Relatos de Viagens nos países do Subcontinente Indiano: Índia, Bangladesh, Maldivas e Sri Lanka


#562803 por Luciano Fiscina
10 Mar 2011, 11:20
[b]História – Luciano Fiscina[/b]

Ainda no avião, quando ele mal tinha saído de Londres, eu já pressentia as dificuldades que iria enfrentar na Índia. Também, o que esperar da ideia de chegar sozinho numa atmosfera cultural como a da Índia, capaz de eletrificar qualquer concepção pré-estabelecida do mundo. Senti medo. Tentava me distrair no avião, racionalizando meus temores, lançando uma dose extra de positividade à iniciativa quase que maluca de ir para a Índia apenas com um guia que havia comprado em Londres, apesar de que já havia me comunicado com algumas poucas pessoas de lá,as quais me ajudaram na precaução estrutural da viagem. Todas as minhas expectativas estavam depositadas numa única alternativa, assim que chegasse na Índia, procuraria diretamente o centro Yogoda Satsanga Society, fundado por Paramahansa Yogananda. Trata-se de um instituto que ministra ensinamentos sobre técnicas de meditação e filosofia de vida, conhecido no ocidente como Self-Realization Fellowship. Como eu sou estudante dessa organização, pensei que lá eu conseguiria todas as informações necessárias sobre um bom hotel, e também não tão caro, até me organizar para ir para Dwarahat, no Himalaia, onde ficaria num ashram (monastério). Já havia me correspondido por e-mail com os monges de lá, e esse era o conforto que encontrava para amenizar a insegurança e o nervosismo sobre a chegada na Índia, uma vez que a experiência que tinha [na época] como estrangeiro (em Londres) mostrava que os primeiros dias em qualquer lugar são os mais difíceis e o dilema do momento era: imagina na Índia?

Cheguei em New Delhi às 6:30 da manhã. Logo que desci do avião, dei meu primeiro passo com o pé direito, ao mesmo tempo em que fazia uma silenciosa prece para que tudo desse certo. Eu havia chegado, estava na Índia! Parecia um sonho. Depois de pegar a mala, troquei os primeiros cem dólares por rupia e fui ao guichê para pedir informações sobre táxi. Enquanto tentava negociar o preço, também insisti se o motorista realmente sabia chegar no meu lugar de destino. Como já ouvira falar que é comum os taxistas dizerem que conhecem o caminho apenas para não perderem o cliente, procurei ser incisivo nesta questão, tentando garantir a maior segurança possível. Após o táxi ter iniciado a corrida, não demorou muito para perceber a loucura que é o trânsito da Índia. Apesar de já ter lido a respeito, nada como ver ao vivo e a cores. A sensação de estar em uma corrida de automóveis é somada ao fato de que as duas mãos contrárias andam praticamente coladas, então, os caminhos são traçados em zigue-zague, enquanto a sinfonia das buzinas dá o som final.

Ao chegar na Yogoda Satsanga Society e ver este próprio nome escrito nas paredes externas do templo, meu coração logo se aliviou, eu tinha a certeza que dali em diante tudo daria certo, eu estava em casa. Saí do carro e fui em direção à guarita do segurança, onde vi a foto do mestre Yogonanda, foi uma ótima sensação, internamente reverenciei e agradeci por tudo ter corrido bem. Depois de ter esperado algum tempo, algo próximo dos trinta minutos, consegui falar com a pessoa responsável. Conversamos um pouco e peguei algumas informações sobre hotéis. Ele chamou um táxi e então eu me dirigi para o centro de New Delhi, Connaught Place. Aí começou minha derradeira experiência. O choque cultural ganha magnitude em Connaught Place, as sensações se estendem em pensamento, que se revertem em imagens e se flagram nos cheiros. Ainda no táxi, eu observava aquela multidão, o colorido, o barulho e tudo isso eletrificou meus sentidos. Mas,eu viria a descobrir que o centro de Delhi não é um bom local para se hospedar. Quem não gosta de multidão e não está disposto a exercitar um sacrifício total em função de algo que supere o que se entende por conforto e suas condições de higiene,não deve se hospedar em Connaught place.

Como sabemos, existem muitas Índias e eu caí na pior delas. Fui atrás da Índia dos ensinamentos, mas não a encontrei, ela estava escondida para mim ou eu não estava pronto para ela. Como ainda estava tudo no começo, eu não tinha a percepção exata de onde estava. A coisa só se agravou quando cheguei no hotel. Como quem tinha me indicado o hotel era a pessoa responsável pelo templo da Yogoda, e como estava muito cansado da viagem, com muito calor, suado, não conferi o quarto antes e paguei uns seis dólares para ficar lá. Então, peguei um elevador, escuro, com grade. O corredor do quarto era estreito, feio, com vários quartos próximos uns dos outros. Ao entrar no meu quarto, minha nossa!!! Marcas de sangue na parede, sinais da presença de mosquito! Um ventilador barulhento, uma janela estranha, com vista para as costas de um prédio, cuja imagem era revestida por roupas coloridas estendidas nas janelas. O chuveiro, quando liguei, esparramou água em todas as direções, menos na minha cabeça. Também não tinha a chave do quarto, esperei uns vinte minutos até o rapaz achar a chave, e eu só observando tudo aquilo e pensando, “onde estou?” Quando ele achou a chave, eu me troquei para voltar ao centro da Yogoda e solicitar outra dica de hotel, mas, neste momento, a chave não saia da fechadura, outro problema. Como mal havia chegado, eu não tinha perspectiva para analisar muito bem o que estava acontecendo, pensava que eram infortúnios comuns de uma viagem incomum.

Assim que cheguei na Yogoda, disse que não poderia continuar naquele hotel e pedi outra opção. A pessoa me falou que tudo dependia de quanto eu podia pagar, então me deu outra dica, agora era um hotel em torno de U$100 a diária. Logo pensei que ficaria neste hotel por uma noite e anteciparia a minha reserva em Dwarahat, o ashram onde ficaria na Índia, mas minha reserva era para 23 de junho, e eu estava um mês adiantado. Ao ligar, vimos que estava lotado até o final de junho, então, como eu já sabia que lá existe um apartamento que é alugado para os estudantes, pedi para ver se havia possibilidade de ficar nele até a data da minha reserva. Contudo, isso só poderia ser visto no dia seguinte. Então, fui ao hotel de U$100. Meus planos eram ir para este hotel, tomar um banho, descansar e depois voltar para o centro e participar da meditação. Na manhã seguinte, quando teria a resposta do apartamento em Dwarahat, então, eu compraria o passe de trem e iria para lá, só que infelizmente o meu caminho foi interrompido e as coisas não aconteceram como eu imaginara.

No caminho do hotel, aquele de U$100, um rapaz começou a conversar comigo na rua, dizendo que era estudante, que não queria nada de mim, mostrou a foto do mestre (guru) dele na carteira e disse que queria ajudar por que na religião dele ajudar as pessoas é a meta das coisas, se ele ajuda, é ajudado... e disse sentir que eu precisava de ajuda; disse que eu parecia turista, que chamava a atenção e que devia me vestir como indiano. Disse que Connaught Place não era lugar para turistas, que era perigoso, e me perguntou por que eu não ia ao centro de turismo, que era ali perto, e onde eu pegaria várias informações que seriam de grande ajuda. Eu disse que estava indo ao hotel Connaught, mas ele insistiu para que eu não fosse para lá, que era caro, e que eu deveria ir ao centro (que ele estava indicando), pois lé eu pegaria boas informações. Então fui; ele me acompanhou ao Center Tour & Travels, uma agência de viagens. Falei com Nazir Ahmed Karnai, para quem expus minha situação e ele me propôs um pacote de U$260 que incluía passagem de avião, cinco dias e quatro noites num hotel barco com todas as refeições nas montanhas do Himalaia, em Sri Nagar – região de Kashmir. Segundo Nazir, um local de paz, de silêncio, onde iam muitos turistas. Eu perguntei se não era uma região de conflitos entre hindus e mulçumanos, ele falou que isso era coisa do passado e que não existia mais este tipo de problema há "três anos". Mostrou uma revista brasileira, na qual Artur Verissimo já tinha escrito sobre ele e os serviços desta agencia. Então, disse que o motorista iria comigo até o hotel em que estava hospedado, eu pegaria as minhas coisas e passaria uma noite numa casa de família indiana, onde eu veria os hábitos; disse que seria uma oportunidade para conhecer a cultura deles, etc. Eu, na situação em que estava, achei que era uma boa saída, afinal de contas, eu poderia sair de Delhi e depois seguir para Dharamsala, Rishi Kesh e Dwarahat, mesmo porque Sri Nagar não é longe desses lugares. Tudo parecia muito coerente. Então, entrei no carro com um motorista e o rapaz me levou até o hotel para eu pegar as minhas coisas. Estranhamente, a pessoa que estava me acompanhando não queria que o motorista parasse o carro na frente do hotel, e parou uns vinte (ou trinta) metros antes, dizendo que estaria me esperando lá. Chegando no hotel, recolhi minhas coisas rapidamente, voltando em seguida para a agência, onde o garoto, o qual havia me encontrado na rua e me levado naquela agência, ainda estava me esperando. Ele disse que gostaria de me levar ao templo dele para orar por mim. Eu agradeci e disse que estava muito cansado, que precisava de um banho e descansar um pouco, e que ele me desse o telefone dele que depois eu ligaria. Agradeci pela ajuda e entrei no carro, dirigindo-me para a casa de família. Lá, tomei um banho, descansei num quarto privado, ventilado, com uma grande cama de casal. Comparei o antes e o depois e pensei como as coisas tinham melhorado, no dia seguinte iria para o Himalaia, depois para o ashram, tinha encontrado pessoas que estavam me ajudando, enfim, estava mais confiante, apesar de um pouco angustiado e não sabia o por quê.

Depois de ter descansado, o motorista me levou para conhecer alguns lugares em Nova Delhi, como o templo de lótus, um parque histórico, a feira principal, o parlamento e o palácio presidencial, fiquei umas cinco horas andando de carro e conhecendo Nova Delhi e seus contrastes sociais. Depois disso, presenciei a família indiana comendo com a mão, observando a habilidade para amassar o arroz, a batata, a carne, o yogurte, tudo numa coisa só, e com a mão direita, levando tudo isso a boca. Ainda bem que pude ter os meus talheres, não conseguiria fazer aquilo, pelo menos não no meu primeiro dia na Índia. No dia seguinte, embarco nove horas da manhã para Sri Nagar, Kashimir, norte da Índia. Ao olhar no mapa a região de Kashimir, logo aparece Islamabad e Kabul, regiões de conflito, alvo de ataques territoristas. Ao chegar em em Sri Nagar, tinha uma pessoa me esperando com um papel escrito meu nome. Entrei no carro e fomos para boathotel (hotel barco). Quando cheguei neste boathotel, minha primeira sensação foi de espanto e surpresa com a decoração exótica e conforto do lugar. Mas, mal tinham se passado uma hora em que eu estava lá, e o Bassir, a pessoa que tinha me recebido no aeroporto, suposto dono do barco, disse: “vamos falar sobre negócios, agora é business, depois amizade”. E eu não entendi muito bem o que aquilo significava, então ele começou a oferecer dez dias no barco, com refeições, trekking nas montanhas, uma passagem de avião até uma cidade próxima à Rishi Kesh, uma passagem de trem até Rishi Kesh onde ficaria num ashram de yoga, e mais uma passagem de trem para Dwarahat, tudo por U$1700. Na hora eu congelei, disse que não, que era muito dinheiro, que mal eu havia chegado e que ainda não sabia direito o que faria. Então, ele foi mostrando fotos, falando, persuadindo, eu também já havia lido que trekking no Himalaia é caro, tem que pagar autorização, taxa do passeio, guia e as roupas especiais. E ele continuou falando, então baixou o trekking e as outras coisas para U$900. Na verdade, tudo isso é um golpe. Ele lança um valor alto, depois baixa bruscamente para pensarmos que é uma ótima oportunidade, um preço especial feito para "você". Ele não desistia e se exaltava quando percebia minha resistência. Então, eu disse que iria pensar, que eu precisava de um tempo, mas ele não deu, continuou falando, dizendo que eu tinha que fechar naquela hora, que ele tinha que montar a programação, pagar as pessoas, os equipamentos, a autorização para o trekking, comprar as passagens, enfim, fazendo de tudo para me convencer que eu devia pagar naquele momento, e depois não mais negócios, apenas diversão. Dizia que recebia centenas de turistas sempre, que costumava cobrar caro o aluguel daquele barco e que estava fazendo por um ótimo preço para mim.

Fui enviado para este lugar por um preço razoável, U$260, que incluía passagem de avião, quatro noites e cinco dias num hotel barco com todas as refeições. Este preço não está ruim, mas isso é uma manipulação. Eles vendem um pacote por um preço razoável inicialmente para depois coagir a gastar mais. É uma rede interconectada. Eles trabalham em equipe. Aquele garoto que me parou no caminho do hotel de U$100 também faz parte desta quadrilha. Provavelmente ele recebeu uma comissão por ter me levado naquela agência. Da agência fui para Sri Nagar e lá eles "fecharam o cerco"

Paguei U$1490 por um pacote que incluía várias coisas, menos o valor do dinheiro pago. Depois, caminhando, pensei: “O que foi que eu fiz?!!! Não acredito que cai nessa!” Dali para frente esta angústia não me deixou mais em paz. Tentei falar novamente com Bassir, dizendo que não estava confortável com o dinheiro que havia pago. Ingenuamente, estava tentando dividir o meu arrependimento com ele, achando que ele pudesse me aliviar de alguma forma – ilusão. Lógico que ele me aliviou, mas dentro da perspectiva dele, falando que eu tinha pago um bom preço, que eu me divertiria muito e etc. Mas isso não me satisfez, e eu continuei angustiado. Durante a noite, a angústia baixou um pouco, e eu consegui relaxar e até escrever, ouvi música com as vistas da janela para frente do rio. Aparentemente tudo estava muito bem, com todo o conforto merecido. Quando acordei no dia seguinte, num átimo de segundo abri os olhos e a angústia tinha voltado, sentia o coração apertado. Tomei o café da manhã, ovos, pão, chá, manteiga.

Depois do café, ao querer sair, como ir na internet, descobri que não poderia andar sozinho, nem mesmo estar sozinho. Estava sempre sendo acompanhado. Também não via turistas em nenhuma parte e apenas eu me diferenciava das pessoas com minhas roupas predominantemente ocidentais. Após retornar da internet, fiz um passeio de quatro horas de barco. Tirei fotos, tentei relaxar, aproveitar, porque o local é bonito, exótico, diferente, eu me esforçava para gostar e não entendia porque ainda me sentia desconectado de mim mesmo. Descemos em uma mesquita mulçumana, um parque..., ficamos uns quarenta minutos neste local, onde tinha um centro comercial rico em especiarias e com vilas muito pobres. Também não via nenhum turista. Não sei por que, mas eu os procurava, queria confirmar que não estava sozinho. No retorno do passeio começou a chover e eu continuava a me esforçar para mandar aquela angústia embora. Estava em meio às montanhas do Himalaia, andando de barco... mas, quando cheguei de novo no boathotel, entendi por que estava sentindo aquela angústia e desde então o meu esforço era: ir embora o mais rápido possível.

Ao chegar no barco em que estava alojado, vi um turista (o único que eu veria por lá), origem japonesa, mas que não falava inglês. Todavia, ele já estava lá há mais de dez dias e no mesmo barco que o meu, eu que ainda não o tinha visto. Nosso barco tinha duas suítes e uma sala compartilhada, cada um estava num quarto. Apesar do seu péssimo inglês, eu consegui entendê-lo, percebendo que o que me angustiava era o mesmo que o incomodava. Ele havia pago U$ 2000, incluindo uma passagem para Bangcok, Tailândia. Ele dizia que enquanto fazia o trekking nas montanhas, apesar do lugar ser lindo, a mente dele estava perturbada, gritando: “money, money, money”. Ali tive a certeza de que todos são explorados. E que eu também tinha sido. A certeza de ter sido intencionalmente lesado é muito angustiante para um viajante. Então, fui procurar o Bassir para falar que eu precisava ir embora, mas ele não estava lá. Quem estava era uma outra pessoa, com uma aparência tipicamente mulçumana, com bigode ralo e roupas tradicionais. Eu disse que tinha um problema e que precisava resolver rapidamente, que precisava ir embora. Perguntei que horas o Bassir chegaria, ele disse que logo, então começou a ligar, mas só dava ocupado. Ele percebeu que eu estava inquieto, preocupado. Foi quando disse que também era um dos chefes e que eu poderia falar com ele o que estava acontecendo. Então, disse que naquela manhã eu tinha recebido um e-mail da minha irmã, dizendo que nossa mãe não estava bem e que eu tinha que voltar o mais rápido possível, por isso, como eu tinha pago para fazer o trekking, outros passeios, dez dias para ficar lá, incluindo passagens de avião e de trem, e eu não poderia mais aproveitar nada disso, que eu gostaria de ter o dinheiro de volta. E ele disse: “o que é mais importante, sua mãe ou o dinheiro?” Pronto, tive a certeza de que não receberia o dinheiro. Ele disse: “no problem”, e voltou a conversar com o japonês. Eu o interrompi e disse: “Desculpa, mas eu tenho um problema ...” . Não demorou muito quando o Bassir chegou, e eu fui falar com ele, mas ele disse que eu era mentiroso, e que ele não gostava de mentiroso. Aí senti medo ao vê-lo nervoso. Percebi que não sabia com quem eu estava lidando. Perguntei quanto ele poderia me devolver, ele disse U$225, eu pedi U$700, metade do que eu tinha gasto, ele chegou nos U$ 400, mas disse que só faria isso por causa da minha mãe, e que se fosse outro caso não me daria nada. Na Índia, a mãe é sagrada e está acima de tudo. Em seguida, pediu para ver o e-mail que eu recebi da minha irmã, dizendo que a nossa mãe não estava bem. Eu gelei nesta hora. “E agora?”, pensei. Eu não tinha este e-mail. “E se ele descobrisse que era mentira, o que poderia acontecer?”. Eu já tinha me assustado ao vê-lo gritar, diante de uma certa insistência minha, dizendo que todos os võos estavam cheios no dia seguinte e que só haveria um vôo disponível para dois dias depois. Então, eu disse muito submissamente que precisava ligar para o Brasil.

Novamente, um rapaz me acompanhou até a Internet, aonde também tem telefone. Chegando lá, eu disse que também precisava usar a internet. Enquanto o rapaz da lan house ligava as máquinas (porque elas não ficavam ligadas), eu esboçava falsas iniciativas de ligar, dizendo que o telefone estava ocupado, tudo isso para dar tempo que o rapaz ligasse à internet. Neste tempo, enquanto ainda ligava, parou em frente à lan house um carro com aquele rapaz de bigode e aparência mulçumana que havia conversado horas atrás. Pensei: “estou sendo seguido? Ele veio atrás para ver o que eu faria” (a sensação de perseguição é horrível, ainda mais quando você se sente vulnerável). Ele me encarou de forma estranha, nada amigável. As coisas não estavam boas. Assim que ele foi embora, a Internet já estava ligada, então, entrei no e-mail de um provedor e mandei para o e-mail que tinha de outro provedor a mensagem que disse ao Bassir que havia recebido. Assim, pensava, “teria alguma prova caso ele quisesse uma”. Mas, a minha apreensão era a data do e-mail. Eu havia falado que tinha recebido de manhã, mas eu enviei o e-mail para mim mesmo no final da tarde. Depois, pensei que poderia argumentar a favor do fuso horário, e que a página marca a hora do Brasil, na qual há uma diferença, etc. Contudo, eu apenas torcia para que nada disso fosse necessário e eu conseguisse ir embora o mais rápido possível.

Quando voltei ao meu barco, o Bassir mandou um de seus serventes me chamar. Fui até seu barco, ele convidou-me a sentar e queria me manter lá, persuadindo-me a ficar. Disse que tinha conseguido um vôo para o dia seguinte, “sensação indescritível de liberdade!”, foi a que eu tive na hora. Eu teria que dar cinqüenta dólares para o responsável da agência de viagens por que se tratava de uma situação especial, todos os vôos estavam lotados. Eu disse que tudo bem, e ele começou a organizar o vôo de Delhi para Londres. Foi ai que ele propôs uma passagem só para Delhi, sem precisar ir para Londres naquela condição, uma vez que eu já tinha uma passagem para Londres pela Golf Air, que havia comprado em Londres, mas só tinha vôo disponível a partir de 20 de junho. Disse também que eu poderia ficar mais uns dois dias lá, que ele poderia ver se conseguia achar uma vaga para mim pela Golf Air para antes de junho. Mas eu senti que ele estava me testando, porque se eu aceitasse isso é porque a história da minha mãe não era verdadeira. Eu tive que sustentar essa história e para isso aceitei os vôos que ele tinha encontrado. O vôo para Delhi, segundo ele, custava em torno de U$225 e o vôo para Londres, pela British Airways, sem escala, custava uns U$825. Então, eu teria que dar para ele mais U$ 600, que ele daria os U$ 450 que faltavam. Depois vi que o vôo de Sri Nagar para Delhi é próximo dos U$100, e que ele havia (obviamente) cobrado mais caro. Após ter pago, ficamos de nos ver no dia seguinte, quando ele me levaria ao aeroporto e me daria as passagens, e eu finalmente iria embora. Então, fui para o meu barco, onde o colega japonês estava. Conversamos um pouco, ele disse para não deixar minhas coisas sem cadeado, ainda que com um inglês bem ralo, mas eu pude entender o que ele estava dizendo. Ele andava com o dinheiro naquelas polchetes internas de viagem que se amarra na cintura (por dentro da calça). Percebi, então, que eu tinha saído, feito o passei de barco, e tinha deixado minhas coisas no quarto, meu computador, sem tranca, sem nada. Aliás, a porta do quarto em que estava ficava aberta, não havia chaves. Fui até o quarto, dei uma checada em todas as minhas coisas, e nada havia sumido, nem meu computador, o que eu mais temia. Eu estava, então, em meu quarto, no computador, conversando com o amigo japonês, quando dois sujeitos entraram de repente, não lembro de ter ouvido a batida na porta. Não por acaso, eram aquele de bigode ralo e um outro. Eles entraram olhando para as coisas, como que procurando algo. Eu pedi que saíssem, que estava cansado e que já iria tomar um banho para dormir. Mas, estranhei quando disseram que só sairiam na condição de que o brother (japonês) também saísse. Tudo isso estava me deixando muito tenso, inseguro. Eu não estava entendo aquela espécie de coerção, controle, e também não queria desafiar (não poderia). Após o banho, o jantar; após o jantar, uma noite sem dormir.

Passei uma noite inteira sem piscar o olho. Como a porta do meu quarto não tinha chaves, fixei na possibilidade de alguém, para me prejudicar, por alguma coisa na minha mala, como droga. Eu nunca mais sairia daquele local. Revistei minha mala várias vezes, me transportei para os filmes, na qual uma simples viagem, tão inocente e com bons propósitos, se transformam numa tragédia. Não tenho como descrever aquela noite, eu acredito que só em dizer que não preguei o olho já deve bastar para dar uma idéia do meu estado. Verifiquei a minha mala de novo durante a madrugada, amarrei com cadeado o meu computador. Aguardando as horas passarem, vi o dia irradiar e logo cedo levantei. Foi oferecido café, mas meu estômago estava embrulhado, e eu não conseguia comer nada, tomei apenas um chá. Sentei na varanda do barco, que dava para a frente para o estacionamento e, ansiosamente, esperei o homem chegar com a passagem, cujo destino considerava minha liberdade.

Eu tinha um corredor de obstáculos na minha frente, tentava arquitetar formas de continuar na Índia, eu não estava acreditando que iria embora, que tudo aquilo estava acontecendo. Mas, minha primeira prioridade era sair de lá, depois eu pensaria no que fazer. Enquanto esperava, o colega japonês acordou. Conversamos um pouco e percebi que ele estava como eu, aflito. Atrás do cartão da agência Centre Tour & Travels tem instruções em japonês, dizendo: “Deixa que sua viagem para Índia nós organizamos”. Ele provavelmente foi “pego” em Delhi e levado para lá, assim como eu. Ele dizia: “In Japan, no money, my house”. Eu gostei dele, espero que ele tenha ficado bem.

Por volta das 10:30 am Bassir chegou. Saímos por volta das 11:30 am. Enquanto andávamos, eu ficava ligado nas placas que indicavam o caminho do aeroporto, a ideia de que ele poderia me levar para algum outro lugar rondava a minha cabeça. De repente, ele parou o carro e pediu o meu passaporte para ir na agência pegar a passagem. Fiquei no carro, seguindo-o o com o olho o máximo que minha vista alcançasse, quando vi uma pessoa sair da agência com o meu passaporte na mão e entrar numa loja ao lado. Quando Bassir voltou, começou a acontecer um tumulto na rua, um protesto, com faixas e policia vindo atrás. E logo que a manifestação passou por nós, todos fecharam as portas, inclusive a agência. Logo que a passeata avançou, as coisas normalizaram. Era um dia de greve e eu tinha dado mesmo sorte em ter conseguido aquela passagem. Quando chegamos ao aeroporto, fui revistado cinco vezes por soldados vestindo amarelo, turbante, barba e metralhadora na mão. Depois que já tinha passado por tudo e estava esperando o vôo, um policial começou a conversar comigo, dizendo: “psicólogo brasileiro!”. Estranho, como ele sabia disso? Nesses lugares, eles visualizam quem somos, todos nos percebem. Quando entrei no avião baixou uma sensação de profundo alivio e também de decepção, o prejuízo financeiro se misturava com o emocional, eu estava desapontado, não entendendo por que tudo teve que ser assim. Foi terrível ter deixado U$2400 em Sri Nagar, mas foi mais difícil ter deixado a Índia por Sri Nagar.

Dizem que a Índia nos transforma, e quanto! Mas, um dia eu voltarei e acharei a Índia que amo e que admiro. Refarei o trajeto que estava destinado a fazer no exato e infeliz encontro com aquele garoto. Ainda penso no que teria acontecido se ele não estivesse no meu caminho. Minha passagem de volta a Londres era para novembro, estávamos no meio de maio. Uma viagem que deveria durar seis meses aconteceu em cinco dias. De fato, a drasticidade da inversão do tempo de viagem já é um grande impacto. De um tempo médio, que é o que deveria ser, para um tempo curto, o que foi, de qualquer maneira, a experiência na Índia me modificou, de um modo inimaginável.



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