Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#613898 por Jorge Soto
18 Jul 2011, 15:13
http://jorgebeer.multiply.com/photos/album/210/210

FESTIVAL PERRENGOSO DE INVERNO DE PARANAPIACABA
As cachus do Tobogã e do Cannyonig são duas pequenas quedas dágua de encosta pouco visitadas da tradicional “Volta na Serra”, em Paranapiacaba. Relativamente distantes da vila, de altura modesta e encravadas em meio aos contrafortes serranos do Vale do Quilombo, estas duas cachus promovem mto mais aventura do q a sua simplória visitação sugere. Descer cachoeiras acompanhando o curso dágua até o fundo do vale, pra depois retornar ao inicio vencendo um desnível de mais de 300m é um programa selvagem e radical pra poucos. Sem trilha alguma, desviando de obstáculos consideráveis e não raramente tendo de rasgar mato no peito, estes circuitos adrenados são diversão diferenciada garantida num fds comum. O Circuito do Tobogã já foi realizado. Agora era a vez da Cachu do Cannyonig.

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Julho é mês q não traz apenas baixas temperaturas. Nessa época são tradicionais os festivais de inverno em diversas localidades pelo país, onde o público tem a chance de apreciar não somente musicais de qualidade, como tb a gastronomia e cultura local. E em Paranapiacaba não poderia ser diferente, já q a pitoresca vila inglesa igualmente detém seu costumeiro Festival de Inverno q abraça neste mês a sua 11ª edição. Mas o q isso tem a ver com trekking? Ué, nada! É apenas uma pós-introdução q mata dois coelhos numa cajadada só: divulga um evento de cunho cultureba e dá uma vitaminada neste relato pouco inspirado pruma caminhada pouco trivial.
Foi no embalo do clima do Festival de Inverno q eu e o Carlos encontramos a Katia em frente ao Bar da Zilda, as 9:30hrs, naquela agradável manha de domingo q procedeu a abertura das festividades. Os sinais de muvuca eram evidentes por onde quer q se olhasse: movimento e decoração acima do normal, lixo e mtas latas/garrafas espalhadas pelo chão, além de mta gente estatelada na sarjeta se recompondo da ressaca. São os resultados da (des)organização deste tipo de evento. Uma visão nada agradável q a meu ver não condiz com o ar bucólico e sereno q sempre foi característico da vila inglesa. Perguntando pra simpática Dna Francisca - a miúda tiazinha q vende artesanato/produtos esotéricos em frente à Zilda – sobre as vendas nesta época ela foi reticente: “Q nada! É só muvuca e pouca venda! O pessoal ta sem dinheiro pra comprar nada!”, desabafou.
Ignorando os sinais da muvuca imediatamente nos pusemos a caminhar indo de encontro à bucólica Estrada do Taquarussu, onde o burburinho da vila logo deu lugar ao silencio apenas quebrado pela nossa animada conversa ou pelo som do arvoredo dançando ao vento.

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As 10hrs abandonamos a estrada p/ mergulhar no frescor da mata de uma trilha já cantada em verso e prosa noutras tantas ocasiões, ladeando os contrafortes serranos rumo Vale do Quilombo. Pra não dar uma volta enorme através da tradicional “bifurcação das bananeiras” resolvemos cortar caminho pelo alto da serra, tomando a “Trilha da Comunidade”. Dito e feito, bastou subir suavemente o alto do morro, cruzar um aceiro e começar a descer já quase do outro lado da serra. Além de pouco utilizada, a picada estava repleta de mata tombada nos obrigando a desviar aqui e ali pra prosseguir, mas felizmente nada algo q dificultasse o compasso (lento) da nossa pernada. Isto pq sentimos o descondicionamento da Katita q diversas vezes teve de parar pra retomar o fôlego, principalmente nas subidas. E olha q quase teve faniquito pq havia esquecido o maço de cigarros no carro. Fuma desgraça! Mas q fosse, seriamos pacientes com a guria já q dispúnhamos de tempo suficiente pra pernada proposta. Pois bem, além do sol filtrado lindamente pelo alto da vegetação, o destaque deste trecho ficou por conta do q sobrou de um macuco no meio da trilha - provavelmente refeição de algum bicho - e de uma enorme e fotogênica aranhona, q foi alvo de vários cliques.
Após cruzar dois córregos e começar a descer em largos ziguezagues, desembocamos noutra picada maior de carvoeiros q logo reconhecemos como sendo aquela q dá a volta na serra (pelo meio). Retrocemos um pouco indo de encontro ao som de muita água correndo nalgum lugar, cruzando a trilha. Mas não demorou e as 11hrs desembocamos no alto da Cachu do Tobogã, onde tivemos uma breve parada na base apenas pra molhar a goela e beliscar alguma coisa. Este córrego é um dos vários cursos dágua q despencam desta encosta e alimentam as nascentes do Quilombo. Ele despeja sua agua sobre uma pedra num pequeno poço, q corresponde ao primeiro nível da cachu. Daqui tb se tem uma bela vista dos imponentes contrafortes opostos da serra, uma enorme silhueta de verde recortada pelo azul impar de um céu isento de nuvens.

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Damos então continuidade a nossa marcha ainda pela trilha principal, bordejando a encosta serrana sem gdes dificuldades ou variações de desnível. A picada ora se alarga ora se estreita nas pirambas íngremes, mas felizmente nosso ritmo se mantém estável. Após contornar um bambuzal ouve-se o som cada vez mais alto de água despencando pela encosta, e as 11:30 finalmente caímos nas pedras sobre um pequeno córrego. Estamos no alto da cachu do Cannyonig, q recebe este nome pois de acordo as infos é praticado este esporte do alto da mesma. Me debruçando cuidadosamente sobre as pedras ensaboadas de limo pude constatar q altura da cachu, algo de 30m, de onde a agua despencando verticalmente ate uma pequena garganta rochosa, pra depois prosseguir montanha abaixo através de sucessivos e ingremes patamares serranos. Não vi sinal de grampo q denunciasse algum rapel ali.
Pois bem, daqui teríamos q chegar ao fundo do vale de algum jeito. Visivelmente constatamos q o meio de descer á cachu seria pela encosta menos vertical, ou seja, a esquerda. E lá fomos desescalaminhando cuidadosamente a encosta nos firmando nas arvores ao redor até dar na base da cachu, um pequeno e raso poço espremido por paredões de rocha ligeiramente inclinados. Dali o riacho prossegue sua rota serra abaixo alternando trechos verticalizados com outros menos pirambeiros. Por conta disto preferimos evitar andar rente o mesmo optando pelas encostas q o bordejam, q são mais suaves e menos abruptas, por assim dizer.

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E la prosseguimos nossa jornada, agora na base da desescalaminhada da encosta, ora costurando a mata nos firmando no arvoredo, ora ladeando enormes rochas e nos segurando nas raizes sobressalente em volta. O destaque deste trecho foram os “esquibundas” da Katita, uma árvore curiosamente fincada no alto de uma rocha, os enormes paredões cobertos de cipós e, claro, os vislumbres das cachus do riacho q acompanhávamos, ora próximos ora distante conforme o terreno se mostrasse menos pirambeiro. Por incrível q pareça, os trechos de vara-mato foram poucos e fáceis de contornar.
Assim perdemos altitude rapidamente e após dar na beirada do alto de uma gigantesca rocha, as 12:15 tivemos uma breve parada pra descanso e beliscar uns pães-de-queijo, cortesia da Katita. Prosseguindo nossa interminável desescalaminhada, as 12:45 acabamos dando as margens do córrego q é nossa referencia. Percebendo q agora é possível ir por ele em virtude da declividade não ser tão abrupta, damos sequencia a uma serie de desescalaminhada cuidadosa de rochas, alternando ambas margens. Qq coisa saliente serve de apoio, seja agarras na rocha, raizes sobressalentes ou ate mesmo a vegetação baixa. A sucessão de belas cachus deste bucólico trecho proporcionou as melhores fotos desta descida de serra. Incrivel tb reparar q as pedras desmoronadas daqui eram literalmente engolidas pelas raizes do arvoredo ao redor, em sua desesperada busca por sustentação.

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Mas não tardou a nossa rota ser barrada por uma pirambeira verticalizada, onde a água escorria atraves de uma garganta rochosa intransponível, em sucessivas quedas. Dali tivemos q contornar novamente pela encosta esquerda, adentrando no mato ate dar numa evidente crista. Pausa novamente pra descanso, as 13:12, solicitada pela brava Katita mas q já sentia o corpo amolecendo, com direito ate a deitar na folhagem no chão pra manter as pernas levantadas de modo pro sangue circular melhor.
A desescalaminhada prosseguiu no mesmo compasso ate q julgamos mais prudente seguir por uma crista descendente bem ao lado, onde realmente o avanço era mto mais fácil. As 13:30 encontramos vestígios de uma picada pouco utilizada q passamos a acompanhar, sempre tendo o riacho à nossa esquerda, á distancia. O Carlos disse q já havia andado por essa picada e q ela provavelmente levaria ao “Rancho 71”, antigo acampamento de caçadores. De fato, o som cada vez mais alto e a declividade menos íngreme indicava q já estavamos quase no fundo do vale. Apesar da caminhada agora ser mais facilitada, em nivel, a Katita não se livrou de levar algumas “rasteiras” dos cipós e galhos baixos no caminho...

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Dito e feito, após um tempo a vereda afastou-se do córrego da Cannyoning, bordejou a encosta até desembocar no indefectível encontro do Rio Quilombo com o Anhangabaú, as 14hrs!! Pausa mais demorada pra descanso e lanche, claro, embora fossemos nós q estávamos alimentando as nuvens de pernilongos dali. Eu até ganhei um belo “chifre” avermelhado no lado direito da testa por conta de uma maledita muriçoca. O tempo, q ate então estava claro e ensolarado, mudara completamente. O sol havia ido embora dando lugar aos tons opacos de iminente nebulosidade tomando conta do firmamento.
Meia hora depois iniciamos o longo caminho de volta. E bota longo nisso. A Katita já havia sido alertada q agora o bicho ia pegar pra ela pq a declividade é forte e o caminho, interminável. Mas q fosse, já q “quem ta na chuva é pra se molhar”. Mal iniciamos a subida e nos deparamos com o “Rancho 71” restaurado, ou seja, caçadores ou palmiteiros estavam rodando por ali novamente! Lonas de plástico, camas de madeira, fogão improvisado, etc.. além de muito lixo, claro! “Pô, se eu soubesse q tinha estas ´caminhas´ tão perto preferia ter descansado aqui e não no rio!”, brincava Katita, q por pouco não puxou ronco na horizontal prostrada na rústica armação de gravetos amarrados q devia ser o leito dos palmiteiros. O Carlos aqui deu sua contribuição eco-ambiental carregandonum saco td o lixo deixado pelos habitantes do “Rancho 71”, principalmente embalagens de plástico.

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Na sequencia veio o inevitável: a subida da serra, subida esta feita a passo de tartaruga-manca com lesma-com-preguiça! Pra ajudar a Katita, cuja lingua ja se arrastava pelo chao, carreguei a mochila dela mas mesmo assim éramos obrigados a parar pacientemente a cada 5min em qq raiz tubular, tronco caído ou degrau q aparecesse, o q nos consumiu td resto da tarde, por assim dizer. Mas a brava e determinada guria não se dava por vencida, e assim fomos sempre em seu ritmo galgando sucessivamente patamares sucessivos daquela íngreme encosta. Ao alcançar o pto mais alto da serra a serração tomava conta de td não permitindo enxergar nada além das frestas da vegetação, e a umidade depositada na mesma gotejava incessantemente sobre nós. Em fcao disto fazia frio mas o q nos mantinha aquecidos era o movimento constante dos músculos.
Foi ali tb, no alto da serra, q tivemos o encontro incomum com uma das raras pessoas q circula ali com mais freqüência, um simpatico caçador! Seu nome era Jorge, morava e trabalhava com construção em Suzano, onde era bastante conhecido como “Bozo”. Portando uma cargueira mediana, roupas normais, um facão e uma espingarda de chumbinho nos contou q seu passatempo ali - depois de largar a mulher - era caçar pacas no Quilombo! Deu pra ver q era um “caçador consciente”, se é q isso existe, afirmando q caçava apenas pra comer. Foi reticente q ele mesmo “criava” as pacas, deixava milho em armadilhas de pvc pra engordá-las, e depois ia atrás delas de arma em punho.

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A conversa estava mto boa mas o dia estava quase no fim, e nosso avanço havia sido minimo. Eram quase 17hrs e ainda nem havíamos alcançado a famosa “bifurcação das bananeiras”!!! Naquele tempo ruim certamente a penunbra nos surpreenderia ainda na mata e francamente andar em trilha a noite não era algo q nos agradasse. Em tempo, dispúnhamos apenas de uma lanterna. Nos despedimos então do simpático Jorge dando continuidade á pernada, agora em terreno nivelado, o q aumentou o nosso ritmo.
Assim q alcançamos a “bifurcação das bananeiras”, 17:30, o Carlos sugeriu tomarmos uma outra trilha mais longa, porem menos íngreme (pensando na Katita) áquela pela qual havíamos vindo, onde certamente a noite nos pegaria de jeito. Concordei sem pestanejar e la fomos nos, chafurdando em meio a constante brejo após tomar a dita cuja enqto a luminosidade se esvaia rapidamente á nossa volta, deixando o ambiente tomado por cintilantes vagalumes.
As 18hrs emergimos numa casa fechada q particularmente desconhecia, mas pelas infos do Carlos pertence ao “dono” da Vila do Taquarussu. Uma placa anunciava estarmos a 4km da Vila do Taquarusse e a 8km (!!!) de Paranapiacaba. A probabilidade de arrumar carona naquele fim de mundo era zero, claro. Assim, descansamos mais um pouco pra depois prosseguir nossa longa jornada de volta, agora atraves de uma interminável estrada de terra, onde a serração carregada de umidade nos envolvia por completo. Decididamente a escolha de ir por ali, apesar de mais longa, foi acertada. Andar a noite por uma estrada era mto mais facil q numa trilha ascendente. A Katita q o diga.

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A estrada desembocou próximo do Camping Simplão e da Cachu da Macumba, e um tempo depois a pernada nos levou à Estrada do Taquarussu, sem sinal de vida algum. A escuridão completa q nos envolvia so era quebrada pelos fachos de luz da headlamp do Carlos, q iluminava o caminho. Mas foi aqui, uma sequencia sinuosa de subidas e descidas, onde não somente a Katita sentiu novamente o tranco. Eu tb estava cambaleante pelo cansaço acumulado dos dias anteriores e noites mal-dormidas. Não via a hora de encostar o corpo nalgum canto e me movimentava puramente por inércia áquela altura do campeonato. Na Vila do Taquarussu desabamos brevemente no fofo gramado e por pouco não ficamos ali, dormindo. Havia q chegar á vila inglesa, custe o q custasse.
O ultimo trecho foi o mais penoso. Uma subida interminável nos obrigou a engatar primeirinha e assim, devagar e sempre, serpenteavamos feito zumbis a escuridão serrana ate o momento em q começou a ficar audível o som de musica em alto volume. Estavamos chegando a Parapiacaba!! Uhúúúú! Isso renovou nosso fôlego e nos fez apressar o passo.
Dito e feito, após a guarita a típica neblina (fria e úmida) envolvia por completo a vila inglesa e nos forçou a trajar anorakes. O som do show do Baile do Simonal vindo de um palco próximo inundava os ouvidos.. assim como a muvuca da molecada indo e vindo pelas ruas apinhadas de gente. Estacionamos num bar próximo do campo de futebol, onde a Katita deixara o carro dela, as 20:30!!! Meu deus! O retorno nos consumiu quase 6hrs sendo q o comum é fazê-lo em menos da metade do tempo!!! De qq forma estávamos satisfeitos e contentes por estarmos ali. A Katita esta de parabéns por superar o cansaço, dores e td mais! Brejas e porções nunca caíram tão bem como naquele momento. Saimos dali as 22hrs e eu cheguei em casa um pouco antes das 1 da manha, felizmente tomando o ultimo bus q circulava naquele duro, cansativo e interminável domingo.

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Recordo q no bar onde havíamos terminado a trip a moca do caixa queixava-se da mesma forma q Dna Francisca. Lamentava o baixo movimento e do pouco lucro, em contrapartida da multidão barulhenta prestigiando os shows. Milton Nascimento, Pato Fu, Lenine e tantos outros convidados de peso do Festival q me perdoem. Já fui mto apreciador de MPB em meus saudosos tempos universitarios mas hj ando assumidamente mais careta e rabugento q outrora com algumas coisas. Muvuca e farofa são algumas delas. No caso, prefiro meter as caras no mato, mas essa é apenas opção pessoal.
No inicio fiz questão de divulgar o Festival de Inverno, mas da mesma forma tenho a liberdade de criticar a organização, já q os próprios moradores da vila inglesa reclamam q há outras coisas mais importantes p/ dar atenção. Dna Francisca comentou q vira e mexe falta luz na vila, em contrapartida aos enormes geradores q vi circulando pra atender a parafernália dos shows. Ta certo q o evento é tradicional mas até q ponto ele prejudica e descaracteriza a vila com gente além da sua capacidade, e a quem ele realmente beneficia? Pois é, pensando melhor vou permanecer apenas nas trilhas como da Cachu do Cannyioning e tantas outras, onde encontro pessoas simples como Seu Jorge - q faz da caça de pacas sua válvula de escape do estresse da cidade – a arruaceiros quebrando garrafas na rua, conforme presenciei, q em tese deveriam estar gerando uma renda q segundo o os próprios comerciantes da vila esta longe de ser real.


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