Ir para conteúdo
  • Faça parte da nossa comunidade! 

    Encontre companhia para viajar, compartilhe dicas e relatos, faça perguntas e ajude outros viajantes! 

Caminho dos Vuriloches, um trekking pela história (Argentina/Chile) - fev/20


Posts Recomendados

  • Membros de Honra

20200225_132916.thumb.jpg.08670daf1b774217bcdfeab8fd3de287.jpg

Cerro Tronador visto do início da travessia em Pampa Linda

Início: Pampa Linda (Argentina)
Final: Ralun (Chile)
Distância: 66,2km (mais 11,2km ida e volta ao Refugio Viejo del Tronador)
Duração: 6 dias
Maior altitude: 1414m no Paso Vuriloche (2278m no Refugio Viejo del Tronador, opcional)
Menor altitude: 223m no Rio Conchas
Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira e acampamento selvagem. A maior subida tem desnível de 562m, com a subida ao Refugio Viejo del Tronador mais 966m. Se realizada ao contrário o desnível positivo é de 1191m (do Rio Conchas ao Paso Vuriloche). A grande dificuldade é de orientação já que não existe sinalização no lado chileno (embora seja área do Parque Nacional Vicente Perez Rosales) e em muitos pontos há mais de um caminho, causando dúvida. Também há vários rios a cruzar sem ponte.

O Caminho dos Vuriloches (ou Ruta de los Jesuítas) é um caminho histórico das missões jesuíticas dos séculos 17 e 18. Vuriloche é o nome dos primeiros povoadores da região do Nahuel Huapi no século 16. Conheciam muito bem os diversos passos da Cordilheira dos Andes, principalmente um que os comunicava diretamente com o mar, o Paso Vuriloche. Ao longo dos séculos esse caminho foi abandonado, procurado incessantemente, redescoberto pelos jesuítas no século 18, abandonado novamente e só redescoberto em sua totalidade no final do século 19.

Os relatos que li no planejamento dessa travessia pouco conhecida me deixaram um pouco apreensivo com relação à travessia dos rios sem ponte. Várias pessoas dizendo que eram muitos rios, a toda hora tinha um rio para cruzar, que era preciso muita atenção ao ponto certo da travessia, blá blá blá. Ok, sempre é preciso ter muita cautela, principalmente em lugares remotos, mas a verdade é que não são dezenas de rios e sim 7 (sete) rios que se cruzam a vau. Na maioria a água estava na altura da canela e em apenas dois a água chegou aos joelhos, com correnteza fraca. Claro que é preciso olhar a previsão do tempo para não fazer essa caminhada em dias de chuva. Dias muito quentes também provocam a subida dos rios pelo degelo nas montanhas. Se encontrar um rio muito cheio o melhor a fazer é esperar, talvez até o dia seguinte, por isso é preciso ter comida extra. Os Carabineros do Paso Vuriloche costumam ter informação atualizada sobre o nível dos rios dessa travessia.

20200225_133119.thumb.jpg.3004dabe4522f28c145197b5dd784789.jpg

Rio Manso

1º DIA - 25/02/20 - de Pampa Linda a Carabineros de Chile (Paso Vuriloche)

Distância: 11,7km
Maior altitude: 1414m no Paso Vuriloche
Menor altitude: 852m em Pampa Linda
Resumo: nesse primeiro dia de caminhada parti de Pampa Linda em uma subida constante até o Paso Vuriloche (desnível de 562m), fronteira entre Argentina e Chile, acompanhando o curso do Rio Cauquenes. Em seguida desci até o acampamento no posto dos Carabineros de Chile (desnível negativo de 110m).

Às 8h30, em frente ao CAB (Club Andino Bariloche), tomei a van da agência Travel Light para Pampa Linda. No mesmo horário saiu a van da agência Transitando Lo Natural. Essas são as duas únicas agências que fazem esse trajeto. Não há transporte público. Percorremos toda a margem leste do lindo Lago Gutierrez e em seguida do Lago Mascardi, entrando numa estrada de rípio à direita cerca de 800m depois da Vila Mascardi. Mais 450m e paramos na portaria do Parque Nacional Nahuel Huapi para pagar a taxa de ARS400 (R$25) para estrangeiro (ARS180 para argentinos). Tive a ilusão de que já estávamos chegando a Pampa Linda, mas que nada... rodamos mais 2h por estradas poeirentas contornando as margens sul e oeste do Mascardi. Só chegamos a Pampa Linda às 11h40. Altitude de 852m.

O dia estava maravilhoso, um sol agradável e um céu sem nenhuma nuvem, e se manteria assim pelos dias seguintes da travessia. Acabou aquele tormento de chuva repentina, vento gelado, acampamento com granizo e neve das trilhas que estava fazendo em Ushuaia.

Em Pampa Linda fiz algumas coisas antes de botar o pé na trilha: peguei informações mais atualizadas no Centro de Informes, localizei os dois campings que há e perguntei os preços, confirmei que não há mercadinho nem kiosco no vilarejo e produtos básicos de comida podem ser comprados no Camping Los Vuriloches (eles chamam isso de proveeduría) e, o mais importante, fui à Gendarmeria carimbar no passaporte a minha saída da Argentina. Sem esse registro não passo nos Carabineros para entrar no Chile. 

Outra coisa importante: para fazer qualquer trilha no Parque Nacional Nahuel Huapi (bem como em outros parques argentinos) é obrigatório fazer o registro de trekking. É gratuito e pode ser feito pela internet (www.nahuelhuapi.gov.ar), na Intendência do parque nacional em Bariloche (Av San Martin, 24) ou nos postos de guardaparque.

Ainda parei numa sombra em frente à Hosteria Pampa Linda para almoçar o lanche que tinha na mochila. Deixei Pampa Linda às 12h58 no sentido oeste, mas 100m após a hosteria parei de novo para tirar fotos do majestoso Cerro Tronador, vulcão extinto e maior montanha do Parque Nacional Nahuel Huapi. Continuei pela estradinha de rípio que leva às trilhas Ventisquero Negro, Garganta del Diabo e Piedra Pérez, todas na base do Cerro Tronador, mas a abandonei para tomar outra estradinha mais estreita à esquerda 670m após a hosteria. Há um painel ali com informações sobre as trilhas nessa direção: Saltillo de las Nalcas, Cerro Volcánico e Refugio Viejo. 

Cerca de 150m depois outra bifurcação com placa onde fui para a esquerda. A estradinha termina num rio com uma ponte de dois troncos. Havia quatro carros estacionados ali. Cruzada a ponte vou na direção do Cerro Los Emparedados, uma muralha rochosa onde despenca a cachoeira Saltillo de las Nalcas. Nalca é o nome de uma planta de folhas muito grandes encontrada também no sul do Brasil.

20200225_141243.thumb.jpg.200cd83dd91275faef281364c74e76d2.jpg

Saltillo de las Nalcas

Cruzo um bosque e às 13h30 atravesso uma ponte de ferro sobre o azulado Rio Manso. Reentro no bosque (para sair só no final do dia) e às 13h39 encontro uma placa apontando o Saltillo de las Nalcas em frente e o Paso Vuriloche à direita. Fui conhecer o saltillo que está a apenas 200m dali. Uma bonita clareira aos pés do Cerro Los Emparedados com a cachoeira despencando bem alto. Dá para tirar fotos atrás dela. Havia só mais um casal com uma criança e três rapazes. Fiquei bastante tempo ali, fui o último a sair às 14h24. Voltei à bifurcação da placa e entrei na trilha à esquerda (direita na vinda), cruzando uma ponte de tábua sobre o riacho que vem da cachoeira. 

A trilha está bem marcada mas com a vegetação se fechando um pouco. Há muita caña colihue (uma espécie de bambu) caída nas laterais e pedaços dela espalhados pela trilha. Às 14h56 fui à esquerda numa bifurcação com placa apontando Paso Vuriloche (da direita vem o caminho dos cavalos). Mais 400m e me aproximei do Rio Cauquenes, mas não o cruzei nesse ponto. Atravessei-o pelas pedras às 15h08 num local que gera alguma dúvida pois há trilha dos dois lados. Passei para sua margem esquerda (verdadeira). Aí inicia a subida. Parei por 23min numa pequena clareira com vista para o Arroio Cauquenes abaixo. Toda a subida até o Paso Vuriloche se dará dentro do bosque e junto ao curso do Arroio Cauquenes, cruzando-o algumas vezes (três vezes, segundo a placa no início da trilha).

Às 16h06 subi à direita na bifurcação que aponta a trilha para o Cerro Volcánico à esquerda. Cruzei com um casal, as primeiras pessoas desde a saída da cachoeira. Me alertaram para tomar cuidado com as taturanas na trilha. Passei por três pontos de água e parei no seguinte às 17h02. Passaram por mim descendo três homens com mochilas cargueiras grandes e pareciam estar com pressa. Continuando, passei por mais quatro riachos. São tantos riachos que é difícil dizer qual é o Cauquenes e qual é um pequeno afluente seu. 

À medida que subia apareciam árvores cada vez maiores, de troncos enormes. A inclinação também foi aumentando até que às 18h15 cheguei a uma bifurcação bem no Paso Vuriloche, fronteira entre Argentina e Chile. Altitude de 1414m. Os passos de montanha costumam ser lugares de visual grandioso, mas este decepciona um pouco pois está dentro do bosque, não há visual nenhum. Nessa bifurcação uma placa aponta para o Hito Vuriloche à direita e Carabineros de Chile à esquerda. Deixei a mochila e caminhei um pouco para a direita para tentar encontrar o hito (marco) de fronteira, mas depois soube que ele está a 800m de distância. 

Tomando a esquerda nessa bifurcação iniciei a descida para o posto dos Carabineros. O chamado Mallín Chileno (pântano chileno) (um belo prado alpino, segundo o guia Lonely Planet) foi aparecendo entre as árvores à direita e quando saí do bosque às 19h05 tive de atravessá-lo, mas por sorte não estava encharcado. Cruzei uma ponte de troncos e cheguei ao Recinto Carabineros de Chile às 19h14. É uma casinha de madeira pintada de verde e branco no meio de um bosque, mas ainda conserva o refúgio antigo ao lado. Quem me recebeu foram os três rapazes que estavam no Saltillo de las Nalcas! Conversando com eles já notei a grande diferença de sotaque em relação aos argentinos. 

Quem já viajou para o Chile sabe como eles são severos nos aeroportos e fronteiras com relação à entrada de alimentos frescos (frutas, legumes, carnes, sementes, laticínios, mel, etc), mas aqui não houve nada disso. Não pediram para inspecionar a minha mochila e não quiseram ver que comida eu levava.

Entreguei o passaporte para carimbo de entrada no Chile e só me devolveriam quando saísse para continuar a travessia, dois dias depois. O camping ali é gratuito e há banheiros, porém infestados de moscas. Pensei que ia ser o único a acampar ali nessa noite, mas já bem tarde chegou um casal.

Um trilheiro dormiu na casa dos Carabineros. Ele estava num grupo de quatro amigos vindo do Chile e torceu o joelho numa passada mal dada. Chegou com muita dificuldade até ali, com o joelho bem inchado, e os outros três desceram a Pampa Linda para buscar um cavalo para transportá-lo. Justamente aqueles três que passaram apressados por mim no riacho. 

Altitude de 1312m.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 1,6ºC

20200226_143858.thumb.jpg.718715775e8acf49d9f6d611a52f0efb.jpg

Refugio Viejo del Tronador

2º DIA - 26/02/20 - subida ao Refugio Viejo del Tronador

Distância: 11,2km (ida e volta)
Maior altitude: 2278m no Refugio Viejo del Tronador
Menor altitude: 1312m no posto dos Carabineros de Chile
Resumo: nesse dia encarei uma subida constante do posto dos Carabineros até o Refugio Viejo, num desnível de 966m

9h30 da manhã: 8,6ºC

Tronador, aquele que trona, que produz estrondo como trovão. Nesse caso estrondo produzido pelas constantes avalanches de seus blocos de gelo. O Cerro Tronador tem 3478m e é a montanha mais alta do Parque Nacional Nahuel Huapi. Seu cume mais alto se chama Internacional e marca a fronteira entre Argentina e Chile (há também o Cume Argentino e o Cume Chileno).

Deixei a barraca montada e saí só com a mochila de ataque às 9h50 para conhecer o refúgio antigo do Monte Tronador. Saí na direção oeste e tomei a direita na bifurcação. A trilha já inicia subindo e ainda dentro do bosque. A subida se dá toda no lado chileno em área pertencente ao Parque Nacional Vicente Perez Rosales. Às 10h10 saí do bosque de árvores altas e passei a caminhar entre arbustos. Logo o caminho começa a ficar mais pedregoso. Uns 200m depois que acabam os arbustos já é possível ver o Tronador e o refúgio, ainda minúsculo. A trilha está bem marcada e sinalizada com pircas (totens de pedra). 

Ao fazer uma curva fechada para a direita (de noroeste para nordeste) passo a caminhar por um dos contrafortes da montanha, mas cerca de 500m depois baixo para a vertente oeste desse contraforte. Ali a trilha se estreita ao cortar a encosta íngreme com queda bem alta - é bom passar com cuidado pois as pedrinhas soltas do chão não dão muita segurança. Uns 50m depois, às 11h04, começa um trecho de mais ou menos 700m de capim baixo com vários charcos. Há três pontos de água corrente nesse brejo das alturas. Depois desse capim é só pedra até o refúgio. Há mais um riacho junto a uma primeira mancha de neve ao lado da trilha. A paisagem se amplia cada vez mais, com montanhas a perder de vista. Identifiquei entre elas o Vulcão Osorno, com seu cone perfeito.

20200226_120815(0).thumb.jpg.2bbead31c421e6a3dddf96fb82d19a6d.jpg

La Ventana

Às 12h03 cheguei a um grande rochedo com um buraco e é por dentro dele que a trilha passa! A Pedra Furada do Tronador! Mas o nome que consta nos mapas é La Ventana (a janela). Uns 6min depois alcancei um grande campo de neve, o melhor ali é contorná-lo pela direita. Mas às 12h50 topei com outro campo de neve de cerca de 30m que tive de atravessar, não estava escorregadio. Uns 40m depois um campo bem maior, de uns 150m. Subi por uma trilha mais apagada entre pedras e cheguei ao Refugio Viejo às 13h03. 

O refúgio é uma construção de pedras recoberta por chapas de metal com placa do Club Andino Bariloche e data de 1938. Seu formato de arco é bem curioso. Em 2013 ele foi batizado de “Refúgio Manuel Ojeda Cancino”. Dentro há dois tablados de madeira sobrepostos onde devem dormir umas oito pessoas. Havia um livro de registro de visitantes sobre a mesa. Ao lado do refúgio está fincado o hito de fronteira. 

Nada de vento e um céu incrivelmente limpo permitiram uma visão total de toda a região. Dali é possível avistar: Cerro Catedral a leste; Pampa Linda, vale do Rio Manso e Lago Mascardi a sudeste; Laguna Rosada, Cerro Volcánico e Lagunas Cauquenes a sul-sudeste; Vulcão Calbuco a oeste. Mas o Vulcão Osorno ficou escondido pelo "ombro" do Tronador, um contraforte que aponta para o sul. A altitude ali é de 2278m, 1208m abaixo do cume do Tronador, o Pico Internacional.

Antes de ir embora desci alguns metros na direção do imenso glaciar Castaño Overo e tive a satisfação de pisar um pouquinho no gelo do Tronador. Tem água corrente ali. Há cercadinhos de pedras aqui e ali para quem quiser arriscar dormir ao ar livre. Por causa do sol e ausência de vento os tábanos estavam a todo vapor. Às 16h10 comecei a descer. Depois de cruzar os dois campos de neve mais altos encontrei um casal subindo, devia ser o que acampou essa noite nos Carabineros. Fomos os únicos que subiram ao refúgio nesse dia.

Desci pelo mesmo caminho, atravessei a pedra furada às 17h07, terminei de cruzar o trecho gramado às 18h35, passei com cuidado na parte inclinada de pedrinhas soltas e queda alta, reentrei nos arbustos, depois no bosque e às 19h55 estava de volta ao acampamento. 

Peguei de volta o passaporte com os carabineros pois sei que na Patagônia ninguém levanta da cama antes das 10h e eu pretendia sair antes disso.

Por azar um grupo de crianças e adolescentes muito barulhentos chegou para acampar nessa noite e fui obrigado a colocar protetores no ouvido para dormir porque eles foram se deitar muito tarde. 

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 2,4ºC

20200227_133311.thumb.jpg.2cbc387cc9ba8c2865cc50ae6d429c0e.jpg

Pontes destruídas no Rio Traidor

3º DIA - 27/02/20 - de Carabineros de Chile (Paso Vuriloche) ao Rio Esperanza/Casa de Letícia

Distância: 17,9km
Maior altitude: 1387m    
Menor altitude: 364m no acampamento junto ao Rio Esperanza
Resumo: apesar de esse dia ser uma longa descida em direção ao Rio Esperanza houve subidas também, algumas bastante inclinadas. Cruzei a vau o Rio Traidor (pontes destruídas) e depois caminhei pelo vale do Rio Blanco. Desnível negativo de 1023m.

9h da manhã: 6,2ºC

Desmontei acampamento e saí às 9h49 na direção oeste novamente, porém tomando a esquerda na bifurcação com as placas refúgio/Ralun e Sendero Valle Esperanza. Daqui até o final da travessia no Lago Cayutue vou caminhar dentro da área do Parque Nacional Vicente Perez Rosales.

Às 9h54 fui para a direita numa bifurcação com placa apontando dois hitos (marcos de fronteira) à esquerda. Houve alguns trechos de subida dentro do bosque. Às 11h20, numa abertura da mata para a direita avisto novamente o Tronador, nesse dia encoberto por uma nuvem enorme parecendo um chumaço de algodão - tive sorte de vê-lo no dia anterior completamente limpo. Em mais 10min saio do bosque e às 11h38 chego ao Refúgio Lomas de Huenchupan. É uma casa de tábuas com mesa de piquenique ao lado. Dentro há um tambor-aquecedor (chamam de salamandra) e um tablado superior com espaço para 5 ou 6 pessoas dormirem. Caberiam 4 ou 5 barracas ao lado. A visão para o Tronador é espetacular, com uma imensa cascata de gelo, o Glaciar Rio Blanco, que origina o rio de mesmo nome.

Continuei a caminhada às 12h22 e cruzei um riacho por troncos finos dentro de uma matinha. Logo a trilha sobe bastante a céu aberto com a vegetação baixa meio fechada e roçando a perna. Olhando para o Tronador consigo localizar o caminho que fiz no dia anterior para subir ao Refugio Viejo. 

Na descida cheguei às 13h19 ao Rio Traidor. Suas duas pontes em sequência estão destruídas. No primeiro braço do rio consegui caminhar sobre as pedras e não tirei as botas, mas no segundo não teve jeito, tive de tirá-las e entrar na água, que estava na altura da canela. Levei um par de calçados só para a travessia desses rios pois sabia que seriam vários. Levei um par de tênis bem leves para maior proteção dos pés, mas tem gente que leva crocs e outros usam meias de neoprene. 

Depois dessa manobra toda consegui sair dali às 14h05. Na subida muito empinada que se seguiu fui à direita, mas tanto faz pois os dois lados logo se encontram. Às 14h35 reentrei no bosque e às 15h é preciso atentar para a bifurcação: a direita está bem marcada e sai do bosque, mas o caminho certo é pela esquerda continuando na sombra das árvores. 

Às 15h27 entrei numa trilha à direita pois o gps apontava ali as termas Juvenal. A partir daqui aparecem fontes de águas termais (pela proximidade dos vulcões) onde foram construídas piscinas bem rústicas. Mas a trilha para essas termas Juvenal estava meio apagada... até que desapareceu no meio de árvores caídas. Insisti um pouco mais até que cheguei aos restos de uma cerca de madeira com uma árvore enorme tombada. O inverno rigoroso, com muita neve, acaba fazendo esses estragos no bosque. E as termas ficaram soterradas. 

20200227_164542(0).thumb.jpg.4e22b2faf8784a2ed8613dee5ff9e5a4.jpg

Casa da família Oyarzo feita com tejuelas de alerce

Voltei à trilha principal e cruzei uma ponte larga de tábuas (em estado razoável) sobre o Rio Blanco às 16h19. Com mais 5min fui à esquerda numa bifurcação por ser a trilha mais larga e saí do bosque. Caminhei ao longo de uma cerca e me dirigi a uma casa no meio de um grande campo. Cheguei a ela às 16h37. Estava vazia e trancada a cadeado. Era na verdade uma casa e mais duas casinhas feitas com tejuela de alerce, uma árvore ameaçada da região. Mais afastado havia um galpão. Esse lugar pertence à família Oyarzo, mas o antigo morador, Don Juvenal, faleceu em 2018.

Retomei a caminhada às 16h53 cruzando o campo na mesma direção (oeste) e acompanhando a cerca. Na primeira quina dela quebrei à esquerda (com seta) mas na segunda quina continuei em frente (não à esquerda de novo) na direção do bosque e entrando nele. Cruzei o Rio Blanco por uma ponte de tábuas e uma tronqueira em seguida. Começam a aparecer as valas por onde a trilha corre, valas escavadas pelos séculos de uso desses caminhos, inclusive por tropas.

Subi um pouco (70m) e às 17h35 passei por uma laje de pedra um pouco exposta com caída para a direita, mas nada assustador. Chamam esse lugar de Piedra del Buitre (pedra do abutre, decerto pelos muitos cavalos que já despencaram ali). Uns 4min depois cruzei uma porteira aberta. Na primeira água corrente que apareceu parei para me refrescar. Passei por mais duas porteiras abertas, uma ponte de tábuas em bom estado e as valas começaram a ficar mais profundas, com o solo e as plantas acima da cabeça. Surgiram os arrayanes, árvores com o tronco cor de canela mais comuns em beiras de rios e lagos. 

Numa bifurcação às 18h43 tomei a esquerda, subindo. Cruzei outra porteira, saí do bosque para um pasto e cheguei a outro sítio com vacas e cavalos às 19h12. Na casa encontrei enfim um morador dessas paragens, Jorge Sanchez, que me disse que mora ali também o sr Aroldo Alvarado. Pedi permissão para tirar foto da bonita casa de tejuelas de alerce, infelizmente um pouco mal conservada. Segui caminho reentrando na mata, cruzei mais duas porteiras e saí do bosque para um gramado às 19h49. 

Na descida avistei casas no vale e depois fumaça na direção do rio (esquerda). A primeira casa na verdade era um galpão, mais adiante no meio das árvores estava a casa de Letícia Alvarado e Enrique (não visível dali e fechada também). A fumaça que pensei vir da chaminé de outra casa na verdade era da fogueira de um grupo de amigos de Buenos Aires que estavam acampados no gramado perto do Rio Esperanza. Conversei com eles e trocamos informações sobre a travessia já que estávamos fazendo em sentidos contrários. 

Do outro lado do Rio Esperanza há uma casa também, essa dos srs Lalo e Coche Muñoz. Um grupo de 14 "chicos" (adolescentes nesse caso), dos quais o carabinero tinha me falado, dormiu essa noite ali também, por isso acampei bem longe... rs.

Esse dia tem muitos trechos a céu aberto. Recomendável usar um protetor solar. Não há problema de água, encontrei vários outros riachos além dos citados acima.

Altitude de 364m.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 6ºC

20200228_134235.thumb.jpg.946be936dcdcefbc60895f14ff9b381d.jpg

Casa da família Muñoz feita com tejuelas de alerce

4º DIA - 28/02/20 - de Rio Esperanza/Casa de Letícia a Casa de Tito Velázquez

Distância: 11,3km
Maior altitude: 367m na casa dos Muñoz
Menor altitude: 246m
Resumo: nesse dia cruzo a vau o Rio Esperanza e acompanho o Rio Blanco pela margem esquerda. Dia de pouco desnível (121m).

8h20 da manhã: 7,1ºC

A barraca amanheceu ensopada pela condensação, tive de esperar o sol chegar ao fundo do vale para secá-la antes de guardar. 

Depois fui conhecer as termas. Como não há sinalização nenhuma para chegar a elas perguntei aos portenhos. Basta seguir o rio a montante por uma trilha dentro da mata por 300m. Ela desce diretamente para uma ponte suspensa destruída com os dois tanques à direita, bem junto ao Rio Esperanza. A temperatura da água estava deliciosa, benditos vulcões! Mas o lugar é rústico de verdade, não espere piscina de azulejos. Voltei ao acampamento e ainda fui conhecer um outro tanque, este mais próximo porém menor e mais raso. Quando voltei o pessoal de Buenos Aires já tinha partido. 

Comecei a caminhar às 12h09 na direção indicada pelo gps: norte e noroeste, ou seja, descendo o Rio Esperanza por esse mesmo lado. Fui na direção do galpão por onde cheguei no dia anterior, cruzei a porteira e, ao sair no campo com vacas, encontrei a casa de Letícia Alvarado e Enrique. Estava fechada e dizem que não vivem mais aí. Continuei pela trilha ao longo de uma cerca, cruzei outra porteira e cheguei ao Rio Blanco, que tem esse nome por causa da água cinzenta de degelo. Ele se origina no Glaciar Rio Blanco, um dos oito glaciares do Cerro Tronador.

Porém esse rio é bem largo, com correnteza e a ponte estava no chão. A água cinzenta é perigosa pois não permite ver a profundidade. Esse local se chama La Junta porque a 300m dali o Rio Blanco se junta ao Rio Esperanza. Lembrei que os amigos de Buenos Aires disseram que haviam cruzado o Rio Esperanza e que não passaram pela casa de Letícia. Voltei então ao acampamento para ver como era a travessia desse rio, e é muito mais fácil. O rio é raso (bate nos joelhos) e a água é transparente, dando mais noção de profundidade. Só é preciso tomar cuidado para não escorregar nas pedras do fundo. 

20200228_135927.thumb.jpg.db18c6d6e8c6fab4d617cdbe47ef25d8.jpg

Rio Blanco

Subi até a casa dos Muñoz mas não havia ninguém, somente o cachorro tomando conta. Havia um pé de ameixas cheio de frutos mas estava bem azeda. A casa e o galpão também de tejuelas de alerce, aliás o galpão uma bela construção. Apesar da distância da civilização havia uma antena da DirecTV. Saindo dali às 13h43 tomei a trilha na direção noroeste seguindo o rio, agora pela margem esquerda. Eu não tinha essa trilha no gps mas tudo indicava que estava no caminho certo. 

Em 4min entrei no bosque e caminharia o dia todo dentro dele (portanto sem tanta necessidade de protetor solar nesse dia). Algumas janelas na mata para a direita deixam ver o cinzento Rio Blanco. Cruzei três riachos, duas porteiras, outro riacho e começaram a aparecer as valas profundas por onde a trilha corre, valas de 3m a 4m de profundidade! Nesse trecho encontrei com o sr Lalo Muñoz voltando para casa a cavalo e conversamos bastante. 

Caminhava cercado por árvores enormes, bem altas e de tronco que necessita várias pessoas para abraçar. Cheguei às 15h28 a um bonito riacho cristalino cercado de pedras brancas e parei para lanchar. Saí às 15h43. Mais dois riachos, uma porteira e percebo a vegetação mudando. Aparecem inclusive samambaias. Sinais da Selva Valdiviana. 

Às 17h09 surge uma trilha à direita com a placa: "seguir por la derecha los peatones (pedestres)". Aqui entronca a trilha que vem da margem direita do Rio Blanco, aquela que tentei fazer mas a ponte estava no chão.

Mais um riacho e topei às 18h17 com uma bifurcação com placa: Rio Blanco à direita e Ralun à esquerda. Esse caminho "Rio Blanco" desce esse rio para o norte para chegar ao Lago Todos os Santos, de onde se pode contratar um barco para Petrohué e seguir para Puerto Varas e Puerto Montt (Chile). Ou um barco na direção contrária (leste) para Peulla e voltar à Argentina. Mas o meu caminho era por terra mesmo e para Ralun, então segui para a esquerda. 

Mais um riacho, uma porteira, outro riacho e às 18h40 saio do bosque para um pasto, sinal de que se aproximava outro sítio. Passei por vacas pastando, subi levemente e avistei a casa abaixo. Cheguei a ela às 18h51. Toda de tejuelas de alerce também, mas em mau estado de conservação. Havia luz acesa, bati, esperei, mas não apareceu ninguém, deviam estar na roça. Provavelmente era a casa de Tito Velázquez (mas li em outros relatos que seria a casa de Pedro Muñoz, o que me deixou em dúvida). O sr Lalo disse que teriam queijo, por isso me interessava ainda mais encontrar alguém. Para não acampar no quintal e causar algum incômodo me afastei um pouco (pura bobagem...). Continuei o caminho, cruzei um riacho pelas pedras, passei uma porteira e encontrei um bom local para acampar antes do próximo riacho e junto a uma matinha. 

Altitude de 262m.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 7,3ºC

20200229_150852(0).thumb.jpg.33aac3816da40ce90065b2d84ab42299.jpg

Laguna de los Palos

5º DIA - 29/02/20 - da Casa de Tito Velázquez ao Rio Conchas

Distância: 17,7km
Maior altitude: 359m próximo à Laguna de los Palos
Menor altitude: 223m no Rio Conchas
Resumo: nesse dia cruzei a vau o Rio Quitacalzones (Laguna de los Palos) e depois quatro vezes o Rio Conchas. Mais um dia de pouco desnível, com apenas uma subida mais acentuada de 66m de altura.

8h da manhã: 8,4ºC

A barraca amanheceu com o sobreteto ensopado de novo pela condensação. É uma barraca 4 estações, para montanha, por isso ocorre tanta condensação. Ainda bem que tive outro dia ensolarado para secá-la antes de arrumar a mochila. 

Quando desmontava acampamento passou um homem a cavalo na trilha na direção de Ralun. Me cumprimentou de longe. Voltei à casa para ver se havia alguém, mas aquele homem era justamente o morador. 

Quando saía para iniciar a caminhada apareceram os primeiros corredores que estavam fazendo uma prova do Lago Cayutue ao Lago Todos os Santos. Depois foi uma chateação cruzar com tanta gente correndo naquela trilha tão estreita. A sinalização de fitas vermelhas que vi no final do dia anterior era por conta dessa prova.

Saí do meu local de acampamento no sentido sudoeste às 11h25, o que se mostrou muito tarde para chegar ao Lago Cayutue ainda nesse dia. Entrei na sombra do bosque, cruzei uma porteira e saí num gramadão com vista para as montanhas às 12h29. Mais 5min e cheguei a um sítio abandonado com as casas semidestruídas. Curioso ver mesa e cama ainda dentro da casa. Ao redor pés de maçã, ameixa, cereja e castanha-portuguesa. Parei para descansar na sombra e passaram algumas pessoas a cavalo na direção contrária. 

Saí às 13h20 e cruzei um riacho por uma ponte improvisada com três troncos. Depois dele a trilha atravessou um gramado na direção sudeste. Entrei num bosque e ao sair dele às 13h35 a trilha bifurcou no pasto: à esquerda uma porteira e depois uma casa com gente (fumaça saindo da chaminé), mas achei melhor seguir pela direita, cruzei um riacho num tronquinho e ao me deparar com outra porteira não a cruzei e sim quebrei para a direita pelo campo sem trilha até que ao final dele encontrei uma trilha. Não me aproximei da casa e não soube quem mora nela.

20200229_180056.thumb.jpg.f83e6fd48ab4dcb645ba16c2a3bebd57.jpg

A trilha já se transformou em valas profundas

Cruzei uma porteira e entrei no bosque. Outra porteira e me aproximo de um rio que está à esquerda, um dos vários formadores do Rio Quitacalzones. Numa bifurcação fui à esquerda pois à direita havia um lamaçal, mas os dois lados se encontram 200m depois. O rio à minha esquerda deságua na Laguna de los Palos, mas eu começo a subir. Reaparecem as valas profundas por onde a trilha corre. E árvores enormes também. Vejo à esquerda pelas frestas da vegetação a Laguna de los Palos bem abaixo (também chamada de laguna del bosque inundado). Depois de subir 66m (de altura) a trilha desce e volta ao Rio Quitacalzones já extravasando da laguna. Às 14h39 foi a primeira vadeação (palavra feia; vado, em espanhol, é bem melhor) desse dia. Rio raso, água acima do tornozelo, correnteza fraca, portanto nenhuma preocupação (em dias sem chuvas). 

Parei na campina da margem esquerda para um lanche e depois fotos da Laguna de los Palos. Continuei às 15h35 e encontrei outro rio para vadear apenas 170m depois. Nesse caso se você estiver usando um calçado reservado para essas travessias de rio nem vale a pena tirá-los. Eu já havia calçado as botas e consegui cruzar esse rio por pedras e troncos sem precisar calçar os tênis de novo. Ufa!

Cruzei mais uma porteira (com vacas) no bosque, dois riachos e saí num gramado às 16h40. Atravessei o Rio Hueñu Hueñu pelas pedras e reentrei no bosque. Esse riacho deságua no Quitacalzones formando o Rio Conchas, o qual acompanharei e cruzarei a vau quatro vezes até o final do dia. Saí dessa mata para a direita seguindo as fitas vermelhas da prova mas reentrei nela apenas 200m depois cruzando um riacho raso às 17h11. Cruzei pastos e bosques com valas profundas cheias de barro (deve ser um terror na época de chuvas) até que às 18h15 cheguei a outro sítio, mas só vi vacas. 

Entrei em outra mata (com arrayanes) e saí dela para a direita diretamente nas pedras da margem do Rio Conchas. Caminhei quase 100m pelas pedrinhas e não estava encontrando a continuação da trilha para reentrar no bosque à esquerda. Olhei para a outra margem do rio e vi um totem. Foi a primeira de quatro travessias a vau desse rio (18h55). Água na canela e correnteza fraca. 

Reentrei na mata, agora na margem direita do rio e caminhei 1,1km até encontrar o rio de novo. Caminhei pelas pedras da margem por 80m e tirei as botas outra vez para entrar no rio, que bateu no joelho dessa vez (19h40). Aqui é melhor permanecer com o calçado reservado para água pois as travessias vão ser em sequência. Até tentei encontrar um caminho pela mata que evitaria essas duas travessias seguidas mas ele sumiu. Na margem esquerda agora cruzei outra matinha e voltei às pedras do rio. Atravessei o rio pela terceira vez (19h57) e a água chegou ao joelho. Mais 1,1km pelo bosque da margem direita e o cruzei de novo com água na canela às 20h28. Encontrei um gramadão na margem esquerda e pelo horário resolvi acampar ali.

Altitude de 223m.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 10,8ºC

20200301_111310.thumb.jpg.e59d2c5d201351a66bdb0296d85b8536.jpg

Rio Conchas

6º DIA - 01/03/20 - do Rio Conchas a Ralun (Chile)

Distância: 7,6km
Maior altitude: 435m no estacionamento
Menor altitude: 223m no Rio Conchas
Resumo: nesse último dia de caminhada apareceram duas subidas: ao chegar ao leito "gramado" do Lago Cayutue subi 139m e desci tudo de novo para voltar à margem; ao deixar o Lago Cayutue subi 203m até o estacionamento no início da estrada para Ralun.

8h20 da manhã: 11,7ºC

Comecei a caminhar às 11h15. Saí do bosque para um gramado e cruzei um riacho pelas pedras. Surgiu uma casa semidestruída à esquerda com pés de cereja e castanha-portuguesa. Saí dela na direção norte mas há vários caminhos pisados. Numa sequência de bosques e pastos cheguei à extremidade leste do Lago Cayutue, mas aqui ele parece mais um gramado. Ainda faltava muito para alcançar sua área de acampamento. A trilha entrou no bosque às 12h10, fez uma curva para a esquerda e apareceu uma subida longa e inesperada. Há quem caminhe pelo "gramado", mas há o risco de encontrar um pântano ou ter de caminhar dentro da água. Frestas na mata deixavam ver o lago lá embaixo. Subi 139m.

Descendo, passei por valas muito fundas, uma porteira, um riacho e às 13h08 cheguei à margem sul do lago. Visão espetacular. Contornando o lago não deixei escapar nenhuma amora, eram as primeiras da temporada e estavam deliciosas. Passei por mais valas bem fundas e alcancei um gramadão com muito vento às 13h34. Caminhei para a direita para me reaproximar do lago e cheguei às suas margens em 7min. Lindo lago! No acampamento contei nove barracas. Fiz muito bem em parar lá no rio. Do lago se avista o Vulcão Puntiagudo ao norte. Há vários caminhos no bosque, mas a saída para a estrada é na direção sudoeste a partir do acampamento. 

Cruzei aquele gramadão e reentrei no bosque às 14h. Logo apareceu um riacho e pensei que teria de tirar as botas de novo, mas consegui me equilibrar no tronco à esquerda. Parei ali para um lanche rápido, queria chegar logo à estrada para aumentar a minha chance de carona com as pessoas voltando do lago. Seriam 10km de estrada até Ralun, bastante para ir caminhando. Além disso conseguir carona no sul do Chile é algo bem fácil. 

Saí às 14h28. Depois do riacho veio uma subida suave mas muito molhada e enlameada de quase 500m! Cruzei quatro riachos e saí da sombra do bosque. A trilha se transformou numa estradinha de pedras. Passei pelas primeiras casas e cheguei às 15h22 a um estacionamento, mas só carros 4x4 conseguem chegar ali. Subida de 203m desde a margem do lago.

Menos de 200m depois passei por uma camionete parada na estradinha e o sujeito que estava conversando com o motorista me chamou e me ofereceu carona. Caramba, carona caindo do céu assim! Ficou surpreso quando lhe disse que estava caminhando havia seis dias. 

20200301_134514.thumb.jpg.fea3ae5cdc68c18e4270dfc1cd32ee01.jpg

Lago Cayutue

A estrada nesse trecho é terrível, muitos buracos e pedras. Quase 4km descendo passamos pelo estacionamento onde carros baixos têm que parar. Mais 6,6km e chegamos à rodovia V-69, que liga Ensenada (oeste) a Caleta Puelche (leste). Eu sabia de dois campings à esquerda na rodovia mas ele quis me levar para a direita, mais próximo da ponte do Rio Petrohué. Me deixou às 16h05 no mercadinho El Fundo, 800m depois da ponte, onde eu poderia comprar comida e perguntar de camping. O mercado não tinha pão nem queijo, de lanche de trilha só tinha bolachas. 

O único lugar para acampar ali perto seria no gramado na margem do Rio Petrohué tratando com o dono do terreno na casa próxima. Não tem placa de camping nem tem nome, na frente da casa tem um letreiro escrito "Excursiones de pesca Luis". Cobram CLP4000 (R$29,63) com banheiro e wifi só na casa e sem ducha (banho no rio). Por sorte as meninas da casa fizeram pão amassado (pão caseiro chileno) para eu jantar e levar na próxima caminhada de dois dias, que seria o retorno à Argentina pelo Passo Internacional Rio Puelo (relato aqui).

Altitude de 3m.

Informações adicionais:

. para chegar ao início da trilha em Pampa Linda deve-se tomar o transporte em van das agências Transitando Lo Natural (Rua 20 de Febrero, 25) e Travel Light (Rua 20 de Febrero, 426, www.travelighturismo.com). Ambas estão muito próximas do CAB (Club Andino Bariloche) e da Intendência do Parque Nacional Nahuel Huapi, bem no centro de Bariloche. O transporte da Transitando Lo Natural sai da frente da agência e o da Travel Light sai da frente do CAB. Ambos saem às 8h30 da manhã e é recomendável comprar a passagem um dia antes. Preço em fev/20: ARS900 (R$56,25). Não há transporte público de Bariloche a Pampa Linda.

. a entrada no Parque Nacional Nahuel Huapi custa ARS400 para estrangeiro (R$25; fev/20)

. para fazer qualquer trilha no Parque Nacional Nahuel Huapi é obrigatório fazer o registro de trekking. É gratuito e pode ser feito pela internet (www.nahuelhuapi.gov.ar), na Intendência do parque nacional em Bariloche (Av San Martin, 24) ou nos postos de guardaparque.

. em Pampa Linda há dois campings: Camping Los Vuriloches: ARS550 por pessoa + ARS250 a ducha (www.campinglosvuriloches.com)
Camping Agreste Rio Manso (da Hosteria Pampa Linda): ARS300 por pessoa + ARS250 a ducha

. em Ralun acampei num gramado na margem direita do Rio Petrohué onde o dono cobra CLP4000 (R$29,63) com banheiro e wifi só na casa e sem ducha (banho no rio). O local não tem nome, deve-se tratar na casa com placa "Excursiones de pesca Luis".

. em Ralun há ônibus para Cochamó, Rio Puelo e Lago Tagua Tagua na direção leste e Puerto Varas e Puerto Montt na direção oeste

Rafael Santiago
fevereiro/2020
https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br

 

545618773_VurilochesGEcolorido.thumb.JPG.3fc8bf3e82577f2dbb9b06c29b015970.JPG

 

1755072771_VurilochesGEcoloridoparcial1.thumb.JPG.40a29511a6d724a9407d9b4f0a1cfd72.JPG

 

316013826_VurilochesGEcoloridoparcial2.thumb.JPG.5b3faee5ce45fa2187d9a6e96b1acd61.JPG

 

  • Gostei! 2
Link para o post

Crie uma conta ou entre para comentar

Você precisar ser um membro para fazer um comentário

Criar uma conta

Crie uma nova conta em nossa comunidade. É fácil!

Crie uma nova conta

Entrar

Já tem uma conta? Faça o login.

Entrar Agora
  • Conteúdo Similar

    • Por divanei
      VALE DO GUAXINDUBA
       
                Naquela madruga choveu. Choveu como há tempos não chovia e eu estava feliz por estar numa cama quentinha, abrigado em baixo das cobertas e ficava pensando quem seria trouxa de sair para fazer trilha com um tempo daqueles, mas não demorou muito para a realidade ser jogada na minha cara.
                - Diva, acorda, já passa das 4 da manhã, hora de partirmos.
                Levantei-me imediatamente. Pulei para dentro da minha calça e da minha bota e me pus pronto para a aventura, mesmo sabendo que com aquele tempo horrível, teria sido melhor ter continuado dormindo. Mas bastou um gole de café, para que minha alma voltasse novamente para o corpo e eu me visse de novo eufórico para a missão da qual eu fui tirado do interior Paulista e levado para o litoral Norte.
                Quando o plano foi me apresentado pelo Thiaguinho, quase tomei um susto. A ideia era subir um rio em Caraguatatuba atrás de uma imagem de satélite que possivelmente pudesse nos levar até uma cachoeira de tamanho considerável. Analisei meio por cima e realmente parecia algo muito interessante, ainda mais que aquele rio havia me passado batido nas minhas explorações cartográficas, verdade mesmo que nunca havia dado muita bola para aquela região, com exceção do Rio Juqueriquerê, que eu havia descido em 2015. Mas pelo sim pelo não, fui procurar para ver se não havia uma trilha que pudesse nos levar até ela, afinal de contas, não estava tão longe da civilização assim.
                Vasculhei o quanto deu e tudo que encontrei foram uma meia dúzia de traclogs( caminhos marcados com GPS) que atingia no máximo 250 a 270 metros de altitude e não passava disso . Minha conclusão seria mais do que obvia: aquele ponto deveria ser o lugar onde os turistas poderiam chegar, era muito provável que ali se fecharia numa garganta alta onde só aqueles mais tarimbados conseguiriam ir adiante, mas eram pura suposições, era preciso pagar para ver, botar os pés no rio e ir conferir pessoalmente.
                A chuva não dava trégua, mas mesmos assim jogamos nossas mochilinhas com o necessário no porta malas do carro e partimos para o bairro Canta Galo, um amontoado de casas junto às margens do Rio Guaxinduba.  Quase 2 km depois de sairmos da Rio-Santos passamos em baixo  do viaduto gigante que fará parte da duplicação da Tamoios e em mais 1 km de estrada desembocamos enfrente à uma estação de tratamento de água da Sabesp, mas logo notamos que nosso caminho ficava uns 300 m antes, uma estradinha entrando na mata. Paramos o carro em uma clareira porque nossa jornada motorizados acabara de chegar ao fim.
                Jogamos as mochilas nas costas e partimos. Ainda chovia um pouco, mas nossa euforia fazia com que desprezássemos esse sofrimento e então nos adiantamos a passos largos, firmes e decididos. O Thiago à frente, esbanjando toda vitalidade dos seus trinta e poucos anos e eu, é claro, tive que me manter firme, consumindo litros de oxigênio para me manter colado nele e não tentar demonstrar as fraquezas dos meus 50 anos nas costas. Minutos depois a estradinha acaba junto a algumas casas e entra numa trilha onde um riacho faz barulho de água boa, mas já estávamos abastecidos e só fizemos seguir atropelando metros e metros. Passamos por um bonito descampado, que rapidamente também é deixado para trás, até nos embrenharmos definitivamente na floresta sombreada.
                Quando entramos nessas trilhas não encontramos nenhuma placa de que o acesso fosse proibido, tão somente havia algo dizendo ser uma área em recuperação e como era uma trilha bem larga, supomos ser bem usada pelos nativos ali da região. E é realmente uma trilha encantadora, com árvores gigantes que nos surpreendem a cada metro percorrido, por ainda estarem de pé tão perto da civilização. A trilha apesar de bem larga, vez ou outra se bifurca e confundi a nossa cabeça e alguns perdidos nos leva às margens do rio, muito provavelmente serviria para acessar algum poço ou cachoeirinha mais turística, mas como o rio está bufando, não nos pareceu valer a pena descer para conferir, então retornávamos e seguíamos por onde nos parecia ser a direção correta, mas bem menos de 1 km depois de começarmos a caminhar, fomos obrigados a nos determos por um instante para prestarmos continência a um espetáculo que a natureza nos reservou : Um exemplar de uma árvore gigante faz com que nossos queixos despenquem das nossas caras. Eu não saberia dizer que árvore seria aquela, não sou botânico e sinceramente não tenho lá grande conhecimento a respeito desse assunto, mas me pareceu ser uma Figueira Brava ou uma Samaúma, mas é puro chute, então se alguém souber o nome que me corrija, mas o certo é que não é possível passar diante de um monstro desse e não sair de lá encantado.
       
                Nossa caminhada segue a passos cada vez mais firmes, alternando pequenas descidas e subidas, mas nada em excesso e uns vinte minutos depois, um clarão surge no meio da floresta verde e junto a um afluente do rio, tropeçamos numa cachoeira enorme que nem esperávamos encontrar. E era realmente grande, uns 20 metros de queda, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos, mas o simples fato dela cruzar o nosso caminho, já foi motivo de uma comemoração pelo prazer de tê-la encontrado , tão alta e em tão pouca altitude  e sem saber o nome ainda, mas muito provavelmente ela deve ter um, como referencia vou chamá-la de CACHOEIRA DO PAREDÃO até que eu descubra o verdadeiro nome. E esse nome fictício só me veio à cabeça porque logo à frente, pouco antes de desembocarmos definitivamente no rio, somos apresentados a numa parede gigante, uma muralha de pedra deslumbrante.

                Abandonamos, portanto a cachoeira e passamos raspando na parede e em um minuto caímos no Rio Guaxinduba, mas agora em definitivo. O rio está cheio, mas a chuva quase cessou por completo. Estamos agora bem de frente de outra CACHOEIRA, não tão grande como a anterior, mas com um volume grande, confinado num tubo que forma um salto para dentro de um poço profundo, com a água um pouco escura, mas ainda assim muito limpa. Aqui é mais ou menos a cota 260 de altimetria e é o lugar onde a trilha acaba em definitivo, mesmo porque, agora estamos diante de uma garganta que fecha o rio num amontoado de rochas gigantes, fim da linha para os turistas, daqui para frente é só quem se atreve a botar a faca nos dentes , num caminho incerto, perigoso, é o lugar que separa os homens dos meninos, é hora de aceitar o convite para a aventura.

                Nossa aposta de que esse seria o lugar onde o rio estaria bloqueado foi um acerto um tanto óbvio pela nossa experiência nesses longos anos de exploração selvagem. Num primeiro momento, eu e o Thiago trocamos ideia sobre a possibilidade de escalarmos as grandes rochas, mas era uma subida um tanto exposta com a pedra molhada pelas chuvas recente. Até daria para dar um bote de cima de uma grande rocha e se agarrar à outra, mas um erro de calculo e o escalador seria jogado para dentro da fenda e ali seria moído pela rocha áspera. Então a decisão sensata era, depois de atravessar o rio, ganhar uma canaleta do lado direito e abrir uma passagem para o alto e estando mais acima, varar mato de volta para o rio. E foi isso que fizemos e em poucos minutos retornamos à parte alta dessa primeira cachoeira, justamente de frente para uma cachoeira bem peculiar, onde a água despencava no meio de grandes pedras suspensas e ao nos aproximarmos  dela , um colônia de andorinhas barulhentas nos deu as boas vindas e por também não sabermos o nome, resolvemos marcá-la no mapa como CACHOEIRA DAS ANDORINHAS, mesmo não sendo um nome muito original, foi o que pensamos na hora.

                Paramos por um tempo para apreciar a cachoeira e tomar um gole de água. Uma analise fria já nos diz que escalar a cachoeira não é possível e muito menos viável cruzar para a margem esquerda do rio, então só nos restava a velha tática de varar mato. Também do lado direito foi que descobrimos uma abertura que nos levou rapidamente até o pé de uma parede íngreme, mas que surpreendentemente formou uma escada de raízes no barranco, onde apoiávamos primeiro as mãos e depois os pés até nos elevarmos a parte superior da Cachoeira das Andorinhas, varando um mato cheio de espinhos e descendo desescalando pedras lisas até o rio. Estávamos bem de frente a uma ilha no meio do rio e do outro lado nos pareceu haver mais uma grande cachoeira e para la chegarmos , tivemos que desenrolar uma travessia de meio rio, antes mesmo de pularmos para o meio da ilha, onde bem perto , mais uma cachoeirinha despencava.
                Cruzamos o rio nos valendo de algumas partes mais rasas, mas mesmo assim com a água quase pela cintura até ficarmos bem de frente com a cachoeira maior que buscávamos. Não era tão alta, mas despencava de forma bem peculiar, com um pequeno tobogã encima que fazia com que ela se transformasse num chuveiro e ao seu lado o rio saltava em mais um cachoeirinha, formando um cenário agradável  e mais uma vez, sem saber se existia um nome, vou marcá-la como CACHOEIRA DO CHUVEIRÃO, nome não muito bonito, mas deve servir de referência.

                Pensei em continuar nossa jornada atravessando para o lado esquerdo do rio, porque me pareceu que seria fácil passar, mas logo o Thiago me avisa que mais à frente o rio se enfia num pequeno cânion, onde poderíamos ter problemas e insiste em nos mantermos no lado direito. Pulamos para a ilha e começamos a escalar algumas pedras íngremes até voltarmos para o rio, onde ariscamos passar numa parte profunda nos valendo de um apoio ao lado de uma parede do rio, cairmos novamente numa língua de mato e voltarmos para o rio na tentativa derradeira de chegarmos ao nosso objetivo principal.
                Não eram nem nove da manhã quando à nossa frente um clarão branco despencando de um paredão nos ofuscou os olhos. Ainda em meio às árvores e rochas, que nos fechava o caminho, essa visão ia se alternando entre ficar visível e sumir. Eu e o Thiaguinho nem conversamos sobre o assunto, apenas nos mantemos focados em escalar matacões gigantes, numa tentativa desesperada de ganharmos terreno o mais rápido possível. A chuva se foi, milagrosamente a água deixou de cair do céu e adentramos numa toca que era mais apertada quem o útero das nossas mães, mas passamos, encolhendo a barriga, mas passamos e emergimos do outro lado, aos pés de uma grande rocha. O Thiago foi à frente, abrindo caminho na quiçaça até se ver numa fenda entre duas pedras. Ele se equilibrou sobre um tronco de árvore podre, enquanto eu o avisava para que tomasse cuidado. Assim que ele passou, dei um salto e ganhei também o outro lado, e juntos, de cima daquela pedra escorregadia, saltamos para a gloria final, sobre um platô, de frente para o Objeto da nossa conquista pessoal.
                Diante nos nossos olhos, em toda sua magnitude e esplendor, muito mais bela do que poderíamos imaginar, um turbilhão de água saltava de cima da  parede, primeiro vindo de um tobogã de uns 200 metros , depois caindo no vazio de uma altura mais ou menos de uns 30 ou  35 metros no total. Uma cachoeira se espalhando sobre a parede, onde parte do seu véu se ocultava atrás de uma grande rocha. Recebendo suas águas, um laguinho se esparramava até onde estávamos e mesmo com o rio cheio pelas chuvas recentes, ainda assim a água continuava bonita e bem apresentável. A força da água se jogando da montanha formava uma névoa sobre nós e o vento balançava a vegetação ao nosso redor, nos fazendo sentir um pouco de frio, mas pouco nos importava, a cachoeira GRANDE DO GUAXINDUBA  era nossa, apenas dois aventureiros abobados, inebriados, testemunhas oculares de um espetáculo e se mesmo sabendo ser provável que não sejamos os primeiros a pisar ali, felizes estávamos por termos certezas que era uma visão presenciada por não mais de meia dúzia, então não nos restou outra coisa, senão  nos abraçarmos e comemorarmos o sucesso daquela empreitada.

                   O Thiaginho estava eufórico, um menino hipnotizado pela descoberta bem no quintal de casa. Eu fiquei ali, parado , estático, sentindo aquele momento e feliz por ter me levantado daquela cama quentinha hoje pela manhã. Mas é preciso contar o resto desta história e não deixar passar nada do que presenciávamos ali naquele momento. Se já não bastasse aquela cachoeira, que fechava o vale com uma beleza inenarrável , ao lado dela, despencando de um afluente do lado esquerdo, outra queda d'água formava o cenário perfeito, uma união de dois acidentes geográficos numa obra de arte da natureza que não precisava de retoques. Nossas cabeças rodopiava entre um cenário e outro , mas antes de perdermos o foco diante de tão deslumbrante cenário, nos sentamos para não cair e aproveitamos para comermos algo , ali mesmo ao lado dessa outra queda, que aqui temporariamente chamo de PEQUENA DO GUAXINDUBA e assim marcamos no mapa, mais uma na nossa lista de lugares perdidos no Lado Escuro da Serra do Mar Paulista.

                Chegamos no lugar onde havíamos deslumbrado chegar, mas sendo ainda muito cedo, resolvemos esticar ainda mais a aventura. Decidimos por escalar o grande paredão para tentarmos chegar ao alto da Cachoeira Grande. Analisamos o terreno e era fácil supor que pela direita seria impossível passar, diante de uma parede de quase  noventa graus de inclinação, então só nos restava fazer um ataque pela esquerda, não da cachoeira grande, mas ao lado da pequena , a cachoeira do afluente. Usando nossa técnica inovadora de nos segurarmos em tudo e qualquer coisa que aguentasse nosso peso, nos pomos a nos elevar parede acima até ganharmos o alto do afluente e transpor suas águas, ganhando terreno lentamente, varando mato, escalando outros tantos de pedras escorregadias até firmarmos uma diagonal e voltarmos novamente para o leito do rio principal, bem acima de onde as águas se jogavam no vazio.

                Estamos agora encima do olho do furacão, uma rampa inclinada de impressionantes cerca de 200 metros, um tobogã descendo numa pedra lisa com não mais de dois palmos de água, mas numa velocidade "maior que a da luz". Eu e o Thiago até deslumbramos a possibilidade de poder descer em uma parte da rampa, onde o rio se projeta em um poço, mas a velocidade era tamanha que poderia nos jogar não para fora do poço, mas para fora da via láctea, então deixamos quieto. Lá do alto, era possível avistar paisagens a beira mar, montanhas e formações rochosas, mas por causa do tempo instável, não conseguimos ver o oceano dessa vez . 

                Chegamos aos 500 metros de altimetria, poderíamos ter seguido subido o rio, mas nos demos por satisfeito, ainda mais porque não estávamos preparados para passar a noite com conforto, então antes das 10 da manhã, resolvemos optar pela volta, havíamos cumprido o objetivo que havíamos traçado quando nos levantamos da cama quente pela manhã e enfrentamos tempo ruim atrás de mais uma aventura autentica. Por sorte a chuva parou, o tempo abriu e quando retornamos para o pé da CACHOEIRA GRANDE DO GUAXINDUBA, ela estava ainda mais deslumbrante e o Thiago resolveu fazer as honras da casa, se jogando para debaixo dela, lavando a alma, enquanto eu o observava lá de fora, contente pela felicidade do amigo.

      Quando o Thiago se cansou de tomar banho de cachoeira, apanhamos nossas mochilas e partimos de volta, mas dessa vez, num ritmo muito maior, ainda porque, o rio estava um pouco mais baixo e já conhecíamos as passagens chaves. Fizemos uma pequena parada na Cachoeira das Andorinhas para um breve lanche, ganhamos novamente o vara-mato que nos levou de volta a trilha, assim que atravessamos novamente o rio para sua margem direita, agora de quem desce e aceleramos o passo, num perde e acha até que subitamente desembocamos na estrada, junto a clareira onde havíamos deixado nosso veículo, missão cumprida.

               
                Antes das 14 horas, estacionamos nossos corpos na Praia do Capricórnio em Caraguatatuba, foi uma caminhada linda, deslumbrante. Eu e o Thiago imprimimos um ritmo de gente grande, voamos rio acima, fomos comendo mato e destruindo altimetria como nunca e levamos 7 horas de caminhada entre ir e voltar. Na manga, mais uma descoberta, numa serra que não para de nos surpreender, lugares onde poucos pés humanos ousaram tocar, um paraíso reservado a um seleto grupo de exploradores , onde a natureza cercou e pela dificuldade de acesso, continuará lá , preservado por muito tempo, sendo mais uma entre tantas outras nessa SERRA DO MAR PAULISTA, a serra que tem cheiro de aventura.
               
    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      2020 ano imprevisível. Ficamos a deriva desde fevereiro. Toda a temporada de montanha foi se embora, as viagens minguaram. Precisamos recorrer a destinos não antes planejados.
      Foi assim que topamos com a Ferrovia do Trigo, como descrevi em relato anterior, conseguimos fazer um circuito pelo Campo dos Padres em setembro e cinco dias antes de sairmos para a Serra Geral catarinense, recebemos um convite para fazer o trekking Guaporé Muçum. É claro que já havíamos ouvido falar e lido algum relato, mas não estávamos muito iterados sobre. Não gosto de perder oportunidades, então, após uma lida rápida em um relato e olhadela no wikiloc aceitei a proposta. O trekking não tem muito segredo é autoguiado, e a logística também é tranquila.
      Chegando ao Início
      De Urubici descemos por Lages, Vacaria até Muçum. A viagem já foi um charme, depois de Vacaria, entrei em uma área  de vinhedos e colonização italiana (Ipê, Antônio Prado, Nova Prata etc.) com muitas capelas, colinas e construções majestosas. Acredito que faça parte de alguma rota turística, mas como não conheço muito do RS né. Resumindo, estou pensando em voltar para lá fazer um tour bem longo.

      Saímos em Guaporé e fomos dormir em Muçum, no Hotel Marchetti, talvez seja o único da cidade. Fizemos um acordo com o proprietário que permitiu deixarmos o carro por ali, sob supervisão dele. E diga se de passagem o rapaz foi nota mil, além de zelar pelos carros, o hotel é fantástico, dá show em muito Ibis por aí. Excelente atendimento, limpeza impecável e o café da manhã top.
      No dia seguinte pegamos o ônibus suicida para Guaporé. A viagem foi uma história. Começou quando perdi a passagem, e tive de entrar no ônibus sem ela, ainda bem que o motorista não encrencou. Durante o trajeto nos contou muitas de suas peripécias, quando dirigia carretas, vários golpes em danceterias e restaurantes (talvez ele estivesse achando que eu estava dando o balão na passagem). De repente, a 90 km/h ele vira para a esquerda num portal dentro do vale, o coração quase sai pela boca. A conversa acabou até Guaporé (acabou o fôlego ou rezávamos para que não houvesse outro drift). Descemos na entrada de Guaporé, e a poucos metros já podíamos ver os trilhos.
      A Trilha
      Começamos a trilha, meio desconfiados com alguns carros de fiscalização parados ali na estação. Mas logo estávamos todos no ritmo dos dormentes. Os primeiros 6 km são monótonos, os passos ainda teimam em ser descompassados (é cada bicuda no trilho/dormente). Então começam os viadutos, e a direita o vale começa se exibir.

      Lá pelo terceiro/quarto viaduto já é possível ver o majestoso Rio Guaporé a bailar no vale. Surgem os primeiros túneis. Uns curtos, outros alongados, mas nada muito incrível. Topamos com a equipe de manutenção logo cedo, foi o teste que precisamos para ter certeza que não seríamos proibidos de passar por ali, afinal andar nos trilhos não é tão "legal" assim. Batemos um papo, tudo ok, seguimos.
      Já eram 14:00 quando chegamos no primeiro grande viaduto, vazado, muito alto e comprido. Cautelosamente passamos. Só fomos saber no dia seguinte que era o Mula-preta.

      Ali do lado tinha um sinal de acampamento, mas como era cedo e os destroços indicava fluxo de pessoas considerável, resolvemos seguir. Pouco tempo depois entramos num túnel infinito. Foram 40 min no meio do breu. Apenas os pontos de luz das lanternas indicava a existência de vida naquele buraco. Saímos do túnel de 2000 m já num local ideal para o pernoite. Uma estrada de caça ao lado da ferrovia, com sinal de acampamento, a poucos metros de um córrego de água limpa. Armamos as barracas, e só fomos acordados às 02:45 quando o gigante de aço rasgou a escuridão com seus olhos de fogo e silvo de dragão.
      No dia dois, começamos a caminhada era idos 07:00. Mais alguns túneis e chegamos no Viaduto Pesseguinho (esse possui placa de identificação), de posse dessa informação já suspeitamos que aquele do dia anterior era o Mula-preta.

      Quando estávamos parados para tirar algumas fotos e recuperar o fôlego fomos surpreendidos por um senhor vestidos de militar. A abordagem foi bem categórica:
      - Os senhores sabem que é proibido andar nos trilhos? - Indagou o militar.
      - Sim senhor, está escrito em letras garrafais na placa ali da entrada do viaduto. - Respondo em tom bagual, hshs.
      - Então o que fazem aí em cima? - Retrucou o homem.
      - Estamos a fazer a travessia. - Mudei o tom, para não criar problemas.
      Logo de início tinha percebido que o 'militar' era proprietário do camping ali embaixo. Ele frustrado com o movimento veio desabafar. Tentou aplicar um sermão, falando que a polícia estava prendendo e que haviam câmeras na entrada, saída e no camping dele, que iria passar para a polícia e estaríamos encrencados. Ouvi pacientemente. Ele acalmou e depois esclareceu algumas dúvidas, contou alguns acontecimentos da travessia recentes, passamos quase 1h conversando (no final do dia fomo saber que esse proprietário costuma causar alguns problemas por ali, inclusive já foi preso por abordar trekkers armado).
      Passado essa lorota seguimos. Atravessando viadutos, mergulhando em túneis, eles estão por toda a parte. O Rio Guaporé a cada curva é mais bonito.

      Depois de passar pela Cachoeira da Garganta com muita gente, na altura dos 35 km paramos para almoçar. Como o maps.ME indica um cachoeira ali perto, não tive dúvidas, achei uma trilha e fui procurá-la com um dos parceiro. Andamos 2 km morro adentro até sair nas margens do Guaporé, lindo de águas turquesas. Mas nada da cachoeira, o pequeno resquício de água nem chegava no Guaporé. Desistimos de fazer a incursão pelo leito seco até a base da queda.


      De volta aos trilhos, passamos mais um viaduto e na entrada do seguinte, saindo para à esquerda tem uma cascata. Paramos para reabastecer e curtir um pouco.
      Cruzamos mais um túnel longo, com uma seção vazada, para sair no viaduto V13. Ao longo desse dia tínhamos passado por mais dois tuneis de aproximadamente 1km cada. No V13 dei razão para o milico, algumas centenas de pessoas desfilavam sobre os trilhos e dentro do túnel, tinham crianças, pessoas de mobilidade reduzida, bêbados, drogados, pessoas com caixas de bebidas e caixas de som, uma verdadeira zona. Imagina o perigo se o guarda trilhos ou até mesmo o trem se aproxima (há relatos recentes de situações bastante tensas envolvendo trens e pessoas irresponsáveis nos pontos de acesso fácil ao longo da travessia).
      .
      Nesse dia nós descemos os 1200 m até a base do V13 para dormir em um camping (Paraíso V13). Diga-se de passagem fomos muito bem recebidos, ate travesseiro teve gente que emprestou dos proprietários. No camping, além da área coberta para a barraca (acertamos em cheio) tem uma cachoeira nos fundos muito legal que vale a visita.

      Nosso terceiro dia amanheceu debaixo de água. Desmontamos o equipamento, cobrimos com capa de chuva e seguimos morro acima. A chuva não deu trégua. Era tanta água que não se podia ver de uma ponta a outra do V13.

      Com todo cuidado do mundo, os dormentes agora estavam liso, seguimos caminhando. Mais uma série de túneis, todos curtos. Outra série de viadutos, nenhum vazado. A paisagem estava perfeita, a umidade deixa as cores mais intensas, das encostas despencavam dezenas de cachoeiras sazonais, fruto da chuva impiedosa.
      Não demorou muito para se formarem grandes alagados nas margens do trilhos. Local para descanso e refeição somente dentro dos túneis quando não estavam alagados. Em um deles, paramos e de repente um ronco ensurdecedor entrou na escuridão, luzes seguiam nosso sentido contrário. Paramos no recuo, coração na mão, uma das luzes (tive a impressão) saiu dos trilho e veio pra cima, foram longos segundos, um filme passou na cabeça, pensei em tudo que perderia, quando então, a luz vira novamente para o outro lado e escuto gritos e buzinas. Eram duas motos de trilha. Não sabia eu se chorava, xingava ou agradecia.
      Adiante em outro túnel estávamos almoçando quando o limpa trilhos passou, fui uma correria só para as áreas de escape, não gosto de arriscar a canaleta, vi nesse ano um vagão (na serra do cadeado) arrastando um pedaço de madeira por dentro da canaleta.
      Seguimos adiante, o relevo muda, passamos por alguns cortes de rocha imponentes. E no último grande viaduto ainda avistamos um bando de macacos pretos (não consegui identificar a espécie), estavam todos agitados nas copas das árvores.

      A caminhada voltou a ficar monótona nos últimos 6 km. Apenas grandes poças de água, o Guaporé some no meio da vegetação e a única surpresa foi a reformada estação ferroviária de muçum. Muita gente termina por aí, chamando um táxi ou seguindo pelo asfalto.

      Nós optamos por caminhar pelos trilhos até o centro de Muçum, descendo logo depois do primeiro viaduto sobre a rodovia. No total foram 60 km, 22 túneis e 16 viadutos.
      Depois de um banho merecido, melhor de se secar, o banho já havia sido o dia todo, fomos fazer o desjejum na lanchonete principal da praça de Muçum para no dia seguinte retornar às terras paranaenses.
      No Youtube coloquei um vídeo que mostra um pouco mais do trajeto, https://youtu.be/-Odmah6b8rU
       
      Dados que podem interessar
      A ferrovia EF491 também conhecida como ferrovia do Trigo percorre entre os municípios de Roca Sales e Passo Fundo. Comercialmente pouco explorada, hoje serve apenas para transporte de combustíveis por escassas locomotivas, e a partir de 2020 passou a receber uma rota turística. Entre os municípios de Muçum e Guaporé, que engloba também Vespasiano Correa e Dois Lageados a estrada acompanha o Rio Guaporé, percorrendo uma série de túneis, vales e encostas. Nesse pequeno trecho de pouco mais de 60 km se concentram 22 túneis dos 34 da ferrovia e 16 viadutos dos 26.
      As principais atrações do trecho, que podem ser acessadas durante a travessia ou em caminhadas curtas ou ainda chegando de carro pelas estradas de manutenção da ferrovia, são:  
      Viaduto Mula-preta em Guaporé, possui 94 metros de altura, 360m de extensão e dormentes vazados, um desafio para quem tem ou não medo de altura; Viaduto Pesseguinho, também vazado, possui mais de 80m de altura e 368 de comprimento; Viaduto V13 com 143m de altura é o mais alto viaduto das Américas; Cascata da Garganta adaptação da engenharia onde um riacho mergulha para dentro da terra em uma cachoeira que flui abaixo dos trilhos. Está situada entre os viadutos Pesseguinho e V13; Túnel de 2km perfuração dentro do morro que percorres 2000 m entre os viadutos Mula-preta e Pesseguinho; Túnel vazado com cerca de 1300 m está na chegada do V13. A 300 m da entrada dele estão algumas aberturas (janelões) de frente para o vale do Rio Guaporé; Cascatinha ao lado da entrada do terceiro túnel segundo túnel depois da Garganta (sentido Guaporé Muçum), de águas límpidas e queda macia ideal para descanso; Cascata Bem Estar situada anexa ao Pesseguinho é acessível a partir do camping na base desse viaduto; Rio Guaporé visível em mais de metade da travessia. Um dos locais de acesso à suas margens fica entre o terceiro e quarto túneis a partir do V13. Existem ainda muitos outros locais interessantes para se visitar pela região, cascatas, rochas, vales e passeios. Só pegar a mochila estudar os roteiros e se jogar.
    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      Num dia qualquer eu navegava na rede quando em uma postagem alguém comentou: "que saudade dessa terra, ... avistar o horizonte do Morro dos Ventos". O nome do morro atiçou na hora minha curiosidade, já fiz um insight com "O Morro dos Ventos Uivantes".  Pesquisei sobre qual terra o comentário se referia: era bem próximo de onde moramos. O morro fica em Nova Tebas no Paraná.
      Revirei, na internet, com conhecidos, a fim de localizar as coordenadas do morro, mas encontrei apenas fotos e alguns relatos escassos sobre o lugar. Peguei uma carta topográfica da região a fim de localizar uma montanha imponente onde possivelmente seria o Morro. Fiz anotações, marquei alguns pontos, e decidi ir com a cara e a coragem, se não encontrar acampo em alguma fazenda e no outro dia voltamos.
      Tudo acertado, sairíamos de Águas de Jurema uns 20 Km do distrito de Poema minha referência para encontrar o Morro. Escolhemos fazer o percurso a pé, já que a carta desenhava inúmeros vales e montanhas, queríamos aproveitar a caminhada.
      Curiosamente, no penúltimo dia antes da partida um dos contatos que havia encontrado na internet e pedido informações à semanas já, me deu retorno, e então começou uma corrente de uma pessoa me indicar  outra que poderia saber me orientar a chegar no morro. Depois de passar por 5 indicações diferentes, cheguei ao nome de um morador. Este indicou outro morador que autorizaria a entrada na propriedade, já que, o objetivo fica dentro de uma área de pastagem, e claro não queríamos que lá pelas tantas da noite alguns cães famintos aparecessem.
      Saímos, eu, Bruna e o Anderson às 12:45 de Águas de Jurema, pegamos uma estrada, continuação da Rua H. Seguimos em frente por essa estrada, os primeiros quilômetros foram em estradas comuns - com exceção das laranjas, a cada km tinha uma laranjeira carregada, sempre seguimos à esquerda nos cruzamentos. Após 2 h de caminhada a paisagem começa a deslumbrar, o primeiro vale que avistamos tirava o fôlego.
      Sabíamos que atravessá-lo não seria moleza, apenas queríamos ir por ele e descobrir onde ia dar. Mais algumas horas e cruzamos em meio a duas colinas, num lado da estrada pitorescas moradias - nos causam uma pequena inveja - como queria morar lá.  Assim que contornamos a colina, mais um vale, dessa vez menor, mas não, menos incrível. Neste paramos em uma das casas pedir água - já que recusamos beber um trago, kkk. Dois senhores embriagados dormiam na estrada e quando foram acordados por nós convidaram para participar da bebedeira, kkkk. Na casa uma senhora simpática ofereceu água da bica, pura água da fonte. Sede controlada, cantis cheios, pegamos mais algumas mexericas na beira da estrada e partimos, já se iam quase 3 h na estrada.

      Quando chegamos em Poema já se passavam das 16:30, mais água e seguimos rumo a uma região conhecida como 400 alqueires, mais vales traçavam linhas tênues no horizonte. O sol já se ia, mais 1 h na estrada e avistamos a igreja uma referência que tínhamos. Levamos mais 40 min para contornar a colina e então chegarmos na casa que nos autorizaria entrar no Morro. O morador nos forneceu autorização e disse que poderíamos dormir ali, e apontou do outro lado da estrada um morro, que parecia modesto, visto tão de perto. Esperávamos um Morro imponente, que necessitasse de escalar e tudo, kkkk. Até ficamos surpresos com a sua modéstia. Após a porteira começamos uma subida de 10 min. Chegamos lá com o breu, vigiados pela lua lá no infinito.
      Fogueira feita, no meio de pedras para não ter perigo, entramos noite adentro contando histórias. Se tem recompensa maior que ouvir as pessoas ao redor de um fogueira, desconheço. Dormimos curiosos pelo visual da manhã seguinte. Confesso que desconfiados do tímido morro onde paramos.

      Foi só bater 5 h, levantei avivar a fogueira, e ... quase esqueço o fogo, fico de queixo caído. Além do vento que cortava a relva, um vale imensurável, com a minha barraca de frente. Fiquei mais tarde sabendo que se chama Vale das Mortes, não sei a origem do nome.

      Não demorou muito até todos acordarem. A foto daquele momento saiu com caras e dentes, e muitos cabelos rebelados.

      Recompensados pelo caminho do dia anterior, mais que recompensados, após apagar a fogueira, 8:00 começamos o caminho de volta. Tiramos uma foto do Morro dos Ventos, visto da estrada, nem parece o que é, só olhando para o Vale das Mortes dá de entender por que tem esse nome místico. Mais 5 h de caminhada, tênis do Anderson rasgado e amarrado com o cordão para não perder a sola, uma parada no Rio Muquilão para relaxar a musculatura e dar descanso para as mochilas. Estávamos nós novamente em Águas de Jurema, com mais uma história, não mais uma, mas a história da jornada ao Morro dos Ventos.



    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      Havia tempos que o ponto culminante do meu estado e de toda a região sul estava no meu radar.
      Desde janeiro ajustando datas com meus parceiros, sempre aparecia um imprevisto e o Pico Paraná ia esperando. Em 20 de junho novamente fiquei sozinho, mas dessa vez, parti sozinho mesmo de Campo Mourão.
      Estava ansioso, pois queria chegar ao Pico Caratuva para acampar antes de anoitecer, afinal estava sozinho. Enquanto calçava a bota, o fiscal da Fazenda PP fez meu cadastro e cobrou singelos R$ 10,00. Enquanto ele foi buscar o troco troquei a camiseta, e nada de voltar com meus "nique" quando achei o rapaz: ele estava procurando um ser de camisa vermelha, kkkk, eu antes de trocar.
      Saí ansioso, às 16:10 o ritmo a partir da portaria são os Óreas (deuses da mantonha) quem determinam. Como estavam receptivos, em 25 min alcancei a bifurcação das trilha PP x Caratuva.

      À esquerda a trilha no começo estava bem ruim, com muitas árvores caídas exigindo manobras para passar sobre os troncos com a mochila carregada. Logo à frente, se dividia novamente, agora sem sinalização e sem sinal GPS. O faro indicava à direita. Porém já percebi que à direita também tem uma bifurcação, depois de uma olhadela vi tratar-se de uma trilha para a bica de água; segui pela outra. Com o suor já aparecendo, começa a verdadeira batalha. São aproximadamente 1500 m de subida constante, uma escalaminhada sem fim. Pedras, raízes enormes, barro, barrancos, 40 min praticamente engatinhando pela encosta.
      Eram 17:15 quando pela primeira vez, depois do Morro do Getúlio, conseguia enxergar algo além de chão e árvores. As árvores começaram a ficar menores e o terreno começa a perder inclinação, sinal de que estamos chegando em alguma área plana, seria o cume?
      Poucos minutos mais e pude avistar o resto de Sol que se escondia no horizonte e às 17:40 as primeiras barracas apareceram pra mim. Havia chego a montanha em 2 h. Arrumei um cantinho, meio torto mesmo: o pico estava lotado de gente.
      Logo chegou um pessoal que eu havia passado na trilha, eles vinham se comunicando por meio de berros, kkkk. Da mesma forma chegaram no cume, e fariam ainda muita algazarra no acampamento até que os o russo revoltado acabar com aquilo. Montando a barraca, ofereceu-me ajuda um montanhista que estava por ali, gentil, não recusei é claro. Batemos um longo papo, descobrimos que no outro dia iríamos acampar no PP.
      O entorno do Caratuva estava todo fechado, só aparecia o cume do PP  lá na frente. Logo o breu tomou conta, junto uma neblina congelante. Foram longos minutos enclausurado dentro da Quick Hikker 2, tomando café. Mais tarde o tempo limpou deixando o céu embebido de estrelas, levando nos a uma profunda reflexão. Durante toda a noite seria assim, minutos de imergir na imensidão do firmamento, e minutos de se esconder dentro da barraca; colocar até a cabeça dentro do saco de dormir.
      No dia seguinte, às 06:00 todos já estavam ansiosos pelo espetáculo. Apenas os cumes do Caratuva, PP, Ibitirati e Taipabuçu estavam à mostra, o restante da Serra estava embebido por Morfeu.

      Eram 07:05 quando Apolo empurrou seu Astro no nascente. Uma sinfonia perfeita com o acampamento e as emoções que irradiam no peito do espectadores. Foram aproximadamente 8 min, talvez os mais emblemáticos da história de cada um que estava ali.

      Preparei um café prevendo um dia encharcado e intenso. Depois explorei o cume para preencher o livro e identificar os irmãos menores. O Pico Itapiroca estava descoberto da neblina e pude observar os campistas lá no horizonte. Desmontei a tralha, reuni tudo e às 08:25 coloquei a cargueira no ombros a saí, a ideia era descer o Caratuva pelo leste, passando pela bica para reabastecer. Depois de analisar o mapa parti, por uma trilha fechada depois do acampamento no sentido nordeste, a neblina tomava conta da serra, a visibilidade não chegava a 15 m. Pouco adiante a trilha dividiu-se: uma quase inexistente, a outra com sinais de tráfego, segui a mais usada apesar de o senso dizer o contrário. Não demorei a dar de cara com um penhasco, a trilha terminava ali, ao menos o que parece. Humildemente retornei a bifurcação e segui o instinto pela trilha fechada; em menos de 200 m estava encharcado. A trilha exige muito, no meio do nada, sem enxergar nada. Pedras enormes e escorregadias, barrancos lisos, trechos enlameados. No meio da mata a trilha não aparece, é preciso seguir com calma buscando indícios de cada um tempo algumas fitas amarelas sinalizam por onde deveria passar a trilha.

      Naquela penumbra toda não consegui achar a bifurcação que levava a bica, e devido a dificuldade de se locomover por ali, nem fiz questão de pegar o celular para verificar o GPS. Segui por 1,5 h no meio da nuvem, para o lado que virasse dava para sentir os desfiladeiros. Chegando no A1 tive de voltar uns 400 m buscar água na bica, afinal meu suprimento estava terminando e não estava afim de arriscar no A2 e descobrir que não haveria água. Na fonte conheci um grupo de Palmital, São Paulo, que ia em ataque ao PP. Acabamos seguindo juntos até o o elevador. Foi uma caminhada longa, mas agora a trilha é bem demarcada, chega a fazer uma vala. A crista toda envolvida pela neblina não víamos nada além dos 15 m.
      De repente o mergulho e um maciço escuro, ainda coberto pela nuvem, se desenha na nossa frente. A perna treme, mas, não dá para desistir. Lá vamos nós (não todos, alguns abandonam aqui) pelo elevador, se revezando com quem desce, com quem trava no meio. O grupo que eu acompanhava parou para descansar, a mim não era uma opção, afinal molhado com estava, certamente, se parasse, o frio castigaria. Segui em frente, sozinho agora. Rochas e mais rochas, em alguns lugares o caminho some na neblina, em outros é preciso passar por fendas apertadíssimas. Encontrei muita gente descendo, eles me animavam ao contar que lá em cima estaria aberto o tempo.
      Após passar de banda pelo A2, pelo A3, não tinha muito por que parar, o frio era grande, e a neblina não arredava pé.
      Depois de quase 4 h caminhando, dei de frente com um último paredão de pedra, alguns lances da ferrata e saí no meio de uma galera. Tinha chegado ao PP! Olhei de um lado, olhei de outro, e nada, custei acreditar que tinha chegado; cadê o tempo aberto que tinham me falado, mal dava para enxergar o entorno. Logo veio uma onda e levou as nuvens do cume, dando dimensão da minha posição. Fui o primeiro a armar acampamento naquele dia, muitos que chegaram após às 14 h, tiveram de descer e acampar no A3 ou A2, o cume estava lotado. O resto da tarde seria de expectativa, em curtos espaços de tempo as nuvens dispersavam e dava para ver o cume do Ibitirati, montanha irmã. Lá de cima um grupo de montanhista gritava feito doido e acenava durante esses lapsos de tempo. Dava para perceber que não pediam socorro, só queriam algazarrear mesmo. No fim do dia ainda foi possível avistar um pedaço do crepúsculo, gerando ansiedade com a alvorada do dia seguinte. Durante a noite, mais um espetáculo, as nuvens foram embora como uma cortina que se abre mostrando o interior da morada aos passantes. O céu com suas luzinhas incríveis carregando pedidos infinitos fez vigília.
      Às 04:00 do dia seguinte todo mundo já estava em pé. Na mesma situação, tudo coberto por Morfeu. Faltavam minutos para Apolo começar sua dança, quando Morfeu retirou seu batalhão, e o êxtase tomou conta do cume. Em minuto tudo estava à mostra, desde a Baía de Antonina até o Cerro Verde e o Ferraria. Neste momento o espírito da montanha enche-nos da sua perseverança, e como estátua, só percebo estar vivo devido à respiração diante de tão bela alvorada.
      Foram intermináveis 10 min. Lágrimas que bailam na face e o sentimento de que não há melhor lugar para se estar. Após me empanturrar com as comidas em excesso que carregava, tudo regado a café, pude identificar a crista que havia descido no dia anterior do Caratuva ao A1 em meio à neblina, fiquei arrepiado.

      Ficamos conversando com os montanhistas que havia conhecido no Caratuva que, também arrumaram seu cantinho por ali. Pena que não pude esperá-los para a descida, eu precisava estar às 15:00 na base. Comecei a descida às 10:45, logo alcancei um grupo descendo. Conversamos, trocamos contatos, acabamos descendo juntos. Até carona para a Capital dei a um deles. Acabei adiantando um pouco na trilha, principalmente no trecho entre o A1 e o cruzo do Caratuva, parte que eu havia desviado no primeiro dia. Esse foi o trecho mais complicado de toda a conquista, são intermináveis raízes e barrancos lisos, quase pior que encarar o russo e a trilha escondida do dia anterior.
      Parei na Pedra do Grito para esperar minha nova parceria de viagem. Acordei com um grupo de 38 noviças, todas em vestes característica, de um branco engomado, tules e rendas chegaram subindo rumo ao Getúlio. Podem até ter subido mas garanto que vai dar trabalho para limpar todo o estrago nas vestes.
      Eram 15:10 quando chegamos na base. Desfeita a tralha, tomei um banho de gato, e pegamos a rodovia. Já eram 23:15 quando dei por encerrada com sucesso a aventura, comemorando com uma bela pizza no capricho.



       

       
       
       
    • Por divanei
      HUACACHINA - PERU
       
                Pela janela do ônibus vão nos saltando aos olhos uma paisagem desoladora, como se uma guerra nuclear tivesse destruído e acabado com tudo. Minha esposa já havia me interpelado uma dezena de vezes o porquê de estarmos nos dirigindo para o sul do Peru, numa paisagem feia de dar dó , ainda mais depois de termos passado uma dezena de dias espetaculares, com paisagens de sonhos, junto à Cordilheira Branca , na região de Huaraz.

               
                Me mantive firme no meu propósito e ao invés de deixar que o desânimo tomasse conta de mim, me concentrei no outro lado do ônibus , onde o Oceano Pacífico insistia em nos dizer que o deserto não era tão feio quanto parecia. Mas não era a paisagem natural que nos assolava a alma e sim as construções e habitações dos povoados e pequenas cidades, casas cobertas de palha ou sem uma cobertura de telhado, apenas uma laje apinhada de tranqueiras e ferros espostos, coisa feia de se ver, toda empoeirada, numa sujeira desgostosa, praticamente sem nenhuma árvore.

       
                A falta de telhado era mais do que justificável, muito porque estávamos em meio ao deserto, onde praticamente não chove e mesmo na capital do país não há telhados, não como temos no Brasil. O ônibus que pegamos custou uma ninharia, não mais que 25 reais para 6 horas de viagem, mas foi pegando gente a laço pelo caminho, num sobe e desce interminável e mesmo no outono, fazia um calor dos infernos, sem ar condicionado ou qualquer outra mordomia, mas era o preço pela economia. Vendedores entravam a todo momento, vendendo de tudo que se possa imaginar, principalmente comida e petiscos, alguns com uma cara muito boa, outros nem tanto.

                Já era começo de tarde quando desembarcamos em ICA, uma cidade até grande se comparada ao porte dos vilarejos que passamos, mas o trânsito caótico, com carros barulheiros e tuk-tuk espalhados para todos os lados. Com as cargueiras gigantes nas costas, fruto das bugigangas compradas na Cordilheira, saímos à procura de um restaurante para almoçar, mas se tem uma coisa que peruano gosta, é comer, e achar algo vazio que conseguisse nos atender foi quase impossível. Minha mulher já estava emputecida pela situação, pela viagem extremamente cansativa, mas muito mais pela paisagem, do qual ainda não compreendia porque havíamos andado tanto para ver coisa alguma que prestasse.
                Por fim, resolvi logo abandonar Ica e me dirigir para o nosso destino, o objetivo daquela viagem, e embarcamos no primeiro taxi que nos abordou, uma lata velha caindo aos pedaços, que por uns 8 reais, chacoalhou por 5 km até nos desovar no meio do Deserto, num vilarejo cercado de Dunas Gigantes e com uma lagoa no meio e as caras carrancudas, deram lugar a um sorriso de orelha a orelha em meio à uma das mais belas paisagens do mundo, HUACACHINA era nossa.

       
                 O Oásis é um lugar turístico e como tal, também pratica preços muito acima de outros lugares no Peru, ainda mais por ser fim de semana, mas foi só dar uma volta no minúsculo lugar para conseguir algo que coubesse no nosso bolso. O problema é que as coisas são tão baratas no Peru, que já havíamos nos acostumados com um padrão de preço e os 80 reais pagos na hospedagem nos pareceu uma fortuna, mas quando entramos no hotel e nos deparamos com uma acomodação chic , com banheira e até uma cozinha, minha esposa se alegrou de uma tal maneira que acabei achando que foi barato e comparado as hospedagem no Brasil, foi mesmo uma pechincha.

       
       
       
       
                Tomamos banho e fomos conhecer o vilarejo. As dunas são as mais altas do nosso continente e é quase impossível tirar os olhos delas, numa paisagem surpreendentemente diferente de tudo que vimos na vida. O lago e suas palmeiras dão um charme especial, ainda que hoje digam que ele é abastecido artificialmente. Como é um lugar turístico, é todo cercado de lojas, bares, hotéis, agências de turismo e todo tipo de comércio. Como é final de tarde, todo mundo se dirige para o alto de alguma duna para apreciar o pôr do sol, mas nós estávamos bem cansados e deixamos isso para o dia seguinte. Outra coisa que é um sucesso por ali é o passeio de bug, mas não são esses bugs mequetrefes que temos no litoral do Brasil não, são monstros construídos para destruir as dunas, mas nós mesmo não estávamos a fim de chacoalhar pelo deserto, já estávamos acostumados com nosso modesto 4 x 4 e em se tratando de emoção, nosso NIVA não ficava devendo nada para aqueles transformes peruanos.
                Depois que jantamos eu já deslumbrei dar a volta nas dunas no dia seguinte, coisa que minha mulher caiu fora, não passava pela cabeça dela levantar às 6 da manhã para escalar dunas de areia. Então no outro dia bem cedinho, apanhei minha mochilinha, coloquei uma garrafa d’água, uma máquina fotográfica, um lanche e assim que ganhei a rua, já enfiei os pés na areia e fui ganhando altitude. Mas era um passo para cima e dois passos para trás e mesmo ainda sendo nas primeiras horas da manhã, a areia fervia de tão quente e me senti um beduíno no meio do deserto.
                Aquela era a primeira experiência minha escalando uma duna e não demorou nadica para perceber que acabei subestimando aquele monumento natural. A areia quente começou a fritar meus pés e como estava apenas de sandálias, comecei a ficar desesperado. Parava às vezes e cavava um buraco na areia, tentando buscar um terreno menos quente, mas isso pouco resolvia, então a única coisa que consegui pensar foi a de colocar nos pés numa capa de saco de dormir que acabou ficando dentro da mochilinha e um saco de batatas fritas aluminado, aí eu já estava no desespero, meus miolos já haviam fritado também ou eu chegava logo no topo da duna ou tava morto.
       
       
                Do alto da grande muralha de areia o mundo se modificou. Lá embaixo o Oásis de Huacachina parecia uma pintura de um quadro e ao meu redor, o deserto parecia ter me introduzido dentro de um romance passado no Saara. O vento levantava uma areia fina e mesmo o sol queimando meus pés, ainda assim o encanto era maior que aquele sofrimento momentâneo. Cavei um buraco ainda maior e nele me enfiei, dando alívio aos meus pés e assim tive um maior conforto para apreciar aquela paisagem que talvez eu jamais veja novamente, talvez não com aquela proporção. Mas a minha intenção era a de dar a volta no oásis, então peguei minha mochilinha, tomei um gole d’água e parti, agora caminhando em nível, galgando as lombadas do terreno até que ser obrigado a abandonar a duna e quebrar à direita em direção aos bugs estacionados perto de um outro pequeno oásis.

                Perco altura lentamente, mas logo sou obrigado a despencar barranco à baixo porque a areia quente volta a fritar meus pés. O sofrimento recomeça e me vejo em desespero novamente, mas dessa vez o negócio ficou sério, então corro feito um calango do deserto até que chego à sobra de um dos bugs gigantes. Poderia muito bem abandonar aquela caminhada e a partir dali, voltar novamente para o hotel seguindo a trilha de areia que desce ao vilarejo, mas não vou arregar tão cedo.
                Continuo subindo até que passo pela caixa d’água instalada nesse selado de dunas, tomo um fôlego, ajeito a proteção tosca que havia colocado nos pés e sigo subindo até que alcanço de vez o cume mais alto daquele mostro de areia. São impressionantes o tamanho e a altura dessas dunas, de onde posso avistar povoados distantes, perdido num mundo árido e seco, sem árvores e totalmente desolados. Mas é justamente isso que torna esse oásis tão espetacularmente belo, é um sopro de vida no meio do caus. 

                Minha água acabou, o sol já destrói minha pele, mas mesmo assim continuo caminhando, agora em nível sobre o cume da duna, quase completando os 360 graus ao redor de Huacachina, mas antes que esse ciclo se feche, resolvo fazer algo inusitado: despencar da duna mais alta do nosso continente, ao invés de ir perdendo altura lentamente em direção ao vilarejo. Aos saltos e aos pulos, vou escorregando rapidamente, quase sem controle e quando a força da gravidade resolve fazer troça da minha pessoa, perco o controle totalmente e saio rolando desgovernadamente. Uma hora vejo o céu, outra hora vejo areia, outra hora o topo da duna, outra hora já não vejo mais nada. Meus olhos, meu nariz, minha boca foi tomada pela areia fina. Minha mochila e minhas sandálias se perderam nas dunas e eu virei passageiro do além e do acaso. Miséria dos infernos!!!! Sou um homem humilhado. Me levanto da surra e procuro saber onde estou e quem sou eu e logo  um monte de turistas, que estão passando nos pés das dunas me fazem recobrar a memória. Os japoneses ficam rindo e apontando para mim e eu apenas faço cara de paisagem, viro as costas e volto a subir a duna atrás dos meus pertences, só não encontrei minha dignidade. Recolho tudo e volto a descer até chegar a um chafariz no vilarejo, onde aproveito para lavar meus olhos, enquanto eu próprio não me contenho e caio na gargalhada com o ocorrido.
                Quando chego de volta ao hotel, sou obrigado a me jogar dentro de uma banheira de águas frias e por lá ficar até que meus pés se acalmem das queimaduras e eu consiga me livrar de toda areia que foi entrando em cada orifício. Resolvido o problema, saímos para um passeio mais demorado. É possível nadar no lago ou mesmo andar com umas canoas ou pedalinhos, mas eu queria mesmo era experimentar uma descida de sandboard, uma espécie de surf na areia, onde você pode alugar uma prancha pagando míseros 5 reais por 1 hora. Eu já havia feito isso uns 20 anos atrás nas praias da Joaquina em Florianópolis, mas havia me esquecido que não era tão fácil parar em pé como eu pensava e só fiz cair naquela desgraça, rolar sem rumo e encher meus olhos e meu nariz novamente de areia. Mas já que havia fracassado no surf de areia, ficamos por lá para assistir ao pôr do sol, isso sim era sucesso garantido.
                Huacachina é mesmo especial, um lugarzinho legal para descansar , experimentar umas comidinhas diferente ou simplesmente não fazer nada e como não fazer nada já começa a me irritar, tratamos logo de pegar nossas tralhar e picar a mula para outras paragens, fomos rumo ao Oceanos Pacífico, lá para as bandas de Paracás, outro lugarzinho lindo, com caminhadas e pedaladas para belas praias de águas geladas, onde pelicanos fazem sua morada, mas essa é outra história, o certo é que uma viagem ao Peru tem a capacidade de mudar sua visão de mundo para sempre, ninguém vai ao Peru e volta a mesma pessoa.

       
       



               
               
       
×
×
  • Criar Novo...