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Travessia da Serra Fina Full – 3 dias
Sabe aquela sensação de que “faltou algo”? Então... havíamos concluído uma grande travessia,
que intitulamos de Travessia da Serra Fina Full, acrescendo à travessia tradicional o cume de
todas as montanhas próximas. Subimos, de ataque, o Tartarugão, o Ruah Menor (ou Ruah Leste
– conforme relato de um montanhista que nos precedeu ali), os Camelos 1, 2, 3 e 4, o São Joao
Batista (ou do avião), o Cabeça de Touro...mas não ascendemos ao cume do Ruah Maior (ou
Ruah Norte – conforme o relato desse mesmo montanhista precursor). Ou seja, faltara algo. Na
incursão anterior, cogitamos entre o subir ou não aquela montanha pelo horário em que
começaríamos a ascensão, pois sendo inverno e passando pouco das 15h, seríamos obrigados a
descer a noite, com visibilidade quase zero pela neblina que ameaçava formar, por uma região
desconhecida, sem trilha e com a temperatura abaixo de 0C. A prudência prevaleceu e não
fomos. Terminamos a travessia, mas o não acumear do Ruah Maior nos ficou atravessado...
então, quando o Douglas propôs no grupo, que retornássemos à SF e repetíssemos o feito, dessa
vez, com o Ruah Maior, não lembramos do cansaço, da fome ou do frio... topamos na hora.
A questão agora não era “se”, mas “quando”. Temporada de montanha findando, os
compromissos profissionais de cada um conduziram para a única data viável para 2018 ainda:
aproveitar o feriado do Dia da Independência, 7/9, que cairia numa sexta. Sairíamos de SP assim
que possível, para iniciar a subida à noite e aproveitar o enregelante frescor noturno para
caminharmos mais leves, poupando peso e pernas. Só que isso nos traria outro desafio: o feriado
cairia na sexta, de forma que teríamos apenas 3 dias nas montanhas: sexta, sábado e domingo.
Daríamos conta?!? Procuramos nos lembrar da caminhada anterior, das sobras de tempo, das
dificuldades, do cansaço.... Acreditávamos que sim, mas sabíamos bem como subir montanha
no papel, na fala, difere da realidade... o somar dos infindáveis passos, o perseverar,
independente da falta de folego... balançávamos entre o tentar ou não, quando notamos que
seria Lua Nova. Se na travessia anterior a Lua Cheia tudo iluminava, ao ponto de trilharmos com
as lanternas apagadas nos trechos de crista... dessa vez teríamos o mar de estrelas por
testemunhas do feito. Foi o que bastou para nos decidirmos. Já éramos conhecedores das
incríveis fotos da via láctea a partir da PM, e sabíamos, também que as fotos não faziam jus a
real beleza que veríamos.
Ao grupo original (Douglas, Marinaldo, Rodrigo e Rogério) somaram-se alguns amigos que
acreditávamos darem conta da empreitada: Leonardo, Adilson, Zagaia. Compromissos familiares,
complicações de saúde prejudicaram a participação do Adilson e do Rodrigo. Sob recomendação
do Zagaia, passamos a contar com a Areli, que apesar de nunca ter feito trilha de montanha aqui,
tinha na bagagem larga experiência em ambientes frios e estava treinando para uma corrida de
aventura de 300 km. Não nego que a qualificação do grupo me intimidava... todos em excelente
forma física e eu apegado ao meu sedentarismo... ante os insistentes (e pertinentes) alertas do
Marinaldo quanto ao esforço físico que nos esperava, deixei minha habitual inércia e me
obriguei a duas semanas de academia, com frequência quase perfeita. A posteriori, posso dizer
que foi isso que evitou um constrangedor pedido de resgate, por total exaustão física. Nos
encontramos nas catracas do metro Barra Funda às 15h, demos cabo do primeiro desafio dessa
jornada, acomodando 5 cargueiras, uma dama e 4 marmanjos num (modelo do carro?) e
partimos para Passa Quatro. Na estrada, o Leo nos informou de que o conserto da Kombi ainda
se arrastava. Procuramos otimizar os tempos previstos e concluímos que iniciar a trilha após as
23h colocaria em risco o êxito do primeiro dia. Então, se o Léo não conseguisse estar em Passa
Quatro a tempo de partirmos para a Toca do Lobo até as 22h30, partiríamos sem ele; com a
possibilidade dele nos alcançar pelo Paiolinho e seguirmos juntos. Com o avançar das horas,

ficou claro que o Léo não poderia nos acompanhar, pelo menos nesse primeiro momento, de
forma que acordamos com a Patrícia (que faria nosso resgate) que iríamos direto para a casa
dela e partiríamos assim que possível.
Primeiro dia
A Patrícia nos deixou perto da Toca do Lobo, pouco antes das 23h e, rapidamente, nos
equipamos e nos colocamos a caminhar. Mochilas leves, a maioria com um litro de agua apenas,
em pouco tempo chegamos à Toca do Lobo onde fizemos a primeira foto, ajustamos as
cargueiras e iniciamos a travessia, pouco após as 23h. Subimos a passo as encostas que nos
levariam ao Cruzeiro e, ao pé do Quartzito fiz o primeiro reabastecimento de água, completando
meu inventário para 1 litro. Enquanto eu buscava água (e tirava minha primeira foto dessa
travessia, uma “flor de maio”, avistada ainda em botão na travessia da SF com meu filho, há
pouco mais de um mês, se mostrava agora perdendo o viço em consonância com o findar da
temporada). Os amigos aguardavam, lanchando e curtindo o visual na brisa gélida da crista e
assim que retornei, recomeçamos a ascensão. Em pouco tempo, caminhávamos pelo
encantador Passo dos Anjos, onde a SF revela a origem do seu nome...mesmo sob as luzes da
lanternas, não deixa de impressionar como a crista se estreita naquela parte...aproveitávamos
os trechos de ascensão mais suave para retomar o folego, já que nossa intenção era prosseguir
sem paradas até o alto do Capim Amarelo. Subíamos pouco ansiosos, confiantes do
planejamento e validando a estratégia de caminhar à noite e minimizar o peso nas cargueiras.
Encontramos um pedaço de bastão de caminhada e passamos a levá-lo conosco, certos que em
pouco tempo encontraríamos seu dono. De fato, não tardou, e num dos pontos de
acampamento dos falsos cumes do CA, encontramos dois colegas montanhistas acampados há
pouco, ainda com chocolate quente nas panelas... restituímos a parte perdida, conversamos um
pouco, tomamos uns goles de chocolate quente e retornamos a caminhada. Pouco depois das
2h alcançamos o cume do CA. Fizemos uma breve parada, substituímos o livro de cume, que já
não apresentava espaços em branco e após a devida preparação do livro, identificando o nome
do cume, sua localização, data, responsáveis pela guarda, etc, registramos a composição do
grupo, objetivo e horário de partida, descansamos alguns minutos, procurando não perturbar
muito aos montanhistas acampados ali e retomamos a caminhada, buscando assegurar a
descida do CA pela trilha correta, bem à esquerda. Sem grandes dificuldades, descemos o CA,
notando ao passar pelo Maracanã que havia pelo menos mais sete barracas armadas.... de fato,
o último feriado dessa temporada prometia que a SF estaria lotada de caminhantes... não nos
afetava, já que estaríamos quase que todo o tempo fora da trilha mais batida. Havia uma remota
possibilidade de termos algum contratempo com a lotação da serra, no acampamento do
primeiro dia, no Vale do Ruah. Para essa eventualidade, cogitávamos acampar aos pés do Ruah
Leste, o que exigiria atravessar o capim à noite. No Maracanã, nos abastecemos com o suficiente
para a caminhada até o Rio claro, na base da Pedra da Mina.

Flor na encosta do Quartzito Foto: Rogério Alexandre Cristais de gelo Melano: Foto: Rogério Alexandre
De forma geral, partimos com pelo menos dois litros, sabedores que, com o nascer do Sol, o
consumo de água aumentaria. Com poucas paradas, em breve estávamos começando a longa
ascensão do Melano, um dos desafios propostos quanto à regularidade da caminhada, já que
queríamos apreciar a alvorada em sua crista, de forma a permitir registrarmos o nascer do sol
com a lua minguante ainda visível no céu. Caminhávamos compenetrados, procurando
aproveitar os trechos planos para trocarmos ideias e retomarmos o folego. Talvez pela
adrenalina do desafio, a caminhada transcorreu rápida e alcançamos a crista do Melano perto
das 5h30, passando sobre diversas poças de agua congeladas nas encostas. Fizemos uma parada
para um rápido lanche e retomamos a caminhada, agora em passo mais tranquilo, apreciando o
dia que nascia.
Nascer do Sol e Lua Minguante visto na crista do Melano. Silhueta da PM contra o sol nascente. Fotos: Douglas Garcia
Tocamos em frente pelo sobe e desce da crista do Melano, ganhando altitude devagar, na
diferença entre as subidas e descidas infindáveis desse trecho. Aproveitávamos para apresentar
para a Areli, as montanhas que havíamos passado desde o início da caminhada, as montanhas
que subiríamos antes de acamparmos, nominá-las, fazer comentários e contar causos de
pernadas anteriores por aquelas plagas. Isso nos distraia, e, quase sem perceber, alcançamos a
base da cachoeira vermelha, às 8h.
Preparamos as mochilas de ataque com material para emergência, lanches e água, guardamos
as cargueiras nas moitas, atravessamos a cachoeira vermelha, buscando a trilha que começa
bem próxima da sua queda. Fomos ganhando altitude aos poucos, pelo ombro do Tartaruguinha,
quase que sem nenhum vara-mato e em pouco tempo estávamos aos pés do Tartarugão.
Seguimos a mesma técnica da vez anterior, avançando meio que em paralelo, para minimizar a
possibilidade de um acidente com as pedras soltas, que são abundantes nessa face da montanha

Com as inevitáveis paradas para descansar, levamos cerca de meia hora para alcançar o cume
da primeira montanha fora-da-rota da travessia planejada. Fizemos uma pausa, contemplando
a paisagem, retomando o folego e lanchado. Verificamos que haviam poucos registros no livro
de cume, uma incursão de um colega de montanha, desbravador de ambos os Ruah Norte e
Leste. Registramos os nomes do grupo, algumas impressões da caminhada e das nossas
intenções, horário de partida e destino, acrescemos dois saches de mel no kit perrengue deixado
antes, guardamos tudo no tubo de cume e partimos para explorar parte dos ombros do
Tartarugão, avaliando possíveis alternativas para uma travessia a partir da face sul da PM,
subindo a partir do Vale do Paraíba. Essa avaliação acabou por consumir um tempo precioso
pois descemos o Tartarugão em direção a PM e na face sudeste bem à direita de quem está de
frente para a PM encontramos um ponto de agua corrente, onde nos hidratamos. Por outro lado,
essa investigação nos causou considerável transtorno para retornar, pois os trechos de lajes na
base são intercalados com trechos de vegetação o que exigia varar o mato, com considerável
dispêndio de energia e tempo. Procurando manter a altitude, fomos costeando as encostas do
Tartarugão e do Tartaruguinha, buscando a direção da Cachoeira Vermelha, onde chegamos às
12h.
Pedra da Mina vistas do Tartarugão. Foto: Marinaldo Bruno Contemplando o Vale do Rio Claro. Foto: Douglas Garcia
Retomamos as mochilas e seguimos para a PM, passando pelo Rio Claro, onde nos hidratamos
e coletamos água apenas para a subida da pedra, uma vez que acampando no Ruah, teríamos
fartura de água. Apreciando o visual, fomos ganhando altitude e, perto das 13h estávamos a
2978m, no cume da PM. Encontramos o Rafael preparando o acampamento para um grupo que
o Cainã, ambos guias na SF e amigos de outras caminhadas, que fizeram a gentileza de cuidar
das nossas cargueiras enquanto descíamos em direção ao acampamento da base da PM, no
sentido do Paiolinho, por onde atacaríamos o Ruah Norte. Sabe aquela história de barraca
voando? Então, por pouco não conseguem alcançar uma delas a tempo, rs... Do acampamento
base, fizemos uso do tradicional trepa-pedra para descermos a encosta da área de
acampamento na base da PM em direção ao Ruah, na sua extremidade NO.
Atravessando o vale pelas lajes de pedra, cruzamos com um pequeno curso de água, avaliamos
a direção pela qual faríamos o vara-mato da subida e tocamos para cima, com o Douglas abrindo
a passagem e os demais procurando facilitar a volta, quase consolidando uma trilha... mas a
verdade é que a passagem de 5 pessoas por ali, sem outros que a repitam, talvez não seja
perceptível na próxima temporada. Sob sucessivos alertas de “caminho errado” e “voltem” dos
companheiros de montanha que chegavam na PM via Paiolinho, com pouco mais de 40 minutos
de vara mato, para total deleite da Areli, alcançamos o cume.

Sob congratulações mútuas, entre respirações ofegantes, apreciamos por uns minutos o visual
que se descortinava... ângulos incomuns da travessia, detalhes de ambas as faces da PM e das
montanhas ao redor enchiam nossos olhos. O sentimento de respeito, ante a enormidade do
que propúnhamos fazer, grassava em nosso peito, dividindo espaço com a sensação de
superação e ineditismo. Verificamos no livro de cume, colocado pelo Douglas pouco mais de um
mês antes, a ausência de outros registros, acrescemos ao “kit perrengue” um cobertor de
emergência e dois saches de mel. Tomamos o último lanche do dia, descansamos um pouco e
lembrando que ainda precisaríamos de duas horas para estarmos com o acampamento montado,
iniciamos a descida do Ruah Norte procurando refazer o caminho trilhado na subida. Pegamos
um pouco de água no pequeno curso que escorre na passagem e voltamos sob os nossos passos
até a parede quase vertical do acampamento base.
Usando a já consolidada estratégia de ataque em rotas paralelas fomos tocando para cima até
atingir a área de acampamento na base da PM, onde nos reagrupamos antes de subir a PM, na
rota tradicional de quem chega pelo Paiolinho.
Havíamos cogitado descer a PM com as cargueiras, para depois cortar pela trilha que ouvimos
existir na encosta da PM, ligando a área do acampamento base com o Ruah, mas abandonamos
essa ideia pela segura, ainda que mais cansativa, opção de descer e subir a PM de ataque, pelo
caminho já conhecido. Subimos em passos largos, recuperamos as mochilas e seguimos para o
vale do Ruah, onde acamparíamos. Iniciamos a segunda descida da PM com o sol buscando o
horizonte, e pouco antes do anoitecer, estávamos com as barracas prontas para a noite. Como
cuidados adicionais, ante a afamada geladeira que o Ruah se transforma à noite, colhemos
porções de palha para colocarmos sob as barracas, dando preferência para as folhas mais secas,
que por conterem menos água são mais eficazes como isolamento térmico. Cedi meu cobertor
de emergência ao Marinaldo, que, apesar da minha insistência não aceitou ficar com o saco de
bivaque de emergência. Fizemos a primeira refeição quente, conforme o cardápio que
escolhemos e que nos foi fornecido, abaixo do preço de custo, pela Livre Adventure Tour.
Agradecemos muito pelo apoio, todas as refeições juntas não somavam 2 kg, o que contribui
significativamente na redução de peso das cargueiras. Optei pelo espaguete com frango e
legumes, porção individual, e que pelas menos de 85g de peso que faziam na mochila constituiu
uma excelente refeição, após hidratado com os 240g de água quente recomendados. O processo
de liofilização, preserva muito da textura dos alimentos, assim como do sabor e do seu valor
nutricional. É sempre recomendável, para quem inicia no uso desse tipo de alimento, planejar
com alguma folga, para verificar como se adapta aos tamanhos das porções, principalmente
naquelas que servem duas porções. Cansados pela pernada do dia, alteramos os planos de
vermos o sol nascer no cume do Ruah Leste, optando por estendermos um pouco o repouso e
nos recuperarmos para o segundo dia, que prometia ser tão exaustivo quanto o que se findava.
A temperatura caiu rapidamente, meu relógio marcando 8C pouco mais de uma hora após o pôr
do sol, e todos se recolheram às barracas, não saindo para nada, após o jantar. Ante a previsão
de 2C para a PM, esperava dormir bem tranquilo com o que levava de equipamento: saco de
dormir para -4C, meias de trekking, segunda pele leve para as pernas e duas mais fortes para o
tronco, luvas e gorro. Por praticidade e cansaço adormeci com ambas as segundas-peles, luvas
e gorro... imaginava que acabaria por acordar de madrugada com calor, mas aí já teria
recuperado um pouco das forças... e estava tão agradável daquele jeito, usando quase toda
roupa que tinha disponível... dois isolantes, um de espuma e outro inflável acresciam conforto
e luxo ao necessário. A camada de palha sob a barraca fazia as vezes de colchão e mesmo fora
dos isolantes, o contato com o piso da barraca era agradável.

Segundo dia
Realmente dormi muito bem, acordando apenas às 5:00 como de hábito, quando na montanha
ou muito ansioso com algo. As surpresas começaram ao constatar a condensação congelada
dentro da barraca, por sobre minha cabeça... pequenas estalactites de gelo pendiam do teto da
barraca... curioso, fui verificar a temperatura em meu relógio, que apontava -6C. Isso dentro da
barraca... lá fora estaria ainda mais frio! Fiquei no saco de dormir, curtindo o ineditismo do
Ruah... Pouco depois, ouvia-se o alarido normal de quando se desmonta acampamento, ainda
às escuras e um pessoal acampado próximo de nos informou que o termômetro levado por eles
havia marcado -9,6C às 23h e outro pessoal falar em -11,7C. Meus dedos do pé doíam de frio e,
vencendo a preguiça com algum receio, saí do saco de dormir para verificar o estado em que
eles se encontravam. As pontas dos dedos estavam muito avermelhadas, e temi que estivessem
queimados de frio... fiz uma massagem vigorosa em ambos os pês e mesmo a cor não
normalizando, senti-me um pouco melhor. Como não sairíamos em seguida e não curto ficar à
toa na cama, vesti calca, calcei botas, coloquei o saco de dormir dentro de um estanque e sai da
barraca para caminhar e ver o sol terminar de nascer. A esperança de que, caminhando os dedos
parassem de gritar de frio não se concretizou, mas a beleza do sol nascendo entre o Ruah Leste
e a PM compensava o desconforto.
Pouco depois, o sol incidia sobre a encosta da PM e, após despir a segunda pele das pernas,
peguei a mochila de ataque, preparada na véspera e avisei aos amigos que iria esperá-los
tomando um pouco de sol. Subi um pouco e fiquei admirando o vale do Ruah, branco pelo gelo
que cobria o capim ainda que as moitas superassem a altura de um homem. No ano anterior,
em minha primeira travessia ele estava ainda mais branco, com o gelo no capim subindo as
encostas. Talvez seja isso que encante tanto na natureza, nas montanhas... tudo está lá, nada
mudou... mesmo assim, a experiência sempre é inédita, a vista sempre é outra. A viagem não é
apenas pelo exterior, mas trilha-se para dentro também... para a alma.
Agrupamos e partimos, às 6h30 para o ataque ao Ruah Leste, que com 2640m de altitude faz o
limite leste do Vale do Ruah e fica à direita de quem, na travessia caminha em busca do Cupim
de Boi. As mochilas de ataque continham além dos kits de perrengue, de primeiros socorros,
água e lanches, os materiais que usaríamos nos livros de cume que iríamos passar antes de
retornar ao acampamento: o próprio Ruah Leste, os Camelos 1, 2, 3 e 4, o do Avião e o São João
Batista. Alcançamos o primeiro cume do dia às 8h10, fizemos uma parada para café da manhã
com as frutas liofilizadas, chocolates, queijos e guloseimas trazidas, curtindo os diferentes
ângulos das montanhas da Serra Fina. Verificamos não haver registros no livro de cume desde
nossa incursão anterior, apontando que, mesmo tão próximo a concorridíssima trilha da
travessia, ainda há montanhas tranquilas, bastando ter a disposição de ousar um pouco mais e
fugir do convencional. Acrescemos alguns itens (mel e cobertor de emergência) ao tubo de cume,
considerando que possam ser de grande valia para algum colega num eventual perrengue
explorando os arredores da trilha tradicional.
Pouco depois, 8h20 iniciamos a descida em direção ao Ruah, onde um vara-mato nos aguardava,
mirando alguma laje que abreviasse o sofrimento. Pouco antes das 9h, passamos pela lata de
sardinha deixada por algum excursionista pioneiro, dessa vez não confabulamos entre leva-la
ou não... o estado de corrosão apontava algo muito antigo e estando colocada sobre uma parte
mais elevada da laje, ela claramente tinha a intenção de marcar um ponto de passagem, e na
caminhada anterior já havíamos deliberado mantê-la ali, pelo menos enquanto seus restos
fossem reconhecíveis. Curiosos com a história que havia ali, condensada naquelas poucas
gramas de folha de flandres, subimos buscando o colo entre o Pico do Avião e o primeiro dos

camelos. A partir dali, viramos em direção norte e tocamos para cima, chegando aos 2550m de
altitude do cume em pouco mais de 30 minutos de caminhada.
Mantendo a mesma direção, descemos em direção ao colo entre os Camelos 1 e 2, atravessamos
com cautela pela maior exposição do trecho e tocamos para o cume do Camelo 2, quase tão alto
quanto o anterior. A diferença de altitude entre os dois não ultrapassa 20 m. Nesse cume,
havíamos deixado, na incursão anterior um tubo de cume, cujo o único registro era o da nossa
passagem, na travessia full anterior.
Da esquerda para a direita: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro, vistos a partir do Camelos 2. Foto: Douglas Garcia
Ali registramos nossa passagem, acrescemos o mel ao material de emergência deixado
anteriormente, retomamos um pouco o folego e partimos para o Camelos 3, alcançando às
10h15 os 2480m de altitude do seu cume. Para o Camelos 4, o caminho começa pela lateral
direita descendo a encosta íngreme e seguindo o vara-mato desbravado na passagem anterior,
à esquerda. Apesar de já haver palmilhado a passagem, ainda havia o receio de buracos e fendas
e, paradoxalmente, exatamente no momento em que eu alertava a Areli e o Zagaia da
possibilidade de haver buracos escondidos na vegetação e da necessidade de cautela, encontrei
um deles e sumi, diante dos olhos dos dois, quase como em um passe de mágica... enquanto
caía, esperava que a vegetação me freasse a queda, como isso não aconteceu, tratei de agarrar
o que tinha à mão, e, às custas de dois cortes maiores nas luvas (de couro, grossas) que não se
aprofundaram muito nas mãos, freei minha descida e me vi de ponta cabeça a uns 4 m abaixo
dos pês do pessoal. Gritei informando estar tudo bem, e procurei me firmar antes de escalar a
encosta, usando a vegetação como apoio. Nesse momento meu receio era que os tufos de capim
e os poucos bambus que me via aqui e ali, não suportassem mais peso que apenas o meu e
cedessem, caso alguém buscasse me ajudar ou caísse também. Refeitos do choque do susto,
retomamos a caminhada com mais cuidado, uma vez que os trechos seguintes são de exposição

bem maior e uma errada como a de poucos minutos antes, quase certo de que teria
consequências graves. Passamos pelas partes de exposição com bastante zelo, procurando não
dedicar mais que um olhar de relance à paisagem por mais espetacular que fosse. Da mesma
forma que na vez anterior subimos pela direita de forma a evitar ter que dar um “salto de fé”
para cima.
Com maior cautela, alcançamos o totem que erguemos na vez anterior, às 11h20, fizemos uma
parada maior, registramos a passagem pelo livro de cume, aproveitando para revestir duas
pedras maiores com parte de um cobertor de emergência danificado. Acrescentamos os saches
de mel ao material de emergência, descansamos um bocado e partimos explorar os arredores...
a crista dos camelos tem um quinto cume, cerca de 30 metros inferior em altitude ao Camelo 4.
Aproveitamos bem o tempo observando o PNI, o Cupim de Boi, o Três Estados e curtindo a pausa
maior, fizemos um lanche mais substancial apreciando o que havíamos caminhado e o que ainda
o faríamos antes de dar o dia por encerrado.
CT visto do 5 Camelo. Foto: Marinaldo Bruno Retornando dos Camelos “Toca para cima”. Foto: Douglas
Discutimos as alternativas para acampamento entre a base do CT e o bosque na descida do
Cupim de Boi. A expectava de descer a encosta do Cupim, à noite e com cargueiras era um pouco
apreensiva e concordamos, que se, encontrássemos um lugar, por pequeno e ruim que fosse,
acamparíamos no bambuzal e partiríamos de madrugada para ver o sol nascer instalados no alto
do CT. Aproveitamos o horário pouco avançado e esticamos até o próximo cume da crista, que
seria o “Camelos 5” e curtimos um pouco o visual da SF a partir dali, com vistas inéditas para
nós. Iniciamos o retorno com o sol brilhando forte, o que consumia nossas reservas de água, e
eu aproveitei todos os filetes de água que encontramos para me hidratar, por fraco que fosse o
correr de água, em quase todos consegui uns goles. Já na subida do Morro do Avião,
encontramos uma poça maior, onde eu, a Areli e o Zagaia nos fartamos de beber. Continuamos
a subir, buscando o cume do pico do Avião, alcançado pouco antes das 14h. Estávamos dentro
do planejado, então fomos até os destroços do avião monomotor na encosta antes de
retornamos ao acampamento e arrumarmos as cargueiras para o restante da pernada do dia.
Seria o trecho que faríamos com o inventário de água totalmente ocupado, pois não teríamos
agua até o final da tarde do dia seguinte.
Com as cargueiras arrumadas, partimos para nos abastecer de água na cachoeira que o Rio
Verde faz, na parte em que o vale se estreita entre o Ruah Norte e Ruah Leste. Procuramos nos
hidratar bastante considerando a previsão de mais um dia sem nuvens, sem disponibilidade de
termos acesso a outro ponto de água antes das 17h, já na saída da trilha. Ficamos quase meia
hora na pequena queda, alguns de nós aproveitando para tomar um rápido banho nas frescas

águas. Eu, levando em conta que o sol já ameaçava deixar o vale, optei por postergar mais uma
vez meu banho naquelas águas. Nesse ponto, nos abastecemos de toda água possível nas
mochilas e no corpo, buscando a melhor condição para a pernada final. Caprichamos nos ajustes
das cargueiras, que agora fariam valer sua capacidade de transferir a maior parte do esforço
para os quadris. Com 4l de água, minha mochila pesava pouco mais de 14kg, e, com os benefícios
da observação à posteriori, devo dizer que 4l eram “pouco”. Imaginava terminar o último dia
com água contada, carregando o mínimo de peso e administrando o consumo. Houve quem
pegasse 6l e nenhum de nós imaginava esbanjar o precioso líquido.
Com os últimos raios de sol se perdendo atrás da PM, deixamos o Ruah para a derradeira
caminhada do dia, com destino ao bosque de bambus à direita do Cupim de Boi. Com as mochilas
em seu peso máximo dessa travessia, caminhávamos de forma tranquila, procurando preservar
o fôlego e as forças para o dia seguinte. Pouco antes das 21h estávamos no bosque, com as
barracas montadas, nos preparando para dormir algumas horas, já que o planejado era
partirmos antes das 4h para acompanharmos o nascer do sol a partir do cume do CT.
Tranquilizamos o pessoal de outro grupo que já estava ali, e que havia se dividido ao longo do
dia. Parte dos montanhistas desse grupo tinha chegado ao ponto em que acampamos na véspera,
no Ruah, aos pés da PM e ficara no aguardo de alguns retardatários. Estimamos que eles
tardariam no máximo duas horas, porém, com o cansaço e a progressão à noite pouco
confortável, eles optaram por armar acampamento antes do Cupim, numa área de
acampamento alternativa. A expectativa de um visual inédito nos inebriava, e com o cansaço do
segundo dia apoiando, rapidamente adormecemos. Decidi não cozinhar e poupar água para o
dia seguinte, decisão que se mostraria bastante oportuna. Apesar de não estar com fome, já que
passara o dia com diversos petiscos, me obriguei a comer pelo menos uma barrinha de cereais;
ou melhor, tentei me obrigar... o sono e o cansaço venceram e adormeci com a barrinha na
mão... rs... a noite foi muito agradável e dormi direto, sem interrupções, depois que desisti de
utilizar o isolante inflável... o saco de dormir teimava em escorregar de sobre ele, mesmo ante
a suave inclinação em que minha barraca fora montada. Felizmente, era uma questão de luxo,
de forma que apenas coloquei o isolante inflável de lado e adormeci sobre o bom e velho
isolante “casca de ovo”.
Terceiro dia
Confirmando a fama de ser um dos melhores lugares para pernoite na travessia, a temperatura
amena no bosque e o abrigado do vento, possibilitaram uma noite de sono espetacular. Acordei
3h30, revisei a arrumação da mochila de ataque feita na véspera e sai da barraca para esticar as
pernas enquanto os amigos faziam os últimos preparativos. Por mais que procurasse, não
consegui encontrar o estojo com os óculos, e como não queria colocar a lente de contato ainda,
para dar um período maior de descanso para as pupilas, coloquei o estojo de lentes na mochila
de ataque, junto com soro e um pequeno espelho de sinalização, revisei a mochila, verificando
se os itens críticos estavam lá e me preparei para iniciar a caminhada. Partimos no horário
previsto, subindo rapidamente o Cupim e virando à esquerda, para alcançar seu cume e voltar
a descê-lo, agora agarrando nas pedras e na vegetação. A descida naquele trecho é bastante
íngreme, e após alguns minutos tensos, alcançamos a grande rocha que serve de totem natural
para os que atravessam o colo entre as duas montanhas. Não deixamos de notar o quanto o
caminho estava batido, pela passagem de sucessivos montanhistas. A montanha do começo do
ano, nesse aspecto diferia demais daquela que alcançávamos de forma tão desimpedida. Na
minha primeira incursão naquela montanha, ainda no início da temporada de montanhas de
2018, foi necessário dispender um tempo considerável para avaliar por onde passaríamos equais pontos de referência teríamos ao estar no colo e depois varando o mato que apresentava,
apenas aqui e ali, marcas de já ter sido desbravado anteriormente. Eu caminhava em passo mais
lento que os demais, já que a minha visão era bastante limitada. Quando o Zagaia comentou ter
visto água próximo à trilha, lembrei-me de que, no vara-mato do começo do ano, eu havia visto
uma pequena lagoa, à esquerda da trilha.
Com a trilha mais aberta, avançamos mais rápido do que havíamos planejado, e seguindo a velha
estratégia de ataques paralelos, visando minimizar o risco de uma pedrada amiga, alcançamos
o cume 6h30, a tempo de ver o nascer do sol na direção do Agulhas Negras. Fizemos uma pausa
para um lanche à guisa de café da manhã. Aproveitei a parada mais longa para colocar, sem
pressa, a lente de contato... com 5,25º de miopia, garanto que os contornos das montanhas
mudam sensivelmente. Um arrepio me passou pela espinha, lembrando da descida do Cupim,
tateando cada passo no que o colega da frente fazia, quase que às cegas. Curtimos bastante o
cume, exploramos rapidamente duas de suas cristas, passando pelos destroços do bimotor e
instalamos um novo tubo de cume num pico mais afastado à 2580m de altitude, após os
destroços do avião. Junto com esse livro de cume, colocamos um kit perrengue minimalista, haja
vista que ali não se pode contar com a chegada providencial de outro montanhista para lhe
“safar a onça”.
Nascer do sol a partir do Cabeça de Touro Sombra do CT na Pedra da Mina Fotos: Marinaldo Bruno
Após estudar brevemente com o Marinaldo, a crista sudeste do CT, eu e o Douglas encontramos
com o Zagaia e Areli que retornavam para o cume vindo da parte onde estão os destroços do
avião. Combinamos de iniciar a descida do CT no mais tardar às 8h e nos apressamos com a
instalação do tubo complementar, buscando iniciar a descida com o restante do grupo ou pouco
atrás. Com o cansaço da subida, parte do grupo iniciou a descida pouco antes de nós, porém
como desciam mais devagar nos aproximamos deles rapidamente. Novamente, utilizamos a
estratégia de descer em linhas paralelas, cuidando para que alguma rocha eventualmente
deslocada não atingisse ninguém abaixo. Com isso, em pouco tempo estávamos à margem do
colo entre o Cupim de Boi e o Cabeça de Touro. Marinaldo, Areli e Zagaia, já estavam no colo,
buscando a lagoa vista a partir da trilha de ida. A questão é que não encontraram o caminho da
ida e estavam varando mato, na busca das referências: peladona e peladinha.
Confiando na impressão e no que lembrava da ida, esquecendo que a fizera quase que às cegas,
busquei a trilha que havíamos passado pouco antes com a intenção de coletar um pouco de
água na lagoa que existe ali. Com a informação de que o pessoal que havia descido antes não
estava voltando por ela, supus que a trilha estaria mais para a esquerda e fui no vara-mato
buscando interceptar a trilha. Acontece que, por causa da pouca visão na ida ou não, a trilha
estava à minha direita. Quase que certamente a trilha estava ali, entre a minha posição e a

posição dos 3 (Marinaldo, Areli e Zagaia). Como segui à direita, conforme varava o mato, me
afastava cada vez mais da trilha correta e o vara-mato ficava cada vez pior. Sem perceber eu
descia, por entre as moitas de capim que, superavam os três metros de altura. Em pouco tempo,
do chão eu não conseguia mais nenhuma referência visual, e apesar de estar com GPS ainda
queria fazer a navegação visual. Para conseguir ver por sobre o capim e me orientar, escolhi
duas moitas próximas e tratei de “escalar” elas até ter um panorama do entorno.
Do alto das moitas, tudo que eu via era capim, o CT e o Cupim, de forma que ajustei o rumo para
a encosta do Cupim, pois sabia que costeando a base havia grandes lajes de pedra que fariam o
avançar menos custoso. Gritei “oi” buscando que a resposta indicasse a posição dos outros e
não logrei escutar nenhuma resposta... apesar de saber que estavam lá, foi muito inquietante...
Procurei avançar por cima das moitas, e por certo tempo se desenhou como solução ... Posso
dizer que “nadei” no capim, ali... pois apesar de todo o esforço parecia que eu não avançava
“nada”.... encontrei uma rocha que se destacava no mar de capim e tentei galgá-la num pulo,
mas o capim sobre o qual eu me equilibrava cedeu quando dei impulso, me fazendo errar o pulo
e acertar a borda da pedra com a canela esquerda... a dor excruciante me fez crer que havia me
machucado, mas naquele momento, eu só queria saber de sair dali... dei a volta na pedra, por
sob o capim e encontrei um lado que me permitiu galgá-la com êxito. De sobre ela, gritei
novamente o “oi” e ouvi a resposta do Douglas perguntando onde eu estava, levantei os bastões
e escutei um “estou vendo” muito alvissareiro. Pedi que levantasse as mãos, já que ele não
estava com bastões e vi um movimento no capim ... acertamos de irmos um em direção ao outro
para depois retornamos pelo caminho que ele abria em minha direção...ainda que o vara-mato
ali não fosse tão ruim quanto o que eu havia passado pouco antes, o avanço era muito moroso.
Para efeito de comparação, no caminho que percorri através do capim consumi 32 minutos
enquanto na ida, atravessamos o mesmo colo em 8 minutos.
Estar na trilha, só com o tradicional e cansativo “toca pra cima” da íngreme subida do Cupim de
Boi, foi um grande alivio, rs... Com calma e fôlego, parando algumas vezes para que o Douglas
apreciasse as Amarilis que cresciam em um jardim escondido,, numa quantidade que ainda não
havíamos visto pela SF. Numa das pausas para recuperar o folego, ele comentou que elas seriam
o tema provável de seu trabalho de conclusão de curso... identificar habitat, mecanismos de
dispersão, a exigência do frio intenso para quebrar a dormência da gema, etc. Achei muito legal,
e continuamos a debater o que poderia ser estudado, eu sempre procurando que fosse algo de
cunho prático, talvez alguma aplicação fitoterápica. Chegamos ao acampamento no bosque às
10h e rapidamente começamos a arrumar nossas cargueiras para a última pernada do dia. Uma
vez que eu, para poupar água e por falta de apetite, não utilizara minha segunda refeição
liofilizada, a cedi para o Zagaia e para Areli. Partimos para a última pernada da travessia, às 11h,
com o sol rachando tudo e a todos.
Alcançamos o cume do Três Estados pouco antes das 12h30, ficamos cerca de 10 minutos
recuperando o folego e descansando na deliciosa sombra dos arbustos que insistem em
sobreviver ali, apesar de todos os maus tratos que montanhistas menos afeitos à política de
minimizar o impacto na natureza lhes impõem. Aproveitei para fazer uma cata dos lixos
escondidos em algumas moitas de capim, à exemplo do que encontrara quando ali estive,
atravessando a SF com meu filho, pouco mais de um mês antes. Sem muito procurar, acresci à
minha bagagem, uma lata de sardinha, uma embalagem de macarrão instantâneo e outras duas
de barrinha de cereais. Antes de partir, registramos a passagem no livro de cume, batemos um
pouco de papo com um colega de montanha que chegara pouco depois e que iria esperar o resto
do grupo em que estava.

O sol não dava trégua e como a descida do Três Estados é toda à descoberto, desci procurando
poupar a agua, respondendo com monossílabos e procurando manter a respiração controlada.
Levamos pouco mais de uma hora para atingir o cume do Bandeirante.... ainda que
progredíssemos bem, o sol abrasador fazia parecer que levávamos várias horas ao invés de
minutos entre cada cume. No meu caso, a sede era uma presença constante, dominada com
curtos goles de água a cada parada para recuperar o folego ou apreciar a paisagem.
No Alto dos Ivos, fizemos nova parada e contatamos a Patrícia para programar nosso resgate.
Consideramos que levaríamos cerca de 4 horas, a partir dali, para alcançarmos a estrada,
colocamos uma margem de segurança de cerca de meia hora, de forma a permitir que
andássemos sem pressa e agendamos o resgate para as 19h.
Nesse momento eu tinha pouco mais de 1l de água. As poucas nuvens que surgiam no horizonte
não bastavam para nos proteger do sol. Decidi que consumiria toda (ou quase) toda a minha
agua no trecho mais exposto ao sol, deixando uma eventual sede para o trecho de trilha que
percorre a floresta. Dessa forma, considerei levar três horas até o próximo ponto de água,
imponto como meta, tomar 300 ml por hora, 5ml por minuto ou 75 ml a cada 15 minutos. Como
resultado, o tempo não passava, mas a sede ficou bem administrada, permitindo chegar
próximo do ponto de água com cerca de 300 ml que, já sob o abrigo das árvores, tomei em
generosos goles.
Eu e o Marinaldo seguíamos um pouco à frente, chegando no ponto de água com alguma
vantagem em relação aos amigos e, após esperar o grupo que nos precedia se reabastecer,
preparamos uma limonada que caiu perfeita: doce e gelada.
Dali, segui em frente com a Areli, enquanto os outros procuravam se recuperar e matar a sede
com a escassa vazão de água que se apresentava. Fomos perdendo altitude de forma lenta e
contínua pela estradinha até o Sitio do Pierre e depois até a estrada, onde chegamos 18h30.
Aproveitamos o embalo e subimos um pouco pela estada para tomar sorvete caseiro.
Cada um escolheu a parte do gramado que mais lhe agradava e procurou relaxar enquanto
esperávamos o resgate, rememorando a caminhada, as paisagens, petiscando o delicioso
biscoito de polvilho, avaliando os estragos nos pés e as dores nas pernas.
A Travessia da Serra Fina Full, foi a concretização de um sonho antigo... inserir livros e caixas de
cumes em alguns dos principais cumes no entorno da PM.... onde, após várias tentativas,
mapeando e explorando, avançando a partir dos relatos dos montanhistas percursores,
conseguimos realizar. Nesse processo cumulativo de aprendizado e desenvolvimento,
percebemos o quanto alguns trechos demandam maior cuidado, até por estarem longe de tudo
e de todos, sem sinal de celular ou a passagem ocasional de outro montanhista por diversos dias.
Na esperança de apoiar algum irmão de montanha que se veja numa fria nessas partes da SF,
tomamos a iniciativa de acrescer aos livros de cume, um material básico para “safar a onça”. Se
você que lê essas linhas, precisar utilizar esse material, pedimos que nos avise para que
possamos planejar a reposição. Claro que, pelas dificuldades logísticas, consideramos o uso “kits
perrengue” na necessidade, não para conforto. Cabe a cada montanhista, novato ou experiente,
preservar e cuidar da Mantiqueira, Amantikir para os índios, nascente de inúmeros rios que
suportam a vida nas cidades, nas vilas e nas fazendas ao seu redor e ainda mais, a muitos
quilômetros de distância. Com certeza, a Serra da Mantiqueira, em sua imponência, é um dos
fatores determinantes para o clima que experimentamos no Sudeste.

Se você que lê essas linhas, já for montanhista experiente, vá preparado, pois em alguns dos
picos fora da rota tradicional, você poderá entrar numa grande “fria” se não tomar as devidas
cautelas. Esteja sempre com alguém experiente também, evite se aventurar solo ou considere
na preparação eventuais imprevistos. Não descuide do “e se”... há trechos em que não são
necessários três erros para um acidente mais grave. Como registrei acima, fizemos parte da
caminhada à noite, mas ainda que estivéssemos voltando sobre nossos passos em vários locais,
evitamos os trechos menos frequentados à noite, por perder algumas paisagens e pelo risco de
algumas passagens.
Enquanto escrevo essas linhas, relatando a travessia da SF Full em 3 dias, comentam comigo que
há montanhistas que pretendem fazê-la em 2 dias... me perguntam o que acho, e depois de
refletir um pouco me vem a resposta: amigo, a montanha não é minha nem sua, ela é de todos
que a amam e cuidam, seja do sitiante que planta ao pé da serra, ou do turista "modinha" que
posta no Instagram, ela é uma obra de Deus seja você materialista ou espiritualista. Você que lê
essas toscas e mal traçadas linhas, saiba: se estiver na montanha e precisar, um bom
montanhista vai ajudá-lo no que puder, apenas por estar lá e poder. Vejo
isso naqueles irmãos de montanha, que buscam ajudar e orientar
desconhecidos, nos guias que, pesados, sobem rindo aquelas encostas
que tantos outros se arrastam chorando... e ainda encontram forças para
apoiar as equipes de resgate daqueles menos afortunados, seja por que
motivo for e independente de sua forma de pensar ou ver a vida... Forte
abraço! Nos vemos por essas trilhas desse mundão de Deus!

 

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    • Por divanei
      VALE DO GUAXINDUBA
       
                Naquela madruga choveu. Choveu como há tempos não chovia e eu estava feliz por estar numa cama quentinha, abrigado em baixo das cobertas e ficava pensando quem seria trouxa de sair para fazer trilha com um tempo daqueles, mas não demorou muito para a realidade ser jogada na minha cara.
                - Diva, acorda, já passa das 4 da manhã, hora de partirmos.
                Levantei-me imediatamente. Pulei para dentro da minha calça e da minha bota e me pus pronto para a aventura, mesmo sabendo que com aquele tempo horrível, teria sido melhor ter continuado dormindo. Mas bastou um gole de café, para que minha alma voltasse novamente para o corpo e eu me visse de novo eufórico para a missão da qual eu fui tirado do interior Paulista e levado para o litoral Norte.
                Quando o plano foi me apresentado pelo Thiaguinho, quase tomei um susto. A ideia era subir um rio em Caraguatatuba atrás de uma imagem de satélite que possivelmente pudesse nos levar até uma cachoeira de tamanho considerável. Analisei meio por cima e realmente parecia algo muito interessante, ainda mais que aquele rio havia me passado batido nas minhas explorações cartográficas, verdade mesmo que nunca havia dado muita bola para aquela região, com exceção do Rio Juqueriquerê, que eu havia descido em 2015. Mas pelo sim pelo não, fui procurar para ver se não havia uma trilha que pudesse nos levar até ela, afinal de contas, não estava tão longe da civilização assim.
                Vasculhei o quanto deu e tudo que encontrei foram uma meia dúzia de traclogs( caminhos marcados com GPS) que atingia no máximo 250 a 270 metros de altitude e não passava disso . Minha conclusão seria mais do que obvia: aquele ponto deveria ser o lugar onde os turistas poderiam chegar, era muito provável que ali se fecharia numa garganta alta onde só aqueles mais tarimbados conseguiriam ir adiante, mas eram pura suposições, era preciso pagar para ver, botar os pés no rio e ir conferir pessoalmente.
                A chuva não dava trégua, mas mesmos assim jogamos nossas mochilinhas com o necessário no porta malas do carro e partimos para o bairro Canta Galo, um amontoado de casas junto às margens do Rio Guaxinduba.  Quase 2 km depois de sairmos da Rio-Santos passamos em baixo  do viaduto gigante que fará parte da duplicação da Tamoios e em mais 1 km de estrada desembocamos enfrente à uma estação de tratamento de água da Sabesp, mas logo notamos que nosso caminho ficava uns 300 m antes, uma estradinha entrando na mata. Paramos o carro em uma clareira porque nossa jornada motorizados acabara de chegar ao fim.
                Jogamos as mochilas nas costas e partimos. Ainda chovia um pouco, mas nossa euforia fazia com que desprezássemos esse sofrimento e então nos adiantamos a passos largos, firmes e decididos. O Thiago à frente, esbanjando toda vitalidade dos seus trinta e poucos anos e eu, é claro, tive que me manter firme, consumindo litros de oxigênio para me manter colado nele e não tentar demonstrar as fraquezas dos meus 50 anos nas costas. Minutos depois a estradinha acaba junto a algumas casas e entra numa trilha onde um riacho faz barulho de água boa, mas já estávamos abastecidos e só fizemos seguir atropelando metros e metros. Passamos por um bonito descampado, que rapidamente também é deixado para trás, até nos embrenharmos definitivamente na floresta sombreada.
                Quando entramos nessas trilhas não encontramos nenhuma placa de que o acesso fosse proibido, tão somente havia algo dizendo ser uma área em recuperação e como era uma trilha bem larga, supomos ser bem usada pelos nativos ali da região. E é realmente uma trilha encantadora, com árvores gigantes que nos surpreendem a cada metro percorrido, por ainda estarem de pé tão perto da civilização. A trilha apesar de bem larga, vez ou outra se bifurca e confundi a nossa cabeça e alguns perdidos nos leva às margens do rio, muito provavelmente serviria para acessar algum poço ou cachoeirinha mais turística, mas como o rio está bufando, não nos pareceu valer a pena descer para conferir, então retornávamos e seguíamos por onde nos parecia ser a direção correta, mas bem menos de 1 km depois de começarmos a caminhar, fomos obrigados a nos determos por um instante para prestarmos continência a um espetáculo que a natureza nos reservou : Um exemplar de uma árvore gigante faz com que nossos queixos despenquem das nossas caras. Eu não saberia dizer que árvore seria aquela, não sou botânico e sinceramente não tenho lá grande conhecimento a respeito desse assunto, mas me pareceu ser uma Figueira Brava ou uma Samaúma, mas é puro chute, então se alguém souber o nome que me corrija, mas o certo é que não é possível passar diante de um monstro desse e não sair de lá encantado.
       
                Nossa caminhada segue a passos cada vez mais firmes, alternando pequenas descidas e subidas, mas nada em excesso e uns vinte minutos depois, um clarão surge no meio da floresta verde e junto a um afluente do rio, tropeçamos numa cachoeira enorme que nem esperávamos encontrar. E era realmente grande, uns 20 metros de queda, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos, mas o simples fato dela cruzar o nosso caminho, já foi motivo de uma comemoração pelo prazer de tê-la encontrado , tão alta e em tão pouca altitude  e sem saber o nome ainda, mas muito provavelmente ela deve ter um, como referencia vou chamá-la de CACHOEIRA DO PAREDÃO até que eu descubra o verdadeiro nome. E esse nome fictício só me veio à cabeça porque logo à frente, pouco antes de desembocarmos definitivamente no rio, somos apresentados a numa parede gigante, uma muralha de pedra deslumbrante.

                Abandonamos, portanto a cachoeira e passamos raspando na parede e em um minuto caímos no Rio Guaxinduba, mas agora em definitivo. O rio está cheio, mas a chuva quase cessou por completo. Estamos agora bem de frente de outra CACHOEIRA, não tão grande como a anterior, mas com um volume grande, confinado num tubo que forma um salto para dentro de um poço profundo, com a água um pouco escura, mas ainda assim muito limpa. Aqui é mais ou menos a cota 260 de altimetria e é o lugar onde a trilha acaba em definitivo, mesmo porque, agora estamos diante de uma garganta que fecha o rio num amontoado de rochas gigantes, fim da linha para os turistas, daqui para frente é só quem se atreve a botar a faca nos dentes , num caminho incerto, perigoso, é o lugar que separa os homens dos meninos, é hora de aceitar o convite para a aventura.

                Nossa aposta de que esse seria o lugar onde o rio estaria bloqueado foi um acerto um tanto óbvio pela nossa experiência nesses longos anos de exploração selvagem. Num primeiro momento, eu e o Thiago trocamos ideia sobre a possibilidade de escalarmos as grandes rochas, mas era uma subida um tanto exposta com a pedra molhada pelas chuvas recente. Até daria para dar um bote de cima de uma grande rocha e se agarrar à outra, mas um erro de calculo e o escalador seria jogado para dentro da fenda e ali seria moído pela rocha áspera. Então a decisão sensata era, depois de atravessar o rio, ganhar uma canaleta do lado direito e abrir uma passagem para o alto e estando mais acima, varar mato de volta para o rio. E foi isso que fizemos e em poucos minutos retornamos à parte alta dessa primeira cachoeira, justamente de frente para uma cachoeira bem peculiar, onde a água despencava no meio de grandes pedras suspensas e ao nos aproximarmos  dela , um colônia de andorinhas barulhentas nos deu as boas vindas e por também não sabermos o nome, resolvemos marcá-la no mapa como CACHOEIRA DAS ANDORINHAS, mesmo não sendo um nome muito original, foi o que pensamos na hora.

                Paramos por um tempo para apreciar a cachoeira e tomar um gole de água. Uma analise fria já nos diz que escalar a cachoeira não é possível e muito menos viável cruzar para a margem esquerda do rio, então só nos restava a velha tática de varar mato. Também do lado direito foi que descobrimos uma abertura que nos levou rapidamente até o pé de uma parede íngreme, mas que surpreendentemente formou uma escada de raízes no barranco, onde apoiávamos primeiro as mãos e depois os pés até nos elevarmos a parte superior da Cachoeira das Andorinhas, varando um mato cheio de espinhos e descendo desescalando pedras lisas até o rio. Estávamos bem de frente a uma ilha no meio do rio e do outro lado nos pareceu haver mais uma grande cachoeira e para la chegarmos , tivemos que desenrolar uma travessia de meio rio, antes mesmo de pularmos para o meio da ilha, onde bem perto , mais uma cachoeirinha despencava.
                Cruzamos o rio nos valendo de algumas partes mais rasas, mas mesmo assim com a água quase pela cintura até ficarmos bem de frente com a cachoeira maior que buscávamos. Não era tão alta, mas despencava de forma bem peculiar, com um pequeno tobogã encima que fazia com que ela se transformasse num chuveiro e ao seu lado o rio saltava em mais um cachoeirinha, formando um cenário agradável  e mais uma vez, sem saber se existia um nome, vou marcá-la como CACHOEIRA DO CHUVEIRÃO, nome não muito bonito, mas deve servir de referência.

                Pensei em continuar nossa jornada atravessando para o lado esquerdo do rio, porque me pareceu que seria fácil passar, mas logo o Thiago me avisa que mais à frente o rio se enfia num pequeno cânion, onde poderíamos ter problemas e insiste em nos mantermos no lado direito. Pulamos para a ilha e começamos a escalar algumas pedras íngremes até voltarmos para o rio, onde ariscamos passar numa parte profunda nos valendo de um apoio ao lado de uma parede do rio, cairmos novamente numa língua de mato e voltarmos para o rio na tentativa derradeira de chegarmos ao nosso objetivo principal.
                Não eram nem nove da manhã quando à nossa frente um clarão branco despencando de um paredão nos ofuscou os olhos. Ainda em meio às árvores e rochas, que nos fechava o caminho, essa visão ia se alternando entre ficar visível e sumir. Eu e o Thiaguinho nem conversamos sobre o assunto, apenas nos mantemos focados em escalar matacões gigantes, numa tentativa desesperada de ganharmos terreno o mais rápido possível. A chuva se foi, milagrosamente a água deixou de cair do céu e adentramos numa toca que era mais apertada quem o útero das nossas mães, mas passamos, encolhendo a barriga, mas passamos e emergimos do outro lado, aos pés de uma grande rocha. O Thiago foi à frente, abrindo caminho na quiçaça até se ver numa fenda entre duas pedras. Ele se equilibrou sobre um tronco de árvore podre, enquanto eu o avisava para que tomasse cuidado. Assim que ele passou, dei um salto e ganhei também o outro lado, e juntos, de cima daquela pedra escorregadia, saltamos para a gloria final, sobre um platô, de frente para o Objeto da nossa conquista pessoal.
                Diante nos nossos olhos, em toda sua magnitude e esplendor, muito mais bela do que poderíamos imaginar, um turbilhão de água saltava de cima da  parede, primeiro vindo de um tobogã de uns 200 metros , depois caindo no vazio de uma altura mais ou menos de uns 30 ou  35 metros no total. Uma cachoeira se espalhando sobre a parede, onde parte do seu véu se ocultava atrás de uma grande rocha. Recebendo suas águas, um laguinho se esparramava até onde estávamos e mesmo com o rio cheio pelas chuvas recentes, ainda assim a água continuava bonita e bem apresentável. A força da água se jogando da montanha formava uma névoa sobre nós e o vento balançava a vegetação ao nosso redor, nos fazendo sentir um pouco de frio, mas pouco nos importava, a cachoeira GRANDE DO GUAXINDUBA  era nossa, apenas dois aventureiros abobados, inebriados, testemunhas oculares de um espetáculo e se mesmo sabendo ser provável que não sejamos os primeiros a pisar ali, felizes estávamos por termos certezas que era uma visão presenciada por não mais de meia dúzia, então não nos restou outra coisa, senão  nos abraçarmos e comemorarmos o sucesso daquela empreitada.

                   O Thiaginho estava eufórico, um menino hipnotizado pela descoberta bem no quintal de casa. Eu fiquei ali, parado , estático, sentindo aquele momento e feliz por ter me levantado daquela cama quentinha hoje pela manhã. Mas é preciso contar o resto desta história e não deixar passar nada do que presenciávamos ali naquele momento. Se já não bastasse aquela cachoeira, que fechava o vale com uma beleza inenarrável , ao lado dela, despencando de um afluente do lado esquerdo, outra queda d'água formava o cenário perfeito, uma união de dois acidentes geográficos numa obra de arte da natureza que não precisava de retoques. Nossas cabeças rodopiava entre um cenário e outro , mas antes de perdermos o foco diante de tão deslumbrante cenário, nos sentamos para não cair e aproveitamos para comermos algo , ali mesmo ao lado dessa outra queda, que aqui temporariamente chamo de PEQUENA DO GUAXINDUBA e assim marcamos no mapa, mais uma na nossa lista de lugares perdidos no Lado Escuro da Serra do Mar Paulista.

                Chegamos no lugar onde havíamos deslumbrado chegar, mas sendo ainda muito cedo, resolvemos esticar ainda mais a aventura. Decidimos por escalar o grande paredão para tentarmos chegar ao alto da Cachoeira Grande. Analisamos o terreno e era fácil supor que pela direita seria impossível passar, diante de uma parede de quase  noventa graus de inclinação, então só nos restava fazer um ataque pela esquerda, não da cachoeira grande, mas ao lado da pequena , a cachoeira do afluente. Usando nossa técnica inovadora de nos segurarmos em tudo e qualquer coisa que aguentasse nosso peso, nos pomos a nos elevar parede acima até ganharmos o alto do afluente e transpor suas águas, ganhando terreno lentamente, varando mato, escalando outros tantos de pedras escorregadias até firmarmos uma diagonal e voltarmos novamente para o leito do rio principal, bem acima de onde as águas se jogavam no vazio.

                Estamos agora encima do olho do furacão, uma rampa inclinada de impressionantes cerca de 200 metros, um tobogã descendo numa pedra lisa com não mais de dois palmos de água, mas numa velocidade "maior que a da luz". Eu e o Thiago até deslumbramos a possibilidade de poder descer em uma parte da rampa, onde o rio se projeta em um poço, mas a velocidade era tamanha que poderia nos jogar não para fora do poço, mas para fora da via láctea, então deixamos quieto. Lá do alto, era possível avistar paisagens a beira mar, montanhas e formações rochosas, mas por causa do tempo instável, não conseguimos ver o oceano dessa vez . 

                Chegamos aos 500 metros de altimetria, poderíamos ter seguido subido o rio, mas nos demos por satisfeito, ainda mais porque não estávamos preparados para passar a noite com conforto, então antes das 10 da manhã, resolvemos optar pela volta, havíamos cumprido o objetivo que havíamos traçado quando nos levantamos da cama quente pela manhã e enfrentamos tempo ruim atrás de mais uma aventura autentica. Por sorte a chuva parou, o tempo abriu e quando retornamos para o pé da CACHOEIRA GRANDE DO GUAXINDUBA, ela estava ainda mais deslumbrante e o Thiago resolveu fazer as honras da casa, se jogando para debaixo dela, lavando a alma, enquanto eu o observava lá de fora, contente pela felicidade do amigo.

      Quando o Thiago se cansou de tomar banho de cachoeira, apanhamos nossas mochilas e partimos de volta, mas dessa vez, num ritmo muito maior, ainda porque, o rio estava um pouco mais baixo e já conhecíamos as passagens chaves. Fizemos uma pequena parada na Cachoeira das Andorinhas para um breve lanche, ganhamos novamente o vara-mato que nos levou de volta a trilha, assim que atravessamos novamente o rio para sua margem direita, agora de quem desce e aceleramos o passo, num perde e acha até que subitamente desembocamos na estrada, junto a clareira onde havíamos deixado nosso veículo, missão cumprida.

               
                Antes das 14 horas, estacionamos nossos corpos na Praia do Capricórnio em Caraguatatuba, foi uma caminhada linda, deslumbrante. Eu e o Thiago imprimimos um ritmo de gente grande, voamos rio acima, fomos comendo mato e destruindo altimetria como nunca e levamos 7 horas de caminhada entre ir e voltar. Na manga, mais uma descoberta, numa serra que não para de nos surpreender, lugares onde poucos pés humanos ousaram tocar, um paraíso reservado a um seleto grupo de exploradores , onde a natureza cercou e pela dificuldade de acesso, continuará lá , preservado por muito tempo, sendo mais uma entre tantas outras nessa SERRA DO MAR PAULISTA, a serra que tem cheiro de aventura.
               
    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      2020 ano imprevisível. Ficamos a deriva desde fevereiro. Toda a temporada de montanha foi se embora, as viagens minguaram. Precisamos recorrer a destinos não antes planejados.
      Foi assim que topamos com a Ferrovia do Trigo, como descrevi em relato anterior, conseguimos fazer um circuito pelo Campo dos Padres em setembro e cinco dias antes de sairmos para a Serra Geral catarinense, recebemos um convite para fazer o trekking Guaporé Muçum. É claro que já havíamos ouvido falar e lido algum relato, mas não estávamos muito iterados sobre. Não gosto de perder oportunidades, então, após uma lida rápida em um relato e olhadela no wikiloc aceitei a proposta. O trekking não tem muito segredo é autoguiado, e a logística também é tranquila.
      Chegando ao Início
      De Urubici descemos por Lages, Vacaria até Muçum. A viagem já foi um charme, depois de Vacaria, entrei em uma área  de vinhedos e colonização italiana (Ipê, Antônio Prado, Nova Prata etc.) com muitas capelas, colinas e construções majestosas. Acredito que faça parte de alguma rota turística, mas como não conheço muito do RS né. Resumindo, estou pensando em voltar para lá fazer um tour bem longo.

      Saímos em Guaporé e fomos dormir em Muçum, no Hotel Marchetti, talvez seja o único da cidade. Fizemos um acordo com o proprietário que permitiu deixarmos o carro por ali, sob supervisão dele. E diga se de passagem o rapaz foi nota mil, além de zelar pelos carros, o hotel é fantástico, dá show em muito Ibis por aí. Excelente atendimento, limpeza impecável e o café da manhã top.
      No dia seguinte pegamos o ônibus suicida para Guaporé. A viagem foi uma história. Começou quando perdi a passagem, e tive de entrar no ônibus sem ela, ainda bem que o motorista não encrencou. Durante o trajeto nos contou muitas de suas peripécias, quando dirigia carretas, vários golpes em danceterias e restaurantes (talvez ele estivesse achando que eu estava dando o balão na passagem). De repente, a 90 km/h ele vira para a esquerda num portal dentro do vale, o coração quase sai pela boca. A conversa acabou até Guaporé (acabou o fôlego ou rezávamos para que não houvesse outro drift). Descemos na entrada de Guaporé, e a poucos metros já podíamos ver os trilhos.
      A Trilha
      Começamos a trilha, meio desconfiados com alguns carros de fiscalização parados ali na estação. Mas logo estávamos todos no ritmo dos dormentes. Os primeiros 6 km são monótonos, os passos ainda teimam em ser descompassados (é cada bicuda no trilho/dormente). Então começam os viadutos, e a direita o vale começa se exibir.

      Lá pelo terceiro/quarto viaduto já é possível ver o majestoso Rio Guaporé a bailar no vale. Surgem os primeiros túneis. Uns curtos, outros alongados, mas nada muito incrível. Topamos com a equipe de manutenção logo cedo, foi o teste que precisamos para ter certeza que não seríamos proibidos de passar por ali, afinal andar nos trilhos não é tão "legal" assim. Batemos um papo, tudo ok, seguimos.
      Já eram 14:00 quando chegamos no primeiro grande viaduto, vazado, muito alto e comprido. Cautelosamente passamos. Só fomos saber no dia seguinte que era o Mula-preta.

      Ali do lado tinha um sinal de acampamento, mas como era cedo e os destroços indicava fluxo de pessoas considerável, resolvemos seguir. Pouco tempo depois entramos num túnel infinito. Foram 40 min no meio do breu. Apenas os pontos de luz das lanternas indicava a existência de vida naquele buraco. Saímos do túnel de 2000 m já num local ideal para o pernoite. Uma estrada de caça ao lado da ferrovia, com sinal de acampamento, a poucos metros de um córrego de água limpa. Armamos as barracas, e só fomos acordados às 02:45 quando o gigante de aço rasgou a escuridão com seus olhos de fogo e silvo de dragão.
      No dia dois, começamos a caminhada era idos 07:00. Mais alguns túneis e chegamos no Viaduto Pesseguinho (esse possui placa de identificação), de posse dessa informação já suspeitamos que aquele do dia anterior era o Mula-preta.

      Quando estávamos parados para tirar algumas fotos e recuperar o fôlego fomos surpreendidos por um senhor vestidos de militar. A abordagem foi bem categórica:
      - Os senhores sabem que é proibido andar nos trilhos? - Indagou o militar.
      - Sim senhor, está escrito em letras garrafais na placa ali da entrada do viaduto. - Respondo em tom bagual, hshs.
      - Então o que fazem aí em cima? - Retrucou o homem.
      - Estamos a fazer a travessia. - Mudei o tom, para não criar problemas.
      Logo de início tinha percebido que o 'militar' era proprietário do camping ali embaixo. Ele frustrado com o movimento veio desabafar. Tentou aplicar um sermão, falando que a polícia estava prendendo e que haviam câmeras na entrada, saída e no camping dele, que iria passar para a polícia e estaríamos encrencados. Ouvi pacientemente. Ele acalmou e depois esclareceu algumas dúvidas, contou alguns acontecimentos da travessia recentes, passamos quase 1h conversando (no final do dia fomo saber que esse proprietário costuma causar alguns problemas por ali, inclusive já foi preso por abordar trekkers armado).
      Passado essa lorota seguimos. Atravessando viadutos, mergulhando em túneis, eles estão por toda a parte. O Rio Guaporé a cada curva é mais bonito.

      Depois de passar pela Cachoeira da Garganta com muita gente, na altura dos 35 km paramos para almoçar. Como o maps.ME indica um cachoeira ali perto, não tive dúvidas, achei uma trilha e fui procurá-la com um dos parceiro. Andamos 2 km morro adentro até sair nas margens do Guaporé, lindo de águas turquesas. Mas nada da cachoeira, o pequeno resquício de água nem chegava no Guaporé. Desistimos de fazer a incursão pelo leito seco até a base da queda.


      De volta aos trilhos, passamos mais um viaduto e na entrada do seguinte, saindo para à esquerda tem uma cascata. Paramos para reabastecer e curtir um pouco.
      Cruzamos mais um túnel longo, com uma seção vazada, para sair no viaduto V13. Ao longo desse dia tínhamos passado por mais dois tuneis de aproximadamente 1km cada. No V13 dei razão para o milico, algumas centenas de pessoas desfilavam sobre os trilhos e dentro do túnel, tinham crianças, pessoas de mobilidade reduzida, bêbados, drogados, pessoas com caixas de bebidas e caixas de som, uma verdadeira zona. Imagina o perigo se o guarda trilhos ou até mesmo o trem se aproxima (há relatos recentes de situações bastante tensas envolvendo trens e pessoas irresponsáveis nos pontos de acesso fácil ao longo da travessia).
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      Nesse dia nós descemos os 1200 m até a base do V13 para dormir em um camping (Paraíso V13). Diga-se de passagem fomos muito bem recebidos, ate travesseiro teve gente que emprestou dos proprietários. No camping, além da área coberta para a barraca (acertamos em cheio) tem uma cachoeira nos fundos muito legal que vale a visita.

      Nosso terceiro dia amanheceu debaixo de água. Desmontamos o equipamento, cobrimos com capa de chuva e seguimos morro acima. A chuva não deu trégua. Era tanta água que não se podia ver de uma ponta a outra do V13.

      Com todo cuidado do mundo, os dormentes agora estavam liso, seguimos caminhando. Mais uma série de túneis, todos curtos. Outra série de viadutos, nenhum vazado. A paisagem estava perfeita, a umidade deixa as cores mais intensas, das encostas despencavam dezenas de cachoeiras sazonais, fruto da chuva impiedosa.
      Não demorou muito para se formarem grandes alagados nas margens do trilhos. Local para descanso e refeição somente dentro dos túneis quando não estavam alagados. Em um deles, paramos e de repente um ronco ensurdecedor entrou na escuridão, luzes seguiam nosso sentido contrário. Paramos no recuo, coração na mão, uma das luzes (tive a impressão) saiu dos trilho e veio pra cima, foram longos segundos, um filme passou na cabeça, pensei em tudo que perderia, quando então, a luz vira novamente para o outro lado e escuto gritos e buzinas. Eram duas motos de trilha. Não sabia eu se chorava, xingava ou agradecia.
      Adiante em outro túnel estávamos almoçando quando o limpa trilhos passou, fui uma correria só para as áreas de escape, não gosto de arriscar a canaleta, vi nesse ano um vagão (na serra do cadeado) arrastando um pedaço de madeira por dentro da canaleta.
      Seguimos adiante, o relevo muda, passamos por alguns cortes de rocha imponentes. E no último grande viaduto ainda avistamos um bando de macacos pretos (não consegui identificar a espécie), estavam todos agitados nas copas das árvores.

      A caminhada voltou a ficar monótona nos últimos 6 km. Apenas grandes poças de água, o Guaporé some no meio da vegetação e a única surpresa foi a reformada estação ferroviária de muçum. Muita gente termina por aí, chamando um táxi ou seguindo pelo asfalto.

      Nós optamos por caminhar pelos trilhos até o centro de Muçum, descendo logo depois do primeiro viaduto sobre a rodovia. No total foram 60 km, 22 túneis e 16 viadutos.
      Depois de um banho merecido, melhor de se secar, o banho já havia sido o dia todo, fomos fazer o desjejum na lanchonete principal da praça de Muçum para no dia seguinte retornar às terras paranaenses.
      No Youtube coloquei um vídeo que mostra um pouco mais do trajeto, https://youtu.be/-Odmah6b8rU
       
      Dados que podem interessar
      A ferrovia EF491 também conhecida como ferrovia do Trigo percorre entre os municípios de Roca Sales e Passo Fundo. Comercialmente pouco explorada, hoje serve apenas para transporte de combustíveis por escassas locomotivas, e a partir de 2020 passou a receber uma rota turística. Entre os municípios de Muçum e Guaporé, que engloba também Vespasiano Correa e Dois Lageados a estrada acompanha o Rio Guaporé, percorrendo uma série de túneis, vales e encostas. Nesse pequeno trecho de pouco mais de 60 km se concentram 22 túneis dos 34 da ferrovia e 16 viadutos dos 26.
      As principais atrações do trecho, que podem ser acessadas durante a travessia ou em caminhadas curtas ou ainda chegando de carro pelas estradas de manutenção da ferrovia, são:  
      Viaduto Mula-preta em Guaporé, possui 94 metros de altura, 360m de extensão e dormentes vazados, um desafio para quem tem ou não medo de altura; Viaduto Pesseguinho, também vazado, possui mais de 80m de altura e 368 de comprimento; Viaduto V13 com 143m de altura é o mais alto viaduto das Américas; Cascata da Garganta adaptação da engenharia onde um riacho mergulha para dentro da terra em uma cachoeira que flui abaixo dos trilhos. Está situada entre os viadutos Pesseguinho e V13; Túnel de 2km perfuração dentro do morro que percorres 2000 m entre os viadutos Mula-preta e Pesseguinho; Túnel vazado com cerca de 1300 m está na chegada do V13. A 300 m da entrada dele estão algumas aberturas (janelões) de frente para o vale do Rio Guaporé; Cascatinha ao lado da entrada do terceiro túnel segundo túnel depois da Garganta (sentido Guaporé Muçum), de águas límpidas e queda macia ideal para descanso; Cascata Bem Estar situada anexa ao Pesseguinho é acessível a partir do camping na base desse viaduto; Rio Guaporé visível em mais de metade da travessia. Um dos locais de acesso à suas margens fica entre o terceiro e quarto túneis a partir do V13. Existem ainda muitos outros locais interessantes para se visitar pela região, cascatas, rochas, vales e passeios. Só pegar a mochila estudar os roteiros e se jogar.
    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      Num dia qualquer eu navegava na rede quando em uma postagem alguém comentou: "que saudade dessa terra, ... avistar o horizonte do Morro dos Ventos". O nome do morro atiçou na hora minha curiosidade, já fiz um insight com "O Morro dos Ventos Uivantes".  Pesquisei sobre qual terra o comentário se referia: era bem próximo de onde moramos. O morro fica em Nova Tebas no Paraná.
      Revirei, na internet, com conhecidos, a fim de localizar as coordenadas do morro, mas encontrei apenas fotos e alguns relatos escassos sobre o lugar. Peguei uma carta topográfica da região a fim de localizar uma montanha imponente onde possivelmente seria o Morro. Fiz anotações, marquei alguns pontos, e decidi ir com a cara e a coragem, se não encontrar acampo em alguma fazenda e no outro dia voltamos.
      Tudo acertado, sairíamos de Águas de Jurema uns 20 Km do distrito de Poema minha referência para encontrar o Morro. Escolhemos fazer o percurso a pé, já que a carta desenhava inúmeros vales e montanhas, queríamos aproveitar a caminhada.
      Curiosamente, no penúltimo dia antes da partida um dos contatos que havia encontrado na internet e pedido informações à semanas já, me deu retorno, e então começou uma corrente de uma pessoa me indicar  outra que poderia saber me orientar a chegar no morro. Depois de passar por 5 indicações diferentes, cheguei ao nome de um morador. Este indicou outro morador que autorizaria a entrada na propriedade, já que, o objetivo fica dentro de uma área de pastagem, e claro não queríamos que lá pelas tantas da noite alguns cães famintos aparecessem.
      Saímos, eu, Bruna e o Anderson às 12:45 de Águas de Jurema, pegamos uma estrada, continuação da Rua H. Seguimos em frente por essa estrada, os primeiros quilômetros foram em estradas comuns - com exceção das laranjas, a cada km tinha uma laranjeira carregada, sempre seguimos à esquerda nos cruzamentos. Após 2 h de caminhada a paisagem começa a deslumbrar, o primeiro vale que avistamos tirava o fôlego.
      Sabíamos que atravessá-lo não seria moleza, apenas queríamos ir por ele e descobrir onde ia dar. Mais algumas horas e cruzamos em meio a duas colinas, num lado da estrada pitorescas moradias - nos causam uma pequena inveja - como queria morar lá.  Assim que contornamos a colina, mais um vale, dessa vez menor, mas não, menos incrível. Neste paramos em uma das casas pedir água - já que recusamos beber um trago, kkk. Dois senhores embriagados dormiam na estrada e quando foram acordados por nós convidaram para participar da bebedeira, kkkk. Na casa uma senhora simpática ofereceu água da bica, pura água da fonte. Sede controlada, cantis cheios, pegamos mais algumas mexericas na beira da estrada e partimos, já se iam quase 3 h na estrada.

      Quando chegamos em Poema já se passavam das 16:30, mais água e seguimos rumo a uma região conhecida como 400 alqueires, mais vales traçavam linhas tênues no horizonte. O sol já se ia, mais 1 h na estrada e avistamos a igreja uma referência que tínhamos. Levamos mais 40 min para contornar a colina e então chegarmos na casa que nos autorizaria entrar no Morro. O morador nos forneceu autorização e disse que poderíamos dormir ali, e apontou do outro lado da estrada um morro, que parecia modesto, visto tão de perto. Esperávamos um Morro imponente, que necessitasse de escalar e tudo, kkkk. Até ficamos surpresos com a sua modéstia. Após a porteira começamos uma subida de 10 min. Chegamos lá com o breu, vigiados pela lua lá no infinito.
      Fogueira feita, no meio de pedras para não ter perigo, entramos noite adentro contando histórias. Se tem recompensa maior que ouvir as pessoas ao redor de um fogueira, desconheço. Dormimos curiosos pelo visual da manhã seguinte. Confesso que desconfiados do tímido morro onde paramos.

      Foi só bater 5 h, levantei avivar a fogueira, e ... quase esqueço o fogo, fico de queixo caído. Além do vento que cortava a relva, um vale imensurável, com a minha barraca de frente. Fiquei mais tarde sabendo que se chama Vale das Mortes, não sei a origem do nome.

      Não demorou muito até todos acordarem. A foto daquele momento saiu com caras e dentes, e muitos cabelos rebelados.

      Recompensados pelo caminho do dia anterior, mais que recompensados, após apagar a fogueira, 8:00 começamos o caminho de volta. Tiramos uma foto do Morro dos Ventos, visto da estrada, nem parece o que é, só olhando para o Vale das Mortes dá de entender por que tem esse nome místico. Mais 5 h de caminhada, tênis do Anderson rasgado e amarrado com o cordão para não perder a sola, uma parada no Rio Muquilão para relaxar a musculatura e dar descanso para as mochilas. Estávamos nós novamente em Águas de Jurema, com mais uma história, não mais uma, mas a história da jornada ao Morro dos Ventos.



    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      Havia tempos que o ponto culminante do meu estado e de toda a região sul estava no meu radar.
      Desde janeiro ajustando datas com meus parceiros, sempre aparecia um imprevisto e o Pico Paraná ia esperando. Em 20 de junho novamente fiquei sozinho, mas dessa vez, parti sozinho mesmo de Campo Mourão.
      Estava ansioso, pois queria chegar ao Pico Caratuva para acampar antes de anoitecer, afinal estava sozinho. Enquanto calçava a bota, o fiscal da Fazenda PP fez meu cadastro e cobrou singelos R$ 10,00. Enquanto ele foi buscar o troco troquei a camiseta, e nada de voltar com meus "nique" quando achei o rapaz: ele estava procurando um ser de camisa vermelha, kkkk, eu antes de trocar.
      Saí ansioso, às 16:10 o ritmo a partir da portaria são os Óreas (deuses da mantonha) quem determinam. Como estavam receptivos, em 25 min alcancei a bifurcação das trilha PP x Caratuva.

      À esquerda a trilha no começo estava bem ruim, com muitas árvores caídas exigindo manobras para passar sobre os troncos com a mochila carregada. Logo à frente, se dividia novamente, agora sem sinalização e sem sinal GPS. O faro indicava à direita. Porém já percebi que à direita também tem uma bifurcação, depois de uma olhadela vi tratar-se de uma trilha para a bica de água; segui pela outra. Com o suor já aparecendo, começa a verdadeira batalha. São aproximadamente 1500 m de subida constante, uma escalaminhada sem fim. Pedras, raízes enormes, barro, barrancos, 40 min praticamente engatinhando pela encosta.
      Eram 17:15 quando pela primeira vez, depois do Morro do Getúlio, conseguia enxergar algo além de chão e árvores. As árvores começaram a ficar menores e o terreno começa a perder inclinação, sinal de que estamos chegando em alguma área plana, seria o cume?
      Poucos minutos mais e pude avistar o resto de Sol que se escondia no horizonte e às 17:40 as primeiras barracas apareceram pra mim. Havia chego a montanha em 2 h. Arrumei um cantinho, meio torto mesmo: o pico estava lotado de gente.
      Logo chegou um pessoal que eu havia passado na trilha, eles vinham se comunicando por meio de berros, kkkk. Da mesma forma chegaram no cume, e fariam ainda muita algazarra no acampamento até que os o russo revoltado acabar com aquilo. Montando a barraca, ofereceu-me ajuda um montanhista que estava por ali, gentil, não recusei é claro. Batemos um longo papo, descobrimos que no outro dia iríamos acampar no PP.
      O entorno do Caratuva estava todo fechado, só aparecia o cume do PP  lá na frente. Logo o breu tomou conta, junto uma neblina congelante. Foram longos minutos enclausurado dentro da Quick Hikker 2, tomando café. Mais tarde o tempo limpou deixando o céu embebido de estrelas, levando nos a uma profunda reflexão. Durante toda a noite seria assim, minutos de imergir na imensidão do firmamento, e minutos de se esconder dentro da barraca; colocar até a cabeça dentro do saco de dormir.
      No dia seguinte, às 06:00 todos já estavam ansiosos pelo espetáculo. Apenas os cumes do Caratuva, PP, Ibitirati e Taipabuçu estavam à mostra, o restante da Serra estava embebido por Morfeu.

      Eram 07:05 quando Apolo empurrou seu Astro no nascente. Uma sinfonia perfeita com o acampamento e as emoções que irradiam no peito do espectadores. Foram aproximadamente 8 min, talvez os mais emblemáticos da história de cada um que estava ali.

      Preparei um café prevendo um dia encharcado e intenso. Depois explorei o cume para preencher o livro e identificar os irmãos menores. O Pico Itapiroca estava descoberto da neblina e pude observar os campistas lá no horizonte. Desmontei a tralha, reuni tudo e às 08:25 coloquei a cargueira no ombros a saí, a ideia era descer o Caratuva pelo leste, passando pela bica para reabastecer. Depois de analisar o mapa parti, por uma trilha fechada depois do acampamento no sentido nordeste, a neblina tomava conta da serra, a visibilidade não chegava a 15 m. Pouco adiante a trilha dividiu-se: uma quase inexistente, a outra com sinais de tráfego, segui a mais usada apesar de o senso dizer o contrário. Não demorei a dar de cara com um penhasco, a trilha terminava ali, ao menos o que parece. Humildemente retornei a bifurcação e segui o instinto pela trilha fechada; em menos de 200 m estava encharcado. A trilha exige muito, no meio do nada, sem enxergar nada. Pedras enormes e escorregadias, barrancos lisos, trechos enlameados. No meio da mata a trilha não aparece, é preciso seguir com calma buscando indícios de cada um tempo algumas fitas amarelas sinalizam por onde deveria passar a trilha.

      Naquela penumbra toda não consegui achar a bifurcação que levava a bica, e devido a dificuldade de se locomover por ali, nem fiz questão de pegar o celular para verificar o GPS. Segui por 1,5 h no meio da nuvem, para o lado que virasse dava para sentir os desfiladeiros. Chegando no A1 tive de voltar uns 400 m buscar água na bica, afinal meu suprimento estava terminando e não estava afim de arriscar no A2 e descobrir que não haveria água. Na fonte conheci um grupo de Palmital, São Paulo, que ia em ataque ao PP. Acabamos seguindo juntos até o o elevador. Foi uma caminhada longa, mas agora a trilha é bem demarcada, chega a fazer uma vala. A crista toda envolvida pela neblina não víamos nada além dos 15 m.
      De repente o mergulho e um maciço escuro, ainda coberto pela nuvem, se desenha na nossa frente. A perna treme, mas, não dá para desistir. Lá vamos nós (não todos, alguns abandonam aqui) pelo elevador, se revezando com quem desce, com quem trava no meio. O grupo que eu acompanhava parou para descansar, a mim não era uma opção, afinal molhado com estava, certamente, se parasse, o frio castigaria. Segui em frente, sozinho agora. Rochas e mais rochas, em alguns lugares o caminho some na neblina, em outros é preciso passar por fendas apertadíssimas. Encontrei muita gente descendo, eles me animavam ao contar que lá em cima estaria aberto o tempo.
      Após passar de banda pelo A2, pelo A3, não tinha muito por que parar, o frio era grande, e a neblina não arredava pé.
      Depois de quase 4 h caminhando, dei de frente com um último paredão de pedra, alguns lances da ferrata e saí no meio de uma galera. Tinha chegado ao PP! Olhei de um lado, olhei de outro, e nada, custei acreditar que tinha chegado; cadê o tempo aberto que tinham me falado, mal dava para enxergar o entorno. Logo veio uma onda e levou as nuvens do cume, dando dimensão da minha posição. Fui o primeiro a armar acampamento naquele dia, muitos que chegaram após às 14 h, tiveram de descer e acampar no A3 ou A2, o cume estava lotado. O resto da tarde seria de expectativa, em curtos espaços de tempo as nuvens dispersavam e dava para ver o cume do Ibitirati, montanha irmã. Lá de cima um grupo de montanhista gritava feito doido e acenava durante esses lapsos de tempo. Dava para perceber que não pediam socorro, só queriam algazarrear mesmo. No fim do dia ainda foi possível avistar um pedaço do crepúsculo, gerando ansiedade com a alvorada do dia seguinte. Durante a noite, mais um espetáculo, as nuvens foram embora como uma cortina que se abre mostrando o interior da morada aos passantes. O céu com suas luzinhas incríveis carregando pedidos infinitos fez vigília.
      Às 04:00 do dia seguinte todo mundo já estava em pé. Na mesma situação, tudo coberto por Morfeu. Faltavam minutos para Apolo começar sua dança, quando Morfeu retirou seu batalhão, e o êxtase tomou conta do cume. Em minuto tudo estava à mostra, desde a Baía de Antonina até o Cerro Verde e o Ferraria. Neste momento o espírito da montanha enche-nos da sua perseverança, e como estátua, só percebo estar vivo devido à respiração diante de tão bela alvorada.
      Foram intermináveis 10 min. Lágrimas que bailam na face e o sentimento de que não há melhor lugar para se estar. Após me empanturrar com as comidas em excesso que carregava, tudo regado a café, pude identificar a crista que havia descido no dia anterior do Caratuva ao A1 em meio à neblina, fiquei arrepiado.

      Ficamos conversando com os montanhistas que havia conhecido no Caratuva que, também arrumaram seu cantinho por ali. Pena que não pude esperá-los para a descida, eu precisava estar às 15:00 na base. Comecei a descida às 10:45, logo alcancei um grupo descendo. Conversamos, trocamos contatos, acabamos descendo juntos. Até carona para a Capital dei a um deles. Acabei adiantando um pouco na trilha, principalmente no trecho entre o A1 e o cruzo do Caratuva, parte que eu havia desviado no primeiro dia. Esse foi o trecho mais complicado de toda a conquista, são intermináveis raízes e barrancos lisos, quase pior que encarar o russo e a trilha escondida do dia anterior.
      Parei na Pedra do Grito para esperar minha nova parceria de viagem. Acordei com um grupo de 38 noviças, todas em vestes característica, de um branco engomado, tules e rendas chegaram subindo rumo ao Getúlio. Podem até ter subido mas garanto que vai dar trabalho para limpar todo o estrago nas vestes.
      Eram 15:10 quando chegamos na base. Desfeita a tralha, tomei um banho de gato, e pegamos a rodovia. Já eram 23:15 quando dei por encerrada com sucesso a aventura, comemorando com uma bela pizza no capricho.



       

       
       
       
    • Por divanei
      HUACACHINA - PERU
       
                Pela janela do ônibus vão nos saltando aos olhos uma paisagem desoladora, como se uma guerra nuclear tivesse destruído e acabado com tudo. Minha esposa já havia me interpelado uma dezena de vezes o porquê de estarmos nos dirigindo para o sul do Peru, numa paisagem feia de dar dó , ainda mais depois de termos passado uma dezena de dias espetaculares, com paisagens de sonhos, junto à Cordilheira Branca , na região de Huaraz.

               
                Me mantive firme no meu propósito e ao invés de deixar que o desânimo tomasse conta de mim, me concentrei no outro lado do ônibus , onde o Oceano Pacífico insistia em nos dizer que o deserto não era tão feio quanto parecia. Mas não era a paisagem natural que nos assolava a alma e sim as construções e habitações dos povoados e pequenas cidades, casas cobertas de palha ou sem uma cobertura de telhado, apenas uma laje apinhada de tranqueiras e ferros espostos, coisa feia de se ver, toda empoeirada, numa sujeira desgostosa, praticamente sem nenhuma árvore.

       
                A falta de telhado era mais do que justificável, muito porque estávamos em meio ao deserto, onde praticamente não chove e mesmo na capital do país não há telhados, não como temos no Brasil. O ônibus que pegamos custou uma ninharia, não mais que 25 reais para 6 horas de viagem, mas foi pegando gente a laço pelo caminho, num sobe e desce interminável e mesmo no outono, fazia um calor dos infernos, sem ar condicionado ou qualquer outra mordomia, mas era o preço pela economia. Vendedores entravam a todo momento, vendendo de tudo que se possa imaginar, principalmente comida e petiscos, alguns com uma cara muito boa, outros nem tanto.

                Já era começo de tarde quando desembarcamos em ICA, uma cidade até grande se comparada ao porte dos vilarejos que passamos, mas o trânsito caótico, com carros barulheiros e tuk-tuk espalhados para todos os lados. Com as cargueiras gigantes nas costas, fruto das bugigangas compradas na Cordilheira, saímos à procura de um restaurante para almoçar, mas se tem uma coisa que peruano gosta, é comer, e achar algo vazio que conseguisse nos atender foi quase impossível. Minha mulher já estava emputecida pela situação, pela viagem extremamente cansativa, mas muito mais pela paisagem, do qual ainda não compreendia porque havíamos andado tanto para ver coisa alguma que prestasse.
                Por fim, resolvi logo abandonar Ica e me dirigir para o nosso destino, o objetivo daquela viagem, e embarcamos no primeiro taxi que nos abordou, uma lata velha caindo aos pedaços, que por uns 8 reais, chacoalhou por 5 km até nos desovar no meio do Deserto, num vilarejo cercado de Dunas Gigantes e com uma lagoa no meio e as caras carrancudas, deram lugar a um sorriso de orelha a orelha em meio à uma das mais belas paisagens do mundo, HUACACHINA era nossa.

       
                 O Oásis é um lugar turístico e como tal, também pratica preços muito acima de outros lugares no Peru, ainda mais por ser fim de semana, mas foi só dar uma volta no minúsculo lugar para conseguir algo que coubesse no nosso bolso. O problema é que as coisas são tão baratas no Peru, que já havíamos nos acostumados com um padrão de preço e os 80 reais pagos na hospedagem nos pareceu uma fortuna, mas quando entramos no hotel e nos deparamos com uma acomodação chic , com banheira e até uma cozinha, minha esposa se alegrou de uma tal maneira que acabei achando que foi barato e comparado as hospedagem no Brasil, foi mesmo uma pechincha.

       
       
       
       
                Tomamos banho e fomos conhecer o vilarejo. As dunas são as mais altas do nosso continente e é quase impossível tirar os olhos delas, numa paisagem surpreendentemente diferente de tudo que vimos na vida. O lago e suas palmeiras dão um charme especial, ainda que hoje digam que ele é abastecido artificialmente. Como é um lugar turístico, é todo cercado de lojas, bares, hotéis, agências de turismo e todo tipo de comércio. Como é final de tarde, todo mundo se dirige para o alto de alguma duna para apreciar o pôr do sol, mas nós estávamos bem cansados e deixamos isso para o dia seguinte. Outra coisa que é um sucesso por ali é o passeio de bug, mas não são esses bugs mequetrefes que temos no litoral do Brasil não, são monstros construídos para destruir as dunas, mas nós mesmo não estávamos a fim de chacoalhar pelo deserto, já estávamos acostumados com nosso modesto 4 x 4 e em se tratando de emoção, nosso NIVA não ficava devendo nada para aqueles transformes peruanos.
                Depois que jantamos eu já deslumbrei dar a volta nas dunas no dia seguinte, coisa que minha mulher caiu fora, não passava pela cabeça dela levantar às 6 da manhã para escalar dunas de areia. Então no outro dia bem cedinho, apanhei minha mochilinha, coloquei uma garrafa d’água, uma máquina fotográfica, um lanche e assim que ganhei a rua, já enfiei os pés na areia e fui ganhando altitude. Mas era um passo para cima e dois passos para trás e mesmo ainda sendo nas primeiras horas da manhã, a areia fervia de tão quente e me senti um beduíno no meio do deserto.
                Aquela era a primeira experiência minha escalando uma duna e não demorou nadica para perceber que acabei subestimando aquele monumento natural. A areia quente começou a fritar meus pés e como estava apenas de sandálias, comecei a ficar desesperado. Parava às vezes e cavava um buraco na areia, tentando buscar um terreno menos quente, mas isso pouco resolvia, então a única coisa que consegui pensar foi a de colocar nos pés numa capa de saco de dormir que acabou ficando dentro da mochilinha e um saco de batatas fritas aluminado, aí eu já estava no desespero, meus miolos já haviam fritado também ou eu chegava logo no topo da duna ou tava morto.
       
       
                Do alto da grande muralha de areia o mundo se modificou. Lá embaixo o Oásis de Huacachina parecia uma pintura de um quadro e ao meu redor, o deserto parecia ter me introduzido dentro de um romance passado no Saara. O vento levantava uma areia fina e mesmo o sol queimando meus pés, ainda assim o encanto era maior que aquele sofrimento momentâneo. Cavei um buraco ainda maior e nele me enfiei, dando alívio aos meus pés e assim tive um maior conforto para apreciar aquela paisagem que talvez eu jamais veja novamente, talvez não com aquela proporção. Mas a minha intenção era a de dar a volta no oásis, então peguei minha mochilinha, tomei um gole d’água e parti, agora caminhando em nível, galgando as lombadas do terreno até que ser obrigado a abandonar a duna e quebrar à direita em direção aos bugs estacionados perto de um outro pequeno oásis.

                Perco altura lentamente, mas logo sou obrigado a despencar barranco à baixo porque a areia quente volta a fritar meus pés. O sofrimento recomeça e me vejo em desespero novamente, mas dessa vez o negócio ficou sério, então corro feito um calango do deserto até que chego à sobra de um dos bugs gigantes. Poderia muito bem abandonar aquela caminhada e a partir dali, voltar novamente para o hotel seguindo a trilha de areia que desce ao vilarejo, mas não vou arregar tão cedo.
                Continuo subindo até que passo pela caixa d’água instalada nesse selado de dunas, tomo um fôlego, ajeito a proteção tosca que havia colocado nos pés e sigo subindo até que alcanço de vez o cume mais alto daquele mostro de areia. São impressionantes o tamanho e a altura dessas dunas, de onde posso avistar povoados distantes, perdido num mundo árido e seco, sem árvores e totalmente desolados. Mas é justamente isso que torna esse oásis tão espetacularmente belo, é um sopro de vida no meio do caus. 

                Minha água acabou, o sol já destrói minha pele, mas mesmo assim continuo caminhando, agora em nível sobre o cume da duna, quase completando os 360 graus ao redor de Huacachina, mas antes que esse ciclo se feche, resolvo fazer algo inusitado: despencar da duna mais alta do nosso continente, ao invés de ir perdendo altura lentamente em direção ao vilarejo. Aos saltos e aos pulos, vou escorregando rapidamente, quase sem controle e quando a força da gravidade resolve fazer troça da minha pessoa, perco o controle totalmente e saio rolando desgovernadamente. Uma hora vejo o céu, outra hora vejo areia, outra hora o topo da duna, outra hora já não vejo mais nada. Meus olhos, meu nariz, minha boca foi tomada pela areia fina. Minha mochila e minhas sandálias se perderam nas dunas e eu virei passageiro do além e do acaso. Miséria dos infernos!!!! Sou um homem humilhado. Me levanto da surra e procuro saber onde estou e quem sou eu e logo  um monte de turistas, que estão passando nos pés das dunas me fazem recobrar a memória. Os japoneses ficam rindo e apontando para mim e eu apenas faço cara de paisagem, viro as costas e volto a subir a duna atrás dos meus pertences, só não encontrei minha dignidade. Recolho tudo e volto a descer até chegar a um chafariz no vilarejo, onde aproveito para lavar meus olhos, enquanto eu próprio não me contenho e caio na gargalhada com o ocorrido.
                Quando chego de volta ao hotel, sou obrigado a me jogar dentro de uma banheira de águas frias e por lá ficar até que meus pés se acalmem das queimaduras e eu consiga me livrar de toda areia que foi entrando em cada orifício. Resolvido o problema, saímos para um passeio mais demorado. É possível nadar no lago ou mesmo andar com umas canoas ou pedalinhos, mas eu queria mesmo era experimentar uma descida de sandboard, uma espécie de surf na areia, onde você pode alugar uma prancha pagando míseros 5 reais por 1 hora. Eu já havia feito isso uns 20 anos atrás nas praias da Joaquina em Florianópolis, mas havia me esquecido que não era tão fácil parar em pé como eu pensava e só fiz cair naquela desgraça, rolar sem rumo e encher meus olhos e meu nariz novamente de areia. Mas já que havia fracassado no surf de areia, ficamos por lá para assistir ao pôr do sol, isso sim era sucesso garantido.
                Huacachina é mesmo especial, um lugarzinho legal para descansar , experimentar umas comidinhas diferente ou simplesmente não fazer nada e como não fazer nada já começa a me irritar, tratamos logo de pegar nossas tralhar e picar a mula para outras paragens, fomos rumo ao Oceanos Pacífico, lá para as bandas de Paracás, outro lugarzinho lindo, com caminhadas e pedaladas para belas praias de águas geladas, onde pelicanos fazem sua morada, mas essa é outra história, o certo é que uma viagem ao Peru tem a capacidade de mudar sua visão de mundo para sempre, ninguém vai ao Peru e volta a mesma pessoa.

       
       



               
               
       
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