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rafael_santiago

Travessia do Parque Nacional Hardangervidda (Noruega) - jul/19

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Pico Hårteigen

Início: Odda
Final: Finse
Duração: 7 dias
Maior altitude: 1508m
Menor altitude: 0m em Odda
Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Alguns dias apresentam subidas e descidas mais longas. O único grande desnível é o do 1º dia (1445m).

Hardangervidda é o maior platô de montanha do norte da Europa (vidde = platô). Nesse lugar tão singular foi criado em 1981 o Parque Nacional Hardangervidda, que é o maior da Noruega e refúgio de um dos maiores rebanhos de rena selvagem do mundo. O parque se situa ao sul da famosa estrada de ferro Oslo-Bergen, numa distância aproximada (em linha reta) de 180km de Oslo e 120km de Bergen. 

Essa caminhada foi planejada para durar 10 dias, cobrindo, além do Hardangervidda, também o Parque Nacional Hallingsskarvet e o Cânion Aurlandsdalen, porém a chegada da chuva me fez interromper o percurso no 7º dia. A previsão do yr.no acertou e choveu ainda mais dois dias. Retomei a caminhada no dia 01/08 (relato em www.mochileiros.com/topic/89261-travessia-do-parque-nacional-hallingsskarvet-e-cânion-aurlandsdalen-noruega-ago19).

O problema do trekking na Noruega (e na Suécia) é justamente o alto índice de chuva. Pelo menos para nós brasileiros, que não estamos acostumados a caminhar vários dias embaixo de chuva, porém para os noruegueses isso não tem a menor importância. Eles vão para a trilha com chuva ou sem chuva. Eu tive cinco dias seguidos de sol nesse trekking e isso foi uma tremenda sorte.

A melhor época para o trekking nos parques da Noruega é o verão, com temperaturas mais agradáveis (não tão frio) e menos neve pelo caminho. Justamente nessa época os refúgios do tipo staffed permanecem abertos. No início de junho deve ainda haver neve do último inverno dificultando a caminhada. O guia Walking in Norway, de Connie Roos, sugere fazer a travessia do Parque Nacional Hardangervidda depois de 10 de julho.

Outro fator que dificulta o trekking por lá é a quantidade de pedras pelo caminho, às vezes são áreas extensas só de pedras, o que é bastante cansativo e obriga a caminhar com mais atenção para evitar uma queda ou torção. 

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Lago a 1194m de altitude no 6º dia de caminhada

Em toda a Noruega, a DNT (Den Norske Turistforening = Associação Norueguesa de Trekking) (english.dnt.no) é a associação responsável pela manutenção das trilhas, pontes e refúgios de montanha. Os refúgios da DNT são de três tipos: self service, staffed ou no-service. Além dos refúgios da DNT há refúgios particulares.

1. Nos refúgios self service você pode utilizar a cozinha para preparar as refeições, comprar a comida disponível se não tiver a sua própria e dormir nos beliches em espaços compartilhados. Antes de sair deve deixar tudo em ordem (lavar, secar, arrumar tudo, varrer o chão) e preencher o formulário de despesas. A conta será enviado para o seu e-mail tempos depois. Visitas diurnas (day visit) para descansar, comer ou apenas se aquecer devem ser pagas.

A hospedagem para não-membros neste tipo de refúgio custa NOK 390 (US$ 47,14) e o day visit até 18h custa NOK 90 (US$ 10,88). Após 18h a visita deve ser paga como uma hospedagem. Sim, tudo na Noruega é muito caro!

Os refúgios self service podem ter guarda ou não na alta temporada. Eu conheci nove refúgios nesse trekking, apenas dois deles eram não-guardados. Nesses vale ainda mais a confiança de que o hóspede está pagando por tudo o que utilizou.

A DNT tem uma chave (fornecida somente aos membros) que abre a porta dos refúgios não-guardados, mas nesse trekking eu não encontrei nenhum refúgio trancado.

2. Os refúgios staffed (com funcionários) são hotéis de montanha. Neles você tem café da manhã e jantar disponíveis e não é permitido usar a cozinha. De comida para vender costumam ter apenas lanches de trilha básicos, como chocolates.

A hospedagem para não-membros neste tipo de refúgio custa NOK 286 (US$ 34,57) em dormitório. Consulte english.dnt.no/routes-and-cabins para outros preços.

3. Os refúgios no-service são do mesmo estilo dos self service porém não têm comida. Não cheguei a conhecer nenhum refúgio desse tipo nos trekkings que fiz na Noruega.

Os refúgios particulares são também hotéis de montanha e têm tabelas próprias de preços.

Para quem está com barraca, nos parques da Noruega vale mais ou menos a regra do "allemannsretten" ou direito de andar (ou direito de acesso), que diz que é permitido acampar em qualquer lugar a mais de 150m de uma casa, desde que não seja uma área cultivada ou haja uma placa de proibição. Digo 'mais ou menos' porque vi isso valer apenas nos refúgios self service; nos refúgios da DNT do tipo staffed eles pediam para acampar (gratuitamente) bem longe, fora da visão do refúgio. Acampar perto do refúgio DNT staffed custa NOK 100 (US$ 12,09) e dá direito de usar o banheiro e a sala de estar. Para mais informações sobre o "allemannsretten": www.visitnorway.com/plan-your-trip/travel-tips-a-z/right-of-access

O uso do banheiro para quem está acampando (ou apenas de passagem) é livre nos refúgios self service e costuma ser cobrado nos refúgios DNT staffed e particulares (ou gratuito se consumir alguma coisa). Nos self service o banheiro é do tipo seco, uma casinha separada, com uma bancada e o assento sobre ela. Muitas vezes o assento e a tampa são de isopor e há uma outra tampa de madeira para colocar por cima. Costumam ter papel higiênico. Nos staffed é um banheiro normal e interno.

Não há problema de escassez de água nesse percurso e nem todos os riachos e fontes estão descritos no texto pois são muitos.

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Lago Mosdalsvatnet

1º DIA - 23/07/19 - de Odda ao Refúgio Mosdalsbu

Duração: 6h20 (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1445m
Menor altitude: 0m em Odda
Resumo: esse foi o dia de maior desnível (subida) já que saí da margem do fiorde (0m) e alcancei o platô Hardangervidda, que tem altitudes por volta de 1200m a 1500m. Nesse dia já percebi a dificuldade do terreno, muito pedregoso.

No dia 20/07 viajei de Oslo a Odda. Tomei às 9h40 na rodoviária Bussterminal de Oslo o ônibus da empresa Nor-Way. Saltei dele 1,8km antes do centro de Odda, às 16h45, para ir ao Odda Camping, único camping da cidade. Cheguei com chuva e choveu nos dois dias seguintes. A promessa de tempo melhor, apontada pelo site yr.no, me fez esperar todo esse tempo para começar a travessia.

No dia 23/07 saí do camping e me dirigi ao centro de Odda. Pretendia descer a pé até o centro mas o ônibus estava parado no ponto e o motorista gentilmente abriu a porta ao me ver, então não resisti (a mochila estava pesada por causa da comida para muitos dias). Passei ainda no supermercado e dei início à caminhada às 12h43 no posto de informação turística da cidade. Altitude de 0m já que estava de frente para o fiorde. Dali caminhei para leste, cruzei a ponte sobre o Rio Opo, passei pelo posto Esso e continuei pela estrada à esquerda. Uns 360m depois da ponte, onde há um ponto de ônibus, entrei na rua à direita, que bifurca. Fui para a esquerda seguindo a placa de Freimsvegen. Não entro na primeira rua à direita, continuo subindo e faço o zigue-zague mais longo. Após três curvas a rua toma o rumo sudeste. Nessa subida observo os curiosos telhados de pedra das casas e os quintais com pés de maçã e cereja. Na trifurcação no alto vou à esquerda. 

Às 13h15 chego a um estacionamento com cerca de 10 carros e descubro que há um ônibus que chega até ali (linha 994 Ragde-Freim). Altitude de 92m. Dali em diante o caminho é uma estradinha estreita de terra, há mais um estacionamento, a estradinha vira trilha e às 13h25 alcanço uma bifurcação num local chamado Freim. Há um painel informativo com mapa topográfico e as trilhas desenhadas. Ali encontro o primeiro T vermelho pintado numa pedra, sinalização usada pela DNT e que seguirei durante todas as caminhadas na Noruega. Subo à esquerda e a vista para Odda e o fiorde Sørfjorden vai se ampliando. Às 13h52 uma seta vermelha indica um desvio do caminho para a esquerda. Às 14h05, na altitude de 299m, entro na mata de pinheiros e encontro uma casal lanchando. Ele eram dinamarqueses e estavam terminando uma travessia ainda mais longa que a minha. Contaram que pegaram tempo muito ruim no alto da serra nos últimos dois dias. 

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Geleira Folgefonna ao fundo

Aos poucos a floresta de pinheiros vai dando lugar à mata nativa, mas às 15h41, na altitude de 882m, saio do limite das árvores. Na bifurcação vou à esquerda seguindo a placa de Møyfallsnuten. Uns 80m depois há uma trilha discreta subindo à esquerda com placa de Møyfallsnuten de novo e é para lá que devo seguir, mas antes paro no riacho próximo à direita (primeira água do dia), onde outros trilheiros descansam e fazem um lanche. Esse local se chama Freimsstølen e há algumas casas vazias. Altitude de 916m. A maior parte das pessoas que fazem o trajeto até aqui vai subir o Pico Rossnos, de 1407m, e para isso basta seguir à direita nessa última bifurcação, cruzar o riacho e subir no sentido sul-sudeste.

Retomo a caminhada às 16h33 subindo para nordeste por campo aberto e com visão do Pico Rossnos à direita e da Geleira Folgefonna (a terceira maior da Noruega) à esquerda, entre nuvens. Às 17h03 cruzo um riacho pelas pedras. Surgem ovelhas pastando, então é melhor tomar cuidado com a água (tive algumas emergências intestinais nessa caminhada, talvez por isso). 

Na altitude de 1394m, às 18h24, já estou caminhando num terreno só de pedras e desvio de uma grande mancha de neve e depois de um lago. A neblina já engoliu toda a paisagem, não enxergo mais que 100m. Às 19h03 atingi o ponto máximo do dia, aos 1445m, e estava a poucos metros do Pico Møyfallsnuten, de 1466m, mas não vi seu enorme totem. À medida que a neblina vai se tornando mais densa surgem pequenas geleiras que, apesar de próximas, eu mal consigo enxergar, tudo cinzento (das pedras e da neblina) e branco (da neve). É uma paisagem fantasmagórica. Tive de cruzar uma das manchas de neve mas ela era fofa e não escorreguei. A bota impermeável é necessária para não molhar os pés nessas situações. Cruzei alguns riachos que brotavam das pequenas geleiras ao redor. 

Às 20h05 cheguei à beirada desse platô e consegui visualizar a paisagem abaixo. A neblina foi se dissipando e pude ver quão bonita era a paisagem para noroeste, com o profundo fiorde Sørfjorden e a grande geleira além. Imensas cachoeiras despencam dos paredões. Na direção que eu deveria caminhar (nordeste) também havia um vale profundo que era do Lago Ringedalsvatnet, no qual está o superfotografado Trolltunga.

A descida por caminho só de pedras teve a sua dificuldade também. Mas felizmente abaixo encontrei uma trilha bem definida e sem pedras. Às 20h52 avistei um lago, mas ainda não era o local do meu acampamento. 

Às 21h05 encontro a primeira placa apontando o Refúgio Mosdalsbu. Uns 3 minutos depois já avisto bem abaixo o enorme lago encaixado entre as montanhas com o refúgio na outra margem. É o Lago Mosdalsvatnet. Desço até ele e o contorno pela esquerda. Chego ao refúgio da DNT às 21h40. Altitude de 1011m. Esse refúgio me surpreendeu por ser não-guardado, ou seja, não tem guarda cuidando. E tinha muita comida disponível. Tudo funciona na base da confiança e honestidade. Você preenche o formulário calculando todas as despesas de comida utilizada e hospedagem e deixa na caixa metálica para receber a conta depois por e-mail. 

O telhado do refúgio é coberto de vegetação, como é comum na Noruega, para manter o isolamento térmico e a estabilidade da casa. Eu acampei perto do lago e havia mais três barracas nas partes mais altas. Nesses dias o sol estava se pondo por volta de 22h, mas às 23h ainda estava bem claro. A noite chega bem lentamente.

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Trolltunga

2º DIA - 24/07/19 - do Refúgio Mosdalsbu a Trolltunga

Duração: 9h20 (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1355m
Menor altitude: 1011m no Refúgio Mosdalsbu
Resumo: nesse dia subi dos 1011m aos 1355m e daí foi uma sucessão de sobe-e-desce por um terreno repleto de pedras bem ruim de caminhar

Finalmente amanheceu um dia lindo de sol e céu azul depois de muitos dias cinzentos e de chuva. Assim o Lago Mosdalsvatnet se mostrou muito mais bonito, pena que as torres de alta tensão estraguem um pouco a paisagem. 

Deixei o local de acampamento às 9h51 na direção leste e cruzei uma ponte suspensa sobre o escoadouro do lago. Na subida seguinte pude avistar a oeste o topo nevado das montanhas num cenário bem mais bonito do que no dia anterior, sem nuvens. As poucas árvores vão ficando para trás, restritas ao entorno do lago. Às 10h43 cruzei um riacho pelas pedras e subi mais. Lá do alto às 11h24 tenho a última visão para trás do Refúgio Mosdalsbu. Às 11h39 fui à direita numa bifurcação com placa que apontava a montanha Einseten à esquerda. O caminho, que já vinha se tornando mais pedregoso, agora é um verdadeiro campo de pedras, lugar bem ruim de andar.

Subi mais por entre diversos lagos e às 12h24 atinjo o topo (1346m), podendo vislumbrar o outro lado, o que não anima muito pois, apesar de muito bonito, é um mar de pedras, uma pedreira só. Sigo descendo por esse terreno difícil sempre seguindo o T vermelho pintado nas pedras. Às 13h08 avisto à esquerda (norte) os paredões do Lago Ringedalsvatnet. Às 13h31 cruzo um riacho pelas pedras e paro para conversar com um casal norueguês fazendo o trajeto ao contrário. Continuando, passo por lindos lagos azuis, sorte que o dia está ensolarado para ver toda essa beleza.

Descendo ainda pelas lajes e pedras, às 15h15 surge um grande desmoronamento e a descida está sinalizada por ali mesmo. Tive de descer com cuidado saltando de bloco em bloco. Abaixo, continuando por uma trilha mais plana, surge um imenso lago à direita, o Langavatnet. Numa bifurcação o caminho segue para a esquerda, mas vou à direita para me aproximar de um abrigo de emergência, uma casinha minúscula de pedras com cama, mesa e lareira. Telhado coberto de vegetação. Dali a vista para o lago bem abaixo é privilegiada porém o vento estava quase me derrubando lá de cima. 

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Lagos de montanha e muitas pedras pelo caminho

Voltando à bifurcação, tomo a trilha da esquerda às 15h36 e logo avisto uma grande barragem e algumas casas do outro lado do lago. A descida até ela foi um pouco complicada, por uma parede quase vertical. Às 15h57 já estava cruzando a barragem por uma passarela. Me aproximo de uma das casas e vejo que há um T vermelho na parede: é um refúgio da DNT chamado Langavassbu. E é não-guardado também! Tinha uma quantidade maior de comida que o anterior e ninguém tomando conta. A regra é a mesma: pegou ou usou, pagou. É bem parecido com o Refúgio Mosdalsbu por dentro, porém mais espaçoso. O banheiro tinha papel higiênico. Há água corrente bem próximo. 

Deixei o refúgio às 16h44. Às 17h05 começo a avistar o magnífico Lago Ringedalsvatnet. E logo avisto também, no meio das grandes lajes e morros de pedra, uma outra barragem. A trilha aponta para lá. Às 17h37 me aproximei da barragem e vi por uma placa com mapinha que deveria desviar dela, não era permitido caminhar pela passarela como na anterior. Tive de descer por uma ladeira de pedra meio complicada a poucos metros do paredão da barragem, caminhar alguns metros por um canal e subir de novo pela encosta do outro lado. Parei para descansar nas lajes de pedra por 13 minutos. Depois subi mais por uma trilha não muito bem sinalizada, passei pelos postes de energia, desci um pouco, subi de novo e passei a caminhar por um platô onde o avanço ficou muito mais fácil e rápido por não haver tantas pedras. Às 19h41 tive de cruzar duas línguas de neve mas nada complicado. Como estou contornando o enorme Lago Ringedalsvatnet avisto à esquerda (sul) o Lago Langavatnet, o da primeira barragem. 

Às 21h05 segui a placa de Preikestolen à esquerda e me surpreendi com uma visão estonteante do Lago Ringedalsvatnet bem abaixo, espremido entre os paredões colossais, lindo como um fiorde. Em sua extremidade oriental despenca a imensa cachoeira Ringedalsfossen. Um cenário inacreditável!

Voltei à trilha principal e dessa vez fui à direita (norte) na bifurcação para encontrar às 21h40 o Refúgio Reinaskorsbu, infelizmente em más condições, depredado e pichado, com parte do assoalho arrancado. O banheiro não tinha mais porta. Uma cena muito rara na Noruega (felizmente não vi mais nenhum refúgio nesse estado). O famoso e badalado Trolltunga estava a apenas 370m dali mas não fui até lá. Estava bem cansado e deixei essa visita para a manhã do dia seguinte. Por causa desse grande atrativo, que as pessoas adoram postar em Facebooks, Instagrams e outras redes, o local estava repleto de gente acampada. Contei cerca de 35 barracas mas devia haver mais escondidas entre as lajes de pedra. Montei a minha abrigada um pouco do vento e assisti a um belo pôr-do-sol às 21h45. Há pelo menos duas fontes de água corrente por perto. Altitude de 1191m.

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Lago Ringedalsvatnet

3º DIA - 25/07/19 - de Trolltunga a algum lugar entre Tyssevassbu e Torehytten

Duração: 7h20 (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1431m
Menor altitude: 1174m
Resumo: nesse dia não houve grandes desníveis, porém a dificuldade veio das travessias na neve e por caminhar a maior parte do dia ainda por pedras

Tratei de ir logo cedo ver o Trolltunga pois sabia que as multidões iam começar a chegar. A maioria das pessoas faz um bate-e-volta de um dia até esse atrativo vindo por um caminho bem mais curto e com desnível menor do que o que enfrentei (por volta de 800m). Caminham cerca de 14km a partir da vila de Skjeggedal, onde chega um ônibus que sai de Odda (e do Odda Camping). Depois das fotos voltei ao mirante Preikestolen para fotografar o lugar com a luz da manhã. 

Desmontei acampamento e quando voltei ao Trolltunga, às 11h16, a fila para tirar fotos já era bem grande. Deixei esse frenesi para trás e às 12h05 segui a placa de Tyssevassbu (refúgio), indo para leste. Com 17 minutos cruzei um riacho pelas pedras e 8 minutos depois um canal de água. Caminho para nordeste e leste passando por vários bonitos lagos à minha esquerda. Às 13h12 cruzei uma mancha de neve, curta, de cerca de 20m, mas nesse dia ainda teria muita neve para atravessar. Às 13h26 alcanço um conjunto de lagos com uma bonita cachoeira. Desço e cruzo um riacho num salto para chegar mais perto dela. Parei para lanchar por 16 minutos.

A trilha continua à direita da cachoeira. Subo, sigo o rio e às 14h09 tenho uma visão panorâmica de todo aquele lugar, como se tivesse atingido finalmente o grande platô Hardangervidda. Cruzo mais uma mancha de neve e tenho um enorme e recortado lago à esquerda. O que estraga novamente são as torres de alta tensão. Cruzo um riacho pelas pedras às 14h27 e 11 minutos depois chego a um canal de água um pouco complicado de ultrapassar já que corre entre paredes de pedra. Tentei onde o canal era mais estreito mas depois não consegui subir a parede do outro lado. Tive de percorrer o canal para a direita por 200m até encontrar um lugar onde fosse fácil cruzar a água e depois subir do outro lado. Quando voltei à trilha principal dois caras estavam tentando cruzar onde eu tentei inicialmente e conseguiram, um ajudando o outro. 

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Platô Hardangervidda e grandes manchas de neve

Às 15h25 cruzei outro canal de água mas esse tinha uma tábua que servia como ponte precária. Às 15h48 cheguei ao Refúgio Tyssevassbu, no topo de uma colina de pedra. Esse foi o refúgio mais bem equipado e bem arrumado até agora, com fogão de 4 bocas com forno (os dois primeiros tinham fogão portátil de 3 bocas), armários de cozinha, estante com livros e despensa lotada de comida. Mas nesse havia uma pessoa cuidando, uma guarda. Questionei sobre a forma de pagamento das despesas nos refúgios, que ela afirmou ser apenas através de transferência bancária internacional e não cartão de crédito. Expliquei sobre as as taxas que seriam cobradas por uma transação como essa, se não seria possível pagar em dinheiro ali para o(a) guarda do refúgio. Ela disse que as regras eram essas e ficou mal humorada. Paciência...

Aproveitei o sol gostoso que havia e fiz meu lanche do lado de fora do refúgio. Se fizesse o lanche dentro do refúgio teria de pagar um day visit de NOK 90 (US$ 10,88). Às 16h42 segui meu caminho para leste pela margem esquerda do lago seguindo a placa do Refúgio Litlos e começa uma sucessão de campos de neve para cruzar, de trechos curtos de 20m a longas travessias de mais de 200m. Numa travessia longa assim na neve fica até difícil saber para que direção caminhar já que os T vermelhos ficam muito distantes entre si. E quando não estava caminhando sobre a neve estava andando sobre pedras, ambos bastante cansativos. Desviar dos campos de neve dava muito trabalho também, era mais fácil caminhar pisando onde outros já haviam feito um caminho.

Às 19h36 passei por uma singela plaquinha onde está escrito em norueguês: Parque Nacional - área protegida pela Lei de Conservação da Natureza, indicando timidamente que estou entrando nos limites do Parque Nacional Hardangervidda. Cruzei um riacho e às 19h37 observo no horizonte a nordeste um grande rochoso de formato quase retangular, lembrando a Pedra do Baú de São Bento do Sapucaí, porém de ângulos mais arredondados. Era o Pico Hårteigen, ao largo do qual eu passaria no dia seguinte. Cruzo mais neve, outro riacho e continuam os bonitos lagos à esquerda. 

Às 20h22 surge um rio que deu mais trabalho. Procurei um lugar mais abaixo onde pudesse saltar para a outra margem mas não achei lugar seguro para isso, então o jeito foi tirar as botas e entrar na água gelada onde a correnteza fosse mais fraca. Água pelos joelhos. Uns 230m depois fui à esquerda na bifurcação seguindo a placa Torehytten (refúgio), à direita se vai ao Refúgio Litlos. A trilha deixa a direção leste e aos poucos toma o rumo norte, agora bem mais fácil, uma trilha bem marcada pelo campo, não mais um caminho mal definido no mar de pedras. Cruzei mais uma mancha de neve, um riacho e parei para acampar num vale à esquerda do caminho às 22h (com plena luz do dia). Altitude de 1327m.

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Mancha de neve que cruzei

4º DIA - 26/07/19 - de algum lugar entre Tyssevassbu e Torehytten ao vale do Rio Veig

Duração: 8h15 (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1473m
Menor altitude: 995m
Resumo: dia fácil pois, após uma subida inicial, o restante do dia foi quase todo de descida (com uma subida bem no final para o local de acampamento). A caminhada se tornou bem mais agradável e rápida pois em lugar dos campos de pedra agora há uma trilha bem marcada no capim.

Deixei o local de acampamento às 9h56 já tendo de cruzar uma mancha de neve de mais de 40m. Subi no sentido nordeste. Cruzei um riacho às 10h29 e 10 minutos depois foi a vez de encarar a travessia de dois rios consecutivos. No primeiro foi possível atravessar pelas pedras mas no segundo tive de tirar as botas (água na altura da canela). Volto a subir. No alto parei por 34 minutos para conferir os caminhos no gps. Atinjo o ponto máximo do dia (1473m) às 12h31 e 4 minutos depois avisto ainda bem longe o Refúgio Torehytten à beira de um lago.

Às 12h57 surge à direita o imponente pico Hårteigen, que eu avistara na tarde do dia anterior. Em 3 minutos encontro uma cachoeira que deságua num lago abaixo à esquerda. Desvio da mancha de neve acima do lago e tento continuar por uma trilha na encosta, mas ela vai sumindo e eu resolvo voltar à cachoeira e descer pela piramba de pedras soltas para tomar a trilha que segue abaixo, ao lado do lago. Às 13h22 cruzo um riacho pelas pedras com a espetacular vista do Pico Hårteigen refletido em suas águas. Uns 9 minutos depois atravesso uma mancha de neve de uns 30m com a dificuldade de ser inclinada para baixo, com maior risco de escorregar. Às 13h43 alcanço uma bifurcação e sigo para a esquerda após pegar água no riacho ao lado. À direita se vai ao Pico Hårteigen (e depois ao Refúgio Litlos), mas não planejei subi-lo durante essa travessia, quem sabe na próxima vez. 

Quando pensei que já estava chegando ao Refúgio Torehytten ainda tive de fazer um desvio à direita para contornar um canal que saía do lago. Desci ao canal, cruzei pelos blocos de pedra e subi a trilha íngreme do outro lado. Cheguei finalmente ao refúgio às 14h23. Fui recebido pela guarda e seu ajudante, ambos muito simpáticos, que me informaram que em Fossli/Liseth, vilarejo que é meu destino no dia seguinte, não havia lugar para comprar comida. Isso me obrigava a comprar comida-reserva ali mesmo e a guarda permitiu que eu pagasse em dinheiro (ao contrário da mal humorada do Refúgio Tyssevassbu). Anotamos tudo no formulário da DNT. Nesse local havia um trilheiro com queimaduras de sol pelo corpo todo, parece que eles não têm noção de como o sol pode ser perigoso. Nem boné eles usam. Esse refúgio é grande, ocupa duas casas, e tem uma despensa muito variada. 

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Paisagens grandiosas

A partir do Refúgio Torehytten há dois caminhos importantes: a noroeste se vai a Kinsarvik, voltando à rodovia 13 que passa em Odda, e a nordeste se vai a Fossli/Liseth e à rodovia 7. Como eu ia para Fossli e depois continuar para o norte tomei a direção nordeste, subindo, às 15h18. Às 15h56 avisto um grande lago azulado e passo a caminhar pelo alto de sua encosta oeste. Após o lago, o rio que se origina dele faz algumas curvas e desaparece num cânion. Mais abaixo ele despenca numa grande cachoeira ocultada pelos paredões e depois se espalha por um extenso e verdejante vale cortado pela trilha. Todo esse conjunto de paisagem chama muito a atenção pela beleza e grandiosidade. Considero que foi um lugares mais bonitos de todo esse trekking. 

A trilha segue pelo campo bem verdinho e me aproximo da margem esquerda do rio. Às 17h43 a sinalização continua na outra margem e sou obrigado a tirar as botas novamente para atravessar (água abaixo das canelas). Às 18h14 sigo a placa de Hadlaskard (refúgio), indo para a frente (esquerda) pois à direita se vai também ao Refúgio Litlos. Me aproximo de algumas casas isoladas, mas nenhuma é refúgio da DNT. Cruzo o rio raso pelas pedras bem em frente às casas e desperto a atenção de um cachorro, que começa a latir. 

Continuo caminhando pelos campos de vegetação baixa e às 19h36 cruzo um riacho pelas pedras. Às 20h06 aparece um rio à direita (Rio Veig) e começam a aparecer árvores também, algo que eu não via desde o início do segundo dia. Logo surge o Refúgio Hadlaskard na outra margem do Rio Veig. Às 20h22 vou à direita na bifurcação em que a esquerda leva ao Refúgio Stavali. Cruzo a ponte sobre o largo rio e entro no refúgio para conhecer. Ali também foi possível comprar comida sem burocracia. Coloquei o dinheiro num envelope e depositei numa caixa metálica de acordo com as instruções da guarda do refúgio, que não conferiu nada. Mas não acampei ali, achei que tinha gente demais e eu queria sossego. Também queria adiantar o percurso a Fossli/Liseth e tinha bastante tempo para isso nesse dia.

Deixei o Refúgio Hadlaskard às 20h45 e tomei um caminho largo diretamente para o norte, seguindo o Rio Veig pela margem direita. Às 21h10 cruzei uma ponte de tábuas (peguei água para a noite) e em 5 minutos atravessei um conjunto de casas de pedra com vegetação no telhado (devem ser casas de pastores). Dali em diante a trilha subiu bastante e retomou a direção norte. A visão para o vale do Rio Veig se alarga. Às 21h58 parei numa clareira que surgiu à direita e montei a barraca com vista para o Pico Hårteigen (3,5km após o Refúgio Hadlaskard). Altitude de 1153m. 

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Cachoeira Vøringsfossen

5º DIA - 27/07/19 - do vale do Rio Veig a Fossli/Liseth

Duração: 8h25 (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1188m
Menor altitude: 670m na rodovia 7 em Fossli/Liseth
Resumo: nesse dia desci ao Refúgio Hedlo e logo subi ao ponto mais alto do dia. Em seguida desci ao vale onde fica Hjølmo e subi a colina seguinte para descer ao ponto mais baixo do dia em Fossli/Liseth.

Deixei o acampamento às 9h49 e continuei no caminho para o norte, inicialmente por extensas lajes de pedra, depois voltando a caminhar pelo campo bem verde. Às 10h19, numa bifurcação, a placa aponta para o Refúgio Dyranut à direita, mas sigo para o Refúgio Hedlo, em frente. Cruzei duas pontes consecutivas e em seguida passei por casas de pedra vazias. Me aproximo novamente do Rio Veig e ele forma um bonito lago com a água escorrendo sobre lajes. Continuo seguindo o rio e às 11h18 avisto o Refúgio Hedlo às suas margens. Numa bifurcação perto do rio uma placa aponta para o Refúgio Stavali à esquerda. Cheguei ao Refúgio Hedlo às 11h35 e ele é particular (não é da DNT) e staffed (com funcionário). É uma casa grande de dois andares ao lado de altas árvores. Numa demonstração da confiança que existe entre as pessoas na Noruega havia na sala uma mesa com guloseimas e refrigerantes e ao lado uma tigelinha onde se deixa o pagamento do que for consumido. 

Vi um grupo de noruegueses cinquentões (como eu) parar ali para descansar e, aproveitando a habitual simpatia norueguesa, fui conversar com eles e perguntar se eles sabiam de lugar para comprar comida na vila de Fossli. Também não conheciam. Eles estavam fazendo um circuito de trilhas a partir do Refúgio Vivelid.

Deixei o Refúgio Hedlo às 12h41 continuando o caminho para o norte, seguindo as placas de Liseth (vila), Hjølmo (estacionamento) e Vivelid (refúgio). A trilha atravessa um pequeno bosque e tem muitas pedras. Às 13h16 avistei mais casas num vale mas a trilha não se aproxima delas, em vez disso as contorna pela esquerda e depois sobe a colina ao fundo, onde despenca uma bonita cachoeira. Nesse contorno pela esquerda cruzo uma ponte de tábuas às 13h40 e na bifurcação vou à direita (à esquerda se vai ao Refúgio Vivelid). Em seguida subo a colina e a visão do vale para trás vai ficando cada vez mais bonita. No alto (desnível de 169m) vou à direita na bifurcação às 14h20 seguindo a placa de Liseth (à esquerda se desce a Hjølmo). Uns 100m depois da placa parei por 18 minutos e escutei sinos de ovelhas por perto, portanto cuidado com a água! Subo mais e encontro sobre uma pedra um crânio de rena com uma grande galhada. Infelizmente essa foi a única rena que eu vi em todo esse trekking. Não há nenhuma sinalização indicando, mas consultando os mapas eu vi que estava saindo dos limites do Parque Nacional Hardangervidda. 

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Rio Veig e Refúgio Hedlo

Atinjo o ponto mais alto do dia (1188m) às 15h03 e para trás (sul) ainda vejo o Pico Hårteigen no horizonte. À esquerda (norte) enxergo bem longe também a ponta de um lago (Eidfjordvatnet) e de um fiorde (Eidfjorden). Começo a descer desse platô às 15h14 em direção a um vale (com algumas casas) e avisto montanhas nevadas ao fundo e Hjølmo à esquerda. Quase no final da descida passo por uma fonte de água e depois cruzo um riacho pelas pedras. Às 16h13 vou em frente na bifurcação com placa apontando Vivelid à esquerda e cruzo o rio principal do vale por uma ponte. Do outro lado não há placa e a trilha não é tão marcada, mas fui para a direita (leste), passei próximo das casas e a trilha vai fazendo uma curva para nordeste, subindo bastante pela encosta da margem direita verdadeira de um rio. 

Às 18h46 avisto a vila de Fossli/Liseth e pego uma trilha à esquerda bem marcada e até com estacas, mas não foi um bom caminho. Quando percebi que estava fora do trajeto gravado no gps já tinha descido bastante e achei que os dois fossem convergir, mas não aconteceu. Esse caminho tinha solo fofo (turfeira?) e foi ficando ruim de andar, mas continuei nele para ver onde ia parar. Desci bastante. Nas bifurcações que apareceram fui à esquerda (19h33), direita (180m depois) seguindo a placa Vøringsfossen e direita (15m depois). Me aproximei das primeiras casas e às 19h46 cheguei a uma estrada de cascalho, onde desci para a direita. 

Às 19h57 alcancei o asfalto da rodovia 7, chegando enfim a Fossli/Liseth. Fui para a direita por 800m, entrando na estrada de asfalto à esquerda. Subi e tomei a esquerda na bifurcação, chegando ao Fossli Hotel às 20h34. À esquerda (norte) do hotel começa uma trilha secundária para o Refúgio Rembesdalsseter, meu destino no dia seguinte. Mas antes de entrar na trilha fui visitar a maior atração do lugar, a linda cachoeira Vøringsfossen, que despenca 182m do platô Hardangervidda para dentro do Cânion Måbødalen, que corre em direção ao Eidfjorden (passando pelo Lago Eidfjordvatnet). O lugar é bem turístico, com passarelas e mirantes. Fica bem em frente ao hotel e o acesso é gratuito. 

No hotel fui informado de que os mercados mais próximos são: Coop em Eidfjord (18km a oeste pela rodovia 7) e no Garen Camping (2km a leste também pela rodovia 7). Como não quis fazer nenhum desvio da rota, teria que comprar comida no próximo refúgio. Entrei na trilha às 21h03 e subi. Coletei água num riacho onde havia mangueira de captação e subi mais. Procurei um lugar plano para montar a barraca e encontrei um bom local uns 160m antes de uma bifurcação que vem diretamente da Hospedaria Liseth. Essa é a trilha oficial da DNT, a que eu fiz nem sinalização tem. Altitude de 852m. 

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Fiorde Simadalsfjorden ao fundo

6º DIA - 28/07/19 - de Fossli/Liseth a Rembesdalsseter

Duração: 7h30 (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1198m
Menor altitude: 843m
Resumo: dia difícil, com muitos desníveis. Subi dos 852m aos 1198m para em seguida baixar aos 843m de novo, subir aos 1154m, descer aos 907m e subir aos 1023m

Iniciei a caminhada do dia às 9h04, tomei a esquerda na bifurcação com placa de Liseth à direita e continuei subindo. Às 9h21 parei num riacho à esquerda e segui às 9h46. Às 10h13 passei à esquerda de uma casa e subi muito ainda. Parei para descansar por 25 minutos na altitude de 1104m. Às 11h23 alcancei um bonito lago e logo a subida teve fim, aos 1198m de altitude (a maior do dia). Comecei a descer à esquerda de um canal de água e passei por uma placa apontando a montanha Store Ishaug, de 1485m, à esquerda. Às 11h37 avisto o Lago Rembesdalsvatnet, onde está o Refúgio Rembesdalsseter, mas o caminho até ele seria tão difícil que só conseguiria chegar no final do dia. A trilha desce suavemente por lajes e trechos de pedras e às 11h56 parei próximo a um riacho. Às 12h34 já avisto o primeiro obstáculo que tenho pela frente: descer a um platô bem abaixo e depois subir de novo por uma crista para me aproximar do Lago Rembesdalsvatnet. A descida exigiu atenção por ser bastante inclinada e no meio dela encontrei um norueguês que estava subindo desde uma estrada lá no fundo do vale, muito abaixo do platô. Ele estava fazendo uma caminhada de um dia e não tinha nem mochila. 

Às 13h23 a descida teve fim nas placas apontando Rembesdalsseter à direita e Tveit à esquerda, de onde veio o norueguês. Fui para a direita (leste) e às 13h50 cruzei uma ponte estreita de tábuas sobre o escoadouro de um lago à direita (ali a menor altitude do dia, 843m). Fiz uma pausa para descansar e às 14h17 encarei a subida pela crista, mas parei muitas vezes para admirar e fotografar a beleza impressionante desse lugar. Os paredões a oeste despencam para um vale verdejante com a ponta de um fiorde (Simadalsfjorden) bem distante. Atinjo o topo às 15h13 e tenho visão para o outro lado, um imenso vale a leste. E volto a ter vista para oeste de novo, onde visualizo melhor o fiorde ao fundo. Numa bifurcação fui à direita me afastando da beirada do precipício. 

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Lago Rembesdalsvatnet bem distante ainda

Às 15h58 vejo novamente o Lago Rembesdalsvatnet, mas a casa que está ao lado da barragem não é o refúgio ainda. Ele fica no lado oposto do lago. Numa bifurcação lanchei por 37 minutos e desci às 16h50 à esquerda seguindo a placa de Rembesdalsseter (à direita se vai ao Refúgio Kjeldebu). Depois de um pequeno desce-e-sobe pela encosta (onde cruzei um riacho) avistei finalmente o refúgio às 17h25, ainda muito distante, com o enorme lago no meio. Comecei a descer em direção à barragem e era uma piramba difícil, muito íngreme. Encontrei com dois noruegueses subindo e estavam reclamando daquela trilha ruim em lugar de um caminho melhor que há, porém impossibilitado pela queda de uma ponte. 

Às 17h53 alcancei a barragem e a cruzei. Dali tive uma bonita visão do grande Lago Rembesdalsvatnet com uma geleira no alto da montanha ao fundo. Esse é um braço da imensa Geleira Hardangerjøkulen, a sexta maior da Noruega. Ventava muito. No outro lado tomei um caminho duplo para a esquerda que logo virou um caminho simples e fez algumas curvas. Mais acima tenho visão de frente para a barragem com o lago e a geleira no alto. Às 18h44 cruzei a extremidade de um lago por uma pequena barragem (ruim para quem tem fobia de altura). Às 18h51 cruzei um riacho pelas pedras e às 19h22 fui à direita numa bifurcação com placas em que à esquerda se vai a Hallingskeid (refúgio e estação ferroviária). Às 19h36 cruzo uma porteira (!?) e em seguida uma ponte de tábuas. Às 19h43 vou à direita numa bifurcação com placas em que a esquerda leva a Finse (meu destino no dia seguinte). Às 19h56 chego enfim ao Refúgio Rembesdalsseter, a 965m de altitude. É um refúgio self service guardado. A guarda me recebeu com um certo mau humor e quando falei do problema do pagamento por transferência internacional ela foi um pouco grossa na resposta. Quando eu entrei sem querer no refúgio com as botas ela me mandou tirá-las imediatamente. Não sei como colocam uma pessoa tão estúpida num lugar onde se atende tanta gente todos os dias. E vi ela ser impaciente com os outros também.

Como ventava muito na encosta onde estava o refúgio procurei um lugar do outro lado da colina, por onde havia chegado. Acabei montando a barraca numa parte mais baixa, perto de um outro lago, onde ventava menos. À noite começou uma chuva muito forte, com trovões, mas felizmente os raios estavam caindo bem longe dali. Porém esse foi o prenúncio da mudança de tempo que viria no dia seguinte. Altitude de 985m.

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Lago próximo ao Refúgio Rembesdalsseter

7º DIA - 29/07/19 - de Rembesdalsseter a Finse

Duração: 8h (descontadas as paradas e erros)
Maior altitude: 1508m
Menor altitude: 981m
Resumo: dia fácil com pouco desnível, apenas uma subida mais forte na primeira hora e uma longa descida no final do dia

O dia amanheceu bonito depois da tempestade da noite anterior e felizmente não tive de desmontar a barraca na chuva. Comecei a caminhar às 10h56 voltando à última bifurcação com placas do dia anterior e seguindo para a direita, direção de Finse. Subi por uma trilha íngreme e alcancei um pequeno platô rochoso com lagos. Cruzei um riacho às 12h11, outro daí a 20 minutos e depois deles a vegetação praticamente desapareceu. Às 13h36 tive de cruzar um rio com um certo risco. No primeiro lance havia uma tábua, mas no segundo o salto tinha que ser certeiro, sem escorregar para não cair na correnteza. Na sequência havia uma grande ponte pois era um escoadouro bem largo de um lago à direita. 

Continuo caminhando passando por diversos lagos, alguns muito bonitos, de cor esverdeada. Num deles despenca uma bonita cachoeira que vem diretamente da geleira acima. Às 15h28 avisto um outro ângulo da enorme Geleira Hardangerjøkulen. O céu começa a acumular nuvens bem carregadas. A visão da geleira é magnífica, aquela vastidão de gelo se desprendendo em blocos e despencando num grande lago. Porém admirei essa beleza toda já embaixo de chuva, junto com o vento frio que vinha da geleira. Choveu mais de uma hora. Às 16h51 começam a aparecer as manchas de neve para atravessar, das mais curtas de cerca de 30m à mais extensa, por volta de 100m. 

Às 17h43 cruzo um riacho pelas pedras, mas às 18h03 tive de tirar as botas e pegar duas varas deixadas ali para atravessar um rio mais largo. Em seguida já tenho visão mais ampla e consigo enxergar a estrada de ferro Oslo-Bergen, da qual Finse é uma estação. Mas ainda tinha mais neve para cruzar, a última desse trekking, e era inclinada, então desci quase esquiando (sem esquis!). A descida continua na pura pedra, bem cansativa. Às 18h28 já visualizo o enorme Lago Finsevatnet com casas espalhadas entre ele e a linha férrea.

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Lago a caminho de Finse

Cruzei uma ponte suspensa às 19h10 e outra 9 minutos depois. Uns 5 minutos depois cruzo um riacho largo pelas pedras. Às 19h36 passo ao lado das primeiras casas, por isso já havia visto gente acampada antes, para manter a exigida distância das casas (mínimo de 150m, mas quanto mais fora da visão melhor). Subi até a linha do trem e a cruzei às 19h54. Subi mais 20m e tomei a estradinha de cascalho para a direita. Às 20h08 parei por 8 minutos no túnel sob a linha férrea para me abrigar da chuva fraca. Às 20h34 cruzei uma porteira de ferro, uma ponte e cheguei a Finse às 20h43. Finse é a estação mais alta da estrada de ferro Oslo-Bergen, com altitude de 1228m. 

Com a mudança de tempo e chegada da chuva, eu precisava verificar a previsão para os próximos três dias de caminhada no Parque Nacional Hallingskarvet e Cânion Aurlandsdalen. Aproveitei o wifi aberto do Hotel Finse 1222 e consultei o yr.no. Esse hotel fica exatamente ao lado da estação de trem, onde também havia wifi aberto. Não era nada animadora a previsão. Além disso eu precisava comprar mais comida e Finse não tem nenhum mercadinho sequer. Mas, mesmo postergando a caminhada, tinha de achar um lugar para acampar essa noite.

Fui até o Refúgio Finsehytta da DNT, que parece mais um hotel, porém no acesso a ele uma plaquinha já alerta para a proibição de acampar em Finse, sendo permitido apenas na margem sul do Lago Finsevatnet (cerca de 1km dali) ou no caminho para Geiteryggen. O uso do banheiro no refúgio é gratuito (banho é pago). Resolvi acampar no caminho para Geiteryggen, que seria o início do trekking do dia seguinte. Voltei à estação do trem, cruzei a estrada de ferro às 21h53 e segui a placa de Geiteryggen após o portão de madeira. Subi pela rua principal de cascalho e segui a sinalização do T vermelho entrando numa trilha à direita, cerca de 300m depois da linha férrea. Subi até me distanciar de todas as casas, praticamente no final da ladeira, onde encontrei um lugar plano para a barraca. Água fui buscar num riacho 370m à frente. Altitude de 1338m.

O dia seguinte (30/07) amanheceu apenas cinzento e até pensei que daria para continuar se tivesse comida para mais três dias, mas logo veio uma forte neblina que não permitia enxergar mais que 30m. Desci de volta à estação e peguei o próximo trem para a cidade de Geilo, onde me hospedei no hostel HI à espera de tempo melhor para continuar a caminhada no Parque Nacional Hallingskarvet e Cânion Aurlandsdalen, que descreverei em outro relato.

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Informações adicionais:

. para saber os preços de hospedagem e refeições nos refúgios da DNT consulte os valores atualizados em english.dnt.no/routes-and-cabins. Para se tornar membro da DNT e ter descontos o valor da anuidade é NOK 695 (US$ 84), valor de 2019 para adultos entre 27 e 66 anos. 

. Odda Camping: NOK 160 (US$ 19,34) para uma barraca com uma pessoa, NOK 200 (US$ 24,17) para uma barraca com duas pessoas. A ducha quente custa NOK 20 (US$ 2,42) a cada 5 minutos (funciona com moeda). Site: oddacamping.no/en

. mapa do parque com as trilhas e refúgios: ut.no/kart

. a temperatura mínima durante a noite fora da barraca ficou entre 10ºC e 13,9ºC

. para planejar qualquer viagem de ônibus, trem ou barco na Noruega: en-tur.no (clique em Meny e selecione English)

. ônibus Oslo-Odda: www.nor-way.no/en

. ônibus Odda Camping(Toppen)-centro de Odda: www.skyss.no/en

. a única cidade desse percurso que tem supermercado é Odda (Rema 1000, Spar e Extra). Os refúgios self service vendem comida pelo dobro ou triplo do preço da cidade. 

. ônibus Fossli-Bergen: www.skyss.no/en

. trens na Noruega: www.vy.no/en

. roteiro adaptado a partir das informações do guia Walking in Norway, de Connie Roos, Editora Cicerone

Rafael Santiago
julho/2019
https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br

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    • Por rafacarvalho33
      A região do Complexo do Baú é uma das mais conhecidas de toda Serra da Mantiqueira, situada próximo a Campos de Jordão e São Bento do Sapucaí. A região atrai milhares de turistas ao ano, que procuram desde o turismo convencional até ao turismo de aventura. 
       
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      - Como chegar
       
      Usando o Waze ou Google Maps coloque a localização Restaurante Pedra do Baú, de São Paulo dá em torno de 200 km. O local é bem estruturado, oferecendo estacionamento, banheiro, restaurante, hospedagem e dá acesso à trilha Pedra do Baú e da Ana Chata.
       
      A diária do estacionamento custa R$20,00 e o uso dos banheiros esta incluso nisso.
       
      A trilha tem em torno de 05 a 06 km, sendo 1,5 km  de seu trajeto de subida, depois mais 600 grampos ate o topo da Pedra do Baú, então as pernas acabam ficando doloridas no retorno. Para se ter uma ideia, fiquei mais cansado nessa do que na de 25 km que fiz pela região de Biritiba Mirim.
       
       
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      A trilha é bem demarcada, com totens indicando a distância que falta até o inicio dos grampos. Quando chegar ao inicio dos grampos, terá um responsável controlando o acesso, caso você não opte fazer a subida com algum guia, será necessário assinar um termo de responsabilidade. 
       
      Nesse mesmo ponto você verá o acesso para a trilha da Ana Chata.
       
      A subida pela FACE SUL da Pedra do Baú esta INTERDITADO, houve um deslizamento de pedra que acabou arrancando 03 grampos, porém mesmo sem eles, as pessoas estavam se arriscando com cordas para pular a parte sem grampos, os responsáveis do parque acabaram tirando mais alguns grampos tanto no meio como no começo para que nem com corda fosse possível.
       
      Tudo isso foi feito pela sua segurança, a face Sul não é tão firme quanto a Face Norte. Logo evite. 
       
       
       Visão da Serra da Mantiqueira
       
       
      Como o mesmo lugar para subir é a mesma via para descer e não cabem 02 pessoas no meu grampo, ai você pensa "e como faz com o congestionamento de pessoas?" Bem, o Parque disponibiliza 04 funcionários que ficam um no começo, dois no meio e um no fim, controlando o transito de pessoas, isso ajuda muito. 
       
      A Pedra do Baú é muito bem cuidada, não há lixo na trilha, é bem demarcada, gostei muito de conhecer a região, os grampos são firmes e estão em um espaço muito confortável entre um e outro, assim não dificultando para quem tem a perna curta.

      O medo sempre ira surgir, mas qual seria a graça da vida se a gente não encarar nossos medos né? 
       
      O que posso recomendar é pensar em um degrau por vez, devagar, sem pressa e sempre da forma mais segura possível, caso tenha muito medo ainda, é possível contratar guias locais que vão te acompanhar e irão fornecer os equipamentos de segurança.
       
       
      - Dicas
       
      Leve:
       
      2 Litros de água no mínimo.
      Lanche e frutas
      Boné e lanterna
      Óculos
      Protetor solar
      Blusa de Frio ou corta vento
      Protetor Labial
      Um calçado adequado para a trilha
      Sempre deixe avisado para familiares para onde você esta indo
      Planeje a trilha antes de fazê-la pela primeira vez, saiba o que você ira enfrentar durante o dia.
       
       
       
       
      Melhor época é sempre no outono/inverno, época que dificilmente terá incidência de raios e trovões, e muito menos chuva, mas sempre fique atento a meteorologia do dia.

       
      Não se esqueça de sempre trazer seu lixo de volta, ajude a cuidar e preservar a natureza.

       
      Espero que tenham gostado do relato, para qualquer dúvida só mandar mensagem pelas minhas rede sociais, estou presente no Instagram no rafacarvalho33 e no Facebook no Follow The Portuga.
       
       
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    • Por thiago.martini
      Amigos Mochileiros,
      Como o único relato que tem sobre o trekking a Ciudad Perdida é de 2010 (muito bom por sinal e me ajudou bastante) resolvi escrever sobre a experiência que eu e minha esposa tivemos em outubro deste ano neste trekking incrível.
      No meu instagram (@thiagomrp) tem uma postagem para cada dia da trilha, com várias fotos do percurso. Quem quiser, é só dar uma conferida.
       
      PREPARAÇÃO
      Foi bem difícil achar boas informações sobre o trekking em sites brasileiros. Só um relato aqui no Mochileiros.com e poucas informações recentes. Acabei assistindo alguns vídeos feitos por viajantes gringos, buscando informações em sites colombianos e conversando com o hostel que iria nos hospedar em Santa Marta.
      Pelo que tinha pesquisado, sabia que a caminhada seria um pouco difícil, então resolvemos intensificar um pouco os treinos (fazemos treino funcional pelo menos 3 vezes por semana).
      Fiquei em dúvida sobre comprar antecipadamente ou fechar na hora. Conversei com o pessoal do hostel por e-mail (Masaya Santa Marta – recomendo muito a estadia lá) e me orientaram que sempre tinham saídas e que a diferença seria o pagamento com ou sem taxas do cartão. Em resumo, pagando lá haveria uma taxa de 3% do cartão de crédito (que de fato não ocorreu, mais adiante explico).
      Então como preparação apenas reservei o hostel em Santa Marta (Masaya) para dois dias antes do trekking e um dia depois. Assim poderíamos deixar nossos mochilões lá mesmo.
       
      COMPRA DO TOUR (dia 07/10/2019)
      Compramos o tour no próprio hostel, pelo mesmo preço que costuma ser o padrão das empresas de Santa Marta, COP 1.100.000,00. Na época que estivemos lá a melhor cotação que achamos foi 1 real para 780 COP’s. Com essa cotação nosso trekking ficou por +- R$ 1.400,00 cada um. Não tivemos a tal taxa extra, porque o atendente nos enviou um link (tipo paypal) e pagamos diretamente no site.
      Aproveitamos para pegar informações com o atendente, Francisco, que tinha sido tradutor nessa trilha por diversas vezes. Segundo ele não seria TÃO difícil. Ledo engano nosso kkkkk.
       
      DIA 1 (09/10/2019)
      Entre 8h30 e 9h00 passariam nos recolher para o tour. Às 8h30 já estávamos na recepção. Vi um rapaz com roupa de agência e perguntei se estava nos esperando. Ele disse que não. Apenas outras duas pessoas. Até aí, ok então.
      Esperei mais uns 15 minutos e nada da nossa agência. Fui falar com o rapaz sentado e perguntei se o nosso tour não era com ele também. Me perguntou qual era a nossa agência. Aqui descuido meu, não tinha perguntado ao Francisco qual era a agência. Mostrei para ela o comprovante de pagamento, ele fez uma ligação e confirmou que a gente também tinha que ir com ele. Uffaaaa, que sorte que fui abordá-lo.
      Entramos num 4x4 e recolhemos algumas pessoas pelo trajeto. Fomos até a agência antes de sair. Depois de um rápido briefing pegamos a estrada.
      Nosso grupo tinha 9 pessoas (5 colombianos, 2 ingleses, 1 alemão, 1 norte-americana e nós 2 de brasileiros). 
      Foram cerca de 1h30 de estrada de asfalto, com um motorista dirigindo loucamente kkkk.
      Por volta das 11h00 estávamos na entrada do Parque Nacional de Sierra Nevada. Lá pausa rápida para banheiro, colocar nossas pulseira de autorização para entrar no parque e mais 45 minutos de estrada de chão, com várias subidas e descidas irregulares e travessias de rio. Foi bem emocionante kkkk.
      Perto das 12h00 chegamos ao restaurante onde almoçamos e depois iniciamos nossa caminhada. Prato feito com arroz, feijão, salada, coxa com sobrecoxa e, é claro, patacones (que delícia kkk). Os pratos de comida são muito grandes. Eu não consegui comer tudo.
      Por volta das 13h15 saímos para iniciar nossa caminhada.
      O primeiro dia é basicamente uma longa caminhada estrada acima, com algumas barraquinhas no meio do caminho vendendo água, refri, cerveja, cacau, suco de laranja etc.
      Esse dia totalizou 12,2 kms com solzão na cabeça.
      Chamou atenção nesse dia a quantidade de aranhas e suas teias nas árvores.
      Chegamos no acampamento por volta da 16h45. Todos os acampamentos são ao lado de rio. Nesse primeiro tinha uma piscina natural que o povo pulava do alto de uma pedra. Eu sou meio cagão para água, mas tomei coragem e pulei, minha esposa também. Foi uma baita adrenalina. Tem o vídeo no meu instagram (@thiagomrp).
      Depois de um mergulho revigorante nas águas frias do rio, fomos tomar banho para jantar e dormir.
      Dica: muita atenção nos acampamentos com aranhas, escorpiões e cobras. O nosso guia nos alertou. Nós optamos por pendurar as botas no alto (o que depois foi seguido pelos colegas) e SEMPRE deixar as mochilas fechadas, para evitar entrada de bichos. Também revisamos as camas antes de deitar.
      Jantar estava muito farto e gostoso. Depois um brefing sobre o próximo dia e conversas sobre a história da trilha, da região, do povo Tayrona etc. Tudo muito interessante.
      Às 20h00 já estamos deitados e às 21h00 apagaram as luzes.
       
      DIA 2 (10/10/2019)
      Despertadores tocaram as 5h00 para nos arrumarmos, tomarmos café e saímos às 6h00. Acontece que no grupo tinha uma criança (11 anos) que só levantou às 6h00 e daí que foi tomar café. Ficamos bem impacientes, inclusive o guia. Aqui falha dos pais que não acordaram a criança antes e apressaram ela. Acabamos saindo 6h30.
      O segundo dia já era sabido com sendo o pior, e realmente foi. Foram 21,2 kms com muitas subidas e muita lama pelo caminho. Lugares bem escorregadios para caminhar. Nos levamos nossos próprios bastões, quem não tinha estava improvisando com tronco de árvore.
      Às 9h00 chegamos no lugar onde almoçamos. Fizemos uma parada mais longa com direito a visitar uma cachoeira próxima. Valeu muito a pena.
      Às 10h30 já estávamos almoçando e 11h00 voltamos a caminhar.
      A segunda parte do dia foi beeeeemmm difícil. Muita subida e lama.
      Por volta das 14h00 começou a chover, então complicou um pouco mais. Era subida sem fim, com chuva e fome. Por sorte chegamos numa vendinha e lá tinha frutas para nós. Foi revigorante.
      Aliás, em várias vendinhas as agências providenciam frutas para o pessoal, normalmente melancia, laranja ou abacaxi (muito doce por sinal).
      Chegamos no acampamento às 16h10, bem cansados. É o último acampamento antes da Ciudad Perdida, então todas as agências ficam no mesmo lugar. É o que tem a estrutura mais precária, mas mesmo assim foi ok.
      Jantamos, conversamos e antes das 20h00 já estávamos deitados. Às 21h00 apagaram as luzes.
       
      DIA 3 (11/10/2019)
      Novamente levantamos às 5h00, café da manhã e as 6h30 saímos. Aqui o atraso foi proposital. Como 10 minutos após o acampamento tem a travessia de um rio, o guia preferiu atrasarmos um pouco para não ter que ficar esperando na margem do rio os demais grupos atravessarem.
      Que travessia hein!
      Deve ser uns 20 metros de uma margem a outra, com pedras e correnteza forte. Duas cordas ajudam, aliás, todo mundo se ajuda porque a correnteza é muito forte mesmo.
      Depois de recolocar as botas, mais uns 10 minutos caminhando e chegamos no início das escadas que levam a Ciudad Perdida. Mais de 1200 degraus pela frente. Muita atenção, pois os degraus são curtos e bem úmidos.
      Às 7h10 já estávamos na entrada da Ciudad Perdida. Passaportes (dados pelo próprio parque com a história do lugar) foram distribuídos e carimbados.
      Nos acomodamos num lugar para ouvir o guia contar sobre a história da Ciudad Perdida e seu povo. Depois de um tempo saímos para desbravar o lugar.
      Você vai encontrar vários militares do exercício pelos caminhos da Ciudad Perdida. Eles estão ali para marcar a presença do Estado e oferecer segurança. Foram todos amigáveis e até tiraram fotos com a bandeira do Brasil (eu sempre viajo com uma).
      Na saída da Ciudad Perdida nosso guia passou na oca do líder espiritual, Mamo, porém ele não estava. Apenas sua esposa que vendeu algumas pulseirinhas feitas por ela para o grupo.
      Por volta das 10h00 já estávamos descendo de volta ao acampamento em que passamos a noite. Almoçamos por lá e depois voltamos até o acampamento em que almoçamos no segundo dia.
      Nesse dia foram quase 22km caminhados. Foi puxado, mas nem tanto.
      A noite jantamos e antes de dormir tivemos a oportunidade de ouvir histórias de um índio de uma tribo descendente dos Tayronas. Ele mostrou instrumentos de trabalho, o poporo (instrumento usado apenas pelos homens para consumir a folha de coca) e outros utensílios. Foi uma conversa legal. Ele falava mais ou menos o espanhol e era auxiliado pelo nosso guia. Uma experiência bem bacana.
       
      DIA 4 (12/10/2019)
      Novamente acordamos as 5h00 e 6h30 já estávamos caminhando para terminar o nosso trekking. O objetivo era chegar para o almoço no local onde iniciamos nossa aventura. Lá onde o 4x4 nos deixou e voltaria nos pegar.
      Umas subidas bem fortes, com quase 1 hora de subida initerrupta. Foi bem puxado.
      Confesso que tenho dúvidas se foi o segundo ou último dia o mais difícil. Ambos foram muito puxados.
      Por volta das 10h00 paramos tomar um suco e comer um bolo no mesmo local do primeiro acampamento. Descansamos um pouco e logo partimos.
      Eu e minha esposa aceleramos o passo porque queríamos terminar antes do meio dia. Não porque tivéssemos pressa, mas só para ter um objetivo.
      Uma parte do grupo foi mais rápido conosco e o resto seguiu mais lento com o guia.
      Esse trecho final foi aquele na estrada com o sol na cabeça do primeiro dia. Dessa vez o sol estava até mais forte, por isso cada vez mais queríamos chegar antes.
      Exatamente 11h50 chegamos no restaurante. Fui um trecho bem cansativo, quase 22,5 km. Todos que chegavam já foram arrancado as botas e deitando pelo chão gelado, era a melhor coisa naquele calor kkkk.
      Cerca de 1 hora depois chegou o resto do grupo.
      Almoçamos e por volta da 14h00 já estávamos no 4x4 para retornarmos até Santa Marta.
       
      SALDO FINAL
      Talvez tenha sido o trekking mais difícil que já fiz na vida (já fiz Salkantay no Peru e vários outros no sul do Brasil).
      Foi puxado, subidas e sol fortes e uma umidade muito grande, suávamos muito.
      Faria tudo de volta? Sem sombra de dúvidas, SIM.
      Foi uma experiência muito legal, uma caminhada difícil e desafiadora, com um grupo nota 10, guia e tradutor muito gente boa e estrutura de acampamentos legal. Várias vezes nos pegávamos falando: “estamos no meio da selva colombiana!!!”. E realmente é isso. É uma selva bem fechada, úmida, com rios, cachoeiras, pedras e lama.
      Trekking a Ciudad Perdida marcado como FEITO e RECOMENDADO a todos mochileiros e trilheiros!
       
      Obs.: tentarei colocar algumas fotos nos próximos comentários. Quem quiser pode ver algumas no meu instagram @thiagomrp. 
       
    • Por janicehartmann
      O Ausangate é a montanha mais alta da Cordilheira Vilcanota, com 6.384 metros de altura, faz parte dos Andes Peruano,  Região de Cusco.  Existem várias possibilidades de trekkings na região, mas o mais tradicional é o que da a volta no Ausangate, levando em média de 04 a 08 dias, dependendo do tempo disponível e o que se quer conhecer. Depois de conhecer vários circuitos de caminhada no Peru chegou a vez de conhecer este lugar mágico.
      Realizei a viagem no início de agosto de 2019, na melhor época para conhecer a região, pois embora frio, não tem chuvas. O trekking pode ser realizado entre maio e outubro e é considerado de moderado a difícil por conta da altitude, pois se está praticamente todo tempo acima dos 4.500 metros de altitude.
      Depois de muito pesquisar na internet, decidi contratar uma agência somente em Cusco, o que se revelou uma boa decisão. Acabei fechando o passeio de 5 dias e 4 noites com a Sonnco Tours.
      1º Dia
      No dia programado um representante da agência veio nos buscar no Hostel, às 08:30  horas da manhã,  e nos acompanhou até o terminal de ônibus del Corredor. Tomamos um ônibus da empresa Saywas com destino ao povoado de Tinky, em Ocongate. A viagem dura 3:30 horas e tem ônibus de 30 em 30 minutos, entre as 9:00 e 18:00 horas.
      A estrada até lá é a Interoceânica Sur que chega até Rio Branco, no Brasil. O caminho passa pelo “Vale Sagrado Sur” e por Urcos. Depois de Urcos a estrada vai subindo em caracóis até o Passo ou “Abra Cuyuni” a 4.185 metros de altitude. A partir daí já se pode vislumbrar o majestoso complexo do Ausangate e já dá uma emoção sentir que logo mais estaremos caminhando por entre seus vales.
      Chegamos em Tinky, a 3.850 metros de altitude, as 12:30 da manhã. Descemos em frente ao Mercado Público do povoado onde nos aguardava nosso simpático guia local Felipe.
      Tinky é um pequeno vilarejo, bastante simples, que recentemente tem recebido alguma projeção turística por conta dos viajantes que querem fazer o Trekking do Ausangate, mais recentemente um passeio menos pesado, de um dia apenas, que é o das “Siete Lagunas do Ausangate”.
      Felipe nos levou para almoçar e depois fomos a um mercadinho onde ele comprou os mantimentos para a travessia, nos permitindo escolher o cardápio, inclusive frutas e verduras.

      Seguimos caminhando por cerca de três horas até a cada de Felipe, em Upis, montanha acima superando um desnível de cerca de 400 metros. Neste trecho se vislumbra sempre o Ausangate (masculino) à esquerda e Cayangate (feminino) à direita, por um caminho de terra batida usada pelos moradores locais, passando pelas propriedades com suas casinhas sempre de adobe, alpacas e alguns cavalos, e campos sendo preparados para a plantação de papas (batatas) e capim verde amarelado nesta época do ano, pois já está tudo bem seco.
      É nesta parte do caminho que se passa no Posto de controle e paga a entrada de 10 soles.

       

      Felipe tem uma casinha onde, no segundo andar, aloja os turistas (4 camas) com um bonito visual do Vale e das montanhas Ausangate e Cayangate (ou Callangate). O lugar é um pouco empoeirado, mas bem quentinho. Logo em frente há outra construção que é a cozinha, construída em adobe chão de terra batida. A família morra no outro extremo do terreno.
      Um pouco depois de chegarmos percebi que estávamos sendo espiados por quatro pares de olhinhos tímidos, mas curiosos. Eram as filhas de Felipe. Com jeitinho puxei conversa com elas e aos poucos elas foram ficando mais confiantes e, em meio a risadinhas, iam responde às minhas perguntas. A mais velha tem 12 anos e, a mais pequena, cerca de seis anos. Todas vão à escola e Felipe quer que elas sigam estudando após terminar o que seria o equivalente ao primeiro grau.

      Ali tivemos o mais bonito pôr do sol a iluminar o Ausangate de frente, em lindos tons amarelo alaranjados.

      A noite foi bem fria, mas iluminada por uma lua fantástica, quase cheia. Embora tivesse vontade de ficar na rua admirando aquele espetáculo, não fiquei muito tempo, pois estava muito frio. A estreia de Felipe como cozinheiro foi satisfatória. Preparou uma sopa de verduras, arroz, papas fritas e frango.
      2º Dia
      Levantamos às 6:30 horas da manhã com o sol já despontando no horizonte e nos deparamos com uma forte “helada” (geada). Felipe preparou o café da manhã e depois organizou tudo nos cavalos.
      Iniciamos a caminha perto das 08:30 da manhã, ainda com a geada e todos os pontos de água não corrente congelados. Seguimos ainda por algum tempo seguindo a estradinha de terra (poeirenta) e depois passamos para uma trilha.




      Depois de cerca de duas horas, sempre subindo, chegamos a uma bonita “Pampa” (em quechua significa região plano), literalmente aos pés da montanha, com alguns moradores e muitas alpacas, ainda em Upis, a 4.400 metros de altitude.  É neste local que costuma ser o acampamento para quem não fica na casa dos guias. Ali tem uma fonte de águas termais, mas não tem sido usada turisticamente, pois seguindo Felipe não é constante.  Reiniciamos a subida, não tão íngreme, mas incessante, por quase duas horas, com o Ausangate e seus glaciares, sempre à esquerda até o Passo Arapa, a 4.780 metros de altitude.


      A
      A partir do Passo Arapa, caminhamos por cerca de meia hora na parte alta, por um visual quase lunar, sem praticamente nenhuma vegetação, apenas areia e pedras.  Depois começados a descer, por cerca de uma hora, até o vale Huayna Ausangate e um pouco antes de chegar a Lagoa Hucchuy Puccacocha paramos para o almoço.
       

      Ali deliberamos que deixaríamos de lado o Vinicunca, que pretendíamos “atacar” na madrugada do dia seguinte, pois estávamos sentindo a altitude e a inclusão do Vinicunca tornaria o dia seguinte pesado demais.
      Após a “sesta” de meia horinha seguimos a caminhada passando pelas lagunas Hucchuy Puccacocha, Hatum Pucaccocha e Comerocconha, sempre com o Ausangate à esquerda. Foi um caminho lindo, com tempo perfeito, casinhas de adobe dos moradores locais, que se ficam nesta região somente durante esta época do ano, para cuidar dos rebanhos de alpacas. Neste trecho visualizamos dois acampamentos, geralmente utilizados por quem pretende ir ao Vinicunca no dia seguinte.  Um fica à direita, na base do Ausangate, bem pertinho das lagunas e outro o acampamento Sorinama, fica em frente à montanha do mesmo nome, à direita do caminho,  mas seguimos sempre subindo até o Passo Ausangate, a cerca de 4.800 metros de altitude, onde chegamos já com os últimos raios de sol.




      A partir do passo se desce quase vertiginosamente em zig zag até o acampamento da Laguna Ausangatecocha, em um desnível de cerca 250 metros. Chegamos ao acampamento já ao escurecer e com a lua despontando no horizonte. Este acampamento está localizado bem pertinho da Laguna Ausangatecocha, que fica em frente a um enorme glaciar. Conta com bons banheiros e lugar para lavar roupa e louça. O vento estava bem gelado, mas a noite com lua cheia estava divina. Felipe falou que o vento iria parar pelas 22 horas e acertou. Não sei a temperatura, mas foi uma noite muito fria.

      3º Dia
      Novamente o dia amanheceu com “helada”. Levantamos com o despontar do sol e logo após o café da manhã fui dar uma espiada na Laguna Ausangatecocha bem de pertinho. Suas águas são muito verdes e cristalinas, resultado do degelo do glaciar logo em frente. Segundo Felipe há 12 anos, quando começou a ser guia na região, não havia a laguna ali, o que demonstra que o glaciar está perdendo espaço.

       

      Após conhecer a laguna de pertinho iniciei a subida um pouco antes dos outros, pois estava caminhando mais devagar, por causa da altitude. Nesta parte do caminho se sobre SEMPRE, com muitos zig zags de 4.650 metros de altitude até chegar em 5.200 metros de altitude, no Passo Palomani. É considerada a parte da mais difícil do caminho, por motivos óbvios. Mas, fazendo o caminho com calma, com direito a muitas fotos do “Valle Rojo” (vale vermelho), se vence sem grande sacrifício.
      A chegada ao Passo é bem bacana, pois a vista para os vales, dos dois lados, é muito bonita e, além disso, de um lado há uma pequena lomba, que parece um mini vinicunca, com suas areias coloridas, e do outro está a encosta de um glaciar. Certamente este passo é um dos pontos altos da caminhada. Ficamos ali bastante tempo apreciando a paisagem única.



      Reiniciamos a descida e cerca de 20 minutos depois começados a enxergar uma pequena laguna de laranja avermelhadas, aos pés do glaciar, à esquerda, que segundo Felipe, existe apenas a cerca de quatro anos.  Mais a frente, se vislumbra um bonito trecho da montanha vermelho arroxeada.

      Seguimos sempre descendo até uma pampa muito bonita com visual espetacular daquele setor do Ausangate.

      Descemos mais um pouco e chegamos a outra pampa, bem mais ampla (Vale de Chilca), onde em frente a uma “loma” de pedras muito rosas, Felipe preparou nosso almoço.

      Após o almoço, seguimos adentrando o vale, sempre à esquerda e, depois de uma subida não muito íngreme, chegamos a Huchui Phinaya a cerca de 4.650 metros de altitude. Lugar muito lindo com um rio muito azul serpenteando o vale com rebanhos de alpacas, com o Puca Punta e seus dois picos ao fundo.
      O acampamento fica no extremo da pampa, do lado esquerdo, e dispõem de banheiros, pias e tanques, como o do dia anterior. Neste dia chegamos cedinho e pudemos apreciar o pôr do sol. Porém, para o lado do Santa Catalina estava bem nublado e tivemos o interessante efeito de estar vendo os raios do iluminando o Puca Punta em frente  enquanto caiam flocos de neve sobre o acampamento e estar bem escuro na montanha às nossas costas. Mas a neve não durou muito e noite foi de lua cheia.Neste acampamento tivemos o prazer de encontrar um valoroso casal de brasileiros, de Passo Fundo, que estava fazendo o trekking de forma totalmente independente.



      4º Dia
      Levantamos com o despontar do sol, como nos outros dias, e logo depois do café da manhã retomei a caminhada. O caminho segue pelo Vale em frente, sempre à esquerda, contornando o Santa Catalina e o Puca Punta à direita.  Estava muito frio, com os pequenos riachinhos estavam congelados, e até mesmo as margens do rio.

      A subida não é muito íngreme, mas intermitente até o Passo Jampa ou “Abra Qqampa”, a cerca de 5100 metros de altitude. É uma região que se destaca pelo colorida das rochas, com destaque para os quartizitos de cor rosa, vermelho e verde. A localização do passo é interessante, pois está de frente ao Nevando Jampa, que lhe dá o nome, e muito pertinho dos glaciares.

      Reiniciamosa descida em um trilha bem estreita e pedregosa, avistando ao longe três lagunas Alcacocha . Depois de cerca de uma hora de caminhada há uma bifurcação com uma placa e se pega a trilha da esquerda (Jhampa). Neste ponto perdido no meio do nada, haviam três senhoras vendendo bonitos artesanatos de alpaca. Não resisti e tive que comprar.

      Um pouco depois da bifurcação fica o acampamento Paschapata. Após caminhar por mais alguns minutos passamos a avistar uma pampa e várias bonitas lagunas de águas muito lindas, sendo a maior e de águas mais claras a Laguna Pucacocha. Este trecho é conhecido como Siete Lagunas do Ausangate e tem passeios de um ou dois dia saindo de Cusco para a região.


      Ai fica o acampamento Pucacocha embora não fosse nosso destino do dia, me deu muita vontade de acampar ali, pois o visual das lagoas é fantástico. Neste dia tive o prazer de almoçar de frente ao pico do Ausangate. Privilégio para poucos e que faz valer muito a pena a caminhada.

      Neste setor tem sete lagunas e uma das que mais impressiona é a Laguna Azulcocha, pequena, mas profunda e com águas de um azul surpreendente.

      Após atravessar a pampa segue a descida para Pachamta, localizada a 4.300 metros de altitude. Chegamos perto das 17 horas e nos instalamos em um hostel, da familiares do Felipe, bem em frente as termas, pagando 10 soles por pessoa. É bem simples, mas de acordo com o que se encontra na região. Ficamos no segundo andar, com vista para as termas e o Ausangate.

      Fomos nos banhar nas termas já com o sol se pondo, pagando 5 soles.  Fiquei até escurecer alternando entre a piscina de água super quente, direto da fonte, e a de água morninha resultante da mistura com água fria. A parte ruim que para tomar banho com sabonete e lavar o cabelo com shampoo você tem usar uma ducha que fica 100% ao ar livre. Como estava noite e muito frio amarelei e não lavei os cabelos. A estrutura é super básica, mas o visual é fantástico. Sai da piscina direto para o hostel e me troquei no quarto.Depois descemos para o primeiro andar onde Felipe preparou nosso ultimo jantar.
      5º Dia
      Levantei cedinho e meu companheiro de caminhada já estava na piscina esperando o sol nascer. Não me animei, pois estava bem frio e esperei o café da manhã, que neste dia consistia de panquecas feitas na hora, com doce de leite. O trajeto do último dia é bem mais tranquilo, pois se segue sempre por uma estradinha de terra, passando por diversos pequenos povoados, até chegar em Tinki.

      Como era bem cedinho passei por diversas crianças indo para a escola e camponeses trabalhando nas plantações de papas ou lindando com alpacas. Já mais perto de Tinki aparece um outro carro, o que levanta muita poeira da estrada. Chegamos em Tinki peças 10:30 da manhã e após nos despedirmos de Felipe tomamos o ônibus das 11 horas com destino a Cusco, onde chegamos perto das 15 horas.
      Contratei o passeio com a Soncco Tours, por USD 230,00, incluindo passagem de ida e volta, refeições, guia/cozinheiro/arriero (Felipe), barracas, cavalo para equipamentos comuns e mais 5 quilos de bagagem individual. Não incluído o saco de dormir, café da manhã do primeiro dia, almoço do último dia.
      Custos extras: 10 soles na entrada, 10 soles acampamento Ausangatecocha, 10 soles acampamento Huchuy Pinaya, 10 soles hostel em Pachanta e 5 soles nas termas de Pachanta.
      Eu realizei o passeio com a agência Soncco Tours, com Evelin +51 964-289453, por USD 230,00 (base duas pessoas). Recomento ainda a Qorianka Tour +51 974-739305 ou direto com Renato no watts +51 986-960796 e  Inkapal, com Rubens, +51 931-325 810  ambas ótimas agências que me atenderam super bem em outros roteiros, porém com preços mais salgados(em torno de USD 350 a  USD 400,00).
      Mas deixo a super recomendação de contratar direto o nosso excelente e muito confiável guia Felipe, watts +51 974 513-747, que cobra somente 480,00 soles por pessoa (base duas pessoas) e foi quem fez tudo em realidade. Somente será necessário comprar a passagem em Cusco e encontrá-lo no dia e horário combinado em Tinki. Além de ser mais barato é uma forma de remunerar melhor e diretamente os moradores locais.
      Outro guia muito prestigiado na região é o Cirilo watts +51 941 005 350. Cheguei a contá-lo, mas ele já estaca com saídas agendadas para o mesmo período.
      Para quem faz questão de conhecer o Vinicunca tem uma opção que achei interessante, que a faz o caminho no sentido contrário: Tinki- Pachanta,  Pachanta - Hunuy Pinaya,  Hunuy Pinaya –Ausangatecocha, Ausangatecocha - Ananta (Lagunas coloridas), no último dia Ananta a Montanha Siete Colores / Vinicunca e retorno a Cusco desde o vilarejo de Pitumarca – Checacupe.  O Renato da Qorianca Tours me ofereceu esse passeio por USD 380,00.
      Dicas: Verifique antes a qualidade da barraca e isolante oferecidos e do saco de dormir, acaso vá alugar.  Em geral o equipamento é por conta do guia local e como é uma região bem pobre, pode deixar muito a desejar. Se tiver equipamento próprio que vale a pena levar o seu.
      - atentar que por causa da altitude as noites são bem frias. Eu fui com meu saco de dormir ­ -7 º conforto e mais um cobertor fininho, tipo liner e ia dormir com as roupas polartek da Solo e não passei frio, apesar das noites bastante frias;
      - protetor solar e manteiga de cacau ou protetor para os lábios também são importantes, pois o sol é forte e o vento bem frio;
      - levar papel higiênico e saquinhos ou sacolas para acondicionar o lixo;
      - mesmo que contrate agência levar soles para pagar acampamento/alojamento/termas e algum artesanato local, em especial os texteis de alpaca que são mais baratos do que em Cusco;
      - para quem tem bom condicionamento físico, está bem adaptado na altitude, não quer/pode gastar muito, ou quer uma aventura mais raiz, é perfeitamente possível fazer o passeio por conta. O caminho é bem marcado, mas um GPS é fundamental, pois pode chover nevar, ou a noite pode chegar sem que tenha chegado ao acampamento.
      Altitudes e distâncias aproximadas, pois não usei GPS:
      1º dia: Tinki – 3.850 m – Vilarejo de Upis (casa do Felipe) – cerca de 4.200m – 8 km;
      2º dia: Upis – 4.200 m, Passo Arapa – 4.780, Passo Ausangate – 4.800, Ausangatecocha 4.650 m – 18 km;
      3 º dia – Ausangatecocha – 4.650m, Passo Palomani – 5.200m, Huchuy Pinaya – 4.660 – 13 km
      4º dia – Huchuy Pinaya – 4.660m, Passo Jampa – 5.100m, Pachanta – 4.330m – distância 18 km
      5º dia – Pachanta – 4.330m, Tinki – 3.850 m – 12 km.
       

       
       





    • Por rafael_santiago
      Vale do Rio Langtang com as montanhas Penthang Karpo Ri, Langshisha Ri e Gangchenpo
      Início: Syabrubesi
      Final: Sundarijal
      Duração: 13 dias
      Maior altitude: 4651m no Passo Laurebina La (se não considerarmos o pico Tsergo Ri, que é uma caminhada opcional)
      Menor altitude: 1377m em Sundarijal
      Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida quase todos os dias, com desníveis de até 1100m diários. Por ultrapassar os 3000m de altitude é necessário fazer aclimatação. O Passo Laurebina La, de 4651m, impõe uma dificuldade a mais.
      Permissões: TIMS Card (Rs 2000 = US$ 17,36), entrada do Parque Nacional Langtang (Rs 3400 = US$ 29,51) e entrada do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun (Rs 1035 = US$ 8,98)
      Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país.
      Os trekkings Langtang, Gosainkund e Helambu podem ser feitos separadamente com duração de 7, 8 e 6 dias, respectivamente, variando esse tempo de acordo com o ritmo e as caminhadas de bate-volta que se queira agregar à trilha principal. Porém, para quem dispõe de mais tempo, o melhor mesmo é combinar os três num único roteiro já que estão naturalmente interligados. E foi o que eu fiz na minha primeira experiência em trilhas no Nepal. Com as trilhas de bate-volta que fiz o roteiro totalizou 13 dias.
      Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas.
      No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal".
      As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados durante os três trekkings são:
      . de Syabrubesi a Lama Hotel: NCell
      . de Lama Hotel a Kyanjin Gompa: Sky
      . Sing Gompa: NCell, NTC/Namaste
      . Gosainkund: nenhuma funciona
      . Ghopte: NCell, NTC/Namaste
      . Tharepati: NCell, NTC/Namaste
      Essas informações obtive com os moradores, eu mesmo não testei nenhuma operadora.
      Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20).
      Para mostrar a variação de preço das refeições em cada povoado ao longo do trekking coloco ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente.

      Rio Langtang e as montanhas Tsergo Ri e Gangchenpo ao fundo
      Trekking Langtang
      Início: Syabrubesi
      Final: entre Pairo e Domen eu saí da rota Langtang e passei para o trekking Gosainkund
      Duração: 8 dias
      Maior altitude: 3856m em Kyanjin Gompa (se não considerarmos as trilhas opcionais a partir de Kyanjin Gompa)
      Menor altitude: 1417m na ponte suspensa sobre o Rio Bhote Koshi
      Dificuldade: média (para quem está acostumado a caminhadas longas com mochila cargueira)
      Permissões: TIMS Card e entrada do Parque Nacional Langtang
      O trekking Langtang percorre em três dias o trajeto entre Syabrubesi (Syafrubesi) e Kyanjin Gompa (Kyanjin Gumba), saindo dos 1445m e chegando aos 3856m de altitude. Todo o percurso é feito pelo vale do Rio Langtang, que corre no sentido nordeste-sudoeste entre altas montanhas. No primeiro dia e meio a caminhada se dá por dentro de uma linda e exuberante floresta, depois segue a céu aberto com bonito visual por mais um dia e meio até Kyanjin Gompa. A vila de Langtang, no meio do caminho, foi quase toda destruída durante o terremoto de abril de 2015 por uma avalanche causada pelo desprendimento de uma geleira do pico Langtang Lirung, mas a parte mais alta da vila continua existindo e os familiares das vítimas seguem tocando a vida.
      06/10/18 - ônibus de Kathmandu a Syabrubesi (Syafrubesi)
      No dia anterior (05/10) eu havia tentado ir a um local chamado Macha Pokhari em Kathmandu para saber horários e preços de ônibus para Syabrubesi, mas não tinha conseguido encontrar o tal lugar. Essa parada de ônibus fica junto ao anel viário da cidade, um lugar mais caótico, sujo e empoeirado que o padrão do resto da cidade. Perguntei para algumas pessoas mas ninguém me entendia. Depois descobri que era mais longe do que eu pensava, já próximo do Terminal Gongabu.
      Nesse dia resolvi pegar um táxi às 6h da manhã e o motorista ia se virar para encontrar o lugar de saída do ônibus. Ele também perguntou para algumas pessoas e finalmente entrei no ônibus para Syabrubesi, que partiu em seguida, às 6h25. Não existe um terminal em Macha Pokhari, o ônibus que tomei estava parado na rua mesmo (coordenadas 27.73568ºN 85.30517ºL). Havia alguns poucos estrangeiros (dois espanhóis e um indiano) e o ônibus, apesar de pequeno, não saiu lotado. Porém durante a longa viagem até Syabrubesi ele lotou e esvaziou diversas vezes. Mas uma coisa eu preciso enfatizar: essa viagem é HORRÍVEL. Assim, em maiúsculas mesmo. São apenas 126km que o ônibus faz em 8 horas e 45 minutos (!!!) pois a "estrada" (eles chamam aquilo de estrada) é um caminho de buracos, pedras e muita poeira, com lama às vezes. O caminho é estreito e beira abismos em muitos trechos, o que garante a emoção já que a qualquer momento a sua viagem pelo Nepal pode terminar no fundo de um rio centenas de metros abaixo. São quase 9 horas pulando e chacoalhando dentro desse ônibus, às vezes batendo a cabeça no teto e o ombro no vidro. Mas a "linda" trilha sonora nepalesa está garantida e no último volume.
      O ônibus é pequeno e não tem banheiro. São feitas algumas paradas para todos se aliviarem, às vezes no mato da beira da estrada mesmo. A parada para almoço foi às 10h e mais tarde houve outra parada para comer.
      Em dois checkpoints em Dhunche (por volta de 14h15) eu e os outros estrangeiros tivemos que descer para mostrar as permissões. O indiano não as tinha e teve que pagar ali na hora. No primeiro checkpoint também quiseram revistar as mochilas, mas no meu caso não pediram para tirar tudo de dentro, apenas algumas coisas, examinaram e liberaram. Procedimento ridículo sem a menor eficácia, só para cumprir ordens mesmo. No segundo checkpoint só anotaram os nossos dados num livro.
      Às 15h14 saltei desse ônibus em Syabrubesi remontando meu esqueleto e jurando nunca mais entrar nele. A volta não poderia ser por ali em hipótese alguma.
      A vila de Syabrubesi tem diversas hospedagens, perguntei o preço em algumas e optei pelo Hotel Lhasa, onde paguei Rs300 (US$2,60) pelo quarto com banheiro compartilhado. Ainda não foi possível entrar no esquema "quarto de graça se jantar e tomar café no local". Não recomendo esse hotel pois a dona não foi nada simpática e quase me deixou sem janta. O banheiro já era no estilo oriental: uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Esse pelo menos tinha descarga de caixa acoplada, não era preciso usar a caneca com água. Havia lavatório para escovar os dentes.
      A vila tem como atrativo uma fonte de águas termais junto ao Rio Bhote Koshi, fui conhecer mas só havia água em um dos tanques (de cimento) e estava ocupado por várias pessoas naquele momento. O lugar é um pouco sujo também.
      Altitude em Syabrubesi: 1445m
      Preço do dal bhat: Rs 300
      Preço do veg chowmein: Rs 250

      Rio Langtang encachoeirado
      1º DIA - 07/10/18 - de Syabrubesi a Lama Hotel (Changdam)
      Duração: 6h (descontada a parada)
      Maior altitude: 2473m
      Menor altitude: 1417m
      Resumo: nesse dia iniciei a caminhada pelo vale do Rio Langtang ainda num trecho rico em vegetação e matas. Apesar de caminhar sempre junto ao rio, sem subir pelas encostas, o desnível foi bastante grande (1056m de subida).
      Finalmente chegou o grande dia de colocar o pé numa trilha no Nepal. Fiquei até emocionado pois foi um momento muito esperado e planejado em todos os detalhes.
      Saí do lodge às 8h14 e continuei pela rua principal no sentido norte (mesmo sentido da chegada no dia anterior). Ao passar pelo checkpoint tive de mostrar as permissões. Passei direto pela trilha que desce para as águas termais e na bifurcação na saída da vila desci à direita. Não cruzei a primeira ponte, continuei em frente e entrei na trilha à direita seguindo a placa de Langtang. Atravessei a ponte suspensa sobre o Rio Bhote Koshi, adornada com bandeirinhas de oração budista, e fui para a esquerda e logo em seguida direita. Ao cruzar a vila seguinte (Old Syabrubesi) entro no vale do Rio Langtang (Langtang Khola), o qual seguirei até Kyanjin Gompa (e depois ainda até o campo-base Langshisha Kharka).
      Não cruzei a ponte à direita logo após a vila de Old Syabrubesi, segui em frente. Uma placa ali indica um caminho mais curto para Thulo Syafru à direita, cruzando a ponte. Thulo Syafru é a vila pela qual eu passaria 7 dias depois já no trekking Gosainkund.
      Seguindo pelo vale verdejante do Rio Langtang passei às 9h42 pela vila de Tibetan Camp (Tiwari) com ao menos dois lodges. A trilha terminou numa ponte suspensa que cruzei para chegar a uma estrada de terra do outro lado do Rio Langtang. Fui para a esquerda (a direita estava interditada por obras) e na bifurcação seguinte, 700m após a ponte, continuei pela estrada à esquerda, desprezando a trilha à direita. Porém estava errado e cheguei ao fim da estrada, num local sem saída. Voltei e peguei a trilha, agora à esquerda. Aí começaram as subidas, inclusive com escadarias rústicas de pedra.
      Às 10h33 cheguei à minúscula Domen, cuja ponte metálica de acesso estava parcialmente destruída, causando alguma tensão na travessia. O lugar se resume a 4 ou 5 casas e tem um lodge. Logo após, a subida continua. Às 10h48 cheguei a um local estratégico, a bifurcação entre os trekkings Langtang e Gosainkund, marcado por um mapa amarelo pintado num muro de concreto. Nesse momento segui para a esquerda, descendo, mas na volta, no oitavo dia de caminhada, tomaria o outro lado da bifurcação, numa subida bem longa para Thulo Syafru.
      A trilha desce bastante e se aproxima do Rio Langtang. Se aproxima tanto que é preciso andar por um caminho estreito construído com pedras entre a encosta íngreme e o rio. Dali se avista logo acima a vila de Pairo (ou Landslide ou Hot Spring), pela qual passei às 11h07. Há opções de refeição e hospedagem. A trilha continua pela sombra deliciosa da floresta com muitas fontes de água (parei por 15 minutos numa delas para um lanche) e alcança a vila de Bamboo às 12h25, também com lodges e refeição. Ao cruzar a vila é melhor tomar a trilha da direita na bifurcação para se manter na trilha principal ao entrar na mata que segue. Cruzei uma ponte de troncos e pedras e às 13h18 uma grande ponte suspensa à esquerda sobre o Rio Langtang. O rio neste ponto é encachoeirado e tem blocos enormes de pedra. Uma casa ao lado da ponte suspensa vende artesanato e algumas guloseimas.
      Passei pela vila de Rimche às 14h12 e ali entronca um caminho alternativo que vem de Syabrubesi via Sherpagaon. Rimche tem três lodges com restaurantes. Porém Lama Hotel (Changdam) está a apenas 20 minutos e tem muito mais opções. Cheguei a Lama Hotel às 14h32 e parei para almoçar no Tibet Guest House. Pretendia continuar a caminhada, mas o tempo mudou, começou a chover fraco e a temperatura despencou. Conversei com a simpática garota do lodge e ela me convenceu a dormir ali, principalmente porque seria de graça desde que eu fizesse as refeições.
      O banheiro era no estilo oriental e ao lado dos quartos. Um tambor com água e uma caneca servem para dar a descarga e para a higiene deles já que não usam papel higiênico. A ducha era com energia solar (pediam para deixar uma gorjeta pelo uso da ducha). Assim como em todos os outros lodges desse trekking, o refeitório tinha um aquecedor que é aceso no finalzinho da tarde. Ali todos se reúnem para jantar, conversar e trocar informações. Nessa noite fiz amizade com um casal francês que já havia viajado bastante pela Índia e conhecia inclusive o Himalaia indiano, um lugar onde eu nunca havia pensado em trilhar mas que me despertou a curiosidade.
      Altitude em Lama Hotel: 2473m
      Preço do dal bhat: Rs 600 (o dobro do preço de Syabrubesi já no primeiro povoado)
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Vale do Rio Langtang
      2º DIA - 08/10/18 - de Lama Hotel (Changdam) a Langtang
      Duração: 5h25 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3483m
      Menor altitude: 2473m
      Resumo: nesse dia continuei a caminhada pelo vale do Rio Langtang ainda por dentro da floresta para em seguida sair a céu aberto com visão dos nevados na cabeceira do vale. Apesar de caminhar sempre junto ao rio, sem subir pelas encostas, o desnível foi bastante grande (1010m de subida).
      Saí do lodge às 8h40 e continuei subindo pela trilha principal no sentido nordeste. A trilha se aproximou bastante do Rio Langtang novamente e às 10h04 passei pela vila de River Side (Gumnachowk) com um lodge de frente para o rio. Mais 10 minutos e passei pelo lodge de Woodland (Chunama). Às 10h43 uma ponte metálica à direita da trilha causou alguma dúvida mas o caminho era em frente mesmo, não pela ponte. Atravessei uma encosta com um grande deslizamento bem junto ao Rio Langtang, cruzei uma pequena ponte metálica e saí definitivamente da floresta às 11h24, tendo de agora em diante o belo visual dos picos nevados à frente. A nota triste foi ver a destruição em Ghoda Tabela causada pelos terremotos de 2015. Às 11h38 cheguei aos dois lodges que restaram no vilarejo e parei por 40 minutos para descansar, ver o movimento de trilheiros e carregadores e comer alguma coisa. Já se avista também a marca deixada na encosta da montanha pela enorme avalanche que destruiu a vila de Langtang.
      A altitude aqui já ultrapassa os 3000m e é preciso seguir a recomendação de não dormir mais que 500m acima da noite anterior e se possível fazer caminhadas de bate-volta a um local mais alto para ajudar na aclimatação.
      Às 13h04 alcancei a vila de Thangsyap (com lodges) e às 14h17 o povoado de Langtang Gumba, também com hospedagem e almoço. E às 14h38 cheguei ao local da enorme avalanche, uma paisagem aterradora por saber que há uma grande parte da vila de Langtang embaixo de todas aquelas pedras, com muitas pessoas soterradas. O que restou da vila de Langtang está logo depois. Cheguei a ela às 15h e enquanto fotografava a stupa na entrada do lugar o casal francês que conheci em Lama Hotel apareceu com uma moradora. Ela era dona de um lodge na parte mais alta e tinha ido esperá-los na trilha para oferecer hospedagem. É bastante comum os donos de lodges fazerem isso, oferecerem hospedagem, almoço, chá para os trilheiros que passam. Acabei indo para o mesmo lugar, Friendly Family Guest House. A dona, Sra Dawa, quase não falava nada de inglês mas era muito simpática e atenciosa. O quarto, com banheiro privativo (foi o único com banheiro privativo de todos os trekkings que fiz no Nepal), saiu de graça com as refeições feitas ali. A ducha quente também não teve custo adicional.
      Altitude em Langtang: 3483m
      Preço do dal bhat: Rs 600
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Muro de pedras mani na trilha e ao fundo o pico Gangchenpo
      3º DIA - 09/10/18 - de Langtang a Kyanjin Gompa (Kyanjin Gumba)
      Duração: 2h40
      Maior altitude: 3856m
      Menor altitude: 3483m
      Resumo: nesse dia continuei a caminhada pelo vale do Rio Langtang já acima dos 3000m de altitude subindo até a vila de Kyanjin Gompa, que usarei como base para três caminhadas de um dia
      Logo cedo desci ao centro da vila para tirar mais fotos e vi que atrás da stupa um mural tem gravados os nomes dos 175 moradores e dos 41 trilheiros que morreram em Langtang pelo terremoto e avalanche de abril de 2015.
      Deixei a vila às 9h48 continuando pelo caminho principal no sentido leste. O caminho se divide em dois por 300m (!!!) com um impressionante muro de pedras mani no meio. A tradição budista manda que se caminhe no lado esquerdo dos muros de pedras mani, assim como deve-se circundar as stupas sempre no sentido horário. Os muros de pedras mani são arranjos feitos com pedras planas em que foi esculpido o mantra "Om Mani Padme Hum". Encontrei muitos muros como esse em minhas caminhadas pelo Nepal mas esse de Langtang foi sem dúvida o maior e mais marcante.
      No conjunto de montanhas nevadas à frente (leste), no fundo do vale, já se avistam o Tsergo Ri à esquerda e o Gangchenpo à direita. Alcancei a vila de Mundu às 10h11 e depois Sindhum às 10h26, com seus lodges e restaurantes. E mais muros de pedras mani na sequência. Me aproximo do Rio Langtang novamente e às 11h48 chego a um grande bloco de pedra com uma stupa em cima. À direita há uma ponte mas uma placa aponta Kyanjin Gompa 30 minutos à esquerda. Porém o caminho mais curto é à direita pela ponte mesmo, isso eu só descobri na volta. Subi à esquerda, passei pela stupa maior para fotografar, pelas casas de uma usina hidrelétrica e em seguida uma grande ponte suspensa. Alcancei a vila de Kyanjin Gompa às 12h38 e me surpreendi com a arquitetura de prédios de 3 ou 4 andares.
      Já tinha uma indicação de onde me hospedar pois de manhã conheci um parente da Sra Dawa, um rapaz chamado Nawang, que me ofereceu hospedagem e me ensinou como chegar ao seu lodge em Kyanjin Gompa. A vila é até grande em comparação com as outras e as ruas são um emaranhado de becos, mas consegui encontrar o Lodge Ghangchempo mesmo sem placa (é um dos últimos, na saída para Tsergo Ri). Negociei com o Nawang a estadia de quatro noites sem pagamento do quarto, apenas das refeições.
      Depois do almoço, por volta de 14h, fui conhecer os lagos Tsona, que ficam do outro lado do Rio Langtang. Tomei uma trilha saindo para o sul da vila, bem na direção do rio, que corre bem abaixo. Cruzei-o por uma ponte metálica e fui encontrando os lagos um a um. São cinco pequenos lagos que refletem as montanhas nevadas, um lugar singelo e bonito. Na volta à vila fui comprar um pedaço de queijo de iaque diretamente na "loja da fábrica". Esse queijo não é muito barato (Rs 1700 o quilo = US$ 14,76) e lembra bastante um queijo parmesão de Minas Gerais pouco curado.
      Em Kyanjin Gompa, assim como nos outros vilarejos, cada morador tem um pedaço de terra onde cultiva alguns legumes para suprir a demanda do restaurante. Porém itens como ovos têm que vir de Syabrubesi nas costas de carregadores por dois dias (as galinhas não sobrevivem ao inverno).
      O lodge tinha um banheiro em cada andar e todos no estilo oriental, mas novos e limpíssimos. A ducha quente ficava no 1º andar e era gratuita. O quarto tinha tomada (as tomadas no Nepal costumam ter interruptor!?) para recarregar as baterias.
      Altitude em Kyanjin Gompa: 3856m
      Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 2ºC
      Preço do dal bhat: Rs 650
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Bandeirinhas de oração budistas em Langshisha Kharka e as montanhas Urkinmang e Gangchenpo
      4º DIA - 10/10/18 - de Kyanjin Gompa a Langshisha Kharka
      Duração: 4h50 (ida) e 3h40 (volta bem mais rápida sem tantas paradas para fotos)
      Maior altitude: 4138m
      Menor altitude: 3823m
      Resumo: nesse dia fiz uma subida suave e de pouco desnível (242m) pelo vale do Rio Langtang até o campo-base Langshisha Kharka
      Esse foi o primeiro dia de "passeio" a partir de Kyanjin Gompa, quer dizer, o primeiro dia em que troquei a cargueira por uma mochila de ataque. Como eu já estava a 3856m de altitude iniciei a série de caminhadas com uma de altitude mais moderada, que seria o campo-base chamado Langshisha Kharka, local de acampamento para escaladas à montanha Langshisha Ri. Esse lugar é mais isolado, não há vilarejos ou lodges em todo o percurso e se não houver expedições o campo-base deverá estar completamente deserto pois poucos trilheiros vão até lá. Deve-se levar lanche e água (ou tratar a água encontrada no caminho).
      Saí do lodge às 7h40 e tomei a direção sudeste. Em 6 minutos fui à direita na bifurcação com placa apontando Langshisa Kharka (à esquerda apontava Chergori, outra forma de escrever Tsergo Ri, que seria o meu destino dois dias depois). Às 8h22 tive de cruzar um deslizamento de pedras que vem das montanhas ao norte (esquerda) e também o ribeirão que desce junto. Para não tirar as botas gastei algum tempo procurando um local mais acima onde pudesse saltar pelas pedras. Logo após esse deslizamento há uma trilha que sobe a encosta à esquerda mas essa leva ao pico Tsergo Ri também. Em lugar de subir eu desci por uma trilha junto ao deslizamento até alcançar uma outra trilha bem marcada. Dali em diante bastou seguir essa trilha junto ao Rio Langtang com bela paisagem de campos e vales onde pastam muitos iaques. Limitando esse grande vale altas montanhas nevadas ao sul e ao norte. Para trás se destaca o grande Langtang Lirung, de 7230m de altitude, responsável pela destruição da vila de Langtang. À sua direita o Kimshung, de 6781m.
      Às 9h33 a visão dos picos nevados à frente (leste) se amplia e já visualizo o Langshisha Ri, uma montanha de dois cumes à esquerda do pico Gangchenpo. Às 10h55 encontro um grande deslizamento e fico em dúvida se devo caminhar junto ao rio ou acima do monte de pedras. Um grupo vindo no sentido contrário me dá a resposta: pelo alto. Às 11h42 cruzo uma ponte de troncos e a trilha sobe até um mirante incrível de onde se avista o campo-base Langshisha Kharka 1km à frente, bem ao lado do Rio Langtang. Ali a maior altitude do dia: 4138m. Na descida cruzei com os últimos integrantes de um grande grupo de escaladores que estava deixando o campo-base. Assim, encontrei-o completamente vazio às 12h30. Altitude de 4098m. Dali se avistam os picos Langshisha Ri a leste, Pemthang Karpo Ri a nordeste, Lingshing e Urkinmang a sudeste e Gangchenpo ao sul.
      Às 13h18 iniciei o retorno exatamente pelo mesmo caminho e às 17h já estava de volta a Kyanjin Gompa (anoitece por volta de 17h45 nessa época).
      Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 4,1ºC

      Pico Naya Kanga visto do Kyanjin Ri
      5º DIA - 11/10/18 - de Kyanjin Gompa a Kyanjin Ri
      Duração: 2h (subida) e 1h40 (descida)
      Maior altitude: 4610m
      Menor altitude: 3856m
      Resumo: nesse dia subi a montanha Kyanjin Ri num desnível de 754m
      Nesse segundo dia de explorações a partir da vila de Kyanjin Gompa foi a vez de subir a montanha Kyanjin Ri, de 4610m de altitude. Saí do lodge às 7h10 no sentido norte, onde alguns trilheiros já subiam a íngreme encosta bem junto ao vilarejo. Na primeira bifurcação logo no início da subida preferi tomar a direita e subir no sentido leste. Na segunda bifurcação, já nos 3985m de altitude, fui para a esquerda (a direita também é possível, é um outro caminho de subida). Na bifurcação seguinte, a 4096m, fui para a esquerda de novo (a direita encontra o outro caminho de subida).
      Aos poucos fui alcançando e ultrapassando diversos grupos mais lentos e às 8h20 atingi um primeiro cume com bandeirinhas de oração budista a 4300m de altitude. Mas a subida continua pela crista até os 4610m, aonde cheguei às 9h07. A visão é espetacular, de 360º, e se destacam as seguintes montanhas: ao norte Yubra e Kimshung, a nordeste Dagpache, a leste Yala Peak e Langshisha Ri, a sudeste Tsergo Ri e Gangchenpo, a sudoeste Naya Kanga, a noroeste Langtang Lirung. Dali foi possível avistar também diversas barracas no campo-base do Langtang Lirung.
      Às 11h30 deixei o cume e iniciei a descida por outro caminho, uma trilha bem marcada que se avista lá do alto e que percorre ainda por algum tempo a crista da montanha para leste para em seguida descer diretamente para o sul e sudoeste na direção de Kyanjin Gompa. Às 12h41 cruzei a trilha que percorri na subida exatamente naquela bifurcação dos 4096m de altitude e continuei para oeste. Nos 3967m aproveitei um desvio à direita para ir até uma pequena stupa a 120m da trilha principal. Fiquei 10 minutos ali e às 13h23 estava de volta ao vilarejo. Após o almoço caminhei pelo lugar e fui conhecer o monastério budista, que estava fechado (o gompa do nome da vila significa monastério).
      Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 9,2ºC

      No cume do Tsergo Ri, de 4989m de altitude
      6º DIA - 12/10/18 - de Kyanjin Gompa a Tsergo Ri
      Duração: 4h de subida normalmente (consegui fazer em 2h54) e 3h15 de descida por um caminho mais longo
      Maior altitude: 4989m
      Menor altitude: 3856m
      Resumo: nesse dia subi a montanha Tsergo Ri num desnível de 1133m
      Nesse terceiro dia de explorações a partir da vila de Kyanjin Gompa foi a vez de encarar a montanha Tsergo Ri, de 4989m de altitude. Pela dificuldade da subida, prevista para levar cerca de 4 horas, saí do lodge bem cedo, às 5h48, no sentido sudeste como se fosse para Langshisha Kharka. Levava lanche e água, como sempre faço. Em 6 minutos fui à esquerda na bifurcação seguindo a placa que aponta Chergori (Tsergo Ri). Cruzei aquele grande deslizamento e o ribeirão pelas pedras e tomei a trilha bem marcada que sobe a encosta. Já havia um outro grupo iniciando a subida mas eles ficaram bem para trás e chegaram ao cume mais de uma hora depois de mim. Às 6h52, na cota dos 4098m, fui à esquerda numa bifurcação com as placas Yala Kharka (Yala Peak) à direita e Chergori à esquerda. A subida continuou forte e cruzei com algumas pessoas já descendo! Iniciaram a subida ainda no escuro. Cruzei um trecho mais chato de pula-pedras e veio a subida final ao cume, aonde cheguei às 8h42. Só havia três pessoas nesse momento. Levei pouco menos de 3h para subir, o que pode ser considerado bem rápido.
      O cume tem vários mastros com bandeiras grandes e muitas bandeirinhas de oração budista. Dali a visão consegue ser ainda mais privilegiada do que no Kyanjin Ri. Destacam-se: Langtang Lirung a noroeste; Kimshung, Yubra e Dagpache ao norte; Yala Peak a nordeste; Pemthang Karpo Ri, Langshisha Ri, Loenpo Gang e Dorje Lhakpa a leste; Gangchenpo a sudeste; Naya Kanga a sudoeste.
      Aos poucos os aventureiros foram chegando e às 12h22 iniciei a descida por um outro caminho, uma trilha bem visível no sentido sudeste por onde vi algumas pessoas descerem. O caminho é bem marcado também mas é muito mais longo. Começa com uma inclinação moderada mas depois se torna bem mais íngreme. Volta a ser menos inclinado quando percorre a encosta do Tsergo Ri, porém há várias trilhas paralelas em níveis diferentes da encosta - tentei escolher a mais larga e batida. Às 13h32 continuei a descida por uma crista bem inclinada e cheguei a uma bifurcação em T, onde a trilha é mais larga, e fui para a direita (a esquerda é o caminho para o Yala Peak). Às 14h03 passei por um conjunto de 6 ou 7 casas em ruínas dispostas em degraus na encosta da montanha que lembram um pouco uma paisagem dos Andes. Com mais 15 minutos passei por dois pontos de água, os únicos do dia. Às 14h38 fui à esquerda na bifurcação e em 15 minutos reencontrei o caminho que fiz na subida junto às placas Yala Kharka e Chergori. Às 15h39 estava de volta a Kyanjin Gompa.
      Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 9,5ºC

      Vila de Kyanjin Gompa e os picos Tsergo Ri e Gangchenpo
      7º DIA - 13/10/18 - de Kyanjin Gompa a Lama Hotel (Changdam)
      Duração: 7h (descontada a parada)
      Maior altitude: 3856m
      Menor altitude: 2473m
      Resumo: nesse dia deixei a vila de Kyanjin Gompa e iniciei o retorno, descendo pelo vale do Rio Langtang, em direção à bifurcação entre Pairo e Domen que me levará (no dia seguinte) para o trekking Gosainkund. Nesse dia consegui chegar a Lama Hotel.
      Depois de me despedir do Nawang, seus familiares e dos amigos que conheci nestes quatro ótimos dias que passei no lodge, saí às 9h tomando a mesma trilha da chegada. Logo após o morrote que marca a entrada da vila peguei na descida a trilha da esquerda para alcançar o grande bloco de pedra com uma stupa em cima através da ponte que evitei no terceiro dia. Com isso não passei pela usina hidrelétrica pela qual passei naquele dia e fiz um caminho mais curto. Não resistia à tentação de olhar a todo momento para trás para contemplar e fotografar os picos por onde caminhei nesses lindos últimos dias.
      Passei por Langtang às 11h14, atravessei a grande avalanche de pedras, Thangsyap às 12h46, parei em Ghoda Tabela para comer das 13h25 às 14h10, reentrei na floresta às 14h26, passei por Woodland às 15h17, por River Side às 15h27 e Lama Hotel às 16h42. Fui até Rimche para tentar dormir lá e adiantar mais alguns minutos de caminhada porém os três lodges estavam lotados. Tive de voltar a Lama Hotel pois há bem mais opções e ali consegui um quarto no Friendly Guest House (negociei com o dono e só paguei as refeições). O banheiro ficava dentro da casa (ao lado dos quartos) e era no estilo oriental, porém velho e encardido. Para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal.
      Altitude em Lama Hotel: 2473m
      Preço do dal bhat: Rs 550
      Preço do veg chowmein: Rs 450
      8º DIA - 14/10/18 - de Lama Hotel (Changdam) a Sing Gompa (Sing Gumba, Chandanbari)
      Duração: 8h (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3290m
      Menor altitude: 1678m
      Resumo: nesse dia retornei mais um pouco pelo vale do Rio Langtang para alcançar a bifurcação entre Pairo e Domen onde iniciei o trekking Gosainkund. Mas foi um dia bastante pesado que eu deveria ter quebrado em dois pois há muita descida (798m de desnível) e muita subida (1612m).
      Deixei Lama Hotel às 7h24, cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Langtang às 8h20, passei por Bamboo às 8h46, por Pairo às 9h39 (parei por 15 minutos) e cheguei à bifurcação para Thulo Syafru às 10h09, marcada como já disse por um mapa amarelo pintado num muro de concreto. Altitude de 1730m. Nesse momento segui para a esquerda, subindo, e passando do trekking Langtang para o trekking Gosainkund.

      Lago Gosain Kund
      Trekking Gosainkund
      Início: entre Pairo e Domen eu saí da rota Langtang e passei para o trekking Gosainkund
      Final: em Tharepati eu finalizei a rota Gosainkund e passei para o trekking Helambu
      Duração: 4 dias
      Maior altitude: 4651m no Passo Laurebina La
      Menor altitude: 1730m (considerando o início deste trekking na bifurcação entre Pairo e Domen)
      Dificuldade: alta. Muita subida, com desníveis de até 1100m por dia. Por ultrapassar os 3000m de altitude é necessário fazer aclimatação. O Passo Laurebina La, de 4651m, impõe uma dificuldade a mais.
      Permissões: TIMS Card e entrada do Parque Nacional Langtang
      O trekking Gosainkund percorre altitudes bem mais elevadas que o trekking Langtang (sem considerar os picos opcionais de Kyanjin Gompa). Por isso os grandes atrativos dessa caminhada são a visão espetacular do Himalaia e os belos lagos de montanha da vila de Gosainkund. Os lagos são sagrados para hindus e budistas e atraem milhares de peregrinos durante o festival Janai Purnima em agosto.
      8º DIA (cont.) - 14/10/18 - de Lama Hotel (Changdam) a Sing Gompa (Sing Gumba, Chandanbari)
      Foi uma longa e constante subida do Rio Langtang até Thulo Syafru, somente quebrada pela descida até a ponte suspensa sobre o Rio Chopche (Chopche Khola). Essa ponte é longa, muito alta e não está nas melhores condições, o que causou um friozinho na barriga. Cruzei-a às 11h15 e parei por 35 minutos para descansar e tirar a roupa mais quente. Logo após a ponte uma trilha à esquerda parece ser o caminho mais óbvio, mas está errado. As setas vermelhas mandam descer à esquerda para passar por baixo da ponte, esse é o caminho. E a subida volta com tudo. Alcancei os primeiros lodges de Thulo Syafru às 12h32, mas a vila é bastante extensa e cercada de plantações em forma de terraço. Todos me ofereciam almoço e até hospedagem, mas eu passei direto. Subi até o final da vila e cheguei a uma estradinha de terra, onde fui para a esquerda. Apenas 60m depois duas placas brancas mal colocadas apontam Gosaikund à esquerda e Dhunche à direita. Pela posição em que estava a placa de Gosaikund fiquei em dúvida se era para seguir pela estrada à esquerda ou subir a escadaria de concreto com uma stupa no alto. A resposta estava na parede da casa logo acima, onde estava pintado "way to Gosainkund" apontando para o alto da escadaria. Subi, passei pela stupa e vi que logo acima ficava a clínica do povoado, informação importante a quem possa estar com algum problema de saúde durante o trekking. Logo após a stupa inicia a trilha que segue pela mata sempre subindo. Em tempo: a placa que aponta Dhunche à direita indica um caminho que retorna à estrada principal pela qual cheguei de ônibus a Syabrubesi - essa pode ser uma rota de fuga.
      Passei por uma casa em construção às 13h23 e parei por 25 minutos para comer alguma coisa que levava na mochila. A trilha continua à esquerda e atrás da casa. Continuei subindo, passei por uma bica e às 14h02 uma bifurcação importante. Pintadas num muro branco de concreto duas setas indicam: à direita Sing Gompa e Dursagang, à esquerda Cholang Pati. Os dois caminhos levam às vilas de Cholang Pati e Gosainkund, então dois fatores devem ser levados em conta na escolha do trajeto: a rota à direita por Dursagang, Forpang Danda e Sing Gompa (Chandanbari) é 3,5km mais longa que a outra, mas tem muitas opções de lodges pelo caminho; a rota direta para Cholang Pati (esquerda) é bem mais curta, no entanto tem bem menos opções de hospedagem (segundo me disseram).
      Eu segui as sugestões que me deram e fui para a direita, sempre subindo. Saí da mata, passei às 14h43 pela minúscula Dursagang, aparentemente com apenas dois lodges, e alcancei um grupo de três espanhóis e uma francesa (que também falava espanhol). A trilha entrou na floresta e subiu muito.
      A francesa tinha pernas fortes e eu nunca conseguia alcançá-la. Às 15h20 passei por conjuntos de pedras mani muito antigas e cobertas de musgo no meio da mata e às 15h56 alcancei o único lodge de Forpang Danda, já fora da floresta e com visual magnífico das montanhas Langtang Lirung (nordeste) e Cordilheira Ganesh Himal (noroeste), porém um pouco prejudicado pelas nuvens que já se acumulavam naquele horário. Ali, numa parada de 20 minutos, pude conversar um pouco com os espanhóis e a francesa.
      A partir de Forpang Danda a inclinação passa a ser menor. Segui no sentido sudoeste e sul por dentro de uma linda e extensa mata de rododendros que deve ficar repleta de flores nos meses de março e abril, um lindo espetáculo deve ser. O rododendro é a flor nacional do Nepal e aparece até como marca-d'água das cédulas de rupia. Passei por três pontos de água. Alcancei finalmente o povoado de Sing Gompa (Chandanbari) às 17h, bastante cansado pelo grande desnível que enfrentei desde o Rio Langtang (1612m). Hospedei-me no Sherpa Hotel com quarto gratuito, só pagando as refeições. Havia um grupo de 9 nepaleses passando o final de semana ali e fazendo barulho por 50. Tentei um banho (gratuito) mas como era final de tarde e o aquecimento era solar a água estava de morna a fria, o que foi um sofrimento. O banheiro ficava fora da casa e tinha vaso sanitário e lavatório, mas este não funcionava. Para escovar os dentes e se lavar era necessário usar uma torneira no quintal, bem na saída do esgoto da cozinha...
      A partir de Sing Gompa há um caminho para Dhunche bem mais curto do que aquele de Thulo Syafru que pode servir como rota de fuga se necessário ou uma via de entrada para o trekking Gosainkund sem passar por Syabrubesi ou Thulo Syafru.
      Altitude em Sing Gompa: 3290m
      Preço do dal bhat: Rs 480
      Preço do veg chowmein: Rs 400

      Lago Bhairab Kund
      9º DIA - 15/10/18 - de Sing Gompa (Sing Gumba, Chandanbari) a Gosainkund
      Duração: 4h25 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 4428m
      Menor altitude: 3290m
      Resumo: nesse dia ultrapassei a linha das árvores e entrei novamente em um ambiente de alta montanha ao alcançar a vila de Gosainkund, num desnível positivo de 1138m
      A temperatura mínima da noite foi abaixo de zero (não medi) pois o campo ao lado do lodge amanheceu coberto de gelo. Depois do café da manhã tentei comprar queijo de iaque na fábrica mas não consegui encontrar ninguém para me atender. Visitei o monastério budista (o gompa do nome da vila significa monastério) e às 8h57 deixei o povoado caminhando na direção de Cholang Pati (leste e sudeste). Já estava novamente acima dos 3000m de altitude, mas a aclimatação feita em Kyanjin Gompa me ajudou a não ter nenhum sintoma da altitude mesmo enfrentando um desnível de mais de 1100m num só dia (não recomendável).
      A trilha sai da vila e sobe ampliando a visão dos picos nevados para trás e do enorme e profundo vale à direita. Atravesso dois trechos de florestas de rododendros e pinheiros e ao sair no aberto novamente a visão dos nevados é ainda mais ampla e espetacular. Passo pelos dois lodges da minúscula Cholang Pati às 10h30 (onde entronca a outra trilha que vem de Thulo Syafru) e continuo subindo. Aqui estou caminhando por uma crista de montanha acima dos 3600m e já vou deixando para trás a linha das árvores. Às 11h22 me deparo com gelo na trilha (mesmo sob o sol), o que não surpreende pois já estou de novo nos 3900m de altitude, chegando ao povoado de Laurebina ou Lauribina Yak (ainda não é o Passo Laurebina La, ao qual eu chegaria só no dia seguinte). Os três lodges ali devem ter de suas janelas a vista mais bonita de todo esse trekking! Aproveitei para descansar um pouco e curtir o esplêndido visual do Himalaia. Destacam-se na paisagem a montanha Langtang Lirung a nordeste e a Cordilheira Ganesh Himal a noroeste. Ainda subi um pouco mais até a estátua do Buda sentado em posição de lótus esculpido em pedra negra (basalto?) na altitude de 4228m, aonde cheguei às 12h40. Parece que havia um templo ali mas agora só há escombros ao redor da estátua. Parei para comer o lanche que trazia na mochila (comer lanche em alguns dias em vez de almoçar foi uma opção minha, quase sempre há um lodge no caminho para comer comida de verdade).
      O caminho para Gosainkund continua e ainda sobe mais, porém agora deixa a crista e percorre a vertente sul da montanha, tão íngreme que em alguns trechos instalaram alambrados para evitar quedas e acidentes. Às 13h37 avisto o primeiro dos lagos, abaixo à direita, de nome Saraswati Kund, ainda pequeno em relação aos próximos mas com uma bonita cachoeira se formando a partir do seu vertedouro. Às 14h03 passo ao largo do segundo lago, este bem maior, de nome Bhairab Kund, e com mais 7 minutos chego ao povoado e ao terceiro lago, o próprio Gosain Kund. Percorri os 4 ou 5 lodges dali e optei pelo último (Hotel Lake Side) na esperança de ser um lodge mais vazio e silencioso e não ter de dividir o minúsculo quarto com outra pessoa, mas mesmo assim o dono me avisou que eu teria que dividir caso o lodge enchesse. Felizmente isso não aconteceu pois apenas uma alemã (com guia) e um francês (sozinho) se hospedaram ali. Por causa dessa condição acertamos o quarto sem custo, pagando apenas as refeições. O banheiro era no estilo oriental (havia um dentro da casa para a noite e outro fora da casa com cheiro horrível) e para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal.
      Aproveitei a tarde para circundar o lago Gosain Kund por uma trilha e depois subir aos mirantes adornados por bandeirinhas budistas atrás do povoado. A subida levou 28 minutos e a altitude do mirante mais alto é de 4635m, quase a altura do Passo Laurebina La que eu cruzaria no dia seguinte. Dali avistei diversos lagos menores encaixados em vários níveis acima dos lagos maiores. Na descida assisti a um belo pôr-do-sol (às 17h35).
      Altitude em Gosainkund: 4428m
      Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 3ºC
      Preço do dal bhat: Rs 650
      Preço do veg chowmein: Rs 430

      Passo Laurebina La, de 4651m de altitude
      10º DIA - 16/10/18 - de Gosainkund a Phedi
      Duração: 4h
      Maior altitude: 4651m
      Menor altitude: 3771m
      Resumo: nesse dia cruzei o Passo Laurebina La, de 4651m de altitude, ponto mais elevado dos três trekkings (sem considerar o pico Tsergo Ri, que é uma caminhada opcional), para em seguida iniciar a descida para a região de Helambu.
      Saí do lodge às 8h40 e li numa placa na saída do povoado que há 17 lagos com nome nas proximidades, alguns bem pequenos, e outros 4 sem nome. Bem perto estava o pequeno santuário do deus Shiva. Continuei no sentido leste margeando o lago Gosain Kund e logo iniciei a subida. Havia gelo entre as pedras na subida, o que exigiu bastante cuidado. Passei por um primeiro lago à esquerda sem nome no mapa, depois pelo lago Ganesh Kund também à esquerda e alcancei o Passo Laurebina La às 10h22, com o lago Surya Kund à direita da trilha. Dos seus 4651m de altitude se avistam as cordilheiras Ganesh Himal, Manaslu e Annapurna a noroeste (mas a visão é até melhor na altura do lago Ganesh Kund). Já em dezembro deve haver neve nesse passo. Iniciei a descida às 10h33 e encontrei mais um pouco de gelo na trilha. Tentei visualizar algum caminho que subisse a montanha Surya Peak mas não encontrei. O dono do lodge me disse que não há trilha marcada e que é preciso caminhar por encostas de pedras soltas, sendo mais seguro ir com alguém que conheça.
      Às 11h39 passei por uma casa de pedra isolada e na bifurcação 70m depois desci à direita. Aos poucos fui reencontrando a vegetação arbustiva de novo, para cima desse ponto havia no máximo vegetação rasteira.
      Mas a neblina, que costuma dar as caras somente à tarde, hoje chegou antes do meio-dia para estragar todo o visual. E eu não fui até lá para caminhar sem curtir a paisagem. Somado a isso a descida íngreme de pedras estava me desgastando bastante. Ao chegar ao primeiro lodge de Phedi às 12h40 (há apenas dois lodges, mais nada) parei para resolver o que ia fazer. A francesa que falava espanhol havia parado ali pelo mesmo motivo, a falta de visual. Dei um tempo e a neblina não dava sinais de que ia embora. Resolvi ficar pois deu pra perceber que a paisagem dali era muito bonita e eu ia passar sem ver nada. Como não tinha nenhuma pressa podia deixar para prosseguir no dia seguinte. Negociei o preço do quarto ali no Hotel Dawababy e o dono fez por Rs100 (US$0,87). O restante do dia foi para descansar, conversar com a francesa (que estava viajando havia 8 meses, vindo do Sudeste Asiático) e aguardar tempo melhor no dia seguinte. Mais tarde chegou um grupo de seis franceses barulhentos e dois ingleses.
      Na frente desse lodge uma placa de mármore homenageia os mortos num acidente aéreo da empresa Thai ocorrido em 1992 nas proximidades.
      O banheiro ficava fora da casa, ou seja, era preciso encarar o frio para ir ao banheiro durante a noite. Era no estilo oriental. Para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal.
      Altitude em Phedi: 3771m
      Preço do dal bhat: Rs 600
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Lodge em Tharepati e alguns nevados da região de Kyanjin Gompa ao fundo
      11º DIA - 17/10/18 - de Phedi a Tharepati
      Duração: 5h (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3771m
      Menor altitude: 3310m
      Resumo: nesse dia deixei o ambiente de alta montanha e voltei a caminhar abaixo da linha das árvores, descendo (e depois subindo) até a vila de Tharepati, com um ótimo mirante para as montanhas já percorridas
      Felizmente valeu a pena a parada meio forçada em Phedi pois o dia amanheceu muito bonito. Só então pude ver a beleza e grandiosidade do lugar onde estava. Dali já é possível avistar os dois lodges de Tharepati e, mais próximo, o lodge isolado de Dhupi Chaur.
      Saí do lodge às 8h03 seguindo as placas de Ghopte e o caminho era pela encosta íngreme da montanha com pouco desnível. Pinheiros baixos foram aparecendo a partir dos 3700m para me lembrar que eu estava reentrando no limite das árvores. Cruzei 4 pontos de água. Passei pelo Himalay Sherpa Hotel, isolado num local chamado Dhupi Chaur (Dupcheswor), às 10h32 e cheguei a Ghopte com neblina às 11h24. Há dois lodges ali. Descansei um pouco e segui. Durante a passagem por uma floresta de rododendros parei para comer uns biscoitos que trazia na mochila. Ao final dessa mata, às 12h26, encontrei uma casa em ruínas. Logo cruzo outra floresta de rododendros e pinheiros.
      Às 13h22 avistei no alto à frente os dois lodges de Tharepati. Às 13h41 alcancei o povoado e me deparei com uma placa: à direita Kutumsang e Mangin Goth, à esquerda Melamchighyang e Helambu (porém não há um vilarejo com o nome Helambu, mas sim toda essa região onde eu estava entrando). Ambos os lados constam dos mapas como sendo do trekking Helambu, o qual descreve um grande arco com as extremidades voltadas para o sul. Se eu quisesse encerrar essa caminhada logo, tomaria a esquerda e desceria mais de 1000m (de desnível) em direção a Melamchighyang (Melanchigaon), onde poderia encontrar um ônibus para sair (ou talvez só em Timbu, 2000m abaixo). Mas o meu plano era fazer o trekking Helambu na sua maior extensão possível e por trilhas (não estradas), então o meu caminho seria para a direita.
      Porém uma coisa me atrapalhava de novo: a neblina. Tharepati fica no alto de uma crista e possui um dos mais bonitos visuais de montanha de todo o meu percurso. E eu não estava vendo nada, de novo... O jeito era dormir ali e torcer para a neblina dissipar na manhã seguinte. Escolhi o Sumcho Top Lodge para me hospedar pela posição mais alta e panorâmica, mas a negociação do quarto foi um pouco tensa. O dono parecia estar embriagado e se irritou com o meu pedido de pagar somente pela alimentação. Ele pediu Rs500 (US$4,34) pelo quarto e não queria ceder. Eu agradeci e saí para ir para o outro lodge. Aí ele mandou o menino me chamar dizendo que aceitava. Mas não falou mais comigo e a sua esposa, antes muito "simpática", também passou a me tratar muito mal. Me arrependi de ter ficado. Se era para me tratar desse jeito não deveria ter aceitado a minha proposta.
      Havia um grupo de 5 alemães e um casal francês ali, todos com seus guias e carregadores. Para nossa surpresa depois das 16h o tempo começou a abrir e pudemos tirar boas fotos das montanhas próximas e dos nevados da região de Kyanjin Gompa a nordeste: Gangchenpo, Urkinmang, Loenpo Gang e Dorje Lhakpa. Dali era possível avistar também os dois lodges de Phedi, o lodge isolado de Dhupi Chaur e ainda o Passo Laurebina La.
      O banheiro aqui também era no estilo oriental e fora da casa, muito frio à noite.
      Altitude em Tharepati: 3646m
      Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 2,2ºC
      Preço do dal bhat: Rs 600
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Passo Laurebina La à direita da cadeia de montanhas vista de Tharepati
      Trekking Helambu
      Início: em Tharepati eu finalizei a rota Gosainkund e passei para o trekking Helambu
      Final: Sundarijal
      Duração: 2 dias
      Maior altitude: 3646m em Tharepati
      Menor altitude: 1377m em Sundarijal
      Dificuldade: média a difícil pois há muita subida e descida por degraus de pedra na passagem pelo Parque Nacional Shivapuri Nagarjun
      Permissões: TIMS Card e entrada do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun
      O trekking Helambu, ao contrário dos outros dois, não é uma caminhada de alta montanha. A altitude é bem menor e a paisagem é basicamente de florestas nas partes mais altas e plantações em terraços nas partes mais baixas. A caminhada percorre muitos vilarejos e tem a desvantagem de ter muitos trechos em estrada. A travessia do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun exige o pagamento da entrada (Rs 1035 = US$ 8,98) e a trilha que cruza o parque tem uma infinidade de escadarias de pedra tanto subindo quanto descendo. Por causa dessas escadarias meu joelho esquerdo começou a doer e para o trekking seguinte (Everest) tive que comprar e começar a usar um bastão de caminhada.
      12º DIA - 18/10/18 - de Tharepati a Golphu Bhanjyang
      Duração: 6h30 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3646m
      Menor altitude: 2135m
      Resumo: nesse primeiro dia do trekking Helambu desci um grande desnível (1511m) em direção sul para encontrar vilarejos ao longo de poeirentas estradas de terra
      Felizmente o dia amanheceu lindo novamente e pude apreciar e tirar muitas fotos de toda a incrível paisagem de Tharepati.
      Como eu era persona non grata naquele lodge tratei de tomar meu café e sair logo. Às 7h40 peguei a trilha bem em frente no sentido sul. Não é a mesma trilha por onde cheguei no dia anterior a partir da placa, é uma outra que entroncaria na principal uns 300m depois. Uma vez na trilha principal segui para a esquerda, no sentido sul que eu manteria o dia todo (com poucas variações). Mas fiquei ainda um bom tempo fotografando e só iniciei a caminhada realmente às 8h45. Às 9h53, num lugar chamado Dhobato, alcancei uma bifurcação com placas e segui à direita descendo na direção de Kutumsang. À esquerda iria para Timbu, onde provavelmente haveria ônibus, ou seja, é mais uma rota de fuga se houver necessidade. Às 10h31 passei por dois lodges em Magingoth/Mangin Goth (um parecia estar desativado) e subi até um terceiro lodge, 1km à frente, onde peguei água da torneira e tratei com Micropur. Na descida que se seguiu parei alguns minutos para comer alguma coisa que tinha na mochila. Às 11h50 tomei uma trilha à direita da principal e fui até um bonito mirante. Mas o que impressionou ali foi ver os escombros de uma grande casa de pedra que no gps consta como Red Panda Hotel.
      Atravessei outra floresta de rododendros e às 12h10 a visão se amplia, já podendo visualizar a vila de Kutumsang na encosta de uma montanha ao sul. A descida se torna mais inclinada, com troncos de contenção e trechos de pedras soltas. Mas antes de chegar a Kutumsang fui parado às 13h26 em um checkpoint (Kutumsang Army Camp) para mostrar as permissões. Quiseram revistar a mochila... foi um transtorno porque tive de tirar tudo de dentro para eles examinarem e apalparem. Depois tive que refazer a mochila inteira. Esse local é um final de estrada, mas caminhei apenas 50m por ela e retomei a trilha sinalizada por uma placa. Às 13h46 passei por uma stupa grande logo abaixo à direita mas não fui até ela. Na bifurcação seguinte tanto faz o lado, mas parece que o esquerdo é mais usado. Às 14h alcancei a vila de Kutumsang e seus primeiros lodges, reencontrando a estrada de terra que abandonara 23 minutos antes. Ali fotografei outra stupa ainda mais bonita que a anterior. Uma grande placa verde logo abaixo apontava os caminhos: Chanawate à esquerda, Dupchugyang à direita e Golphu Bhanjyang em frente, este último o meu destino nesse dia. Após a placa subi pela estrada de terra cruzando a vila e tendo o primeiro contato com carros e motos depois de 12 dias.
      Quando a estrada deixou a vila e começou a descer em direção a outro povoado achei que havia algo errado. Graças ao caminho gravado no gps encontrei a trilha para Golphu Bhanjyang saindo à esquerda da estrada, num local sem nenhuma placa ou indicação, exatamente na entrada do Hotel Mountain View. Entrei nela às 14h18 e parei num mirante à esquerda para comer alguma coisa. Às 15h18, junto a algumas ruínas, vou à esquerda numa bifurcação sem placa por ser a trilha mais larga. Com mais 7 minutos visualizo muito abaixo a vila de Golphu Bhanjyang. A trilha desembocou numa estrada de terra (continuação da anterior) às 15h51 onde há uma placa muito velha apontando os vilarejos próximos. Fui para a esquerda e Golphu Bhanjyang ainda estava bem abaixo. Numa curva da estrada tomei um atalho à esquerda e saí de novo nela já perto do povoado, onde efetivamente cheguei às 16h19. Ali mais carros e motos para minha decepção... não sabia que haveria tanta estrada nesse trajeto (algumas são bem recentes e não constam em nenhum mapa).
      Dei uma olhada num lodge ali e a senhora pediu Rs300 (US$2,60) pelo quarto. O outro lodge (Himalaya New Lodge) parecia fechado. Resolvi tentar alguns lodges mais à frente, já além do povoado, para adiantar a caminhada e quem sabe terminar a travessia no dia seguinte. Mas me arrependi muito pois os lodges indicados no gps não existiam, fui me afastando cada vez mais e por uma subida muito cansativa. Quando finalmente encontrei um lodge funcionando, o Thodong Top, ele estava lotado. Voltei 1,9km até a vila de Golphu Bhanjyang e encontrei o Himalaya New Lodge aberto. Fui atendido por um simpático casal e o preço do quarto era o mesmo, Rs300 (US$2,60). Havia tomada (com interruptor) no quarto e pude recarregar as baterias. Banheiro novamente no estilo oriental e fora da casa, mas aqui já não fazia tanto frio à noite. Para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal. Não havia ducha, o banho era de balde e custava Rs200 (US$1,74). Esse foi o primeiro lodge em que fui o único hóspede.
      Altitude em Golphu Bhanjyang: 2135m
      Preço do dal bhat: Rs 350
      Preço do veg chowmein: Rs 250

      Stupa perto de Golphu Bhanjyang
      13º DIA - 19/10/18 - de Golphu Bhanjyang a Sundarijal
      Duração: 9h20 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2464m
      Menor altitude: 1377m
      Resumo: nesse dia percorri muitas estradas na direção sul (sempre que possível fugindo delas pelas trilhas que encontrava), atravessei o Parque Nacional Shivapuri Nagarjun (com grande subida e depois descida por escadarias) e encerrei o trekking em Sundarijal
      A intenção era me aproximar o máximo possível de Sundarijal para no dia seguinte finalizar a caminhada e tomar o ônibus de volta a Kathmandu. Mas acelerei bastante o passo e consegui alcançar Sundarijal nesse mesmo dia. Finalizei o trekking mas Kathmandu ficou para o dia seguinte, como contarei abaixo.
      Também foi um dia bem diferente dos anteriores pois caminhei bastante por estradas e passei por muitos vilarejos com suas plantações em terraços. Alternaram-se trechos de estrada e trilha, com as trilhas sendo basicamente atalhos para poupar as muitas curvas das estradas. Em vários pontos tive de perguntar pelo melhor caminho aos moradores e aqui a descrição vai ficar bastante "carregada" por causa das inúmeras bifurcações.
      Saí do lodge às 7h50 ainda na direção sul pela estrada, subi e fui à direita na bifurcação no alto, subindo mais. A parte alta de Golphu Bhanjyang tem casas bem humildes feitas inteiramente com folhas metálicas. O panorama foi se alargando e gastei um bom tempo tirando fotos das montanhas na direção do Passo Laurebina La (norte).
      Mais acima, à esquerda, aparece uma casa de muro alto que deveria ser um lodge mas estava fechado. Passei junto ao muro do lado esquerdo dela e fui fotografar uma linda stupa que fica atrás. Às 8h38 subi à direita na bifurcação com placa seguindo a indicação de Chisopani (segundo a placa esse povoado se chama Thodong). Passei novamente pelo Hotel Thodong Top e, desprezando uma trilha à esquerda, continuei pela estrada, que ia ficando cada vez mais precária.
      Às 9h37 surge uma trilha subindo à esquerda com uma placa quebrada no chão onde mal se consegue ler Chipling. Entrei nela mas é somente um atalho (maior altitude do dia: 2464m) que tem no percurso uma stupa, uma casa e uma escadaria que desce e reencontra a estrada, onde fui para a esquerda (sul). Alguns metros antes das primeiras casas de Chipling um deslizamento na estrada interrompe o tráfego para carros, apenas motos conseguem passar. Alcanço o centro do povoado às 10h19 e a partir dali as plantações em terraços passam a ser comuns ao longo do caminho, o que garante uma paisagem bastante verde.
      Cruzei as poucas casas do lugar evitando os caminhos à direita e indo sempre para a esquerda. Caminhei cerca de 110m mais pela estradinha e fui à direita numa bifurcação, subindo. Nessa hora contei com a ajuda dos simpáticos moradores para encontrar o caminho por trilha pois não havia placa e as trilhas não eram evidentes. Se eu me mantivesse na estrada obviamente iria caminhar muito mais. Apenas 90m após a última bifurcação entrei numa trilha entre casas à esquerda (meio estranho pois parecia que eu ia entrar numa das casas), desci, tomei a esquerda numa rua com mais casas e apenas 30m depois tomei a trilha escondida descendo à direita, por indicação do pessoal local. Dali foi só descer bastante por entre plantações em terraços e trechos de mata. Encontrei alguns trilheiros subindo - fazer esse trekking ao contrário deve ser bastante cansativo por conta de tanta subida quase sem sombra. Nas bifurcações tomei a direita e depois a esquerda, caí na estrada de novo, fui para a esquerda fazendo a curva e logo entrei noutro atalho à esquerda que desembocou na mesma estrada numa trifurcação, num vilarejo chamado Thankuni Bhanjyang, onde há o lodge Lama Guest House. Na trifurcação, às 11h21, fui para a direita caminhando pela estrada.
      Parei por 20 minutos para comer um lanche que levava na mochila e às 12h17 tomei um atalho por trilha à direita da estrada. Mas logo caí na estrada de novo e fui para a direita, cruzando a vila de Patibhanjyang. Ali vi várias pessoas com uma "massinha" vermelha na testa e não sabia o que era, depois descobri que estavam comemorando o festival Dasain (pronuncia-se dasái), o maior festival do Nepal, e que aquela massinha vermelha feita com grãos de arroz se chama tika. Após a vila, na bifurcação, tomei a estrada da esquerda, subindo. Com mais 130m entrei num caminho largo à esquerda que serve como atalho. Caminhei só 70m e subi na trilha bem íngreme à direita. Reencontrei a estrada numa curva fechada e fui para a esquerda, passando por algumas casas. Subi apenas 100m e entrei numa trilha à direita com uma escadaria de pedras. Subi pela sombra da mata e quando saí no aberto a paisagem era bem mais ampla e bonita.

      Plantação em terraços na vila de Chipling
      Subi até cruzar a estrada de novo e continuei pela trilha em frente subindo. Passei por uma casa às 13h06 e a trilha continuava à direita dela. Reencontro a estrada e a tomo para a esquerda, porém a abandono de novo em favor de uma trilha à esquerda ao alcançar uma matinha de pinheiros (poucos metros à frente pela estrada fica o Hotel Everest View Tower). Reencontro a estrada numa curva bem fechada e vou para a direita. Desprezo uma outra entrada para o hotel à direita (com placa) e subo a escadaria 20m à frente também à direita. A trilha dá uma guinada de 90º para a direita (oeste) e cruza a mesma estrada. Acabo saindo nela 90m à frente e vou para a esquerda. Essa estrada encontra outra mais larga numa curva fechada e subo à esquerda.
      Alcanço a vila de Chisopani às 13h50 e após passar pelos dois primeiros lodges vou à esquerda na bifurcação. Após o lodge Dorje Lakpa vou à esquerda onde um prédio de 3 andares inclinado lembra a destruição causada pelos terremotos de 2015. Mais dois lodges, mais casas em ruínas e às 14h08 chego à portaria do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun, onde sou recebido pelo guarda-parque e pago a taxa de entrada de Rs 1035 (US$8,98). Não acho esse valor exorbitante mas não me conformo em pagar uma taxa de entrada como essa e encontrar um parque sujo, com lixo por toda parte, sem sinalização, com quiosques abandonados, etc. Aliás o governo nepalês é craque em cobrar taxas altas dos visitantes e oferecer muito pouco em troca, e isso vale para todos os parques por onde caminhei.
      Ao sair da portaria às 14h23 abandonei a estrada (por um bom tempo, felizmente) e entrei no caminho descendo à direita que logo virou uma trilha. Fui à esquerda nas duas bifurcações e estava contente por voltar a caminhar por trilha e por pensar que agora seria só descida até Sundarijal. Porém havia me esquecido do passo em Borlang! Logo essa trilha começou a subir, subir... e por escadarias de pedra bastante cansativas. Por fim subi dos 2137m aos 2410m, tudo por escadarias, mas isso não significou uma bela paisagem para fotografar pois há muita vegetação obstruindo. O topo, aonde cheguei às 15h20, é marcado por bandeirinhas de oração budista. Cerca de 80m antes há uma bifurcação com uma placa indicando que ali é Borlang, com Sundarijal à esquerda, e à direita Shivapuri Peak (a 6,3km dali), Tinchule e Baghdwar (com um santuário).
      Ali eu já estava fazendo cálculos de distância e tempo para saber se conseguiria chegar com luz do dia ao ponto final do ônibus em Sundarijal. A descida por infindáveis escadarias foi tão cansativa quanto a subida e foi aí que comecei a sentir o joelho esquerdo. Na volta a Kathmandu tive que comprar um bastão de caminhada para poupar os joelhos nas caminhadas seguintes. Às 16h15 passei por uma "fortaleza" à direita, que devia ser do exército, com arames farpados, torre de vigilância, etc. e um portal com uma placa escrita somente em nepalês. Mais 7 minutos e chego às primeiras casas de Mulkharka, num final de estrada, e o ponto do ônibus estava ainda 3,6km à frente. Acelerei o passo.
      Às 16h30, onde há uma placa de Lumo Karmo, saio da estrada e desço pela escadaria à direita que serve como atalho. Ao reencontrar a estrada, cruzo-a e desço ainda por escadaria. Saindo na mesma estrada mais abaixo sigo por ela à esquerda e entro na primeira trilha à direita, 65m abaixo. Passo por uma escola, desço uma escadaria à direita e cruzo de novo a estrada junto ao Karma Guest House (onde perguntei sobre o melhor caminho). Continuando por trilha desci até uma barragem, aonde cheguei às 17h04. Cerca de 8 minutos depois passei por um posto do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun mas não fui parado para mostrar o tíquete de entrada.
      Passei por uma cachoeira bem alta do lado direito com quedas menores do lado esquerdo. Ainda descendo, passei a acompanhar uma tubulação à minha esquerda. Às 17h28 passei por uma guarita e pelo portal do parque nacional, mas não havia ninguém naquele horário. Alcancei enfim o largo de onde saem os ônibus às 17h39, perguntei sobre o ônibus para Kathmandu mas não me respondiam. Um vendedor de frutas é que me disse que o último sai às 17h. Como um táxi ficaria caro o jeito era dormir ali e ele me ajudou a encontrar um lugar. Parece que havia uma só opção, o Side View Hotel. Deve ter sido o pior lugar que fiquei no Nepal: quarto sujo, com restos do hóspede anterior, banheiro privativo porém sem água. Reclamei duas vezes sobre a água mas mesmo assim só tive por um curto período. Preço do muquifo: Rs900 chorado para Rs800 (US$6,94)! Se soubesse do horário do ônibus teria escolhido um lodge decente para ficar no caminho.
      E assim encerrei essa caminhada incrível de 13 dias. No dia seguinte tomei às 6h45 o ônibus para Kathmandu. Os trekkings Langtang e Gosainkund na minha opinião foram muito mais bonitos e recompensadores que o Helambu, mas há quem faça somente este último.
      Altitude em Sundarijal: 1377m
      Informações adicionais:
      Eu sempre faço o possível para conseguir as informações mais precisas sobre horários, preços, etc, porém no Nepal isso é bastante complicado pelo problema da comunicação e da falta de organização geral das coisas. Assim, coloco aqui as informações obtidas mas com essa ressalva.
      Horários de ônibus:
      . Kathmandu-Syabrubesi: 6h30, 7h30 e 8h (9h de viagem para apenas 126km)
      Em Kathmandu os ônibus saem de um local chamado Macha Pokhari, uma rua próxima ao Terminal Gongabu, no anel viário da cidade
      Preço: Rs600 (US$5,21)
      Táxi do Thamel até Macha Pokhari: Rs350 (US$3,04)
      . Sundarijal-Kathmandu:
      roda entre 6h e 17h, não consegui saber a frequência (cerca de 1h de viagem)
      Em Kathmandu desci próximo ao terminal do Ratna Park
      Preço: Rs25 (US$0,22)
       
      Rafael Santiago
      outubro/2018
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
    • Por rafael_santiago
      Lago Nesbøvatnet
      Início: Finse
      Final: Vassbygdi
      Duração: 3 dias
      Maior altitude: 1643m
      Menor altitude: 89m em Vassbygdi
      Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. A maior subida tem desnível de 419m.
      O Parque Nacional Hallingsskarvet é um parque pequeno ao norte do platô Hardangervidda, maior platô de montanha do norte da Europa. Ele se situa ao norte da famosa estrada de ferro Oslo-Bergen, próximo à estação de Finse, a cerca de 190km de Oslo e 120km de Bergen (em linha reta). 
      Nesse trekking eu percorri de sul a norte o parque e emendei com a caminhada do Cânion Aurlandsdalen, bastante famoso por lá pela incrível beleza.
      Para saber sobre trekking na Noruega sugiro a leitura da introdução do relato www.mochileiros.com/topic/89222-travessia-do-parque-nacional-hardangervidda-noruega-jul19.
      O problema do trekking na Noruega e na Escandinávia em geral é o alto índice de chuva. Eu tive três dias seguidos de sol nessa caminhada e isso foi uma grande sorte.
      Não há problema de escassez de água nesse percurso e nem todos os riachos e fontes estão descritos no texto pois são muitos.

      Lagos parcialmente congelados mesmo no verão
      1º DIA - 01/08/19 - de Finse ao Refúgio Geiterygghytta
      Duração: 5h20 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 1643m
      Menor altitude: 1219m
      Resumo: esse dia tem um desnível considerável de 419m de subida e depois de 424m de descida mas não é cansativo pois é bastante gradual
      No dia 29/07 eu interrompi a caminhada do Parque Nacional Hardangervidda (relato em www.mochileiros.com/topic/89222-travessia-do-parque-nacional-hardangervidda-noruega-jul19) no 7º dia do percurso por causa da chuva que chegou e ainda duraria mais dois dias. Fui de trem para a cidade de Geilo, me hospedei no Hostel HI e esperei a melhora no tempo prevista no yr.no.
      Nesse dia, 01/08, voltei de trem a Finse e retomei a caminhada com tempo bom. Finalizada a etapa do Parque Nacional Hardangervidda, agora ia entrar no Parque Nacional Hallingsskarvet.
      Embarquei em Geilo às 13h e desci na estação de Finse às 13h38. Altitude de 1228m. Cruzei a estrada de ferro e segui a placa de Geiteryggen após o portão de madeira. Subi pela rua principal de cascalho e segui a sinalização do T vermelho entrando numa trilha à direita, cerca de 300m depois da linha férrea. Subi a colina ao norte, passei pelo local onde acampei no dia 29 e parei por 13 minutos para contemplar a magnífica Geleira Hardangerjøkulen, a sexta maior da Noruega. Ao cruzar o primeiro riacho, às 14h20, estava entrando nos limites do Parque Nacional Hallingsskarvet. Continuei no rumo norte, cruzei uma ponte suspensa e em seguida outro riacho pelas pedras às 14h43. Voltei a subir e a vegetação, que era só rasteira, some de vez, ficando só o terreno de pedras, mas sem dificuldade para caminhar. Às 15h32 começam a aparecer as manchas de neve que tenho de cruzar, com largura de 30m a 70m, mas sem problema de escorregar. A bota impermeável é importante nessa hora também.

      Cruzando campos de neve
      Às 15h57 alcancei o Refúgio Klemsbu, particular e trancado. Fiz uma pausa ali. Algumas pessoas que caminhavam sem mochila (e até com cachorro) tomaram ali uma trilha para o norte e subiram o Pico Sankt Pål. Eu continuei às 16h39 para nordeste (direita na bifurcação) e subi cruzando mais duas manchas de neve até atingir a maior altitude do dia (1643m, desnível positivo de 419m desde Finse). Ali há um campo de neve muito extenso mas felizmente não foi preciso cruzá-lo, está à esquerda do caminho. À direita surge um bonito lago com placas de gelo flutuando como icebergs. Inicia a descida. Cruzo mais uma mancha de neve e depois um riacho pelas pedras. Às 17h52 avisto o Lago Omnsvatnet. A trilha desce, cruza um riacho e se aproxima do lago, voltando a ter vegetação rasteira e depois capim, pasto para as ovelhas. Às 18h23 atravesso mais uma mancha de neve de uns 40m e às 19h outra de cerca de 60m.
      Às 19h21 alcanço um conjunto de lagos e passo a caminhar pelo seu lado direito. Cruzo pelas pedras um riacho que vem de uma bonita cachoeira despencando do paredão à direita. Às 19h55 avisto o refúgio na outra ponta do lago. Cruzo outro riacho às 20h14 e saio dos limites do Parque Nacional Hallingsskarvet. Alcanço o Refúgio Geiterygghytta às 20h32, numa altitude de 1230m. Esse refúgio é da DNT e do tipo staffed (com funcionários), não se pode cozinhar, não há comida para vender (só chocolates e biscoitos) e o anfitrião não me deixou nem usar o banheiro se não consumisse algo ou acampasse na área designada pagando NOK 100 (US$ 12,09)! Perguntei de acampamento livre (selvagem) e ele me mandou acampar longe, fora da visão do refúgio. Pelo que pude ver era um lugar muito bem arrumado, parecendo um hotel, e a presença de barracas espalhadas podia desagradar àquele público sofisticado. 
      Em frente a esse refúgio passa uma estrada de cascalho que começa na rodovia 50 muito próximo de um túnel. Como passa um ônibus nessa rodovia essa estradinha pode ser uma rota de fuga ou um início/final alternativo à caminhada. São 3,6km dali até a rodovia. Porém há pouquíssimos horários: um ônibus por dia (às 13h10) em direção a Flåm (oeste) e um ônibus por dia (às 9h40) em direção a Ål (leste) (horários de julho e agosto de 2019).
      Saí do refúgio às 20h42 e caminhei pela estrada de cascalho para a esquerda (noroeste) até sair da visão do refúgio. Começaram a aparecer as barracas dos alternativos, dos que preferem a liberdade ao conforto. Os melhores lugares, que eram perto da cachoeira à esquerda da estradinha, já estavam ocupados, então entrei na trilha de Østerbø, com placa, à direita, e subi até encontrar um lugar plano e um pouco afastado do caminho. Havia água corrente por perto. Altitude de 1252m.

      Lagos de montanha
      2º DIA - 02/08/19 - do Refúgio Geiterygghytta a Østerbø (ou quase)
      Duração: 5h30 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 1395m
      Menor altitude: 1050m no acampamento do fim do dia
      Resumo: dia de vários sobe-e-desce mas sem desníveis significativos, sendo o maior deles de 320m de descida da maior altitude do dia (1395m) aos 1075m do Refúgio Steinbergdalen
      Deixei o local de acampamento às 11h41 e segui a trilha no rumo norte. Em 4 minutos cruzei um riacho pelas pedras. Às 12h11 o mapa do gps mostrava que eu estaria cruzando a rodovia 50 porém não havia rodovia nenhuma - havia sim, estava muitos metros abaixo de mim na forma de um extenso túnel! E com mais 9 minutos avistei a tal rodovia 50 bem abaixo à esquerda margeando um lago. Infelizmente a trilha vai se aproximar dela e esse dia não será dos mais bonitos e agradáveis. Às 12h40 sigo à esquerda numa bifurcação com placa apontando para o Refúgio Steinbergdalen; à direita se vai a Kongshelleren (refúgio) e Iungsdalshytta (refúgio). Cerca de 6 minutos depois cruzo um riacho mais largo pelas pedras e paro por 18 minutos.
      Às 13h16 atravesso uma ponte metálica sobre um bonito rio com pedras e, subindo, cruzo uma porteira feita de ripas de madeira. Subo mais e atinjo um mirante chamado Bollhoud às 13h37. Passo por bonitos e tranquilos lagos de montanha e às 13h57 cruzo um riacho. Às 14h26 atravesso outra ponte metálica e encontro uma placa com o nome do local: Breibakkao. O riacho que cruzei forma uma bonita cachoeira à minha esquerda. Às 14h44 parei por 30 minutos num bonito mirante chamado Driftaskar, de onde avisto o Refúgio Steinbergdalen (ou Steinbergdalshytta) perto do lago Vetlebotnvatnet e da famigerada rodovia 50. 
      Na descida cruzei um riacho por uma ponte de tábuas às 15h39. No portão na chegada ao refúgio há uma bifurcação em que à direita se vai também a Kongshelleren (refúgio) e Iungsdalen (refúgio). Entrei no Refúgio Steinbergdalen às 15h49 e ele é particular (não é da DNT), mas a anfitriã me deixou usar o banheiro sem pagar pois eu estava só de passagem. É uma casa bem típica norueguesa, de madeira com vegetação sobre o telhado para manter o isolamento térmico e a estabilidade da casa. É recomendável (ou obrigatório em alguns casos) tirar o calçado antes de entrar, a menos que o anfitrião diga o contrário. A rodovia 50 está a apenas 450m e é possível tomar o mesmo ônibus que liga Ål a Flåm se for necessário.
      Saí às 16h04 pelo lado direito do refúgio e tomei uma trilha que subia a encosta à direita com placa de Østerbø. E como subiu!!! Não era uma subida íngreme, mas tinha muitas pedras e parecia não ter mais fim. A visão da rodovia 50 logo abaixo à esquerda tirava todo o clima de montanha e fez daquele trecho longo de subida um tédio. Na descida, ainda pela encosta, parei num riacho às 17h18. Às 18h05 atravessei a ponte de tábuas sobre outro riacho que despencava do paredão à direita em bonitas quedas. Começo a avistar a vila de Østerbø bem abaixo no vale. Desço mais e às 18h40 alcanço um grande campo com uma cachoeira grande ao fundo. Ali já comecei a pensar se valeria a pena ir até Østerbø (ainda 3,8km à frente) pois o local parecia mais urbanizado e eu poderia ter dificuldade para encontrar um lugar para camping selvagem. Cheguei a perguntar sobre isso a uma garota que vinha (sozinha) atrás de mim, mas ela não sabia como era Østerbø. Vi que ela e um casal pararam ali para acampar e resolvi parar também, apesar de muito cedo ainda. Havia água bem próximo dali, no Rio Grøna. Altitude de 1050m.

      Cânion Aurlandsdalen
      3º DIA - 03/08/19 - de Østerbø a Vassbygdi
      Duração: 6h50 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 1074m próximo ao acampamento
      Menor altitude: 89m em Vassbygdi
      Resumo: longa descida de 985m percorrendo o interior do Cânion Aurlandsdalen, famoso na Noruega pela grande beleza
      O trekking de hoje pode ser feito em forma de bate-e-volta de um dia a partir das cidades de Flåm ou Aurland, onde há campings e hotéis. Tomando o ônibus às 8h15 em Flåm ou 8h25 em Aurland se chega às 9h15 a Østerbø, um bom horário para iniciar a caminhada pois há ônibus à tarde para retornar a Flåm e Aurland (veja os horários nas informações adicionais).
      Comecei a caminhar às 8h21, cruzei a ponte de madeira sobre o Rio Grøna, desci até o vale do Rio Grøndalagrovi e o segui para a esquerda (oeste). Descendo, passei por uma casa vazia à minha direita e cruzei um portão de ferro. Atravessei uma mata e às 9h12 cheguei a uma estradinha de terra, onde fui para a direita. Aparecem as primeiras casas. Às 9h18 alcanço uma estrada de asfalto após uma cancela e sigo para a direita, continuando pela esquerda na bifurcação. A rodovia 50 está a apenas 120m à esquerda da cancela e é possível tomar o mesmo ônibus que liga Ål a Flåm se for necessário. Me mantive na estrada principal e cheguei aos refúgios de Østerbø às 9h28. São dois, um ao lado do outro. O primeiro é o Østerbø Fjellstove, particular, e o segundo é o Aurlandsdalen Turisthytte, pertencente à DNT e do tipo staffed. A tão esperada trilha do Cânion Aurlandsdalen começa no meio dos dois.
      Por ser um sábado havia dezenas de pessoas iniciando a trilha, e até um grupo de voluntários (?) dando orientações. O caminho aponta para o norte ainda como uma estradinha de cascalho, que tomei às 9h50. Altitude de 833m. Numa curva de 180º para a esquerda cruzei a ponte sobre o Rio Langedøla e havia uma sinalização um pouco confusa. Não entrei na primeira trilha à direita com T vermelho pintado na pedra, continuei descendo a estradinha e entrei na trilha seguinte à direita também com T vermelho pintado, mas muito mais estreita que a primeira (aqui aparentemente os dois caminhos servem, o importante é se aproximar do lago e evitar as outras trilhas). Passei por mais uma casa à minha esquerda e comecei a contornar o bonito Lago Aurdalsvatnet pela margem norte e depois oeste. Aparece a primeira placa de marcação de distância, 18km para a frente (até Vassbygdi) e 1km para trás (desde os refúgios de Østerbø).

      Cânion Aurlandsdalen
      Quando deixo as margens do Lago Aurdalsvatnet no sentido oeste aparece um espaço plano e gramado ótimo para acampar. Até aí não havia visto nenhum lugar adequado para acampar e daí em diante apareceram bem poucos também pois o solo muitas vezes era de turfeira (?), fofo e úmido. A trilha percorre a mata exuberante, numa mudança significativa de ambiente em relação aos dois dias anteriores no alto da montanha. A placa de 17km se encontra sobre um portão de ferro e na descida seguinte a beleza de Aurlandsdalen começa a se mostrar. Um lindo lago bem abaixo espelha as montanhas verdejantes. A descida até a margem leste desse lago (Nesbøvatnet) foi por uma trilha íngreme beirando a ribanceira. 
      Aurlandsdalen é também uma trilha histórico-cultural e às 10h32 aparece a primeira placa com texto sobre a história e fotos antigas do lugar. Às 10h36 cruzei uma ponte de tábuas sobre um riacho e 2 minutos depois alcancei a casa Nesbø, às margens do Lago Nesbøvatnet, sede de uma fazenda do século 17. A trilha continua margeando o lago e às 10h49 alcanço uma bifurcação num local chamado Tirtesva. A trilha íngreme à direita sobe para outro caminho: Vassbygdi via Bjønnstigen, e uma placa alerta para o risco dessa rota já que cruza uma área de avalanches. Me mantive na trilha mais usada, que segue à esquerda, e uns 520m depois de Tirtesva cheguei a um bonito lago (uma extensão do Lago Nesbøvatnet). Parei para curtir o lugar e tomar água fresca do riacho ao lado. O gramado ali daria um bom local de acampamento também.
      Continuei às 11h19 e o lago se afunila num rio, que seguirei pela margem direita até o final do dia. Agora a sensação é de caminhar no fundo de um cânion mesmo, com a altas paredes se erguendo em ambos os lados. O rio e a vegetação das encostas ficam cada vez mais bonitos. Às 11h43 a trilha é um caminho estreito escavado no paredão de pura rocha. Um corrimão dá segurança nas partes mais estreitas (principalmente se houver neve). Às 11h52 surge abaixo o bonito Lago Vetiavatnet, o último grande lago dessa caminhada. 
      Às 12h05 alcancei uma bifurcação num lugar chamado Heimrebø. À esquerda se vai a Berdalen, que é um local a 370m dali na rodovia 50 onde passa o mesmo ônibus de Ål a Flåm. Segui à direita e a trilha faz uma grande curva embicando para o norte e se afastando muito da rodovia 50 (felizmente não mais visível após Østerbø). Às 12h47 vem da direita a rota Vassbygdi via Bjønnstigen, aquela iniciada em Tirtesva e que vem pelo alto. 
      Às 12h55 cheguei a um local com uma trilha saindo para a esquerda e uma movimentação de pessoas indo e vindo de lá - fui ver o que era. Caminhando cerca de 100m chega-se a Vetlahelvete, ou little hell cave, uma reentrância no paredão rochoso com um pequeno lago dentro e iluminação vindo da abertura no alto. Há um bonito mirante nas pedras mais altas do outro lado. Voltei à bifurcação, tomei um lanche e continuei descendo às 13h16. A marcação ali mostra que estou bem no meio do caminho: já percorri 9km e faltam 10km. Em 5 minutos tenho uma visão espetacular do cânion com o rio correndo lá embaixo e pessoas minúsculas ao longo da trilha bem ao lado do rio, ou seja, tinha uma descida bem grande pela frente. Às 13h24 parei para beber a água fresca de uma quedinha ao lado da trilha. Desci pela trilha em zigue-zague e às 13h46 já estava às margens do rio, onde algumas pessoas mergulhavam e logo saíam pois a água devia estar bem fria. 

      Fazenda Sinjarheim
      Às 14h08 uma nova bifurcação. À esquerda se vai a Stondalen, que é outro local na rodovia 50 onde passa o ônibus de Ål a Flåm, outra rota de fuga, porém essa bem longa (7km). Vou à direita e em 5 minutos avisto, pendurada na enorme encosta, a Fazenda Sinjarheim, principal ponto de parada nesse trekking. Cruzo uma ponte de madeira sobre o riacho que vem de uma imensa cachoeira despencando do paredão e às 14h30 chego à fazenda. Casas de madeira com vegetação sobre o telhado e anunciado apenas em norueguês (demonstrando que poucos estrangeiros passam por ali): "sal av kaffi og mjelkekaker - kom inn", "venda de café e bolo de leite - entre". Muita gente ali descansando e se recuperando do calor pois já estávamos a 591m de altitude e a temperatura havia aumentado com a descida e por causa do horário. Muito calor para os noruegueses pois para mim estava bem agradável. Saindo da fazenda às 14h51, a descida se tornou bastante íngreme e às 15h10 já estava próximo ao rio de novo. Após duas casas de madeira, num local chamado Almen, olhei para trás e o cenário era espetacular, com duas grandes cachoeiras brotando dos paredões, último cenário de tirar o fôlego desse trekking.
      Quando vi os horários de ônibus em Østerbø pensei em tomar o das 19h para Flåm, o último. Mas pelo avanço rápido que vinha fazendo após entrar na mata resolvi apertar um pouco o passo e ver se conseguia pegar o das 16h40. A descida terminou numa clareira às 16h03 e 8 minutos depois alcancei um final de estrada de cascalho, continuando em frente, sempre pela margem direita do rio. Estava apressado por causa do horário do ônibus mas não resistia a comer as framboesas próximas à cerca à direita da estradinha. Para trás me despeço dos grandes paredões do Cânion Aurlandsdalen. Continuando sempre em frente me aproximo das primeiras casas de Vassbygdi e finalmente chego ao ponto de ônibus, em frente a uma lanchonete, às 16h27, e estava lotado. Altitude de 89m. O ônibus apareceu no horário e somente uma parte daquele povo todo o tomou pois a maioria esperava o ônibus de volta a Østerbø, onde deixaram seus carros. A viagem a Flåm durou 30 minutos e percorreu o maravilhoso fiorde Aurlandsfjorden. Em Flåm acampei no Camping e Hostel HI.

      Cânion Aurlandsdalen
      Informações adicionais:
      . para saber os preços de hospedagem e refeições nos refúgios da DNT consulte os valores atualizados em english.dnt.no/routes-and-cabins. Para se tornar membro da DNT e ter descontos o valor da anuidade é NOK 695 (US$ 84), valor de 2019 para adultos de 27 a 67 anos.
      . Camping e Hostel HI em Flåm: NOK 160 (US$ 19,34) para uma barraca com uma pessoa. A ducha quente custa NOK 20 (US$ 2,42) a cada 6 minutos (funciona com moeda ou ficha comprada na recepção). O hostel estava lotado no início de agosto. Site www.hihostels.com.
      . mapa do parque com as trilhas e refúgios: ut.no/kart
      . a temperatura mínima durante a noite fora da barraca foi 7ºC
      . para planejar qualquer viagem de ônibus, trem ou barco na Noruega: en-tur.no (clique em Meny e selecione English)
      . ônibus de Vassbygdi a Aurland e Flåm: 10h20 (sáb e dom), 14h10 (diário), 16h25 (sáb e dom), 16h40 (diário), 19h (diário) (horários de julho e agosto de 2019)
      . trens na Noruega: www.vy.no/en
      . não há supermercado nem em Finse, nem em Vassbygdi e em nenhum lugar desse percurso. Só há mercado em Aurland e Flåm, alcançadas de ônibus a partir de Vassbygdi. Só há refúgios do tipo staffed (da DNT) e particulares nesse caminho e eles não vendem comida para preparar (apenas guloseimas), mas servem café da manhã e jantar.
      . roteiro adaptado a partir das informações do guia Walking in Norway, de Connie Roos, Editora Cicerone
      Rafael Santiago
      agosto/2019
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br


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