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Kungsleden, a Trilha do Rei na Lapônia sueca (Suécia) - ago-set/19


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Vista da montanha Skierfe

Início: Abisko
Final: Kvikkjokk
Distância: 182,4km (incluindo o desvio de 12,8km de ida e volta ao Skierfe)
Duração: 11 dias
Maior altitude: 1184m no Skierfe
Menor altitude: 330m no Refúgio Kvikkjokk Fjällstation
Dificuldade: fácil para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Os desníveis não são grandes, a maior subida tem desnível de 439m.

Kungsleden significa Trilha do Rei em sueco. Esse longo e tradicional caminho tem no total 414km e é dividido pela STF em cinco setores: 
1. de Abisko a Nikkaluokta
2. de Nikkaluokta a Vakkotavare
3. de Saltoluokta a Kvikkjokk
4. de Kvikkjokk a Ammarnäs
5. de Ammarnäs a Hemavan

STF (Svenska Turistföreningen = Associação Sueca de Turismo) (www.swedishtouristassociation.com) é a organização sem fins lucrativos responsável pela manutenção das trilhas, passarelas, pontes e refúgios de montanha na Suécia. Foi criada em 1885! E a marcação da Kungsleden começou em 1899! Como estamos atrasados no Brasil em termos de montanhismo!!!

A Kungsleden é um caminho orientado de norte a sul situado em plena Lapônia sueca, no extremo norte do país, acima do Círculo Polar Ártico. A ponta norte da Kungsleden está na cidade de Abisko, distante 1300km de Estocolmo, o que demanda uma viagem de 20 horas de trem mais ônibus (ou avião mais ônibus). A Kungsleden não está dentro dos limites de um único parque nacional, mas atravessa três parques nacionais diferentes no trecho que eu percorri (de Abisko a Kvikkjokk): Parque Nacional Abisko, Parque Nacional Stora Sjöfallet e Parque Nacional Sarek.

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Pôr-do-sol em Aktse com destaque para a montanha Skierfe

No trecho inicial, a Kungsleden tem seu trajeto compartilhado com dois outros caminhos de longa distância:

. Trekking Nordkalottleden: de Abisko a Sälka (59km). Essa trilha tem 800km e atravessa Noruega, Suécia e Finlândia

. Caminho Peregrino Dag Hammarskjöld: de Abisko a Singi (71km). Essa trilha tem 105km e vai de Abisko a Nikkaluokta. Por conta desse caminho de peregrinação existem os Meditationsplats, lugares de meditação com frases de autoria do escritor sueco Dag Hammarskjöld (daí o nome do caminho) gravadas em pedra

QUANDO IR

Por estar situada na Zona Polar Ártica, ou seja, ao norte do Círculo Polar Ártico, a melhor época para a Kungsleden é o verão, com temperaturas mais agradáveis (não tão frio ou um frio suportável) e ausência de neve pelo caminho. De 20/06 a 22/09 todos os refúgios estão abertos e todos os barcos a motor estão operando (essas datas mudam ligeiramente a cada ano, confira em www.swedishtouristassociation.com/our-accommodation-types/stay-stf-mountain-cabin e www.swedishtouristassociation.com/boats-in-the-mountains). Fora desse período se pode acampar ou usar a parte do refúgio que fica aberta fora de temporada, sem o anfitrião. Para cruzar os lagos fora desse período há a opção do barco a remo, mas eles só estão disponíveis quando os lagos descongelam completamente, o que acontece a partir de meados de junho. 

O maior problema do trekking na Suécia (assim como na Noruega) é o alto índice de chuva. Essa caminhada durou 11 dias mas na verdade eu fiquei 15 dias na trilha, os outros 4 dias parado esperando a chuva passar. Chuva que durava o dia inteiro. Mas não escapei dela, não. Caminhei muitos dias com chuva também. Dos meses de julho, agosto e setembro o guia Trekking the Kungsleden, de Mike Laing, informa que o mais chuvoso é julho e o menos chuvoso é setembro. Os refúgios costumam ter um cartaz com a previsão do tempo para o dia seguinte.

Outro incômodo são os insetos no pico do verão, por isso se recomenda levar um bom repelente (lá é vendido um chamado Mygga) ou um chapéu com rede que se encontra nas lojas. No finalzinho de agosto eu já não tive esse problema.

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Lago Alesjaure

REFÚGIOS DE MONTANHA

A STF tem dois tipos de alojamento de montanha: refúgio (mountain cabin) e estação de montanha (mountain station, como Abisko, Saltoluokta e Kvikkjokk, que servem as três refeições). Todos os refúgios que eu conheci têm anfitrião (ou vários funcionários se for maior) de 14/06 a 22/09. Há também os abrigos de emergência, que são casinhas com apenas um cômodo pequeno para se proteger da chuva mais forte ou vendaval.

Todos os refúgios da STF têm cozinha e refeitório que se pode utilizar desde que o visitante se hospede no refúgio (SEK 600 = US$ 64) ou acampe na área designada (SEK 300 = US$ 32) ou pague uma taxa de visita (day visit) (SEK 100 = US$ 10,69) ou seja membro da STF (SEK 295 = US$ 31,52 por 12 meses). Sem essas condições não se pode entrar no refúgio para descansar ou para se aquecer do frio, por exemplo. A entrada gratuita só é permitida para comprar comida no mercadinho do refúgio, se houver. 

Ao sul do Refúgio Singi esses preços caem para: hospedagem SEK 500 (US$ 53,43) e camping SEK 250 (US$ 26,71).

CAMPING SELVAGEM

Para quem está com barraca, em toda a Suécia vale na teoria a regra do "allemansrätt" ou Direito de Acesso Público, que diz que uma pessoa tem o direito de caminhar e acampar em qualquer lugar, exceto nas imediações de uma residência, em terras cultivadas e jardins particulares. Para mais informações sobre o "allemansrätt": www.swedishepa.se/Enjoying-nature/The-Right-of-Public-Access/This-is-allowed1

Na Kunsleden o que vale na prática é o seguinte: acampar perto do refúgio da STF custa SEK 300 ou SEK 250 (US$ 32 ou US$ 26,71) e dá direito de usar a cozinha, o refeitório, o banheiro e a sauna se houver. Acampar a mais de 200m ou 300m do refúgio é gratuito e dá direito de usar apenas o banheiro. Se você quiser acampar nas imediações do refúgio mas sem pagar a taxa é sempre bom perguntar ao anfitrião onde deve fazer isso (distância mínima) para não ser cobrado depois.

Nos três setores do norte da Kungsleden (de Abisko a Kvikkjokk) é opcional levar barraca já que a distância entre os refúgios não é tão grande. Muita gente caminha apenas com uma mochila de ataque, dormindo nos refúgios, porém com um custo bastante alto. Na região central da trilha (entre Kvikkjokk e Ammarnäs) a distância entre os refúgios aumenta e a barraca passa a ser necessária.

O uso do banheiro é livre para todos, mesmo para os que acampam de graça, o que é ambientalmente mais inteligente do que as regras restritivas de muitos dos refúgios da Noruega. O banheiro é do tipo seco, uma casinha separada, com uma bancada e o assento sobre ela. O assento e a tampa normalmente são de isopor. Costumam ter papel higiênico e alguns têm álcool para higiene das mãos. No Refúgio Kvikkjokk o banheiro é normal e interno.

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Lago Langas

REABASTECIMENTO DE COMIDA

Nesse percurso de Abisko a Kvikkjokk há supermercado apenas em Abisko, distante 2,4km do início da trilha. A maioria dos refúgios tem mercadinho básico com preços de no mínimo o dobro do que nas cidades (justificado pela dificuldade do transporte). Há enlatados diversos (como almôndegas com molho, por exemplo), macarrão, pão sueco (não há pão de forma ou outro tipo), queijo com carne de rena em bisnaga, queijo com camarão em bisnaga, feijão em caixinha, grão-de-bico em caixinha, biscoitos, algumas bebidas, etc. 

Os refúgios Abisko, Saltoluokta e Kvikkjokk têm restaurante e servem as três refeições (café da manhã, almoço e jantar). Possuem mercadinho também. 

O pagamento das compras e das refeições é feito diretamente ao anfitrião (ou funcionários) em dinheiro ou cartão de crédito (exceto em Pårte).

ÁGUA POTÁVEL

Não há problema de escassez de água nesse percurso de 11 dias que eu fiz e nem todos os riachos e fontes estão descritos no texto pois são muitos. 

KUNGSLEDEN INTEIRA OU SÓ UMA PARTE?

Dos cinco setores em que a Kungsleden é dividida pela STF eu optei por percorrer os três mais ao norte apenas. Por quê? Achei que não valia a pena fazer a travessia inteira e colocar quase um mês de viagem numa única trilha, que poderia se tornar monótona. Acho que acertei nisso pois nos 11 dias que caminhei considerei a trilha monótona em muitos trechos, com apenas alguns lugares se destacando pela beleza. 

Considero que a Kungsleden é uma trilha mais para se isolar e se afastar de tudo do que para curtir um visual incrível. Sim, há bastante gente na trilha no verão e há os refúgios muito bem equipados, mas também se pode acampar em qualquer lugar distante e permanecer longe de tudo o tempo que quiser já que não há cidades ou estradas num raio de muitos quilômetros. Para quem considerar a Kungsleden turística demais, a Lapônia tem trilhas mais aventureiras nos parques nacionais Padjelanta e Sarek, ambos muito próximos da Kungsleden.

Para quem optar por fazer a Kungsleden inteira, além de separar um mês de viagem para isso, precisa se precaver com a questão da comida e levar uma barraca já que os refúgios da região central da trilha (entre Kvikkjokk e Ammarnäs) são bem mais distantes entre si e quase não há mercadinhos. E também deve estar preparado para remar um pequeno barco numa travessia de 500m num dos lagos do caminho pois mesmo no verão não há barco motorizado nesse local.

Todas as distâncias informadas neste relato são dos trechos caminhados, excluídos os percursos feitos de barco.

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Rio Abiskojokk (ou Abiskojåkka)

1º DIA - 28/08/19 - de Abisko ao Lago Abiskojaure

Distância: 9,6km
Maior altitude: 510m no Lago Abiskojaure
Menor altitude: 373m no início da trilha
Resumo: nesse primeiro dia de caminhada subi o vale do Rio Abiskojokk num desnível positivo (imperceptível) de 137m até o Lago Abiskojaure. Caminhei dentro da área do Parque Nacional Abisko.

No dia 27/08 deixei Estocolmo em direção à pequena cidade de Abisko, ao norte do Círculo Polar Ártico, em plena Lapônia sueca. São no total 20 horas de viagem por terra, numa combinação de trem mais ônibus (passagens em www.sj.se/en/home.html). Também é possível ir de avião a Kiruna e depois tomar um ônibus a Abisko.

Tomei o trem das 20h em Estocolmo. Vagão de segunda classe, de poltronas. Os vagões de primeira classe têm camas em forma de beliche retrátil. Desembarquei em Boden no dia seguinte (28/08) às 10h23 e tomei um trem bem menor até a cidade de Gällivare, onde peguei um ônibus para Abisko às 13h10. Todos esses trechos estavam incluídos numa única passagem, bastando mostrar o bilhete ao fiscal do trem ou motorista do ônibus. O ônibus fez uma parada na cidade de Kiruna e às 16h25 desembarquei em Abisko Turiststation, num ponto na beira da estrada E10. A cidade propriamente dita havia ficado 2,4km para trás, mas me interessava mesmo descer junto ao Refúgio Abisko Turiststation, onde inicia a Kungsleden.

Conheci o centro de visitantes do Parque Nacional Abisko, lanchei nas mesinhas em frente ao refúgio e voltei à margem da estrada, ao portal novo da Kungsleden. Às 17h06 dei início à longa travessia de 182,4km entrando num corredor de madeira com plaquinhas dando as distâncias até cada um dos refúgios da travessia toda. São 443km dali até Hemavan, o último deles (413,9km segundo o guia Trekking the Kungsleden, de Mike Laing). Altitude de 383m ali.

Cerca de 160m depois há um museu (Museu de Defesa da Fronteira) e uma tenda cônica típica do povo dessa região, meu primeiro contato com a cultura sami (ou lapões, como costumamos chamar). Uns 50m depois, numa bifurcação, desviei alguns metros à direita para ver o cânion formado pelo Rio Abiskojokk. A placa informa que são 14km dali ao Refúgio Abiskojaure (jaure = lago, em idioma sami). Seguindo à esquerda na bifurcação passei pelo túnel embaixo da rodovia, em seguida sob dois viadutos, já tomando o rumo sul. Fui à direita numa bifurcação com placa que aponta "Viste/Sami Camp 500m" à esquerda. Passo a seguir o Rio Abiskojokk (ou Abiskojåkka) pela margem direita verdadeira e logo aparecem as famosas passarelas de madeira que serão constantes ao longo de toda essa travessia. Elas servem mais ao propósito de preservação do solo e seu ecossistema do que propriamente ao conforto dos trilheiros... mas não deixa de ser um grande conforto!

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Casa tradicional do povo sami

Às 17h28 cheguei a uma trilha mais larga e com mais sinalização, mostrando que é o caminho principal. Como comecei a trilha no corredor com as plaquinhas não passei pelo portal mais conhecido da Kungsleden. Se você quiser tirar a clássica foto iniciando a Kungsleden no portal mais antigo, em lugar de entrar no corredor com as plaquinhas cruze a rodovia, passe pelo túnel sob a linha férrea, vire à direita e depois à esquerda, onde fica o portal. 

Tomei a trilha principal para a direita. A sinalização são pinturas vermelhas nas pedras e árvores (para o verão) e postes com um grande X vermelho no alto (para o inverno, quando a neve cobre tudo). Nesse trecho inicial, a trilha, bem larga, cruza uma mata de bétulas já amarelando com o final do verão. Às 17h55 cheguei ao primeiro Meditationsplats, que costumam ser lugares com uma vista privilegiada para contemplação. Têm sempre uma grande pedra arredondada com frases gravadas em sueco e num idioma sami (há mais de dez idiomas sami). As frases são do escritor sueco Dag Hammarskjöld.

Esse Meditationsplats está numa bifurcação em que fui em frente (direita), descendo. Cruzei o primeiro riacho da caminhada com bonita vista para as montanhas à esquerda (leste) e fui à esquerda na bifurcação. Logo apareceu uma clareira de acampamento mas ainda era muito cedo para parar. Fui à direita nas duas bifurcações sinalizadas e cruzei a primeira ponte suspensa da travessia às 18h32. Em 2 minutos cheguei ao acampamento Nissonjokk, com banheiros (até com papel). Um painel avisa que por ser área do Parque Nacional Abisko só é permitido acampar ali ou no Refúgio Abiskojaure. Continuando, às 19h03 atravessei outra ponte suspensa. Ao final dela uma bifurcação sem placa - fui à direita seguindo as passarelas de madeira. Entroncou uma trilha larga vindo da esquerda e em seguida fui à direita na bifurcação.

Às 19h49 passei por um banheiro isolado à esquerda da trilha. Fico admirado com esses recursos e essa preocupação ambiental, os suecos conseguem superar até os noruegueses nisso. Às 20h04 a trilha dá uma quebrada para a esquerda. Dois minutos depois avistei algumas casas fechadas à direita já às margens do Lago Abiskojaure, ao lado do qual passo a caminhar. Resolvi parar para acampar por ali pois o Refúgio Abiskojaure ainda estava 4km distante e o sol já havia se posto, porém estava ventando muito e eu tinha pouca água. Caminhei até o próximo riacho e voltei até as casas fechadas para acampar num lugar abrigado do vento forte. O sol se põe por volta de 19h30 nessa época, mas a noite cai lentamente.

Fiquei das 23h à meia-noite do lado de fora da barraca para tentar ver algum sinal da aurora boreal, mas nada! O céu estava um pouco claro. Parece que a melhor época é do final de setembro até março, mas algumas pessoas ao longo da travessia disseram ter visto.

Altitude de 498m.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 8,9ºC

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Lago Alesjaure

2º DIA - 29/08/19 - do Lago Abiskojaure a Alesjaure

Distância: 24,5km
Maior altitude: 827m
Menor altitude: 491m no Refúgio Abiskojaure
Resumo: nesse dia saí do vale do Rio Abiskojokk (e do Parque Nacional Abisko) e subi a um grande platô com diversos lagos. Desnível de 317m nessa subida. Caminhei até a extremidade sul desse conjunto de lagos, onde está o Refúgio Alesjaure.

Comecei a caminhar às 9h13 e percorri toda a margem sudeste do Lago Abiskojaure até avistar o Refúgio Abiskojaure do outro lado. Ele está cerca de 300m fora da trilha principal mas fui conhecê-lo mesmo assim. Ao final do lago tomei a direita na bifurcação, cruzei a ponte suspensa e cheguei ao refúgio às 10h32. Altitude de 491m. Conversei um pouco com o anfitrião, que me disse que havia ali sauna e mercadinho, mas que o estoque de comida estava baixo. O uso do banheiro é gratuito, como em todos os refúgios, e tinha papel. 

Saí de lá às 11h e retornei à trilha principal cruzando de volta a ponte suspensa. Depois dela o caminho gera um pouco de dúvida. Há um caminho largo em forma de passarela de madeira para a direita (oeste) mas não é por aí. Deve-se tomar uma trilha mais estreita em frente (sul) para retomar a principal. São 20km até Alesjaure, segundo a placa. A trilha sobe suavemente e às 11h44 alcancei uma placa de "bem-vindo ao Parque Nacional Abisko" virada para o outro lado, sinalizando que eu estava saindo dos limites do parque. Dali em diante o acampamento é permitido em qualquer lugar. Subi mais um pouco e cruzei às 11h57 uma ponte suspensa sobre o Rio Siellajohka (alguns metros antes há um outro banheiro isolado e uma área de acampamento). Subirei agora pelo vale desse rio.

O dia estava cinzento, com céu encoberto, e logo após essa ponte começou a chover. Tive de parar para vestir a roupa impermeável e pôr capa na mochila, mas em seguida começou uma longa subida que me fez sentir calor com aquela roupa. A chuva passou logo. Foi só o trabalho de vestir a roupa para em seguida tirar de novo. E isso se repetiu durante os onze dias de caminhada: chuvisco, veste a roupa de chuva, para de chover, esquenta, tira a roupa de chuva.

A subida foi mesmo bem longa. O largo vale do Rio Kamajokk (ou Kamajåkka), com árvores, fica para trás e subo pelo vale do Rio Siellajohka agora. Quando a subida pareceu ter fim passei por outro Meditationsplats, parecido com o anterior, com a pedra arredondada com as inscrições. Mas ainda havia muito para subir, agora pela encosta da margem esquerda (verdadeira) de um outro rio, afluente do Siellajohka. As últimas árvores ficam para trás. A subida só teve fim às 13h46, num grande platô com um lago à esquerda e montanhas ao fundo (808m). À direita avisto a distância um acampamento sami, mas não parecia haver ninguém. Cruzo uma cerca por uma escada de madeira às 14h30 e 190m à frente passo por um ponto de água. Depois disso tive sorte: o tempo começou a melhorar e surgiu um bonito céu azul que os enormes lagos à minha esquerda refletiam. A paisagem mais bonita da travessia até aquele momento.  

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Refúgio Alesjaure

Às 16h55 alcancei a margem do Lago Alesjaure e ali há uma cabana e um pequeno píer onde para um barco que leva até o Refúgio Alesjaure em quatro horários por dia no verão por SEK 350 (US$ 37,40) por pessoa. O refúgio fica na outra extremidade do lago. É possível chamar o barco para uma viagem extra usando o walkie talkie disponível dentro de uma caixa (sim, ninguém rouba o aparelho). Mas não há necessidade nenhuma de tomar esse barco pois a trilha é tranquila até lá.

O caminho continua pela margem oeste do Lago Alesjaure e às 17h54 avisto na margem oposta um povoado sami. O refúgio já está próximo. Às 18h08 cruzo um rio mais largo pelas pedras e 12 minutos depois avisto o refúgio no final do lago. Já começam a aparecer as barracas montadas ao longo da trilha e eu procuro um lugar plano e abrigado do vento forte para armar a minha, sempre numa distância tal que não precise pagar a taxa de acampamento. Encontrei um bom lugar 350m antes do refúgio e tratei logo de me instalar ali antes que outro o fizesse, às 18h41. Havia um riacho bem perto. Depois fui conhecer o refúgio, que tem sauna, mercadinho e três casas para hospedagem, cada uma com sua cozinha e refeitório. Não há luz e água encanada. À noite acendem velas. A água para cozinhar e lavar a louça normalmente deve ser coletada com baldes no rio, mas como esse refúgio fica num lugar alto, longe das fontes de água, há contêineres de água disponíveis.

O anfitrião me disse que eu deveria ficar a pelo menos 300m do refúgio para não pagar a taxa de acampamento. A taxa para acampar ao lado dos refúgios é muito cara, SEK 300 (US$ 32), e o único recurso do refúgio que eu fazia questão de usar era o banheiro para não contaminar o ambiente. Os outros recursos como cozinha, refeitório e sala de estar para mim eram completamente dispensáveis. A disponibilidade de comida nos mercadinhos dos refúgios também foi fundamental para a realização dessa travessia.

Altitude de 807m no Refúgio Alesjaure.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 4,3ºC

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Delta formado pelo Rio Alesätno (ou Aliseatnu)

3º DIA - 01/09/19 - de Alesjaure ao Passo Tjäktja

Distância: 16,5km
Maior altitude: 1140m no Passo Tjäktja
Menor altitude: 779m na ponte suspensa sobre o Rio Alesätno
Resumo: esse dia foi uma subida quase constante e sem dificuldade do Refúgio Alesjaure ao Passo Tjäktja, num desnível positivo de 361m

Os dias 30 e 31/08 foram de muita chuva. Esperei o tempo melhorar para dar continuidade à travessia. Na noite do dia 31 coloquei a cabeça para fora da barraca às 2h e vi fachos de luz branca no céu que apareciam e sumiam lentamente, mas durou pouco tempo. Isso foi o máximo que vi da aurora boreal, que quando fica mais intensa adquire várias cores.

O dia 01/09 amanheceu bonito. Ainda bem, pois não dava mais para ficar parado ali. Porém à tarde a coisa ia mudar radicalmente... Como fiquei dois dias além do previsto meu estoque de comida baixou. Não tinha certeza quanto ao abastecimento dos mercadinhos à frente então tratei de fazer uma comprinha no refúgio antes de voltar à trilha. Experimentei o queijo com carne de rena (em bisnaga) e gostei.

Deixei o acampamento às 10h52. Do refúgio se tem uma visão privilegiada para o Lago Alesjaure ao norte (de onde vim) e para o delta formado pelo Rio Alesätno (ou Aliseatnu) ao sul (para onde vou). Desci do refúgio no rumo sul, cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Alesätno e o segui pela margem direita verdadeira. Grande parte do trajeto é sobre passarelas de madeira e o vento lateral era tão forte que queria me derrubar delas. Às 12h08 cruzei um riacho mais largo pelas pedras e 13 minutos depois cheguei a outro Meditationsplats. Um simpático casal sueco já bem idoso ao me ver fotografando a pedra arredondada com as inscrições fez questão de traduzir para mim o que estava escrito. A frase era realmente para parar e meditar: "mas do além, algo preenche meu ser com a possibilidade de sua origem".

Em seguida cruzei uma ponte suspensa e a água do rio era cinza turva de degelo dos nevados ao sul. Às 14h10, para cruzar um outro rio largo, tive de desviar vários metros para a esquerda. Subi mais e avistei o Refúgio Tjäktja (se pronuncia chékcha) à direita, após um rio. Seu acesso principal é por uma ponte suspensa mais à frente mas eu tomei um atalho na sua direção, tendo de cruzar o rio pelas pedras. Cheguei a ele às 15h05. Esse é um refúgio bem menor que os anteriores e com isso a recepção do anfitrião foi mais hospitaleira. Pudemos conversar um pouco e me abriguei do vento forte e gelado atrás da casa para tomar um lanche. Numa mesa entre as casas do refúgio havia uma jarra grande com suco de lingonberry para dar as boas-vindas. Gostei do sistema de lavagem das mãos com economia de água: você despeja um pouco da água do balde num copo fixo com um furo no fundo e lava as mãos no jato que sai. 

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Meditationsplats e a pedra redonda com as inscrições

O vento estava bem forte mas algumas pessoas estavam conseguindo montar suas barracas, que tinham que ser bastante resistentes e bem ancoradas. Ainda faltavam 12km para o Refúgio Sälka (se pronuncia sélka) e eu continuei às 16h08, saindo pelo acesso principal, pela ponte suspensa. Encontrei o casal idoso do Meditationsplats e eles me alertaram para a chuva que viria à noite. Iam pernoitar naquele refúgio.

Retomei a trilha principal para a direita e fui em direção ao Passo Tjäktja, a 3,4km dali. Porém a chuva da noite chegou bem antes do previsto. Era chuva com vento forte bem na minha cara. E o terreno foi se tornando cada vez mais pedregoso e ruim de andar, mas com passarela de madeira nos trechos piores. A subida final ao passo é uma ladeirinha simples. Resolvi parar no abrigo de emergência que há ali às 17h17 para esperar a ventania passar ou ao menos ficar mais fraca. E a pequena casinha estava lotada de gente esperando pelo mesmo. Ali do alto a visão para o sul não era nada animadora, tudo cinzento e escuro. A chuva às vezes dava uma trégua mas o vento não. Seria muito difícil montar uma barraca sozinho naquelas condições. E fomos ficando todos ali. A temperatura caiu bastante mas o aquecedor parecia estar com a saída entupida e toda a fumaça voltava para dentro do abrigo. Teve que ser apagado. Por fim resolvemos passar a noite no abrigo, eu, uma alemã caminhando sozinha e quatro belgas. Jantamos e nos ajeitamos como pudemos, alguns nos bancos, outros no chão. O banheiro ao lado foi o mais sujo (talvez o único realmente sujo) que encontrei nessa caminhada. Banheiros de abrigo de emergência são os únicos que não têm papel disponível, todos os outros costumam ter.

Esse abrigo de emergência se chama Tjäktjapasset e no livro de registro vi a assinatura recente de dois brasileiros: um mineiro de BH e uma baiana de Salvador.

Assim como essa alemã, vi muitas outras mulheres fazendo a Kungsleden sozinhas, algo raro mesmo para a Escandinávia.

Altitude de 1140m.

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Refúgio Sälka e vale do Rio Tjäktjajåkka

4º DIA - 02/09/19 - do Passo Tjäktja a Singi

Distância: 20,6km
Maior altitude: 1140m no Passo Tjäktja
Menor altitude: 710m no Refúgio Singi
Resumo: esse dia foi uma descida constante do Passo Tjäktja ao Refúgio Singi acompanhando o Rio Tjäktjajåkka, num desnível de 430m

Fui o último a sair do abrigo de emergência, às 8h35, e nem sinal da ventania da tarde anterior. Nesse dia a trilha toma o rumo sul quase sem variações. A descida do passo para o sul é mais empinada do que foi a subida pelo lado norte. Logo avisto o largo vale por onde caminharia todo o dia, com o Rio Tjäktjajåkka serpenteando e a trilha bem marcada em sua margem esquerda (na verdade vou acompanhar esse rio até ele desaguar no Lago Padje Kaitumjaure no dia seguinte). No meio da descida um Meditationsplats, mas parar ali para contemplar ou meditar seria pedir para virar picolé pois o frio estava pegando. Às 9h20 cruzei pelas pedras o primeiro riacho do dia.

Cheguei ao Refúgio Sälka às 11h31 e só o avistei quando estava bem próximo pois fica escondido pelos morrotes. Parei para comer mas o vento frio estava incomodando. O refúgio tem mercadinho e sauna. O mercadinho tinha mais variedade de comida do que o de Alesjaure e até itens de higiene pessoal. Comprei mais pão sueco por precaução (esse é o único tipo de pão vendido nos refúgios). O abastecimento durante a temporada de verão é feito por helicóptero... só em país rico mesmo! Mas o abastecimento mais completo é feito no inverno com snowmobiles.

Perguntei sobre acampamento ao anfitrião e ele disse que se pode acampar de graça depois da ponte seguinte (que fica a mais de 200m de distância). Dei continuidade à caminhada às 12h50 e tinha 12km até o Refúgio Singi, segundo a placa. Cruzei a ponte. Saí com blusa e corta-vento por causa do vento frio mas logo saiu o sol e tive de tirar o corta-vento. É assim, um tira-e-põe de roupa o tempo todo. Continuo para o sul pela margem esquerda do Rio Tjäktjajåkka e surgem bonitos lagos em ambos os lados da trilha. Às 13h28 avisto à direita o Pico Sälka e sua geleira. 

Às 13h49 cruzei uma ponte suspensa e 4 minutos depois atravessei outra, essa uma das mais longas. Cruzei um portão numa cerca (!?) e 200m depois passei por um Meditationsplats. Às 14h12 placas apontam para a direita os refúgios Hukejaurestugan (17km) e Gautelishytta (31km, já na Noruega) - esse é o ponto onde a trilha Nordkalottleden se separa da Kungsleden. Nordkalottleden é um trekking de 800km entre Noruega, Suécia e Finlândia. De Abisko a Sälka os dois trekkings compartilham o mesmo caminho.

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Vale do Rio Tjäktjajåkka

Mais à frente, avistei finalmente as primeiras renas dessa caminhada. Eram duas e cruzaram a trilha subindo a colina. Elas são muito ariscas e quando se sentem ameaçadas fogem para as partes mais altas. Às 14h46 pude ver à esquerda algumas montanhas com neve. As nuvens não deixavam visualizar seus topos, mas uma delas era o cume norte do Kebnekaise, montanha mais alta da Suécia (a segunda mais alta é o cume sul).

Às 15h06 cruzei outra ponte suspensa e 10 minutos depois parei para lanchar no abrigo de emergência Kuoperjåkka (Kebnekåtan), igual ao abrigo em que passei a noite, com banheiro ao lado. Às 16h35 uma bifurcação importante: à esquerda se vai ao Kebnekaise Fjällstation, refúgio que é base para a subida do Kebnekaise. Como essa subida não estava nos meus planos para essa travessia, segui para a direita. Às 16h58 avistei do alto um vilarejo sami (sem ninguém) e logo depois as casas do Refúgio Singi mais à esquerda, aonde cheguei às 17h36.

Ali tive a recepção mais calorosa de toda a caminhada. Os anfitrões eram um sueco muito simpático e atencioso, Jörgen, e sua esposa chilena, Sybil, extremamente simpática também. Fui recebido com o tradicional suco de lingonberry e depois me deram um pedaço de pão amassado (típico chileno) que estava saindo do forno. Esse refúgio não tem mercadinho nem sauna. Tem duas casas com quartos, cozinha e refeitório em cada uma. A água é coletada no riozinho que passa no meio delas. Tive de novo de procurar um lugar abrigado do vento para a barraca e a montei atrás de uma pedra grande. A temperatura medida pelo meu termômetro no final da tarde estava 8ºC mas o vento fazia a sensação térmica ser muito abaixo disso. Aproveitei para saborear o pão quentinho que ganhei de presente. Nesse dia também havia muitas pedras na trilha mas com passarela de madeira onde era só campo de pedras.

Em Singi o Caminho Peregrino Dag Hammarskjöld se separa da Kungsleden, tomando o rumo leste. Esse caminho tem 105km e vai de Abisko a Nikkaluokta. De Abisko a Singi as duas trilhas coincidem. 

Altitude de 717m no Refúgio Singi.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 0ºC

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Mata de bétulas amarelando às margens do Rio Tjäktjajåkka

5º DIA - 03/09/19 - de Singi a Teusajaure

Distância: 22km
Maior altitude: 788m no platô entre os refúgios Kaitumjaure e Teusajaure
Menor altitude: 499m no Refúgio Teusajaure
Resumo: nesse dia desci do Refúgio Singi ao Refúgio Kaitumjaure num desnível de 105m acompanhando o Rio Tjäktjajåkka. Em seguida atravessei um platô numa subida de 203m e descida de 289m ao Refúgio Teusajaure.

Logo cedo lebres corriam entre as casas do refúgio. Felizmente o vento gelado da tarde anterior cessou e o sol da manhã espantou o friozão. Conversei mais um pouco com os simpáticos anfitriões e deixei o local às 11h03. Seriam 13km diretamente para o sul até Kaitumjaure e depois, numa guinada para sudoeste, mais 9km até Teusajaure. Continuo acompanhando o Rio Tjäktjajåkka. No caminho uma garota solitária colhia berries e me mostrou algumas que eu não conhecia, dando o nome de cada uma. Foi aí que eu descobri qual era a lingonberry dos sucos dos refúgios. Às 13h05, após passar entre duas belas montanhas rochosas, o vale se abre e a trilha desce às margens do rio, que também se alarga. Mais abaixo ressurgem as árvores, que eu não via desde o segundo dia de caminhada.

Às 13h52 cruzei por uma ponte suspensa o Rio Tjäktjajåkka e a paisagem mudou bastante. Às margens do rio aparece uma linda mata de bétulas com as folhas amareladas pelo final do verão. Descendo avisto à esquerda (sudeste) o grande e verdíssimo Lago Padje Kaitumjaure e me despeço do Rio Tjäktjajåkka, que vinha acompanhando desde o Passo Tjäktja no dia anterior, pois ele deságua nesse lago. Alcanço o Refúgio Kaitumjaure às 14h54 e sou efusivamente recebido pela comunicativa Mônica, que me ofereceu suco (de lingonberry, claro), me explicou todo o meu futuro trajeto no mapa e me informou a respeito dos barcos que eu teria de tomar a partir de Teusajaure. Seriam quatro barcos até meu destino final, Kvikkjokk, num total de SEK 900 (US$ 96). A travessia estava começando a pesar no bolso... 

Altitude de 612m nesse refúgio, que tem sauna e mercadinho, mas não tinha pão sueco nesse dia. Comprei uma lata de almôndegas que comi com pão sueco (que tinha na mochila) ali mesmo nas mesinhas de piquenique. Não era boa a almôndega mas a fome é o melhor tempero. A garota das berries fez seu lanche ali também. Ela era americana. Deixei o refúgio às 16h26 para mais 9km até Teusajaure, de agora em diante para sudoeste, me afastando do bonito lago. 

Desci até o Rio Kaitumjåkka e o atravessei por uma ponte suspensa às 16h52. Segui-o por sua margem direita verdadeira por cerca de 900m e no caminho cruzei uma inusitada porteira de varas. A trilha se afasta do rio e começo a subir a encosta, o que me levou a um extenso platô que atravessei ainda na direção sudoeste. A chuva me pegou nesse platô e tive de vestir toda a roupa impermeável. Muita pedra nesse trecho. Alcancei o topo do platô (788m) às 18h14 e em menos de 10 minutos iniciei a descida. Às 18h55 cruzo um rio e passo a acompanhá-lo. Quando a descida para Teusajaure se torna bastante inclinada esse rio forma bonitas cachoeiras. Ignorei o aviso de "Último ponto de acampamento gratuito. Taxa de acampamento a partir daqui" que vi na descida e cheguei ao Refúgio Teusajaure às 19h19. A chuva havia parado.

Esse refúgio fica às margens do Lago Teusajaure e tem sauna e mercadinho. Fui muito bem recebido novamente pelo anfitrião Roland mas tive de me afastar do refúgio para acampar sem pagar a taxa de SEK 250 (US$ 26,71) (ao sul de Singi vale uma outra tabela de preços, um pouco mais barata). As últimas cachoeiras da descida do platô são visíveis do refúgio e a água que bebemos vem delas, coletada atrás das casas. Reencontrei a Lílian, a americana das berries, e acampamos perto um do outro.

Altitude de 499m no Refúgio Teusajaure.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 6,6ºC

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Barco para cruzar o Lago Teusajaure

6º DIA - 04/09/19 - de Teusajaure a Vakkotavare

Distância: 13km
Maior altitude: 938m no platô entre os refúgios Teusajaure e Vakkotavare
Menor altitude: 451m no Lago Akkajaure
Resumo: nesse dia cruzei um extenso platô num desnível positivo de 439m e negativo de 487m. Caminhei dentro da área do Parque Nacional Stora Sjöfallet.

Desmontei a barraca logo cedo, antes até de tomar o café, pois ameaçava chover de novo. Comprei mais pão sueco no mercadinho e às 9h estava no píer para tomar o barco para a outra margem do Lago Teusajaure. Além dos trilheiros que estavam no refúgio apareceu um grupo de 17 outros que acamparam lá no alto, antes da descida do platô. O barco comporta só 4 pessoas por vez e é conduzido pelo anfitrião do refúgio, o Roland, que teve de fazer várias viagens. Esse grupo de 17 pessoas era de Malta! A travessia dura apenas 2 minutos no barco a motor. Ela pode ser feita com barco a remo também, o próprio trilheiro remando, mas nesse caso pelo menos um barco precisa ficar ancorado em cada lado do lago. Isso significa que se você tiver o azar de encontrar apenas um barco a remo ancorado, terá de cruzar o lago três vezes para rebocar outro barco para o lado onde iniciou a travessia.

Ao cruzar o lago estava entrando na área do Parque Nacional Stora Sjöfallet, criado em 1909, um dos primeiros parques nacionais da Europa. 

Do outro lado tomei o café da manhã e pus o pé na trilha às 9h41. O caminho começa no rumo oeste mas logo dá uma guinada para o sul e se mantém assim até Vakkotavare, distante 13km. Já inicia com uma subida pela mata. Em apenas 100m há uma trilha saindo para a esquerda com a placa "Raststuga 75m" (algo como abrigo de descanso). Fui xeretar e encontrei um abrigo de emergência de nome Dievssajávri. Estava menos limpo que os anteriores mas daria para passar a noite. Voltei à trilha principal e a retomei para a esquerda, subindo ainda. Essa subida foi suave mas constante até o topo de um extenso platô, a 5,4km dali. Logo no início, ao sair da floresta de bétulas avisto o Lago Teusajaure ficando para trás e a chuva chegando. Parei para vestir a capa de chuva, mas felizmente o vento levou a chuva pela extensão do lago, de oeste para leste, e eu estava me afastando para o sul. Parei para guardar a capa de chuva... de novo.

Às 11h alcancei uma bifurcação com uma lacônica placa "Bro" (= ponte, mas eu não sabia) apontando para a direita. O gps dava os dois caminhos como possíveis sendo o da esquerda mais curto - continuei subindo por esse lado. Logo a trilha desceu para cruzar um rio. O desvio à direita, por ter uma ponte, certamente era mais fácil, mas por ali também não foi complicado, bastando procurar o local com mais pedras para não ter de tirar as botas. Com esse atalho, passei quase todos os que estavam à minha frente. Subi até o ponto mais alto do grande platô (938m) e já iniciei a suave descida às 11h31. Cruzo um riacho. O caminho é bastante pedregoso também. A sudoeste avisto uma bela cadeia de montanhas nevadas com os cumes encobertos por nuvens. Uma delas é o Pico Sarektjåkkå, terceiro mais alto da Suécia depois dos cumes norte e sul do Kebnekaise. 

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Cachoeira na chegada a Vakkotavare

Nesse trecho de descida a Vakkotavare pelo platô foi onde vi o maior número de renas. Eram muitas, muitos grupos espalhados pelo extenso campo verdejante. Como eu tinha passado todos os outros e estava na dianteira, tive a oportunidade de vê-las mais de perto, ainda não assustadas com a presença de gente. Às 13h14 a paisagem muda. Visualizo o grande Lago Akkajaure à minha frente e até ele uma longa descida forrada por uma floresta de bétulas. Na descida cada vez mais íngreme me aproximo de um rio, que despenca em lindas cachoeiras à esquerda da trilha. Já dentro da mata cruzo o rio e sou o primeiro a chegar a Vakkotavare, às 13h49.

A primeira impressão não foi tão boa porque o refúgio fica na beira de uma rodovia... voltar à civilização depois de oito dias na montanha é sempre um choque, mas fui muito bem recebido pela simpática e sorridente Birgitta e seu marido Anders, porém sem suco dessa vez. O refúgio tem mercadinho mas não tem sauna e é o primeiro com essa configuração (todos os outros tinham sauna e mercadinho, ou nenhum dos dois). O rio das cachoeiras passa bem ao lado e é a principal fonte de água. A Lílian foi a segunda a chegar e se decepcionou ao saber que não havia ônibus à tarde para Kebnats, para a continuidade da travessia. A partir de 02/09 só circula o ônibus das 9h50 (não mais o das 14h35). Ela andou rápido à toa e agora teria que aguardar o ônibus do dia seguinte. Eu já tinha essa informação desde o Refúgio Kaitumjaure, dada pela Mônica. Esse ônibus vai de Ritsem a Gällivare e pode ser uma rota de fuga da Kungsleden, se necessário, pois em Gällivare há trem para Estocolmo.

Como sempre, acampar ao lado do refúgio implicava pagar uma taxa (SEK 250 = US$ 26,71), então o Anders nos indicou bons lugares para acampar de graça às margens do Lago Akkajaure, do outro lado da rodovia, protegidos do vento pela mata. Não tinha pão sueco no mercadinho, comprei feijão em caixinha.

Altitude de 459m no Refúgio Vakkotavare.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 3,7ºC

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O Refúgio Saltoluokta tem os banheiros mais criativos

05/09/19 - de Vakkotavare a Saltoluokta

Esse foi um dia de deslocamento em ônibus e barco até o Refúgio Saltoluokta. Lá não dei continuidade à caminhada por causa da chuva incessante. Aliás ninguém continuou a caminhada por esse motivo.

Em Vakkotavare tive de novo de desmontar a barraca às pressas pois a chuva estava chegando. Corri para o refúgio com a barraca na mão e organizei a mochila na oficina do Anders pois não poderia entrar no refúgio sem pagar o day visit. Às 9h50 eu, a Lílian, o grupo de 17 pessoas de Malta e várias outros trilheiros pegamos o ônibus para Kebnats sob chuva fraca. Custo da passagem: SEK 95 (US$ 10,15). O ônibus tinha tomadas para recarregar o celular, mas não tinha wifi. O motorista fez uma parada no Hotel Stora Sjöfallet e pude usar o wifi aberto para dar notícias de que estava vivo. No mercadinho comprei pão sueco e queijo com camarão em bisnaga.

Descemos na beira da estrada ainda sob chuva em Kebnats às 11h15 e caminhamos 400m até o píer para pegar o barco das 11h20 para cruzar o Lago Langas. Como lotou foi preciso fazer uma segunda viagem, na qual fomos eu, a Lílian e 3 pessoas que ficaram do grupo de 17 de Malta. Custo do barco: SEK 200 (US$ 21,37), podendo pagar com cartão de crédito. Travessia de 11 minutos. 

O Refúgio Saltoluokta é uma estação de montanha da STF. Ali você encontra um público totalmente diferente dos outros refúgios. A grande maioria vai para descansar no fim de semana ou participar de eventos ou simplesmente saborear a comida especial preparada pelos ótimos cozinheiros (o jantar é bem caro). Nesse dia estava acontecendo um grande evento e o refúgio estava lotado. Eu já estava desacostumado de tanta movimentação, mesmo assim fiz questão de almoçar pois já estava cansado de pão sueco e comida industrializada. Mas antes fui procurar um lugar distante do refúgio o suficiente para não pagar a taxa de acampamento de SEK 250 (US$ 26,71) e montei a barraca numa curta trégua que a chuva deu. O almoço era um buffet à vontade por um preço bem camarada, SEK 120 (US$ 12,82). Choveu o resto do dia.

Esse refúgio é muito antigo. O primeiro refúgio em Saltoluokta foi contruído em 1912! Atualmente tem sauna, mercadinho, loja de roupas e souvenirs. Mas por conta desse excesso de gente o atendimento é muito ruim, as garotas são estressadas e atendem com má vontade. Os banheiros (gratuitos mesmo em estação de montanha) são os mais criativos da Kungsleden, cada cabine decorada com um tema diferente.

Na travessia de barco de Kebnats a Saltoluokta eu saí dos limites do Parque Nacional Stora Sjöfallet, no qual havia entrado na travessia de barco em Teusajaure no dia anterior.

Altitude de 400m no Refúgio Saltoluokta.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 4,3ºC

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Igreja sami em Saltoluokta

06/09/19 - Saltoluokta

Permaneci acampado em Saltoluokta porque o tempo ainda não estava bom, céu carregado, podia voltar a chover a qualquer momento. Confesso que pensei em parar a travessia nesse dia e ir embora. A combinação de dias cinzentos, chuvas repentinas e frequentes, paisagem sem nada de espetacular e bastante frio estava me tirando o ânimo de continuar. O gasto de SEK 600 (US$ 64) nos dois barcos seguintes também estava pesando contra. Conversei com outros trilheiros no refúgio sobre os planos de cada um, consultei o yr.no e resolvi continuar a travessia, mas só no dia seguinte. Isso porque a única razão de eu continuar era para subir a montanha Skierfe e eu queria estar lá com sol (ou pelo menos sem chuva). E o Yr previa tempo bom para daí a dois dias, justamente quando eu chegaria lá.

Almocei no refúgio e aproveitei o resto do dia para conhecer o vilarejo sami próximo dali, com sua singular igrejinha.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: -0,1ºC

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Renas

7º DIA - 07/09/19 - de Saltoluokta a Svine

Distância: 19km
Maior altitude: 780m
Menor altitude: 400m no Refúgio Saltoluokta
Resumo: nesse dia subi do Refúgio Saltoluokta a um extenso vale num desnível de 380m. Caminhei por esse vale e desci 148m até o Lago Kaskajaure.

Às 6h35 da manhã estava 0ºC.

Deixei o acampamento às 10h33 e retomei a travessia no rumo sul, o qual manteria quase sem variações durante o dia todo. De Saltoluokta a Sitojaure são 19km, segundo as placas.

A trilha sai do refúgio por uma mata de bétulas e pinheiros. Segui as placas nas bifurcações e as marcas vermelhas pintadas nas pedras e árvores e subi até sair da sombra das árvores, local que já é um bonito mirante para o Lago Langas. Às 10h55 segui à esquerda numa bifurcação com placa e continuei subindo. A paisagem se amplia e fica cada vez mais bonita (num dia de sol). Às 11h22 fui à esquerda em outra bifurcação sinalizada. As árvores vão ficando mais espaçadas até que no alto não há mais, apenas vegetação baixa. 

Avisto à direita montanhas nevadas distantes e, subindo mais um pouco, passo a caminhar por um largo vale. Altitude de 729m, desnível de 329m desde o refúgio. Cruzo alguns riachos e aparecem mais renas pastando. Às 13h29 chego a um abrigo de emergência chamado Autsutjvagge e um papel ali já dá o preço e os horários do barco de Sitojaure a Svine: 9h e 17h ao custo de SEK 400 (US$ 42,74). Esse barco é caro assim porque é particular, não é operado pela STF. Já havia caminhado 8km desde Saltoluokta e faltavam 11km para Sitojaure. Os banheiros ao lado estavam limpos. 

O tempo estava bom, até com um sol tímido, mas lembrei da previsão de chuva para essa noite e toda a manhã seguinte, então achei melhor pegar o barco da tarde em lugar do barco da manhã seguinte (com chuva). Mas para alcançar o barco precisei acelerar o passo. A caminhada por esse vale foi absolutamente monótona e sem graça. Às 15h33 apareceram algumas lagoas à esquerda mas a essa altura o dia já estava todo cinzento. Às 16h04 fui à esquerda numa bifurcação e em 10 minutos já avistava o Lago Kaskajaure após uma longa e suave descida. Mas olhando para a direita não gostei do panorama: nuvens escuras sobre as montanhas nevadas me deixavam em dúvida se estava chovendo ou nevando naquela direção.

Continuei meu passo rápido, reentrei na mata de bétulas e às 16h38 fui à direita numa bifurcação que apontava Aktse, barco e refúgio nessa direção. Se quisesse acampar desse lado do lago (como era meu plano inicial) esse seria o local limite para não pagar a taxa. Essa bifurcação para a direita me levou em 400m diretamente ao vilarejo sami, de onde sai o barco. Como cheguei às 16h44, faltando apenas 16 minutos para a saída, não tive tempo de conhecer o Refúgio Sitojaure, acessível a partir dali ou da esquerda na bifurcação anterior. Esperando também o barco estavam um casal de Luxemburgo com quem conversei em Saltoluokta e um húngaro que cumprimentei na trilha à tarde. Disseram que o refúgio não tem mercadinho nem sauna. E ali na vila sami também não havia comida para vender. O pagamento de SEK 400 (US$ 42,74) do barco é só em dinheiro. O homem que nos levou era da etnia sami, alto e forte, de pouca (ou nenhuma) conversa. 

Saímos no horário e em 14 minutos cruzamos o Lago Kaskajaure e o Lago Kåbtajaure (parece um lago só mas são dois ligados por uma parte mais estreita). Essa travessia é interessante porque o barco precisa seguir marcadores vermelhos fincados, navegando por um corredor cheio de curvas. O lago é raso e o barco pode encalhar se fizer um trajeto errado. Comporta 6 pessoas. O problema foi que eu não me precavi com corta-vento e tomei a ventania gelada toda no rosto e peito, o que me causou uma tosse que me acompanhou por mais de 40 dias. Durante a travessia sentimos pingos de chuva fraca e ao desembarcar em Svine resolvemos dormir no abrigo de emergência Svijnne. O húngaro quis montar sua barraca mas voltou correndo para o abrigo porque disse que viu/ouviu um animal rondando, talvez um alce. Depois vimos que era uma rena, mas ele dormiu no abrigo mesmo assim. Ao lado havia um banheiro só, mas por sorte estava limpo. A água para beber e cozinhar eles encontraram num riacho próximo pois não quisemos pegar a do lago.

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Vista da montanha Skierfe

8º DIA - 08/09/19 - de Svine a Skierfe

Distância: 13,6km
Maior altitude: 1184m no Skierfe
Menor altitude: 636m no abrigo de emergência Svijnne
Resumo: nesse dia saí do Lago Kåbtajaure e atravessei um platô num desnível positivo de 325m. Na descida tomei a trilha para a montanha Skierfe, subindo mais 416m até seu cume.

Comecei a caminhar às 9h33, bem depois dos meus companheiros de abrigo e também depois da chegada do barco de Sitojaure trazendo os trilheiros que dormiram no refúgio. A previsão do yr.no quase acertou, o dia estava encoberto e cinzento, mas sem garoa.

Continuando a caminhada na direção sudoeste, a matinha de bétulas termina e passo por um ponto de água corrente, a 1,1km do abrigo. Logo vem uma subida mais íngreme por uma encosta de pedras desmoronadas (scree), mas sem dificuldade. No alto às 10h50 passo a caminhar por um outro platô com montanhas nevadas à direita, bem distantes. Mais renas pastando. Atingi o topo do platô às 11h05 (961m) e iniciei a descida com vista para enormes lagos. Às 11h32 avisto a pontinha da montanha Skierfe à direita (oeste). Meu plano era acampar nela (no cume ou na base) para curtir o visual à tarde e de manhã já que deveria ser o grande momento desse trekking. Descendo, às 11h41 cheguei a uma placa quase completamente apagada apontando Skierfe para a direita, e é para lá que eu fui. Altitude de 768m.

Para minha sorte (e graças ao meu minucioso planejamento baseado no Yr) o tempo melhorou e o sol apareceu. Parei para um lanche com vista para o Lago Laitaure e para a ponta do Skierfe. A trilha atravessa um trecho de cerca de 150m de muita lama, continua percorrendo a encosta e sobe. No caminho muitas moitinhas de blueberry (mirtilo), com frutos, mas são bem pequenos e pouco doces. No meio do blueberry (preto) há pezinhos de lingonberry (vermelho) também. Na subida o terreno se torna mais pedregoso e quase sem vegetação. No alto avisto uma belíssima cordilheira nevada a oeste e a encosta do Skierfe à esquerda dela. Mas antes desci um pouco, cruzei um riacho às 13h58 (peguei água para a noite pois é a única fonte de água corrente) e na base do Skierfe cruzei com os meus parceiros do abrigo já descendo para dormir em Aktse. Disseram que não havia lugar plano e sem pedras para acampar mais para cima então escondi a mochila e subi o Skierfe só com mochila de ataque.

Cheguei ao topo às 14h50. Foram só 16 minutos de subida desde a base mas como queria ficar bastante tempo no cume tirando fotos e curtindo o visual levei lanche e água. E todos os agasalhos pois, apesar do sol, estava bastante frio. Sem dúvida esse lugar valeu pelos cinco dias de caminhada a mais (mesmo sob chuva, como aconteceria depois) e pelo gasto extra com os barcos. O mirante é simplesmente espetacular. É uma visão aérea do Rio Rapa desaguando no Lago Laitaure em forma de delta, com canais que formam ilhas pontilhadas de lagoas e são delimitados por matas ciliares, tudo verdejante. Esse delta é o maior da Suécia. A noroeste, direção oposta ao lago, se destaca no horizonte a bela cordilheira de cumes nevados onde nasce o Rio Rapa.

No cume, lugar plano e livre de pedras para acampar é quase impossível. Além disso, completamente exposto ao vento. Na subida havia um ou outro lugar que daria para colocar uma barraca bem pequena, mas com pedras ao redor. Melhor mesmo foi ficar na base, onde é possível encontrar alguns lugares planos e com menos pedras. 

O Skierfe se encontra na extremidade leste do Parque Nacional Sarek, mas não há nenhuma placa informando isso.

Altitude na base: 1051m
Altitude no cume: 1184m

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 2ºC

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Base da montanha Skierfe

9º DIA - 09/09/19 - de Skierfe a Aktse

Distância: 7,6km
Maior altitude: 1184m no Skierfe
Menor altitude: 519m onde acampei, abaixo do Refúgio Aktse
Resumo: nesse dia desci da montanha Skierfe para o Refúgio Aktse num desnível de 665m

Desmontei acampamento e escondi a mochila para subir novamente o Skierfe e ver tudo lá do alto com outra luz pela posição diferente do sol. Esse dia eu reservei para isso, para relaxar e curtir a paisagem desse lugar especial. Assim como na tarde anterior, fiquei surpreso nesse dia também pelo tempo perfeito, sem nenhum sinal de chuva em todo o horizonte. Coisa rara!

Às 15h deixei o cume, peguei a mochila na base e iniciei o retorno à trilha principal pelo mesmo caminho. Peguei mais água no riacho próximo à base. A volta foi um pouco demorada pois parei muitas vezes para comer blueberries ao lado da trilha. Atravessei o lamaçal e alcancei a trilha principal às 18h06, descendo à direita. Entrei na floresta de bétulas e pinheiros e o único lugar plano para a barraca já estava ocupado. Até que cheguei à famosa placa "além deste ponto você deverá pagar a taxa de acampamento", 100m antes do Refúgio Aktse. Como os lugares ali eram ruins (inclinados) fui até o refúgio. Cheguei às 18h32.

O anfitrião que me recebeu ganhou o troféu de mau humor e estupidez. Me disse para acampar de graça naquelas clareiras inclinadas ou abaixo do refúgio bem longe. O refúgio tem sauna e mercadinho - aproveitei para comprar grão-de-bico em caixinha e pão sueco. Fiz o que ele mandou e acampei no início da mata de bétulas a caminho do ancoradouro do barco. Quando voltei para pegar água na bica do refúgio, ele fez questão de vir me dizer que eu estava proibido de entrar em qualquer dependência do refúgio pois eu não estava pagando para isso. Que sujeito ridículo! Na Suécia as pessoas baseiam as relações na confiança mútua, esse sujeito destoa disso e acha que o visitante é um esperto que só quer se aproveitar. Voltei para a minha barraca pois deu para ver que ali eu não era bem-recebido, pelo menos por esse anfitrião que está na profissão errada. De boas-vindas ali só mesmo o suquinho de lingonberry.

Altitude de 552m no Refúgio Aktse. Do refúgio ao píer de onde sai o barco para Laitaure a distância é de 1,1km.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: -1,1ºC

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Lago Sjabatjakjaure, onde se encontra o Refúgio Pårte

10º DIA - 10/09/19 - de Aktse a Pårte

Distância: 20,4km
Maior altitude: 870m
Menor altitude: 493m perto do Refúgio Pårte
Resumo: nesse dia subi desde o Lago Laitaure um desnível de 368m, em seguida desci 373m até o Refúgio Pårte. Cruzei a extremidade sudeste do Parque Nacional Sarek, criado em 1910.

Acordei com chuva... e eu tinha de desmontar a barraca para pegar o barco das 9h para Laitaure, do outro lado do lago de mesmo nome. Às 8h30 estava 5ºC e chovia, que delícia... Arrumei a mochila dentro da barraca e já estava preparado para desmontá-la sob chuva quando por sorte ela deu uma trégua. Caminhei até o ancoradouro e era o mal-humorado quem ia pilotar o barco de 8 pessoas. Paguei na hora em dinheiro os SEK 200 (US$ 21,37). A travessia durou 9 minutos e não era possível ver o Skierfe, ocultado por densas e baixas nuvens. Esse dia todo foi cinzento e de nuvens carregadas, parecia que ia voltar a chover a qualquer momento. 

Laitaure fica na margem sul do lago. Não é um vilarejo, mas tem um abrigo de emergência com banheiro próximo, depois de um portão de ferro. A trilha inicia após esse portão e corre através da floresta de bétulas e pinheiros que não permite visão da paisagem ao redor. Comecei a caminhar às 9h41. Altitude de 502m.

Em algum lugar por volta de 10h10 (a cerca de 2km do abrigo de emergência e do lago) eu entrei na área do Parque Nacional Sarek, mas não há nenhuma placa dando essa informação no local. Esse parque foi criado em 1910 e é um dos mais antigos da Europa. Porém cruzei apenas a extremidade sudeste dele e à tarde já sairia dos seus limites. Às 10h50 atravessei por uma ponte metálica o primeiro riacho do dia, com uma clareira de acampamento logo a seguir.

Subi bastante e ao sair do limite das árvores às 11h29 continuei sem visão por causa da neblina. Caminhei por uma encosta e cruzei com bastante gente fazendo no sentido contrário. Esse pessoal deve caminhar só dois dias até o Skierfe e voltar. Ao reentrar na mata passei por clareiras de acampamento e um abrigo de emergência (com banheiros) de nome Jågge às 12h14. Ao sair das árvores caminhei muito sem ter idéia de como é a paisagem por causa da neblina. Cruzei uma ponte suspensa bem grande e alta às 12h46 e atingi a maior altitude do dia às 13h13 (870m).

Reentrei definitivamente na mata de bétulas às 13h28 e na descida com muitas pedras molhadas (pela garoa) escorreguei e caí, mas nada sério. Apenas deu pra ver que o solado Contagrip da Salomon não é confiável para pedras molhadas. Depois de descer bastante as pedras foram diminuindo e pude andar mais rápido. Às 14h11 cruzei um rio por uma ponte suspensa de nome Gállakjåhkå. Tive de vestir a capa porque a chuva voltou.

Às 14h51 encontrei um painel de informação sobre o Parque Nacional Sarek ao lado de um rio. Eu já estava saindo da área do parque. Cruzei um último riacho e cheguei a Pårte (se pronuncia pôrte) às 15h15, sendo bem recebido pela idosa anfitriã.

Pårte não tem sauna nem mercadinho. Fica numa península do bonito Lago Sjabatjakjaure, ligeiramente fora da trilha. Para não pagar é preciso acampar fora da península, ao longo da trilha, e há várias clareiras já abertas, porém algumas inclinadas. Tratei de montar a barraca antes que a chuva chegasse, aproveitando um local plano e espaçoso que encontrei. Peguei água corrente no último riacho que havia cruzado (a 500m do refúgio e 180m de onde acampei) e logo começou a chover.

Altitude de 497m no Refúgio Pårte.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 10,1ºC

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Passarelas de madeira por todo o caminho

11º DIA - 11/09/19 - de Pårte a Kvikkjokk

Distância: 15,6km
Maior altitude: 586m
Menor altitude: 330m no Refúgio Kvikkjokk Fjällstation
Resumo: esse dia foi em sua maior parte nivelado na faixa dos 500m a 580m de altitude. O único desnível significativo foi uma descida de 187m no final do dia.

A barraca amanheceu molhada da chuva da noite, mas felizmente saiu um solzinho tímido para ajudar a secá-la. Voltei ao refúgio para tirar algumas fotos do Lago Sjabatjakjaure, conversei um pouco mais com a anfitriã (faltam 12 dias para todos eles voltarem para casa) e pus o pé na trilha às 9h43. O caminho será o dia todo pela mata de bétulas e pinheiros, com pouca visão da paisagem ao redor. Mas as bétulas cada vez mais amarelas e as plantas rasteiras avermelhadas darão o colorido desse dia. Às 10h36 atravessei um rio mais largo por uma ponte de madeira. Às 11h07 cruzei um portão de ferro numa cerca e 4 minutos depois uma porteira de ripas, onde conversei com um casal francês que parou para um lanche.

Às 11h27 me deparei com o enorme Lago Stuor Dahta - a trilha vai para a esquerda e o margeia. Esse trecho é bem ruim de caminhar porque tem muitas pedras e estavam escorregadias pelos chuviscos ocasionais. Às 13h08 fui à esquerda numa bifurcação em que os dois lados levam a Kvikkjokk, mas o da direita é o caminho de inverno. Às 13h17 atravessei uma ponte grande de madeira e a trilha quebra para a direita. Volta e meia vinha uma chuva fraca e era preciso vestir a jaqueta impermeável, depois esquentava e tinha de parar de novo para tirá-la. Às 14h47 surgiu uma bifurcação sem placas, mas segui pela direita pois o caminho da esquerda pareceu ser o de inverno. O avanço se tornou mais rápido quando as passarelas de madeira ficaram mais longas. Às 15h23 a trilha teve fim numa estradinha de cascalho onde segui para a esquerda. Com mais 420m cheguei a um grande estacionamento à esquerda e mais 180m ao Refúgio Kvikkjokk Fjällstation, às 15h34. 

Esse refúgio, assim como o Abisko Turiststation e o Saltoluokta, é uma estação de montanha com todo o conforto. Há um restaurante que serve as três refeições e ainda sanduíches, bolos e cafés. Há sauna e um mercadinho bastante variado. Pode-se utilizar uma cozinha reservada aos hóspedes. E para minha surpresa podia acampar em qualquer lugar sem pagar a taxa, usando os banheiros de dentro do refúgio pois não há banheiro fora. Me indicaram uma grande área de acampamento a 100m do refúgio, mas o terreno não era plano e ventava muito ali. Preferi voltar um pouco pela estradinha por onde cheguei e armar a barraca numa das muitas clareiras que havia. Mas antes usei o wifi do refúgio (SEK 50 = US$ 5,34 ilimitado) para comprar a passagem de ônibus+trem de volta a Estocolmo (o próximo wifi só iria encontrar na rodoviária de Jokkmokk, mas queria comprar a passagem com antecedência de pelo menos um dia). O ônibus para Jokkmokk só sairia às 5h20 do dia seguinte, então passei o resto do dia explorando os arredores. O Rio Kamajokk passa atrás do refúgio e forma cachoeiras e corredeiras muito bonitas. 

Altitude de 330m no Refúgio Kvikkjokk Fjällstation.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 12ºC

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Cachoeiras e corredeiras no Rio Kamajokk

12/09/19 - de Kvikkjokk a Jokkmokk e Estocolmo

Tive de acordar de madrugada para pegar o ônibus e estava chovendo. Arrumei a mochila dentro da barraca e já estava pronto para desmontá-la na chuva quando de repente parou. Embrulhei bem o sobreteto da barraca pois estava ensopado. Desci até a igreja do vilarejo, ponto final do ônibus, a 300m do refúgio, e lá reencontrei o casal de Luxemburgo. Quando comprei a passagem de trem para Estocolmo (www.sj.se/en/home.html) não consegui incluir esse primeiro ônibus, apenas o segundo (não sei por quê), então paguei esse ônibus avulso (SEK 197 = US$ 21). Tive de pagar com cartão de crédito, o motorista não aceitou dinheiro. Curioso é que não precisei digitar a senha do cartão, ele disse que até SEK 200 não há necessidade da senha. 

Cheguei a Jokkmokk às 7h50 e tinha ainda que esperar até 15h10 para tomar outro ônibus para Älvsbyn. Usei o wifi da rodoviária para dar sinal de vida e quando a chuva parou saí para conhecer a cidade e comprar comida no supermercado (há dois mercados grandes). Às 15h10 tomei o segundo ônibus e desembarquei em Älvsbyn às 17h15. Esperei até 18h14 para pegar o trem para Estocolmo, chegando às 7h15 do dia seguinte à capital sueca.

Informações adicionais:

. para saber os preços de hospedagem e refeições nos refúgios da STF consulte os valores atualizados em www.swedishtouristassociation.com/our-accommodation-types/stay-stf-mountain-cabin e www.swedishtouristassociation.com/our-accommodation-types/stay-stf-mountain-station

. segundo o site www.swedishtouristassociation.com todos os refúgios por que eu passei nessa caminhada aceitam pagamento com cartão de crédito e débito, exceto Pårte

. mapa da Kungsleden com as trilhas e refúgios: www.swedishtouristassociation.com/app/uploads/sites/2/2016/06/kungsleden-stor.jpg

. barco de Teusajaure à margem sul do lago:
de 20/06 a 1/9 - 7h, 9h, 16h e 18h
de 2/9 a 22/9 - 9h e 16h
Preço: SEK 100 (US$ 10,69) para membros e SEK 150 (US$ 16) para não-membros da STF

. barco de Kebnats a Saltoluokta:
de 14/06 a 30/06 - 10h20 e 16h05
de 01/07 a 01/09 - 10h20, 11h20 e 16h05
de 02/09 a 22/09 - 11h20 e 15h35
Preço: SEK 140 (US$ 14,96) para membros e SEK 200 (US$ 21,37) para não-membros da STF

. barco de Sitojaure a Svine: 9h e 17h
Preço: SEK 400 (US$ 42,74)

. barco de Aktse a Laitaure:
de 20/06 a 22/09 - 9h e 17h
Preço: SEK 200 (US$ 21,37)

. para informações atualizadas sobre horários de barcos consulte www.swedishtouristassociation.com/boats-in-the-mountains

. para se tornar membro da STF: www.swedishtouristassociation.com/join-stf

. quase todas as travessias de barco podem ser feitas com barco a remo também, o próprio trilheiro remando, mas nesse caso pelo menos um barco precisa ficar ancorado em cada lado do lago. Isso significa que se você tiver o azar de encontrar apenas um barco a remo ancorado, terá de cruzar o lago três vezes para rebocar outro barco para o lado onde iniciou a travessia.

. ônibus Vakkotavare-Kebnats-Gällivare:
14/06 a 01/09 - 14h35
01/07 a 22/09 - 9h50
ou seja, somente de 01/07 a 01/09 há dois horários por dia
Preço: SEK 95 (US$ 10,15) de Vakkotavare a Kebnats

. ônibus de Kvikkjokk a Jokkmokk:
seg a sex - 5h20
sáb, dom e feriados - 14h (de 19/08 a 22/09)
Preço: SEK 197 (US$ 21), só com cartão

. trens na Suécia: www.sj.se/en/home.html

Rafael Santiago
agosto-setembro/2019
https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br

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  • Silnei featured this tópico
  • 5 meses depois...
  • Membros

Cara, top demais esse relato! 
Estamos programando uma viagem para a Suécia e pensamos em fazer essa trilha. 
Pensamos em fazê-la inteira, mas pelo visto, como você disse ela não é tão interessante assim. Eu vi que na região central dela, há os abrigos de emergência e apenas isso, quase não há nem os mercadinhos. E a STF não traz informações de la pois não a administra.

algumas dúvidas:

- a sinalização de verão é boa? Visível? Ou se confunde com a de inverno?

- caso se machuque, vi q você escorregou, sabe como é o resgate e etc? 
- e cara, você viu urso? Não ficou com medo deles? Meu maior medo ele encontrar urso kkk

valeuuu

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  • 2 semanas depois...
  • Membros de Honra

Oi, Glau, tudo bem?

Obrigado pelos comentários e desculpe pela demora.

Respondendo às suas dúvidas:

1. A sinalização em geral é boa. A trilha de verão e a de inverno nem sempre coincidem, às vezes correm paralelas, mas ambas têm sua marcação: pinturas vermelhas nas pedras e árvores (para o verão) e postes com um grande X vermelho no alto (para o inverno). As bifurcações quase todas têm placa. Pode haver dúvida em um lugar ou outro, mas não dá para se perder, não. Isso estamos falando dos setores mais ao norte, os mais frequentados. Não sei dizer dos outros setores.

2. com relação a resgate, bem, eu não vi mas acredito que os refúgios todos tenham rádio e possam chamar um resgate quando necessário. Telefone mesmo só vi no Refúgio Singi. Nas mountain station (Abisko, Saltoluokta e Kvikkjokk) há internet. Sinal de celular não há na maior parte do percurso. O custo do resgate é por conta do acidentado... e na Escandinávia até o ônibus urbano é caro. Um seguro-viagem pode resolver isso.

3. felizmente não topei com nenhum urso de surpresa! kkk. É muito raro ver um urso na Suécia. Não são muitos e se afastam quando percebem presença humana. Como a Kungsleden corre em sua grande parte acima da linha das árvores os ursos (os poucos que deve haver ali) percebem a aproximação de gente e vão embora. 

Quanto a fazer a Kungsleden inteira, foi uma opção pessoal não colocar quase um mês da minha viagem numa trilha com uma paisagem que não muda muito e com um clima que aborrece com chuva e frio. Mas conheci várias pessoas pelo caminho que estavam empolgadas em fazê-la inteira, sem se importar com esses fatores. É bem pessoal mesmo. Para quem gosta de se afastar de tudo a região central da Kungsleden deve ser o paraíso.

Espero ter ajudado! Vamos torcer para essa pandemia passar logo e a gente poder voltar para as trilhas e montanhas.

Boas trilhas!

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    • Por rafael_santiago
      Siete Picos
      Início: Cercedilla
      Final: Cercedilla
      Duração: 5 dias
      Maior altitude: 2427m no Pico Peñalara 
      Menor altitude: 1027m na ponte sobre o Rio Manzanares
      Dificuldade: média para quem está acostumado a trilhar com mochila cargueira. Há muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis positivos (subidas) que chegam a 1227m (4º dia) e 1435m (1º dia).
      A Serra de Guadarrama se localiza a cerca de 70km a norte-noroeste de Madri e é avistada tanto dessa cidade quanto da cidade de Segóvia. Para proteger seus recursos naturais foi criado o Parque Nacional de la Sierra de Guadarrama.
      Esse parque nacional é bastante novo, criado em junho de 2013, mas ele veio para ocupar áreas já pertencentes a dois outros parques: o Parque Natural de la Cumbre, Circo y Lagunas de Peñalara, de 1990, e o Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares, de 1985.
      Há vários roteiros possíveis de caminhada pelo parque nacional, com duração de um ou vários dias. Eu escolhi fazer um trajeto de forma circular a partir da cidade de Cercedilla que percorresse seis dos cumes mais altos da serra: Peñalara (2427m), Cabeza de Hierro Mayor (2376m), Bola del Mundo ou Alto de las Guarramillas (2254m), La Maliciosa (2219m), Siete Picos (2117m) e Peña Águila (2011m). Essas altitudes parecem bastante modestas, inclusive se comparadas às montanhas mais altas do Brasil, porém todos esses picos ficam cobertos de neve no inverno, o que obriga ao uso de equipamentos apropriados. 
      A maior parte desse meu trajeto acontece dentro da área do parque nacional, com uma pequena parte dentro da área atual do Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares, porém não há nenhuma sinalização nas trilhas indicando os limites desses parques. Por não ter essa informação exata, prefiro não mencionar no texto onde possivelmente entro e saio deles.
      QUANDO IR
      Para trekking o verão, para esqui o inverno. Como nos meses de férias de verão há muita procura por essa região, o guia Lonely Planet recomenda o trekking nos meses de junho e setembro. 
      CAMPING SELVAGEM
      O camping selvagem é proibido em toda a Espanha. Ou permitido com muitas restrições em algumas comunidades e parques. Vamos detalhar isso um pouco.
      Primeiro é preciso falar da pequena confusão que existe na Europa entre os termos "camping selvagem" e "bivaque". No Brasil entendemos ambos os termos como pernoitar em um local não estruturado, não destinado a esse fim, escolhido ao acaso. A diferença para nós é que o "camping selvagem" pressupõe montar uma barraca ou alguma cobertura, e o "bivaque" é simplesmente dormir a céu aberto, com um saco de dormir ou saco de bivaque apenas.
      Na Europa nem sempre o entendimento é dessa forma. No caso da Espanha, segundo os sites consultados, os conceitos são os seguintes:
      . acampada libre: montar a barraca e permanecer vários dias com ela montada num local não estruturado
      . acampada nocturna ou pernocta con tienda: montar a barraca ao anoitecer e desmontar ao amanhecer, típico de uma caminhada de longa duração
      . vivac: dormir sem barraca ou outra cobertura montada
      Já em outros países, como a França, os dois conceitos acima de "acampada nocturna" e "vivac" são chamados de "bivouac", ou seja, para os franceses bivacar é passar uma noite num local não estruturado, com ou sem barraca. Já a "acampada libre", a ideia de permancer vários dias com a barraca montada, na França se chama "camping sauvage".
      Como estamos tratando da Espanha nesse relato, vamos colocar esses termos tal como os espanhóis os entendem.
      A "acampada libre" (pernoite com barraca montada por vários dias) é proibida em toda a Espanha, inclusive em todos os parques nacionais e regionais. Algumas comunidades autônomas a permitem, mas com muitas restrições (ver abaixo). Já a "acampada nocturna" é permitida em três dos dez parques nacionais da Espanha continental (Ordesa y Monte Perdido, Picos de Europa e Sierra Nevada), com restrição de horário para montar e desmontar a barraca e somente acima de determinada altitude. O "vivac" (pernoite sem barraca) é permitido apenas nos três parques citados e aqui no Parque Nacional de la Sierra de Guadarrama. A questão fica nebulosa quando a normativa do parque proíbe explicitamente a "acampada libre" mas não fala nada sobre a "acampada nocturna" e o "vivac".
      Quando o trekking é feito fora das unidades de conservação o que vale é a legislação do município e da comunidade autônoma. Fontes de consulta sobre as normas das comunidades autônomas são este site e este site. Neles vemos que a maior parte das 17 comunidades autônomas proíbe a "acampada libre" e a "acampada nocturna", ou as permite com muitas restrições como: distância mínima de cidades e estradas, número reduzido de barracas e pessoas, tempo máximo de permanência, exigência de permissão das autoridades locais. Mas a legislação do município é superior à da comunidade autônoma, o que torna ainda mais difícil saber se o acampamento (com ou sem barraca) é permitido em determinado local.
      Este trekking atravessa duas unidades de conservação: o Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares e o Parque Nacional de la Sierra de Guadarrama. Em ambos a "acampada libre" é proibida (veja aqui e aqui). Como mencionei, o "vivac" (dormir sem barraca montada) é permitido no Guadarrama, mas somente no núcleo Peñalara e acima de 2100m de altitude (veja aqui). Nos arredores desses parques vale a legislação das comunidades autônomas de Madri e Castela e Leão. Ambas também proíbem a "acampada libre" (veja aqui e aqui), sem referência nos textos oficiais à "acampada nocturna" e ao "vivac".
      O que fazer durante uma longa travessia então?
      Se você for adepto do bivaque (dormir apenas com saco de dormir, sem barraca) não deverá ter problema algum. Se quiser montar a barraca, escolha um local bem discreto e afastado, fora do caminho e bem longe de estradas e casas. Monte a barraca ao anoitecer e desmonte ao nascer do sol. Deixe o local exatamente como o encontrou, as regras de mínimo impacto devem ser sempre seguidas (veja aqui). Para quem gosta de fazer fogueira, é melhor esquecer.
      REABASTECIMENTO DE COMIDA
      Há mercados em Cercedilla (1º e último dias) e Manzanares El Real (onde pretendia ficar no Camping El Ortigal no 3º dia). Puerto de Cotos (1º e 2º dias) tem o bar-restaurante Venta Marcelino, além do restaurante do Refugio de Cotos. Puerto de Navacerrada (4º dia) tem restaurantes e um pequeno comércio, mas encontrei tudo fechado.

      Vista do Pico Peña Águila
      1º DIA - 17/06/19 - de Cercedilla a Puerto de Cotos com subida do Pico Peña Águila
      Duração: 8h05 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2011m no Pico Peña Águila
      Menor altitude: 1140m na ponte do Rio de la Venta, em Cercedilla
      Resumo: nesse dia encarei as primeiras subidas da caminhada com desníveis de 871m desde Cercedilla ao Pico Peña Águila, depois 149m até Puerto de la Fuenfría e 415m da rodovia CL-601 até Puerto de Cotos
      Na estação Chamartín, em Madri, tomei às 8h10 o trem Renfe com destino à pequena cidade de Cercedilla, aonde cheguei às 9h20. Demorei algum tempo para encontrar o início da trilha para o Pico Peña Águila pois não havia indicação e o caminho não era nada óbvio. O trajeto é o seguinte: saindo da estação do trem deve-se descer a rua à esquerda (sudoeste) por 100m até sua guinada para a esquerda (sudeste), onde ela passa por baixo da linha férrea através de um túnel - não é pelo túnel o caminho. Exatamente nessa guinada deve-se cruzar a ponte (Rio de la Venta) e o estacionamento em frente (ainda sentido sudoeste) para encontrar sob as árvores uma trilha com placas de Sendero Ródenas (toda pichada) e Camino Puricelli (com mapa). Outra alternativa é caminhar a partir da plataforma da estação ao longo da linha férrea para sudoeste e encontrar a mesma trilha num ponto acima das citadas placas.
      A partir das placas a trilha sobe em zigue-zague até uma rua de terra que deve ser tomada para a direita, subindo em direção norte (a trilha que sai à direita antes de alcançar a rua não serve). O casarão bem nesse encontro da trilha com a rua de terra funcionava como Albergue El Colladito, mas agora é uma escola infantil (o que não deixa nenhuma opção barata de hospedagem na cidade). Dali já avistei os Siete Picos, o Pico Bola del Mundo (Alto de las Guarramillas é o nome verdadeiro) e Pico La Maliciosa, meus objetivos para os próximos dias nesse trekking, todos a nordeste. Eram 10h20.
      Caminhei 640m por essa rua de terra (ignorando um caminho que sai para a direita logo no início dela) e às 10h32 entrei numa trilha à direita (norte) onde há uma placa de Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares. É um atalho que me levou a caminhar entre muros de pedra e subir a uma clareira alta com a primeira visão ampla para as serras, com destaque para os Siete Picos. Caminhando na direção de uma casa vazia à esquerda (oeste) reencontrei a estrada de terra e segui nela para a direita (norte), mas por apenas 200m pois entrei na trilha à esquerda (noroeste), subindo entre pinheiros. Ali há um cocho de pedra com água corrente. Nas árvores há marcações de PR (Pequeño Recorrido = Percurso Pequeno; es.wikipedia.org/wiki/Pequeño_Recorrido), que são duas faixas horizontais, uma branca acima e outra amarela abaixo.
      Às 11h55 cruzei uma estrada de terra (com círculos vermelhos pintados nas árvores) e continuei subindo pela trilha. Alcancei enfim às 12h09 a crista da serra e nela uma bifurcação em T, onde fui para a direita (norte). Nesse ponto estou entrando na famosa e longa trilha GR 10, que vai de Valência a Lisboa (as marcações em tinta branca e vermelha vão aparecer mais acima). Para mais informações sobre as trilhas GR: es.wikipedia.org/wiki/Sendero_de_Gran_Recorrido. Não cruzo o muro de pedra da crista por enquanto. Deixo para trás a floresta de pinheiros e continuo paralelamente ao extenso muro de pedras. Já avisto o cume do Pico Peña Águila, com as encostadas tomadas pelo tapete amarelo das flores piorno. A trilha cruza finalmente o muro de pedras apenas 140m antes do cume, aonde cheguei às 13h17. Visão espetacular num dia de céu limpíssimo: La Pinareja e Montón de Trigo ao norte (cumes da Serra Mujer Muerta); Peñalara a nordeste; Siete Picos, Cabeza de Hierro Mayor, Cabeza de Hierro Menor, Bola del Mundo (esses três em Cuerda Larga) e La Maliciosa a leste. Altitude de 2011m e desnível de 871m desde Cercedilla. O vento estava forte e bem frio e usei o muro de pedra como proteção para tomar meu lanche.

      Pico Peña Águila com piornos floridos
      Às 14h iniciei a descida no sentido oposto ao que cheguei (nordeste) e em 12 minutos caí numa estradinha de terra muito chata. Caminhei por ela até um portão de ferro que cruzei às 14h42 e fechei com atenção seguindo a recomendação da placa (para o gado não fugir). Ali passava uma estrada tediosa de terra, mas procurei por trilha e encontrei uma no sentido nordeste, não muito óbvia no começo. A ela entroncou uma outra vindo da direita chamada Camino Viejo de Segovia. Atravessei uma ponte de madeira (água boa), outra ponte (quase sem água) e à direita surgiu a trilha conhecida como Calzada Romana. A Calzada Romana faz uma curva para a direita e eu preferi me manter no Camino Viejo de Segovia por ser mais direto, por isso segui à esquerda. Porém 190m depois fui à direita e passei a caminhar pela larga Calzada Romana, mas por menos de 100m pois alcancei uma estrada de terra às 16h06. Esse é um importante cruzamento de caminhos, inclusive de uma das rotas do Caminho de Santiago: Puerto de la Fuenfría.
      Observação: se tivesse caminhado à esquerda na estrada tediosa teria continuado na GR 10 e chegado a esse mesmo lugar. A partir dali a GR 10 toma a direção sul.
      Um dos significados da palavra puerto em espanhol é "paso entre montañas" ou "collado de montaña", portanto os puertos costumam ser lugares altos que dão passagem de uma vertente a outra da serra/montanha. Após a subida até esse puerto iniciaria uma suave descida.
      Há diversas placas nesse local indicando e explicando os muitos caminhos que por ali passam. Tantas placas que levei algum tempo para encontrar qual seria a continuação do meu caminho em direção a Puerto de Cotos. Mas era só continuar no meu sentido nordeste por uma estradinha de terra entre pinheiros. Um cocho de pedra tinha água corrente. Na primeira bifurcação fui à direita e na segunda, à esquerda. Às 16h44 a estradinha vira trilha e passo a caminhar pelo Carril del Gallo (sem placa mostrando essa informação). Às 17h41 cheguei a uma grande clareira usada como pasto e parei para descansar por 17 minutos com uma vista bastante ampla e bonita.
      Continuei no sentido sul (e depois leste) e reentrei na mata de pinheiros. Cruzei uma ponte de troncos e 130m depois alcancei uma estrada de terra, que tomei para a esquerda (norte) (aqui fui explorar uma alternativa à estrada mas não deu em nada, a trilha fechou; gastei 40min nisso). Desprezando as trilhas que nasciam dessa estradinha, às 19h11 cheguei ao asfalto da CL-601, exatamente num local chamado Las 7 Revueltas. Cruzei a cancela e desci à esquerda (nordeste) pela rodovia por 730m até uma cancela igual (à direita), onde entrei numa estradinha de asfalto entre pinheiros. Altitude de 1409m. Parei para descansar por 22 minutos. Nas bifurcações continuei no asfalto até encontrar às 20h35 uma estradinha de terra à direita (leste) com placa de Puerto de Cotos a 3,2km. Passei por quatro riachos e alcancei as casas de Puerto de Cotos às 21h33, ainda com luz do dia (o sol estava se pondo às 21h45). Altitude de 1824m (desnível de 415m desde o asfalto da CL-601). 
      Puerto de Cotos não chega nem a ser uma vila, o lugar se resume a uma estação de trem onde funciona um refúgio de montanha (El Refugio de Cotos), o Centro de Visitantes do Parque Nacional Sierra de Guadarrama e um bar-restaurante (Venta Marcelino). Como é proibido acampar de forma livre e não há camping pago busquei hospedagem no refúgio, onde fui o único hóspede da noite já que era uma segunda-feira (no final de semana estava lotado). Lá fui atendido pelo Carlos, que me preparou um saboroso jantar. O único problema ali foi o banho pois a água não esquentava de jeito nenhum. 
      Além do trem há ônibus ligando Puerto de Cotos a Madri (veja nas informações adicionais). 

      Laguna de los Pájaros
      2º DIA - 18/06/19 - Pico Peñalara 
      Duração: 5h20 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2427m no Pico Peñalara 
      Menor altitude: 1816m na estação de trem de Puerto de Cotos
      Resumo: circuito passando pelo cume do Pico Peñalara a partir de Puerto de Cotos num desnível de 611m
      Após o café da manhã no Refugio de Cotos e uma boa enrolação saí às 11h36 para subir o Pico Peñalara com mochila de ataque apenas. Meu plano era subir pela crista do lado sul-sudoeste e descer pelo lado norte-nordeste, retornando pela face leste do pico. Passei pelo Centro de Visitantes Peñalara do Parque Nacional Sierra de Guadarrama para pegar informações e continuei no sentido nordeste por 370m. Logo após a curva do Mirador de la Gitana continuei pela trilha principal, a RV2, à esquerda (voltaria pela trilha da direita, a RV8). Após vencer um desnível de 611m desde o refúgio, com trechos em zigue-zague e grandes manchas de neve próximas ao caminho, alcancei o cume do Pico Peñalara às 13h34. Ele é o ponto mais alto da Serra de Guadarrama e das províncias de Madri e Segóvia. Dali se avistam Cabeza de Hierro Mayor, Cabeza de Hierro Menor, La Maliciosa e Bola del Mundo ao sul; Siete Picos, Peña Águila, Montón de Trigo e La Pinareja a sudoeste; Segóvia a noroeste.
      Iniciei o retorno às 14h46 seguindo a crista no sentido norte-nordeste. Cerca de 540m depois, num trecho com grandes blocos de pedra, desci pela face direita da crista, mas estava errado, o caminho foi sumindo e a descida se complicando. Voltei e desci pelo lado oposto, à esquerda da crista, onde havia uma trilha mais fácil. Observei depois que algumas pessoas continuavam pelo alto da crista, mas pelo que vi é preciso saltar grandes blocos de pedra bastante expostos. 
      Desci por trilha bem marcada e alcancei às 16h45 a Laguna de los Pájaros, onde uma placa alerta para a proibição de banho e a permanência a menos de 3m da margem para evitar a mortalidade de anfíbios, entre outros motivos (porém poucos minutos depois encontrei vacas pastando livremente às margens de outras lagoas). Ali tomei a trilha da direita (sul) e efetivamente iniciei o retorno a Cotos. Cruzei com um grupo grande com mochilas cargueiras que pretendia bivacar no Peñalara sem nenhum medo do vento frio da noite. Às 18h13 parei para fotos no Mirador de Javier e tomei o atalho que sai à direita dele para alcançar em 12 minutos a Laguna Grande de Peñalara, que é cercada com um cabo de aço para evitar a aproximação.
      Saindo da Laguna Grande às 18h54 desci por uma passarela de madeira e depois trilha até a casinha de vigilância e continuei na trilha em frente (ignorando as trilhas da direita e da esquerda). Reentrei na mata, passei por uma bica e reencontrei a trilha da ida (RV2) às 19h38. Passei pelo Centro de Visitantes, pela Venta Marcelino (fechada) e estava de volta ao refúgio às 20h10.

      La Pedriza
      3º DIA - 19/06/19 - de Puerto de Cotos a La Pedriza
      Duração: 7h50 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2376m no Pico Cabeza de Hierro Mayor
      Menor altitude: 1478m no acampamento em La Pedriza
      Resumo: subida de Puerto de Cotos ao cordão montanhoso Cuerda Larga num desnível de 560m e descida ao "parque" rochoso de La Pedriza num desnível de 898m
      Há dois caminhos possíveis para subir à crista de Cuerda Larga a partir de Puerto de Cotos. Um deles sai diretamente para o sul e passa próximo ao Albergue El Pingarron, o outro sai para leste e é 1,3km mais longo, porém foi o que escolhi (talvez tenha menos sobe-e-desce).
      Saí do refúgio às 10h53 no sentido leste e atravessei todo o estacionamento que fica ao longo da rodovia M-604. No final do estacionamento desci uma escada de madeira e encontrei na mata a trilha que me levaria a Cuerda Larga. Porém ao sair da mata, apenas 170m depois, a trilha sumiu. Cruzando o campo na direção sudeste, entrei em outra mata e reencontrei a trilha junto a uma pequena ponte de tábuas. Uma outra trilha entroncou nessa vindo da rodovia também. Um círculo amarelo pintado nas árvores confirma o caminho. Tomo o rumo sul e depois sudeste, direções que manterei por algum tempo. Cruzo um riacho pelas pedras e desemboco numa estrada, na qual vou para a esquerda, descendo. Atravesso a ponte sobre o Arroyo de las Cerradillas. Encontro outra estrada às 12h01 e desta vez vou para a direita, subindo por um vale com o Arroyo de las Cerradillas à direita. Surgem caminhos à esquerda que exploro tentando evitar a monotonia da estrada, mas foi só perda de tempo (apesar dos sinais vermelhos pintados nas árvores). Felizmente logo a estrada vira trilha (na bifurcação vou à direita), cruzo três pontes, a trilha dá uma guinada para o norte e chego a uma bifurcação com placas às 14h34. Da direita vem a trilha do Albergue El Pingarron, o outro caminho de Cotos. Eu sigo para a esquerda retomando o rumo sul.
      Cruzo quatro riachos em sequência, formadores do Arroyo de las Cerradillas. Alcanço o limite das árvores (1825m) e passo a subir por entre moitas de piornos floridos. Depois vem a parte mais inclinada da encosta da serra com a dificuldade de caminhar por um terreno chamado de canchal (em espanhol) ou scree (em inglês), uma ladeira de pedras desmoronadas. Cruzo um riacho para a direita às 15h26 e essa será a última água até descer para a outra vertente no final do dia. 

      La Pedriza
      Às 16h40 alcanço enfim a crista de serra conhecida como Cuerda Larga. Desnível de 505m desde as placas. Dali avisto as formações rochosas de La Pedriza, a cidade de Manzanares El Real, meu objetivo deste dia, e bem distante no horizonte a capital Madri. Sigo para a esquerda (nordeste) na bifurcação em T às 17h02. O Pico Cabeza de Hierro Menor (2374m segundo a Wikipedia), segundo mais alto de Cuerda Larga, fica apenas 300m à direita dessa bifurcação, mas não fui até ele.
      Seguindo pela crista (PR-M 11), um desvio de apenas 40m à esquerda me leva ao cume mais alto de Cuerda Larga, o Pico Cabeza de Hierro Mayor, com 2376m de altitude pelo meu gps. Ele é o segundo em altitude da Serra de Guadarrama, perdendo apenas para o Peñalara. Avisto lá do alto o estacionamento de Puerto de Cotos onde iniciei a caminhada desse dia e também as montanhas: Peñalara ao norte; La Pinareja, Montón de Trigo, Siete Picos, Peña Águila e Bola del Mundo a oeste; La Maliciosa a sudoeste; La Pedriza e Manzanares El Real a sudeste; e ao sul-sudeste os prédios de Madri. Desnível de 560m desde o refúgio em Puerto de Cotos. 
      Continuando pelo sobe-e-desce da crista no sentido leste passo pelos outros cumes de Cuerda Larga: às 18h08 pela Loma de Pandasco (2247m, segundo a Wikipedia, não fui medir cada um), às 19h06 por Navahondilla (2234m) e às 19h15 por Asómate de Hoyos (2242m). Nesse trajeto tive o primeiro contato com as cabras montesas e estavam em grande número, mas são mansas e ariscas. Cerca de 310m após o último cume sigo os totens e faixas pintadas à direita e abandono a crista de Cuerda Larga, que segue para nordeste, em favor de uma crista secundária a sudeste que me leva ao "parque" rochoso de La Pedriza. O lugar é incrível, com formações fantásticas de granito, algumas lembrando o nosso Parque Nacional de Itatiaia. Há inúmeros caminhos em La Pedriza, muitos deles usados por escaladores para acesso às pedras e suas vias. Vários outros levam ao vale do Rio Manzanares, o qual eu deveria percorrer para alcançar o Camping El Ortigal, a caminho da cidade de Manzanares El Real.
      Dos muitos caminhos ao Rio Manzanares optei pelo mais direto, passando pelo Refugio Giner de los Rios (PR-M 2). Após descer 330m (de altura) desde a crista de Cuerda Larga pela PR-M 2, às 21h02 chego a uma bifurcação em T em Collado del Miradero e vou para a esquerda (ainda PR-M 2), reentrando no bosque de pinheiros cerca de 100m depois. Voltam a aparecer as fontes de água e com elas os locais propícios para o bivaque para quem se aventura escalando as muitas pedras do entorno. Já estava começando a anoitecer (quase 22h) e o camping ainda estava muito longe, então parei no primeiro local plano que encontrei, na altitude de 1478m, para pernoitar. 

      Sierra de los Porrones
      4º DIA - 20/06/19 - de La Pedriza a Puerto de Navacerrada
      Duração: 8h10 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2254m no Pico Bola del Mundo
      Menor altitude: 1027m na ponte sobre o Rio Manzanares
      Resumo: descida de La Pedriza ao Rio Manzanares, em seguida subida aos picos La Maliciosa e Bola del Mundo e descida a Puerto de Navacerrada. Diferença de 1227m entre os pontos mais alto e mais baixo do dia.
      Esse dia e o dia seguinte são de escassez de água. É preciso reabastecer os cantis nas poucas fontes encontradas no começo desse dia para durarem até a tarde do dia seguinte (a menos que se consiga água em Puerto de Navacerrada, que não foi o meu caso). 
      De manhã fui explorar o entorno do local onde acampei e encontrei um lajedo com pedras de diversos formatos e tamanhos, uma miniatura do Lajedo do Pai Mateus de Cabaceiras(PB). É bom lembrar que o acampamento selvagem é proibido em quase todos os parques nacionais da Espanha, inclusive neste, mas eu montei a barraca já à noite, desmontei logo cedo e não deixei nenhum vestígio do meu pernoite no local.
      Comecei a caminhar às 8h18 ainda descendo. Apenas 340m depois do local de pernoite, aos 1433m de altitude, encontrei um cruzamento de trilhas mas fui em frente pois era o caminho mais rápido ao Refugio Giner de los Rios e depois ao Rio Manzanares. Continuo na PR-M 2. Aos 1256m encontrei a primeira água do dia. Às 9h28, na altitude de 1179m, uma placa aponta para o refúgio à esquerda, num desvio de 150m da trilha principal. Cruzei uma pequena ponte e depois uma clareira para subir ao refúgio, que encontrei em bom estado porém trancado. A bica ao lado estava quase seca. A clareira tem espaço de sobra para acampar porém logo cedo já começam a passar os trilheiros e escaladores uma vez que há um estacionamento a 2km dali. Voltei à trilha principal às 10h08.
      Às 10h39 cheguei ao Punto de Información Canto Cochino, mas estava fechado (só abre de sábado, domingo e feriado das 9h às 17h). Esse é o ponto de convergência de pelo menos quatro trilhas que descem de La Pedriza e as placas indicam esses caminhos. Foi também o local onde vi mais gente. Dali tomei a direção sul por um calçamento e cruzei às 10h58 a ponte sobre o Rio Manzanares, encontrando do outro lado uma estrada e um pequeno estacionamento. Essa ponte é o ponto de menor altitude do dia e de todo o trekking (1027m) e a última água do dia.
      A estrada quebra para a direita e ao fazer uma curva para a esquerda encontro dois grandes estacionamentos e um ou dois bares (se fosse ao Camping El Ortigal teria que tomar a direção sul aqui). Ao final dos estacionamentos cruzo o asfalto e entro na trilha em frente (oeste). Na bifurcação uns 35m depois vou à esquerda (pois a direita morre no asfalto mais à frente). Cerca de 1,1km depois da bifurcação chego às 11h31 a um cruzamento de trilhas, onde vou para a esquerda, quase voltando. Meu objetivo é subir à crista da Sierra de los Porrones e descer à cidade de Puerto de Navacerrada para pernoite. 

      Sierra de los Porrones
      Não percebi uma trilha saindo para a direita e subi até um muro de pedras que fui contornando para a direita até reencontrar a trilha no sentido oeste novamente. Às 12h21 cruzei uma estrada de terra e parei para descansar e me refrescar do forte calor. Os insetos também estavam incomodando um bocado. Nesse ponto há algumas placas e uma delas apontava para o Pico La Maliciosa, meu destino. Faixas amarelas e brancas pintadas indicam ser uma rota de Pequeño Recorrido, nesse caso a PR-M 16. Havia um cocho de pedras mas as bicas estavam secas. Às 13h05 retomei a caminhada agora subindo bastante. Nessa subida pela encosta norte da Sierra de los Porrones tive de fazer mais algumas paradas longas porque o calor estava me tirando a energia. Às 15h53 atingi a crista da serra e fui à direita na bifurcação, subindo, pois a trilha da esquerda desce pela vertente sul da serra. Às 17h22 avistei uma grande formação rochosa à frente e uma nítida trilha subindo ao seu cume: era o Pico La Maliciosa, uma dura subida ainda a enfrentar. As árvores desaparecem.
      Alcancei o cume de La Maliciosa às 18h57 e havia mais duas ou três pessoas. Conversei com um rapaz de Madri que veio fazer um bate-e-volta desde a capital até esse pico e já ia retornar! La Maliciosa é o pico mais alto da Sierra de los Porrones, com 2219m, e dali se avistam: Bola del Mundo e Pico Peñalara ao norte; Cabeza de Hierro Mayor e Cabeza de Hierro Menor a nordeste; La Pedriza a leste; Manzanares El Real e o reservatório Embalse de Santillana a sudeste; Madri ao sul-sudeste; Navacerrada a sudoeste (não é Puerto de Navacerrada, que fica mais acima e não se vê dali); Peña Águila e Siete Picos a oeste.
      Retomei a caminhada às 19h18 em direção a Bola del Mundo e suas horríveis antenas parecendo três foguetes prestes a ser lançados. Continuei pela crista da serra por mais 520m no sentido noroeste e tomei a direita (norte) na bifurcação onde a esquerda desce a vertente sul em direção à cidade de Navacerrada. Desci por um caminho de pedras com bifurcações mantendo a direita e cruzei na parte mais baixa uma outra trilha que corria no sentido leste-oeste. Subi a encosta oposta por caminho largo e cheguei a Bola del Mundo, ou Alto de las Guarramillas, às 20h32. Aqui retorno ao cordão montanhoso Cuerda Larga já que esse pico é o mais ocidental dele, com altitude de 2254m. Mas aquelas antenas causam tanto incômodo que não parei, segui para oeste, agora por estradinha concretada (350m a leste de Bola del Mundo se situa o Ventisquero de la Condesa, local onde nasce o Rio Manzanares, mas não fui até lá para conferir se seria fácil coletar água abaixo do nevado). 
      Desci 850m pela estradinha e cheguei a um bar-restaurante que deve funcionar somente no inverno, quando a pista de esqui da face oeste da montanha entra em atividade. Ao lado do bar-restaurante fica a chegada do teleférico que parte de Puerto de Navacerrada, mas a inclinação e o terreno de pedras soltas dificultam a descida direta por ali. Tive de descer pela estradinha de concreto mesmo, com todas as suas curvas e zigue-zagues. Às 21h35 cruzei a cancela ao lado do ponto de partida do teleférico e com mais 5 minutos cheguei a Puerto de Navacerrada, cortada pela rodovia M-601. Altitude de 1862m. Procurei hospedagem no Albergue Peñalara, mas estava fechado. O único lugar aberto e funcionando era o Hotel Residência Navacerrada, porém a mulher fez uma cara de assustada quando me viu entrar de mochila cargueira nas costas e foi logo dizendo que o hotel estava lotado. Já era noite. A única saída era acampar. Procurei o início da trilha do dia seguinte, desviei para dentro da mata com lanterna e encontrei um lugar plano, espaçoso e muito discreto para montar a barraca a menos de 300m da rodovia. 
      Há trem e ônibus ligando Puerto de Navacerrada a Madri (veja nas informações adicionais). 

      Siete Picos
      5º DIA - 21/06/19 - de Puerto de Navacerrada a Cercedilla
      Duração: 6h05 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2117m no Pico Somontano, em Siete Picos
      Menor altitude: 1149m na ponte do Rio de la Venta, em Cercedilla
      Resumo: subida de Puerto de Navacerrada aos Siete Picos num desnível de 255m e descida a Cercedilla num desnível de 968m
      Desmontei acampamento e voltei à rodovia para ver se havia algum lugar aberto para tomar um café da manhã, mas continuava tudo fechado. Iniciei a caminhada do dia às 8h45 entrando na trilha sinalizada como "Sendero Arias" e "Estacion Ferrocarril" localizada entre o Hotel Residência Navacerrada e o estacionamento dos restaurantes/cafeterias mais acima. Após uma plataforma de teleférico à esquerda o caminho trifurca e fui para a direita. Cruzei uma cancela de ferro e subi à direita e depois esquerda na bifurcação. Cheguei a uma cerca de troncos finos que delimita uma pista de esqui pequena (talvez para iniciantes) e parei para tomar meu desjejum. Às 9h41 continuei subindo pela floresta de pinheiros e alcancei uma grande clareira com outro teleférico. À frente (oeste) já avisto toda a extensão dos Siete Picos. 
      Percorro no sentido sudoeste por 230m um caminho largo que vem do teleférico mas o abandono para tomar um outro um pouco mais estreito à esquerda que me leva à formação rochosa com a pequena estátua da Virgen de las Nieves. Dali se avistam o Pico Peñalara, Bola del Mundo, Puerto de Navacerrada e La Maliciosa. A trilha continua a partir dali e corre paralela ao caminho largo que abandonei. Às 10h48 chego a uma grande clareira gramada onde caberiam muitas barracas, ainda com um lindo mirante uns 100m depois (porém não há água). Retomo às 11h07 o caminho largo que havia abandonado e ele começa a se estreitar ao cruzar uma outra trilha - continuo em frente (noroeste) e tomo a esquerda na bifurcação 45m depois. Começo a subir em direção aos cumes de Siete Picos. Nos 2109m de altitude vou à esquerda numa bifurcação em T e 165m depois já estou no ponto mais alto, o pico conhecido como Somontano, de 2117m, às 11h44. Desnível de 255m desde Puerto de Navacerrada. Porém uma forte neblina havia tomado conta do lugar, mal me deixando ver a formação rochosa do pico, o mais oriental do conjunto.

      Piornos floridos
      Às 12h12 continuo pela trilha da crista, que se divide em várias, mas tento sempre me manter na mais alta. Passo por mais um dos cumes, ainda com muita neblina, e às 12h38 surge uma bifurcação em que se deve continuar à esquerda pois a direita desce a vertente norte da montanha. Na bifurcação seguinte vou para a esquerda e passo por mais um dos cumes. A neblina começa a se dissipar e o dia volta a ficar perfeito para fotos. Paro por 46 minutos para almoçar e curtir o visual. Antes de descer a encosta sul da montanha faço um desvio de uns 50m para alcançar mais um dos cumes às 14h37.
      A partir desse ponto inicio a descida e aos poucos reentro na mata de pinheiros. Na altitude de 1906m saio da trilha principal para subir (escalaminhar) o Pico de Majalasna (1935m), o mais ocidental dos cumes de Siete Picos e um tanto afastado dos outros que se encontram na crista. Do seu alto, às 15h36, avisto La Maliciosa e Peña Águila (as nuvens não me deixam ver mais que isso). Só retomo a caminhada às 16h33. Continuando a descida passo por duas fontes de água mas com muito pouca vazão. Essas fontes são a primeira água que encontro desde o Rio Manzanares, na manhã do dia anterior. Às 17h46 cruzei uma estrada de terra com diversas placas e seguindo 120m para oeste encontrei uma bica com mais água sob um abrigo de pedras (Refúgio del Aurrulaque). Parei para descansar e beber bastante água. Ao cruzar essa estrada de terra estou cruzando novamente a GR 10.
      A partir do abrigo tomei às 18h35 a Vereda Alta: desci no rumo noroeste, cruzei outra estrada de terra e na bifurcação abaixo fui à direita (à esquerda um X pintado numa árvore). Às 18h59 parei em mais uma fonte de água. Surgem trilhas vindo da direita e sigo por 115m um muro de pedras, mas ele continua à direita numa bifurcação em que vou para a esquerda. Às 19h41 chego a uma clareira com muitos caminhos para todos os lados. Fica até difícil descrever em detalhe o que fiz, para resumir tomei a direção sudoeste e alcancei o Caminho del Agua, uma trilha bem larga em que há um cano semi-enterrado. Às 20h13 vou à direita numa bifurcação e já começo a marcar algum lugar discreto para acampar em caso de necessidade, porém logo encontro um portão de ferro e depois algumas casas. Às 20h30 chego à periferia de Cercedilla. Primeiro cruzo uma rua e continuo na trilha em frente. Mais abaixo a trilha termina no asfalto da M-966, onde vou para a esquerda. Com mais 290m, às 20h47, estou na estação ferroviária de Cercedilla, onde tudo começou cinco dias atrás. 
      Ainda havia trens e ônibus para Madri mas eu não tinha reservado nenhum hostel lá e ia chegar muito tarde (o trem sairia 21h33 e deveria chegar a Madri às 22h37). Procurei hospedagem em Cercedilla mas só encontrei lugar caro. O jeito foi me meter na floresta de novo e encontrar um lugar afastado para montar a barraca. No dia seguinte peguei o trem das 8h30 e cheguei às 9h35 à estação de Chamartín, em Madri. Há opções de ônibus também (veja nas informações adicionais). 

      Siete Picos
      Informações adicionais:
      . site oficial do Parque Nacional de la Sierra de Guadarrama: www.parquenacionalsierraguadarrama.es/es
      . mais informações em:
      www.comunidad.madrid/servicios/urbanismo-medio-ambiente/parque-nacional-sierra-guadarrama

      www.miteco.gob.es/es/red-parques-nacionales/nuestros-parques/guadarrama
      . parques nacionais da Espanha: www.miteco.gob.es/es/red-parques-nacionales/nuestros-parques
      . trens na Espanha: www.renfe.com
      . ônibus 680 - Madri-Cercedilla-Madri: 
      www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__680___.aspx
      . ônibus 684 - Madri-Cercedilla-Madri: www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__684___.aspx?origen=2
      . ônibus 691 - Madri a Puerto de Navacerrada e Puerto de Cotos
      www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__691___.aspx
      . Refúgio em Puerto de Cotos: 32 € o quarto coletivo com café da manhã e jantar, banheiro no corredor. Mais preços no site elrefugiodecotos.com.
      . roteiro adaptado a partir das informações do guia Lonely Planet Walking in Spain, 3ª edição, 2003
      Rafael Santiago
      junho/2019
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br

      Percurso completo da travessia na imagem do satélite
    • Por rafael_santiago
      Laguna de los Caballeros
      Início: Cuevas del Valle
      Final: Tornavacas
      Duração: 11 dias
      Maior altitude: 2394m em Pico La Covacha
      Menor altitude: 611m em Jarandilla de la Vera
      Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Há grandes subidas e descidas quase todos os dias, com desníveis positivos (subidas) que chegam a 995m.
      A Serra de Gredos se situa na porção central da cordilheira chamada Sistema Central da Península Ibérica e se estende no sentido leste-oeste por cerca de 120km. Fica 150km a oeste de Madri e está inserida nas comunidades autônomas de Castela e Leão e Extremadura (comunidades autônomas na Espanha são mais ou menos como estados no Brasil). Ela está dividida em Maciço Oriental, Maciço Central e Maciço Ocidental. Nesse trekking eu percorri de ponta a ponta o Maciço Central, que vai de Puerto del Pico a Tornavacas. Do 1º ao 9º dia eu caminhei dentro dos limites do Parque Regional de la Sierra de Gredos.
      QUANDO IR
      O único problema dessa minha caminhada foi a época escolhida. Em final de junho e início de julho o calor chega próximo dos 40ºC, o que é bastante desgastante e inapropriado para o trekking. No início de junho há o risco de ainda haver bastante neve nos picos mais altos. Creio que a melhor época seja o outono (setembro a início de outubro), antes das neves do final de outubro.
      CAMPING SELVAGEM
      O camping selvagem é proibido em toda a Espanha. Ou permitido com muitas restrições em algumas comunidades e parques. Vamos detalhar isso um pouco.
      Primeiro é preciso falar da pequena confusão que existe na Europa entre os termos "camping selvagem" e "bivaque". No Brasil entendemos ambos os termos como pernoitar em um local não estruturado, não destinado a esse fim, escolhido ao acaso. A diferença para nós é que o "camping selvagem" pressupõe montar uma barraca ou alguma cobertura, e o "bivaque" é simplesmente dormir a céu aberto, com um saco de dormir ou saco de bivaque apenas.
      Na Europa nem sempre o entendimento é dessa forma. No caso da Espanha, segundo os sites consultados, os conceitos são os seguintes:
      . acampada libre: montar a barraca e permanecer vários dias com ela montada num local não estruturado
      . acampada nocturna ou pernocta con tienda: montar a barraca ao anoitecer e desmontar ao amanhecer, típico de uma caminhada de longa duração
      . vivac: dormir sem barraca ou outra cobertura montada
      Já em outros países, como a França, os dois conceitos acima de "acampada nocturna" e "vivac" são chamados de "bivouac", ou seja, para os franceses bivacar é passar uma noite num local não estruturado, com ou sem barraca. Já a "acampada libre", a ideia de permancer vários dias com a barraca montada, na França se chama "camping sauvage".
      Como estamos tratando da Espanha nesse relato, vamos colocar esses termos tal como os espanhóis os entendem.
      A "acampada libre" (pernoite com barraca montada por vários dias) é proibida em toda a Espanha, inclusive em todos os parques nacionais e regionais. Algumas comunidades autônomas a permitem, mas com muitas restrições (ver abaixo). Já a "acampada nocturna" é permitida em três dos dez parques nacionais da Espanha continental (Ordesa y Monte Perdido, Picos de Europa e Sierra Nevada), com restrição de horário para montar e desmontar a barraca e somente acima de determinada altitude. O "vivac" (pernoite sem barraca) é permitido apenas nos três parques citados e no Parque Nacional de la Sierra de Guadarrama. A questão fica nebulosa quando a normativa do parque proíbe explicitamente a "acampada libre" mas não fala nada sobre a "acampada nocturna" e o "vivac".

      Pico La Covacha (2394m), ponto mais alto do trekking
      Quando o trekking é feito fora das unidades de conservação o que vale é a legislação do município e da comunidade autônoma. Fontes de consulta sobre as normas das comunidades autônomas são este site e este site. Neles vemos que a maior parte das 17 comunidades autônomas proíbe a "acampada libre" e a "acampada nocturna", ou as permite com muitas restrições como: distância mínima de cidades e estradas, número reduzido de barracas e pessoas, tempo máximo de permanência, exigência de permissão das autoridades locais. Mas a legislação do município é superior à da comunidade autônoma, o que torna ainda mais difícil saber se o acampamento (com ou sem barraca) é permitido em determinado local.
      Este trekking atravessa duas unidades de conservação: o Parque Regional de la Sierra de Gredos e a Reserva Natural Garganta de los Infiernos. No primeiro a "acampada libre" é proibida, sem fazer menção à "acampada nocturna" e ao "vivac"; no segundo as três formas de pernoite são proibidas (veja aqui e aqui). Nos arredores desses parques vale a legislação das comunidades autônomas de Castela e Leão e Extremadura. Ambas também proíbem a "acampada libre" (veja aqui e aqui), sem referência nos textos oficiais à "acampada nocturna" e ao "vivac".
      O que fazer durante uma longa travessia então?
      Se você for adepto do bivaque (dormir apenas com saco de dormir, sem barraca) não deverá ter problema algum. Se quiser montar a barraca, escolha um local bem discreto e afastado, fora do caminho e bem longe de estradas e casas. Monte a barraca ao anoitecer e desmonte ao nascer do sol. Deixe o local exatamente como o encontrou, as regras de mínimo impacto devem ser sempre seguidas (veja aqui). Para quem gosta de fazer fogueira, é melhor esquecer.
      REABASTECIMENTO DE COMIDA
      O único mercado ao longo de todo esse trekking está na cidade de Jarandilla de la Vera, por onde passei no 10º dia. O Refúgio Elola (3º dia) serve refeições. A cidade de Bohoyo (7º dia) tem um restaurante e dois bares. O Camping La Guilera (8º dia) tem restaurante. Algumas pequenas cidades do caminho têm mercearia ou padaria mas é melhor não contar pois fecham para a siesta por várias horas durante o dia.
      Nas duas pontas desse trekking:
      1. Cuevas del Valle tem restaurante e mercearia
      2. Tornavacas tem mercearia
      Como esse pequeno comércio pode estar fechado, é recomendável trazer a comida de uma cidade maior, como Madri.

      Serra de Gredos
      1º DIA - 25/06/19 - de Cuevas del Valle à crista da Serra de Gredos
      Duração: 4h (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 1839m na crista da Serra de Gredos
      Menor altitude: 844m em Cuevas del Valle
      Resumo: nesse dia encarei a subida inicial da Serra de Gredos a partir da cidade de Cuevas del Valle, com desnível de 995m desde essa cidade à crista da serra
      Na Estacion Sur em Madri tomei o ônibus da empresa Samar às 11h para a cidade de Cuevas Del Valle. Desci do ônibus às 13h52 e aproveitei que havia um restaurante a poucos metros para uma última refeição decente antes de entrar na trilha. Altitude de 844m. Iniciei a caminhada às 15h05 cruzando o asfalto da N-502 e depois a cidadezinha de Cuevas del Valle no sentido norte. Como era hora da siesta, o lugar estava completamente deserto. O calor ajudava a manter as pessoas dentro de casa, longe daquele sol forte. Há uma bica de água fresca num largo logo à entrada da cidade para abastecer os cantis já que não haverá muitas fontes nesse dia. Passei à direita da Capela de Nossa Senhora das Angústias e na bifurcação seguinte tomei a direita, subindo e seguindo a sinalização da GR 293 em direção a Puerto del Pico (para mais informações sobre as trilhas GR: es.wikipedia.org/wiki/Sendero_de_Gran_Recorrido). Esse caminho é chamado de Calzada Romana.
      Mas logo tive de fazer a primeira parada na sombra, por 30 minutos, pois o sol estava fritando. Continuando a subida, fui à direita na bifurcação e encontrei um cocho com água corrente, mas cheio de lama ao redor. Às 16h08 cruzei a N-502 e continuei subindo pelo calçamento de pedras da Calzada Romana. Parei mais três vezes na sombra. Às 17h34 cruzei mais uma vez a N-502 e 17 minutos depois parei na última água do dia para completar todos os cantis. O caminho faz um zigue-zague e já se avista Cuevas del Valle bem abaixo. Passo pelas ruínas do Portazgo (posto de pedágio do século 13) às 18h07 e 10 minutos depois termina a Calzada Romana junto à rodovia (altitude de 1371m). Esse lugar se chama Puerto del Pico (puerto em espanhol significa passo entre montanhas) e aqui entro nos limites do Parque Regional de la Sierra de Gredos. Puerto del Pico é o limite natural entre os maciços central e oriental da Serra de Gredos.
      Continuo por caminho paralelo à N-502 com a extremidade oriental do Maciço Central da Serra de Gredos à minha esquerda esperando para ser "escalada". Entrei no primeiro asfalto à esquerda e caminhei apenas 70m até um portão de ferro com mata-burro ao lado. Não cruzei o portão, entrei na trilha à esquerda antes dele às 18h25. Uns 170m depois entroncou uma outra trilha vindo da esquerda e a segui até encontrar uma cerca. Acompanhei a cerca subindo para a esquerda e ao final dela a trilha desapareceu por alguns metros. Segui os totens e a reencontrei. Já estava subindo a encosta da Serra de Gredos. Do outro lado de Puerto del Pico, a leste, avisto bem marcada a trilha de ascensão ao Pico Torozo, este pertencente ao Maciço Oriental da Serra de Gredos.
      A subida pareceu ter fim aos 1622m, às 19h28, mas continuou. Procurei me manter à direita para chegar logo à crista. Novamente a subida pareceu ter fim aos 1749m, às 20h19, porém só atingi mesmo a crista da Serra de Gredos às 20h43, aos 1839m. Logo surgiu um aceiro vindo da direita e o tomei para a esquerda. Em 200m cheguei a uma estrada de terra bem no alto da serra (!?) e resolvi parar às 21h17 num lugar plano, abrigado do vento e sem tantas pedrinhas para montar a barraca. A primeira impressão da Serra de Gredos foi empolgante, com ampla visão em 360º. Há muitas formações rochosas de formatos curiosos, com grandes pedras equilibradas umas sobre as outras. Dali do alto também pude contemplar um belo pôr-do-sol às 21h45. Altitude de 1814m.

      Serra de Gredos
      2º DIA - 26/06/19 - pela crista da Serra de Gredos até o Pico Peña del Mediodía
      Duração: 6h35 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2221m em Peña del Mediodía
      Menor altitude: 1810m
      Resumo: caminhada para oeste pela crista da Serra de Gredos, porém quase não há trilha definida. Procurar o caminho (ou abrir caminho) entre as moitas de piorno foi cansativo.
      Do local onde acampei na crista podia avistar toda a paisagem dos vales ao norte da Serra de Gredos e a continuação da serra para oeste, meu destino nos próximos dias. 
      Deixei o acampamento às 10h42 e voltei a caminhar pela estrada no sentido oeste, mas quando ela fez uma curva para a direita (norte) subi à esquerda sem trilha seguindo totens para me manter na crista da serra. Às 11h39 um amontoado de rochas com uma coluna no topo me chamou a atenção e subi para conferir o que havia ali. Trata-se do cume La Fría, onde foi instalado um vértice geodésico. A visão para oeste se amplia bastante.
      Na continuação, me deparei com um grupo de cabras montesas que imediatamente fugiu, porém um filhote ficou para trás, no alto de uma pedra, apavorado com a minha presença. Ele saiu bem na foto, rs. A encosta norte da serra nesse ponto tem várias estradas de terra e há mais em construção, o que tira todo o "clima" de montanha do lugar. 
      Às 12h25 cruzei uma fileira de mourões sem cerca (ainda) e 32 minutos depois encontrei uma bica de água quase seca, apenas um fio escorria, mas consegui coletar mais abaixo e bebi o máximo que pude pois as fontes são muito raras nessa serra (essa foi a única água desse dia). Um marco de madeira fincado tem uma plaquinha "Senda Puerto del Arenal". Continuei às 13h55 e 190m depois cheguei a uma placa em que se lê: Puerto del Arenal - Ruta Navarredonda-Puerto del Arenal PR-AV 45 (mais informações sobre as trilhas PR em es.wikipedia.org/wiki/Peque%C3%B1o_Recorrido). Nesse ponto chega uma trilha que vem da localidade de El Arenal pela vertente sul da Serra de Gredos e que serve como rota de fuga ou início alternativo a esse trekking. Já vinha avistando El Arenal lá embaixo no vale desde o Pico La Fría.
      Às 16h11 outra placa: Puerto de La Cabrilla - PR-AV 44, que é outro caminho de El Arenal a Navarredonda de Gredos. A partir daqui a serra começa a se mostrar mais florida pois surgem os grandes campos de piorno, que dá flores amarelas em abundância. A dificuldade era abrir caminho entre os piornos já que não encontrava trilha definida e contínua.
      Às 20h05 alcanço a maior altitude do dia no Pico Peña del Mediodía, de 2221m, também com uma coluna e um vértice geodésico. A partir desse pico aparece uma trilha ininterrupta, antes só pedaços de trilhas. Continuando para oeste, 400m depois do pico desvio alguns metros à direita até um marco de granito para fotos. A partir do marco a trilha inicia uma longa descida a um outro "puerto". Desconfiei que seria difícil encontrar um lugar plano para a barraca, então procurei nas imediações do marco, onde o terreno era plano e as moitas de piorno me davam alguma proteção contra o vento. Altitude de 2211m.

      Cabra montesa e ao fundo os picos Almanzor e La Galana
      3º DIA - 27/06/19 - do Pico Peña del Mediodía ao Refúgio Elola
      Duração: 8h30 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2262m
      Menor altitude: 1948m na Laguna Grande
      Resumo: continuação pela crista da Serra de Gredos passando por dois refúgios em ruínas e descida ao Circo de Gredos, com a Laguna Grande e o Refúgio Elola
      Iniciei a caminhada do dia às 9h10, passei pelo marco de granito e comecei a descer ao Puerto del Peón. A decisão de acampar lá no alto se mostrou muito acertada pois encontrei um grupo enorme de jovens bivacando cerca de 300m antes do puerto. Como é proibido montar barraca eu teria no dia anterior que caminhar bem mais e me afastar deles para poder acampar. Às 9h42 passei pela placa que indica o Puerto del Peón, local que marca uma travessia no sentido sudeste-noroeste da Serra de Gredos e que provavelmente era o roteiro daquele grupo pois não os vi mais.
      Na continuação para sudoeste, a trilha cai por algum tempo para a vertente norte da serra e depois obriga a subir à crista outra vez. Cruzo mais campos de piornos floridos mas em seguida chego a uma região mais árida da serra, um local praticamente só de pedras, e ali, às 11h14, me deparo com as ruínas do Refúgio Los Pelaos, todo de pedras. Há bons espaços para pernoitar protegido do vento desde que você não se impressione com as paredes prestes a desabar. O local também é rota de uma travessia no sentido norte-sul da Serra de Gredos. Uma caminhada alternativa seria subir ao Pico La Mira, de 2343m (desnível de apenas 91m desde as ruínas), mas não encarei. O mais importante: tem água.
      Às 12h33 prossegui na trilha para oeste e 190m após as ruínas atinjo a maior altitude do dia, 2262m (alcançarei outra altitude igual ainda nesse dia). No horizonte a oeste já avisto uma cordilheira com os picos Almanzor, La Galana e o passo Portilla del Rey, pelo qual passarei entre a Laguna Grande e as 5 Lagunas. A trilha volta a cruzar o tapete amarelo de flores e a crista continua o seu sobe-e-desce. Caminho por alguns trechos com calçamento de pedras. Às 15h05 fui à esquerda (sudoeste) numa bifurcação seguindo os totens, sem trilha definida (à direita teria descido a um estacionamento chamado La Plataforma).

      Campos de piorno
      Às 15h21 avistei a oeste o Refúgio del Rey, ainda bem distante. Desci e ao subir ao topo da colina seguinte visualizei a trilha à frente e abaixo. Desci novamente e a encontrei às 16h29. Com mais 8 minutos cheguei ao Puerto de Candeleda (com placas indicando ser a PR-AV 46), outra rota que cruza a serra de norte a sul. Parei para descansar e comer, e para meu espanto apareceu um outro louco solitário fazendo a travessia da serra com um enorme mochilão com não-sei-quantos litros de água. Conversamos um pouco e ele seguiu na frente. Às 17h22 continuei na direção oeste numa longa subida, percorrendo depois uma crista para o norte. Às 18h06 fui à direita numa bifurcação para ver de perto as ruínas do Refúgio del Rey. Ao lado fizeram um cercado com as pedras desabadas que serve como abrigo do vento para um bivaque. Perto do refúgio encontrei água quase parada mas 80m à frente (norte) havia uma ótima bica. Continuei para o norte por uma trilha larga às 18h55. 
      Às 19h17 cheguei a uma cabeceira de vale com capim bem verde e bastante água, ao contrário da secura que vinha enfrentando até aqui. Seguindo os totens cruzei o riacho e subi por um caminho construído com pedras, passando por pequenas lagoas. Às 19h52 uma bonita visão para a esquerda (oeste) das montanhas pontiagudas próximas à Laguna Grande, meu destino nesse dia. Porém a laguna estava bem longe ainda e a descida direta para oeste não se mostrou animadora pela inclinação e ausência de trilha. O jeito foi continuar para o norte, dando uma volta bem grande, mas por trilha bem marcada e segura. Aqui atinjo também a maior altitude do dia, 2262m. Fui à esquerda na bifurcação e comecei a descer. Às 20h33 cheguei a uma bifurcação em T e continuei descendo para a esquerda. À direita se vai à Plataforma e esse é um caminho bastante usado para chegar ao Refúgio Elola em cerca de 5h. Passei por uma fonte de água e continuei no rumo sudoeste até as margens da Laguna Grande. Contornei toda sua margem leste e sul para enfim chegar ao Refúgio Elola às 21h36, quase no pôr do sol. Esse local é conhecido como Circo de Gredos.
      Este refúgio foi o único que encontrei guardado, ou seja, com guardiões, que aliás estavam jantando e por sorte sobrou alguma janta para mim também. Dentro do refúgio deve-se usar apenas chinelos ou crocs, disponíveis em prateleiras na entrada. Há armários com chave. Os quartos são coletivos e têm beliches bem largas onde dormem muitas pessoas uma ao lado da outra, por sorte havia pouca gente e não precisei dormir espremido. A reserva costuma ser obrigatória mas pelo número pequeno de hóspedes não houve problema em não tê-la feito. O banheiro não tem vaso sanitário e sim uma peça de metal com buraco no chão, como no Nepal. Altitude de 1958m.
      Talvez o principal destino dos montanhistas que procuram esse refúgio seja o Pico Almanzor, o mais alto da Serra de Gredos, com 2591m.
    • Por Marco_AV
      Fala pessoal! 
      Faz um tempo desde minha última postagem.. pandemia postergou várias viagens planejadas, mas aqui estamos para mais um relato! Apesar de já ter feito algumas trilhas e escaladas em algumas viagens, como por exemplo a Table Mountain na África do Sul e o Monte Etna na Itália, essa foi a primeira viagem que fiz especificamente para isso, portanto, merece um relato mais detalhado, principalmente para aqueles que, assim como eu, são aventureiros de primeira viagem. Sem mais delongas, vamos ao relato! 
      Bom, eu e mais um amigo, após descobrir sobre o Parque Nacional do Itatiaia (1° parque nacional do Brasil que abrange três estados do Brasil, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), ficamos ansiosos para fazer as trilhas do parque. Alguns pontos aqui.. Eu achei muito mal explicado as coisas no site do parque, tive que caçar diversas fontes de informações pra conseguir ir certinho. Pela lista de guias do site, fechamos com o guia Ian, da agência Bem da Terra, e acabamos acertando em cheio.. o guia era super gente boa e atencioso! Ficou R$ 450,00 para duas pessoas para irmos na segunda-feira ao Pico das Agulhas Negras. É necessário também ingresso para entrar no parque, que estava incluso nesse valor, e pedimos ao guia para comprar um dia a mais de visitação, o que nos poupou um tempo extra de ter que fazer isso na hora. Um casal de amigos meus foram ao parque recentemente e me recomendaram a Pousada Bululu, onde ficamos também. O dono, Bululu é um cara muito simpático e fez toda diferença durante nossa estadia.. a pousada fica à 20 minutos da entrada da estrada que vai pro parque e cerca de 5 minutos do centro da cidade. Pagamos R$ 260,00 a diária para duas pessoas com café da manhã incluso.. destaque para a pousada: 

      Vista da pousada acima.. passa um riozinho bem do lado. 
      Escolhemos o feriado de 7 de setembro, saímos no sábado, com retorno previsto para a terça-feira. Existem algumas maneiras de chegar no parque.. como saímos de Campinas, fomos pela Dom Pedro / Dutra.. escolha errada. Pegamos muito trânsito, mesmo saindo no sábado, levando em torno de 6 horas pra chegar em Itamonte (Aqui vale uma ressalva.. o parque é muito grande, então dependendo do atrativo que você quiser visitar, é recomendado ficar na cidade mais próxima e, no nosso caso, Itamonte era essa cidade.. que fica em Minas Gerais). Chegando na cidade, passamos no mercado para comprar comida para os dias do parque (coisas pra lanches, frutas, água, castanhas, etc.). 
      1° Dia - Prateleiras
      Bom, como tínhamos um dia longo pela frente na segunda-feira, queríamos conhecer o parque e fazer alguma trilha mais tranquila e menos cansativa no domingo. Saímos da pousada às 9 horas e fomos em direção ao parque.. após 20 minutos na estrada, a entrada do parque fica à 15 km em uma estrada muito (MUITO!) ruim.. leva em torno de 1 hora para percorrer esses 15km.. é triste de ver a situação precária da estrada, considerando que é uma BR. O desprezo é um espelho do que acontece em várias áreas do país.. mas, enfim. Chegamos na entrada do parque por volta das 11 horas (quase sempre pega-se fila pra entrar no parque, precisa preencher alguns termos, dizer qual atrativo você vai, etc.), estacionamos logo na entrada.. outro ponto a ressaltar aqui. O parque é muito grande.. da entrada do parque até o Abrigo Rebouças que é o mais próximo das trilhas dá em torno de 3km, ou seja, pra ir e voltar pra entrada são 6km que você terá a mais além do percurso da trilha, então, procure parar o mais próximo possível do começo da trilha que você for fazer. Acabamos optando pelo Pico das Prateleiras, onde à princípio iriamos até a base dela, pois até o cume precisaria de guia e seria mais exaustivo também. A ida até a base é bem tranquila.. leva em torno de 1 hora.. porém, chegando lá, quisermos ir um pouco mais, e desse pouco mais, acabamos indo até o cume 😬, pois nos enturmamos com um pessoal que estava com guia e acabamos indo junto.. Valeu todo o esforço que não tínhamos planejado (e que não foi pouco!). A vista de lá era surreal! 
       
      Ao longo da trilha.


      Há alguns trechos como esse, onde você tem que passar por dentro das rochas. 

      Vista do cume. Observação para a caixa metálica, onde contém um livro que as pessoas que sobem podem assinar, deixar alguma mensagem, etc.
      Na volta do cume, o pessoal ia fazer um rapel em um dos pontos e nos seguimos sem eles.. quando chegamos na base, a gente não conseguia encontrar o caminho de volta e aqui fica um adendo.. o Prateleiras é muito mais simples do que o Agulhas Negras, mas, sempre optem por um guia, ou alguém que já conheça o percurso para evitar se perderem igual aconteceu com a gente. Por sorte, tinham algumas pessoas lá que nos auxiliaram na volta.. Todo esse percurso, até o carro que estava quase na portaria 😪 levou em torno de 5/6 horas, mais 1h30 até a pousada, chegamos em torno das 18:30. Resumindo, tínhamos um longo dia pela frente na segunda e chutamos o balde no domingo, rs. Mas, valeu todo o esforço! E um check em um dos atrativos mais visitados no parque. Chegando na pousada, jantamos e logo fomos dormir.. tínhamos que estar na entrada do parque as 7 horas da manhã para encontrar o guia 😬.
      2° Dia - Pico das Agulhas Negras
      Acordamos as 04:30 da manhã para conseguir chegar ao parque as 7hrs. Ponto positivo para a pousada, que deixou preparado o café da manhã mesmo nesse horário. Como eles estão acostumados com o pessoal saindo cedo, bastou falar para o Bululu que ele já se dispôs a fazer essa gentileza pra gente. Bom, nos reunimos com o pessoal que ia junto com a gente para a trilha, e fomos em 11 pessoas (2 guias). Eu acho que foi mais gente do que deveria, para esse tipo de trilha, considerando que tem vários trechos com rapel, demora muito para todo mundo caminhar junto.. acredito que um grupo de 4 a 5 pessoas seja o ideal. Enfim, seguimos do Abrigo Rebouças em direção ao Pico das Agulhas Negras, sendo que o trajeto todo, subindo e descendo duraria em torno de 8/9 horas. Até a base do pico é bem tranquilo, caminhada sem muitos esforços.. à partir da base é que a coisa começa a complicar (bem mais do que o Prateleiras). A diferença entre as duas é que o Agulhas tem muitos mais trechos de pedra e o esforço com os joelhos e com os braços é muito maior..

      Primeiro trecho de rapel.

      Eu, Gui e Ian (nosso guia) no segundo trecho de rapel, à 10 minutos do cume.

      Vista do cume das Agulhas Negras (na verdade esse cume é o que chamam de cume "falso", pois existe um ao lado, que é preciso fazer 1 rapel de descida e mais um de subida, e é o verdadeiro cume, onde também fica localizado o livro para assinar. Obviamente que fomos, mas nem todos os guias levam até lá, e também nem todas as pessoas vão, pois é um pouco mais complicado e exige mais, psicologicamente e fisicamente).

      Foto do cume do Agulhas Negras, à 2791m de altitude 🤘
      Como tinham algumas pessoas lá, demorou mais do que o previsto para descermos, sendo que começamos o retorno em torno de 13:30hr, o sol estava estralando! No retorno, na parte do segundo rapel, há uma possibilidade de fazer o rapel por um outro trecho, com 18 metros de altura.. foi muito massa!

      Segundo trecho do rapel, no retorno.
      A volta exige bem mais do que a ida.. uma por já estar cansado, e outra pelas pedras, que te fazem usar muito os joelhos e os braços.. Após um dia muito limpo, com muito sol, chegamos de volta no abrigo rebouças por volta das 17:30hr, e o tempo lá muda demais.. as 18hrs já estava fazendo 7, 8° graus.. ou seja, é sempre bom levar uma blusa reforçada, além de que, no cume das montanhas venta demais, e eu sempre ficava tirando e colocando a blusa..

      Na ponte do abrigo, com o pico das Agulhas Negras ao fundo, iluminado pelo sol já se pondo.
      Não preciso dizer que nosso retorno foi muito cansativo.. acumulando os dois dias de trilha, estávamos exaustos, mas de mente aberta e havíamos superado nossos medos de altura, rs. No retorno a pousada, só nos restou tomar um belo banho quente, jantar e preparar para o retorno no dia seguinte. Optamos por voltar por Minas, a estrada é de maioria pista única, mas o caminho é bem bonito, então valeu a pena! Espero fazer outras trilhas em breve, me despertou um sentimento muito bom, de superação e aventura.. e, espero ter ajudado também os montanhistas de primeira viagem, assim como eu!
      Obrigado e até a próxima!

    • Por Robson De Andrade
      Se o mundo não acabar, lá vou eu kkkkk
      Já não dava para adiar o inadiável, tinha de ser agora ou sabe se lá quando.
      Sai de Porto Alegre às 13 horas do dia 28, previsão de chegada lá por volta das 16 horas.
      Passagem de volta só na Estação Rodoviária de Muçum, vou lá pegar a minha kkkk
      As estradas para o interior são muito boas, a paisagem é agradável aos olhos a primeira vista.
      Em Guaporé desci numa calçada, vi um táxi e pedi para me levar até o Hotel 55 54 9106-7404
      Ande com um pouco de dinheiro rapaz, tive que ir numa agência sacar para pagar o taxista.
      No Hotel Rocenzi ninguém usava máscara, foi assim até o dia seguinte a minha saída.
      Fim de tarde tive que ir num mercado local debaixo de chuva, por insistência do Sr. Rocenzi levei seu guarda-chuva rsrs
      Tudo de boa no hotel, só aguardar pelo dia seguinte.
      Meu plano era sair sem café da manhã e caminhar até os trilhos, só que não.
      Fiquei para o café da manhã, deveria ter comido mais rsrs
      E o plano de ir a pé também rodou, chamei um táxi que me deixou na estação, a chuva caiu logo em seguida, teria tomado ela na cidade se tivesse saído a pé.
      Ajustei a mochila nas costas protegida com sua capa, usei uma jaqueta impermeável que comprei em Porto Alegre, na Decathlon, já sabendo que ficaria feio o tempo durante a minha travessia.
      A estação reformada de Guaporé.

      Primeiro Dia: Chuva, chuva e mais chuva
      "Não é um dia ruim só porque está chovendo." segui de boa, não tinha me entusiasmado tanto assim rsrs
      Os primeiros passos são... sei lá os primeiros passos, um pouco chato, margeando casas, estradas, lixo visível nas beiradas...
      Quando cheguei no meu primeiro túnel abri um sorrisinho, fiz o mesmo quando cheguei no meu primeiro viaduto.

      Choveu praticamente o dia todo e quando parava tinha de tirar a jaqueta impermeável para logo em seguida botar ela outra vez, o terreno castiga e os pés começam a sofrer, todo o caminho é só pedras, dormentes.
      Dentro dos tuneis bateu uns pensamentos sobre a morte, a solidão que me seguiram por boa parte da travessia. Eu tive a ideia de parar e desligar a lanterna para ficar naquele estado de completa escuridão e silêncio, talvez aquele fosse o mais próximo da morte estando vivo, consegue imaginar escuridão total e silêncio? Mas eu estava vivo e tinha de seguir, que alívio trouxe cada luz da saída.
      Fiz uma pausa para comer, descobri que tinha comprado pão de alho, não era bem isso que queria haha
      Nunca mais quero saber de pão de alho e atum em óleo.
      Optei por não fazer fogo, enlatados são uma boa opção, barrinhas de amendoim também, pão de alho não rsrs

      Lá pela metade do dia fez um solzinho. E o resto da tarde cairia mais chuva.
      Chuva pra caralho! cheguei na estação abandonada com a bota encharcada, a água escorreu da calça para a coitada da bota.
      A estação abandonada me segurou, ali tirei as botas e segui de chinelo, os meus pés agradeceram, os ombros não tinham muita escolha, lá perto do fim da tarde já chegava no meu limite.
      Parei perto do Recanto da Ferrovia; não estava nos meus planos ir lá. Quando cheguei  fui recebido por um cachorro muito simpático, não vi uma alma humana, já tava querendo vazar dali, até que o proprietário do lugar, o Clair surge nada simpático se comparado com seu cão. Acho que pensou que estava invadindo, depois disse que tinha que ter reserva, trocamos umas ideias, cada um no seu cada um, acabei ficando assim mesmo, pra mim tava bom, ali tomei banho, escovei os dentes e me reorganizei para vazar pela manhã.
      O trem passou algumas vezes durante a noite, fazendo um tremendo barulho.

      Segundo Dia: Sol
      O sol já dava as caras quando passei pelo Viaduto Pesseguinho, este também vazado, dava pra andar num bom ritmo pelo meio e dificilmente você vai cair se ficar só no meio. Andava parando para olhar ao redor, meu medo de altura não é lá grande coisa, mesmo assim eu senti que ia travar por lá junto do receio do trem passando por ali, imagina a correria ali rsrs
      Há placas com avisos de que não é permitido fazer passeios por ali. Bem, o que não é permitido? kkk
      Tomem cuidado dentro dos tuneis, eu tropecei uma vez e quase fui ao chão, fora que meu pé torceu umas duas vezes; sem grandes problemas.
      Parte de alguns tuneis desabaram e devem estar desabando, vi água saindo das paredes no meio de um túnel, não precisei correr até um daqueles "abrigos". Havia dormentes arrebentados e soltos dentro do túnel, sinal de que poderia dar merda.
      Há um túnel de mais de 1200 metros, este deu pra perder a noção do tempo por lá, e outros que você sonha kkkk
      Tentei seguir uma trilha perto de um túnel, ela ia pra cima de um morro, subi com mochila e tudo, até que vi uma fita, acho que era uma fita vermelha, fiquei receoso sobre aquilo, desci rapidinho, mas de ré em alguns pontos, caso contrário a queda seria engraçada kkkk
      Ao longo do caminho se vê locais de acampamentos, eu sabia que mais tarde teria que procurar um, os bons foram ficando para trás.
      Há lixo deixado pelo caminho, guardem o seu lixo e jogue na lixeira da cidade mais próxima.
      Fiz o meu almoço diante desta linda paisagem e o rio Guaporé nervoso lá embaixo
      ,
      Segui com o sol de rachar.
      Percebi que o lugar não é totalmente isolado; há sítios e fazendas por quase todo caminho, às vezes ouvia pessoas falando, cachorros latindo, carros transitando por alguma estrada... Há sinal de telefone e até o 3g tava dando sinal em alguns trechos haha
      Achei uma cachoeira perto de um túnel, melhor água que tomei, haha
      Água não falta pelo caminho, obviamente de procedência duvidosa, usem clorin moças e rapazes kkk

      Uma surpresa no trilho, tomando um sol talvez?

      A mochila já castigava novamente, os pés pediam para parar e minha teimosia de continuar era maior.
      Saindo de um certo túnel, já tinha perdido as contas de qual era, mas era perto do ponto mais "turístico". Ali vi pessoas de bobeira, a primeira impressão é de manter distância e ficar esperto, mas vi que era um casal, trocamos algumas ideias e segui...
      Mais pra frente, encontro outras pessoas, um grupo de amigos fazendo a travessia até Guaporé, trocamos umas ideias também.
      Havia pessoas em outro túnel com lanternas, poxa vida ali percebi que não estaria mais sozinho rsrs saindo dali mais um grupo de pessoas, que estavam retornando, segui junto deles, conversamos sobre como fui parar ali, de onde era, para onde vamos...
      Confesso que foi a primeira vez que senti seguro ao caminhar por outro túnel, na verdade a companhia das pessoas que tinha acabado de conhecer trouxe essa sensação, um deles se ofereceu para carregar minha mochila, passamos por trabalhadores fechando um lugar que tinha uns arcos, e mais pessoas surgiam, quando saímos do túnel tinha praticamente dezenas de pessoas do outro lado. O rapaz  apertou minha mão, desejou me sorte e perguntou meu nome, respondi e ele me disse o seu, e seguimos nossos caminhos.
      Segui desviando das selfies, dos caras das agências kkkk fui parar lá no meio do v13, cansado, a paisagem maravilhosa, até que mais gente se aproximou e eu tinha de ir. Por ali passou pessoas com cachorros, crianças, dei boa tarde, uma mulher me perguntou o que estava fazendo ali com a mochila nas costas, há maluco para tudo né? rsrs
      E assim uma hora você está completamente sozinho, no outro dia encontra pessoas dispostas a carregar sua mochila, apertar sua mão e lhe desejar sorte. Experimente um pouco de solidão e boas companhias também
      E continuei com minha teimosia, só pararia se achasse um lugar para acampar quando o sol já tava se escondendo, muitos paredões de pedras... Fique atento aos sinais do corpo rapaz, é hora para tudo, hora de caminhar, hora de parar, de cansar, de descansar... Terminei o dia exausto, montei a barraca e tentei dormir, a noite choveu pra caralho e o fim estava próximo.

      Terceiro dia
      O último dia começou, escovei os dentes, desmontei a barraca, arrumei as coisas, já não estava me sentindo bem, o cansaço do dia anterior ainda estava lá, andava cambaleando, a água estava ficando intragável, só queria parar. Acabei sonhando com mais tuneis e viadutos, pensei que o v13 estava a minha frente, quando na verdade já tinha passado por ele, encontrei um casal indo na direção contrária, apenas um bom dia.
      Quando vi a plaquinha de Muçum vi que o meu "sonho cansado" tinha chegado ao seu fim.
      A travessia pede prudência, paciência e resistência.
      São quase 60km caminhando por dormentes, pedras, tuneis e viadutos.
      Em Muçum me hospedei no Hotel Marchetti 55 51 9566-8544 muito bom o lugar.
      Almocei no Kiosque da Praça, os caras não usavam máscara huehue Mas a comida compensou.
      A noite pedi um hambúrguer que fica ao lado do hotel, havia alguns jovens no local vivendo como se não houvesse segunda-feira haha
      As passagens para Porto Alegre são vendidas na estação rodoviária, só aceitam dinheiro.
      Em POA me hospedei na chegada no POA ECO HOSTEL 55 51 3377-8876. Fiz a reserva pelo HostelWorld
      Na volta para POA fiquei hospedado POA CENTRAL - Acomodação Econômica 55 51 9415-5531.
      Se um dia retornar optaria pelo POA ECO HOSTEL sem dúvidas
      A empresa que opera por aqueles lados é a Bento Transporte, comprei a passagem até Guaporé pelo app da Veppo.
      http://www.bentotransportes.com.br/horarios
      Minha viagem não terminou em Porto Alegre como previsto, mas em Santa Catarina, e isso é uma outra história
      Agora devo estar de quarentena, quem sabe? rsrs
      Até a próxima.




    • Por Patricia Lopes Szcspanski
      Circuito vale europeu caminhante, 9 dias em Santa Catarina.
      Desde de que fiquei sabendo da existência desse caminho em Santa Catarina, sonho em faze lo. Amigos me falaram, foram de bike. De bike o circuito é um pouco maior, mas passa pelas mesmas cidades. Não é um caminho peregrino, é mais um caminho contemplativo. Repleto de cachoeiras, serras, morros, mata nativa, e as influências da colônia européia. Dentre as cidades que o caminho contempla está Pomerode, a cidade mais alemã do Brasil, já Rio dos Cedros prevalece a influência italiana, e assim por diante.
      Convidei amigos, e a princípio, duas amigas toparam ir comigo, iríamos em 4 pessoas: eu, meu marido Adriano e duas amigas. A proposta era caminhar dia a dia e fazer os pousos no carro mesmo, já que o carro é grande e os bancos traseiros podem ser virados pra trás e sobra espaço para uma boa cama. Adriano seria o apoio, percorrendo os trechos de carro e nos esperando sempre com um almoço providenciado. 
      Mas bem perto da data estimada, uma das amigas desistiu de ir por problemas pessoais, fiquei apenas com a parceria de Luci, 64 anos (a idade de minha mãe) japonesa, pequena em estatura e grande em valentia, garra e determinação! 
      Decidi levar meus filhos: Heitor de 17 anos e Heloísa de 12, eles não tem nenhum hábito caminheiro, são crianças tipicamente contemporâneas, ligadas à internet e acostumados à vida mansa da cidade grande, a uma realidade em que os pais trabalham e nada lhes falta em casa, sendo assim seria muito bom pra eles sair da zona de conforto, passar uns perrengues brandos ao lado do pai e da mãe, além do contato com a natureza que eles bem sabe que eu muito aprecio. Tava decidido: iríamos em 5: eu, Adriano, Luci, Heitor e Heloísa. 
      A viajem a princípio foi planejada pra ser em Abril, quando eu estaria de férias, mas por causa da pandemia minhas férias foram adiantas, e eu me conformei que não iria a lugar algum. Em meados de maio recebo a notícia que minhas férias tinha que sair e seria no mês seguinte: junho! A princípio protelei, pois o vale europeu é uma região serrana, chuvosa, em junho seria muito frio e não poderia aproveitar as cachoeiras. Mas, resolvi que não iria deixar passar, partiu vale europeu.
      Vou resaltar aqui que não conhecei o caminho pelo começo. O começo é em Indaial, eu comecei por Benedito novo zinco, pois deixei agendado previamente um passeio de trem em Apiúna dia 13 - o trem só faz o passeio uma vez por mês - então precisaria chegar em Apiúna dia 13, e como sai de Londrina no dia 11, iniciamos o caminho 2 cidades pra trás: Benedito Novo.
       
      1° dia vale europeu - chegada em Benedito Novo cachoeira do zinco.
      Saímos à 1:00 do dia 11 de junho, passamos por serração, neblina, e eu, que apesar de estar com muito medo do trânsito, cai no sono... Mas a maior neblina parecia ser mesmo no trecho de Tamarana faxinal... Depois passou... Ou eu que dormi né...
      Chegamos as 13, na cachoeira do zinco onde segundo os mapas seria o ponto de chegada do dia anterior e o início do próximo... no meu caso, o ponto de partida.
      O caminho promete começar na lanchonete do zinco. Mas na cachoeira do zinco, não tinha nenhuma lanchonete! Então ali no meio do mato, com o carro parado no meio do nada, conforme fomos descendo do carro e nos desnumblando com a paisagem, abrindo o porta malas e separando as coisas... As crianças começaram a protestar: - mas chegou? É aqui? Como assim?...
      Frio sim, mas não como esperado, descendo do carro já tiramos as blusas, o sol tava até quentinho.
      Fui até a água, tirei o tênis, molheis os pés... Bem queria ter feito um banho, mas eu tinha guarda costas!! Heloísa tinha pressa... Li que tem como contemplar a cachoeira lá de baixo, vi em algum lugar que tinha um mirante... Mas tudo ficou por ver...
      Como o esperado, o comportamento das crianças não era animador, Heloísa tinha a cara amarrada, tipo: onde eu fui amarrar meu burro!! Preocupada com o secador de cabelos... Com lavar as mãos depois de comer frutas... E Heitor, eternamente cuidadoso e medroso, com medo da chuva (nem tava armando chuva), da altitude, de bichos... Nenhum deles relaxava, preferiram não descer do carro, como que estiverem passando pelo parque dos dinossauros... Com muito custo e insistência, desceram!
      Ali almoçamos pão com atum, bolo, frutas... Ali começamos nosso caminho... mas vesti a blusa de novo... Depois de entrar na água gelada, deu frio!
      No primeiro passo dado, parecíamos duas crianças que ganham um doce, empolgadas, desnumbladas, tudo era lindo, e agora, escrevendo esse resumo, vejo que ali não havia diferença de idade - Luci tem idade da minha mãe - mas eramos mesmo duas crianças brincando de caminhar... Tudo ela dizia: que lindo, que gostoso... Repetia isso como um mantra, a cada minutos, a cada árvore... atrás dessas palavras havia muita gratidão, e a conversa que se seguia iria só confirmar a valiosa história de vida daquela pequena grande mulher guerreira que viveu a vida em função dos filhos, mas que agora olha pra si, e sabe ser grata pela dádiva da vida.
      Olhando no mapa e seguindo rumo à saída de Benedito novo, 8 km depois, pegariamos seguido a Rodeio. Assim fizemos, achamos a saída pra rodeio aos 7 km, e conversando com uns trabalhadores que estavam fazendo roçagem, concluímos que tal lanchonete do zinco realmente existia, estava um pouco mais pra frente, sendo assim, pulamos 1 km do caminho...
      Seguindo em direção a Rodeio... Uma trilha encantadora rodeada por eucaliptos, sem sol, não por estar nublado, mas pelas sombras das árvores no entardecer, com bastante subidas mas também descidas, fomos presenteadas por um lindo por do sol, tão lindo que me emocionei, com lágrimas nos olhos eu pensava: se o primeiro dia é assim, imagine os outros!
      Muita subida, mas nada de mais, seguimos conversando sobre a vida... Sonhos e gratidão, eis que um lugar incrível nos chama atenção: uma lanchonete deserta e toda decorada de bicicletas, na fachada uma bicicleta gigante em madeira de uns 3 metros, e cada detalhe da lanchonete feito em madeira maciça, outra bicicleta em madeira um pouco menor do lado de lá, e conforme tirávamos fotos, percebemos o portão aberto, entramos... Nada, vazia... Banheiros abertos, limpos, com papel, sabonetes de erva doce... Nossa, nada como parar no meio de uma trilha no mato, num banheiro desses... E quando estávamos indo embora, lá vem nosso carro de apoio... Avistamos a blazer do Adriano, que chega contando notícias nada animadora de Rodeio: é uma cidade que não tem nada, só uma lanchonete que só tinha 2 pastéis e nós comemos (esse pastel depois vai dar o que falar)
      Faltavam 8 a 9 km para Rodeio, já eram 17 já e começava a anoitecer... Que tal ficar ali? Aliás tinha banheiros... E o dono não tava em casa... (Lembrei da Susi) mas não é chegou o proprietário!!! Fizemos a proposta e ele nos ofereceu um barraco, uma especie de barracão onde estacionamos e podemos armar a barraca por 15 reais por pessoa, tinha até banho quente, ali jantamos pão, tomamos banho, brincamos de esconde esconde.. olhamos as fotos, postamos, mandamos notícias (tinha até wi fi. Destaque para show que havia no céu: sem quase nada de iluminação artificial, o céu tava um espetáculo de encher os olhos.
      Armamos barraca dentro do barracão, e arrumamos o carro pra servir de quarto, as crianças ficaram com o carro, na barraca dormiu eu, Luci e Adriano.
      Eu acordei várias vezes na madrugada, muito desconfortável, duro, e dava pra sentir as pedras, mas, tava dentro da proposta.
      Sobre o trajeto e a caminhada, apenas 15 km dos 25 prometidos pra hoje, mas porque encontramos a oportunidade de pouso antes. É claro, contemplamos muito, paramos pra isso, fotografamos, mas fora isso, o ritmo foi puxado, Luci anda ligueiro... Chegamos até a correr na descida.
      Este relato foi feito picado, comecei a fazer lo na barraca neste dia, mas não dei conta, termino hoje... 9 dias depois, com a conclusão de que a planilha disponível no site não bate com uma oferecida a nós no 3° dia de Caminho em um hotel em que passamos, segundo a dona do hotel, a planilha oferecida por ela é atual, e a uma divergência de distância: na referida planilha atual a previsão é de 19,20 km e a descrição é que o bar das bikes (a bicicleta de madeira gigante) aparece no km 6 pra 7. E nós passamos por ela no km 15 a contar do zinco e por lá paramos. Desconfio que o caminho não é nem o mesmo... A tal planilha atual descreve esse trecho como Benedito Novo estava geral da liberdade até Rodeio, e a planilha do site que seguimos descreve como Benedito Novo zinco até Rodeio. Na época, ainda não tínhamos a tal planilha atualizada.
      Fim do primeiro dia! Resumo: cachoeira, entadecer, subidas, um céu estrelado memorável, momentos em família, melhor não poderia ser.
       
      2° dia Vale Europeu: 12/06/202 - sábado
      Benedito Novo/Rodeio/Ascurra/Apiúna
      Começo lembrando que ontem deixamos uma parte do percurso por fazer: cerca de 9 km, por ter encontrado um pouso na lanchonete das bike. Sendo assim, a ideia era acordar bem cedo pra tirar o atraso. A distância prevista pra hoje era de 19,80 km, seria fácil incluir mais 9 km e chegar antes das 12 ou 13 no mais tardar.
      Não foi difícil acordar cedo... Foi uma noite mau dormida: acordei a noite toda, a cama na barraca estava dura, sentia cada pedrinha, o frio não tinha o que esquentava... 4:30 estávamos de pé. Desmontamos a barraca e dobramos as cobertas, as crianças ainda dormiram no carro, com a temperatura abaixo dos 10 graus, nos paramentamos de agasalhos e partiu. Adriano foi conosco até a saída da estrada principal, cerca de uns 200 m, isso pra gente não errar o caminho no escuro... E não é que a gente errou! 🤦
      Com uma boa lanterna de cabeça, na cabeça da Luci - a do celular parecia não valer nada - ao visualizar a estrada principal, os fundos do bar das bikes, seguimos sozinhas, Adriano voltou... Fiquei pensando... E se ele erra o caminho, ele tá só com a luz do celular, e se cai num buraco, as crianças estão dormindo sozinhas no carro... A gente só pensa bobagem!
      Seguimos num passo apertado e sem muito desnumbre... Tava um breu! Me fez lembrar o caminho das catedrais... Completamente escuro. Foi o dia em que saimos mais cedo e com mais escuro. Na minha cabeça, tínhamos que chegar em Apiúna o mais cedo possível, pra não perder o passeio de trem agendado (atenção, o passeio agendado é domingo, e hoje é sábado, mas eu ainda não me dei conta disso) e o caminho rendeu... Andamos mais de 5 km sem paradas, até que o dia começa a clarear e revelar as belezas do lugar, a trilha sonora dos passarinhos, dos quero quero... E as 7 hs o sol brota sorridente lá das montanhas, um espetáculo que de novo... Me emociona, sigo cantando com lágrimas nos olhos que 🎶 a felicidade está no caminho...
      Casinhas no alto da montanha, uma luz e um colorido sem igual fazem o cenário parecer um quadro impressionista.
      A igreja de Rodeio, capela Nossa senhora de Lourdes, por dentro, no altar uma mesa cujo o pé, digo, a base, um tronco de árvore no seu formato original, mas todo trabalhado com entalhes e um desenho primoroso em alto relevo de uma mão (dizem que se reconhece um bom desenhista pelo desenho de mãos e pés) um sagrado coração e a imagem de um homem na época cristã, assim também é a base de uma mesinha que serve de altar para nossa senhora de Lourdes.
      Em frente a igreja já está o céu, o Cristo de braços abertos rodeado por anjos segurando hortências azuis, e pra baixo segue se o caminho dos anjos. Nessa hora pararam 3 carros com várias pessoas pra tirar fotos, a galera tirou fotos nossas diante do Cristo, e tiramos fotos da galera deles, todos juntos. Eram de Blumenau. Confesso que a espectativa que eu tinha para o caminho dos anjos não se superou: a informação que eu tinha é que era uma subida imensa com anjos dos dois lados, e aí... Se chegava ao céu. Acho que no circuito caminhante acontece o contrário: o céu aparece primeiro (Cristo e os anjos) além do que, pela internet as fotos desse lugar os anjos e todo o caminho está emoldurado por hortências, e quando passamos, as hortências estavam todas mortas, pouquíssimas ainda tinham cor pra se fazer notar, e os anjos precisam carecer de uma reforma: havia anjos sem cabeça, anjos sem dorso, ou tão sujos que mau se via a face, mesmo assim é muito bonito e capaz de encantar e até surpreender quem talvez não tivesse em mente uma descrição mais bonita do que vi pessoalmente. Descendo um pouco, uma casinha tão simples, mas sem muros ou portão, com uma linda e enorme gruta no quintal, tão grande que até parece uma construção pertencente ao caminho - e é - convida a entrar... Sou surpreendida pela dona da casa e entendo que estou entrando em prioridade alheia, peço licença pra ir até a gruta... E nos fundos, um córrego, águas limpídas e convidativas, de fácil acesso, eu se morasse ali tomaria banho de córrego todo dia! Uma riqueza de quintal. Trocamos um dedinho de prosa, a moradora tinha muitas queixas do lugar: "o quintal é bonito mas dá trabalho cuidar, aqui é tudo muito úmido e frio, mesmo nos dias de sol..." O quintal do vizinho é sempre mais verde!
      Seguimos encontramos uma especie de pia, uma torneira no meio da trilha que convidava: "Sirva se, agua de poço artesiano 100% natural"
      Juro que nunca bebi uma água tão gostosa!!!
      Chegamos em Ascurra com a impressão de uma simpática cidade, um lindo letreiro com as palavras: #eu ❤️ Ascurra, uma igreja... praça... Aliás... Que igreja linda!!! Igreja de santo Ambrósio: datada de 1927, com colunas imponente na fachada externa, uma grande escadaria, no interior, lindos arcos entrecruzados no teto lembrando uma influência gótica, no altar, a mesa feita com a base de árvore entalhada igual à igreja de Rodeio, mas única, artesanal, vitrais coloridos, painéis imensos com pinturas de imagens de santo, meias colunas dividindo as partes da igreja e em cada divisão uma pintura diferente, servindo as colunas como molduras, nichos nas laterais com oratórios e imagens em tamanho grande de Santos... E uma paz que só estando lá!!! Paramos, fotografamos, agradecemos e fizemos nossos pedidos!! Lindo demais, talvez a igreja mais bonita de todo o Vale.
      No meio do caminho foi preciso dispensar um pouco os agasalhos, o sol já brilhava forte e o calor já era suficiente. A blusa mau cabia na bolsa.
      Seguimos por um trecho plano, de rodovia, tiramos foto zoando as placas de velocidade: 80 km por hora, paramos no meio da rodovia pra fazer fotos com o temporizador, usando pedrinhas pra segurar o celular, pra que nós duas aparecemos na foto passando pela placa proibido ultrapassagem, depois postei fazendo piada de que só não ultrapassei a Luci porque era proibido kkkk. Entrei dentro de uma manilha gigante na beira da rodovia, coisa de criança... E chegando na igreja matriz de Apiúna já as 13 hs fomos recebidas com uma delícia marmita, estava Verde de fome, mas antes, fui conhecer a igreja que aliás, estava fechada. Mas na fachada externa claramente estilo gótico brasileiro: duas torres pontiagudas, uma rosácea. Do lado um pequeno oratório. Chegamos aos 29 km (vontade de andar mais um só pra fechar 30 kkk), sentia que havia uma bolha no meu pé esquerdo, bem na sola do pé, chegando perto dos dedos, estava sentindo isso já a alguns km atrás, mas enquanto estamos andando, não incomoda tanto, agora sabendo que tínhamos chegando, parece que o pé entende e começa a doer, mas era uma dor de quem andou muito mesmo, e de bolha, eu furaria ela mais tarde. Enquanto saboreava minha marmita, mandei uma mensagem pra organização do passeio de trem em Apiúna dizendo: "boa tarde, cheguei na cidade, pode me mandar a localização?"
      A resposta veio rápido, antes mesmo do fim da marmita: continha a localização pedida e a seguinte mensagem: "lembrando que seu passeio é amanhã"
      Putz! Eu poderia jurar que era domingo, e ainda era sábado!!! Data do passeio: 13/06!!!
      Estávamos programadas pra comer e ir até o endereço do passeio... Mas agora, amanhã teríamos que ficar na cidade de boa durante a manhã, passear a tarde no trem (horário do passeio 15 hs) e seguir o trajeto depois das 16, e se assim fosse chegaríamos tarde no destino seguinte (Indaial), ou, ir até indaial no dia seguinte a pé cumprindo a planilha e voltar até Apiúna de carro tudo isso antes das 15.
      Pois foi essa a escolha. Decidimos que iríamos seguir o circuito no dia seguinte a pé e voltar de carro. Ficamos então com a tarde livre... Muito cansadas mas bem dispostas, somado a disposição do nosso apoio, partiu conhecer a rota das Cachoeiras: rodamos de carro mais de 40 km em meio as montanhas, por estradas que subiam tanto que parecia que o carro iria tombar pra trás, caminhos com desfiladeiros, precipicios, sem acostamento e com as laterais rompidas sabe se lá porque, e que dariam em buracos no vale... Não encontramos nenhuma Cachoeira. Claro que deve ter... Mas acho que um guia nesse caso ajudaria... Mas passamos por lindos lugares.
       Entravamos e saíamos do carro com dificuldades e dizendo: aí ai ai... Tudo doía! Mas Luci era uma Fortaleza, a queixa parava por aí... Eu tinha no rosto um grosseirão, em torno do nariz e boca sentia que a pele estava cheia de brotoejas e descamando, efeito do frio, como se fossem queimaduras do frio.
      Já entardecendo e precisando viabilizar um lugar com banho e descanso. Então fomos pra um posto, e lá, bem conversadinho, banho quente de cortesia, e a autorização pra ficar. Colocamos todas as malas em cima da blazer, arrumamos a cama e boa. Porém a cama mais uma vez era dura, acordei a noite inteira, as luzes do posto acessar durante toda a noite pois o posto era 24 hs e era noite de sábado, e Adriano acordou no meio da noite com um playboizinho mechendo nas nossas coisas!! Segundo Adriano, quando ele viu e abriu a porta do carro, saltou de dentro da blazer, o cara disfarça e tira a mão correndo de sabe lá o que que tava mechendo... Só notamos a falta da tampa do porta escova de dentes, que tava pra fora e bem no local onde o Adriano contou que o cara tava fuçando, de certo na pressa de tirar a mão, melhor era esconder a tampa do que colocar no lugar de novo...
       
      3° dia Vale europeu - 13/06/2021 - de Apiúna à Indaial
      Saímos bem cedo, acho que 5:30, ainda com escuro, antes de sair tomamos café e frutas, passei uns cremes de rosto da Luci em volta do meu nariz e boca, saímos do posto e teríamos que voltar uns 8 km até pegar pra Indaial, pela rodovia, um caminho já conhecido de ontem, e assim partimos: uma rodovia perigosa e sem acostamento, no escuro não há muito o que contemplar, então o passo era largo.
      Estava inscrita em uma corrida virtual hoje, de 3 km apenas, então contei a Luci e na hora ela topa... Boa, partiu correr 3 km. Já havíamos andando 2 e o caminho era plano, parei o aplicativo e recomecei em modalidade corrida, mas com muito agasalho, mochila e cajado na mão, a corrida era na verdade uma caminhada de passos maiores, em 30 minutos, 3 km com Pace de quase 10 kkkk - quase - 9,58 na verdade. Encerrado, paramos e tiramos a primeira foto do dia: só eu pra constar na tela da corrida. Reiniciei o aplicativo de distância e prosseguimos.
      Serviu pra esquentar: mas ainda escuro e cedo demais pra tirar as blusas, seguimos... O dia começava a clarear quando passamos na bifurcação que pegava para Indaial no momento em que passava nosso apoio por nós, a partir de agora a estrada segue pelo meio da cidade, começam a surgir casas num cenário pitoresco, passamos pela igreja Luterana de Ascurra. O caminho margeava o rio Itajaí Açu, passamos por uma casinha que de longe avistei um corcel I 4 portas, laranja, e o provável dono na frente da casa agoando as plantas... Ah... Puxei conversa, pedi licença pra fotografar o corcel, contei que um dia tivemos um também e meu marido morre de saudades... A conversa vai longe, olhamos o "quintal" da casa que além de um lago cheio de plantas tipo de flor de lótus, patos, horta, flores... Ainda tem um morro nos fundos com uma trilha que nos chama atenção. A gente pergunta e ele responde que a trilha é do gado, mas que de vez em quando tem que subir, pois lá de cima vem água encanada das nascentes, e que quando chove demais é preciso ir até lá pra desentupir os canos. Ficamos encantadas!!! E seguimos.
      Em todo o trajeto, todos os dias passamos por pontes, quando elas não estão no meio do caminho, estão próximas, a vista, e desviamos pra passar por elas, só pra cruzar e voltar, ver a vista de lá, fotografar... Como duas crianças mesmo, só pelo gosto de passar na ponte! Igrejas luteranas tem de monte, sempre passamos por uma, e são lindas, e a e hoje... Um casamento: uma noiva saindo da igreja, linda! Passamos pela capela Nossa senhora Aparecida, fomos até a porta e dava pra ver que a mesa do altar tinha a mesma característica: a base feita de tronco de árvore entalhado.
      Na chegada, 28,36 km, almoçamos um delicioso pão com mortadela e já partimos de carro pra Apiúna, pelo mesmo caminho que percorremos, ou seja, voltamos todo o trajeto, pois hoje era enfim o dia do passeio de trem! E é muito gostoso ver de carro o tamanho da distância que percorremos a pé, nem da pra acreditar... A canseira era tanta que o sono bateu, o cansaço era grande, olho pro banco de trás e vejo que a Luci também está no mesmo estado: " pescando" e dormido. Tento não dormir e continuar a contemplar o caminho percorrido a pé, mas... Também cochilo.
      Chegando lá, descemos do carro com dificuldades: tudo dói! Descemos e alongamos, eu sigo mancando, a bolha que ontem eu furei voltou a encher e eu sentia a água dentro da bolha "chacoalhar" no meu pé desde de os últimos km do percurso de hoje.
      Chegamos cedo, as 14. O passeio é as 15. Dá tempo de pegar os bilhetes e escolher um lugar pra sentar. O lugar é lindo e cheio de cenários para fotos: portais com flores, carroças, bancos de madeira... Sentamos e ali mesmo tiro o tênis e furo de novo minha bolha da sola do pé, recoloco o tênis, continuo mancando...
      No sol, um calor gostoso e impossível ficar com blusa, na sombra... Um friioo... Tem que pôr blusa! Adriano deita no banco ao sol, faz das blusas um travesseiro e tira um bom cochilo, enquanto a gente aproveita o tempo pra tirar fotos nos cenários ao redor, e ver as fotos do dia.
      O trem chega apitando, e curioso é que a linha do trem é finita. Acaba Ali mesmo, mas o trem vai e volta... Por onde? Volta de ré?
      Embarcamos todos, tiramos fotos das janelas e inicia se um áudio com orientações sobre o percurso e orientações de segurança: "não coloque a cabeça pra fora, mãos... Não levante..." Heitor está do meu lado e me dá tanta bronca que mais parece minha mãe! Está com medo... O passeio começa e Maria fumaça sai apitando e fumaciando tudo... Passa pela mata, nas margens muitas casinhas singelas e precárias, chega a um ponto onde uma vista previlegiada do rio Itajaí Açu, túnel... Todos gritam... Muito legal, algumas luzes de celular mostram que o túnel é úmido, e depois do túnel logo chega a usina. O trem para e o áudio continua a explicar a história daquele trem, desde de sua construção até quando se torna obsoleto com a chegada das estradas, e que na verdade aquele trecho foi refeito para o passeio. Aí vem a surpresa que revela como o trem volta: basta virar o encosto para o outro lado, e sentar do contrário. Pronto! O trem volta pelo mesmo caminho. É um caminho reto. A volta é didática: parada pra encher os reservatórios de água (não lembro quantos mil litros) e depois uma para nova parada em cima do viaduto pra mostrar a capacidade de vapor, pede pra que a gente olhe pela janela e o que vimos é como se fosse tirar a pressão de uma panela de pressão, mas impressionante!!! O precedimento é repetido dos dois lados do trem, duas vezes pra que todos vejam, da pra ver que as pessoas que estão na rua, em baixo do viaduto, se desnumbram com a cena. O trem segue e finaliza o passeio no mesmo lugar em que começou. Saímos satisfeitos e felizes, e ainda tiramos fotos, tomamos sorvete e seguimos de volta pra Indaial, onde hoje foi o ponto de chegada da caminhada.
      Em Indaial, hoje muito cansadas e tudo doendo, acabamos topando a diária no hotel fink. Ponto de partida do caminho. O caminho começa aqui. Relembro que nossa opção foi começar por Benedito Novo pelo fato de não poder sair de Londrina antes do dia 11, e queríamos estar em Apiúna no dia 13 para o passeio de trem, só se chega em Apiúna no 8° dia de Caminho e se assim fosse, teríamos que sair 8 dias antes do dia 13, pois o trem só tem uma vez por mês.
      Sendo o hotel fink em Indaial o ponto de partida: lá adquirimos nossa credencial: com 3 dias de atraso. Custo: 20 reais. Junto com a credencial vem também uma planilha dia a dia que seguindo a dona do hotel, atualizada, e que aos poucos fomos notando algumas diferenças com a planilha oferecida pelo site oficial do vale. Custo da hospedagem: 280 para os 5. Pouco mais de 50 reais por pessoa, incluso café da manhã. Não é caro, mas para a família, se for pagar isso ao longo dos 9 dias, pesa!
      Banho quente, cama boa... O quarto tinha uma cama de casal onde dormimos as 3 meninas: eu, Luci e Heloísa, e duas camas de solteiro para os meninos. Estávamos tão cansadas que foi difícil ver as fotos do dia, mandar notícias e tudo mais sem que o celular caísse da mão... Lógico, não consegui escrever nada... Logo adormecemos. Dessa vez um sono só! Sem acordar de madrugada... Nada! Merecido descanso.
       
      4° dia vale Europeu - 14/06/3/21 - De Indaial à Timbó. 
      Pra aproveitar o pouso em hotel, dormimos até mais tarde, até porque o café da manhã era servido as 6:30. Então 6 hs estávamos nos arrumando. Não teve como não pensar: "a essa hora já estávamos longe ontem"...
      Mas mereciamos. Tomamos um café de rainha: ovos, bauru feito na chapinha, mamão, bolo, pão de queijo, suco de laranja, pão com requeijão, e ainda fizemos um lanchinho pra levar... 
      Meu rosto melhorou bastante passando o hidratante, antes de sair passo de novo o creme. As dores no corpo se foram e nada mais dói. Era quase 8 quando saímos, as crianças ainda dormiam, Adriano ficou de acorda las pro café, e nós, agora com as devidas credenciais e carimbo, com a planilha "atualizada" na mão, nos orientamos com a dona do hotel pra saída daquele dia e lá fomos nós para o quarto dia, rumo a Timbó.
      Demoro a perceber que estou sem os óculos, sei que usei ontem pra ver o celular antes de dormir, mas não faço idéia de onde estejam.
      Seguindo orientações, tínhamos que caminhar até a ponte dos Arcos, mas a sinalização de placas até lá e a planilha é bem confusa, porém é um ponto conhecido por todos na cidade. Procurando por orientações das setas brancas a gente se perde fácil nesse trecho, e lá se foram uns 2 km perdidas... 
      Achamos a tal ponte! E como os moradores disseram, eram duas pontes sobre o rio Itajaí Açu: uma paralela a outra, quando entramos na ponte dos Arcos, as pessoas num vai e vem que parecia segunda feira - e era - muito trânsito de carros, e de lá... Avista se a outra ponte: uma ponte mais normal. A ponte dos Arcos como o próprio nome diz, é formada por Arcos nas laterais, com passagem para duas vias de carros e duas passarelas para pedestre nas laterais. Quando saímos do outro lado, a indicação de pegar pra direita, independente da indicação, decidimos ir até a outra ponte, passar por ela e voltar, só por gosto, só pra poder fotografar a ponte dos Arcos à distância... Ida e volta na ponte, realizado o desejo de passar por pontes, lá fomos nós, só agora começam a aparecer setas brancas com uma certa regularidade. Eu já tinha colocado no Google maps o endereço de Timbó, por enquanto as indicações batiam.
      No trecho de atravessar a BR, muita confusão! Carência de setas, e uma obra no meio do caminho nos deixou completamente perdidas... Adriano que tentava seguir pelo mesmo caminho também encontrava dificuldades pra se orientar pela planilha e pelas setas que nesse trecho, não existem!!!
      Então íamos pelos próximos pontos de referência da planilha: como chegar a igreja tal... Tivemos que atravessar em meio ao canteiro de obras: muito barulho de máquinas, buracos, monte de pedras empilhadas... Passamos por ali perguntando para os trabalhadores: "pode mesmo passar aqui?" Atolamos o pé no barro branco que mais parecia argila, escorregamos... Enfim, depois de passar em meio ao canteiro de obras, cruzamos a BR... 
      Adriano deu a volta sabe se lá por onde e conseguiu atravessar, a partir daí, seguiu pra Timbó onde ia nos esperar.
      Seguimos agora guiadas pelas setas brancas que reapareceram, e já onze horas passamos por um bosque de Pinheiros cercados por uma cerca de arame farpado... Eu que adoro bosques assim, achei um buraco na cerca e pulei lá dentro. Incrível como depois de colocar os dois pés dentro desse bloco de Pinheiros e estar em suas sombras, muda tudo: o ar é puro, a sombra é densa e o clima é outro, frescor que se não fosse pelo corpo quente de estar caminhando sob o sol a pino e de agasalhos, eu diria que dentro da "floresta" é frio, sinto o frescor de estar dentro do mato, caminho um pouco entre os Pinheiros, fotógrafo, coloco o temporizador pra fazer fotos de mim mesma, aceno pra Luci pra que ela entre também, mas ela, prudente, prefere ficar na beira da estrada me esperando. Fico ali não mais que 15 minutos, saio pelo mesmo buraco na cerca que entrei e seguimos.
      Seguimos pelo caminho rural, de vez em quando uma seta branca, já quase meio dia encontramos um bar, uma venda no meio do nada. O bar é um luxo: com detalhes em madeira maciça, rústico. A dona, paranaense nos conta alguma coisa sobre Arapongas eu acho, Luci toma um café, e eu, acabo tomando mesmo é um sorvete! E água! Devem faltar 10 km ou pouco mais e eu não bebi quase nada de água. Me chama atenção uma cabeça de gado na parede, tipo empalhado, usando máscara, o relógio de parede feito de forma artesanal com uma roda de carroça e garrafas azuis de Skol, e já indo embora: uma gatinha coisa mais linda! De três cores, mas arisca! Tentei pegar no colo mas levei foi uma unhada no peito que por sorte, com as blusas, não pega muito! 
      Seguimos admirando e contemplado as serras, os morros... Sempre avista se uma casinha lá longe no meio das montanhas, que faz a gente acreditar que estamos dentro de um quatro, dentro de um filme! As propriedades na beira da estrada... Com lagoas e lindas flores nas cercas... já passa do meio dia quando chegamos a uma bifurcação onde uma placa indica: CACHOEIRA RECANTO BRILHO DO LUAR. Mas a seta branca manda subir. Os cachorros da propriedade que fica na beira da estrada chega latindo nos assusta, mas o dono vem atrás e resolvemos perguntar: "e essa cachoeira? É longe?" E pra nossa surpresa ele responde: "a 50 metros". Não precisou nem falar, só olhamos uma pra outra, e olhamos pro dono da casa e provável prioritário da cachoeira, ele disse pra gente: vão lá! Pode ir...
      Realmente, não mais que 50 metros. Era um lugar com algumas mesinhas e tudo mais, tipo, com infraestrutura pra se fazer um churras... E muito limpo, não havia lixo algum, eu já logo tirei a mochila das costas, tirei a blusa, fiquei só com top, tirei os tênis e meias, entrei devagar margeando a cachoeira, tinha um caminho feito com madeiras até a queda d'água que descia pela pedra, uma pedra enorme num angulo que parecia um escorregador gigante, de onde a água deságua... Dava pra deitar sobre a pedra e lá ficar, e a pedra não era toda tomada pela água, só no meio é que corria a água, talvez depois de chuvas o volume aumentasse, mas era mansa, com as pedras secas era possível subir até lá em cima. A água descia e formava uma enorme piscina que eu não me atrevi a entrar, embora o fundo fosse visível nas bordas... O meio, sabe lá né. A água... Gelada como água da geladeira!!! Não tive coragem de molhar além dos quadris. Luci tirou os tênis e molhou os pés, nada mais. Ficamos por ali cerca de meia hora. Voltamos.
      Seguindo pela indicação das setas brancas, um caminho em meio a mata nativa, uma vegetação linda, aqueles arbustos que tomam conta das árvores, flores pelo caminho e uma subida de tirar o fôlego, forte concorrente pra ser eleita a mais terrível do circuito, quase um rapel! Fizemos um bom uso do cajado. Subimos em silêncio e eu... Até pensava em parar pra descansar, mas fui no ritmo da Luci, me senti mais velha do que ela ao ser deixada pra trás, então apressei o passo, foram ... Sei lá, uns 2 km de subida assim, parecia que estávamos subindo um escorregador, no caminho eu ia pensando na blazer, se subiu tudo aquilo sem problemas.
      Passamos por uma entrada secundária que era uma descida tão grande que mais parecia um buraco. A curiosidade bateu e desci, cerca de uns 50 m de um lindo caminho, uma propriedade encantadora, uma das mais lindas talvez... Um lago com patinhos, ao redor, mata muito bem cuidada e preservadas, nos fundos uma casa linda, uma roda d'água em movimento nos fundos da lagoa. Cheguei com receio de cachorro, chamei por "ó de casa", nada, ninguém em casa. Meio de longe só fotografei, não quis me adentrar na propriedade alheia.
      Subindo e subindo... Uma capelinha, uma placa do circuito anuncia um hotel: Hospedagem rural fazenda sacramento. Paramos pra tirar fotos enquanto chega um carro, uma moça pergunta: "estão precisando de algo? Água, banheiro?" Falamos que estamos fazendo o circuito, que está tudo bem... Mais pra frente vou lembrar essa mesma moça que agora esbanja simpatia, negando pra gente um simples carimbo na credencial. Ela nos diz: pra Timbó ainda falta uns 8 km, mas pelo menos não tem mais subida! E gente contando que só tinha uns 4... Pelo menos, não tem mais subida. E não tinha mesmo, descemos e descemos... Entrando na cidade, mais pontes: em meia hora duas pontes pencil, lindas, andamos e tiramos as clássicas fotos de costas, andando pela ponte... Passamos pelo Museo da música que a essa hora já estava fechado. Quando chegamos já era quase 17 hs. Chegamos em um lindo parque com mais uma ponte pencil, Adriano e as crianças já haviam passeado por ali, mas mesmo muito cansadas, ainda passeamos por todo o parque. Do outro lado da ponte, uma linda casa em estilo enxamel, e por trás de casinha, uma linda escadaria, mais uma roda d'água, tratava se de um lugar turismo, um parque que marca o início e o fim do circuito do vale europeu. Tudo muito bonito. Finalizamos o trajeto de hoje com 40 km, apesar do record em distância, a bolha do pé totalmente sanada, e o cansaço é grande, mas dores não temos mais. Nos sentimos mais fortes. Carimbamos nosso passaporte num hotel tão bonito e luxuoso que não tivemos coragem de perguntar o preço. 
      Não achamos nenhum posto possível para passar a noite, então procuramos jantar em uma lanchonete, em seguida: sorveteria 60 sabores!!! 😃 Que delícia: sorvete sabor de nozes, sensação, maçã verde... Orientamos as crianças a irem no banheiro sabendo que depois não teria mais como. Voltamos ao lugar estacionado, perto da tal praça e parque que foi ponto de nossa chegada, e ali mesmo, no centro da cidade, arrumamos nossas camas: malas por baixo, colchonetes por cima, escovamos os dentes com água das garrafinhas, deitados agasalhadas, sem banho, não era nem 21 hs e todo mundo na cama, quer dizer: no carro... Momento de ver fotos e mandar mensagens, usei o celular até dormir (o que não demorou) e a bateria ficou abaixo de 50, no carregador da bateria do carro ficou o carregador externo, pra garantir nossas baterias de amanhã pelo caminho. 
      E sabe que já estamos nos habituando com essa cama que hoje, até parece bem mais confortável... Dormimos, acordei algumas vezes, mas dormi bem.
       
      5° dia vale europeu - Timbó à Pomerode - 15/06
      Acordamos cedo, mas nem tanto... Antes das 6! Dessa vez deu até vontade de ficar na cama... Mas levantamos e comemos frutas e um resto de pão que ainda tinhamos, arrumamos frutas na mochila e partimos as 6:30, sem banheiro, só escovamos os dentes com água de garrafas, mas como o pouso era numa vaga no centro da cidade... Sem banheiro, e assim Adriano prometeu acordar às crianças e já sair dali em direção à algum posto onde pudessem usar banheiro. Nosso banheiro foi o mato, mas ainda demorou um bocado pois até a gente fazer a primeira parte do trajeto, uma parte urbana... E com tudo fechado, a cidade ainda dormia... banheiro pra nós demorou.
      Logo quando a gente entra em espaço rural, árvores margeando a estrada e uma nuvem de passarinhos brinca no céu, todos faceiros e assanhados... não estão migrando pra lado nenhum... Estão apenas celebrando o novo dia, são várias nuvens, elas vem e voltam pras copas das árvores, como se ali fosse o pique de um pega pega no céu. As árvores estão repletas de passarinhos... todas elas, e os bandos ficam se alternando pra apresentar no céu o balé das andorinhas. Acho que são andorinhas, são pássaros pretos e muito pequenos, mas se "uma andorinhas só não faz verão"... Um monte com certeza faz porque e lindo de ver... Ficamos ali olhando pra cima um bom tempo, inutilmente tentando fotografar, gravar... Nada pode registrar com exatidão a beleza daquele espetáculo. Aliás, todos os dias a essa hora, em estradas assim a perder de vista... Sempre caminhamos embaladas por trilha sonora do canto dos passarinhos... E muitas vezes eles estão ao nosso lado nos fazendo companhia: são pequenos, azuis, cinza, verdes, pretos, brancos... Como é bonito ver passarinhos solto na natureza. Fico pensando que gosto pode ter alguém que cria passarinhos em gaiola!!!! Nunca entendi essa ideia de se ter passarinho como bicho de estimação.
      Já na SC 110, uma capela a beira da rodovia nos faz atravessar a pista, e entrar... Lá, vitrais coloridos com lindas imagens, e no teto, uma pintura ilusionista nos remete ao céu... Uma paz... Atrás da igreja, um cemitério com o mesmo nome da igreja: São Roque.
      Ainda perto dali passamos por uma escola municipal e o que me chama atenção é as crianças em idade de ensino fundamental, brincando na quadra de bola queimada, o professor olhando, todos de máscara, sem exceção! E fico a pensar: tai a nossa nova realidade... E como é difícil praticar esportes com máscaras! Principalmente envolvendo corridas, tanto que futebol e outros esportes em equipe jogam sem ela (claro, sabemos que eles fazem teste rotineiramente e seguem uma série de protocolos). Ao ver crianças tão pequenas se acostumando ao uso de máscaras até na hora de jogar bola queimada, penso que o mundo nunca mais será o mesmo! Máscaras farão parte do nosso dia a dia tão costumeiramente que serão como os celulares: os jovens de amanhã não terão lembrança de um mundo sem máscara! 
      Em frente a escola num canteiro... Um balanço enorme instalado ali... Porque eu não sei... Ah!!! Um balanço!!!!!! Não resisto!!! Deixo meu cajado num cantinho e corro sentar nele!!! Dá pra perceber que atrás do balanço tem um pequeno morro, que o balanço tem corda de sobra pra que se suba no barraco levando uma ponta da corda e consequentemente, o balanço... De forma que a largada seja lá de cima do barraco, e isso faça o balanço ir parar nas alturas!!!! Lógico!!! Me lembro de Minas (em Minas, em uma das paradas na casa de uma família, um balanço amarrado a uma árvore imensa, um barranco atrás... Dava pra balançar tão alto que quase cheguei ao céu!!!) Mas agora eu não tive coragem de subir no barranco, até porque em Minas eu fui puxada pro barranco depois de sentar no balanço pelo dono da casa... Mesmo dependo só do meu impulso... Que delíiiiciiaa!!! Enquanto balanço eu canto pra mim mesma que "🎶a felicidade está no caminho..." E ou a música, ou o próprio balançar, ou os dois me fazem encher os olhos d'água. Tenho que deixar a Luci balançar também né!!! Ela balança, adora... Ficamos ali mais um tempo, mais um pouco pra mim, mais uma vez pra ela... Duas crianças brincando...
      O próximo trecho a chamar a atenção foi uma área cercada e um lago repleto de flores de lótus, eu nunca tinha visto uma flor de lótus, é de uma beleza hipnotizante, dava vontade de ficar olhando e não sair mais de lá... É como uma música boa... Só de olhar faz bem, faz a gente se encantar pela beleza, a gente se alegra por estar ali vendo, os olhos se enchem de tanta beleza é como se tudo no mundo fosse tão bonito quanto... Você esquece do resto! Simples assim... Essa sensação é fácil de entender quando estamos diante de coisas monumentais como quenios, picos, cavernas, desfiladeiros, infinitos, cachoeiras majestosas (cito exemplos de coisas que eu já vi e já senti essa sensação) mas foi uma flor!!!! É a delicadeza que encanta! Uma beleza que te preenche.
      Mais pra frente, de novo uma floresta de Pinheiros, cercada, dessa vez eu e Luci pulamos lá dentro, o acesso tava mais fácil... Andamos, tiramos fotos, usamos o temporizador, curtimos a floresta...
      O caminho ainda reservava mais pontes, na maioria das vezes pontes pequenas que cruzam córregos que vão pra propriedades particulares... Nós, só íamos e voltamos só pra dizer que passamos por lá. Lamento não ter contando os quantas pontes passamos. Passamos por uma parte cuja vegetação nativa encantava: uma cortina de cipós era tão bonita que parecia coisa de decorador, e era né, o maior de todos os arquitetos: Deus, a Mãe Natureza... Conversamos sobre essas passagens onde a natureza é intocável, onde as cachoeiras e a vegetação é inacessível, que ali a única interferência é a estrada de chão que passa. Como é bonito passar por lugares assim, e por aqui as pessoas parecem saber o valor dessa riqueza pois não há lixo, apesar dessa característica vegetação nativa e intocável em muitos trechos, a região é habitada, mas não vimos descarte irregular em nenhum lugar dos 245 km em que andamos, uma ou outra latinha em meio as rodovias, que diferença! Essa deve ser uma das razões do nome Vale Europeu.
      Ainda na estrada de chão numa bonita propriedade rural com uma casa em estilo enxamel, um cachorro nos assusta de verdade... Não deixa a gente passar, avança na gente, somos socorridas pela dona do bichinho que jura, é manso... Mas fica difícil de acreditar, ela precisa pegar no colo! Foi o avanço de cachorro que eu mais tive medo do caminho.
      Saímos da estrada rural. Normalmente o dia é divido em três etapas: a saída que quase sempre passa pela cidade e rodovias, a parte rural ou em meio as matas, e a aproximação com a cidade de chegada em meio ao perímetro urbano e ou rodovia de novo. E já perto de Pomerode, de novo cachorros! Mas sempre quando vem cachorros assim eu primeiro tento a conversa mole, e funcionou: o bichinho abanou o rabo e se derreteu todo. Aliás, já eram dois, uma cachorra grande e um pretinho, a cachorra é tão afável que chega a deitar no asfalto de rolar de barriga pra cima pedindo atenção. E pronto! Temos companhia! Eles nos seguem por um bom trecho. A cachorrinha fica em um ponto de ônibus porque as pessoas começam a conversar com ela inclusive chamando pelo nome: Lady. As pessoas nos contam que ela é da redondeza, e por lá ela fica, aos carinhos do pessoal do ponto de ônibus, e a gente segue na companhia do cachorrinho preto que nos seguiu por 5 ou 6 km, inclusive na rodovia, e a gente... Morrendo de medo dele ser atropelado naquela rodovia apertada e sem acostamento. 
      Entrando em Pomerode, ausência total de setas brancas, sabemos que temos que chegar no portal de entrada na cidade, mas uma bifurcação aponta pra Blumenau, e nada de setas. Jogo no Google: portal de Pomerode, me informo com moradores, a gente vai por essas informações, e pelo meio da cidade, abandonando as orientações das setas brancas. Viramos uma esquina e pá: a galera lá tomando sorvete! A surpresa nos faz esquecer nosso amigo cachorro que até aquele momento estava conosco... Conversando com Adriano e as crianças que nos dizem estarmos próximos ao portal. Terminamos de chegar acompanhadas pela galera e quando vamos contar que o cachorrinho veio junto, já não tá mais! Seguiu sozinho!
      Caminhamos aquele último quilômetro acompanhadas das crianças e Adriano, ouvindo os relatos de todos sobre os passeios do dia: foram no zoológico, na vila dos dinossauros, no Museo... Muitos bichos lindos no zoológico... E nós ainda tinhamos que almoçar, estávamos cansadas, acabamos dizendo que tudo bem ficar sem ir no zoológico né, afinal, a galera toda já foi... Não vão querer ir de novo! Fizemos a foto de final da caminhada em frente ao portal: 24,58 e mais algumas fotos, ali mesmo era possível carimbar a credencial e partiu almoço.
      O almoço estava no carro nos esperando... Uma marmita fria mas deliciosa, o carro que estava estacionado na praça da cidade do lado do letreiro: eu amo Pomerode... Serviu de ponto para um delicioso descanso: Adriano dormiu uma boa soneca pós almoço, Luci também, eu dei umas pescadas e depois de um merecido descanso, fomos procurar um pouso que aliás, estava bem próximo de nós: ali mesmo em frente ao portal ficava um hostel, com um anúncio de pouso coletivo ou coisa assim. Entramos e um jovem muito simpático nos atende, liga pra mãe e pergunta quanto ele deve fazer, desliga o telefone e faz um excelente preço: 240 reais. Ficamos com o hostel que não servia café mas tinha uma cozinha coletiva, porém éramos os únicos hóspedes. Tivemos que esperar o menino terminar de limpar o quarto, o que durou cerca de meia hora ou mais, entramos no quarto muito confortável com uma cama de casal e duas beliches (até sobrou cama) banho quente e partiu mercado: compramos pizza pra fazer e pães com mortadela pra amanhã. Descanso garantido... Dormi como rainha.
      Depois Heitor contou que ouviu de madrugada alguém bater na porta e perguntar se tinha alguém, provavelmente em busca de pouso... Mas ninguém atendeu o pobre... Aquela casinha parecia ter apenas a gente mesmo. Eu não ouvi nada. 
       
       
      6° dia vale europeu - 16/06 - de Pomerode à Rio dos Cedros.
      Até que acordamos cedo: umas 6 hs, mas até tomar café... Saída às 6:50. Mas... O trajeto de hoje pela planilha era só 17 km, susse. Saímos do hostel e deixamos Adriano ainda com as crianças dormindo. Passamos pelo portal amanhecendo o dia, e já pegamos a rodovia, mas a rodovia muito bonita, rodeada de mata nativa... Com o rio correndo nas margens... Logo surge um luxuoso restaurante: restaurante recanto do salto. O rio passa entre as pedras, uma ponte de madeira faz a ligação para o restaurante, em baixo da ponte uma deliciosa cachoeira. E aquela hora do dia tudo estava fechado, mas a passagem da ponte ficava aberta, entramos, eu entrei até na água - só os pés, mas já valeu!
      Saindo de Pomerode, passamos pelo Museo do imigrante, uma linda construção em estilo enxamel, a foto de um relógio enorme em um monumento registra a hora daquele momento: 8:10. Nada de setas brancas, é preciso se informar com funcionários do Museo.
      Passamos por mais uma igreja luterana (são muitas lá) e em frente a uma linda roda d'água (também são muitas).
      Pela rodovia uma placa indica que cruzamos a fronteira de Pomerode com rio dos Cedros, brincamos com isso: tipo, aqui Pomerode, aqui Rio dos Cedros, em uma diferença de um pulinho.
      Já são cerca de 11 horas e como o trajeto de hoje é pequeno ... Não custa desviar um pouquinho...
      Avistamos uma igreja láaaa no alto, a rua nem é nosso caminho, mas bem dispostas vamos até lá...
      E chegando lá: uma subida quase na vertical de... Uns 150 a 200m, mas de respeito hem! Ficamos imaginando as velhinhas beatas pra ir à igreja todos os domingos!!! Bom, a igreja por fora é linda e por dentro estava fechada. Que pena.
      Fechamos o dia na praça, na igreja matriz de Rio dos Cedros, cerca de 13 hs, aos 20,59 km, nem deu pra cansar. A praça é enorme e a igreja está sendo lavada, então não dá pra entrar, chegamos a ir até lá, mas o funcionário nos atende com indiferença e nos diz que não, por ali não vai passar, procurem a entrada lateral. Ao fazer isso, outras duas moças que parecem conhecer bem a igreja nos atendem com a mesma indiferença: está fechada. Tava na cara que éramos de fora, poderiam ter sido mais maleáveis...
      Na praça fica um parque, as crianças brincam no parque, eu ainda tenho disposição pra brincar também, mas agora que já está tudo sossegado, olho no celular e vejo uma mensagem: "Patrícia, é do hostel de Pomerode, você esqueceu um agasalho bege"! Lembro que saímos e como sempre, quem organiza as coisas pra ir embora é sempre Adriano. Nem falo nada, só aviso da mensagem e lembro que dentro do bolso daquela blusa há 150,00. Bom, tá decidido né, vamos voltar de carro, já que é perto. 
      Antes vamos almoçar em um restaurante, deliciosa comida, e satisfeitos, voltamos de carro à Pomerode.
      No caminho vou lembrando que eu não fui no zoológico, que ainda é cedo e que eu não estou nem um pouco cansada hoje. As crianças endoidam!!!! Querem ir de novo. Luci não quer ir, chego a dizer que posso ir sozinha, mas as crianças batem o pé, quem ir... Luci se deixa convencer, e lá vamos nós... Blusa resgatada, partiu zoológico!
      Foi a melhor coisa esquecer a blusa. Logo na entrada do zoológico um bando de Guarás!!! Que coisa mais linda, que espetáculo, ficou encantada, mas tão encantada que poderia ficar ali que já teria válido minha visita; são aves de uma coloração vermelha intensa, nunca tinha visto... o zoológico é lindo, verde, tem pássaros coloridos, patos, macacos, pinguins!!!! Isso mesmo, pinguins!!! As crianças se sentem nossos guias, se divertem mostrando tudo já com conhecimento prévio. E o Tigre!!!! Como é lindo o tigre!!! Fico hipnotizada por eles, tanto que as crianças dizem: "mãe, já deu, vamos mãe, não olha ele no olho não" o tigre parece mesmo estressado e nervoso, parece enfadado daquele lugar, e se ele quiser dá impressão que poderá mesmo pular em cima de alguém e vencer o buraco que há entre ele e o visitante. Mas é lindo demais, ele desfila diante de nós e nos encara, o tal olho no olho é mesmo hipnotizante. Já a onça é tão bonita e encantadora quanto, mas está localizada num buraco muito abaixo de nós, e embora pareça tão nervosa quanto o tigre andando pra lá e pra cá, só conseguimos vê lá de cima pra baixo, e não rola o olho no olho. As araras e papagaios das cores mais lindas que tem na Caixa de lápis de cores de Deus: vermelhos, amarelos, verdes tão intensos que deixa no chinelo qualquer Matisse ou Van Gogh, azuis de fazer inveja a Yves Klein.
      Passamos por dentro de um viveiro de aves com passarinhos de todas a cores e tamanhos, lindo, grande, mas... Ainda acho que lugar de passarinho é mesmo na floresta, e aliás, de todos os bichos...
      A zebra: será preta de listras brancas ou branca de listras pretas? Martin que o diga! E por último, os encantadores flamingos cor de rosa... Saimos de lá satisfeitos e felizes, valeu ter esquecido a blusa! Partiu rio dos Cedros. De volta à praça da igreja, tive a ideia de falar com o padre, pedir autorização para pouso no pátio do estacionamento da igreja do lado do banheiro. Nos apresentamos como caminhantes e dissemos que estávamos fazendo o vale europeu. Mas a resposta: "não. Vocês podem ficar com a praça, é seguro lá". O padre tão simpático como os funcionários da igreja! Sendo assim, fomos pro posto que perto das 21 hs fechava, mas ali jantamos uns pães de queijo e usamos os banheiros pra escovar dentes e tal, mas banho mesmo... Hoje não deu! Pouso arrumado, esquema de sempre: malas por baixo, cama por cima... Ninguém mais reclama, partiu descanso, amanhã tem mais.
      No carregador do carro fica o carregador externo, e o celular eu olho a fotos do dia antes de dormir, mas vai amanhecer a menos de 50%. 
       
      7° dia vale Europeu, de Rio dos Cedros à Benedito Novo - 17/06
      Saímos tarde, 7 hs, e logo já estávamos em meio as estradas de terra, até passamos por um pouco de pés de café, os únicos que vi em todo o caminho, se quisesse dava até pra contar quantos pés de tão pouco, mas o suficiente pra me trazer a lembrança a imensidão da lavoura de café de Minas. O Horizonte era rodeado por montanhas e a névoa encobrindo tudo, um lindo cenário, logo estávamos subindo morros... Passamos por uma igrejinha simpática, e a subida começa a ficar cada vez mais ingrime... Até que chega a um ponto onde se vê um enorme desfiladeiro, uma visão panorâmica de encher os olhos nos faz avistar a Igrejinha que passamos a pouco como um pequeno ponto lá em baixo, rodeada pela neblina: coisa mais linda, um trecho tão lindo que merece uma parada e um tempo pra contemplação, fazemos fotos mas nada é capaz de reproduzir a beleza que vemos. 
      Vimos nascentes brotando em meio a vegetação nas encostas das montanhas, e algumas pequenas cachoeiras e córregos límpidos em quintais de propriedades, quanta riqueza... Subindo, subindo... E de repente, estamos de novo no asfalto e logo chegamos ao letreiro: #eu ❤️ Benedito Novo. O letreiro é colorido e está em frente a um bonito parque, um imenso gramado Verde, um monumento de peixe e as bandeiras da cidade, um portal todo adornado com rosas para servir de cenário para os apaixonados... Linda praça. Ficamos felizes porque chegou... Só que não! O ponto de chegada ainda está longe. Seguimos agora pela rodovia SC 477 e passamos em frente a uma linda construção em enxamel com flores coloridas em floreiras, mais adiante outra igreja Luterana e dessa vez os sinos começam a badalar assim que estamos passando... Ficamos encantadas e preferimos acreditar que nossa passagem é a razão das badaladas. 
      Mais pontes, e quando menos se espera, as setas brancas nos tiram da rodovia e indica pra entrar de novo em estradas de terra (sim, por já ter passado pela entrada da cidade, saber que estávamos chegando, acreditávamos que já era última etapa via asfalto, a parte urbana do final) e pra variar... Subida! Subimos meio na incerteza, e foram cerca de uns 2 a 3 Km. Logo passamos por um trecho que indicava o caminho para doutor Pedrinho, entendemos que no dia seguinte com certeza teríamos que voltar um pouco e passar por ali. Em seguida chegamos a uma ponte para pedestre, estreita, de madeira, e que na verdade por ali passam muitas motos e bikes, a ponte dá nos fundos de um mercado, e uma trilha faz chegar a beira da estrada. A blazer está estacionada do outro lado da BR, num posto de gasolina. Fim do trajeto de hoje aos 25,55 km. Entendemos que o desvio pela estrada de terra é só uma estratégia pra deixar o caminho mais bonitos e menos urbano, pois saímos da SC 447 e nela estamos de novo. 
      Almoçamos ali uma marmita fria, mas deliciosa temperada com o melhor de todos os temperos: a fome, na companhia de Simba, um lindo cachorrão fila, branco com pintas pretas e cara de bobão, não assusta ninguém!!! Havia uma colera com plaquinha gravada o nome: "Simba. Sou grande mas sou amigo, sou do rolê e meus donos me amam" e o número de telefone. Penso em ligar mas a lojinha do lado do posto me informa que Simba é de lá, mora lá em frente e está acostumado a "conversar" com todos que passam por ali. Com ele eu me encanto: ele senta, da a patinha... ganha um pouco do nosso almoço e nossos corações. 
      Adriano nos conta que o posto não é 24 hs, e não é muito simpático, então de carro voltamos lá na praça do peixe, do #amo Benedito Novo, brincamos com as crianças e até uma corrida pra ver quem chega primeiro de um gol a outro que, lógico, quem ganha é Adriano. Essa praça fica em frente a um posto, ali estacionamos a blazer e nos informamos sobre a autorização para um pouso, mesmo não sendo 24 hs, por ali vamos ficar. Tem chuveiro só no banheiro das mulheres e o banho custa 10 reais, pagamos 4 banhos - Heloísa não quer saber - o chuveiro... Água só quebrava a friagem, nem norma pode se dizer, fazer o que! Tomamos o banho protestando cada um pra si mesmo, e devolvemos a chave com o banheiro aberto, fomos procurar algo pra comer na esperança de chegar e encontrar o banheiro ainda aberto. 
      Atravessando a rodovia um pouco pra esquerda, uma boa pizzaria: barata e gostosa, um lugar agradável, excelente atendimento, tocava Jack johnson, muito bom. Chegamos de volta em casa - a blazer estacionada nos fundos do posto - o banheiro estava fechado, bobagem acreditar que eles fechariam o posto e deixariam o banheiro feminino aberto. Mas ... O banheiro masculino (horrível) ficaria aberto a noite toda, menos mau. Atrás de onde está a blazer tinha uma oficina mecânica que ao contrário do posto, parecia não ter hora pra fechar, aliás, o atendimento já estava encerrado, mas os funcionários, uma galera de rapazes, armavam uma festa com som alto e cerveja, a noite prometia não ser muito tranquila. Arrumamos a cama e deitamos, com tudo fechado já não se ouve tanto o barulho da festa. E naquele momento em que você pega o celular pra ver fotos do dia e tal... Me lembro que o óculos que enfim havia achado em meio as malas ontem, eu tinha esquecido lá na pizzaria 🤦! Eu sei que o óculos tá com a perna quebrada, mas no momento é o único que tenho, levando e aviso que vou voltar lá na pizzaria!!! AFF, naquele frio, vento, com o cansaço do dia, lá vou eu em uma caminhada noturna e sozinha... Atravesso a rodovia, chego na pizzaria e a mesa em que comemos ainda está do mesmo jeito, ainda está tocando Jack johnson (agora upside down)... O óculos está lá, do lado do prato... Pego, agradeço, e parti pra casa quase que correndo. Mau fiz uso deles, logo dormi.
       
      8° dia Vale Europeu - de Benedito Novo à doutor Pedrinho - 18/06 Acordamos tarde, lá pelas 6 e tanto já quase 7. Até comer, se arrumar... Lembrando que ontem optamos por pouso na entrada de Benedito Novo, mas o ponto de chegada não era esse, e sim a cerca de 6 km daí, sendo assim, Adriano nos levaria de carro pra lá, onde começa de fato a trilha de hoje. Então não basta nós estarmos prontas, hoje é preciso acordar às crianças pra que todos saímos daqui de carro. 
      Mochila feita (hoje a capa de chuva vai na bolsa), dentes escovados, café tomado, crianças acordadas... Só sair com o carro... Mas o carro não sai! Sem bateria. Adriano diz que a bateria realmente nunca foi trocada, que tem mais de dois anos sem trocar e que ali onde estamos não dá pra dar tranco, e melhor é comprar outra lembrando que nos fundos do posto, ou seja, do nosso lado, a oficina mecânica que ontem ficou até tarde fazendo festa, deve ter bateria pra vender. Ele desce do carro e pede pra esperar, meche aqui meche ali, mas nada, o carro não sai do lugar. 
      Decidimos ir dali mesmo! Eu tenho plena convicção de que Adriano vai tirar o carro de lá, talvez antes mesmo de abrir a oficina. Mas nós se ficarmos esperando vai ficar muito tarde. Lembro que ontem quando passamos por aqui (a entrada de Benedito Novo) estávamos há pouco mais de 6 km da chegada (chegada que seria o começo do dia de hoje) porém ainda entramos em um trecho de estrada de terra, mas que foi dar de novo da SC 477, então se fizermos direto, sem entrar na estrada de terra, chegaremos talvez mais rápido. Luci topou na mesma hora! E assim fomos: saindo da entrada de Benedito Novo pela rodovia direto até o ponto onde de fato começaria o trecho de hoje.
      No caminho... Passamos reconhecendo os pontos de ontem: a construção em enxamel, a igreja luterana... Até que desobedecendo a setas brancas e não entramos na estrada de chão, pela rodovia surgiram belezas que não tinhamos visto: pontes, a vista do rio Benedito, a construção de um túnel no meio do caminho, um mirante com escadas circulares que oferecida uma visão panorâmica do rio e dos arredores. Continuando subindo e subindo, a prosa tá tão boa que já esquecemos que esse pequeno trecho nem tá na conta, e que a hora vai longe... E quando só faltam menos de 2km, Adriano nos acha! Mas agora a gente já não quer mais carona, já incorporamos o trecho a mais. Logo no ponto final do trecho de ontem e começo correto de hoje, paramos todos pra café (um longo café numa padaria ótima) e em seguida mercado... E lá está nosso amigo Simba, passeando pra lá e pra cá. Voltei ao mercado e comprei mais um pão pra fazer um sanduíche especial pra ele, mas quando saio do mercado, cadê? Não acho mais. 
      Nos despedimos de nossos apoios e seguimos tentando não pensar que na verdade, estamos começando o dia de hoje quase 10 hs. Deixo o sanduíche do Simba com a crianças que ficam com a missão de encontra lo, e nós, seguimos pelo trilho atrás do mercado e atravessando pela última vez a ponte de pedestre sobre o rio Benedito. 
      No caminho de hoje mais pontes, nem que seja pra ir e voltar, a gente desvia um pouquinho... Caminhos de estrada de terra lindos, com vegetação nativa, flores, pássaros... Ah... E cerejeiras... As cerejeiras chamam atenção de Luci, lembram o Japão. Propriedades com quintais de encher os olhos, com lagos, montanhas, córregos, um cenário lindo. De repente em uma entradinha... um córrego... Um lugar feio cheio de lixo reciclável, mas mesmo feio, comparado aos nossos barracões de reciclagem tava bonito, nada fora do lugar, nenhum papelzinho jogado no chão, nada disso. São materiais recicláveis amontoados numa espécie de barracão. E ao dar a volta e seguir o curso do córrego e o som das águas... Uma surpresa: uma linda cachoeira nos fundos desse lugar. A cachoeira em si é difícil de acessar pois tem uma ampla piscina que sabe se lá a profundidade, e difícil de ser contornada, mas há uma tubulação que vem de lá da queda d'água e chega até os fundos do barracão e deságua numa bica como se fosse um chuveiro gigante!!! Tipo o "bicão" de Minas (uma bica d'água num cano de PVC que fica depois de uma rotatória na saída de ... ) Só que umas 5 vezes mais forte, pois o cano de PVC aqui é de um diâmetro... Sei lá, uns 6 de raio por aí. A bica é forte e... Gelada!!! Como eu sei? Porque não resisti e entrei lá!!! Tinha prometido pra mim mesmo que não iria entrar na água!!! Mas diante de um chuveiro desses... Ah!! Olhei bem ao redor, afinal era um barracão, ninguém por perto... Pra entrar eu teria que tirar quase toda a roupa, pois é diferente de entrar só com os pés ou sentar na água, aquilo era um chuveiro!! E o frio que fazia... Depois pra mim seguir molhada! Parti do princípio que "tudo vale a pena quando a alma não é pequena" e tirei os tênis, meia, calça, blusa de frio, blusa de baixo... O top? 🤔 Pensei, pensei... Não, esse não tirei... Fui chegando perto... Friiooooo!!!!! 🥶🥶 Achando lugar primeiro para os pés, e foi!!!! Nossa que gelo!!! Acho que não fiquei nem 10 segundos! Luci só sabia dizer: cê é doida! Com o celular na mão, Luci se preparava pra bater mais fotos e eu me preparava pra mais 10 segundos: pensei: vou entrar mais e ficar mais. AFFF, devo ter ficado uns 12 segundos agora, mas só na beiradinha da bica, e ainda encolhida. Não! Assim a foto não fica boa!!! Tenho que entrar com tudo e jogar os braços pra cima como se a água estivesse quentinha!! Lá vou eu de novo... 1,2,3 e vou eu... Mas a força da água é tanta que eu simplesmente não consigo entrar na luz da bica! Levanto os braços pra cima e comemoro! Fico o máximo que consigo! Show! 
      Saio, tiro o top, torço, uso ele mesmo molhado pra me secar e me visto  com uma camiseta que está na bolsa, a blusa de manga longa por cima e o blusão de frio. A calça vai com muita dificuldade... Meias e tênis, seguimos, eu com os cabelos molhados, calça molhada e tremendo de frio...
      Logo que saimos dali cerca de uns 300 m encontramos nosso apoio, Adriano me pergunta porque estou molhada, falo que porque não resisti a um chuveiro gratuito no caminho, o único problema foi que era pior que o posto de Benedito Novo, não esquentava nem a pau! Mas ficava a dica: um bom banho gratuito de lavar a alma. Adriano nos avisa que já percorreu o trecho todo e que vamos chegar a um lugar onde não tem nada, e que já estamos quase chegando. A chegada de hoje é na igreja nossa senhora da Glória, mas a quilometragem não bate, estamos com 6 km a mais e mesmo assim ainda tem chão pra atingir a quilometragem do dia que é 26 e tantos.
      Passamos por uma igreja enorme, pegava toda a quadra, paróquia nossa Sra de Lourdes. O muro que contornava a esquina tinha um nicho pra cada santo, como se fosse uma capela pra cada um... Tanto santo que desisti de fotografar todos! 
      E mais pontes, e mais capelinhas, e mais lindas estradas... E nisso o tempo vai esfriando... Já passava das 13 e nada de sol dar as caras, o tempo fechado e o frio só que aumenta, vamos subindo e subindo... Cenários bucólicos, pitorescos... E de repente nosso apoio que já foi, voltou, passeou e continua a nos escoltar passa por nós, vai encostando o carro no intuito de parar e... O carro vai atolando!!! Como se fosse uma areia movediça!! Não dá nem tempo de tentar acelerar, a estrada sem acostamento mas também sem meio fio pois é de terra... Eu vejo aquela cena e levo as mãos na cabeça dizendo a Luci que dali o carro só sai com ajuda. Adriano saí do carro rindo pra não chorar, e não é que vinha vindo um caminhãozinho no sentido contrário! Nosso desespero não durou nem um minuto! Naquela estrada que não passava ninguém de repente surgi justo um caminhãozinho!!! São dois homens, eles param e dizem dando risada que já caíram naquela mesma situação, o terreno ali é uma espécie de lamaçal, de pantano... 
      Enquanto os homens conversarem eu abro a porta e "salvo" as crianças, a blazer parece afundar cada vez mais! Os meninos passam uma espécie de fita, uma corda larga como uma fita, e puxam de ré a blazer: a fita arrebenta!!! Pois não é que os cara tinham um cabo de aço! Nos disseram que colocaram o cabo de aço novo no carro naquele dia! Agora sim, o caminhão puxou a blazer de ré, e viva!!!!! A roda traseira inteira atolada, e a dianteira quase inteira! Comemoramos, agradecemos e eles seguiram... Adriano vai embora sem nem se quer nos falar o que tinha pra falar quando encostou a blazer no acostamento! Mas não vai muito longe... Anda cerca de uns 500 m e vira, lá fica estacionado... Ainda falo brincando: ué? Será que atolou de novo? Pelo que parece não. Está apenas nos esperando. A estrada é tão limpa que nos permite ver a blazer nos esperando.
      Mas nós não temos pressa! Ao passar pela cerca de uma propriedade, um bebê cabritinho vem correndo ao nosso encontro e dizendo: béééé... Que fofinho, quanto mais a gente conversa com ele, ele responde béééé, a cerca é longe e não alçando pra fazer um cafuné... Vamos seguindo que estamos sendo esperada mais a frente. 
      Chegamos ao ponto em que a blazer nos esperava, e Adriano nos fala que o ponto de chegada é ali. Há uma igreja mas não tem nada que indica o nome dela, também não a nada que indica o fim do caminho de hoje. A seta branca indica pra continuar, Adriano nos diz que vamos andar só mais um pouco e que a estrada acaba logo a frente, a certeza dele é tanta ele nos diz que podemos ir pra conferir, ele espera ali. Então vamos, mas a quilometragem não bate ainda. Realmente da a impressão de que a estrada acaba, mas olhando melhor há uma entradinha mais estreita e a seta branca quase passa despercebida indicando pra virar! Começa uma subida daquelas de respeito, talvez ainda maior do que aquela descrita em Timbó a Indaial. A subida é tanta que percebemos que estamos subindo o morro, o frio aumenta e cai agora uns fina garoa, a estrada de terra tem marcada como um desenho a linha que passa carro, onde a terra é tão batida, tão amassada que chega a estar escorregadia e nós precisamos andar pelas beiradas onde tem mais pedrinhas, e justamente nas beiradas se vê desfiladeiros com uma riquíssima vegetação nativa. Fico muito preocupada com Adriano que teimou em nos dizer que o caminho acabava ali, e que iria nos esperar, fico pensando quanto tempo ele vai levar pra perceber que a gente não volta tão cedo e que ele deve seguir, e se o carro vai conseguir subir tudo aquilo sem derrapar, já andamos mais de 5 km, mais de uma hora e ele ainda não passou por nós! Mando mensagens dizendo que ainda tinha muito chão e que a igreja que ele parou não é nossa senhora da Glória, mas não tem sinal de internet. Fico um pouco angustiada, comendo com a Luci, mas a angústia guardo pra mim.
      O caminho fica cada vez mais bonito em meio a neblina, ficamos pensando que talvez a capa de chuva vá ter que sair da bolsa. Passamos por uma placa que indica: Gruta de Santos Antônio. A placa diz que a gruta foi construída por um casal que teve uma graça atendida, pegamos a entrada da gruta que se trata de uma descida ingrime e uma trilha estreita, um buraco que dá até medo de olhar, uma placa diz: aproximadamente 300 m. Só de dar alguns passos na trilha já se perde a visão da estrada. Usamos a trilha pra fazer xixi, mas acabamos decidindo que não vamos crescer, naquele tempo que só piora, ameaçando chover, ali por ser em meio à mata, tudo está escuro e até parece anoitecer, além de temer estarmos descendo e perder a passagem do apoio pela estrada, voltamos e seguimos subindo... 
      Ainda demora... Mas Adriano passa por nós nos contando que ficou ali parado por um bom tempo, que apareceu um senhor bom de prosa, e a prosa foi longe, o senhor diz que realmente aquele caminho ainda ia adiante, no fim da prosa Adriano saiu e segue pelo caminho indicado, caminho esse que ele teimou em dizer que acabava ali. Adriano nos conta que quase desceu na gruta procurando por nós, que desceu um pouco, se assustou com a descida e chamou pelo nosso nome, mas resolve seguir até que nos acha logo em frente. Aliviada por vê lo, seguimos, e ele segue pra nos esperar lá na frente.
      Nossa quilometragem já passou de 30, já passa das 16 hs, o cansaço tá batendo e nada de chegar. Passamos por uma placa que indica divisão de municípios entre Benedito Novo e doutor Pedrinho. Brincamos ali, fotografamos, mas que só agora estamos chegando na parte final do caminho: a entrada em doutor Pedrinho ainda na parte de mata, e que vamos andar até chegar na parte urbana. 
      Passa por nós uma caminhonete vinda no mesmo sentindo, para, e nos oferece carona. Nos diz que depois de subir o morro, é preciso descer - faz sentido - e o senhor parece ser bom de prosa... Nos oferece laranjas, agradecemos e dizemos que vai nos pesar na viajem a pé. Ele pergunta onde estamos hospedadas e ao ouvir que não temos pouso, nos indica a pousada da Nina, e diz que vai passar por lá e deixar nossa sacola de laranja!! Agradecemos e seguimos.
      Por mais que prometemos pra nós mesmas não parar mais... A vegetação é tão encantadora que é impossível passar despercebida, folhagem quase do meu tamanho, de um verde que parece passado verniz, nascentes e cachoeiras inacessíveis...
      Enfim, já passa das 17:15 e garoa continua a cair, agora mais forte, e chegamos: aos 40,25 km. Agora sim, na igreja nossa senhora da Glória, onde a uma placa indicando o vale europeu. 
      Cansadas, o jantar foi um lanche, passamos no tal hotel da Nina, mas o preço não agrada, ficamos apenas com o carimbo da credencial, sem coragem de perguntar pela sacola de laranja que "ganhamos" no caminho,  partirmos para um posto, o único da cidade nos parece, o posto fica há cerca de 1 km da chegada de hoje. Ali nos arrumarmos o mais rápido possível, pois já está chovendo e já são quase 20 hs, o posto fecha em breve, usavamos os banheiros pra escovar dente, mas banho não tem. 20 hs já estamos na cama e uma chuva fina e constantes cai lá fora. A blazer está estacionada numa cobertura do posto ao lado passa um córrego, a força da água é tanta que parece uma cachoeira e nos garante um delicioso barulho de água. A cama hoje parece doce de boa.
       
      9° dia Vale Europeu - Doutor Pedrinho à Benedito Novo de novo! 19/06/21
      O dia amanheceu chovendo fraco, mas constantes. Choveu a noite inteira e o frio tá de cortar! A primeira coisa que me vem a cabeça é: hoje é dia de subir o morro até a cachoeira do zinco! Conhecemos parte desse trecho pois foi dali que começamos, foi até a cachoeira do zinco que subimos de carro pra começar o circuito, então sabemos que vamos subir muito morro acima hoje. 
      Levantamos e tomamos café, hoje sim: capa de chuva já vestida, a mochila fica por baixo, difícil acesso. Aliás, difícil será acessar até o celular. Quando saímos de Londrina pra cá tínhamos certeza de que iríamos caminhar no frio, na chuva... Mas pra nossa surpresa... Não foi bem assim, foram 8 dias de boa. Então diante desse último dia chuvoso não tem como reclamar. Adriano desde de que abriu os olhos nos diz que hoje não vai subir morro, vai fazer o caminho pela rodovia e chegar no nosso ponto de chegada indo direto, sem seguir o caminho das setas, diz que teme derrapagens morro acima, pois já conhece a subida que nos espera. Parece que todos nós acordamos com a mesma preocupação: a subida da cachoeira do zinco. Já passa das 6 e o posto já abriu, estamos com a chave do banheiro e se arrumando pra ir... Estamos prontas e as crianças continuam dormindo, coloquei a chave do banheiro no teto do carro pois não adianta devolver ainda, mas penso: não posso esquecer. Então Adriano resolve nos levar até o ponto de início ainda com as crianças dormindo e sem desfazer a cama, entramos no carro em cima das camas e ele sai com o carro - o ponto de partida não é longe, talvez menos de 1 km, poderíamos até os dali, mas... Tá chovendo né - quando chegamos lembrei da chave do banheiro no teto do carro! 🤦 Adriano fica bravo e vai ter que voltar, nos vamos voltando a pé pra ver se acha a chave caída no percurso... Já quase chegando no posto, Adriano já está voltando e conta que achou a chave caída ali mesmo no lugar onde estávamos, entregou e ufa! Pra quem não queria vir nem até o ponto de início de hoje a pé por causa da chuva, tivemos que voltar quase o trecho inteiro atrás da chave, e dar meia volta pra de fato iniciar o caminho, mas não foi nem 1 km a mais... 
      O trecho de hoje na planilha é o maior de todos os 9 dias: 31 km. Mas nós já batemos 40 né, por duas vezes, então assusta mais pensar no tamanho da subida no morro, na chuva... Penso em subir e descer pra encontrar Adriano lá em baixo e passar de 50 km hoje... Então em cima da hora, já a caminho eu proponho a Luci ir pra Benedito novo pela SC 477, já que o caminho se encerra lá, nós iremos sim pra lá, mas não na cachoeira do zinco, e sim pro centro de Benedito Novo onde ontem estávamos. Pra praça do peixe. Olho no Google maps e ele indica o caminho pela SC 477 e a distância é 21 km, uma boa distância pra hoje! Tá de bom tamanho. Luci concorda. Acenamos pra Adriano que ainda está por perto e combinamos assim: nos veremos em Benedito Novo praça do peixe, #eu amo Benedito Novo. Entramos num concenso de que já conhecemos aquele trecho, que na chuva é perigoso para o carro entrar naquela serra e subir tudo aquilo, e assim, de comum acordo, partimos. 
      Eu hoje uso a mesma camiseta de ontem desde a hora que sai da bica d'água, uma blusa de manga longa por baixo, o blusão de frio e outro blusão de frio em cima, a mochila fica até justa sob tanta roupa, em cima de tudo a capa de chuva, ando feito um robô de tanta roupa, parece que vou escalar o Everest. Luci não está muito diferente!! Ela consegue colocar até duas calças, não sei como.
      Decisão tomada, início a rota no Google por segurança, já são 7 hs mas ainda está escuro, fazemos algumas fotos pra registrar nossa caminhada na chuva, mas é difícil acessar celular. O início do caminho bate com a planilha, é aquela primeira etapa no caminho de todo dia né: sair da cidade em direção às estradas de terra. Mas não pense que hoje não tivemos trecho off roard... Uma longa estrada de chão pra percorrer em comum com as setas brancas e com o caminho do Google, muita neblina, dos dois lados um grande terreno pantanoso, e um show de pássaros no ar, um dos espetáculos mais bonitos de balé dos passarinhos da temporada, os bandos de revezam pra se apresentar no ar, fazem as mais lindas coreografias e vão para as árvores, aí sai de outra árvore outro bando e parecem executar números ainda mais difíceis, até parece combinando, olhando bem para as árvores, cada uma está repletas de andorinhas pretas... Coisa mais linda! Diante de um show como esses só pra nós, não tem como passar indiferente, paramos e admiramos!
      Ainda naquela mesma estrada de terra encontramos um senhor com guarda chuvas andando na rua, ele para e puxa uma prosa: pra onde vão, de onde vem... Nos diz que é uma pena estar chovendo naquele sábado, que quando chove no sábado, é porque vai chover 4 dias seguidos, e que pena que não vamos poder aproveitar as cachoeiras, mas diz ser possível subir até o zinco mesmo com chuva. Mas nós já acertamos com nosso apoio e realmente nossa opção hoje é por não subir morro. Seguimos.
      Na saída de doutor Pedrinho um monumento diz volte sempre pra quem vai, bem vindo pra quem chega. E numa espécie de mirante se vê uma linda vista panorâmica do rio Benedito, e uma espécie de barragem! E... Uma linda cachoeira! Ahhh quem disse que não vamos ver cachoeira hoje!!!! Cachoeira salto Donner. Não faço ideia de como faríamos pra acessa lá, mas só a vista em meio ao nevoeiro já compensou. 
      Apartir dali mudamos a nossa rota, é ali que a seta indica virar, e nós, seguimos pela SC 477... Mas estávamos enganadas quando achamos que seria uma trilha tranquila... Longe disso: a rodovia é estreita, de mão dupla, sem acostamento, com desfiladeiros em muitos pontos nos obrigado a andar uma atrás da outra em fila indiana, muitas curvas fechadas em descidas fortes que não era possível ver os carros subindo, preferimos ir na contramão dos carros e é um alívio quando tem uma terceira faixa, pelo menos os carros não passam tão perto... Andamos 10 km e encontramos um bar, Luci quer parar e tomar um café. O bar oferece até o carimbo na credencial, e vende produtos do vale como por exemplo: camiseta. Mas só tem G. Então compro uma, e reluto até pra ir ao banheiro tamanha é a dificuldade com tanta roupa, mas... Já que paramos né... 
      Ao seguir, a chuva não dá trégua, embora fraca é constante, a maior parte do trecho é descida, até nos arriscamos correr um pouco.
      De repente passamos pelo posto de Benedito novo, mercado, casa do Simba... Olha só, chegamos a Benedito Novo no já conhecido ponto de onde deveríamos ter saído ontem (se não tivéssemos saído lá da praça do peixe), sendo assim, a praça do peixe deve estar a uns 6 km daqui. Isso mesmo, o Google maps nos indicar faltar 7 km. Felizes por reconhecer o ponto, mando uma mensagem para Adriano dizendo que já estamos chegando, já estamos no posto de Benedito Novo. Seguimos andando na chuva até uns 2 km a mais quando toca meu telefone: é Adriano que parece aflito, a ligação não dá certo, e olho na nas mensagens, tem uma mensagem dele dizendo: "não saia daí, estou indo". Comento com a Luci que talvez alguma coisa possa ter acontecido na estrada talvez... Pois nós não precisamos de resgate. Consigo ligar pro Heitor, e falo com Adriano que mais uma vez... Teima comigo que estou no caminho errado (não sei o que ele entendeu de minha mensagem) mas eu, tranquila, só digo que faça o que combinamos: fique esperando na praça do peixe, pois estamos no caminho certo e chegando! Com um certo custo, assim fica. Ufa!! 
      Seguimos, passamos pelo túnel em construção, mirante em espiral, ponte, igreja luterana, construção em enxamel, praça da peixe! Missão cumprida!!! Encerramos com 22 k. Felizes e realizadas, e morrendo de frio, vamos primeiro trocar de roupas ou pelo menos, trocar de meias e tênis, tirar a capa de chuva, mas banho... Não vamos pagar de novo 10,00 por banho frio naquele posto, melhor esquecer que ontem também não teve banho e boa, sem almoço e sem banho saímos dali dispostos a ir para Apiúna em busca dos carimbos que faltam na credencial, ainda é cedo e o almoço pode ser no meio do caminho.
      Olho no mapa dos hotéis de Apiúna pra ver onde podemos ir pra carimbar a credencial, pois a intenção é passar de carro pelas cidades onde ainda não tínhamos credencial, e assim carimbar. O hotel mais próximo parece ser fazenda sacramento, Adriano vai seguindo o Google vamos subindo o morro cada vez mais, eu e Luci vamos reconhecendo o caminho e vendo que a escolha não foi ideal, escolhemos a esmo e acreditávamos ser um hotel em meio a cidade, não era, estávamos subindo morro acima, mas a quilometragem estava próxima, então... Seguimos. Quando nos deparamos com uma enorme placa do vale e reconhecemos o lugar como sendo aquele lugar lá no 4°dia de Indaial à Timbó que paramos pra tirar fotos e uma mulher loira chega de carro, para e nos perguntou se precisávamos de algo. A fazenda sacramento é enorme e a mesma mulher, agora de guarda chuvas na mão, vem na janela do carro e pergunta pra Adriano se ele é outra pessoa, diante da negativa, ela olha melhor, vê que o carro está cheio e pergunta se precisamos de algo: "somos caminhantes e precisamos de carimbo na credencial" - explicamos que quando passamos por aqui não tínhamos ainda a credencial e que já encerramos o caminho, só precisamos dos carimbos. Ela também nos reconhece e pra nossa surpresa diz que não, que não pode carimbar nossas credenciadas porque nós não nos hospedamos ali! Dizemos que viemos até ali só pelo carimbo porque a informação é que qualquer hotel ou pousada pode carimbar a credencial, ela então nos diz pra esperar, pois está esperando um hóspede, e depois que ele chegar ela pode entrar lá e pegar o tal carimbo. Agradecemos e ficamos boqueabertos olhando uns pra os outros, aquela mesma mulher que fora tão simpática e que agora fora insensível. Nesse meio tempo o tão esperado hóspede chega, ela abre a porteira e some lá pra dentro, não vamos ficar lá fora esquecidos, vamos embora... 
      E a experiência valeu pra desencanar com a credencial, não queremos mais carimbo algum, que fique faltando! Não tem problemas.
      Dali já digitamos no Google: Londrina. E seguindo as indicações, a saída se dá por doutor Pedrinho, mais uma vez passamos por Benedito Novo na SC 447, de novo reconhecendo os caminhos percorridos a pé, e chegando em doutor Pedrinho vimos as placas que indicam pegar pra cachoeira Paulista, a 10 km!!! É sábado e não são nem 14 hs, peço pra que Adriano pegue o caminho pra cachoeira, afinal é uma das atrações mais famosas do vale, e está fora de todas as trilhas. Ele segue a indicação da cachoeira e entra numa trilha muito bonita e pra variar... Ingrime! Pra quem não quis subir a serra hoje!!!! Não escapou! Vamos subindo, subindo... E chegamos a uma entrada como se fosse a um parque nacional. Um estacionamento, tudo lindo. Somos recepcionados por uma simpática moça que nos diz que é cobrado 15 reais pra entrar e fazer a trilha mesmo com chuva, ou... 40 reais pra ficar e acampar. Que pena, pelo mau tempo não compensa acampar, se não, seria o caso de ficarmos por ali até amanhã! 
      A cachoeira não é visível dali, o estacionamento fica num ponto estrategicamente posicionado pra não avistar a cachoeira, a menos que pague, basta caminhar 100 e ter acesso ao mirante. Luci diz que vai nos esperar, não quer ir. Com muito custo consigo convencer as crianças a descerem com a gente. 
      De sombrinha descemos uma trilha e passamos por um portãozinho, pronto, mais alguns passos e estamos diante do Mirante, e que espetáculo!!!! Meu Deus! Que cachoeira!!!! Como descrever...são duas cachoeiras sendo uma mais imponente que desagua lá de cima como uma cortina, e outra um pouco abaixo, ambas se encontrar antes de tocar o chão. Da pra ver que lá embaixo sopra um vendaval, mas aqui não tem nenhum vento. O vento é do volume de água. 
      Depois do Mirante tem uma trilha que sobe um morrinho e de lá, desce uma tiroleza que deve ser incrível, mas estava fechada pelo mau tempo (não que eu iria né). 
      Ainda ali naquele morrinho, dois balanços incríveis, com uma vista exuberante inclusive da cachoeira, e mesmo na chuva eu largo a sombrinha e balanço nos dois! Maravilhoso!!! 
      Tem uma entrada que dá acesso à uma trilha, a trilha começa com uma escada que desce num buraco sinistro, uma placa do lado avisa: "para acessar a parte inferior da cachoeira somente pessoas em BOAS CONDIÇÕES FÍSICAS, na dúvida não descer" olhamos de novo pelo mirante e da pra ver que a escada termina ali, no "pé" da cachoeira. As crianças ficam com medo e dizem que não descem, eu quero muito descer, então subimos com as crianças e deixam eles com a Luci, voltamos pra descer a trilha!!! 
      A trilha é estreita e o guarda chuvas esbarra em tudo, é melhor fechar. Descemos a encantadora escadaria, até 100 degraus eu contei, depois perdi as contas, no meio do caminho uma espécie de gruta, e descendo mais ainda... Lá está ela: magestosa, imponente, assustadora cachoeira Paulista! Fotografamos, mas logo depois das primeiras fotos a bateria do celular acaba! Reinício, consigo mais umas 3 ou 4 fotos e já era de novo, mas não reclamo, é daqueles típicos lugares que a foto não dá conta de mostrar toda a beleza que há.
      Satisfeitos, vamos embora e eu só lamento não conseguir acampar de sábado pra domingo. Pegamos a estrada pra Londrina só parando pra comer, ao optar por se guiar pelo Google, Adriano pegou um caminho diferente que nem por Curitiba passou, os planos de passeio no domingo acabaram ficando de lado. Chegamos em casa na madrugada do domingo, ainda a tempo de um bom descanso.
       
      Vale Europeu
      Há cerca de dois anos ouvi falar do vale, vi fotos, ouvi relatos de amigos que foram e voltaram desnumblados, passei a sonhar com esse caminho... Coloquei esse trajeto na minha lista de sonhos.
      E minha lista de sonhos tem várias classificações: desde de sonhos pequenos até sonhos insanos... Acredito que a vida é feita de sonhos, não importa se eles vão se realizar ou se vamos leva lo conosco até o fim de vida, mas alimenta Los todos os dias, acordar a cada novo amanhecer e olhar pra janela, saber que novos desafios nos esperam e que somos capazes de realiza lo, para mim é alimento.
      E eu passei a acreditar que sonhos se realizam, fazer esse caminho veio afirmar minha crença. 
      O melhor de fazer esse caminho foi estar junto da minha família. A presença deles foi determinante para consolidar minha opção de ser caminhante e da importância que essa atividade tem para mim: eles viram de perto minha felicidade, minha realização. Eu me transformei em caminhante, peregrina, mochileira ou qualquer que seja o termo a pouco tempo, e ressalto essa palavra que talvez tenha passado despercebida: TRANSFORMAÇÃO. Quando me apaixonei por caminhos fui rotulada como louca por sair andando em grandes distâncias, mas quanto mais eu caminhava, mas estabelecida parcerias que me fizeram crescer, que reafirmaram minha fé que é possível acreditar nas pessoas, que esse mundo é feito de muito mais coisa boas do que ruins. Quero sair pra caminhar como quem sai pra trabalhar, sem que ninguém precise perguntar porque, que entendam que essa paixão por caminhos é irreversível. 
      Em cada quilômetro que andei eu tinha plena consciência de que estava realizando um sonho, então andei de olhos e coração aberto pra que nada me passasse despercebido, por isso entrei nas águas mesmo no frio, me despi dos medos que tinha e fiz o meu melhor, acredito que as águas das nascentes são sagradas e tem poder curativo pra alma, alimentam... Sempre que vou à cachoeira estou com amigos que me levam pela mão pra debaixo d'água, sabem do meu medo de água, mas dessa vez estava sozinha pra enfrentar as águas, Luci muito prudente preferiu não se arriscar.
      A parceria de Luci foi determinante pro sucesso desse feito: ela com a idade da minha mãe, ao vê lá tão disposta, tão grata por cada passo, só podia apertar o passo e caminhar ao seu lado sem reclamar, e muito grata fiquei por aprender com ela. Numa viagem como esta em que a proposta era caminhar por 9 dias, chegar todos os dias e ainda providenciar um pouso que na verdade nada mais era do que uma vaga pra estacionamento, e dormir acampada e embolada com a gente... Se algo a desagradou, ela não falou... Não cabia reclamações, se a situação era aquela, então era vivenciar isso da melhor forma possível: com bom humor e gratidão! 
      Sendo assim foi um caminho sem sofrimento algum: eu não tinha preocupação com a família, tinha uma parceria e tanto, não tive dores além do normal... Só fui feliz!
      Caminhamos em parceria, conversamos sobre tudo, conheci melhor a vida e a força de Luci e se antes já a via como uma grande mulher, passei a admira lá ainda mais. Luci é um dos presentes que os caminhos me trouxeram, e sempre quando a gente divide com alguém um caminho tão longo e especial, a gente fortalece o vínculo e sela pra sempre uma amizade sólida e pra eternidade, independente da distância ou das direções distintas que a vida nos coloca.
      Sabendo disso, toda vez que vou fazer um longo caminho, se fosse por minha vontade eu gostaria que tantas outras pessoas me acompanhassem... E de certa forma, muitas pessoas eu carreguei comigo... Eu mandava mensagens, notícias, mas sobretudo carrega as comigo, pois eu não me fiz sozinha, eu sou tanta gente... Sou aqueles que torcem por mim, aqueles que apreciam minha companhia, aqueles que me oferecem ouvidos, que me estendem a mão, sou aqueles que me contam com alegria feitos mirabolantes, aqueles que quando conseguem planejar realizar seus sonhos, me chamam pra fazer parte, ou se não chamam, me contam o que fizeram... Sou tanta gente... 
      E sigo pelos caminhos em frente na expectativa de estabelecer novas parcerias que me façam crescer, velhas parcerias... Sendo assim, cada vez acredito mais que sonhos... Se realizam! 
      Devo resaltar também um caloroso agradecimento ao meu marido Adriano, que a cada vez que me permite ir e vir, fortalece nossa relação baseada no respeito do outro e na confiança, pelo apoio incondicional a essa travessia, sua presença conosco possibilitou a companhia das crianças, criou uma memória única de uma aventura em família, me trouxe segurança e tranquilidade para que eu apenas caminhasse, seu bom humor e disponibilidade foram sem dúvida, determinante para o sucesso desse caminho. Obrigada por me permitir ter asas pra voar, voar é muito bom, mas voltar ao ninho é uma das melhores partes. 
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       

































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