Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#801067 por rafael_santiago
23 Jan 2013, 17:04
Imagem
Casa do Sr Pereira

As fotos estão em http://lrafael.multiply.com/photos/albu ... y-RJ-dez12.

A Trilha do Pereira é parte de um caminho tropeiro que liga Paraty a Cunha, ou seja, é uma conexão entre o litoral fluminense e o planalto paulista. O trecho desse antigo caminho que galga as encostas da Serra do Mar ganhou esse nome por ter como referência a fazenda do Sr Pereira, na borda da serra.

A travessia completa inicia no sertão do bairro São Roque, a 25km de Paraty, e vai até o bairro da Barra, que pertence a Cunha. Eu fiz apenas o trecho que leva à fazenda do Sr Pereira pois não tinha dados suficientes e logística montada para continuar até o bairro da Barra, onde eu poderia pegar um ônibus para Cunha, segundo me disseram (informação ainda não verificada).

O que vou descrever a seguir então é tão-somente a Trilha do Pereira, do bairro São Roque à fazenda do Sr Pereira, atualmente sem morador já que ele e os filhos se mudaram. Resolvi fazer o percurso de ida e volta em um dia com mochila de ataque pois tinha informação de 4 horas de subida apenas, o que não justificaria subir os 1100m de desnível com cargueira para acampar na fazenda e voltar no dia seguinte. Porém esses números estavam subestimados (para não dizer errados) pois a altitude chegou a 1395m e gastei 5h40 para alcançar a fazenda, caminhando sem parar.

Imagem
Conjunto de quedas

Peguei o ônibus "São Roque" às 7h50 em Paraty e desci no ponto final às 8h20. Esse ônibus percorreu 21km pela Rio-Santos no sentido de Angra dos Reis, entrou no km 551,5 à esquerda e rodou mais 2,3km até o final do asfalto do bairro São Roque. Ele deu meia volta e eu continuei pela estradinha, que passou a ser de terra, em meio às últimas casas do bairro. Resolvi perguntar numa dessas casas pelo início da trilha e foi a melhor coisa que fiz pois é um começo muito discreto e quase imperceptível. Se não tiver a quem perguntar, é o seguinte: cerca de 270m a partir do ponto final do ônibus deve-se procurar uma trilha meio fechada que sai à esquerda dessa estradinha de terra e entra na mata, já que não há mais casas do lado esquerdo nesse ponto. Um início muito sutil para a trilha bem usada e muito bem marcada que iria encontrar depois. Apenas alguns metros e me deparei com o Rio São Roque, que corre paralelo à estrada, largo e sem ponte. A correnteza não estava forte e o rio estava raso, para minha sorte. Tirei as botas, improvisei um cajado e atravessei-o sem problemas. Em outras condições, com mais chuva, essa passagem pode se tornar difícil ou perigosa. Torcia para não chover ao longo do dia já que iria voltar pelo mesmo caminho.

Já na outra margem, calcei de novo as botas e coloquei as perneiras também pois não sabia quão fechada poderia estar a trilha. Dei início então à caminhada cruzando um colchete de arame farpado aos 121m de altitude. Eram 8h57. Mais tarde, quando vi a dificuldade da subida e o grande desnível a ser vencido, é que percebi como comecei tarde!

Logo de cara encontrei uma placa azul indicando "trilha para Cunha-SP", para minha surpresa, confirmando estar no caminho certo. Depois cruzei uma porteira de madeira com placa de "Sítio Sertão do Zezinho", mas não vi casa nenhuma, nada além de mata fechada daí para a frente.

Às 9h18, topei com a única bifurcação em todo o longo trecho de mata. Nela há uma outra placa "trilha para Cunha-SP", apontando para a esquerda. Mas antes de seguir por lá, explorei o ramo da direita, com uma placa "centro da mata - Parque Nacional da Serra da Bocaina" e o caminho de 170m deu no Rio São Roque. Voltei à bifurcação e peguei o lado certo. A subida a partir daí foi forte e constante.

Imagem
Rio São Roque

Às 10h55 encontrei o primeiro ponto de água e às 11h13 passei ao lado de uma grande pedra à esquerda da trilha (706m de altitude na pedra). Três minutos depois dela um riachinho cruza a trilha depois de saltar por belas quedas à esquerda, dentro da exuberante mata. Às 11h47 a trilha se abre numa grande clareira com bastante lixo, sugerindo que ali pode ser local de descanso ou até pouso de quem faz essa trilha com animais. E falando em animal, um pouco antes desse lugar um bicho grande perto da trilha se assustou com a minha passagem e correu no meio da mata. Não consegui vê-lo mas devia ser grande pelo barulho do mato que arrastou ao fugir.

Continuando a subida, a trilha muda um pouco e começam a aparecer muitas pedras, dificultando um pouco o caminhar. Em alguns trechos, a trilha corre dentro de profundas valas escavadas ao longo de anos de uso. Mais alguns pontos de água e às 14h saio finalmente da mata e tenho visão dos morros à frente, mas ainda não vejo a casa do Sr Pereira. Havia acabado de passar pelo ponto mais alto da trilha - 1395m. Nesse momento eu já estava com 5h de caminhada e nada da casa. Não queria terminar o caminho de volta no escuro, mas também não conseguia parar enquanto não chegasse ao meu destino. Apressei o passo.

Imagem
Ao sair do longo caminho na mata, a paisagem se abre

A picada passa agora a descer entre arbustos e alcança uma outra trilha, perpendicular, bem marcada, na qual sigo à esquerda, caminhando agora por um pasto sem gado. Contorno morros até que a picada entra numa mata, mas poucos metros depois sai dela para bifurcar num outro pasto marcado por um cocho feito de um grande tronco de árvore. Não é difícil saber qual lado da bifurcação seguir pois já é possível avistar a casa no alto, à esquerda. Foi só seguir na sua direção, cruzar uma porteira e subir um pouco. Cheguei enfim à casa de pau-a-pique do Sr Pereira às 14h37, com o meu cronograma estourado, e não encontrei vivalma, como já havia sido alertado. Altitude de 1362m.

Só tive tempo de descansar um pouco, mastigar umas bolachas, explorar os arredores da casa, tirar umas fotos e às 15h03 já estava dando início à volta, prevendo que caminharia no escuro. Paciência...

Desci o mais rápido que pude, mas a parte das pedras na trilha não me deixou ir mais depressa. Depois delas pude correr mais. Assim, consegui chegar ao Rio São Roque e atravessá-lo às 19h18, ainda com luz natural - bendito horário de verão!

Só então pude relaxar, fazer um lanchinho e curtir alguns minutos na margem do rio. Saí dali com o cair da noite às 19h53 e, como perdi o último ônibus "São Roque", caminhei os 2,3km até o ponto na rodovia Rio-Santos, aonde cheguei às 20h27 para esperar o próximo circular de volta a Paraty.

Informações adicionais:

Horários do ônibus Paraty-São Roque:
seg a sáb - 6h, 7h50, 9h10, 11h, 16h40
dom - 7h50, 11h20, 16h30
O ônibus leva 30 minutos para chegar ao ponto final e retorna imediatamente.

Cartas topográficas:
. Parati - http://biblioteca.ibge.gov.br/visualiza ... -C-I-2.jpg
. Cunha - http://biblioteca.ibge.gov.br/visualiza ... -C-I-1.jpg

Rafael Santiago
dezembro/2012

Imagem
Trilha do Pereira na imagem do Google Earth
Editado pela última vez por rafael_santiago em 04 Fev 2013, 17:37, em um total de 1 vez.

#802987 por FRANCISCO CARDOSO
28 Jan 2013, 21:47
Pois é Rafael,

Como é bom fazer trilhas menos badaladas não é mesmo?
Não raras vezes somos imcompreendidos por isso, pasme, até por colegas do ramo rsrs.
Mas é impressionante como as pequenas trilhas são interessantes, elas nos fazem conhecer de verdade uma região...

E nesse relato encontro uma das razões que me faz ser seu seguidor: a fidelidade nas informações.
É muito comum encontrarmos informações sobretudo com distâncias e tempo subestimados. Certa vez, conversando com um amigo ele me disse que, não tendo marcações técnicas, é preferível elevar a margem do que encurtá-la. Creio que ele tenha razão, uma vez que em algumas vezes, o tempo nos é fundamental!

Só me resta parabenizá-lo!
Abraços

Usuários navegando neste fórum: Nenhum usuário registrado e 0 visitantes