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Travessia do Parque Nacional Hardangervidda (Noruega) - jul/19


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Pico Hårteigen

Início: Odda
Final: Finse
Duração: 7 dias
Maior altitude: 1508m
Menor altitude: 0m em Odda
Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Alguns dias apresentam subidas e descidas mais longas. O único grande desnível é o do 1º dia (1445m).

Hardangervidda é o maior platô de montanha do norte da Europa (vidde = platô). Nesse lugar tão singular foi criado em 1981 o Parque Nacional Hardangervidda, que é o maior da Noruega e refúgio de um dos maiores rebanhos de rena selvagem do mundo. O parque se situa ao sul da famosa estrada de ferro Oslo-Bergen, numa distância aproximada (em linha reta) de 180km de Oslo e 120km de Bergen. 

Essa caminhada foi planejada para durar 10 dias, cobrindo, além do Hardangervidda, também o Parque Nacional Hallingsskarvet e o Cânion Aurlandsdalen, porém a chegada da chuva me fez interromper o percurso no 7º dia, quando ia entrar no Parque Nacional Hallingsskarvet. A previsão do yr.no acertou e choveu ainda mais dois dias. Retomei a caminhada no dia 01/08 (relato em www.mochileiros.com/topic/89261-travessia-do-parque-nacional-hallingsskarvet-e-cânion-aurlandsdalen-noruega-ago19).

QUANDO IR

A melhor época para o trekking nos parques da Noruega é o verão, com temperaturas mais agradáveis (não tão frio) e menos neve pelo caminho. Justamente nessa época os refúgios do tipo staffed permanecem abertos. No início de junho deve ainda haver neve do último inverno dificultando a caminhada. O guia Walking in Norway, de Connie Roos, sugere fazer a travessia do Parque Nacional Hardangervidda depois de 10 de julho.

O problema do trekking na Noruega (e na Suécia) é o alto índice de chuva. Pelo menos para nós brasileiros, que não estamos acostumados a caminhar vários dias embaixo de chuva, porém para os noruegueses isso não tem a menor importância. Eles vão para a trilha com chuva ou sem chuva. Eu tive cinco dias seguidos de sol nesse trekking e isso foi uma tremenda sorte.

Outro fator que dificulta o trekking por lá é a quantidade de pedras pelo caminho, às vezes são áreas extensas só de pedras, o que é bastante cansativo e obriga a caminhar com mais atenção para evitar uma queda ou torção. 

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Lago a 1194m de altitude no 6º dia de caminhada

REFÚGIOS DE MONTANHA

Em toda a Noruega, a DNT (Den Norske Turistforening = Associação Norueguesa de Trekking) (english.dnt.no) é a associação responsável pela manutenção das trilhas, pontes e refúgios de montanha. Os refúgios da DNT são de três tipos: self service, staffed ou no-service. Além dos refúgios da DNT há refúgios particulares.

1. Nos refúgios self service (com guardião ou sem guardião) você pode utilizar a cozinha para preparar as refeições, comprar a comida disponível se não tiver a sua própria e dormir nos beliches em espaços compartilhados. Antes de sair deve deixar tudo em ordem (lavar, secar, arrumar tudo, varrer o chão) e preencher o formulário de despesas, depositando numa urna metálica. A tabela de preços da DNT está disponível em todos os refúgios. A conta será enviada para o seu e-mail tempos depois. Como regra, não aceitam pagamento em dinheiro ou cartão no momento da hospedagem/compra, mas há exceções. Visitas diurnas (day visit) para descansar, comer ou apenas se aquecer também devem ser pagas.

A hospedagem para não-membros neste tipo de refúgio custa NOK 390 (US$ 47,14) e o day visit até 18h custa NOK 90 (US$ 10,88). Após 18h a visita deve ser paga como uma hospedagem. Sim, tudo na Noruega é muito caro! Para outros preços consulte english.dnt.no/routes-and-cabins.

Os refúgios self service podem ter guardião ou não na alta temporada. Eu conheci nove refúgios nesse trekking, apenas dois deles eram não-guardados. Nesses vale ainda mais a confiança de que o hóspede está pagando por tudo o que utilizou.

A DNT tem uma chave (fornecida somente aos membros) que abre a porta dos refúgios não-guardados, mas nesse trekking eu não encontrei nenhum refúgio trancado.

2. Os refúgios staffed (com funcionários) são hotéis de montanha. Neles você tem café da manhã e jantar disponíveis e não é permitido usar a cozinha. De comida para vender costumam ter apenas lanches de trilha básicos, como chocolates. Segundo o site da DNT (english.dnt.no/about-the-cabins) a maioria aceita cartão de débito e crédito.

A hospedagem para não-membros neste tipo de refúgio custa NOK 286 (US$ 34,57) em dormitório. Consulte english.dnt.no/routes-and-cabins para outros preços.

3. Os refúgios no-service são do mesmo estilo dos self service porém não têm comida. Não cheguei a conhecer nenhum refúgio desse tipo nos trekkings que fiz na Noruega.

Os refúgios particulares são também hotéis de montanha e têm tabelas próprias de preços.

CAMPING SELVAGEM

Para quem está com barraca, nos parques da Noruega vale mais ou menos a regra do "allemannsretten" ou direito de andar (ou direito de acesso), que diz que é permitido acampar em qualquer lugar a mais de 150m de uma casa, desde que não seja uma área cultivada ou haja uma placa de proibição. Digo 'mais ou menos' porque vi isso valer apenas nos refúgios self service; nos refúgios da DNT do tipo staffed eles pediam para acampar (gratuitamente) bem longe, fora da visão do refúgio. Acampar perto do refúgio DNT staffed custa NOK 100 (US$ 12,09) e dá direito de usar o banheiro e a sala de estar. Para mais informações sobre o "allemannsretten": www.visitnorway.com/plan-your-trip/travel-tips-a-z/right-of-access

O uso do banheiro para quem está acampando (ou apenas de passagem) é livre nos refúgios self service e costuma ser cobrado nos refúgios DNT staffed e particulares (ou gratuito se consumir alguma coisa). Nos self service o banheiro é do tipo seco, uma casinha separada, com uma bancada e o assento sobre ela. Muitas vezes o assento e a tampa são de isopor e há uma outra tampa de madeira para colocar por cima. Costumam ter papel higiênico. Nos staffed é um banheiro normal e interno.

ÁGUA POTÁVEL

Não há problema de escassez de água nesse percurso e nem todos os riachos e fontes estão descritos no texto pois são muitos.

REABASTECIMENTO DE COMIDA

Durante esse trekking há duas formas de se reabastecer de comida:

1. os refúgios da DNT do tipo self service têm um mercadinho (parece mais uma despensa) onde se pode comprar comida a preços ainda mais exorbitantes do que o habitual da Noruega (dobro ou triplo do preço da cidade). Há enlatados diversos (carne, almôndegas, frutas em calda e até espaguete), arroz, macarrão, sopa de envelope, purê de batata, biscoitos, pão sueco (não há pão de forma ou outro tipo), patê de fígado, chá, café instantâneo, aveia, leite em pó, geléia. 
Tanto nos refúgios com guardião quanto nos não-guardados deve-se preencher o formulário de despesas e depositar numa urna metálica. A conta será enviada para o seu e-mail tempos depois. Como regra, não aceitam pagamento em dinheiro ou cartão no momento da compra, mas há exceções.

2. na cidade de Fossli/Liseth me informaram que há um mercadinho no Garen Camping, mas eu teria que desviar 4km (ida e volta) do meu percurso e não fui até lá conferir

Nas duas pontas do trekking:
1. Odda tem três supermercados (Rema 1000, Spar e Extra)
2. Finse não tem nenhum comércio. O supermercado mais próximo está na cidade de Ustaoset, a 38km, podendo ser alcançada de trem 4 vezes por dia no verão

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Lago Mosdalsvatnet

1º DIA - 23/07/19 - de Odda ao Refúgio Mosdalsbu

Duração: 6h20 (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1445m
Menor altitude: 0m em Odda
Resumo: esse foi o dia de maior desnível (subida) já que saí da margem do fiorde (0m) e alcancei o platô Hardangervidda, que tem altitudes por volta de 1200m a 1500m. Nesse dia já percebi a dificuldade do terreno, muito pedregoso.

No dia 20/07 viajei de Oslo a Odda. Tomei às 9h40 na rodoviária Bussterminal de Oslo o ônibus da empresa Nor-Way. Saltei dele 1,8km antes do centro de Odda, às 16h45, para ir ao Odda Camping, único camping da cidade. Cheguei com chuva e choveu nos dois dias seguintes. A promessa de tempo melhor, apontada pelo site yr.no, me fez esperar todo esse tempo para começar a travessia.

No dia 23/07 saí do camping e me dirigi ao centro de Odda. Pretendia descer a pé até o centro mas o ônibus estava parado no ponto e o motorista gentilmente abriu a porta ao me ver, então não resisti (a mochila estava pesada por causa da comida para muitos dias). Passei ainda no supermercado e dei início à caminhada às 12h43 no posto de informação turística da cidade. Altitude de 0m já que estava de frente para o fiorde. Dali caminhei para leste, cruzei a ponte sobre o Rio Opo, passei pelo posto Esso e continuei pela estrada à esquerda. Uns 360m depois da ponte, onde há um ponto de ônibus, entrei na rua à direita, que bifurca. Fui para a esquerda seguindo a placa de Freimsvegen. Não entro na primeira rua à direita, continuo subindo e faço o zigue-zague mais longo. Após três curvas a rua toma o rumo sudeste. Nessa subida observo os curiosos telhados de pedra das casas e os quintais com pés de maçã e cereja. Na trifurcação no alto vou à esquerda. 

Às 13h15 chego a um estacionamento com cerca de 10 carros e descubro que há um ônibus que chega até ali (linha 994 Ragde-Freim). Altitude de 92m. Dali em diante o caminho é uma estradinha estreita de terra, há mais um estacionamento, a estradinha vira trilha e às 13h25 alcanço uma bifurcação num local chamado Freim. Há um painel informativo com mapa topográfico e as trilhas desenhadas. Ali encontro o primeiro T vermelho pintado numa pedra, sinalização usada pela DNT e que seguirei durante todas as caminhadas na Noruega. Subo à esquerda e a vista para Odda e o fiorde Sørfjorden vai se ampliando. Às 13h52 uma seta vermelha indica um desvio do caminho para a esquerda. Às 14h05, na altitude de 299m, entro na mata de pinheiros e encontro uma casal lanchando. Ele eram dinamarqueses e estavam terminando uma travessia ainda mais longa que a minha. Contaram que pegaram tempo muito ruim no alto da serra nos últimos dois dias. 

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Geleira Folgefonna ao fundo

Aos poucos a floresta de pinheiros vai dando lugar à mata nativa, mas às 15h41, na altitude de 882m, saio do limite das árvores. Na bifurcação vou à esquerda seguindo a placa de Møyfallsnuten. Uns 80m depois há uma trilha discreta subindo à esquerda com placa de Møyfallsnuten de novo e é para lá que devo seguir, mas antes paro no riacho próximo à direita (primeira água do dia), onde outros trilheiros descansam e fazem um lanche. Esse local se chama Freimsstølen e há algumas casas vazias. Altitude de 916m. A maior parte das pessoas que fazem o trajeto até aqui vai subir o Pico Rossnos, de 1407m, e para isso basta seguir à direita nessa última bifurcação, cruzar o riacho e subir no sentido sul-sudeste.

Retomo a caminhada às 16h33 subindo para nordeste por campo aberto e com visão do Pico Rossnos à direita e da Geleira Folgefonna (a terceira maior da Noruega) à esquerda, entre nuvens. Às 17h03 cruzo um riacho pelas pedras. Surgem ovelhas pastando, então é melhor tomar cuidado com a água (tive algumas emergências intestinais nessa caminhada, talvez por isso). 

Na altitude de 1394m, às 18h24, já estou caminhando num terreno só de pedras e desvio de uma grande mancha de neve e depois de um lago. A neblina já engoliu toda a paisagem, não enxergo mais que 100m. Às 19h03 atingi o ponto máximo do dia, aos 1445m, e estava a poucos metros do Pico Møyfallsnuten, de 1466m, mas não vi seu enorme totem. À medida que a neblina vai se tornando mais densa surgem pequenas geleiras que, apesar de próximas, eu mal consigo enxergar, tudo cinzento (das pedras e da neblina) e branco (da neve). É uma paisagem fantasmagórica. Tive de cruzar uma das manchas de neve mas ela era fofa e não escorreguei. A bota impermeável é necessária para não molhar os pés nessas situações. Cruzei alguns riachos que brotavam das pequenas geleiras ao redor. 

Às 20h05 cheguei à beirada desse platô e consegui visualizar a paisagem abaixo. A neblina foi se dissipando e pude ver quão bonita era a paisagem para noroeste, com o profundo fiorde Sørfjorden e a grande geleira além. Imensas cachoeiras despencam dos paredões. Na direção que eu deveria caminhar (nordeste) também havia um vale profundo que era do Lago Ringedalsvatnet, no qual está o superfotografado Trolltunga.

A descida por caminho só de pedras teve a sua dificuldade também. Mas felizmente abaixo encontrei uma trilha bem definida e sem pedras. Às 20h52 avistei um lago, mas ainda não era o local do meu acampamento. 

Às 21h05 encontro a primeira placa apontando o Refúgio Mosdalsbu. Uns 3 minutos depois já avisto bem abaixo o enorme lago encaixado entre as montanhas com o refúgio na outra margem. É o Lago Mosdalsvatnet. Desço até ele e o contorno pela esquerda. Chego ao refúgio da DNT às 21h40. Altitude de 1011m. Esse refúgio me surpreendeu por ser não-guardado, ou seja, não tem guardião cuidando. E tinha muita comida disponível. Tudo funciona na base da confiança e honestidade. Você preenche o formulário calculando todas as despesas de comida utilizada e hospedagem e deixa na urna metálica para receber a conta depois por e-mail. 

O telhado do refúgio é coberto de vegetação, como é comum na Noruega, para manter o isolamento térmico e a estabilidade da casa. Eu acampei perto do lago e havia mais três barracas nas partes mais altas. Nesses dias o sol estava se pondo por volta de 22h, mas às 23h ainda estava bem claro. A noite chega bem lentamente.

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Trolltunga

2º DIA - 24/07/19 - do Refúgio Mosdalsbu a Trolltunga

Duração: 9h20 (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1355m
Menor altitude: 1011m no Refúgio Mosdalsbu
Resumo: nesse dia subi dos 1011m aos 1355m e daí foi uma sucessão de sobe-e-desce por um terreno repleto de pedras bem ruim de caminhar

Finalmente amanheceu um dia lindo de sol e céu azul depois de muitos dias cinzentos e de chuva. Assim o Lago Mosdalsvatnet se mostrou muito mais bonito, pena que as torres de alta tensão estraguem um pouco a paisagem. 

Deixei o local de acampamento às 9h51 na direção leste e cruzei uma ponte suspensa sobre o escoadouro do lago. Na subida seguinte pude avistar a oeste o topo nevado das montanhas num cenário bem mais bonito do que no dia anterior, sem nuvens. As poucas árvores vão ficando para trás, restritas ao entorno do lago. Às 10h43 cruzei um riacho pelas pedras e subi mais. Lá do alto às 11h24 tenho a última visão para trás do Refúgio Mosdalsbu. Às 11h39 fui à direita numa bifurcação com placa que apontava a montanha Einseten à esquerda. O caminho, que já vinha se tornando mais pedregoso, agora é um verdadeiro campo de pedras, lugar bem ruim de andar.

Subi mais por entre diversos lagos e às 12h24 atinjo o topo (1346m), podendo vislumbrar o outro lado, o que não anima muito pois, apesar de muito bonito, é um mar de pedras, uma pedreira só. Sigo descendo por esse terreno difícil sempre seguindo o T vermelho pintado nas pedras. Às 13h08 avisto à esquerda (norte) os paredões do Lago Ringedalsvatnet. Às 13h31 cruzo um riacho pelas pedras e paro para conversar com um casal norueguês fazendo o trajeto ao contrário. Continuando, passo por lindos lagos azuis, sorte que o dia está ensolarado para ver toda essa beleza.

Descendo ainda pelas lajes e pedras, às 15h15 surge um grande desmoronamento e a descida está sinalizada por ali mesmo. Tive de descer com cuidado saltando de bloco em bloco. Abaixo, continuando por uma trilha mais plana, surge um imenso lago à direita, o Langavatnet. Numa bifurcação o caminho segue para a esquerda, mas vou à direita para me aproximar de um abrigo de emergência, uma casinha minúscula de pedras com cama, mesa e lareira. Telhado coberto de vegetação. Dali a vista para o lago bem abaixo é privilegiada porém o vento estava quase me derrubando lá de cima. 

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Lagos de montanha e muitas pedras pelo caminho

Voltando à bifurcação, tomo a trilha da esquerda às 15h36 e logo avisto uma grande barragem e algumas casas do outro lado do lago. A descida até ela foi um pouco complicada, por uma parede quase vertical. Às 15h57 já estava cruzando a barragem por uma passarela. Me aproximo de uma das casas e vejo que há um T vermelho na parede: é um refúgio da DNT chamado Langavassbu. E é não-guardado também! Tinha uma quantidade maior de comida que o anterior e ninguém tomando conta. A regra é a mesma: pegou ou usou, pagou. É bem parecido com o Refúgio Mosdalsbu por dentro, porém mais espaçoso. O banheiro tinha papel higiênico. Há água corrente bem próximo. 

Deixei o refúgio às 16h44. Às 17h05 começo a avistar o magnífico Lago Ringedalsvatnet. E logo avisto também, no meio das grandes lajes e morros de pedra, uma outra barragem. A trilha aponta para lá. Às 17h37 me aproximei da barragem e vi por uma placa com mapinha que deveria desviar dela, não era permitido caminhar pela passarela como na anterior. Tive de descer por uma ladeira de pedra meio complicada a poucos metros do paredão da barragem, caminhar alguns metros por um canal e subir de novo pela encosta do outro lado. Parei para descansar nas lajes de pedra por 13 minutos. Depois subi mais por uma trilha não muito bem sinalizada, passei pelos postes de energia, desci um pouco, subi de novo e passei a caminhar por um platô onde o avanço ficou muito mais fácil e rápido por não haver tantas pedras. Às 19h41 tive de cruzar duas línguas de neve mas nada complicado. Como estou contornando o enorme Lago Ringedalsvatnet avisto à esquerda (sul) o Lago Langavatnet, o da primeira barragem. 

Às 21h05 segui a placa de Preikestolen à esquerda e me surpreendi com uma visão estonteante do Lago Ringedalsvatnet bem abaixo, espremido entre os paredões colossais, lindo como um fiorde. Em sua extremidade oriental despenca a imensa cachoeira Ringedalsfossen. Um cenário inacreditável!

Voltei à trilha principal e dessa vez fui à direita (norte) na bifurcação para encontrar às 21h40 o Refúgio Reinaskorsbu, infelizmente em más condições, depredado e pichado, com parte do assoalho arrancado. O banheiro não tinha mais porta. Uma cena muito rara na Noruega (felizmente não vi mais nenhum refúgio nesse estado). O famoso e badalado Trolltunga estava a apenas 370m dali mas não fui até lá. Estava bem cansado e deixei essa visita para a manhã do dia seguinte. Por causa desse grande atrativo, que as pessoas adoram postar em Facebooks, Instagrams e outras redes, o local estava repleto de gente acampada. Contei cerca de 35 barracas mas devia haver mais escondidas entre as lajes de pedra. Montei a minha abrigada um pouco do vento e assisti a um belo pôr-do-sol às 21h45. Há pelo menos duas fontes de água corrente por perto. Altitude de 1191m.

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Lago Ringedalsvatnet

3º DIA - 25/07/19 - de Trolltunga a algum lugar entre Tyssevassbu e Torehytten

Duração: 7h20 (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1431m
Menor altitude: 1174m
Resumo: nesse dia não houve grandes desníveis, porém a dificuldade veio das travessias na neve e por caminhar a maior parte do dia ainda por pedras

Tratei de ir logo cedo ver o Trolltunga pois sabia que as multidões iam começar a chegar. A maioria das pessoas faz um bate-e-volta de um dia até esse atrativo vindo por um caminho bem mais curto e com desnível menor do que o que enfrentei (por volta de 800m). Caminham cerca de 14km a partir da vila de Skjeggedal, onde chega um ônibus que sai de Odda (e do Odda Camping). Depois das fotos voltei ao mirante Preikestolen para fotografar o lugar com a luz da manhã. 

Desmontei acampamento e quando voltei ao Trolltunga, às 11h16, a fila para tirar fotos já era bem grande. Deixei esse frenesi para trás e às 12h05 segui a placa de Tyssevassbu (refúgio), indo para leste. Com 17 minutos cruzei um riacho pelas pedras e 8 minutos depois um canal de água. Caminho para nordeste e leste passando por vários bonitos lagos à minha esquerda. Às 13h12 cruzei uma mancha de neve, curta, de cerca de 20m, mas nesse dia ainda teria muita neve para atravessar. Às 13h26 alcanço um conjunto de lagos com uma bonita cachoeira. Desço e cruzo um riacho num salto para chegar mais perto dela. Parei para lanchar por 16 minutos.

A trilha continua à direita da cachoeira. Subo, sigo o rio e às 14h09 tenho uma visão panorâmica de todo aquele lugar, como se tivesse atingido finalmente o grande platô Hardangervidda. Cruzo mais uma mancha de neve e tenho um enorme e recortado lago à esquerda. O que estraga novamente são as torres de alta tensão. Cruzo um riacho pelas pedras às 14h27 e 11 minutos depois chego a um canal de água um pouco complicado de ultrapassar já que corre entre paredes de pedra. Tentei onde o canal era mais estreito mas depois não consegui subir a parede do outro lado. Tive de percorrer o canal para a direita por 200m até encontrar um lugar onde fosse fácil cruzar a água e depois subir do outro lado. Quando voltei à trilha principal dois outros trilheiros estavam tentando cruzar onde eu tentei inicialmente e conseguiram, um ajudando o outro. 

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Platô Hardangervidda e grandes manchas de neve

Às 15h25 cruzei outro canal de água mas esse tinha uma tábua que servia como ponte precária. Às 15h48 cheguei ao Refúgio Tyssevassbu, no topo de uma colina de pedra. Esse foi o refúgio mais bem equipado e bem arrumado até agora, com fogão de 4 bocas com forno (os dois primeiros tinham fogão portátil de 3 bocas), armários de cozinha, estante com livros e despensa lotada de comida. Mas nesse havia uma pessoa cuidando, uma guardiã. Questionei sobre a forma de pagamento das despesas nos refúgios, que ela afirmou ser apenas através de transferência bancária internacional e não cartão de crédito. Expliquei sobre as taxas que seriam cobradas por uma transação como essa, se não seria possível pagar em dinheiro diretamente ao guardião/à guardiã do refúgio. Ela disse que as regras eram essas e ficou mal humorada. Paciência...

Aproveitei o sol gostoso que havia e fiz meu lanche do lado de fora do refúgio. Se fizesse o lanche dentro do refúgio teria de pagar um day visit de NOK 90 (US$ 10,88). Às 16h42 segui meu caminho para leste pela margem esquerda do lago seguindo a placa do Refúgio Litlos e começa uma sucessão de campos de neve para cruzar, de trechos curtos de 20m a longas travessias de mais de 200m. Numa travessia longa assim na neve fica até difícil saber para que direção caminhar já que os T vermelhos ficam muito distantes entre si. E quando não estava caminhando sobre a neve estava andando sobre pedras, ambos bastante cansativos. Desviar dos campos de neve dava muito trabalho também, era mais fácil caminhar pisando onde outros já haviam feito um caminho.

Às 19h36 passei por uma singela plaquinha onde está escrito em norueguês: Parque Nacional - área protegida pela Lei de Conservação da Natureza, indicando timidamente que estou entrando nos limites do Parque Nacional Hardangervidda. Cruzei um riacho e às 19h37 observo no horizonte a nordeste um grande rochoso de formato quase retangular, lembrando a Pedra do Baú de São Bento do Sapucaí, porém de ângulos mais arredondados. Era o Pico Hårteigen, ao largo do qual eu passaria no dia seguinte. Cruzo mais neve, outro riacho e continuam os bonitos lagos à esquerda. 

Às 20h22 surge um rio que deu mais trabalho. Procurei um lugar mais abaixo onde pudesse saltar para a outra margem mas não achei lugar seguro para isso, então o jeito foi tirar as botas e entrar na água gelada onde a correnteza fosse mais fraca. Água pelos joelhos. Uns 230m depois fui à esquerda na bifurcação seguindo a placa Torehytten (refúgio), à direita se vai ao Refúgio Litlos. A trilha deixa a direção leste e aos poucos toma o rumo norte, agora bem mais fácil, uma trilha bem marcada pelo campo, não mais um caminho mal definido no mar de pedras. Cruzei mais uma mancha de neve, um riacho e parei para acampar num vale à esquerda do caminho às 22h (com plena luz do dia). Altitude de 1327m.

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Mancha de neve que cruzei

4º DIA - 26/07/19 - de algum lugar entre Tyssevassbu e Torehytten ao vale do Rio Veig

Duração: 8h15 (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1473m
Menor altitude: 995m
Resumo: dia fácil pois, após uma subida inicial, o restante do dia foi quase todo de descida (com uma subida bem no final para o local de acampamento). A caminhada se tornou bem mais agradável e rápida pois em lugar dos campos de pedra agora há uma trilha bem marcada no capim.

Deixei o local de acampamento às 9h56 já tendo de cruzar uma mancha de neve de mais de 40m. Subi no sentido nordeste. Cruzei um riacho às 10h29 e 10 minutos depois foi a vez de encarar a travessia de dois rios consecutivos. No primeiro foi possível atravessar pelas pedras mas no segundo tive de tirar as botas (água na altura da canela). Volto a subir. No alto parei por 34 minutos para conferir os caminhos no gps. Atinjo o ponto máximo do dia (1473m) às 12h31 e 4 minutos depois avisto ainda bem longe o Refúgio Torehytten à beira de um lago.

Às 12h57 surge à direita o imponente pico Hårteigen, que eu avistara na tarde do dia anterior. Em 3 minutos encontro uma cachoeira que deságua num lago abaixo à esquerda. Desvio da mancha de neve acima do lago e tento continuar por uma trilha na encosta, mas ela vai sumindo e eu resolvo voltar à cachoeira e descer pela piramba de pedras soltas para tomar a trilha que segue abaixo, ao lado do lago. Às 13h22 cruzo um riacho pelas pedras com a espetacular vista do Pico Hårteigen refletido em suas águas. Uns 9 minutos depois atravesso uma mancha de neve de uns 30m com a dificuldade de ser inclinada para baixo, com maior risco de escorregar. Às 13h43 alcanço uma bifurcação e sigo para a esquerda após pegar água no riacho ao lado. À direita se vai ao Pico Hårteigen (e depois ao Refúgio Litlos), mas não planejei subi-lo durante essa travessia, quem sabe na próxima vez. 

Quando pensei que já estava chegando ao Refúgio Torehytten ainda tive de fazer um desvio à direita para contornar um canal que saía do lago. Desci ao canal, cruzei pelos blocos de pedra e subi a trilha íngreme do outro lado. Cheguei finalmente ao refúgio às 14h23. Fui recebido pela guardiã e seu ajudante, ambos muito simpáticos, que me informaram que em Fossli/Liseth, vilarejo que é meu destino no dia seguinte, não havia lugar para comprar comida. Isso me obrigava a comprar comida-reserva ali mesmo e a ela permitiu que eu pagasse em dinheiro (ao contrário da mal humorada do Refúgio Tyssevassbu). Anotamos tudo no formulário da DNT. Nesse local havia um trilheiro com queimaduras de sol pelo corpo todo, parece que eles não têm noção de como o sol pode ser perigoso. Nem boné eles usam. Esse refúgio é grande, ocupa duas casas, e tem uma despensa muito variada. 

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Paisagens grandiosas

A partir do Refúgio Torehytten há dois caminhos importantes: a noroeste se vai a Kinsarvik, voltando à rodovia 13 que passa em Odda, e a nordeste se vai a Fossli/Liseth e à rodovia 7. Como eu ia para Fossli e depois continuar para o norte tomei a direção nordeste, subindo, às 15h18. Às 15h56 avisto um grande lago azulado e passo a caminhar pelo alto de sua encosta oeste. Após o lago, o rio que se origina dele faz algumas curvas e desaparece num cânion. Mais abaixo ele despenca numa grande cachoeira ocultada pelos paredões e depois se espalha por um extenso e verdejante vale cortado pela trilha. Todo esse conjunto de paisagem chama muito a atenção pela beleza e grandiosidade. Considero que foi um lugares mais bonitos de todo esse trekking. 

A trilha segue pelo campo bem verdinho e me aproximo da margem esquerda do rio. Às 17h43 a sinalização continua na outra margem e sou obrigado a tirar as botas novamente para atravessar (água abaixo das canelas). Às 18h14 sigo a placa de Hadlaskard (refúgio), indo para a frente (esquerda) pois à direita se vai também ao Refúgio Litlos. Me aproximo de algumas casas isoladas, mas nenhuma é refúgio da DNT. Cruzo o rio raso pelas pedras bem em frente às casas e desperto a atenção de um cachorro, que começa a latir. 

Continuo caminhando pelos campos de vegetação baixa e às 19h36 cruzo um riacho pelas pedras. Às 20h06 aparece um rio à direita (Rio Veig) e começam a aparecer árvores também, algo que eu não via desde o início do segundo dia. Logo surge o Refúgio Hadlaskard na outra margem do Rio Veig. Às 20h22 vou à direita na bifurcação em que a esquerda leva ao Refúgio Stavali. Cruzo a ponte sobre o largo rio e entro no refúgio para conhecer. Ali também foi possível comprar comida sem burocracia. Coloquei o dinheiro num envelope e depositei numa urna metálica de acordo com as instruções da guardiã do refúgio, que não conferiu nada. Mas não acampei ali, achei que tinha gente demais e eu queria sossego. Também queria adiantar o percurso a Fossli/Liseth e tinha bastante tempo para isso nesse dia.

Deixei o Refúgio Hadlaskard às 20h45 e tomei um caminho largo diretamente para o norte, seguindo o Rio Veig pela margem direita. Às 21h10 cruzei uma ponte de tábuas (peguei água para a noite) e em 5 minutos atravessei um conjunto de casas de pedra com vegetação no telhado (devem ser casas de pastores). Dali em diante a trilha subiu bastante e retomou a direção norte. A visão para o vale do Rio Veig se alarga. Às 21h58 parei numa clareira que surgiu à direita e montei a barraca com vista para o Pico Hårteigen (3,5km após o Refúgio Hadlaskard). Altitude de 1153m. 

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Cachoeira Vøringsfossen

5º DIA - 27/07/19 - do vale do Rio Veig a Fossli/Liseth

Duração: 8h25 (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1188m
Menor altitude: 670m na rodovia 7 em Fossli/Liseth
Resumo: nesse dia desci ao Refúgio Hedlo e logo subi ao ponto mais alto do dia. Em seguida desci ao vale onde fica Hjølmo e subi a colina seguinte para descer ao ponto mais baixo do dia em Fossli/Liseth.

Deixei o acampamento às 9h49 e continuei no caminho para o norte, inicialmente por extensas lajes de pedra, depois voltando a caminhar pelo campo bem verde. Às 10h19, numa bifurcação, a placa aponta para o Refúgio Dyranut à direita, mas sigo para o Refúgio Hedlo, em frente. Cruzei duas pontes consecutivas e em seguida passei por casas de pedra vazias. Me aproximo novamente do Rio Veig e ele forma um bonito lago com a água escorrendo sobre lajes. Continuo seguindo o rio e às 11h18 avisto o Refúgio Hedlo às suas margens. Numa bifurcação perto do rio uma placa aponta para o Refúgio Stavali à esquerda. Cheguei ao Refúgio Hedlo às 11h35 e ele é particular (não é da DNT) e staffed (com funcionário). É uma casa grande de dois andares ao lado de altas árvores. Numa demonstração da confiança que existe entre as pessoas na Noruega havia na sala uma mesa com guloseimas e refrigerantes e ao lado uma tigelinha onde se deixa o pagamento do que for consumido. 

Vi um grupo de noruegueses cinquentões (como eu) parar ali para descansar e, aproveitando a habitual simpatia norueguesa, fui conversar com eles e perguntar se eles sabiam de lugar para comprar comida na vila de Fossli. Também não conheciam. Eles estavam fazendo um circuito de trilhas a partir do Refúgio Vivelid.

Deixei o Refúgio Hedlo às 12h41 continuando o caminho para o norte, seguindo as placas de Liseth (vila), Hjølmo (estacionamento) e Vivelid (refúgio). A trilha atravessa um pequeno bosque e tem muitas pedras. Às 13h16 avistei mais casas num vale mas a trilha não se aproxima delas, em vez disso as contorna pela esquerda e depois sobe a colina ao fundo, onde despenca uma bonita cachoeira. Nesse contorno pela esquerda cruzo uma ponte de tábuas às 13h40 e na bifurcação vou à direita (à esquerda se vai ao Refúgio Vivelid). Em seguida subo a colina e a visão do vale para trás vai ficando cada vez mais bonita. No alto (desnível de 169m) vou à direita na bifurcação às 14h20 seguindo a placa de Liseth (à esquerda se desce a Hjølmo). Uns 100m depois da placa parei por 18 minutos e escutei sinos de ovelhas por perto, portanto cuidado com a água! Subo mais e encontro sobre uma pedra um crânio de rena com uma grande galhada. Infelizmente essa foi a única rena que eu vi em todo esse trekking. Não há nenhuma sinalização indicando, mas consultando os mapas eu vi que estava saindo dos limites do Parque Nacional Hardangervidda. 

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Rio Veig e Refúgio Hedlo

Atinjo o ponto mais alto do dia (1188m) às 15h03 e para trás (sul) ainda vejo o Pico Hårteigen no horizonte. À esquerda (norte) enxergo bem longe também a ponta de um lago (Eidfjordvatnet) e de um fiorde (Eidfjorden). Começo a descer desse platô às 15h14 em direção a um vale (com algumas casas) e avisto montanhas nevadas ao fundo e Hjølmo à esquerda. Quase no final da descida passo por uma fonte de água e depois cruzo um riacho pelas pedras. Às 16h13 vou em frente na bifurcação com placa apontando Vivelid à esquerda e cruzo o rio principal do vale por uma ponte. Do outro lado não há placa e a trilha não é tão marcada, mas fui para a direita (leste), passei próximo das casas e a trilha vai fazendo uma curva para nordeste, subindo bastante pela encosta da margem direita verdadeira de um rio. 

Às 18h46 avisto a vila de Fossli/Liseth e pego uma trilha à esquerda bem marcada e até com estacas, mas não foi um bom caminho. Quando percebi que estava fora do trajeto gravado no gps já tinha descido bastante e achei que os dois fossem convergir, mas não aconteceu. Esse caminho tinha solo fofo (turfeira?) e foi ficando ruim de andar, mas continuei nele para ver onde ia parar. Desci bastante. Nas bifurcações que apareceram fui à esquerda (19h33), direita (180m depois) seguindo a placa Vøringsfossen e direita (15m depois). Me aproximei das primeiras casas e às 19h46 cheguei a uma estrada de cascalho, onde desci para a direita. 

Às 19h57 alcancei o asfalto da rodovia 7, chegando enfim a Fossli/Liseth. Fui para a direita por 800m, entrando na estrada de asfalto à esquerda. Subi e tomei a esquerda na bifurcação, chegando ao Fossli Hotel às 20h34. À esquerda (norte) do hotel começa uma trilha secundária para o Refúgio Rembesdalsseter, meu destino no dia seguinte. Mas antes de entrar na trilha fui visitar a maior atração do lugar, a linda cachoeira Vøringsfossen, que despenca 182m do platô Hardangervidda para dentro do Cânion Måbødalen, que corre em direção ao Eidfjorden (passando pelo Lago Eidfjordvatnet). O lugar é bem turístico, com passarelas e mirantes. Fica bem em frente ao hotel e o acesso é gratuito. 

No hotel fui informado de que os mercados mais próximos são: Coop em Eidfjord (18km a oeste pela rodovia 7) e no Garen Camping (2km a leste também pela rodovia 7). Como não quis fazer nenhum desvio da rota, teria que comprar comida no próximo refúgio. Entrei na trilha às 21h03 e subi. Coletei água num riacho onde havia mangueira de captação e subi mais. Procurei um lugar plano para montar a barraca e encontrei um bom local uns 160m antes de uma bifurcação que vem diretamente da Hospedaria Liseth. Essa é a trilha oficial da DNT, a que eu fiz nem sinalização tem. Altitude de 852m. 

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Fiorde Simadalsfjorden ao fundo

6º DIA - 28/07/19 - de Fossli/Liseth a Rembesdalsseter

Duração: 7h30 (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1198m
Menor altitude: 843m
Resumo: dia difícil, com muitos desníveis. Subi dos 852m aos 1198m para em seguida baixar aos 843m de novo, subir aos 1154m, descer aos 907m e subir aos 1023m

Iniciei a caminhada do dia às 9h04, tomei a esquerda na bifurcação com placa de Liseth à direita e continuei subindo. Às 9h21 parei num riacho à esquerda e segui às 9h46. Às 10h13 passei à esquerda de uma casa e subi muito ainda. Parei para descansar por 25 minutos na altitude de 1104m. Às 11h23 alcancei um bonito lago e logo a subida teve fim, aos 1198m de altitude (a maior do dia). Comecei a descer à esquerda de um canal de água e passei por uma placa apontando a montanha Store Ishaug, de 1485m, à esquerda. Às 11h37 avisto o Lago Rembesdalsvatnet, onde está o Refúgio Rembesdalsseter, mas o caminho até ele seria tão difícil que só conseguiria chegar no final do dia. A trilha desce suavemente por lajes e trechos de pedras e às 11h56 parei próximo a um riacho. Às 12h34 já avisto o primeiro obstáculo que tenho pela frente: descer a um platô bem abaixo e depois subir de novo por uma crista para me aproximar do Lago Rembesdalsvatnet. A descida exigiu atenção por ser bastante inclinada e no meio dela encontrei um norueguês que estava subindo desde uma estrada lá no fundo do vale, muito abaixo do platô. Ele estava fazendo uma caminhada de um dia e não tinha nem mochila. 

Às 13h23 a descida teve fim nas placas apontando Rembesdalsseter à direita e Tveit à esquerda, de onde veio o norueguês. Fui para a direita (leste) e às 13h50 cruzei uma ponte estreita de tábuas sobre o escoadouro de um lago à direita (ali a menor altitude do dia, 843m). Fiz uma pausa para descansar e às 14h17 encarei a subida pela crista, mas parei muitas vezes para admirar e fotografar a beleza impressionante desse lugar. Os paredões a oeste despencam para um vale verdejante com a ponta de um fiorde (Simadalsfjorden) bem distante. Atinjo o topo às 15h13 e tenho visão para o outro lado, um imenso vale a leste. E volto a ter vista para oeste de novo, onde visualizo melhor o fiorde ao fundo. Numa bifurcação fui à direita me afastando da beirada do precipício. 

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Lago Rembesdalsvatnet bem distante ainda

Às 15h58 vejo novamente o Lago Rembesdalsvatnet, mas a casa que está ao lado da barragem não é o refúgio ainda. Ele fica no lado oposto do lago. Numa bifurcação lanchei por 37 minutos e desci às 16h50 à esquerda seguindo a placa de Rembesdalsseter (à direita se vai ao Refúgio Kjeldebu). Depois de um pequeno desce-e-sobe pela encosta (onde cruzei um riacho) avistei finalmente o refúgio às 17h25, ainda muito distante, com o enorme lago no meio. Comecei a descer em direção à barragem e era uma piramba difícil, muito íngreme. Encontrei com dois noruegueses subindo e estavam reclamando daquela trilha ruim em lugar de um caminho melhor que há, porém impossibilitado pela queda de uma ponte. 

Às 17h53 alcancei a barragem e a cruzei. Dali tive uma bonita visão do grande Lago Rembesdalsvatnet com uma geleira no alto da montanha ao fundo. Esse é um braço da imensa Geleira Hardangerjøkulen, a sexta maior da Noruega. Ventava muito. No outro lado tomei um caminho duplo para a esquerda que logo virou um caminho simples e fez algumas curvas. Mais acima tenho visão de frente para a barragem com o lago e a geleira no alto. Às 18h44 cruzei a extremidade de um lago por uma pequena barragem (ruim para quem tem fobia de altura). Às 18h51 cruzei um riacho pelas pedras e às 19h22 fui à direita numa bifurcação com placas em que à esquerda se vai a Hallingskeid (refúgio e estação ferroviária). Às 19h36 cruzo uma porteira (!?) e em seguida uma ponte de tábuas. Às 19h43 vou à direita numa bifurcação com placas em que a esquerda leva a Finse (meu destino no dia seguinte). Às 19h56 chego enfim ao Refúgio Rembesdalsseter, a 965m de altitude. É um refúgio self service guardado. A guardiã me recebeu com um certo mau humor e quando falei do problema do pagamento por transferência internacional ela foi um pouco grossa na resposta. Quando eu entrei sem querer no refúgio com as botas ela me mandou tirá-las imediatamente. Não sei como colocam uma pessoa tão estúpida num lugar onde se atende tanta gente todos os dias. E vi ela ser impaciente com os outros também.

Como ventava muito na encosta onde estava o refúgio procurei um lugar do outro lado da colina, por onde havia chegado. Acabei montando a barraca numa parte mais baixa, perto de um outro lago, onde ventava menos. À noite começou uma chuva muito forte, com trovões, mas felizmente os raios estavam caindo bem longe dali. Porém esse foi o prenúncio da mudança de tempo que viria no dia seguinte. Altitude de 985m.

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Lago próximo ao Refúgio Rembesdalsseter

7º DIA - 29/07/19 - de Rembesdalsseter a Finse

Duração: 8h (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1508m
Menor altitude: 981m
Resumo: dia fácil com pouco desnível, apenas uma subida mais forte na primeira hora e uma longa descida no final do dia

O dia amanheceu bonito depois da tempestade da noite anterior e felizmente não tive de desmontar a barraca na chuva. Comecei a caminhar às 10h56 voltando à última bifurcação com placas do dia anterior e seguindo para a direita, direção de Finse. Subi por uma trilha íngreme e alcancei um pequeno platô rochoso com lagos. Cruzei um riacho às 12h11, outro daí a 20 minutos e depois deles a vegetação praticamente desapareceu. Às 13h36 tive de cruzar um rio com um certo risco. No primeiro lance havia uma tábua, mas no segundo o salto tinha que ser certeiro, sem escorregar para não cair na correnteza. Na sequência havia uma grande ponte pois era um escoadouro bem largo de um lago à direita. 

Continuo caminhando passando por diversos lagos, alguns muito bonitos, de cor esverdeada. Num deles despenca uma bonita cachoeira que vem diretamente da geleira acima. Às 15h28 avisto um outro ângulo da enorme Geleira Hardangerjøkulen. O céu começa a acumular nuvens bem carregadas. A visão da geleira é magnífica, aquela vastidão de gelo se desprendendo em blocos e despencando num grande lago. Porém admirei essa beleza toda já embaixo de chuva, junto com o vento frio que vinha da geleira. Choveu mais de uma hora. Às 16h51 começam a aparecer as manchas de neve para atravessar, das mais curtas de cerca de 30m à mais extensa, por volta de 100m. 

Às 17h43 cruzo um riacho pelas pedras, mas às 18h03 tive de tirar as botas e pegar duas varas deixadas ali para atravessar um rio mais largo. Em seguida já tenho visão mais ampla e consigo enxergar a estrada de ferro Oslo-Bergen, da qual Finse é uma estação. Mas ainda tinha mais neve para cruzar, a última desse trekking, e era inclinada, então desci quase esquiando (sem esquis!). A descida continua na pura pedra, bem cansativa. Às 18h28 já visualizo o enorme Lago Finsevatnet com casas espalhadas entre ele e a linha férrea.

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Lago a caminho de Finse

Cruzei uma ponte suspensa às 19h10 e outra 9 minutos depois. Uns 5 minutos depois cruzo um riacho largo pelas pedras. Às 19h36 passo ao lado das primeiras casas, por isso já havia visto gente acampada antes, para manter a exigida distância das casas (mínimo de 150m, mas quanto mais fora da visão melhor). Subi até a linha do trem e a cruzei às 19h54. Subi mais 20m e tomei a estradinha de cascalho para a direita. Às 20h08 parei por 8 minutos no túnel sob a linha férrea para me abrigar da chuva fraca. Às 20h34 cruzei uma porteira de ferro, uma ponte e cheguei a Finse às 20h43. Finse é a estação mais alta da estrada de ferro Oslo-Bergen, com altitude de 1228m. 

Com a mudança de tempo e chegada da chuva, eu precisava verificar a previsão para os próximos três dias de caminhada no Parque Nacional Hallingskarvet e Cânion Aurlandsdalen. Aproveitei o wifi aberto do Hotel Finse 1222 e consultei o yr.no. Esse hotel fica exatamente ao lado da estação de trem, onde também havia wifi aberto. Não era nada animadora a previsão. Além disso eu precisava comprar mais comida e Finse não tem nem um mercadinho sequer. Mas, mesmo postergando a caminhada, tinha de achar um lugar para acampar essa noite.

Fui até o Refúgio Finsehytta da DNT, que parece mais um hotel, porém no acesso a ele uma plaquinha já alerta para a proibição de acampar em Finse, sendo permitido apenas na margem sul do Lago Finsevatnet (cerca de 1km dali) ou no caminho para Geiteryggen. O uso do banheiro no refúgio é gratuito (banho é pago). Resolvi acampar no caminho para Geiteryggen, que seria o início do trekking do dia seguinte. Voltei à estação do trem, cruzei a estrada de ferro às 21h53 e segui a placa de Geiteryggen após o portão de madeira. Subi pela rua principal de cascalho e segui a sinalização do T vermelho entrando numa trilha à direita, cerca de 300m depois da linha férrea. Subi até me distanciar de todas as casas, praticamente no final da ladeira, onde encontrei um lugar plano para a barraca. Água fui buscar num riacho 370m à frente. Altitude de 1338m.

O dia seguinte (30/07) amanheceu apenas cinzento e até pensei que daria para continuar se tivesse comida para mais três dias, mas logo veio uma forte neblina que não permitia enxergar mais que 30m. Desci de volta à estação e peguei o próximo trem para a cidade de Geilo, onde me hospedei no hostel HI à espera de tempo melhor para continuar a caminhada no Parque Nacional Hallingskarvet e Cânion Aurlandsdalen, que descrevo nesse relato.

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Informações adicionais:

. para saber os preços de hospedagem e refeições nos refúgios da DNT consulte os valores atualizados em english.dnt.no/routes-and-cabins. Para se tornar membro da DNT e ter descontos o valor da anuidade é NOK 695 (US$ 84), valor de 2019 para adultos entre 27 e 66 anos. 

. Odda Camping: NOK 160 (US$ 19,34) para uma barraca com uma pessoa, NOK 200 (US$ 24,17) para uma barraca com duas pessoas. A ducha quente custa NOK 20 (US$ 2,42) a cada 5 minutos (funciona com moeda). Site: oddacamping.no/en

. mapa do parque com as trilhas e refúgios: ut.no/kart

. a temperatura mínima durante a noite fora da barraca ficou entre 10ºC e 13,9ºC

. para planejar qualquer viagem de ônibus, trem ou barco na Noruega: en-tur.no (clique em Meny e selecione English)

. ônibus Oslo-Odda: www.nor-way.no/en

. ônibus Odda Camping(Toppen)-centro de Odda: www.skyss.no/en

. ônibus Fossli-Bergen: www.skyss.no/en

. trens na Noruega: www.vy.no/en

. roteiro adaptado a partir das informações do guia Walking in Norway, de Connie Roos, Editora Cicerone

Rafael Santiago
julho/2019
https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br

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    • Por Alan Rafael Kinder
      INTRODUÇÃO
      Bom dia pessoas!
      Segue o relato da viagem em grupo que fiz neste final de semana (dias 15 e 16 de maio de 2021) até o município de Alfredo Wagner/SC, conhecida também como a capital catarinense das nascentes de Santa Catarina.

      Foto do grupo, no estacionamento - início da 'trilha de acesso'.
      De lá, seguimos por cerca de 17km em uma estrada do interior que leva até o ponto de estacionamento que dá início à 'trilha de acesso' aos Soldados Sebold.
      O caminho de carro até lá é de fácil acesso, você consegue se localizar através do GPS sem qualquer dificuldade - e quando a estrada no Maps acaba, haverão placas indicando o final do percurso até o estacionamento.
      É cobrada uma taxa de R$ 10,00 por veículo para deixa-lo estacionado (apenas dinheiro).
      Caso tenhas um veículo 4x4, podes seguir por um acesso que leva até ao acampamento (todavia você perde a chance de fazer a 'trilha de acesso').
      Para poder acessar a fazenda particular onde os Soldados Sebold estão, é necessário reservar com antecedência (mas vi pessoas chegando de carro na hora e negociando na recepção - todavia não indico pois corre-se o risco de não haver mais vagas).
      Informações específicas sobre valores e reserva podem ser obtidos diretamente no site deles: www.soldadossebold.com.br.
      Estávamos em um grupo com 06 pessoas, fizemos a reserva com duas semanas de antecedência, e conseguimos apenas vagas para o 'acampamento alto' - todas as opções de hospedagem (refúgios) e as vagas no 'acampamento baixo' já estavam ocupadas.
      O valor por pernoite acampando é de R$ 50,00 por pessoa, com acesso à toda estrutura da fazenda (mesmo que você esteja no 'acampamento alto').
      Bem, abaixo vou segmentar o relato, em ordem cronológica, falando das trilhas e da fazenda...
       
      TRILHA DE ACESSO
      Como já havia pontuado acima, a trilha começa no ponto de estacionamento, e segue inicialmente por uma larga estrada rural, passando em dois momentos por rios rasos, e depois um forte aclive até uma interseção que faz os caminhantes subirem o paredão por uma passagem, e depois retorna para uma estrada rural que leva até ao acampamento.
      O caminho em si é fácil, com apenas 7km (conforme nosso mapeamento - no site consta cerca de 6km) e 414m de elevação (qual se acumula após passar do segundo rio, até o topo do paredão).
      Ambas as passagens pelos rios podem ser feitas pelas pedras (com um pouco de trabalho - não tem um caminho bem definido). Ou tirando os calçados e passando pela água que chegará até a canela. Eu atravessei com botas de trilha de cano alto, pelas pedras.

      Primeiro rio, no primeiros momentos da trilha de acesso.

      Segundo rio, logo após o primeiro.
      Após o segundo rio, não demorará para chegar no início de um aclive acentuado pela estrada, com muitas pedras soltas. Ele é longo e sinuoso.
      Em certo momento, facilmente poderá se perceber um desvio para a esquerda (há inclusive marcações e uma plaquinha), onde saímos da estrada e pegamos uma trilha que nos levará até o topo do paredão. Trata-se de um caminho bem definido, com também muito aclive, e no final o solo argiloso fica úmido (mesmo em um dia ensolarado).
      Já no topo do paredão é possível ter o primeiro vislumbre das formações montanhosas (e dos Soldados Sebold) ao final do vale.

      Caminho pelo pasto logo após a subida do paredão (depois daqui quase não haverá mais aclives).
      A trilha percorre um pasto, disputando o espaço com algumas vaquinhas, e culmina na estrada rural, que ziguezagueia por cerca de 2km até a entrada da fazenda, com pequenas subidas e descidas. Quase chegando a porteira, temos ainda uma elevação considerável para encarar.

      Estrada rural que segue até a entrada da fazenda - já dar para ver os Soldados Sebold ao fundo.
       
      ACAMPAMENTOS BAIXO E ALTO
      Quando você chegar na porteira da fazenda, um funcionário verificará se os nomes estão na lista de reservas, daquele ponto a estrada se divide, com um caminho descendo até o 'acampamento baixo', e o outro subindo até o 'acampamento alto'.
      A recepção, os refúgios, os chuveiros, a lojinha/bar e praticamente toda estrutura da fazenda ficam no 'acampamento baixo'. Lá há sinal de wifi, tomadas para recarregar os equipamentos, água quente para banho e luz. Na cozinha compartilhada tu encontras um fogão e uma geladeira. Há algumas (poucas) mesas distribuídas pelo espaço, e também, obviamente, áreas para acampar distribuídas ao redor de toda estrutura.

      Um dos refúgios para locação na frente, a cozinha comunitária e outro refúgio ao fundo - parte da estrutura no 'acampamento baixo'.
      Há dois sanitários, três pias, e dois chuveiros (e também há um banheiro/chuveiro numa casinha de madeira pequeninha).
      Um dos chuveiros não estava esquentando nesse final de semana, e os demais ficavam mais 'fracos' quando ligados simultaneamente.
      Ah, a água é potável em todo acampamento!
      A lojinha/bar serve frituras, bolos, pinhão (nessa época) e outras coisinhas (camisas). Há também refrigerante e cerveja (Ecobier).
      Os preços são justos (considerando o isolamento do lugar - uma Ecobier de 600ml sai por R$ 10,00).
      É aceito cartão de crédito.
      Naturalmente pede-se para que todos tenham a sensibilidade com a questão do lixo, e no 'acampamento baixo' há um local para depósito de reciclados.
      Diferentemente do 'acampamento baixo', no 'acampamento alto' quase não há estrutura.
      Basicamente é um pasto enorme com vários pontos dispersos de acampamento (o espaço é bem amplo).
      Existem algumas torneiras distribuídas, e também uma pia.
      Tem uma casinha de madeira com um vaso, e ao lado de fora outra pia - mesmo durante o dia fica escuro lá, necessitando de uma lanterna para usar.
      Não há pontos de energia, nem luz, nem mesas - enfim, tem uma pegada mais selvagem.

      Conexão entre o acampamento baixo e alto, com aclive acentuado e cerca de 600m.

      Um dos lados do acampamento alto (ele é bem amplo), em foco o banheiro.
      Nós acampamos nessa área, e foi super de boas. É um pouco difícil achar áreas planas (eu não consegui - instalei a barraca da melhor forma que deu, mas ainda tinha desnível, e quem acampa sabe como isso é chato).
      Parece que os proprietários da fazenda estão tornando o local mais 'acessível' a outros públicos turísticos - estão sendo construídas cabanas e já vimos postes instalados nessa área (tudo indica que futuramente haverá energia aí também).
      Tivemos um azar terrível de um outro grupo acampar perto de nós, e fazer barulho (gritos e musica) até tarde.
      Mesmo havendo avisos sobre a questão de silêncio, parece que esse pessoal aí não sabia ler, ou muito menos ter mínimo de bom senso. Como a balbúrdia começou já no inicio da noite, não tivemos a chance de nos instalarmos em outro canto mais silencioso - e tivemos que aguentar a macaquice desses 'doutores' (uma ficava toda hora dizendo que tem CRM, outro que era engenheiro - uma piada pronta).
      Enfim, vale pontuar que os acampamentos ficam cerca de 600m um do outro. A distância não é muita, mas há um desnível considerável entre ambos, tornando essa caminhada extenuante.
      Tivemos que faze-la umas três ou quatro vezes durante nossa estadia.
       
      TRILHA ATÉ A BASE DOS SOLDADOS
      Essa trilha nos permite subir até o ponto de tocarmos a formação de rochas e arenito de Soldados Sebold. A fizemos no início de domingo, logo após nosso café da manhã.
      Ela começa em um dos extremos do 'acampamento alto' (há sinalização) e consiste em um aclive pesado por cerca de menos de 1km, onde chegamos no topo. Eu achei a subida perigosa, com muitos pontos que passava pela beirada, sem nada para impedir uma infeliz queda. O caminho também exigia que por vezes você deveria subir 'de quatro', usando as mãos para se segurar (e na boa, não é zoeira). Totalmente impossível de subir quando úmida.
      Mas obviamente, a visão lá de cima é extraordinária!

      Subida da trilha da base dos Soldados Sebold, com nuvens baixas.

      Outro ângulo durante a subida, em direção aos paredões.

      Captura de parte do acampamento alto, durante a subida para a base dos Soldados Sebold, cerca de um terço do caminho (sobe muito mais).
      Do mirante do topo, é possível subir por mais uns poucos metros e tocar nos Soldados Sebold, e deste caminho têm a opção para descer pelo caminho alternativo (que foi qual tomamos).
      É possível perceber que pouca gente opta por ele, dadas as condições da trilha (muito mais fechada e menos definida - mas sem problemas para navega-la).
      Ele é mais longo, mas achei mais seguro (apesar de também haverem pontos de exposição ao 'infinito'). Ao final você chega na interseção da trilha que leva para o 'arranha-céu' (uma trilha mais complicada que não fizemos, e exige reserva com guia credenciado), e volta por um caminho batido ao lado de um córrego até os pastos do 'acampamento alto' novamente.
      A trilha deu 2.5km (segundo nosso mapeamento), com 437m de aclive acumulado - esquecemos de mapear bem o início dela, então os números podem ser um tanto superiores.
       
      CÂNION DO LAJEADO
      Logo que terminamos a trilha até a base dos Soldados Sebold, retornamos para nossas barracas e começamos a levantar acampamento.
      Demos uma paradinha ainda no 'acampamento baixo' para usar os banheiros, tomar uma cerveja e seguimos pela 'trilha de acesso' para retornar até o estacionamento.
      Logo que saímos da fazenda, passados uns 400m, há a possibilidade de acessar o Cânion do Lajeado.
      É uma trilha extremamente curta e simples (só há uma escada para descer a parede), e tem um cenário bacana.
      Não custa nada a paradinha.

      Conforme você avança o cânion vai afunilando, mas necessita entrar na água.
      A volta foi tranquila, eu sempre acho mais fácil descer do que subir, então foi suave!
      Depois, bastou pegar os carros e encarrar a estrada até em casa.
       
      CONCLUSÃO
      Gente, vale muito a pena conhecer esse lugar - e eu sugiro ter essa experiência nesses moldes que adotamos.
      Fazer a 'trilha de acesso' e subir até os Soldados Sebold.
      Nós só subimos no domingo pois chegamos tarde no sábado, e ficava muito corrido tentar.
      O local é bem agradável para passar o dia, dá pra ficar curtindo a paisagem com tranquilidade.
      Infelizmente grupos barulhentos são comuns em todos os cantos, eu nunca vou entender a necessidade dessas pessoas virem para um canto de sossego só para fazer barulho (e ainda por cima gritar 'ninguém dorme')... e isso definitivamente estragou bastante a experiência para mim.
      Eu achei a fazenda bem estruturada, e o local é bem movimentado.
      Para nosso grupo, desconsiderando combustível, a despesa média ficou em cerca de R$ 80,00 por pessoa (considerando comida, besteirinhas que compramos por lá, entrada/pernoite e estacionamento).
      Naturalmente daria de fazer com muuuito menos.
      Enfim, foi um resumo da atividade, certamente deixei coisas de fora.
      Qualquer dúvida basta deixar uma mensagem que estarei respondendo!

      Eu praticamente no topo! @alankinder
    • Por mcolzani
      Eu e minha esposa Magali decidimos em setembro de 2020 fazer a travessia. Começamos a planejar e nos preparar desde então. Definimos que a melhor data seria na semana santa pois seria mais fácil de conciliar férias, folga etc e ainda daria uma margem de segurança maior caso fosse necessário estender a travessia.
      Fomos com o objetivo de caminhar no mínimo 35km/dia mas tentar fazer 40km/dia, que reduziria em um dia a travessia.
      Inicialmente iríamos seguir no sentido sul (Rio Grande x Barra do Chuí), porém na semana que antecederia nosso início a previsão indicava maior incidência de vento sul e optamos em inverter, saindo da Barra do Chuí no sentido norte.
      Saímos de Itapema/SC de carro até a rodoviária de Pelotas/RS no dia 27/03 onde deixamos nosso carro e pegamos o ônibus até Chuí. Chegando em Chuí levamos 20min até conseguir um taxi para a Barra do Chuí (lá não existe Uber/99 etc).
      Pernoitamos em um Airbnb lazarento, mas enfim, a ideia era ficar bem próximo da praia para conseguir começar a caminhada cedo.
      Obs: não conseguimos sinal de celular na Barra do Chuí.
      Dia 01
      Iniciamos a caminhada as 06:00 do dia 28/03/2021 com vento sul moderado. Nossa ideia inicial era fazer uma parada a cada 10km, porém preferimos tocar direto até Hermenegildo e nos abrigar do vento.
      Foram aproximadamente 13km até essa primeira parada. Aproveitamos para comunicar os familiares.
      Trocamos as meias e seguimos a caminhada. Logo ao passar Hermenegildo começou uma chuva leve. Vestimos a capa de chuva e continuamos.
      Poucos km a frente a chuva engrossou, porém não havia local para abrigo e continuamos a caminhada por mais 5km até encontrar um barraco de pescador onde nos abrigamos por aproximadamente 1 hora até a chuva passar.
      Ao longo do dia o sol ia e vinha. 
      Como era domingo, vários moradores de Hermenegildo passavam de carro.
      Estávamos aproximadamente no KM 38, totalmente secos quando uma chuva torrencial nos atingiu. Sem possibilidade de abrigo, seguimos até completar 40km e montamos acampamento em meio as dunas (agora sem chuva).
      Nessa noite ventou pouco, porém a chuva recente e o orvalho que se formou acabou gerando um pouco de condensação no interior da barraca.
      Jantamos, cuidamos dos pés e eu percebi a primeira bolha inesperada (bolha nos mindinhos eu já esperava).
      Distância: 41km (areia fofa)
      Dia 02
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento. Eram aproximadamente 6:45 quando começamos a caminhar com as roupas e tênis molhados.
      Decidimos racionar a água para reabastecer na casa do Sr. Ricardo que possui poço e atingiríamos entre 10 e 11 horas da manhã.
      Faltando 1 km da casa do Sr. Ricardo, avistamos uma vaca deitada na beira da praia. Minha esposa achou que ela estivesse morta, mas eu percebi movimentos de orelha. Estávamos a 50mt dela quando nos observou e levantou assustada. Virou-se contra nós e avançou em nossa direção. Nesse momento tentei chamar atenção para mim e me afastei da minha esposa. Imediatamente empunhei os bastões como se isso fosse resolver alguma coisa. A vaca recuou e virou da direção da Magali quando pedi para ela ficar parada e fui até ela. A vaca ameaçou novamente e juntos erguemos os bastões lentamente até que a vaca recuou e se afastou pelo outro lado. Lentamente nos desviamos e seguimos nosso rumo. A adrenalina subiu bastante nessa hora e o susto foi enorme. Melhor que nada aconteceu e ficou apenas por isso.
      Chegamos na casa do Sr. Ricardo e chamamos por ele. Não estava, enchemos nossas garrafas e tratamos com cloro. Enquanto isso, aproveitamos a sombra para um descanso e para trocar as meias.
      Descobri uma nova bolha se formando em baixo do outro pé.
      Quando estávamos para sair chegou um veículo com 3 homens que estavam construindo uma nova casa para o Sr. Ricardo mais aos fundos (pois a atual está quase sendo tomada pelas dunas). Conversamos um pouco e seguimos nossa caminhada.
      Por ser 2a-feira, nesse dia praticamente não tivemos contato humano. Nesse dia encontramos o único caminhante que veríamos ao longo da nossa caminhada. Nos cumprimentamos, conversamos rapidamente e cada um seguiu seu destino. Nós querendo seguir e ele querendo terminar logo.
      No meio da tarde pegamos chuva novamente. Decidimos proteger os tênis com o saco que usávamos para atravessar os arroios pois não queríamos andar novamente com os pés molhados.
      Esse foi o pior dia e a pior noite, o dia todo foi um misto de "chega, vamos desistir, etc", por sorte não passou ninguém oferecendo carona. 
      Quando paramos para acampar, ventava sudoeste e então montei a barraca abrigado por dunas nesse lado. Só havia abertura pequena para o leste e foi ai que começou nossa pior noite. Já estávamos dormindo (aproveitamos 21:30) quando o vento virou leste com chuva forte.
      Vacilei ao não reforçar o estaqueamento da porta que estava exposta ao leste e aconteceu o óbvio, o speck soltou e essa lateral "caiu". Fiquei sentado encostado no bastão para a lateral ficar de pé. Quando estiou sai à procura de algo para ancorar essa porta e achei um barril cortado que coloquei sobre o speck e enchi de arreia.
      Nessa noite continuou ventando muito e chovendo diversas vezes.
      Distância: 40km (areia fofa com bem pouca área firme)
      Dia 03
      Despertador tocou as 5:00, estava chovendo e botei o soneca para + 15min. Continuava chovendo e seguimos dormindo até aproximadamente 6:15 quando parou de chover, então comemos e saímos para caminhar já eram 8:00.
      Decidimos que 30km estaria bom para esse dia.
      Seguimos +/- a ideia do dia anterior e racionamos a água para reabastecer no Farol Albardão que estava a 7-8km de distância.
      Fomos muito bem recebidos no Albardão onde bebemos água e reabastecemos todas nossas garradas. A água lá é potável, então não tratamos nem filtramos.
      Nesse dia percebemos que uma parada a cada 10km não era sustentável e decidimos parar a cada 7km. Nesse dia comecei a sentir fortes dores na junção do fêmur com o quadril e comecei a "mancar" para não estender a perna e doer mais. Assim foi praticamente até o final da travessia.
      Outro dia que tivemos pouco contato humano e com pouco vento, dessa vez sentido leste.
      Apenas no final do dia quando chegamos na área de reflorestamento que avistamos 2 caminhões saindo de uma área indo no sentido norte.
      Quase no final do dia, avistamos um morador indo recolher sua rede. Perguntamos se conhecia algum lugar bom para acampar na região querendo ouvir um "pode acampar no lado da minha casa" mas veio um "lá naquela baleia tem uma base do reflorestamento, talvez consiga lá". A tal baleia estava a uns 3-4 km e já estava começando a anoitecer. Deveríamos nos arriscar a andar toda essa distância e chegar lá de noite correndo o risco de nem achar a base? 
      Preferimos seguir mais 1km e acampar em meio as dunas altas. Dessa vez ancorei muito bem praticamente todos os lados da barraca para não ter surpresas.
      Novas bolhas para cuidar.
      Dormimos magnificamente bem. Como todas as noites anteriores, choveu bastante durante a noite.
      Distância: 35km (areia fofa)
      Dia 04
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento.
      Nesse dia acreditamos que seria difícil manter o ritmo e terminar em 6 dias. Já aceitamos que precisaríamos de 7 dias. Porém mantivemos o desejo de fazer os 35km.
      O dia foi bastante movimentado, muitos caminhões, ônibus, etc. Sabíamos que agora a água viria apenas dos arroios, porém perto das 11:00, quando devíamos ter apenas 1 litro de água, vimos um quadricíclo vindo em nossa direção. Pedi para parar e perguntei se sabia de algum ponto de água pela frente. Conversamos um pouco e o Mauro, funcionário da empresa de reflorestamento, se ofereceu para ir pegar água na base deles. Deixamos nossas 4 garrafas de 1,5lt com ele. Uma hora depois ele passou por nós e falou que deixou as garrafas em uma placa mais a frente para que não precisássemos carregar todo o peso. Caminhamos uns 2km até chegar nas garrafas, tratamos e filtramos. Ficamos absurdamente contentes, não tinha como ficar mais contente.
      Próximo das 15:00 uma caminhonete branca nos intercepta. São funcionários da empresa de reflorestamento. Conversamos um pouco e eles falam (se pedirmos) que iriam trazer água para nós quando voltassem. Ganhamos o dia e agora não tinha mais como melhorar mesmo.
      Uma hora depois passa outra caminhonete igual (também da empresa) e pergunta se queremos algo (água, comida, fruta etc). Respondo que aceitamos qualquer coisa, mas principalmente água. Ele diz que na volta trará algo para nós.
      Continuamos a caminhada e com o sol de pondo resolvemos achar um local para acampar. Enquanto montava a barraca a esposa ficava nas dunas de olho se vinha alguma caminhonete.
      Quando terminei de montar a barraca, avistei um veículo vindo e como já estava escuro sinalizei com a lanterna.
      Dois santos que caíram do céu. Nos trouxeram 4 litros de água tratada e gelada (com pedaços de gelo ainda). Não só isso, trouxeram duas marmitas e frutas. Estávamos nos sentindo reis.
      Só então percebemos que montávamos acampamento praticamente na entrada de uma base deles e nos falaram que o movimento de caminhões ali seria a noite toda pois a operação deles é 24hrs. Nos ofereceram ficar em um alojamento vago.
      Agora certamente não tinha como melhorar. Decidimos aceitar o convite pois o local onde estávamos era de dunas baixas e o vento provavelmente iria incomodar. Caminhamos quase 2km até chegar na base e nos deparamos com o inimaginável, além de tudo que já tinham nos oferecido, poderíamos tomar um banho quente em chuveiro a gás.
      Nossa energia se renovou absurdamente nessa noite. Decidimos dormir uma hora a mais nessa noite pois não precisaríamos arrumar muita coisa pela manhã.
      Agradecemos ao pessoal que nos recebeu e principalmente ao Rodrigo (encarregado). Pegamos seu contato para agradecer novamente quando concluíssemos.
      Nesse dia outras bolhas surgiram e algumas antigas começavam a parar de incomodar.
      Distância: 42km (enfim, areia firme)
      Dia 05
      Despertador tocou as 6:00, comemos, organizamos as coisas, reabastecemos nossa água, nos despedimos do pessoal e começamos a caminhada.
      Pela distância percorrida no dia anterior, decidimos que esse dia seria de luxo, 35km bastaria.
      Saímos dá área do reflorestamento e começamos a avistar as torres geradoras de energia eólica. Que visão horrível. Você começa a enxergar elas a 20-25km de distância, então caminha, caminha, caminha e caminha ainda mais e nunca chega.
      Esse dia foi um dia caminhando olhando apenas para baixo, pois era desmotivador. Esse foi o 1o dia que não pegamos chuva na caminhada.
      O vento estava moderado a forte no sentido leste, o que fez com que a maré estivesse acima do normal, nos forçando a subir para areia fofa em vários momentos.
      Ao final do dia, chegamos em um trecho de dunas baixas e já bateu aquela sensação ruim para achar um local bom para acampar. 
      Nós não queríamos ter que andar 500-700 metros para chegar nas árvores, querendo ou não é uma distância que pode fazer a diferença e em terreno ruim.
      Atravessamos o primeiro grande arroio e achamos um ponto menos exposto. Ancorei bem a barraca e dormimos igual reis.
      Distância: 38km (alternando entre areia firme e fofa)
      Dia 06
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento.
      Esse seria o primeiro dia para captar água nos arroios. Estávamos com 1 litro de água e a esperança era conseguir água com quem passasse, afinal era feriado e teríamos movimento. Passou o primeiro carro e nada de água. Logo chegamos a outro arroio grande e decidimos captar água ali e garantir. Pegamos 4,5 litros, tratamos e filtramos.
      Esse dia estava puxado, o vento resolveu querer dificultar e virou norte moderado. Foi o dia todo contra o vento, mas nada nos seguraria. Muitos arroios pela frente, já estávamos exaustos de colocar e tirar a sacola nos pés, mas assim o fizemos durante todo o dia.
      No 4o ou 5o arroio a Magali não olhou bem o terreno e entrou em uma arreia movediça, ficando com os 2 pés enterrados até acima do tênis. Falei para não tentar sair, fui até ela e puxei ela pela cargueira. Saiu fácil mas encharcou os pés e os tênis.
      Andamos, andamos, andamos e a quilometragem não andava. Parecida que estávamos em uma esteira, andava sem sair do lugar.
      Dia bem movimentado, carros, motos, ônibus, bicicletas e o primeiro cachorro de toda travessia. Esse foi o 2o dia que não pegamos chuva na caminhada.
      Enfim chegamos a praia do Cassino, mas ainda tínhamos 13 km pela frente. Parece que foi a parte mais longa da travessia. A praia estava muito movimentada devido ao feriado. Às 16:30, enfim, chegamos aos molhes. Ficamos sem reação, apenas sentamos e aproveitamos o momento.
      Decidimos pegar um Uber até Pelotas e retornar direto para casa.
      Distância: 34km (areia firme)
      Distância total: 230,74 km

      Equipamentos que levamos:
      Murilo Magali Se alguém querer, posso passar também a relação dos alimentos levados.
      Tracklog
       

    • Por Tadeu Pereira
      Trilha Saco das Bananas ou Trilha das 10 Praias Desertas - Caraguatatuba x Ubatuba - SP 
      Praias: Praia da Tabatinga, Praia da Figueira, Praia da Ponta Aguda, Praia da Lagoa, Praia do Simão, Praia Saco das Bananas, Praia da Raposa, Praia da Caçandoquinha, Quilombo Caçandoca, Praia do Pulso, Praia da Maranduba e Praia do Sape.
      Dificuldade: Moderado
      Distância: 28 km
      Salve salve mochileiros!
           Segue o relato desta trilha fantástica situada entre Caraguatatuba e Ubatuba no litoral Norte de São Paulo, iniciada na Praia da Tabatinga a aproximadamente 20 Km da cidade de Caraguatatuba e finalizada na praia do Sape. A trilha é de nível médio com subidas e descidas mostrando belas paisagens e diversas praias. A maioria das praias são quase que desertas com pontos de água potável.  
      Partida - 17/11/20 - Ida 7:30am - São Paulo x Caraguatatuba -> BlablaCar R$45,00 - Caraguatatuba x  Praia da Tabatinga -> Ônibus R$4,65
           Partimos do bairro do Butantã em São Paulo capital onde combinamos com o motorista do aplicativo BlablaCar para sair às 7:30am. Saímos no horário marcado e fomos em 4 pessoas no carro. A viagem foi tranquila, segura, todos de máscaras pela pandemia e com duração de duas horas e meia até chegarmos ao Terminal Rodoviário de Caraguatatuba onde pegamos um ônibus do transporte público com sentido a cidade de Ubatuba. Depois de aproximadamente 35 minutos descemos no último ponto da praia da Tabatinga próximo ao Mercado Prime onde fica o início da trilha pela rua à direita do mercado. Compramos mais alguns mantimentos e água e iniciamos por volta das 11:00am a Trilha do Saco das Bananas ou Trilha das 10 praias desertas.   
       
           A trilha teve início na rua ao lado direito do Supermercado Prime pela Rua Onze onde seguimos por ruas com um terreno muito acidentado com muitos buracos e lama até chegar na entrada para a Praia da Figueira. Resolvemos não entrar nesta praia pois o tempo não estava ajudando muito e então seguimos em frente. Alguns metros a frente chegamos no Mirante da Praia da Ponta Aguda de onde se tem uma bela vista da Praia da Figueira e da Praia da Ponta Aguda.
         
                                                 (Entrada Praia da Figueira)                                                        (Estrada)
       

      (Mirante da Praia Ponta Aguda) - (Praia da Figueira)

      (Praia da Figueira)

      (Praia da Figueira)
           Passando o mirante a trilha começa a adentrar a mata mais fechada passando por diversos pontos d'água. Andamos por mais ou menos mais 1 hora e chegamos em um casarão abandonado com várias bananeiras ao redor. Não sei a história desta casa mas parecia ser bem antiga. Neste ponta a trilha se divide em duas, para a esquerda se segue a trilha para a Praia do Simão, e para a direita se chega na Praia da Ponta Aguda. Descemos uns 15 minutos de trilha passando por um descampado até chegar na Praia da Ponta Aguda. 
       

       (Praia da Ponta Aguda) 

       (Praia da Ponta Aguda) 
            Ficamos pouco tempo na Praia da Ponta Aguda pois estávamos correndo contra o tempo que a todo momento mostrava que podia desabar com muita chuva. Retornamos pela mesma trilha que chegamos na praia e continuamos a trilha seguindo as placas rumo a Praia da Lagoa. 
       

          (Praia da Lagoa) 
           A Praia da Lagoa que faz jus ao nome contém uma lagoa que desagua no mar situada do lado esquerdo da praia. Retornamos pela mesma trilha e seguimos as placas para a Praia do Simão que a princípio iríamos pernoitar e seguir no dia seguinte.  
       
           Apesar da placa de proibido resolvemos seguir em frente e caminhamos por mais ou menos umas 2 horas neste trecho. A trilha estava muito molhada pela chuvas do dia anterior tornando o trecho escorregadio e muito difícil de render a caminhada. O tempo até que estava colaborado pois só tínhamos pego chuviscos durante o caminho, até que chegando próximo da Praia do Simão o tempo simplesmente resolveu dizer qual seria o nosso destino pelos próximos 3 dias ahahauhauhauha. 
       
           Começando com um chuva bem fina, toda aquela água que estava acumulada durante o dia resolveu cair bem na hora que estávamos chegando na Praia do Simão ahuahuah e não parou mais. Depois de vários escorregões e tombos passando por alguns trechos que sem chuva até seriam fáceis, mas com toda aquela água caindo do céu com a trilha encharcada e muito escorregadia ficaram bem complicadas. E depois de algumas horas chegamos na Praia do Simão ou Praia Brava do Frade.

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)


      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
           Segundo moradores a Praia Brava do Frade possui este nome pois a um tempo atrás morou um frade na praia por muitos anos, razão do nome original. A praia é bastante procurada também por surfistas que buscam tranquilidade em uma praia deserta longe da badalação, mas neste dia não tinha ninguém na praia. 
           Chegamos e já montamos acampamento no meio das inúmeras árvores pensando em obter alguma sombra pra caso no dia seguinte o sol desse as caras ahuahuah. A praia tem mais ou menos 1 km de extensão com mar de águas agitadas, areia clara, praia de tombo, aparentemente com muitas correntes de retorno. Também ficamos próximos ao um ponto de água potável que fica no meio da praia formando uma pequena lagoa que com a forte chuva virou uma grande cachoeira que corria até o mar. A pernoite estava garantida, mas a chuva não parou mais aquela noite e nem no outro dia. Choveu forte, com trovoadas e muito vento o tempo todo.

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
       
       

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Acampamento)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
       
      (Bica d'água)
           Acordar em uma praia deserta certamente é um desejo de muitas pessoas, mas acordar com a praia deserta e com muita chuva também foi uma experiência muito boa com sentimento de frustração e agradecimento. Ficamos por três dias nesta praia por causa da chuva, as barracas viraram nossos lares naquele paraíso por alguns dias ahuahua. A chuva não deu trégua no segundo dia, choveu por várias horas de manhã até o meio da tarde. Tivemos que esperar por horas pra sair da barraca pra poder conhecer aquele paraíso, mas quando a chuva deu uma trégua nós saímos para desbravar e conhecer a praia. 

            Do lado direito andando pela praia existe um paredão de pedra que dependendo do volume d'água é um bom ponto para um banho de cachoeira, mas neste dia apesar de toda a chuva estava com volume baixo.  
       
      (Cachoeira)
            A chuva começou novamente e retornamos para o camping e por ali ficamos. Fizemos toda nossa comida dentro da barraca. Uso o modelo QuickHiker 2 Quechua que tem duas portas e dois grandes avanços possibilitando usar o fogareiro sem nenhum problema. Choveu o resto do dia e toda a noite. 

       
            Dormimos cedo com muita água ainda caindo, e por volta das 4:30am da madrugada a chuva resolveu finalmente parar. Resolvi sai da barraca assim que amanhecesse para ir ao banheiro e me deparei com um nascer do sol sensacional saindo lá longe no horizonte do mar. E depois de tanta chuva tive uma sensação de euforia, alegria, minhas energias se renovaram e todo aquele cenário de frustração por causa de toda aquela chuva mudou imediatamente ao ver os primeiros raios de sol naquele dia ahuahua, foi muito emocionante. Bom Diaaaaaaaaaaa!


       




      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
           Com toda aquela animação já preparei um belo café da manhã e comecei a desmontar acampamento para seguir em frente pois além de toda aquela chuva que estava caindo antes, o mar também estava um pouco revolto e impossibilitou a travessia pela praia para poder continuar a trilha. E naquela manhã tudo isso estava ao nosso favor para poder continuar a travessia, então tomamos um café reforçado, desmontamos todo acampamento e seguimos para o lado esquerdo no final da praia onde fica a continuação da trilha. 

           No final da praia havia um acampamento fixo montado com barracas, panelas, talheres, pia, agua encanada hauahuahua. Depois de todo o perrengue que passamos com a chuva, aquele acampamento iria ser muito útil pra nós. Mas como não tivemos muito tempo de desbravar a praia, só encontramos esse acampamento quando estava saindo do Simão. Um morador local que encontramos na trilha nos disse que são de surfistas que se juntam e passam alguns dias neste local.  

       
           A continuação da trilha fica atrás deste acampamento. Neste trecho existe uma subida até chegar em um mirante que se vê toda Praia do Simão. E é neste trecho da trilha que se faz jus ao nome Saco das Bananas. Caminha-se por diversas plantações de bananas revelando belas paisagem. 


      (Mirante - Praia do Simão ou Brava do Frade)

             A caminhada neste trecho foi um pouco cansativa pois existem algumas subidas e descidas que desgastam um pouco por causa do peso da mochila. Caminhamos por uma hora e meia mais ou menos até chegarmos nas ruinas de uma escola abandonada, a Escola do Saco das Bananas construída em 1973 que atendia por volta de 25 crianças fechando em 1993 por falta de alunos. Ao lado esquerdo da escola segue a trilha para praia da Raposa e para o lado direito fica a trilha que chega na próxima praia da travessia, a Praia do Saco das Bananas. 

      (Escola E. P. G. Saco das Bananas)

           Seguindo a trilha da escola até a Praia do Saco das Bananas começamos a perceber o quanto ela é histórica com a frequente presença da Comunidade Quilombola existentes em algumas ruinas da época da escravidão. Levaram 10 minutos de descida até a praia e chegando encontramos um casarão de frente para o mar, que provavelmente seria dos donos de toda aquela plantação de bananas, encontramos uma praia pequena de aproximadamente 55 metros de largura, areias amareladas, águas cristalinas, com algumas pedras enterradas nas areias e cercada pela Mata Atlântica.

      (Praia Saco das Bananas)

      (Praia Saco das Bananas)

            Na Praia Saco das Bananas encontramos com alguns moradores que nos informaram que a praia era como um porto para os barcos levarem os produtos que os moradores cultivavam e que na sua maioria eram e é até hoje as bananas. Chegamos bem na hora que eles tinham colhido vários cachos. Nos contaram também que a trilha Saco das Bananas em alguns trechos, foram estradas construídas de pedra com intuito de facilitar o transporte de mercadorias cultivadas no roçado como: cana, mandioca, banana e outras especiarias. A praia guarda muitas histórias e muitos mistérios de sofrimento do período escravocrata e ainda sofrem até hoje com a especulação imobiliária. 

      (Praia Saco das Bananas)
           Ficamos por uma hora nesta praia contemplando e logo seguimos para a próxima praia que seria a Praia da Raposa. Retornamos até a escola e na bifurcação da trilha principal fomos para a esquerda. Neste trecho existem algumas subidas de tirar o fôlego, mas que nos proporcionaram vistas fantásticas das praias. 
       




       



           Caminhamos por uma hora e meia neste trecho até que chegarmos na entrada da Praia da Raposa, mas por causa do tempo ruim decidimos seguir em frente e não passar por esta praia. A entrada pra praia fica em uma trilha pequena onde existe uma corda para ajudar na descida ingrime. A entrada é bem pequena e fica à direita pra quem vem da Praia Saco das Bananas. Caminhamos mais alguns minutos e chegamos na Praia de Caçandoquinha. 

      (Praia da Caçandoquinha)

      (Praia da Caçandoquinha)
       
      (Rio de água doce)
           Chegando na Praia da Caçandoquinha se vê um casarão de fazenda do período escravagista mas que, por ser privada, não é aberta ao público. É uma praia de mar calmo, areias claras, muitos borrachudos, do lado direito da praia existe um riacho de água doce e contém algumas árvores centenárias propiciando ótimas sombras para ficar a beira mar. Hoje a Caçandoquinha guarda uma história de riqueza branca e sofrimento escravo, amenizado com o reconhecimento e regularização do Primeiro Reduto Quilombola do litoral norte do Estado de São Paulo.
        
      (Praia da Caçandoquinha)
           Ficamos um tempo nesta praia para descanso e aproveitamos para fazer um lanche embaixo das sombras de umas das grandes árvores centenárias que têm de frente para o mar. Ao contrario da sua vizinha, Caçandoca, esta praia é muito tranquila, não existe nenhuma estrutura para o turismo, não se chega de carro, e é pouco frequentada. Do lado esquerdo da praia existe uma trilha que leva ao Quilombo Caçandoca, nosso próximo destino. 
           Caminhando por uns 10 minutos já se chega no costão onde existe uma corda para a descida até a Praia da Caçandoca. A praia é fantástica, um paraíso quase que intocado sem construções e com uma enorme história.  De areias claras, mar calmo o lugar tem um deslumbrante vista da baía do Mar Virado, Maranduba e algumas ilhas. Esta praia por ter acesso de carros pelo km77,5 da rodovia Rio-Santos já tem um pouco mais de estrutura como alguns campings e alguns quiosques a beira mar, mas tudo bem simples.
            A região do Quilombo Caçandoca tem muita história, faz parte de uma área legalizada como pertencente aos Quilombolas remanescentes das comunidades da época do período de escravidão contando com 890 hectares.  O Quilombo Caçandoca é o mais antigo do litoral norte de São Paulo e encontra - se em um dos lugares mais belos do Brasil. A escravidão só teve um "fim" em 1888 através da Lei Áurea, mas muito tempo antes os negro já lutavam por sua liberdade. A história como a dos remanescente de Quilombos, como a da antiga Fazenda Caçandoca, mostra que a luta foi árdua, mas foi vencida, e esta parte da história é passada de pai para filho, netos e bisnetos, mantendo sempre acesa a memória da Comunidade Quilombola. 
       
      (Praia da Caçandoca)
       
           Assim que chegamos já fomos atrás de um camping pois o tempo estava fechando novamente mostrando que iria chover novamente. Sentamos no Quiosque Pastel da Vó e conversando com alguns locais, nos recomendaram o Camping do Jango que fica do outra lado da praia no canto esquerdo. Fomos até lá e fechamos por R$25,00 Reais pra cada por uma noite com banho quente. Montamos a barraca e retornamos para o quiosque Pastel da Vó para curtir o resto do dia com sol enquanto tinha.
       
         (Quiosque Pastel da Vó)
           Retornamos ao camping onde tomamos um bom banho quente, fizemos um rango reforçado e dormimos pois a chuva não deu trégua no começo da noite. No dia seguinte o sol prevaleceu no céu o dia todo, o que nos proporcionou ver o quanto aquele lugar é maravilhoso mostrando belas paisagens. Decidimos ficar mais um dia e seguir para próxima praia somente no dia seguinte.
       
      (Camping do Jango)

      (Igreja)

      (Praia da Caçandoca)

      (Praia da Caçandoca)

           (Praia da Caçandoca)

           Passamos quase que o dia todo no Quiosque Pastel da Vó, pois além do tratamento maravilhoso, a cerveja tava muito gelada e ainda nos deram o valioso repelente que os locais usam para parar os borrachudos. Uma mistura de óleo de cozinha com vinagre de álcool. A mistura funcionou e lambuzamos o corpo. Bye bye Borrachudos! huahauhau 

       (Praia da Caçandoca)

       
           Foi o dia mais quente da travessia com uma temperatura de quase 30 graus. Almoçamos pela praia mesmo, comemos porções e pasteis da Vó e tomando uma merecida gelada. Até que os preços estavam de boa, nada abusivo. Retornamos ao camping por volta das 19:00pm horas, fizemos mais um rango reforçado e descansamos para poder seguir bem cedinho para as próximas praias. 

      (Praia Quilombo Caçandoca)
                  Desmontamos acampamento por volta das 6:00am horas da manhã com um nascer do sol sensacional que fomos presenteados naquela linda manhã de Domingo.

      (Praia Quilombo Caçandoca)
           Tomamos um café da manhã reforçado, contemplamos por mais alguns minutos aquele momento e aquele lindo lugar e logo seguimos para a próxima praia, a Praia do Pulso. A trilha fica no canto esquerda da praia da Caçandoca muito próximo do camping que ficamos. .

           Caminhamos por uns 15 minutos até que chegamos em uma guarita com um guarda que nos informou como passar pela Praia do Pulso. A praia de acesso restrito tem na sua maioria acesso por condôminos. Descemos mais alguns minutos e chegamos em uma praia com um extenso gramado comunitário, areias fofas amarelas, enormes árvores proporcionando uma grande sombra em dias ensolarados, mar calmo de águas claras, porém o que chamou mais atenção foram as enormes casas chegando quase que nas areias da praia.  Não existe nenhuma estrutura para turismo, ambulantes, quiosques.

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)
           Comtemplamos por alguns minutos e seguimos até o canto esquerdo da praia onde fica a continuação da trilha. Neste trecho a trilha foi um pouco cansativa pois o sol estava bastante quente e as subidas deste trecho nos castigaram bastante. Durante a trilha vimos diversos mirantes com vistas espetaculares passando pelos fundos das casas até chegarmos aos fundos da famosa Igreja de Nossa Senhor de Fátima ou também conhecido como o Castelo dos Arautos. Uma fantástica construção de 9 mil m² parecido com castelos medievais com obras de Aleijadinho e com uma vista fantástica da Ilha do Pontal, Ilha e Praia de Maranduba e ao longe uma parte da Trilha das Sete Praias.

      (Praia do Pulso)
       


           Após passar pelo Castelo dos Arautos caminhamos por uma estrada chamada Estrada da Caçandoca até a rodovia BR101 Rio-Santos, onde seguimos por alguns quilômetros até a praia de Maranduba.

           Procuramos logo por um camping e encontramos o Camping Toa Toa que fica entre as Praias de Maranduba e Praia do Sapé. Fechamos por R$35,00 Reais e ficamos por uma noite. O Camping Toa Toa é bastante estruturado com banheiros amplos, com chuveiro quente, uma grande área gramada com vários pontos de energia, churrasqueiras, cozinha comunitária e com entrada tanto para praia quanto para rodovia Rio-Santos BR101. Montamos acampamento e saímos logo para procurar algum lugar pra almoçar e depois conhecer o local.   


      (Praia do Sapé - Ilha do Pontal)
           A Praia de Maranduba e do Sape são praias mais voltadas para banho, crianças, família. Tem uma ampla estrutura comercial e turística como quiosques, pousadas, hotéis, mercados e restaurantes. Como estávamos passando por praias quase que desertas sem ninguém a alguns dias já, esta praia foi meio que um choque pois estávamos voltando para a cidade.

      (Camping Toa Toa)

      (Praia de Maranduba)
           Desmontamos acampamento e mais uma vez o sol nos presenteou com mais um lindo nascer. Mochila feita e café tomado fomos para a rodovia Rio-Santo aguardar o ônibus para retornar a Caraguatatuba. Aguardamos por alguns minutos até prgar o ônibus sentido Caraguatatuba por R$4,65 e em 40 minutos chegamos na rodoviária. Almoçamos em um restaurante ali próximo do terminal e fechamos com um BlablaCar pra algumas horas depois por R$48,00 Reais de Caraguatatuba até São Paulo. E assim acaba mais uma trip e eu só tenho a agradecer! 
      GRATIDÃO  
      Retorno - 23/11/20 - Volta 9:00am  - Maranduba x Caraguatatuba -> Ônibus R$4,65- Caraguatatuba x São Paulo ->BlablaCar R$40,00
       
       
       
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    • Por Robson De Andrade
      Se o mundo não acabar, lá vou eu kkkkk
      Já não dava para adiar o inadiável, tinha de ser agora ou sabe se lá quando.
      Sai de Porto Alegre às 13 horas do dia 28, previsão de chegada lá por volta das 16 horas.
      Passagem de volta só na Estação Rodoviária de Muçum, vou lá pegar a minha kkkk
      As estradas para o interior são muito boas, a paisagem é agradável aos olhos a primeira vista.
      Em Guaporé desci numa calçada, vi um táxi e pedi para me levar até o Hotel 55 54 9106-7404
      Ande com um pouco de dinheiro rapaz, tive que ir numa agência sacar para pagar o taxista.
      No Hotel Rocenzi ninguém usava máscara, foi assim até o dia seguinte a minha saída.
      Fim de tarde tive que ir num mercado local debaixo de chuva, por insistência do Sr. Rocenzi levei seu guarda-chuva rsrs
      Tudo de boa no hotel, só aguardar pelo dia seguinte.
      Meu plano era sair sem café da manhã e caminhar até os trilhos, só que não.
      Fiquei para o café da manhã, deveria ter comido mais rsrs
      E o plano de ir a pé também rodou, chamei um táxi que me deixou na estação, a chuva caiu logo em seguida, teria tomado ela na cidade se tivesse saído a pé.
      Ajustei a mochila nas costas protegida com sua capa, usei uma jaqueta impermeável que comprei em Porto Alegre, na Decathlon, já sabendo que ficaria feio o tempo durante a minha travessia.
      A estação reformada de Guaporé.

      Primeiro Dia: Chuva, chuva e mais chuva
      "Não é um dia ruim só porque está chovendo." segui de boa, não tinha me entusiasmado tanto assim rsrs
      Os primeiros passos são... sei lá os primeiros passos, um pouco chato, margeando casas, estradas, lixo visível nas beiradas...
      Quando cheguei no meu primeiro túnel abri um sorrisinho, fiz o mesmo quando cheguei no meu primeiro viaduto.

      Choveu praticamente o dia todo e quando parava tinha de tirar a jaqueta impermeável para logo em seguida botar ela outra vez, o terreno castiga e os pés começam a sofrer, todo o caminho é só pedras, dormentes.
      Dentro dos tuneis bateu uns pensamentos sobre a morte, a solidão que me seguiram por boa parte da travessia. Eu tive a ideia de parar e desligar a lanterna para ficar naquele estado de completa escuridão e silêncio, talvez aquele fosse o mais próximo da morte estando vivo, consegue imaginar escuridão total e silêncio? Mas eu estava vivo e tinha de seguir, que alívio trouxe cada luz da saída.
      Fiz uma pausa para comer, descobri que tinha comprado pão de alho, não era bem isso que queria haha
      Nunca mais quero saber de pão de alho e atum em óleo.
      Optei por não fazer fogo, enlatados são uma boa opção, barrinhas de amendoim também, pão de alho não rsrs

      Lá pela metade do dia fez um solzinho. E o resto da tarde cairia mais chuva.
      Chuva pra caralho! cheguei na estação abandonada com a bota encharcada, a água escorreu da calça para a coitada da bota.
      A estação abandonada me segurou, ali tirei as botas e segui de chinelo, os meus pés agradeceram, os ombros não tinham muita escolha, lá perto do fim da tarde já chegava no meu limite.
      Parei perto do Recanto da Ferrovia; não estava nos meus planos ir lá. Quando cheguei  fui recebido por um cachorro muito simpático, não vi uma alma humana, já tava querendo vazar dali, até que o proprietário do lugar, o Clair surge nada simpático se comparado com seu cão. Acho que pensou que estava invadindo, depois disse que tinha que ter reserva, trocamos umas ideias, cada um no seu cada um, acabei ficando assim mesmo, pra mim tava bom, ali tomei banho, escovei os dentes e me reorganizei para vazar pela manhã.
      O trem passou algumas vezes durante a noite, fazendo um tremendo barulho.

      Segundo Dia: Sol
      O sol já dava as caras quando passei pelo Viaduto Pesseguinho, este também vazado, dava pra andar num bom ritmo pelo meio e dificilmente você vai cair se ficar só no meio. Andava parando para olhar ao redor, meu medo de altura não é lá grande coisa, mesmo assim eu senti que ia travar por lá junto do receio do trem passando por ali, imagina a correria ali rsrs
      Há placas com avisos de que não é permitido fazer passeios por ali. Bem, o que não é permitido? kkk
      Tomem cuidado dentro dos tuneis, eu tropecei uma vez e quase fui ao chão, fora que meu pé torceu umas duas vezes; sem grandes problemas.
      Parte de alguns tuneis desabaram e devem estar desabando, vi água saindo das paredes no meio de um túnel, não precisei correr até um daqueles "abrigos". Havia dormentes arrebentados e soltos dentro do túnel, sinal de que poderia dar merda.
      Há um túnel de mais de 1200 metros, este deu pra perder a noção do tempo por lá, e outros que você sonha kkkk
      Tentei seguir uma trilha perto de um túnel, ela ia pra cima de um morro, subi com mochila e tudo, até que vi uma fita, acho que era uma fita vermelha, fiquei receoso sobre aquilo, desci rapidinho, mas de ré em alguns pontos, caso contrário a queda seria engraçada kkkk
      Ao longo do caminho se vê locais de acampamentos, eu sabia que mais tarde teria que procurar um, os bons foram ficando para trás.
      Há lixo deixado pelo caminho, guardem o seu lixo e jogue na lixeira da cidade mais próxima.
      Fiz o meu almoço diante desta linda paisagem e o rio Guaporé nervoso lá embaixo
      ,
      Segui com o sol de rachar.
      Percebi que o lugar não é totalmente isolado; há sítios e fazendas por quase todo caminho, às vezes ouvia pessoas falando, cachorros latindo, carros transitando por alguma estrada... Há sinal de telefone e até o 3g tava dando sinal em alguns trechos haha
      Achei uma cachoeira perto de um túnel, melhor água que tomei, haha
      Água não falta pelo caminho, obviamente de procedência duvidosa, usem clorin moças e rapazes kkk

      Uma surpresa no trilho, tomando um sol talvez?

      A mochila já castigava novamente, os pés pediam para parar e minha teimosia de continuar era maior.
      Saindo de um certo túnel, já tinha perdido as contas de qual era, mas era perto do ponto mais "turístico". Ali vi pessoas de bobeira, a primeira impressão é de manter distância e ficar esperto, mas vi que era um casal, trocamos algumas ideias e segui...
      Mais pra frente, encontro outras pessoas, um grupo de amigos fazendo a travessia até Guaporé, trocamos umas ideias também.
      Havia pessoas em outro túnel com lanternas, poxa vida ali percebi que não estaria mais sozinho rsrs saindo dali mais um grupo de pessoas, que estavam retornando, segui junto deles, conversamos sobre como fui parar ali, de onde era, para onde vamos...
      Confesso que foi a primeira vez que senti seguro ao caminhar por outro túnel, na verdade a companhia das pessoas que tinha acabado de conhecer trouxe essa sensação, um deles se ofereceu para carregar minha mochila, passamos por trabalhadores fechando um lugar que tinha uns arcos, e mais pessoas surgiam, quando saímos do túnel tinha praticamente dezenas de pessoas do outro lado. O rapaz  apertou minha mão, desejou me sorte e perguntou meu nome, respondi e ele me disse o seu, e seguimos nossos caminhos.
      Segui desviando das selfies, dos caras das agências kkkk fui parar lá no meio do v13, cansado, a paisagem maravilhosa, até que mais gente se aproximou e eu tinha de ir. Por ali passou pessoas com cachorros, crianças, dei boa tarde, uma mulher me perguntou o que estava fazendo ali com a mochila nas costas, há maluco para tudo né? rsrs
      E assim uma hora você está completamente sozinho, no outro dia encontra pessoas dispostas a carregar sua mochila, apertar sua mão e lhe desejar sorte. Experimente um pouco de solidão e boas companhias também
      E continuei com minha teimosia, só pararia se achasse um lugar para acampar quando o sol já tava se escondendo, muitos paredões de pedras... Fique atento aos sinais do corpo rapaz, é hora para tudo, hora de caminhar, hora de parar, de cansar, de descansar... Terminei o dia exausto, montei a barraca e tentei dormir, a noite choveu pra caralho e o fim estava próximo.

      Terceiro dia
      O último dia começou, escovei os dentes, desmontei a barraca, arrumei as coisas, já não estava me sentindo bem, o cansaço do dia anterior ainda estava lá, andava cambaleando, a água estava ficando intragável, só queria parar. Acabei sonhando com mais tuneis e viadutos, pensei que o v13 estava a minha frente, quando na verdade já tinha passado por ele, encontrei um casal indo na direção contrária, apenas um bom dia.
      Quando vi a plaquinha de Muçum vi que o meu "sonho cansado" tinha chegado ao seu fim.
      A travessia pede prudência, paciência e resistência.
      São quase 60km caminhando por dormentes, pedras, tuneis e viadutos.
      Em Muçum me hospedei no Hotel Marchetti 55 51 9566-8544 muito bom o lugar.
      Almocei no Kiosque da Praça, os caras não usavam máscara huehue Mas a comida compensou.
      A noite pedi um hambúrguer que fica ao lado do hotel, havia alguns jovens no local vivendo como se não houvesse segunda-feira haha
      As passagens para Porto Alegre são vendidas na estação rodoviária, só aceitam dinheiro.
      Em POA me hospedei na chegada no POA ECO HOSTEL 55 51 3377-8876. Fiz a reserva pelo HostelWorld
      Na volta para POA fiquei hospedado no Hostel Rock, acomodação econômica 55 51 9415-5531.
      Se um dia retornar optaria pelo POA ECO HOSTEL sem dúvidas
      A empresa que opera por aqueles lados é a Bento Transporte, comprei a passagem até Guaporé pelo app da Veppo.
      http://www.bentotransportes.com.br/horarios
      Minha viagem não terminou em Porto Alegre como previsto, mas em Santa Catarina, e isso é uma outra história
      Agora devo estar de quarentena, quem sabe? rsrs
      Até a próxima.




    • Por divanei
      TRAVESSIA SACO DAS BANANAS 360
      Quase 25 anos atrás, quando pisei pela primeira vez na Travessia do Saco das Bananas, eu ainda era um jovem iniciante, pesava quase meio quilo a menos do que peso agora, num tempo em que internet inexistia e as fotografias eram em maquinas yashica de 36 poses. O mundo era outro, a atividade de aventura era renegada a meia dúzia de esforçados, gente que foi ganhando conhecimento aos poucos, meio que na tentativa e erro, transformando frustações em experiências. Essa tal travessia era só conhecida pelos caiçaras e poucos locais, num litoral isolado e desprovido de gente. Na época, tive como companhia, minha esposa, a irmã dela e mais 2 amigos de infância e levamos dois dias para cruzá-la, partindo da pouco conhecida na época, Praia da Ponta Aguda. Depois disso, ganhei o mundo em centenas de trilhas, caminhadas e viagens expedicionárias e nunca mais voltei para refazer essa travessia, mas esse ano estava decidido que era hora de retornar, hora de reviver um passado encantador, quando saíamos sem rumo, sem gps, sem mapas, apenas caminhado ao sabor do vento.
      No final do ano, me mudei para uma barraca de camping na Praia da Ponta Aguda. Claro que não era mais a mesma praia deserta de outrora, mas ainda continuava com seus encantos. Nos juntamos em família e na companhia de amigos, aqueles acampamentos onde se leva tudo, transformando o lugar num camping das Arábias. Aproveitamos para desfrutar de todas as prainhas paradisíacas que tem em volta da Ponta Aguda, mas estava difícil achar alguém que se dispusesse a me acompanhar numa travessia pelo Saco das Bananas em um só dia. Até entendo que poderia ser uma furada dos infernos para quem não está acostumado a longas caminhadas, mas até minha filha se recusou a me seguir nessa empreitada, alegando que estava de férias e queria apenas sossego.

      Uma semana se passou, minha filha e outros amigos retornaram para Sumaré no interior Paulista e com a chegada de novos amigos, me acendeu a esperança de achar um trouxa (opssss, um amigo) que se dispusesse a me acompanhar e entre conversas e churrascos, o Anderson Rosa se apresentou como voluntário, mas o tempo foi passando e nada da gente tomar uma decisão, até que, não tendo mais como fugir, marcamos a então esperada caminhada justamente para o último dia do ano, prometendo voltar cedo a fim de nos programar para a virada.
      Antes de descrever essa linda caminhada, que partiu da Praia da Ponta Aguda, vou me dar ao trabalho de descreve-la por completo, para que quem leia esse relato, possa aproveitar toda a caminhada, muito porque, eu mesmo 25 anos atrás, nem tinha me dado conta da existência dessas outras prainhas que completam a Travessia do Saco das Bananas e até hoje, a grande totalidade de quem caminha nessa travessia, não inclui essas praias no seu roteiro, o que chega a ser quase um crime.

      Partindo da Rio-Santos, bem em baixo do Portal que divide Caraguatatuba com Ubatuba, vamos pegar a rua entre a adega e o supermercado, quando chegarmos ao final, vamos seguir para direita e caminharmos por cerca de 1500 metros até onde ficam estacionadas as caçambas de depósito de lixo e ali interceptar a esquerda, uma estradinha de terra que vai nos levar em direção a Ponta Aguda. Vamos caminhar por mais uns 3 km e entrar a direita no caminho que nos levará para incrível Praia da Figueira, onde levaremos outros 10 minutos para lá chegar e aí então daremos início a nossa TRAVESSIA.

      A FIGUEIRA é uma praia deserta e selvagem, com mar calmo e encantador, do seu lado direito, uma toca serviria muito bem para um abrigo de emergência, mas nosso caminho segue para a esquerda, onde interceptaremos uma trilha depois que passamos a foz de um pequeno córrego. A trilha vai subir ao alto, onde teremos uma vista espetacular da própria praia, depois vai entrar na mata e em 15 minutos, estaremos desembocando na própria praia da Ponta Aguda, com um camping gigante.

      A PONTA AGUDA é outra praia de sonhos, mesmo com um número considerável de frequentadores, se mantem muito agradável, com um rio de águas cristalinas fazendo a festa da criançada. Vamos atravessar toda a sua extensão e exatamente como a praia anterior, vamos cruzar a foz do riacho e imediatamente subir uma trilha que se lança mata à dentro. A trilha sobe ao alto em 10 minutos e em mais outros 10 minutos nos leva para a pequena e também selvagem PRAIA MANSA, uma prainha cercada pela floresta, onde alguns barcos costuma ancorar por ser protegida das ondulações do mar, formando piscinas naturais nas suas extremidades.
      Cruzamos toda praia até seu fim e ganhamos uma trilha aberta que segue na mata, subindo entre palmeiras espinhudas por uns 15 minutos, talvez menos, até que ela se bifurca, mas nosso caminho segue para a esquerda, porque para a direita a trilha vai finalizar bem na ponta que entra mar a dentro e esse não é nosso caminho.
      Pegando, portanto, para a esquerda, vamos seguir em nível por outros 10 minutos até que chegamos a um mirante onde é possível apreciar mais abaixo a impressionante Praia da Lagoa. Passamos com cuidado, nos apoiando em uma corda e descemos mais outros 10 minutos até a areia da praia, deserta, silenciosa, selvagem.
      A PRAIA DA LAGOA é outra joia dessa parte do nosso litoral paulista, uns 500 metros de areia grossa e inclinada no seu lado direito, cercada por vegetação mais baixa. Na sua extremidade esquerda, uma grande lagoa de águas quentes nomeia a praia, onde peixes nadam tranquilamente. Com mar calmo, em dias de sol intenso, parte da praia se transforma em uma grande piscina de águas transparentes.

      Aqui preciso fazer um parêntese: Poderíamos assim que saltamos no início da praia, pegarmos uma trilha a esquerda que daria continuidade a nossa travessia, mas seria um pecado não ir a sua extremidade conhecer a lagoa. Estando na lagoa, nem precisamos voltar pela areia da praia, apenas pegamos uma trilha larga na vegetação e vamos seguir em paralelo a própria praia até que uns 15 minutos depois, a trilha se curva para a direita, vai adentrando novamente em mata alta, passa por um atoleiro e uma meia hora depois de partirmos da lagoa, desembocamos na estrada de terra, que acaba justamente ali. Se seguirmos para a esquerda, poderíamos voltar novamente para o nosso camping na Ponta Aguada, mas nosso caminho, nossa travessia segue para a direita, cruza imediatamente uma porteira e já intercepta a esquerda, uma placa indicando o caminho para a Praia do Simão, exatamente onde oficialmente se iniciaria a travessia tradicional.

      Acima está a descrição de parte da travessia, fiz isso para que todos que acompanhem esse relato, tenha uma caminhada incrível, tendo tudo que esse roteiro nos permite, mas como nós já estávamos acampados na Ponta Aguda e já havíamos feito todas essas praias durante mais de uma semana que ali estávamos, nos restou apenas nos organizarmos para partirmos direto da nossa barraca e tentarmos fazer a travessia em apenas 1 ÚNICO DIA, ao invés de 2 dias, como é o tradicional.
      Na noite dia 30 de dezembro, arrumamos nossa mochilinha com os equipamentos de segurança e quando o último dia do ano raiou ( 31/12/2020), nos pusemos de pé e fomos ganhar o mundo. Partimos eu e o Anderson Rosa e uns 15 minutos antes das 07 da manhã, deixamos o acampamento da Ponta Aguda e ganhamos a estradinha e logo mais, na bifurcação, pegamos para a direita, mesmo porque, para a esquerda é o caminho que nos levaria de volta para a Rio-Santos, coisa que não nos interessa. Agora vamos seguindo pela estradinha embarreada, passamos por uns ranchos e deixamos a civilização definitivamente para trás. Cruzamos 2 rios que abastecem a vilinha da Ponta Aguda e em mais 10 minutos descemos a estrada até o seu final, juntamente na porteira, onde ela se encontra com a trilha que vem lá da Praia da Lagoa.
      Passamos pela porteira e interceptamos a trilha a esquerda, onde uma placa indica o caminho para a Praia do Simão, que alguns também chamam de Brava do Frade. Já de cara a trilha larga e consolidada entra na mata onde árvores gigantes desfilam enormemente, atravessamos um riacho de águas claras e viramos para o leste, desprezando mais à frente uma trilha para a direita, que provavelmente deve vir lá da fazenda. Logo a trilha vai virar para o sul, mas sempre dentro da mata fechada, sempre subindo até ganhar o topo da serra e começar a descer definitivamente para a praia. Vários riachos são cruzados, o que evita que carreguemos muita água e então já começamos a ouvir o barulho das ondas do mar e logo a frente viramos a direita numa bifurcação, descemos numa ribanceira enlameada e alguns minutos depois desembocamos na gigante PRAIA DO SIMÃO.

      Gastamos cerca de pouco mais uma hora desde o acampamento, uma velocidade absurda nessa manhã de quinta-feira. Na Praia do Simão encontramos meia dúzia de barracas espalhadas e é surpreendente como essa praia ainda se mantém selvagem, talvez a praia mais selvagem de Ubatuba. Aqui o mar é sempre bravo, o que dificulta até para a entrada de barcos, mas hoje, surpreendentemente o mar está quase uma piscina. Na chegada a areia, ao invés de seguirmos para a esquerda, pegamos para a direita e fomos tomar uma ducha numa pequena cachoeirinha no extremo. Não era nada de mais, só que como o calor estava grande já logo pela manhã, aproveitamos a água com temperatura agradável para nos refrescar.

      Retomamos nossa caminhada para o outro extremo da praia (esquerda), mas ao chegarmos a metade, caímos para o meio do bosque sombreado até chegarmos na grande bica e lá nos matamos de tanto beber água e abastecemos nossos cantis. No fim da praia, quando a areia acaba, entramos em outra trilha em direção à praia do Saco das Bananas. A trilha vai subindo e logo saímos no aberto com um espetacular mirante da Praia do Simão. Começamos a nos enfiar numa floresta de jaqueiras, aliás, carregadas de jacas e vamos subindo até começarmos a descer em meio aos bananais que dão nome a essa travessia. Descartamos uma estradinha a direita e quando chegamos nas ruinas da antiga escolinha, nos detemos por um instante para uma foto e um descanso.

      A ruína da Escolinha traduz bem o que deveria ser isso há muito tempo atrás. Aquela vilinha de caiçaras hoje está também em ruínas e somente uma ou outra casa se mantém com algum morador, mas o silêncio ali é tão grande que mais parece um lugar fantasma.

      Vamos descendo por uma escadaria que vai se enfiando em direção à praia, numa pequena baia até que alguns minutos nos leva ao mar. Na praia, apenas um casal e um barquinho boiando nas agás calma e verdes. E é mesmo um cenário de sonhos que encontramos. QUE COISA LINDA! É um grande prazer poder pegar a praia daquele jeito, já que quase 25 anos atrás, pegamos um mar revolto e escuro. Agora sim, agora aquele mar fazia jus à fama daquele lugar surpreendente. Subimos nas pedras e ganhamos o canto direito, onde piscinas naturais me tirou da terra e me jogou ao mar.

      A água está numa temperatura excelente e eu nadei até não aguentar mais, enquanto o Rosa aproveitou para se refrescar numa sombra e comer alguma coisa. E eu estava certo quando ficava inquieto querendo fazer essa travessia e não poderia ter escolhido um dia melhor, porque será difícil existir outro dia com tanta beleza na PRAIA DO SACO DAS BANANAS.

      É com uma imensa dor no coração que abandonamos aquela praia, mas a travessia tinha que continuar. Subimos de volta à escolinha e mesmo antes de alcançá-la, cortamos caminho por um roçado e interceptamos a trilha principal, que vai nos levar em direção a prainha da Raposa. Ela adentra na mata pontilhada por jaqueiras gigantes, nos leva ao alto, onde uma casa abandonada nos tira do nosso caminho. Nós havíamos recebido uma informação de um lugar encantador e o caminho muito provavelmente partiria dos fundos dessa casa, mas me pareceu que teríamos que varar um mato descendo a encosta até o mar, e como notei que o Rosa estava um pouco cansado devido ao colar intenso, resolvi abortar essa descida e voltar para trilha, mas logo à frente, quando o caminho sai novamente no aberto, me arrependi amargamente de não ter descido ao Saco do Morcego, uma piscina natural de tamanho grandioso.

      Mais alguns minutos de caminhada e a trilha nos leva para o fundo do vale, onde um riacho de águas cristalinas já serve para matar nossa sede. Depois vamos subir novamente sem dó, até atingirmos um descampado em meio a um sapezal. O sol queima tudo, é um calor insuportável que beira fácil os 40 graus ali naquele pedaço de litoral e só nos animamos novamente quando o caminho entra novamente na floresta fechada e vai seguindo em nível e começamos a descer de vez, passamos por umas entradas de uns sítios e interceptamos a trilhinha que nos levaria em definitivo até a praia. E é uma trilha bem minúscula, protegida por algumas cordas que ajuda a não escorregar no barranco, mas não leva mais de 5 minutos para a gente desembocar na PRAIA DA RAPOSA, praia selvagem e encantadora, 4 km depois de partirmos do Saco das Bananas.

      A prainha me surpreende positivamente, parece ainda mais selvagem que 25 anos atrás, é uma solidão imensa, com o mar batendo um pouco mais forte que a praia anterior, com areias mais grossas e com a água mais mexida, mas apesar de tudo, não estava deserta de gente. Ao pisar na areia já me dirijo imediatamente para conversar com um único casal que estava deitado no centro da praia. Ando tranquilamente, olhando o mar e as belezas em volta, sem focar muito de quem estaria deitado na areia, chego perto, cumprimento os dois e só então, depois que os meus olhos se acostumam com a luminosidade é que me dou conta que OS DOIS ESTÃO COMPLETAMENTE NUS. ( kkkkkkkkkk) Fiquei desconcertado , não por encontrar um casal pelado, mas por eu não ter percebido e ter recuado, sem me dirigir para falar com eles. Mas por sorte, o Rosa veio para me salvar, já que eu não conseguia nem falar: - Boa tarde meu irmão, curtindo aí um naturalismo né? Nem sei o que o casal respondeu, saí de fininho, sem nem olhar para trás e fui me refugiar na sombra do lado direito da prainha.

      Cinco minutos depois, os peladões se mandaram, ganharam o costão e sumiram da nossa frente, voltaram pelo mesmo lugar que vieram, acho que nem sabiam que existia uma trilha mais curta de volta à civilização. O Rosa se contentou em ficar na sombra descansando, mas eu é que não ia sair dali sem dar um mergulho e mesmo com o mar um pouco mais agitado, pulei na água e por lá fiquei, me refrescando, até que num mergulho, localizei uma TARTARUGA quase que encalhada na areia. Duas braçadas me levaram ao animal e consegui captura-lo e não levou mais de um minuto, tempo suficiente para que o Rosa sacasse uma foto e eu já a devolvi para o mar, evitando qualquer tipo de estresse desnecessários e esse foi mais um encontro inusitado nessa prainha tão legal.

      Subimos novamente a trilha e interceptamos o caminho principal, quase uma estradinha, que vai subir por 10 minutos e descer por outros 10 até nos levar direto para a PRAIA DA CAÇANDOQUINHA, uma prainha mais reservada, mas agora sem o charme das praias desertas que passamos. Por ser véspera do ano novo, estava bem cheia, mas ainda suportável.

      No final, do lado esquerdo, uma outra trilha larga nos conduz em pouco mais de 5 minutos até a outra praia, onde primeiro temos que descer nos valendo de uma corda para ganhar sua areia. A PRAIA DA CAÇANDOCA é um antigo quilombo e é também uma bela praia, mas nessa época do ano parece a sucursal do inferno e hoje para ir ao mar, será necessário entrar na fila de tanta gente que tem. Eu e o Rosa passamos batidos e rapidamente ganhamos o extremo da praia, e já tratamos logo de sairmos vazados daquele antro em tempos de pandemia. No fim da praia, interceptamos outra trilha larga que sobe ao alto e uns 10 minutos depois, desemboca numa estrada, bem em frente a uma guarita que dá acesso a próxima e derradeira praia dessa travessia.


      Essa próxima praia é uma que ainda faltava no meu currículo, porque mesmo de outras vezes que por aqui estive, nunca a visitei. Quando chegamos à estrada, já localizamos a entrada para a praia, mas para lá chegar, é preciso passar por dentro de um condomínio de luxo, onde os ricos cagam dinheiro, com casas avaliadas em milhões de reais. Quando os guardas da guarita nos viram, já foram nos pedindo os documentos. Não sei se isso é de praxe ou se vendo as nossas caras de pobres, tentaram se resguardar, mas no fim, desistiram de anotar os RG, quando dissemos que passaríamos rapidamente pela praia, porque estávamos apenas fazendo a travessia. Aqui abro um parêntese: Ter que ficar dando satisfação para poder frequentar uma praia pública é o fim da picada e é claro que deveria ter uma passagem livre ali para qualquer pessoa sem ter que dar satisfação a seu ninguém, mas enfim, entramos e seguimos por uns 10 minutos até a areia.

      E é realmente como eu disse, uma praia voltada para a elite da elite, a tal ponto de a gente ver uma sala de uma das casas e pensar que era um grande restaurante. Aquilo era um absurdo tão grande, uma ostentação tamanha, que o Rosa ficou até revoltado e pediu para irmos logo embora de lá. Em frente as mansões, há jardins que devem necessitar de uns 10 funcionários só para cuidarem deles, verdadeiros palácios de sultões. As pessoas que ali estavam, pareciam recém-saídos da antiga revista “ CARAS”, num gramado impecável, sem quiosques ou qualquer outra coisa que lembrasse pobreza. A Praia era bem bonita, águas calmas com embarcações luxuosas. Atendendo aos pedidos do Anderson Rosa, nos dirigimos para a outra extremidade da praia, na tentativa de acharmos a trilha que nos levaria até um castelo no alto do morro e nos devolveria novamente à estrada, mas antes de lá chegarmos, fomos descobertos pelos 3 seguranças da PRAIA DO PULSO, que vendo que éramos os únicos pobres ali, vieram nos interpelar.

      Os seguranças foram educados, mas a intenção era clara de nos constranger, nos dizer que ali não era o nosso lugar, era preciso que a gente soubesse que ali tinha dono, e que não éramos bem-vindos, então nos indicaram a saída, como a nos dizer: vão embora e não voltem nunca mais.
      Fizemos cara de paisagem, cagamos e andamos, mas não dissemos coisa alguma, recebemos a informação e assimilamos o golpe, muito porque, estávamos mais do que atrasados no nosso roteiro, então ao chegarmos no final da areia da praia, mandamos tudo aquilo a merda, ganhamos a trilha, passamos raspando no castelo, até alcançarmos novamente a estrada, onde passamos por mais uma guarita, sem dar nenhuma satisfação a quem quer que seja.
      Ganhando a estrada, vamos descendo sob um sol para cada um. A caminhada vai desenrolando vagarosamente, enquanto a gente vai suando em bicas e por quase uma hora, nos arrastamos até a RIO-SANTOS, desembocando bem em frente a um ponto de ônibus. Nossa intenção era ganhar a rodovia e caminhar por mais uma meia hora até o PORTAL que divide Ubatuba de Caraguá, mas fomos surpreendidos com um temporal avassalador e tentamos nos esconder dele no abrigo do ponto. A tempestade varreu o litoral, de tal maneira que tivemos que nos segurar para não sermos arrastados pelo vento e quando o ônibus apareceu, pulamos para dentro e demos graças por escaparmos vivos daquele aguaceiro todo.
      Descemos no portal e antes de ganharmos o caminho de volta para Ponta Aguda, passamos no mercado para garantirmos o churrasco da virada de ano. Seguimos enfrente, debaixo de uma chuva fina, caminhando por uma estrada que não dava passagem nem para tatu de chuteira e quando chegamos ao mirante da Praia da figueira, ao invés de continuarmos pela estrada, resolvemos cortar caminho e interceptar a trilha que liga uma praia a outra e em mais 15 minutos, o caminho nos devolveu a Ponta Aguda, pouco depois das 4 horas da tarde, fim da travessia, estava cumprida a jornada que havíamos programado.

      Cansados, extenuados, mas extremamente satisfeitos com aquele fim de ano glorioso, num ano difícil, marcado por uma pandemia mundial e que dificultou muito a vida de todo mundo. Mas reviver essa caminhada incrível, quase 25 anos depois, foi algo gratificante, melhor ainda foi encontrar essa parte do litoral quase do mesmo jeito que a encontramos nessas mais de 2 décadas atrás, num pedaço de litoral de acesso difícil, mas encantador, com praias selvagens e natureza exuberante, um lugar destinado somente para os que tem coragem de se levantar da cadeira e meter os pés na trilha, para cruzar por um dos lugares mais bonitos do litoral do Brasil.
       
       
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