, acordando apenas às 5:00 como de hábito, quando na montanha
ou muito ansioso com algo. As surpresas começaram ao constatar a condensação congelada
dentro da barraca, por sobre minha cabeça... pequenas estalactites de gelo pendiam do teto da
barraca... curioso, fui verificar a temperatura em meu relógio, que apontava -6C. Isso dentro da
barraca... lá fora estaria ainda mais frio! Fiquei no saco de dormir, curtindo o ineditismo do
Ruah... Pouco depois, ouvia-se o alarido normal de quando se desmonta acampamento, ainda
às escuras e um pessoal acampado próximo de nos informou que o termômetro levado por eles
havia marcado -9,6C às 23h e outro pessoal falar em -11,7C. Meus dedos do pé doíam de frio e,
vencendo a preguiça com algum receio, saí do saco de dormir para verificar o estado em que
eles se encontravam. As pontas dos dedos estavam muito avermelhadas, e temi que estivessem
queimados de frio... fiz uma massagem vigorosa em ambos os pês e mesmo a cor não
normalizando, senti-me um pouco melhor. Como não sairíamos em seguida e não curto ficar à
toa na cama, vesti calca, calcei botas, coloquei o saco de dormir dentro de um estanque e sai da
barraca para caminhar e ver o sol terminar de nascer. A esperança de que, caminhando os dedos
parassem de gritar de frio não se concretizou, mas a beleza do sol nascendo entre o Ruah Leste
e a PM compensava o desconforto.
Pouco depois, o sol incidia sobre a encosta da PM e, após despir a segunda pele das pernas,
peguei a mochila de ataque, preparada na véspera e avisei aos amigos que iria esperá-los
tomando um pouco de sol. Subi um pouco e fiquei admirando o vale do Ruah, branco pelo gelo
que cobria o capim ainda que as moitas superassem a altura de um homem. No ano anterior,
em minha primeira travessia ele estava ainda mais branco, com o gelo no capim subindo as
encostas. Talvez seja isso que encante tanto na natureza, nas montanhas... tudo está lá, nada
mudou... mesmo assim, a experiência sempre é inédita, a vista sempre é outra. A viagem não é
apenas pelo exterior, mas trilha-se para dentro também... para a alma.
Agrupamos e partimos, às 6h30 para o ataque ao Ruah Leste, que com 2640m de altitude faz o
limite leste do Vale do Ruah e fica à direita de quem, na travessia caminha em busca do Cupim
de Boi. As mochilas de ataque continham além dos kits de perrengue, de primeiros socorros,
água e lanches, os materiais que usaríamos nos livros de cume que iríamos passar antes de
retornar ao acampamento: o próprio Ruah Leste, os Camelos 1, 2, 3 e 4, o do Avião e o São João
Batista. Alcançamos o primeiro cume do dia às 8h10, fizemos uma parada para café da manhã
com as frutas liofilizadas, chocolates, queijos e guloseimas trazidas, curtindo os diferentes
ângulos das montanhas da Serra Fina. Verificamos não haver registros no livro de cume desde
nossa incursão anterior, apontando que, mesmo tão próximo a concorridíssima trilha da
travessia, ainda há montanhas tranquilas, bastando ter a disposição de ousar um pouco mais e
fugir do convencional. Acrescemos alguns itens (mel e cobertor de emergência) ao tubo de cume,
considerando que possam ser de grande valia para algum colega num eventual perrengue
explorando os arredores da trilha tradicional.
Pouco depois, 8h20 iniciamos a descida em direção ao Ruah, onde um vara-mato nos aguardava,
mirando alguma laje que abreviasse o sofrimento. Pouco antes das 9h, passamos pela lata de
sardinha deixada por algum excursionista pioneiro, dessa vez não confabulamos entre leva-la
ou não... o estado de corrosão apontava algo muito antigo e estando colocada sobre uma parte
mais elevada da laje, ela claramente tinha a intenção de marcar um ponto de passagem, e na
caminhada anterior já havíamos deliberado mantê-la ali, pelo menos enquanto seus restos
fossem reconhecíveis. Curiosos com a história que havia ali, condensada naquelas poucas
gramas de folha de flandres, subimos buscando o colo entre o Pico do Avião e o primeiro dos

camelos. A partir dali, viramos em direção norte e tocamos para cima, chegando aos 2550m de
altitude do cume em pouco mais de 30 minutos de caminhada.
Mantendo a mesma direção, descemos em direção ao colo entre os Camelos 1 e 2, atravessamos
com cautela pela maior exposição do trecho e tocamos para o cume do Camelo 2, quase tão alto
quanto o anterior. A diferença de altitude entre os dois não ultrapassa 20 m. Nesse cume,
havíamos deixado, na incursão anterior um tubo de cume, cujo o único registro era o da nossa
passagem, na travessia full anterior.
Da esquerda para a direita: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro, vistos a partir do Camelos 2. Foto: Douglas Garcia
Ali registramos nossa passagem, acrescemos o mel ao material de emergência deixado
anteriormente, retomamos um pouco o folego e partimos para o Camelos 3, alcançando às
10h15 os 2480m de altitude do seu cume. Para o Camelos 4, o caminho começa pela lateral
direita descendo a encosta íngreme e seguindo o vara-mato desbravado na passagem anterior,
à esquerda. Apesar de já haver palmilhado a passagem, ainda havia o receio de buracos e fendas
e, paradoxalmente, exatamente no momento em que eu alertava a Areli e o Zagaia da
possibilidade de haver buracos escondidos na vegetação e da necessidade de cautela, encontrei
um deles e sumi, diante dos olhos dos dois, quase como em um passe de mágica... enquanto
caía, esperava que a vegetação me freasse a queda, como isso não aconteceu, tratei de agarrar
o que tinha à mão, e, às custas de dois cortes maiores nas luvas (de couro, grossas) que não se
aprofundaram muito nas mãos, freei minha descida e me vi de ponta cabeça a uns 4 m abaixo
dos pês do pessoal. Gritei informando estar tudo bem, e procurei me firmar antes de escalar a
encosta, usando a vegetação como apoio. Nesse momento meu receio era que os tufos de capim
e os poucos bambus que me via aqui e ali, não suportassem mais peso que apenas o meu e
cedessem, caso alguém buscasse me ajudar ou caísse também. Refeitos do choque do susto,
retomamos a caminhada com mais cuidado, uma vez que os trechos seguintes são de exposição

bem maior e uma errada como a de poucos minutos antes, quase certo de que teria
consequências graves. Passamos pelas partes de exposição com bastante zelo, procurando não
dedicar mais que um olhar de relance à paisagem por mais espetacular que fosse. Da mesma
forma que na vez anterior subimos pela direita de forma a evitar ter que dar um “salto de fé”
para cima.
Com maior cautela, alcançamos o totem que erguemos na vez anterior, às 11h20, fizemos uma
parada maior, registramos a passagem pelo livro de cume, aproveitando para revestir duas
pedras maiores com parte de um cobertor de emergência danificado. Acrescentamos os saches
de mel ao material de emergência, descansamos um bocado e partimos explorar os arredores...
a crista dos camelos tem um quinto cume, cerca de 30 metros inferior em altitude ao Camelo 4.
Aproveitamos bem o tempo observando o PNI, o Cupim de Boi, o Três Estados e curtindo a pausa
maior, fizemos um lanche mais substancial apreciando o que havíamos caminhado e o que ainda
o faríamos antes de dar o dia por encerrado.
CT visto do 5 Camelo. Foto: Marinaldo Bruno Retornando dos Camelos “Toca para cima”. Foto: Douglas
Discutimos as alternativas para acampamento entre a base do CT e o bosque na descida do
Cupim de Boi. A expectava de descer a encosta do Cupim, à noite e com cargueiras era um pouco
apreensiva e concordamos, que se, encontrássemos um lugar, por pequeno e ruim que fosse,
acamparíamos no bambuzal e partiríamos de madrugada para ver o sol nascer instalados no alto
do CT. Aproveitamos o horário pouco avançado e esticamos até o próximo cume da crista, que
seria o “Camelos 5” e curtimos um pouco o visual da SF a partir dali, com vistas inéditas para
nós. Iniciamos o retorno com o sol brilhando forte, o que consumia nossas reservas de água, e
eu aproveitei todos os filetes de água que encontramos para me hidratar, por fraco que fosse o
correr de água, em quase todos consegui uns goles. Já na subida do Morro do Avião,
encontramos uma poça maior, onde eu, a Areli e o Zagaia nos fartamos de beber. Continuamos
a subir, buscando o cume do pico do Avião, alcançado pouco antes das 14h. Estávamos dentro
do planejado, então fomos até os destroços do avião monomotor na encosta antes de
retornamos ao acampamento e arrumarmos as cargueiras para o restante da pernada do dia.
Seria o trecho que faríamos com o inventário de água totalmente ocupado, pois não teríamos
agua até o final da tarde do dia seguinte.
Com as cargueiras arrumadas, partimos para nos abastecer de água na cachoeira que o Rio
Verde faz, na parte em que o vale se estreita entre o Ruah Norte e Ruah Leste. Procuramos nos
hidratar bastante considerando a previsão de mais um dia sem nuvens, sem disponibilidade de
termos acesso a outro ponto de água antes das 17h, já na saída da trilha. Ficamos quase meia
hora na pequena queda, alguns de nós aproveitando para tomar um rápido banho nas frescas

águas. Eu, levando em conta que o sol já ameaçava deixar o vale, optei por postergar mais uma
vez meu banho naquelas águas. Nesse ponto, nos abastecemos de toda água possível nas
mochilas e no corpo, buscando a melhor condição para a pernada final. Caprichamos nos ajustes
das cargueiras, que agora fariam valer sua capacidade de transferir a maior parte do esforço
para os quadris. Com 4l de água, minha mochila pesava pouco mais de 14kg, e, com os benefícios
da observação à posteriori, devo dizer que 4l eram “pouco”. Imaginava terminar o último dia
com água contada, carregando o mínimo de peso e administrando o consumo. Houve quem
pegasse 6l e nenhum de nós imaginava esbanjar o precioso líquido.
Com os últimos raios de sol se perdendo atrás da PM, deixamos o Ruah para a derradeira
caminhada do dia, com destino ao bosque de bambus à direita do Cupim de Boi. Com as mochilas
em seu peso máximo dessa travessia, caminhávamos de forma tranquila, procurando preservar
o fôlego e as forças para o dia seguinte. Pouco antes das 21h estávamos no bosque, com as
barracas montadas, nos preparando para dormir algumas horas, já que o planejado era
partirmos antes das 4h para acompanharmos o nascer do sol a partir do cume do CT.
Tranquilizamos o pessoal de outro grupo que já estava ali, e que havia se dividido ao longo do
dia. Parte dos montanhistas desse grupo tinha chegado ao ponto em que acampamos na véspera,
no Ruah, aos pés da PM e ficara no aguardo de alguns retardatários. Estimamos que eles
tardariam no máximo duas horas, porém, com o cansaço e a progressão à noite pouco
confortável, eles optaram por armar acampamento antes do Cupim, numa área de
acampamento alternativa. A expectativa de um visual inédito nos inebriava, e com o cansaço do
segundo dia apoiando, rapidamente adormecemos. Decidi não cozinhar e poupar água para o
dia seguinte, decisão que se mostraria bastante oportuna. Apesar de não estar com fome, já que
passara o dia com diversos petiscos, me obriguei a comer pelo menos uma barrinha de cereais;
ou melhor, tentei me obrigar... o sono e o cansaço venceram e adormeci com a barrinha na
mão... rs... a noite foi muito agradável e dormi direto, sem interrupções, depois que desisti de
utilizar o isolante inflável... o saco de dormir teimava em escorregar de sobre ele, mesmo ante
a suave inclinação em que minha barraca fora montada. Felizmente, era uma questão de luxo,
de forma que apenas coloquei o isolante inflável de lado e adormeci sobre o bom e velho
isolante “casca de ovo”.
Terceiro dia
Confirmando a fama de ser um dos melhores lugares para pernoite na travessia, a temperatura
amena no bosque e o abrigado do vento, possibilitaram uma noite de sono espetacular. Acordei
3h30, revisei a arrumação da mochila de ataque feita na véspera e sai da barraca para esticar as
pernas enquanto os amigos faziam os últimos preparativos. Por mais que procurasse, não
consegui encontrar o estojo com os óculos, e como não queria colocar a lente de contato ainda,
para dar um período maior de descanso para as pupilas, coloquei o estojo de lentes na mochila
de ataque, junto com soro e um pequeno espelho de sinalização, revisei a mochila, verificando
se os itens críticos estavam lá e me preparei para iniciar a caminhada. Partimos no horário
previsto, subindo rapidamente o Cupim e virando à esquerda, para alcançar seu cume e voltar
a descê-lo, agora agarrando nas pedras e na vegetação. A descida naquele trecho é bastante
íngreme, e após alguns minutos tensos, alcançamos a grande rocha que serve de totem natural
para os que atravessam o colo entre as duas montanhas. Não deixamos de notar o quanto o
caminho estava batido, pela passagem de sucessivos montanhistas. A montanha do começo do
ano, nesse aspecto diferia demais daquela que alcançávamos de forma tão desimpedida. Na
minha primeira incursão naquela montanha, ainda no início da temporada de montanhas de
2018, foi necessário dispender um tempo considerável para avaliar por onde passaríamos equais pontos de referência teríamos ao estar no colo e depois varando o mato que apresentava,
apenas aqui e ali, marcas de já ter sido desbravado anteriormente. Eu caminhava em passo mais
lento que os demais, já que a minha visão era bastante limitada. Quando o Zagaia comentou ter
visto água próximo à trilha, lembrei-me de que, no vara-mato do começo do ano, eu havia visto
uma pequena lagoa, à esquerda da trilha.
Com a trilha mais aberta, avançamos mais rápido do que havíamos planejado, e seguindo a velha
estratégia de ataques paralelos, visando minimizar o risco de uma pedrada amiga, alcançamos
o cume 6h30, a tempo de ver o nascer do sol na direção do Agulhas Negras. Fizemos uma pausa
para um lanche à guisa de café da manhã. Aproveitei a parada mais longa para colocar, sem
pressa, a lente de contato... com 5,25º de miopia, garanto que os contornos das montanhas
mudam sensivelmente. Um arrepio me passou pela espinha, lembrando da descida do Cupim,
tateando cada passo no que o colega da frente fazia, quase que às cegas. Curtimos bastante o
cume, exploramos rapidamente duas de suas cristas, passando pelos destroços do bimotor e
instalamos um novo tubo de cume num pico mais afastado à 2580m de altitude, após os
destroços do avião. Junto com esse livro de cume, colocamos um kit perrengue minimalista, haja
vista que ali não se pode contar com a chegada providencial de outro montanhista para lhe
“safar a onça”.
Nascer do sol a partir do Cabeça de Touro Sombra do CT na Pedra da Mina Fotos: Marinaldo Bruno
Após estudar brevemente com o Marinaldo, a crista sudeste do CT, eu e o Douglas encontramos
com o Zagaia e Areli que retornavam para o cume vindo da parte onde estão os destroços do
avião. Combinamos de iniciar a descida do CT no mais tardar às 8h e nos apressamos com a
instalação do tubo complementar, buscando iniciar a descida com o restante do grupo ou pouco
atrás. Com o cansaço da subida, parte do grupo iniciou a descida pouco antes de nós, porém
como desciam mais devagar nos aproximamos deles rapidamente. Novamente, utilizamos a
estratégia de descer em linhas paralelas, cuidando para que alguma rocha eventualmente
deslocada não atingisse ninguém abaixo. Com isso, em pouco tempo estávamos à margem do
colo entre o Cupim de Boi e o Cabeça de Touro. Marinaldo, Areli e Zagaia, já estavam no colo,
buscando a lagoa vista a partir da trilha de ida. A questão é que não encontraram o caminho da
ida e estavam varando mato, na busca das referências: peladona e peladinha.
Confiando na impressão e no que lembrava da ida, esquecendo que a fizera quase que às cegas,
busquei a trilha que havíamos passado pouco antes com a intenção de coletar um pouco de
água na lagoa que existe ali. Com a informação de que o pessoal que havia descido antes não
estava voltando por ela, supus que a trilha estaria mais para a esquerda e fui no vara-mato
buscando interceptar a trilha. Acontece que, por causa da pouca visão na ida ou não, a trilha
estava à minha direita. Quase que certamente a trilha estava ali, entre a minha posição e a

posição dos 3 (Marinaldo, Areli e Zagaia). Como segui à direita, conforme varava o mato, me
afastava cada vez mais da trilha correta e o vara-mato ficava cada vez pior. Sem perceber eu
descia, por entre as moitas de capim que, superavam os três metros de altura. Em pouco tempo,
do chão eu não conseguia mais nenhuma referência visual, e apesar de estar com GPS ainda
queria fazer a navegação visual. Para conseguir ver por sobre o capim e me orientar, escolhi
duas moitas próximas e tratei de “escalar” elas até ter um panorama do entorno.
Do alto das moitas, tudo que eu via era capim, o CT e o Cupim, de forma que ajustei o rumo para
a encosta do Cupim, pois sabia que costeando a base havia grandes lajes de pedra que fariam o
avançar menos custoso. Gritei “oi” buscando que a resposta indicasse a posição dos outros e
não logrei escutar nenhuma resposta... apesar de saber que estavam lá, foi muito inquietante...
Procurei avançar por cima das moitas, e por certo tempo se desenhou como solução ... Posso
dizer que “nadei” no capim, ali... pois apesar de todo o esforço parecia que eu não avançava
“nada”.... encontrei uma rocha que se destacava no mar de capim e tentei galgá-la num pulo,
mas o capim sobre o qual eu me equilibrava cedeu quando dei impulso, me fazendo errar o pulo
e acertar a borda da pedra com a canela esquerda... a dor excruciante me fez crer que havia me
machucado, mas naquele momento, eu só queria saber de sair dali... dei a volta na pedra, por
sob o capim e encontrei um lado que me permitiu galgá-la com êxito. De sobre ela, gritei
novamente o “oi” e ouvi a resposta do Douglas perguntando onde eu estava, levantei os bastões
e escutei um “estou vendo” muito alvissareiro. Pedi que levantasse as mãos, já que ele não
estava com bastões e vi um movimento no capim ... acertamos de irmos um em direção ao outro
para depois retornamos pelo caminho que ele abria em minha direção...ainda que o vara-mato
ali não fosse tão ruim quanto o que eu havia passado pouco antes, o avanço era muito moroso.
Para efeito de comparação, no caminho que percorri através do capim consumi 32 minutos
enquanto na ida, atravessamos o mesmo colo em 8 minutos.
Estar na trilha, só com o tradicional e cansativo “toca pra cima” da íngreme subida do Cupim de
Boi, foi um grande alivio, rs... Com calma e fôlego, parando algumas vezes para que o Douglas
apreciasse as Amarilis que cresciam em um jardim escondido,, numa quantidade que ainda não
havíamos visto pela SF. Numa das pausas para recuperar o folego, ele comentou que elas seriam
o tema provável de seu trabalho de conclusão de curso... identificar habitat, mecanismos de
dispersão, a exigência do frio intenso para quebrar a dormência da gema, etc. Achei muito legal,
e continuamos a debater o que poderia ser estudado, eu sempre procurando que fosse algo de
cunho prático, talvez alguma aplicação fitoterápica. Chegamos ao acampamento no bosque às
10h e rapidamente começamos a arrumar nossas cargueiras para a última pernada do dia. Uma
vez que eu, para poupar água e por falta de apetite, não utilizara minha segunda refeição
liofilizada, a cedi para o Zagaia e para Areli. Partimos para a última pernada da travessia, às 11h,
com o sol rachando tudo e a todos.
Alcançamos o cume do Três Estados pouco antes das 12h30, ficamos cerca de 10 minutos
recuperando o folego e descansando na deliciosa sombra dos arbustos que insistem em
sobreviver ali, apesar de todos os maus tratos que montanhistas menos afeitos à política de
minimizar o impacto na natureza lhes impõem. Aproveitei para fazer uma cata dos lixos
escondidos em algumas moitas de capim, à exemplo do que encontrara quando ali estive,
atravessando a SF com meu filho, pouco mais de um mês antes. Sem muito procurar, acresci à
minha bagagem, uma lata de sardinha, uma embalagem de macarrão instantâneo e outras duas
de barrinha de cereais. Antes de partir, registramos a passagem no livro de cume, batemos um
pouco de papo com um colega de montanha que chegara pouco depois e que iria esperar o resto
do grupo em que estava.

O sol não dava trégua e como a descida do Três Estados é toda à descoberto, desci procurando
poupar a agua, respondendo com monossílabos e procurando manter a respiração controlada.
Levamos pouco mais de uma hora para atingir o cume do Bandeirante.... ainda que
progredíssemos bem, o sol abrasador fazia parecer que levávamos várias horas ao invés de
minutos entre cada cume. No meu caso, a sede era uma presença constante, dominada com
curtos goles de água a cada parada para recuperar o folego ou apreciar a paisagem.
No Alto dos Ivos, fizemos nova parada e contatamos a Patrícia para programar nosso resgate.
Consideramos que levaríamos cerca de 4 horas, a partir dali, para alcançarmos a estrada,
colocamos uma margem de segurança de cerca de meia hora, de forma a permitir que
andássemos sem pressa e agendamos o resgate para as 19h.
Nesse momento eu tinha pouco mais de 1l de água. As poucas nuvens que surgiam no horizonte
não bastavam para nos proteger do sol. Decidi que consumiria toda (ou quase) toda a minha
agua no trecho mais exposto ao sol, deixando uma eventual sede para o trecho de trilha que
percorre a floresta. Dessa forma, considerei levar três horas até o próximo ponto de água,
imponto como meta, tomar 300 ml por hora, 5ml por minuto ou 75 ml a cada 15 minutos. Como
resultado, o tempo não passava, mas a sede ficou bem administrada, permitindo chegar
próximo do ponto de água com cerca de 300 ml que, já sob o abrigo das árvores, tomei em
generosos goles.
Eu e o Marinaldo seguíamos um pouco à frente, chegando no ponto de água com alguma
vantagem em relação aos amigos e, após esperar o grupo que nos precedia se reabastecer,
preparamos uma limonada que caiu perfeita: doce e gelada.
Dali, segui em frente com a Areli, enquanto os outros procuravam se recuperar e matar a sede
com a escassa vazão de água que se apresentava. Fomos perdendo altitude de forma lenta e
contínua pela estradinha até o Sitio do Pierre e depois até a estrada, onde chegamos 18h30.
Aproveitamos o embalo e subimos um pouco pela estada para tomar sorvete caseiro.
Cada um escolheu a parte do gramado que mais lhe agradava e procurou relaxar enquanto
esperávamos o resgate, rememorando a caminhada, as paisagens, petiscando o delicioso
biscoito de polvilho, avaliando os estragos nos pés e as dores nas pernas.
A Travessia da Serra Fina Full, foi a concretização de um sonho antigo... inserir livros e caixas de
cumes em alguns dos principais cumes no entorno da PM.... onde, após várias tentativas,
mapeando e explorando, avançando a partir dos relatos dos montanhistas percursores,
conseguimos realizar. Nesse processo cumulativo de aprendizado e desenvolvimento,
percebemos o quanto alguns trechos demandam maior cuidado, até por estarem longe de tudo
e de todos, sem sinal de celular ou a passagem ocasional de outro montanhista por diversos dias.
Na esperança de apoiar algum irmão de montanha que se veja numa fria nessas partes da SF,
tomamos a iniciativa de acrescer aos livros de cume, um material básico para “safar a onça”. Se
você que lê essas linhas, precisar utilizar esse material, pedimos que nos avise para que
possamos planejar a reposição. Claro que, pelas dificuldades logísticas, consideramos o uso “kits
perrengue” na necessidade, não para conforto. Cabe a cada montanhista, novato ou experiente,
preservar e cuidar da Mantiqueira, Amantikir para os índios, nascente de inúmeros rios que
suportam a vida nas cidades, nas vilas e nas fazendas ao seu redor e ainda mais, a muitos
quilômetros de distância. Com certeza, a Serra da Mantiqueira, em sua imponência, é um dos
fatores determinantes para o clima que experimentamos no Sudeste.

Se você que lê essas linhas, já for montanhista experiente, vá preparado, pois em alguns dos
picos fora da rota tradicional, você poderá entrar numa grande “fria” se não tomar as devidas
cautelas. Esteja sempre com alguém experiente também, evite se aventurar solo ou considere
na preparação eventuais imprevistos. Não descuide do “e se”... há trechos em que não são
necessários três erros para um acidente mais grave. Como registrei acima, fizemos parte da
caminhada à noite, mas ainda que estivéssemos voltando sobre nossos passos em vários locais,
evitamos os trechos menos frequentados à noite, por perder algumas paisagens e pelo risco de
algumas passagens.
Enquanto escrevo essas linhas, relatando a travessia da SF Full em 3 dias, comentam comigo que
há montanhistas que pretendem fazê-la em 2 dias... me perguntam o que acho, e depois de
refletir um pouco me vem a resposta: amigo, a montanha não é minha nem sua, ela é de todos
que a amam e cuidam, seja do sitiante que planta ao pé da serra, ou do turista "modinha" que
posta no Instagram, ela é uma obra de Deus seja você materialista ou espiritualista. Você que lê
essas toscas e mal traçadas linhas, saiba: se estiver na montanha e precisar, um bom
montanhista vai ajudá-lo no que puder, apenas por estar lá e poder. Vejo
isso naqueles irmãos de montanha, que buscam ajudar e orientar
desconhecidos, nos guias que, pesados, sobem rindo aquelas encostas
que tantos outros se arrastam chorando... e ainda encontram forças para
apoiar as equipes de resgate daqueles menos afortunados, seja por que
motivo for e independente de sua forma de pensar ou ver a vida... Forte
abraço! Nos vemos por essas trilhas desse mundão de Deus!

 

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      Não há problema de escassez de água nesse percurso e nem todos os riachos e fontes estão descritos no texto pois são muitos.
    • Por rafael_santiago
      Laguna de los Caballeros
      Início: Cuevas del Valle
      Final: Tornavacas
      Duração: 11 dias
      Maior altitude: 2394m em Pico La Covacha
      Menor altitude: 611m em Jarandilla de la Vera
      Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Há grandes subidas e descidas quase todos os dias, com desníveis positivos (subidas) que chegam a 995m.
      A Serra de Gredos se estende no sentido leste-oeste cerca de 130km a oeste de Madri e está inserida nas comunidades autônomas de Castela e Leão e Extremadura (comunidades autônomas na Espanha são mais ou menos como estados no Brasil). Ela está dividida em Maciço Oriental, Maciço Central e Maciço Ocidental. Nesse trekking eu percorri de ponta a ponta o Maciço Central, que vai de Puerto del Pico a Tornavacas. Do 1º ao 9º dia eu caminhei dentro dos limites do Parque Regional de la Sierra de Gredos. O único problema dessa caminhada foi a época escolhida. Em final de junho e início de julho o calor chega próximo dos 40ºC, o que é bastante desgastante e inapropriado para o trekking. No início de junho há o risco de ainda haver bastante neve nos picos mais altos. Creio que a melhor época seja o outono (set, out), antes das neves do final do ano.
      É bom lembrar que o acampamento selvagem nos parques da Espanha é proibido, mas em todo o percurso eu montei a barraca no cair da noite (ou quase), desmontei logo cedo e não deixei nenhum vestígio do meu pernoite no local.

      Serra de Gredos
      1º DIA - 25/06/19 - de Cuevas del Valle à crista da Serra de Gredos
      Duração: 4h (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 1839m na crista da Serra de Gredos
      Menor altitude: 844m em Cuevas del Valle
      Resumo: nesse dia encarei a subida inicial da Serra de Gredos a partir da cidade de Cuevas del Valle, com desnível de 995m desde essa cidade à crista da serra
      Na Estacion Sur em Madri tomei o ônibus da empresa Samar às 11h para a cidade de Cuevas Del Valle. Desci do ônibus às 13h52 e aproveitei que havia um restaurante a poucos metros para uma última refeição decente antes de entrar na trilha. Altitude de 844m. Iniciei a caminhada às 15h05 cruzando o asfalto da N-502 e depois a cidadezinha de Cuevas del Valle no sentido norte. Como era hora da siesta, o lugar estava completamente deserto. O calor ajudava a manter as pessoas dentro de casa, longe daquele sol forte. Há uma bica de água fresca num largo logo à entrada da cidade para abastecer os cantis já que não haverá muitas fontes nesse dia. Passei à direita da Capela de Nossa Senhora das Angústias e na bifurcação seguinte tomei a direita, subindo e seguindo a sinalização da GR 293 em direção a Puerto del Pico (para mais informações sobre as trilhas GR: es.wikipedia.org/wiki/Sendero_de_Gran_Recorrido). Esse caminho é chamado de Calzada Romana.
      Mas logo tive de fazer a primeira parada na sombra, por 30 minutos, pois o sol estava fritando. Continuando a subida, fui à direita na bifurcação e encontrei um cocho com água corrente, mas cheio de lama ao redor. Às 16h08 cruzei a N-502 e continuei subindo pelo calçamento de pedras da Calzada Romana. Parei mais três vezes na sombra. Às 17h34 cruzei mais uma vez a N-502 e 17 minutos depois parei na última água do dia para completar todos os cantis. O caminho faz um zigue-zague e já se avista Cuevas del Valle bem abaixo. Passo pelas ruínas do Portazgo (posto de pedágio do século 13) às 18h07 e 10 minutos depois termina a Calzada Romana junto à rodovia (altitude de 1371m). Esse lugar se chama Puerto del Pico (puerto em espanhol significa passo entre montanhas) e aqui entro nos limites do Parque Regional de la Sierra de Gredos. Puerto del Pico é o limite natural entre os maciços central e oriental da Serra de Gredos.
      Continuo por caminho paralelo à N-502 com a extremidade oriental do Maciço Central da Serra de Gredos à minha esquerda esperando para ser "escalada". Entrei no primeiro asfalto à esquerda e caminhei apenas 70m até um portão de ferro com mata-burro ao lado. Não cruzei o portão, entrei na trilha à esquerda antes dele às 18h25. Uns 170m depois entroncou uma outra trilha vindo da esquerda e a segui até encontrar uma cerca. Acompanhei a cerca subindo para a esquerda e ao final dela a trilha desapareceu por alguns metros. Segui os totens e a reencontrei. Já estava subindo a encosta da Serra de Gredos. Do outro lado de Puerto del Pico, a leste, avisto bem marcada a trilha de ascensão ao Pico Torozo, este já pertencente ao Maciço Oriental da Serra de Gredos.
      A subida pareceu ter fim aos 1622m, às 19h28, mas continuou. Procurei me manter à direita para chegar logo à crista. Novamente a subida pareceu ter fim aos 1749m, às 20h19, porém só atingi mesmo a crista da Serra de Gredos às 20h43, aos 1839m. Logo surgiu um aceiro vindo da direita e o tomei para a esquerda. Em 200m cheguei a uma estrada de terra bem no alto da serra (!?) e resolvi parar às 21h17 num lugar plano, abrigado do vento e sem tantas pedrinhas para montar a barraca. A primeira impressão da Serra de Gredos foi empolgante, com ampla visão em 360º. Há muitas formações rochosas de formatos curiosos, com grandes pedras equilibradas umas sobre as outras. Dali do alto também pude contemplar um belo pôr-do-sol às 21h45. Altitude de 1814m.

      Serra de Gredos
      2º DIA - 26/06/19 - pela crista da Serra de Gredos até o Pico Peña del Mediodía
      Duração: 6h35 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2221m em Peña del Mediodía
      Menor altitude: 1810m
      Resumo: caminhada para oeste pela crista da Serra de Gredos, porém quase não há trilha definida. Procurar o caminho (ou abrir caminho) entre as moitas de piorno foi cansativo.
      Do local onde acampei na crista podia avistar toda a paisagem dos vales ao norte da Serra de Gredos e a continuação da serra para oeste, meu destino nos próximos dias. 
      Deixei o acampamento às 10h42 e voltei a caminhar pela estrada no sentido oeste, mas quando ela fez uma curva para a direita (norte) subi à esquerda sem trilha seguindo totens para me manter na crista da serra. Às 11h39 um amontoado de rochas com uma coluna no topo me chamou a atenção e subi para conferir o que havia ali. Trata-se do cume La Fría, onde foi instalado um vértice geodésico. A visão para oeste se amplia bastante.
      Na continuação, me deparei com um grupo de cabras montesas que imediatamente fugiu, porém um filhote ficou para trás, no alto de uma pedra, apavorado com a minha presença. Ele saiu bem na foto, rs. A encosta norte da serra nesse ponto tem várias estradas de terra e há mais em construção, o que tira todo o "clima" de montanha do lugar. 
      Às 12h25 cruzei uma fileira de mourões sem cerca (ainda) e 32 minutos depois encontrei uma bica de água quase seca, apenas um fio escorria, mas consegui coletar mais abaixo e bebi o máximo que pude pois as fontes são muito raras nessa serra (essa foi a única água desse dia). Um marco de madeira fincado tem uma plaquinha "Senda Puerto del Arenal". Continuei às 13h55 e 190m depois cheguei a uma placa em que se lê: Puerto del Arenal - Ruta Navarredonda-Puerto del Arenal PR-AV 45 (mais informações sobre as trilhas PR em es.wikipedia.org/wiki/Peque%C3%B1o_Recorrido). Nesse ponto chega uma trilha que vem da localidade de El Arenal pela vertente sul da Serra de Gredos e que serve como rota de fuga ou início alternativo a esse trekking. Já vinha avistando El Arenal lá embaixo no vale desde o Pico La Fría.
      Às 16h11 outra placa: Puerto de La Cabrilla - PR-AV 44, que é outro caminho de El Arenal a Navarredonda de Gredos. A partir daqui a serra começa a se mostrar mais florida pois surgem os grandes campos de piorno, que dá flores amarelas em abundância. A dificuldade era abrir caminho entre os piornos já que não encontrava trilha definida e contínua.
      Às 20h05 alcanço a maior altitude do dia no Pico Peña del Mediodía, de 2221m, também com uma coluna e um vértice geodésico. A partir desse pico aparece uma trilha ininterrupta, antes só pedaços de trilhas. Continuando para oeste, 400m depois do pico desvio alguns metros à direita até um marco de granito para fotos. A partir do marco a trilha inicia uma longa descida a um outro "puerto". Desconfiei que seria difícil encontrar um lugar plano para a barraca, então procurei nas imediações do marco, onde o terreno era plano e as moitas de piorno me davam alguma proteção contra o vento. Altitude de 2211m.

      Cabra montesa e ao fundo os picos Almanzor e La Galana
      3º DIA - 27/06/19 - do Pico Peña del Mediodía ao Refúgio Elola
      Duração: 8h30 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2262m
      Menor altitude: 1948m na Laguna Grande
      Resumo: continuação pela crista da Serra de Gredos passando por dois refúgios em ruínas e descida ao Circo de Gredos, com a Laguna Grande e o Refúgio Elola
      Iniciei a caminhada do dia às 9h10, passei pelo marco de granito e comecei a descer ao Puerto del Peón. A decisão de acampar lá no alto se mostrou muito acertada pois encontrei um grupo enorme de jovens bivacando cerca de 300m antes do puerto. Como é proibido montar barraca eu teria no dia anterior que caminhar bem mais e me afastar deles para poder acampar. Às 9h42 passei pela placa que indica o Puerto del Peón, local que marca uma travessia no sentido sudeste-noroeste da Serra de Gredos e que provavelmente era o roteiro daquele grupo pois não os vi mais.
      Na continuação para sudoeste, a trilha cai por algum tempo para a vertente norte da serra e depois obriga a subir à crista outra vez. Cruzo mais campos de piornos floridos mas em seguida chego a uma região mais árida da serra, um local praticamente só de pedras, e ali, às 11h14, me deparo com as ruínas do Refúgio Los Pelaos, todo de pedras. Há bons espaços para pernoitar protegido do vento desde que você não se impressione com as paredes prestes a desabar. O local também é rota de uma travessia no sentido norte-sul da Serra de Gredos. Uma caminhada alternativa seria subir ao Pico La Mira, de 2343m (desnível de apenas 91m desde as ruínas), mas não encarei. O mais importante: tem água.
      Às 12h33 prossegui na trilha para oeste e 190m após as ruínas atinjo a maior altitude do dia, 2262m (alcançarei outra altitude igual ainda nesse dia). No horizonte a oeste já avisto uma cordilheira com os picos Almanzor, La Galana e o passo Portilla del Rey, pelo qual passarei entre a Laguna Grande e as 5 Lagunas. A trilha volta a cruzar o tapete amarelo de flores e a crista continua o seu sobe-e-desce. Caminho por alguns trechos com calçamento de pedras. Às 15h05 fui à esquerda (sudoeste) numa bifurcação seguindo os totens, sem trilha definida (à direita teria descido a um estacionamento chamado La Plataforma).

      Campos de piorno
      Às 15h21 avistei a oeste o Refúgio del Rey, ainda bem distante. Desci e ao subir ao topo da colina seguinte visualizei a trilha à frente e abaixo. Desci novamente e a encontrei às 16h29. Com mais 8 minutos cheguei ao Puerto de Candeleda (com placas indicando ser a PR-AV 46), outra rota que cruza a serra de norte a sul. Parei para descansar e comer, e para meu espanto apareceu um outro louco solitário fazendo a travessia da serra com um enorme mochilão com não-sei-quantos litros de água. Conversamos um pouco e ele seguiu na frente. Às 17h22 continuei na direção oeste numa longa subida, percorrendo depois uma crista para o norte. Às 18h06 fui à direita numa bifurcação para ver de perto as ruínas do Refúgio del Rey. Ao lado fizeram um cercado com as pedras desabadas que serve como abrigo do vento para um bivaque. Perto do refúgio encontrei água quase parada mas 80m à frente (norte) havia uma ótima bica. Continuei para o norte por uma trilha larga às 18h55. 
      Às 19h17 cheguei a uma cabeceira de vale com capim bem verde e bastante água, ao contrário da secura que vinha enfrentando até aqui. Seguindo os totens cruzei o riacho e subi por um caminho construído com pedras, passando por pequenas lagoas. Às 19h52 uma bonita visão para a esquerda (oeste) das montanhas pontiagudas próximas à Laguna Grande, meu destino nesse dia. Porém a laguna estava bem longe ainda e a descida direta para oeste não se mostrou animadora pela inclinação e ausência de trilha. O jeito foi continuar para o norte, dando uma volta bem grande, mas por trilha bem marcada e segura. Aqui atinjo também a maior altitude do dia, 2262m. Fui à esquerda na bifurcação e comecei a descer. Às 20h33 cheguei a uma bifurcação em T e continuei descendo para a esquerda. À direita se vai à Plataforma e esse é um caminho bastante usado para chegar ao Refúgio Elola. Passei por uma fonte de água e continuei no rumo sudoeste até as margens da Laguna Grande. Contornei toda sua margem leste e sul para enfim chegar ao Refúgio Elola às 21h36, quase no pôr do sol. Esse local é conhecido como Circo de Gredos.
      Este refúgio foi o único que encontrei guardado, ou seja, com guardas, que aliás estavam jantando e por sorte sobrou alguma janta para mim também. Dentro do refúgio deve-se usar apenas chinelos ou crocs, disponíveis em prateleiras na entrada. Há armários com chave. Os quartos são coletivos e têm beliches bem largas onde dormem muitas pessoas uma ao lado da outra, por sorte havia pouca gente e não precisei dormir espremido. A reserva costuma ser obrigatória mas pelo número pequeno de hóspedes não houve problema em não tê-la feito. O banheiro não tem vaso sanitário e sim uma peça de metal com buraco no chão, como no Nepal. Altitude de 1958m.
      Talvez o principal destino dos montanhistas que procuram esse refúgio seja o Pico Almanzor, o mais alto da Serra de Gredos, com 2591m.
    • Por Cyndell Floresta
      Queridos mochileiros, 
      Esse relato é da minha primeira travessia, já havia feito trilhas difíceis e longas, mas uma trilha de dias de duração, foi a primeira. No ano novo de 2012/2013 fui de Trindade até Ponta Negra, acampando na Praia do Sono. Foi então que, encantada com a paisagem selvagem da região inserida em uma Unidade de Conservação, em 2015 eu e mais duas amigas resolvemos ir de Trindade até Pouso da Cajaíba. Gostaria de aproveitar e agradecer os relatos que li aqui no fórum, nos ajudaram muito nessa travessia, posso garantir que não nos perdemos nenhuma vez. Obrigada a todos que colaboram nessa rede. 
      Saímos de São Paulo bem cedo no dia 26/12/2015  de ônibus, rumo a Paraty-RJ. Pedimos ao motorista para nos deixar na entrada da Vila de Trindade, lá esperamos o ônibus Municipal de Paraty para descer até a vila. 
       

      Ponto de ônibus na beira da Rio-Santos, entrada da Vila de Trindade.
      Na foto da esquerda para a direita: Eu, ainda estudante na graduação de Engenharia Florestal, Angela, chilena, na de medicina e a Nara também na florestal.  
      Pegamos o ônibus e descemos no último ponto, a Vila do Oratório. É lá que inicia-se a trilha para a Praia do Sono. Um sol forte, mesmo já tendo passado das 14:00, nos deixou bastante ofegantes, mas a trilha é bem demarcada e fácil. Chegando lá, nos aconchegamos num camping mais ao fim da praia, a fim de ficarmos próximas da trilha para a Praia dos Antigos, seguiríamos bem cedo no dia seguinte
      .  
      Nem começou e já deu uma canseira kkkk.

      Na praia do Sono, depois de desarmar nosso camping.
      De manhã, como combinado, fomos rumo a Praia da Ponta Negra. A primeira parada foi na Praia dos Antigos, lá tem uma pequena queda d'água que desemboca na praia, ficamos lá um bom tempo, estava extremamente quente e o mar era um convite irrecusável nesse paraíso.

      Subida íngrime entre a Praia do Sono e a Praia de Antigos, já de manhã o sol castigava nossas cabeças!
       

      Como podem ver, a Angela resolveu levar seu violão para a viagem!
        
      No cantinho com sombra na praia, passamos um bom tempo curtindo a Praia dos Antigos.

      Paraíso, sem mais.
      Chegando a Praia de Ponta Negra, acampamos no Camping da Branca, resolvemos dormir cedo, pois no dia seguinte faríamos a trilha para a Cachoeira do Saco Bravo, a ideia era passar o dia lá e dormir novamente em Ponta Negra, para só então no outro dia seguir em frente na travessia para a Praia de Cairuçu das Pedras.

      A caminho da Cachoeira do Saco Bravo

      Ponta Negra vista de cima.

      Vista linda da trilha.

      Suando muito, mas tudo muito bem compensado com essa vista verde a perder-se no horizonte. É uma satisfação enorme ver a Mata Atlântica assim S2.

      Minhas queridas!

      Curtindo muito fazer a trilha sem o peso dos mochilões!

      A cachoeira do Saco Bravo é incrível, fiquei realmente impressionada com o lugar. A cachoeira fica no costão rochoso, desaguando portanto no mar. A única forma de acesso é por trilha, não há como ir de barco.

      Reparem na proporção, o tamanho da pessoa lá embaixo.

      Mais uma desse pico incrível. 


      Na volta da trilha, nos deparamos com flores lindas na mata.


      Chegamos no fim da tarde em Ponta Negra, tomamos um banho, jantamos e fomos dar uma volta para se despedir do pico.

      Bateu uma saudade essa foto! Vista linda da Praia da Ponta Negra.
      Partimos pela manhã para Cairuçu das Pedras, a trilha é longa, mas escolhemos ir devagar e parando para curtir a trilha, demoramos cerca de quase 5 horas, com toda certeza dá pra fazer em menos tempo. Porém paramos para comer, curtir algum curso d'água que estivesse pelo caminho e cantar muito com o violão!

      Nessa foto, estamos ainda em Ponta Negra com mochilão e violão!

      Flor extraterrestre.

      Pelo caminho, só as belezas da Mata Atlântica. Reparem nessa bromélia!
      Chegamos em Cairuçu das Pedras ainda de dia. A praia é lindíssima e as águas límpidas. Acampamos no quintal dos caiçaras que nos receberam super bem, o camping fica no alto. De lá, a vista da praia com o céu estrelado é um show e serviu de palco para muitas canções com o violão na única noite que passamos por lá. 

      Uma das fotos mais lindas da viagem!!

      No deck em frente a Cairuçu.

      Mais uma nessa praia maravilhosa.

      Nos munimos de banana para seguir viagem, agora, rumo a Martim de Sá para passar a virada de ano!

      Olhem a vista de Cairuçu!!!
      Bem cedinho, partimos para Martim de Sá, nosso objetivo era passar a virada de ano lá e também ficar alguns dias (mas acabamos estendendo até o dia 12 de janeiro). A trilha foi tranquila,  quando chegamos lá, nos deparamos com o camping bem lotado. Depois de dar várias voltas, conseguimos achar um cantinho legal para armarmos nosso acampamento. Martim de Sá tem uma vibe e energia únicas, é fácil fazer amizades e logo todo mundo vira uma grande família. Nossa estada lá foi i-nes-que-cí-vel, é um verdadeiro paraíso na Terra. 

      Parada para refrescar a caminho de Martim de Sá.

      Impossível não parar a trilha para curtir essa água doce transparente no meio da mata! A trilha também é atração principal, tanto quanto o destino final!
      Martim de Sá tem muita coisa pra fazer, não dá pra ficar entendiado! Tem o Encontro dos Rios, a cachoeiras, além de estar num local estratégico para ir até Cairuçu, Praia da Sumaca e Pouso da Cajaíba num tempo de trilha relativamente curto.
      O ano novo foi demais, foi feita uma fogueira na praia e todo mundo do camping se reuniu para celebrar a passagem do ano, vibe indescritível da galera, o céu "estralando" de estrelas, o clima perfeito!


      Curtindo a praia de Martim de Sá antes da grande virada.

      Um pouco do clima de Martim de Sá!

      Goró na mão pra não passar em branco! kkkk

      Feliz, feliz, feliz.....

      É disso que to falando! S2!

      Fogueira e música.
      Os dias transcorreram com muita alegria e aventura, como disse, acabamos ficando até o dia 12 de janeiro. Nesses dias fomos conhecer a Praia da Sumaca, voltamos a Cairuçu e íamos frequentemente para Pouso da Cajaíba para pegar mais comida e bebidas e dar um alô para nossa família. O camping, assim como em Cairuçu, é bem roots, o que pra mim não é problema algum, lá não tem energia elétrica e nem sinal de celular, é uma experiência única ficar REALMENTE desconectado do mundo moderno, posso afirmar que você curte sua viagem de maneira diferente e com certeza mais intensa. A conexão com a natureza nesse lugar é muito forte e logo começa a transparecer no nosso corpo físico. Eu me sentia extremamente bem lá, sempre disposta e com muita energia! Nosso mental/emocional fica muito ZEN e você se vê sendo gentil, amável e sociável com todas as pessoas. Lugar mágico!

      Cachu em Martim de Sá.


      Em dia de chuva em Martim, era comer e tocar violão.

      Camping esvaziando após a virada de ano.

      Um pouco mais do camping.

      Sossego em Martim.

      Eu no canto direito de Martim de Sá, por onde parte a trilha até o Encontro dos Rios.


      Bica no meio da praia Martim de Sá.

      Cachoeira do escorrega, mais conhecido como escorreguinha. 10 minutos de trilha.

      A caminho da Sumaca.

      Trilha para a Praia da Sumaca, já estávamos próximas.

      Na descida para finalmente chegar a Praia da Sumaca

      Morrendo de calor, mas estamos aí!
      Praia da Sumaca



      A Praia da Sumaca é ma-ra-vi-lho-sa. Dá para acampar também. Assim como em Martim, mora apenas uma família caiçara no local que dispõe de uma área para camping, também sem energia elétrica e sinal de celular: Roots!

      Eu e a praia da Sumaca S2
      Outra grande atração de Martim de Sá é o Encontro dos rios. Um grande curso d'água que deságua direto no mar, para chegar até lá, basta pegar uma trilha rápida no canto direito da praia.

      Angela no Encontro dos Rios.

      Pescaria.

      Na dúvida de pular ou não!
       
      Vai que vai!

      Vários protelando o momento do salto!
      Com tantos dias em Martim, aproveitamos e retornamos num bate-volta até Cairuçu das Pedras com toda a turma do camping!

      Turma reunida para a foto, que lembrança! 
      Após o bate volta para Cairuçu, começava a chegar a hora de partir de Martim de Sá. Aproveitamos nossos últimos dias no paraíso para então levantar acampamento até Pouso da Cajaíba, onde pegaríamos o barco para Paraty.

      Eu e minha irmãzinha Nara aproveitando os últimos dias em Martim.

      Hang Loose!

      Angela, mandando bem nos malabares.

      Abacaxi!

      Em Pouso da Cajaíba, aguardando a saída do barco até Paraty.

      Depois de muitos dias, tomando um guaraná geladíssimo!

      Pouso é uma delícia também, na próxima, pretendo acampar um dia lá antes de ir para Martim de Sá.
      Chegando em Paraty descobrimos que só tinha passagem para dali 2 dias, então aproveitamos duas noites super agitadas na cidade. O bom é que a despedida foi gradual, seria muito abrupto sair daquele lugar tão isolado, rodeado pela natureza, e já ir direto para São Paulo!
      Espero que tenham gostado do relato dessa odisseia. Recomendo muito esta aventura, estou a disposição para tirar dúvidas! Aliás, foi ótimo relembrar a viagem através desse breve relato, é o meu primeiro, então pode não estar bem estruturado, mas tentei passar um pouco da minha experiência com as fotos e os textos breves!
      No inicio deste ano (2019), fiz uma viagem de uma semana para a Praia do Puruba em Ubatuba, lugar mágico! Em breve farei o relato dessa trip! 
      Abraços, mochileiros! 
       
       
       



    • Por dji_pedro
      PATI SELVAGEM: uma travessia de tirar o chapéu e deixar marcas
      Como toda banda de Rock a vida nos bastidores nem sempre é um mar de rosas.  É que a convivência em grupo por vezes desponta em desentendimentos que destoam do objetivo principal. É nesse contexto que o Projeto Rota das Travessias iniciado em 2016 com cinco integrantes perde alguns de seus talentos que, por hora, seguem “carreira solo” (rsrsr). Mas como o “show tem que continuar” aqui teremos uma aventura com participação de três integrantes da antiga “banda”: Eu (Djair), João e Wilson. 
      Assim como na experiência anterior em 2017, escalamos o experiente Marquinhos Soledade (@expedicao_chapada) para ser nosso guia. Dessa vez, iremos realizar a Travessia do Vale do Pati, lá no coração da Chapada Diamantina, na Bahia. Entretanto fugindo um pouco do convencional optamos por deixar esse trekking mais radical fazendo um trajeto mais selvagem.  A ideia é começá-lo em Andaraí subindo o curso do Rio Paraguaçu e seu Cânion.  É uma opção que cobra maiores cuidados tanto pelo terreno como pelo isolamento. É percurso pouco testado. Muitos evitam. É um trecho do Pati esquecido, uma rota praticada por garimpeiro. A trilha exige subir muitas pedras e paredões, bem como experimentar cruzar dezenas de vezes o lado do rio de modo a encontrar melhor caminho. Sem falar da possibilidade de ocorrência de fenômenos naturais como as temíveis cabeças d’água dentro do cânion. Os primeiros dois dias se passa numa região onde possivelmente não cruzaremos com outros caminhantes. 
      Partimos de Recife numa sexta-feira (28 de junho) num voo da Azul Linhas Aéreas com destino a Salvador. Às 23h30 já estávamos na rodoviária para pegar o confortável ônibus da empresa Rápido Federal com destino à belíssima Lençóis.  Rodamos a madrugada inteira.  Às 6h da manhã desembarcamos e seguimos para a Pousada Bons Lençóis, ali mesmo na parte central da cidade.  À tarde tomamos umas cervejas para celebrar aquele reencontro e também meu aniversario: 29 de junho, dia do santo São Pedro, estou ficando mais velho, presenteie-me com essa travessia: vamos brindar!!! 
      À noite entre outras coisas e fizemos a feira coletiva que irá nos alimentar durante os cinco dias do trekking. Compramos, pesamos e separamos os pacotes dos alimentos em quatro partes. Agora cada um pode enfim fechar suas cargueiras para a pesagem final: 23 Kg (Djair), 20 kg (Wilson) e 17 kg (João). Guardamos a fração de alimento que cabia a Marquinhos para entregá-lo em Andaraí (distante 100 quilômetros da cidade de Lençóis) na manhã seguinte onde começaremos nossa travessia.
      30 de Junho – 1º DIA (domingo)
      O domingo chega. Fretamos um taxi para nos levar à Andaraí.  Encontramos nosso guia no pátio da igreja católica naquela cidade e de lá seguimos no veículo até a estrada onde tem início nossa jornada. Donana é como os moradores conhecem aquela área, uma referência a uma antiga moradora da localidade: Dona Ana. Vamos seguir a velha trilha usada por garimpeiros. 
       

       
      Uma vegetação arbustiva é o que encontramos nos primeiros metros. Seguindo um pouco e ela vai mudando. Agora temos uma área mais preservada. Árvores maiores vão ocupando os espaços. Uma ponte de madeira marca o inicio dos limites do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Daqui pra frente à aventura começa pra valer. A trilha segue paralela ao Rio Paraguaçu. O terreno é de subida, sentimos o peso nas costas.
      Enfileirados seguimos pela trilha dentro da mata. O lado esquerdo fica o leito pedregoso do rio Paraguaçu de onde se ouve o som forte de suas águas. A certeza de que estamos optando por um trecho selvagem nos obriga a muitos cuidados. Aliás, pela primeira vez iremos realizar uma expedição utilizando equipamentos de GPS: Eu com um relógio Garmin Fênix 3 HR, enquanto Wilson carregava o indispensável SPOT G3. Esse é o instrumento mais importante, pois é capaz de acionar socorro e enviar nossa localização precisa em caso de acidentes.
      Era apenas o início de nossa travessia. Mal tínhamos completados 2 km e tivemos um susto: Wilson acabou batendo a cabeça contra uma ponta de um galho ao passar por baixo dele e o resultado foi um corte na parte superior do couro cabeludo que causou um sangramento. O kit de primeiros socorros levado por Marquinhos foi logo usado e minutos depois pudemos continuar. Ufa!
      Descemos. Seguimos agora pela margem pedregosa do Rio Paraguaçu. Esse é o tipo de terreno que iríamos enfrentar nas próximas 48 horas. A visão das pedras que formam todo o conjunto é muito bonita. Nossa caminhada exige muito equilíbrio porque temos que pular pedras imensas e andar sobre elas e descer outras tantas. Executar um pulo entre pedras com 20 kg nas costas é algo que exige bastante. É preciso jeito e sorte! 

       

      No quarto quilômetro fizemos uma pequena pausa para um descanso. Nosso guia buscou se refrescar nas águas geladas do rio eu a fazer as primeiras filmagens pra não perder nada da aventura que estava apenas começando. 30 minutinhos nessa parada e já tomamos uma subida forte à direita pelo paredão do Cânion do Paraguaçu: uma trilha dura pela encosta recoberta de arbustos. Agora já estávamos a quase 400 metros de altura em relação ao ponto inicial do trekking.
      Já era quase 2h horas da tarde. Estávamos outra vez dentro do leito do Rio Paraguaçu. Havíamos cruzado apenas de 6,5 km e fizemos a parada para o almoço. Visual deslumbrante. Comentava com o João de como tudo aquilo era admirável e do privilegio de se estar ali. A imagem das paredes do Cânion recoberta de vegetação verde em contraste com a água avermelhada, com as pedras no leito, as nuvens e o céu azulado trazia mais beleza ao cenário. 
      Marquinhos assumiu a cozinha e sobre um enorme pedra fez uma mistura que seria nosso almoço: grão de bico e atum sólido. Foi bem breve nossa parada.  Seguimos a caminhada e agora já estávamos diante de uma bifurcação de cânions. Majestoso recorte de rochas que marca o encontro de dois rios: do lado esquerdo as águas do Rio Paraguaçu e do direito as do Rio Pati.  É um marco geológico de dois grandes cânions. Pela primeira vez avistamos a boca do Cânion Pati.
       

      Às três da tarde havíamos percorridos 7,7 quilômetros quando chegamos à prainha formada do lado das águas do rio Pati onde levantamos o acampamento. Aproveitamos a área de terra, sem vegetação, para fazer uma fogueira distante uns 3 metros das portas das barracas. Depois disso foi momento de aproveitando os raios do sol cair e naquelas águas de dupla identidade. O tempo passou rápido e a noite se aproximava.

      Marquinhos como de costume assumiu a cozinha preparando macarrão, linguiça defumada, tomates, cebola: o cheiro e o sabor estavam perfeitos! Depois da janta seguimos com nossas lanternas para o meio do rio. Aproveitamos uma das imensas pedras para sentar e experimentar a imagem contemplativa do céu estrelado e o som das águas naquele lugar inóspito. 

       
      Às nove da noite estávamos em nossas barracas. Marquinhos “homem bruto” resolveu lançar seu saco de dormir próximo à fogueira para passar a noite. Cabra de coragem (rsrsrs). A temperatura estava agradável. O termômetro marcava 21 graus. Foi fácil pegar no sono dessa vez.

      01 de Julho – 2º DIA (segunda-feira)
      Acordei por volta das seis e meia da manhã imaginando como seria nossa caminhada. Vamos preparar o café e começar mais um capítulo de nossa história. O dia era bonito, eu estava tranquilo e até mesmo meio lerdo (rsrsrs), por isso me atrasei um pouco retardando a partida. Somente às 9h30 iniciamos a trilha. Há uma estimativa de que o percurso possua 9 km e que os mesmos serão bem pesados.
      O Cânion do Paraguaçu ficou ali. Nosso movimento agora é à direita, dentro do Cânion do Rio Pati. Por ele iriamos saber a razão pelo qual muitos aventureiros evitam aquela rota. O nível de dificuldade do trekking aumentou bastante já nos primeiros metros. O pula-pedra passou a ser uma constante e tirar a bota para não encharcá-la logo se mostrou ilusão e perda de tempo.  Avançar sobre rochas escorregadias é uma maluquice, mas não ha outra maneira de seguir.  
       

      Os joelhos sofrem demais com o peso nas costas somados ao impacto dos saltos entre as pedras que tem que ser precisos. É força, equilíbrio e principalmente sorte: levamos 1h42 minutos para percorrer 2 km tamanha dificuldade que o terreno apresentava. Ora estávamos de um lado do leito, ora do outro. E quando nos aproximávamos do terceiro quilômetro executando umas dessas passagens entre pedras escorregadias o companheiro João tomou uma queda. Ele escorregou batendo com a canela em numa pedra dentro do rio.  Um hematoma imenso se formou no centro de sua canela. E isso nos deixou assustados uma vez que ele poderia ter fraturado a perna. Tirá-lo dali aquela altura seria impossível salvo por helicóptero.  Levamos alguns minutos cuidando do amigo e graças a Deus tudo ficou bem: uma atadura foi colocada em volta da lesão, e seguimos ainda mais cautelosos com a certeza de que não podemos errar! 
       

      O terreno continuou duro. Percorremos mais 2,5 km e de trilha. Dessa vez fizemos uma subida violenta a direita, uma trilha dentro da mata que margeia a parede do cânion Pati. Às 12h30 curta parada, dessa vez para recobrar o fôlego. O trajeto em ziguezague pelo rio, atravessando, pulando pedras é um exercício para o corpo e mente. A beleza do cânion em sua forma esbranquiçada emoldura o cenário. Outros 20 minutos de descanso. Passamos à margem esquerda desafiando pedras e vegetação da encosta. Agora temos um “tronco” fixado junto o paredão que serve como ponte evitando o caminho por uma parte escorregadia sob nossos pés. É preciso segurar na parede. 

      Saindo da parede do cânion entramos na mata outra vez.  Aqui é necessário muito empenho, forca, determinação. Tivemos que transpor um emaranhado de pedras e arvores: uma combinação que exige do corpo. O esforço ofusca a beleza daquele trecho. A única coisa que queremos é sair daquilo para um lugar amplo e sem obstáculo.  
       
      Às 13h30 paramos dentro do Cânion para almoçar: grão de bico, atum cebola e tomate foi nosso almoço. Até ali tínhamos percorridos 7 km em 5 horas de muito esforço. Não temos a certeza da distancia exata do ponto de acampamento. Os 9 km que mencionei é uma mera especulação! Retomamos a trilha e ela continuou da mesma forma: dura e técnica. Quando completamos os 10 km já estávamos bem cansados e frustrados: percebemos que nossa ideia de quilometragem tinha ido por agua a baixo.  1 km depois se fez outra parada, estava bem claro que nosso moral estava baixo: expectativa e realidade se conflitavam. 
      Somente após percorrer mais 3 km chegamos ao nosso destino: a Toca do Guariba. Já passava das 17h30 minutos. Foi preciso correr para montar as barracas sob a luz da tarde, afinal dentro do Cânion escurece mais rápido. Foram exatos 14 km percorridos naquele dia.  A Toca do Guariba é nossa morada! Aliás, esse nome é dado pelo fato de que há um corte no Cânion que forma uma cavidade onde em geral os aventureiros buscam abrigo. É uma área protegida. O nome Toca do Guariba deriva pelo fato de que é comum avistar o macaco Bugio naquela área, eles também são conhecidos pelos nomes de Macaco Barbado ou Macaco Guariba. Não avistamos nenhum, tampouco os seus sons. Aliás, nesses quase dois dias ainda não cruzamos com ninguém na trilha. De fato estamos em local isolado.

       
      A noite chegou muito depressa. Não deu pra estar no rio e tomar banho. Dessa vez a higiene foi com lenços umedecidos. Estávamos exaustos, quebrados! Jantamos às 19h: frango, macarrão, linguiça defumada e bolo de rolo! Depois disso alguns instantes de conversa e música e às 21h já estava recolhido. O dia foi pesado! 
      02 de Julho – 3º DIA (terça-feira)
      Não consegui uma boa noite de sono. Só com o amanhecer do dia foi possível apreciar a beleza do lugar. O Rio Guariba é afluente do Rio Pati. Estamos exatamente no encontro dos Cânions. Tomamos nosso café e levantamos acabamento. Às 8h30 Deixamos as cargueiras em um ponto e fomos fazer uma breve visita dentro ao Cânion do Guariba. É um cânion estreito e belo. Passamos não mais que 1 hora. E infelizmente não tivemos a sorte de ver nem ouvir nenhum Bugio na local. 
       
      Voltamos, pegamos as mochilas e fizemos uma subida pela mata. Uma acentuada inclinação nos lançava mata acima. As pernas sofridas pelos 14 km do dia anterior reclamavam a todo instante.  A ideia é chegar à casa de seu Eduardo onde vamos dormir. Agora nosso caminho é por uma linda mata. Ela reveste a encosta do cânion dando beleza única a nossa caminhada. Estamos no alto do cânion encoberto onde é possível ouvir o som das águas do Pati. 

      Seguimos firmes e confiantes por 1 hora onde fizemos breve parada para um rápido lanche. A nossa direita estava a majestosamente Serra do Império. Continuamos. Ainda estamos na mata. No quilômetro 3,5 nos desviamos erroneamente numa bifurcação à esquerda que nos levou a um curral, ops! Logo achamos a trilha certa e seguimos.
      Após 5 km de trilha, às 11h da manhã estávamos diante da primeira residência nesses três dias de trekking: a casa de seu Joia e dona Leu.  E pra celebrar aquele encontro nada mais épico do que uma cerveja gelada. Sim, é possível tomar cervejas geladas no Vale do Pati. Comemos pão caseiro feito por Dona Leu e tomamos cerveja. Pagamos 12 reais por uma long neck (eu pagaria ate 50 reais rsrsrs). Passamos alguns minutos naquela casa humilde e acolhedora. Lavamos os rostos, enchemos nossos depósitos de água e seguimos.  O terreno de seu Joia tem um visual incrível. Curiosidade daquele lugar são os avistamentos de felinos como as onças que causam receios a nativos e aventureiros que cruzam a região. Graças a Deus não tivemos nenhum susto. Mas há muita gente que já viu, ouviu seus sons ou seus rastros.


      Percorremos 8.20 e às 12h40 estávamos na residência de Seu Eduardo atualmente sob os cuidados do Domingos, seu neto.  A casa fica aos pés do Morro do Sobradinho, a beira da Boca do Cânion Cachoeirão. Ela fica exatos três quilômetros daquela de seu Joia. Compramos refrigerantes e cervejas geladas. Isso e resultado das geladeiras alimentadas a gás butano e da energia solar que abastece a casa. 

      O cansaço dos dois dias nos fez desistir do planejamento inicial que era visitar o Cachoeirão por Baixo.  Resolvemos conter o dia conversando, tomando refringentes e cervejas e uns petiscos vendidos naquela casa.  A decisão se deu pela perspectiva que tínhamos daquele trekking. Queríamos devolver o prazer da caminhada, buscar prazer efetivo. Na nossa visão acumular a visita ao Cachoeirão fazendo o bate-volta iria nos desgastar e o que precisávamos mesmo era de um tempo pra ficar à toa entre amigos.  Acertamos também em comprar a janta ali oferecida e manter o acampamento com as barracas nas dependências da propriedade. 

      Tivemos a oportunidade de conhecer um bom sujeito Catalão: Joan, ele estava de passagem em visita ao amigo Domingos. Ali contou sua vida e sua relação com o Pati. Joan mora no Capão junto com sua esposa, de nacionalidade brasileira.  Ele relatou suas experiências com a natureza e de suas habilidades como especialista em agricultura sustentável e de sua colaboração em algumas comunidades na Chapada Diamantina.
      No meio da tarde fomos tomar banho no rio Cachoeirão, ele passa nos limites da casa.  Uma pequena descida te leva às margens, grande poço e corredeiras te convidam a cair na água. Ao fundo temos uma visão incrível das paredes dos morros que formam o vale.
      A noite chegou e o jantar oferecido foi sensacional: carne de sol, estrogonofe de frango, arroz, feijão, macarrão, farofa de cenouras, abóbora, e suco. Perfeito! Comemos divinamente e continuamos até umas 21h conversando em grupo. A noite estava estrelada. Eu, Wilson e João fizemos uma pequena fogueira próxima à barraca e às 21h30 já estávamos recolhidos.

      03 de Julho – 4º DIA (quarta-feira)
      Às 6h despertamos. Dessa vez procurei me apressar pra não atrasar o grupo. O café da manha foi preparado ali bem próximo às barracas: cuscuz e ovos. 8h15 já estávamos de saída. Tomamos o caminho a esquerda no sentido da casa de Seu Tonho. Atravessamos o leito do rio Pati sobre as pedras para seguir à margem esquerda do rio. Do lado direito margeando todo o leito uma belíssima mata acompanha o curso do rio. Essa caminhada ainda cedo ganhava muita beleza. A quantidade de sons dos pássaros trazia um encantamento fenomenal. O lado esquerdo nos acompanha o Morro Sobradinho, tocado pelos raios do sol. Tudo é maravilhoso!
      Agora temos forte subida.  Logo estamos a 178 metros de altitude em relação à casa de Domingo. O visual belíssimo já nos revela ao longe o Morro do Castelo. 2 horas depois e 5.6 quilômetros fizemos a parada de descanso naquela área conhecida como “prefeitura” que na verdade é um antigo entreposto dos antigos comerciantes e produtores de café do Vale do Pati. A imagem que temos é perfeita, uma pintura que cabe em qualquer quadro.


      Nossa próxima parada será na casa de seu Aguinaldo. Deixamos a prefeitura, atravessamos o Rio Lapinha e seguimos a trilha tendo a nossa direita o imponente Morro do Castelo.  Seguimos a trilha dentro da mata. No caminho Marquinhos à dianteira nos indica com cuidado a presença de uma cobra Jararaca ali bem no meio da trilha... Imóvel e bem camuflada ela parecia buscar os raios do sol que atravessava os altos dos galhos e folhas daquele lugar. Olhar para o chão sempre, essa e a dica! 

      Um pouco adiante tivemos a oportunidade de cruzar na trilha com Seu Antônio, Seu Tonho. Havíamos passado em frente a sua casinha, logo que saímos da casa de Seu Eduardo, lembra? Seu Tonho surgiu vindo atrás da gente, dentro da mata, na trilha estreita. Montava um burro e puxava outro que levava uma cela de carga (cangalha), seguia vocalizando comandos ao animal. Uma imagem bonita. Retrato de uma historia vida. É um som bonito que ecoava por entre a mata.  De perto assistimos como são transportados todos os suprimentos dos nativos dali. O burro é o motor, o transporte. 

      Enfim, depois de três horas de relógio, 8.4 km de distância e 426 metros de ganho de elevação chegamos à casa verde onde mora o casal. Estamos agora no Pati de Cima a 932metros acima do nível do mar. Ali fomos recebidos por dona Patrícia que nos ofereceu seus deliciosos pães caseiros e latinhas de Coca-Cola geladíssimas. Podemos apreciar os sabores ofertados diante de um visual belíssimo: estamos aos pés do Morro do Castelo.  

      Alguns minutos de descanso e seguimos às 13h com nossas mochilas de ataque rumo ao alto. São 400 metros de subidas em meia a mata atlântica preservada, uma trilha íngreme que exige muito mesmo dos joelhos e muita atenção para evitar quedas.  Levamos 1h20 minutos para completar os mais de 3 km de trilhas subindo até chegar ate o Morro do Castelo no alto dos seus mais de 1.400 metros. Numa subida tão vertical, não adiantar negar: vai doer.
      O Morro do Castelo é colossalmente bonito.  O fato de existir uma gruta que atravessa todo maciço de quartzito no local faz o morro ganhar ares ainda mais mágicos. É espetacular o conjunto da obra. Adentrar na gruta mexe com a imaginação. Ela possui aproximadamente 800 metros de extensão e para cruza-la se faz necessário o uso de lanternas: a escuridão é total. Não esqueçam as lanternas e muito, muito cuidado ao caminhar, pois há Pedras soltas e pontiagudas por todo percurso.


      Ao cruzar a extensão da gruta temos do outro lado um visual incrível do Vale do Calixto, ele está no lado oposto ao Vale do Pati. É magico, é incrível! Estamos a mais de 1.400 metros do nível do mar e para onde se olha é um mar de beleza que agrada aos olhos e ouvidos. É o som dos ventos soprando forte que impressiona. 

      Diante de tanta beleza muitos e muitos clicks, mas já é hora de retornar para Casa de Seu Aguinaldo que está 400 metros abaixo. É hora de descer aproveitando a luz do sol. Temos uma trilha dentro da mata e é bom não vacilar. Levamos 1h pra refazer o caminho de volta. 
      Ao chegar corri, junto com o João, para armar nossas barracas na área de frente à residência. Wilson preferiu contratar um pernoite num dos quartos da casa.  Nesse momento a temperatura começava baixar um pouco. O sol estava refletindo sem força nas bordas das paredes do Vale. Já estava imaginando a temperatura da água que iriamos tomar banho. Apelei por um aperitivo.  Eu e João provamos umas doses de cachaça para ver se a coragem aparecia. Nem sei se isso ajuda. Fomos ao banho: água gelada da mísera!
      Contratamos o jantar e não nos arrependemos. Dona Patrícia caprichou: carne de sol, macarrão, arroz, salada crua e suco de maracujá. João que não come carne foi contemplado com uma omelete preparada com exclusividade. Todos felizes e de barriga cheia. Ao termino do jantar, enfim seu Aguinaldo apareceu e conversamos bastante. Ele falou de sua vida, da rotina naquele lugar e os desafios de se viver ali. O clima era úmido e a temperatura na casa dos 18 graus. Não tardamos buscar o aconchego de nossas barracas, Wilson se recolheu ao conforto do quarto. É nossa ultima noite dentro do Vale do Pati.
      04 de Julho – 5º DIA (quinta-feira)
      Último dia. Acordei às 6h30. O termômetro marcava 14 graus. O som das águas do Rio Lapinha correndo, dos pássaros cantando e voando pertinho da barraca e a imagem do Morro do Castelo diante de nós marcavam o inicio daquele nosso derradeiro dia no Vale do Pati. Eu já sentia saudades de cada momento. Por outro lado, nosso amigo e guia estava com dores estomacais e apresentava também quadro de diarreia. Ficamos preocupados com a condição física dele. Ninguém merece ficar doente na trilha. Retardamos um pouco a saída. Marquinhos sinalizava que já estava tudo ok, então tínhamos que partir.

      Às 9h010 saímos da casa de seu Aguinaldo. Subimos a trilha e seguimos pulando pedras no curso do Rio Lapinha e após caminhar 1.7 km a gente chegava à Cachoeira das Bananeiras.  Seguindo o curso daquele rio e 1h 15 depois de nossa partida (2,5 km) estávamos na Cachoeira do Funil que se apresenta belíssima. Cruzamos o leito para pegar a trilha que fica na parte de cima da encosta, próxima a queda d´água. Minutos depois chegamos a Cachoeira da Altina. Ali havia um pequeno grupo de turistas. É uma cachoeira um pouco menor que a do Funil. Deixamos a Cachoeira da Altinha (nome que faz referencia a uma antiga moradora que ali lavava as roupas da família) e tomamos o caminho novamente à esquerda, atravessando o rio e subimos uma trilha íngreme pela mata.

      Chegamos à igrejinha. Percorremos 4 km contados a partir da casa de Seu Aguinaldo.  Ali é a Casa de Seu João. Ela está próxima da Ladeira da Rampa que dá acesso ao Mirante do Pati e os Gerais do Rio Preto.  Ali é uma casa que também oferece serviços de recepção aos aventureiros com comida e hospedagem.  Lavamos os rostos e tomamos nossas ultimas latinhas de refrigerante dentro do Vale. O sol do meio dia castigava forte. São os testes finais de resistência depois de cinco dias de trekking. Doente, Marquinhos sentia bastante cada passo. Tive pena do nosso Leão da Montanha.

      Ao meio dia e meio estávamos no Mirante da Rampa. 6 km separam a casa de seu Aguinaldo do Mirante do Pati. E o visual a 1.337 metros é de tirar o fôlego. Ali enxergamos toda extensão do Vale do Pat: é o lugar perfeito para fazer aquelas fotos clássicas. Mas não podemos demorar. Temos horário marcado para nosso resgate lá no Beco, em Guine. O motorista Ari nos aguarda!
      As 13h10 seguimos nossa jornada pelo magnifica planície que forma as Gerais do Rio Preto. O terreno é um platô de campo rupestre, não há arvores naquele trecho, o lugar é belíssimo. A partir do Mirante, depois de 1,3 km cruzamos o riozinho que dá nome aquele local, o Rio Preto. Seguindo por mais 3.27 km estávamos enfim diante da descida de Aleixo. Eu diria que A Rampa e a Descida do Aleixo são tecnicamente iguais. A diferença e a ordem das coisas. Assim iniciamos nossa descida sob o calor das às 14h em direção ao ponto de encontro. Percorridos mais 2.1 km de trilhas chegamos ao final de um dos trekking mais bonitos desse pais.  Foi sensacional! Agora vamos voltar pra Lençóis!
       

       























































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    • Por rafael_santiago
      Siete Picos
      Início: Cercedilla
      Final: Cercedilla
      Duração: 5 dias
      Maior altitude: 2427m no Pico Peñalara 
      Menor altitude: 1027m na ponte sobre o Rio Manzanares
      Dificuldade: média para quem está acostumado a trilhar com mochila cargueira. Há muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis positivos (subidas) que chegam a 1227m (4º dia) e 1435m (1º dia).
      A Serra de Guadarrama se localiza a cerca de 70km a norte-noroeste de Madri e é avistada tanto dessa cidade quanto da cidade de Segóvia. Há vários roteiros possíveis de caminhada pela serra, com durações que vão de um a vários dias, porém o acampamento selvagem é proibido no parque (bem como em toda a Espanha), sendo permitido apenas o bivaque acima dos 2100m e somente por uma noite. Eu escolhi fazer um trajeto de forma circular a partir da cidade de Cercedilla que percorresse seis dos cumes mais altos dessa serra: Peñalara (2427m), Cabeza de Hierro Mayor (2376m), Bola del Mundo ou Alto de las Guarramillas (2254m), La Maliciosa (2219m), Siete Picos (2117m) e Peña Águila (2011m). Essas altitudes parecem bastante modestas, inclusive se comparadas às montanhas mais altas do Brasil, porém todas ficam cobertas de neve no inverno, o que obriga ao uso de equipamentos apropriados.

      Vista do Pico Peña Águila
      1º DIA - 17/06/19 - de Cercedilla a Puerto de Cotos com subida do Pico Peña Águila
      Duração: 8h05 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2011m no Pico Peña Águila
      Menor altitude: 1140m na ponte do Rio de la Venta, em Cercedilla
      Resumo: nesse dia encarei as primeiras subidas da caminhada com desníveis de 871m desde Cercedilla ao Pico Peña Águila, depois 149m até Puerto de la Fuenfría e 415m da rodovia CL-601 até Puerto de Cotos
      Na estação Chamartín, em Madri, tomei às 8h10 o trem Renfe com destino à pequena cidade de Cercedilla, aonde cheguei às 9h20. Demorei algum tempo para encontrar o início da trilha para o Pico Peña Águila pois não havia indicação e a trilha não era nada óbvia. O trajeto é o seguinte: saindo da estação do trem deve-se descer a rua à esquerda por 100m até sua guinada para a esquerda, onde passa num túnel por baixo da linha férrea - exatamente na guinada deve-se cruzar a ponte (Rio de la Venta) e o estacionamento em frente para encontrar sob as árvores a trilha com placas de Sendero Ródenas (toda pichada) e Camino Puricelli (com mapa). Outra alternativa é caminhar a partir da plataforma da estação ao longo da linha férrea para oeste e encontrar a mesma trilha num ponto acima das citadas placas. 
      A partir das placas a trilha sobe em zigue-zague até uma rua de terra que deve ser tomada para a direita, subindo (a trilha que sai à direita antes da rua não serve). O casarão bem em frente à trilha funcionava como Albergue El Colladito, mas agora é uma escola infantil. Dali já avistei os Siete Picos, o Pico Bola del Mundo (Alto de las Guarramillas é o nome verdadeiro) e Pico La Maliciosa, meus objetivos para os próximos dias nesse trekking, todos a nordeste. Eram 10h20. Caminhei 640m por essa rua de terra (ignorando um caminho que sai para a direita logo no início dela) e às 10h32 entrei numa trilha à direita onde há uma placa de Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares. É um atalho que me levou a caminhar entre muros de pedra e subir a uma clareira alta com a primeira visão ampla para as serras, com destaque para os Siete Picos. Caminhando na direção de uma casa vazia à esquerda reencontrei a estrada de terra e segui nela para a direita, mas por apenas 200m pois entrei na trilha à esquerda, subindo entre pinheiros. Ali há um cocho de pedra com água corrente. Nas árvores há marcações de PR (Pequeño Recorrido = Percurso Pequeno), que são duas faixas horizontais, uma branca acima e outra amarela abaixo. Para mais informações: es.wikipedia.org/wiki/Pequeño_Recorrido.
      Às 11h55 cruzei uma estrada de terra (com círculos vermelhos pintados nas árvores) e continuei subindo pela trilha. Alcancei enfim às 12h09 a crista da serra e nela uma bifurcação em T, onde fui para a direita (norte). Nesse ponto estou entrando na famosa e longa trilha GR 10, que vai de Valência a Lisboa (as marcações em tinta branca e vermelha vão aparecer mais acima). Não cruzo o muro de pedra da crista por enquanto. Deixo para trás a floresta de pinheiros e continuo paralelamente ao extenso muro de pedras. Já avisto o cume do Pico Peña Águila, com as encostadas tomadas pelo tapete amarelo das flores piorno. A trilha cruza finalmente o muro de pedras apenas 140m antes do cume, aonde cheguei às 13h17. Visão espetacular num dia de céu limpíssimo: La Pinareja e Montón de Trigo ao norte (cumes da Serra Mujer Muerta); Peñalara a nordeste; Siete Picos, Cabeza de Hierro Mayor, Cabeza de Hierro Menor, Bola del Mundo (esses três em Cuerda Larga) e La Maliciosa a leste. Altitude de 2011m e desnível de 871m desde Cercedilla. O vento estava forte e bem frio e usei o muro de pedra como proteção para tomar meu lanche. 

      Pico Peña Águila com piornos floridos
      Às 14h iniciei a descida no sentido oposto ao que cheguei (nordeste) e em 12 minutos caí numa estradinha de terra muito chata. Caminhei por ela até um portão de ferro que cruzei às 14h42 e fechei com atenção seguindo a recomendação da placa (para o gado não fugir). Ali passava uma estrada tediosa de terra, mas procurei por trilha e encontrei uma no sentido nordeste, não muito óbvia no começo. A ela entroncou uma outra vindo da direita chamada Camino Viejo de Segovia. Atravessei uma ponte de madeira (água boa), outra ponte (quase sem água) e à direita surgiu a trilha conhecida como Calzada Romana. A Calzada Romana faz uma curva para a direita e eu preferi me manter no Camino Viejo de Segovia por ser mais direto, por isso segui à esquerda. Porém 190m depois fui à direita e passei a caminhar pela larga Calzada Romana, mas por menos de 100m pois alcancei uma estrada de terra às 16h06. Esse é um importante cruzamento de caminhos, inclusive de uma das rotas do Caminho de Santiago: Puerto de la Fuenfría.
      Observação: se tivesse caminhado à esquerda na estrada tediosa teria continuado na GR 10 e chegado a esse mesmo lugar. A partir dali a GR 10 toma a direção sul.
      Um dos significados da palavra puerto em espanhol é "paso entre montañas" ou "collado de montaña", portanto os puertos costumam ser lugares altos que dão passagem de uma vertente a outra da serra/montanha. Após a subida até esse puerto iniciaria uma suave descida.
      Há diversas placas nesse local indicando e explicando os muitos caminhos que por ali passam. Tantas placas que levei algum tempo para encontrar qual seria a continuação do meu caminho em direção a Puerto de Cotos. Mas era só continuar no meu sentido nordeste por uma estradinha de terra entre pinheiros. Um cocho de pedra tinha água corrente. Na primeira bifurcação fui à direita e na segunda, à esquerda. Às 16h44 a estradinha vira trilha e passo a caminhar pelo Carril del Gallo (sem placa mostrando essa informação). Às 17h41 cheguei a uma grande clareira usada como pasto e parei para descansar por 17 minutos com uma vista bastante ampla e bonita. Continuei no sentido sul (e depois leste) e reentrei na mata de pinheiros. Cruzei uma ponte de troncos e 130m depois alcancei uma estrada de terra, que tomei para a esquerda (norte) (aqui fui explorar uma alternativa à estrada mas não deu em nada, a trilha fechou; gastei 40min nisso). Desprezando as trilhas que nasciam dessa estradinha, às 19h11 cheguei ao asfalto da CL-601, exatamente num local chamado Las 7 Revueltas. Cruzei a cancela e desci à esquerda até uma cancela igual (à direita), onde tomei a estradinha de asfalto entre pinheiros. Altitude de 1409m. Parei para descansar por 22 minutos. Nas bifurcações continuei no asfalto até encontrar às 20h35 uma estradinha de terra à direita com placa de Puerto de Cotos a 3,2km. Passei por quatro riachos e alcancei as casas de Puerto de Cotos às 21h33, ainda com luz do dia (o sol estava se pondo às 21h45). Altitude de 1824m (desnível de 415m desde o asfalto da CL-601). 
      Puerto de Cotos não chega nem a ser uma vila, o lugar se resume a uma estação de trem onde funciona um refúgio de montanha (El Refugio de Cotos), o Centro de Visitantes do Parque Nacional Sierra de Guadarrama e um bar-restaurante (Venta Marcelino). Como é proibido acampar de forma livre e não há camping pago busquei hospedagem no refúgio, onde fui o único hóspede da noite já que era uma segunda-feira (no final de semana estava lotado). Lá fui atendido pelo Carlos, que me preparou um saboroso jantar. O único problema ali foi o banho pois a água não esquentava de jeito nenhum. 
      Além do trem há ônibus ligando Puerto de Cotos a Madri (veja nas informações adicionais). 

      Laguna de los Pájaros
      2º DIA - 18/06/19 - Pico Peñalara 
      Duração: 5h20 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2427m no Pico Peñalara 
      Menor altitude: 1816m na estação de trem de Puerto de Cotos
      Resumo: circuito passando pelo cume do Pico Peñalara a partir de Puerto de Cotos num desnível de 611m
      Após o café da manhã no Refugio de Cotos e uma boa enrolação saí às 11h36 para subir o Pico Peñalara com mochila de ataque apenas. Meu plano era subir pela crista do lado sul-sudoeste e descer pelo lado norte-nordeste, retornando pela face leste do pico. Passei pelo Centro de Visitantes Peñalara do Parque Nacional Sierra de Guadarrama para pegar informações e continuei no sentido nordeste por 370m. Logo após a curva do Mirador de la Gitana continuei pela trilha principal, a RV2, à esquerda (voltaria pela trilha da direita, a RV8). Após vencer um desnível de 611m desde o refúgio, com trechos em zigue-zague e grandes manchas de neve próximas ao caminho, alcancei o cume do Pico Peñalara às 13h34. Ele é o ponto mais alto da Serra de Guadarrama e das províncias de Madri e Segóvia. Dali se avistam Cabeza de Hierro Mayor, Cabeza de Hierro Menor, La Maliciosa e Bola del Mundo ao sul; Siete Picos, Peña Águila, Montón de Trigo e La Pinareja a sudoeste; Segóvia a noroeste.
      Iniciei o retorno às 14h46 seguindo a crista no sentido norte-nordeste. Cerca de 540m depois, num trecho com grandes blocos de pedra, desci pela face direita da crista, mas estava errado, o caminho foi sumindo e a descida se complicando. Voltei e desci pelo lado oposto, à esquerda da crista, onde havia uma trilha mais fácil. Observei depois que algumas pessoas continuavam pelo alto da crista, mas pelo que vi é preciso saltar grandes blocos de pedra bastante expostos. 
      Desci por trilha bem marcada e alcancei às 16h45 a Laguna de los Pájaros, onde uma placa alerta para a proibição de banho e a permanência a menos de 3m da margem para evitar a mortalidade de anfíbios, entre outros motivos (porém poucos minutos depois encontrei vacas pastando livremente às margens de outras lagoas). Ali tomei a trilha da direita (sul) e efetivamente iniciei o retorno a Cotos. Cruzei com um grupo grande com mochilas cargueiras que pretendia bivacar no Peñalara sem nenhum medo do vento frio da noite. Às 18h13 parei para fotos no Mirador de Javier e tomei o atalho que sai à direita dele para alcançar em 12 minutos a Laguna Grande de Peñalara, que é cercada com um cabo de aço para evitar a aproximação.
      Saindo da Laguna Grande às 18h54 desci por uma passarela de madeira e depois trilha até a casinha de vigilância e continuei na trilha em frente (ignorando as trilhas da direita e da esquerda). Reentrei na mata, passei por uma bica e reencontrei a trilha da ida (RV2) às 19h38. Passei pelo Centro de Visitantes, pela Venta Marcelino (fechada) e estava de volta ao refúgio às 20h10.

      La Pedriza
      3º DIA - 19/06/19 - de Puerto de Cotos a La Pedriza
      Duração: 7h50 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2376m no Pico Cabeza de Hierro Mayor
      Menor altitude: 1478m no acampamento em La Pedriza
      Resumo: subida de Puerto de Cotos ao cordão montanhoso Cuerda Larga num desnível de 560m e descida ao "parque" rochoso de La Pedriza num desnível de 898m
      Há dois caminhos possíveis para subir à crista de Cuerda Larga a partir de Puerto de Cotos. Um deles sai diretamente para o sul e passa próximo ao Albergue El Pingarron, o outro sai para leste e é 1,3km mais longo, porém foi o que escolhi (talvez tenha menos sobe-e-desce).
      Saí do refúgio às 10h53 no sentido leste e atravessei todo o estacionamento que fica ao longo da rodovia M-604. No final do estacionamento desci uma escada de madeira e encontrei na mata a trilha que me levaria a Cuerda Larga. Porém ao sair da mata, apenas 170m depois, a trilha sumiu. Cruzando o campo na direção sudeste, entrei em outra mata e reencontrei a trilha junto a uma pequena ponte de tábuas. Uma outra trilha entroncou nessa vindo da rodovia também. Um círculo amarelo pintado nas árvores confirma o caminho. Tomo o rumo sul e depois sudeste, direções que manterei por algum tempo. Cruzo um riacho pelas pedras e desemboco numa estrada, na qual vou para a esquerda, descendo. Atravesso a ponte sobre o Arroyo de las Cerradillas. Encontro outra estrada às 12h01 e desta vez vou para a direita, subindo por um vale com o Arroyo de las Cerradillas à direita. Surgem caminhos à esquerda que exploro tentando evitar a monotonia da estrada, mas foi só perda de tempo (apesar dos sinais vermelhos pintados nas árvores). Felizmente logo a estrada vira trilha (na bifurcação vou à direita), cruzo três pontes, a trilha dá uma guinada para o norte e chego a uma bifurcação com placas às 14h34. Da direita vem a trilha do Albergue El Pingarron, o outro caminho de Cotos. Eu sigo para a esquerda retomando o rumo sul.
      Cruzo quatro riachos em sequência, formadores do Arroyo de las Cerradillas. Alcanço o limite das árvores (1825m) e passo a subir por entre moitas de piornos floridos. Depois vem a parte mais inclinada da encosta da serra com a dificuldade de caminhar por um terreno chamado de canchal (em espanhol) ou scree (em inglês), uma ladeira de pedras desmoronadas. Cruzo um riacho para a direita às 15h26 e essa será a última água até descer para a outra vertente no final do dia. 

      La Pedriza
      Às 16h40 alcanço enfim a crista de serra conhecida como Cuerda Larga. Desnível de 505m desde as placas. Dali avisto as formações rochosas de La Pedriza, a cidade de Manzanares El Real, meu objetivo deste dia, e bem distante no horizonte a capital Madri. Sigo para a esquerda (nordeste) na bifurcação em T às 17h02. O Pico Cabeza de Hierro Menor (2374m segundo a Wikipedia), segundo mais alto de Cuerda Larga, fica apenas 300m à direita dessa bifurcação, mas não fui até ele.
      Seguindo pela crista (PR-M 11), um desvio de apenas 40m à esquerda me leva ao cume mais alto de Cuerda Larga, o Pico Cabeza de Hierro Mayor, com 2376m de altitude pelo meu gps. Ele é o segundo em altitude da Serra de Guadarrama, perdendo apenas para o Peñalara. Avisto lá do alto o estacionamento de Puerto de Cotos onde iniciei a caminhada desse dia e também as montanhas: Peñalara ao norte; La Pinareja, Montón de Trigo, Siete Picos, Peña Águila e Bola del Mundo a oeste; La Maliciosa a sudoeste; La Pedriza e Manzanares El Real a sudeste; e ao sul-sudeste os prédios de Madri. Desnível de 560m desde o refúgio em Puerto de Cotos. 
      Continuando pelo sobe-e-desce da crista no sentido leste passo pelos outros cumes de Cuerda Larga: às 18h08 pela Loma de Pandasco (2247m, segundo a Wikipedia, não fui medir cada um), às 19h06 por Navahondilla (2234m) e às 19h15 por Asómate de Hoyos (2242m). Nesse trajeto tive o primeiro contato com as cabras montesas e estavam em grande número, mas são mansas e ariscas. Cerca de 310m após o último cume sigo os totens e faixas pintadas à direita e abandono a crista de Cuerda Larga, que segue para nordeste, em favor de uma crista secundária a sudeste que me leva ao "parque" rochoso de La Pedriza. O lugar é incrível, com formações fantásticas de granito, algumas lembrando o nosso Parque Nacional de Itatiaia. Há inúmeros caminhos em La Pedriza, muitos deles usados por escaladores para acesso às pedras e suas vias. Vários outros levam ao vale do Rio Manzanares, o qual eu deveria percorrer para alcançar o Camping El Ortigal, a caminho da cidade de Manzanares El Real.
      Dos muitos caminhos ao Rio Manzanares optei pelo mais direto, passando pelo Refugio Giner de los Rios (PR-M 2). Após descer 330m (de altura) desde a crista de Cuerda Larga pela PR-M 2, às 21h02 chego a uma bifurcação em T em Collado del Miradero e vou para a esquerda (ainda PR-M 2), reentrando no bosque de pinheiros cerca de 100m depois. Voltam a aparecer as fontes de água e com elas os locais propícios para o bivaque para quem se aventura escalando as muitas pedras do entorno. Já estava começando a anoitecer (quase 22h) e o camping ainda estava muito longe, então parei no primeiro local plano que encontrei, na altitude de 1478m, para pernoitar. 

      Sierra de los Porrones
      4º DIA - 20/06/19 - de La Pedriza a Puerto de Navacerrada
      Duração: 8h10 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2254m no Pico Bola del Mundo
      Menor altitude: 1027m na ponte sobre o Rio Manzanares
      Resumo: descida de La Pedriza ao Rio Manzanares, em seguida subida aos picos La Maliciosa e Bola del Mundo e descida a Puerto de Navacerrada. Diferença de 1227m entre os pontos mais alto e mais baixo do dia.
      Esse dia e o dia seguinte são de escassez de água. É preciso reabastecer os cantis nas poucas fontes encontradas no começo desse dia para durarem até a tarde do dia seguinte (a menos que se consiga água em Puerto de Navacerrada, que não foi o meu caso). 
      De manhã fui explorar o entorno do local onde acampei e encontrei um lajedo com pedras de diversos formatos e tamanhos, uma miniatura do Lajedo do Pai Mateus de Cabaceiras(PB). É bom lembrar que o acampamento selvagem nos parques da Espanha é proibido, mas eu montei a barraca já à noite, desmontei logo cedo e não deixei nenhum vestígio do meu pernoite no local.
      Comecei a caminhar às 8h18 ainda descendo. Apenas 340m depois do local de pernoite, aos 1433m de altitude, encontrei um cruzamento de trilhas mas fui em frente pois era o caminho mais rápido ao Refugio Giner de los Rios e depois ao Rio Manzanares. Continuo na PR-M 2. Aos 1256m encontrei a primeira água do dia. Às 9h28, na altitude de 1179m, uma placa aponta para o refúgio à esquerda, num desvio de 150m da trilha principal. Cruzei uma pequena ponte e depois uma clareira para subir ao refúgio, que encontrei em bom estado porém trancado. A bica ao lado estava quase seca. A clareira tem espaço de sobra para acampar porém logo cedo já começam a passar os trilheiros e escaladores uma vez que há um estacionamento a 2km dali. Voltei à trilha principal às 10h08.
      Às 10h39 cheguei ao Punto de Información Canto Cochino, mas estava fechado (só abre de sábado, domingo e feriado das 9h às 17h). Esse é o ponto de convergência de pelo menos quatro trilhas que descem de La Pedriza e as placas indicam esses caminhos. Foi também o local onde vi mais gente. Dali tomei a direção sul por um calçamento e cruzei às 10h58 a ponte sobre o Rio Manzanares, encontrando do outro lado uma estrada e um pequeno estacionamento. Essa ponte é o ponto de menor altitude do dia e de todo o trekking (1027m) e a última água do dia.
      A estrada quebra para a direita e ao fazer uma curva para a esquerda encontro dois grandes estacionamentos e um ou dois bares (se fosse ao Camping El Ortigal teria que tomar a direção sul aqui). Ao final dos estacionamentos cruzo o asfalto e entro na trilha em frente (oeste). Na bifurcação uns 35m depois vou à esquerda (pois a direita morre no asfalto mais à frente). Cerca de 1,1km depois da bifurcação chego às 11h31 a um cruzamento de trilhas, onde vou para a esquerda, quase voltando. Meu objetivo é subir à crista da Sierra de los Porrones e descer à cidade de Puerto de Navacerrada para pernoite. 

      Sierra de los Porrones
      Não percebi uma trilha saindo para a direita e subi até um muro de pedras que fui contornando para a direita até reencontrar a trilha no sentido oeste novamente. Às 12h21 cruzei uma estrada de terra e parei para descansar e me refrescar do forte calor. Os insetos também estavam incomodando um bocado. Nesse ponto há algumas placas e uma delas apontava para o Pico La Maliciosa, meu destino. Faixas amarelas e brancas pintadas indicam ser uma rota de Pequeño Recorrido, nesse caso a PR-M 16. Havia um cocho de pedras mas as bicas estavam secas. Às 13h05 retomei a caminhada agora subindo bastante. Nessa subida pela encosta norte da Sierra de los Porrones tive de fazer mais algumas paradas longas porque o calor estava me tirando a energia. Às 15h53 atingi a crista da serra e fui à direita na bifurcação, subindo, pois a trilha da esquerda desce pela vertente sul da serra. Às 17h22 avistei uma grande formação rochosa à frente e uma nítida trilha subindo ao seu cume: era o Pico La Maliciosa, uma dura subida ainda a enfrentar. As árvores desaparecem.
      Alcancei o cume de La Maliciosa às 18h57 e havia mais duas ou três pessoas. Conversei com um rapaz de Madri que veio fazer um bate-e-volta desde a capital até esse pico e já ia retornar! La Maliciosa é o pico mais alto da Sierra de los Porrones, com 2219m, e dali se avistam: Bola del Mundo e Pico Peñalara ao norte; Cabeza de Hierro Mayor e Cabeza de Hierro Menor a nordeste; La Pedriza a leste; Manzanares El Real e o reservatório Embalse de Santillana a sudeste; Madri ao sul-sudeste; Navacerrada a sudoeste (não é Puerto de Navacerrada, que fica mais acima e não se vê dali); Peña Águila e Siete Picos a oeste.
      Retomei a caminhada às 19h18 em direção a Bola del Mundo e suas horríveis antenas parecendo três foguetes prestes a ser lançados. Continuei pela crista da serra por mais 520m no sentido noroeste e tomei a direita (norte) na bifurcação onde a esquerda desce a vertente sul em direção à cidade de Navacerrada. Desci por um caminho de pedras com bifurcações mantendo a direita e cruzei na parte mais baixa uma outra trilha que corria no sentido leste-oeste. Subi a encosta oposta por caminho largo e cheguei a Bola del Mundo, ou Alto de las Guarramillas, às 20h32. Aqui retorno ao cordão montanhoso Cuerda Larga já que esse pico é o mais ocidental dele, com altitude de 2254m. Mas aquelas antenas causam tanto incômodo que não parei, segui para oeste, agora por estradinha concretada (350m a leste de Bola del Mundo se situa o Ventisquero de la Condesa, local onde nasce o Rio Manzanares, mas não fui até lá para conferir se seria fácil coletar água abaixo do nevado). 
      Desci 850m pela estradinha e cheguei a um bar-restaurante que deve funcionar somente no inverno, quando a pista de esqui da face oeste da montanha entra em atividade. Ao lado do bar-restaurante fica a chegada do teleférico que parte de Puerto de Navacerrada, mas a inclinação e o terreno de pedras soltas dificultam a descida direta por ali. Tive de descer pela estradinha de concreto mesmo, com todas as suas curvas e zigue-zagues. Às 21h35 cruzei a cancela ao lado do ponto de partida do teleférico e com mais 5 minutos cheguei a Puerto de Navacerrada, cortada pela rodovia M-601. Altitude de 1862m. Procurei hospedagem no Albergue Peñalara, mas estava fechado. O único lugar aberto e funcionando era o Hotel Residência Navacerrada, porém a mulher fez uma cara de assustada quando me viu entrar de mochila cargueira nas costas e foi logo dizendo que o hotel estava lotado. Já era noite. A única saída era acampar. Procurei o início da trilha do dia seguinte, desviei para dentro da mata com lanterna e encontrei um lugar plano, espaçoso e muito discreto para montar a barraca a menos de 300m da rodovia. 
      Há trem e ônibus ligando Puerto de Navacerrada a Madri (veja nas informações adicionais). 

      Siete Picos
      5º DIA - 21/06/19 - de Puerto de Navacerrada a Cercedilla
      Duração: 6h05 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2117m no Pico Somontano, em Siete Picos
      Menor altitude: 1149m na ponte do Rio de la Venta, em Cercedilla
      Resumo: subida de Puerto de Navacerrada aos Siete Picos num desnível de 255m e descida a Cercedilla num desnível de 968m
      Desmontei acampamento e voltei à rodovia para ver se havia algum lugar aberto para tomar um café da manhã, mas continuava tudo fechado. Iniciei a caminhada do dia às 8h45 entrando na trilha sinalizada como "Sendero Arias" e "Estacion Ferrocarril" localizada entre o Hotel Residência Navacerrada e o estacionamento dos restaurantes/cafeterias mais acima. Após uma plataforma de teleférico à esquerda o caminho trifurca e fui para a direita. Cruzei uma cancela de ferro e subi à direita e depois esquerda na bifurcação. Cheguei a uma cerca de troncos finos que delimita uma pista de esqui pequena (talvez para iniciantes) e parei para tomar meu desjejum. Às 9h41 continuei subindo pela floresta de pinheiros e alcancei uma grande clareira com outro teleférico. À frente (oeste) já avisto toda a extensão dos Siete Picos. 
      Percorro no sentido sudoeste por 230m um caminho largo que vem do teleférico mas o abandono para tomar um outro um pouco mais estreito à esquerda que me leva à formação rochosa com a pequena estátua da Virgen de las Nieves. Dali se avistam o Pico Peñalara, Bola del Mundo, Puerto de Navacerrada e La Maliciosa. A trilha continua a partir dali e corre paralela ao caminho largo que abandonei. Às 10h48 chego a uma grande clareira gramada onde caberiam muitas barracas, ainda com um lindo mirante uns 100m depois (porém não há água). Retomo às 11h07 o caminho largo que havia abandonado e ele começa a se estreitar ao cruzar uma outra trilha - continuo em frente (noroeste) e tomo a esquerda na bifurcação 45m depois. Começo a subir em direção aos cumes de Siete Picos. Nos 2109m de altitude vou à esquerda numa bifurcação em T e 165m depois já estou no ponto mais alto, o pico conhecido como Somontano, de 2117m, às 11h44. Desnível de 255m desde Puerto de Navacerrada. Porém uma forte neblina havia tomado conta do lugar, mal me deixando ver a formação rochosa do pico, o mais oriental do conjunto.

      Piornos floridos
      Às 12h12 continuo pela trilha da crista, que se divide em várias, mas tento sempre me manter na mais alta. Passo por mais um dos cumes, ainda com muita neblina, e às 12h38 surge uma bifurcação em que se deve continuar à esquerda pois a direita desce a vertente norte da montanha. Na bifurcação seguinte vou para a esquerda e passo por mais um dos cumes. A neblina começa a se dissipar e o dia volta a ficar perfeito para fotos. Paro por 46 minutos para almoçar e curtir o visual. Antes de descer a encosta sul da montanha faço um desvio de uns 50m para alcançar mais um dos cumes às 14h37.
      A partir desse ponto inicio a descida e aos poucos reentro na mata de pinheiros. Na altitude de 1906m saio da trilha principal para subir (escalaminhar) o Pico de Majalasna (1935m), o mais ocidental dos cumes de Siete Picos e um tanto afastado dos outros que se encontram na crista. Do seu alto, às 15h36, avisto La Maliciosa e Peña Águila (as nuvens não me deixam ver mais que isso). Só retomo a caminhada às 16h33. Continuando a descida passo por duas fontes de água mas com muito pouca vazão. Essas fontes são a primeira água que encontro desde o Rio Manzanares, na manhã do dia anterior. Às 17h46 cruzei uma estrada de terra com diversas placas e seguindo 120m para oeste encontrei uma bica com mais água sob um abrigo de pedras (Refúgio del Aurrulaque). Parei para descansar e beber bastante água. Ao cruzar essa estrada de terra estou cruzando novamente a GR 10.
      A partir do abrigo tomei às 18h35 a Vereda Alta: desci no rumo noroeste, cruzei outra estrada de terra e na bifurcação abaixo fui à direita (à esquerda um X pintado numa árvore). Às 18h59 parei em mais uma fonte de água. Surgem trilhas vindo da direita e sigo por 115m um muro de pedras, mas ele continua à direita numa bifurcação em que vou para a esquerda. Às 19h41 chego a uma clareira com muitos caminhos para todos os lados. Fica até difícil descrever em detalhe o que fiz, para resumir tomei a direção sudoeste e alcancei o Caminho del Agua, uma trilha bem larga em que há um cano semi-enterrado. Às 20h13 vou à direita numa bifurcação e já começo a marcar algum lugar discreto para acampar em caso de necessidade, porém logo encontro um portão de ferro e depois algumas casas. Às 20h30 chego à periferia de Cercedilla. Primeiro cruzo uma rua e continuo na trilha em frente. Mais abaixo a trilha termina no asfalto da M-966, onde vou para a esquerda. Com mais 290m, às 20h47, estou na estação ferroviária de Cercedilla, onde tudo começou cinco dias atrás. 
      Ainda havia trens e ônibus para Madri mas eu não tinha reservado nenhum hostel lá e ia chegar muito tarde (o trem sairia 21h33 e deveria chegar a Madri às 22h37). Procurei hospedagem em Cercedilla mas só encontrei lugar caro. O jeito foi me meter na floresta de novo e encontrar um lugar afastado para montar a barraca. No dia seguinte peguei o trem das 8h30 e cheguei às 9h35 à estação de Chamartín, em Madri. Há opções de ônibus também (veja nas informações adicionais). 

      Siete Picos
      Informações adicionais:
      . trens na Espanha: www.renfe.com
      . ônibus 680 - Madri-Cercedilla-Madri: 
      www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__680___.aspx
      . ônibus 684 - Madri-Cercedilla-Madri: www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__684___.aspx?origen=2
      . ônibus 691 - Madri a Puerto de Navacerrada e Puerto de Cotos
      www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__691___.aspx
      . Refúgio em Puerto de Cotos: 32 euros o quarto coletivo com café da manhã e jantar, banheiro no corredor. Mais preços no site elrefugiodecotos.com.
      . roteiro adaptado a partir das informações do guia Lonely Planet Walking in Spain, 3ª edição, 2003
      Rafael Santiago
      junho/2019
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br


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