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Missão cumprida: fizemos a pé a travessia da maior praia do mundo


Por Élisson Gularte

A travessia da maior praia do mundo a pé ficou pra trás, foram 7 dias de auto conhecimento, superação e lições de humildade e bondade. Saímos de Santa Maria no domingo à 1h em direção à Rio Grande, aonde chegamos às 7h. Tomamos um Uber até os Molhes do Cassino, tiramos umas fotos, colocamos as mochilas nas costas – a minha com 27kg e a do Cleiton com 25kg – e a passos vivos iniciamos a nossa travessia às 8h30min.

Élisson e Cleiton | Foto: Arquivo pessoal.

Perto do meio dia já havíamos caminhado 20 km e o Cleiton avistou uma caixa d’água azul atrás das dunas. Era uma vila de pescadores, paramos para reabastecer as garrafas e fomos convidados para almoçar, por um
senhor – conhecido por todos como Marinheiro – e tivemos a nossa primeira lição de bondade, sentamos com ele, sua esposa e neta a mesa e no meio de muitas histórias, almoçamos. Foi nesse momento que descobrimos que a medida que parávamos nossos corpos esfriavam e as dores surgiam.

Cleiton, o Marinheiro e Élisson | Foto: Arquivo pessoal.

Élisson | Foto: Arquivo pessoal.

Logo no primeiro dia, o Cassino, nos contemplou com sol, chuva, vento e os três ao mesmo tempo em alguns momentos. No meio disso tudo, terminamos nosso dia com 38km, escolhemos um local próximo a um córrego d’água para montar nossas barracas. Fizemos nosso miojo com atum e apagamos.

Cenários inesquecíveis | Foto: Arquivo pessoal.

O segundo dia iniciou com um café com leite, pão e salame – café este que nos acompanharia até o último dia. Desmontamos o acampamento e seguimos caminhando, nessa manhã, o Cleiton começou a ter canelite, por isso diminuímos a velocidade e eu perdi o meu bastão de caminhada – para o Cleiton…
No meio da tarde, estávamos tão cansados que sentamos nas mochilas para descansar um pouco e cochilamos. Quando retornamos a caminhada os músculos estavam enrijecidos, mas fomos em frente. Encontramos o primeiro Farol, o Sarita. Eu fui ao encontro do farol para fotografar e vi que haviam duas pessoas sentadas aproveitando a sombra. Voltei a praia e continuamos até que encontramos um córrego d’água que serviria para cozinhar, recompletar as garrafas e tomar banho.
Enquanto montávamos as barracas o casal estava passando, fomos ao seu encontro e era um casal de hippies que traziam duas mochilas pequenas e caminhavam ao entardecer e ao amanhecer, evitando os horários em que o sol é mais forte. Eles retornaram ao seu caminho e nós ao nosso acampamento. Nessa noite eu fiz lentilha com salame e arroz com atum enquanto o Cleiton apanhava água. Furamos as bolhas e fomos dormir, tendo caminhado apenas 33km.

Outros viajantes pelo caminho, o casal Jean e Carol | Foto: Arquivo pessoal.

No terceiro dia, começamos com o freio de mão puxado, o Cleiton, por causa da canelite começou a caminhar fazendo mais força com a outra perna o que acarretou em dores no pé e joelho. Perto do meio dia paramos para reabastecer as garrafas e aproveitamos para tomar banho e almoçar.
Do meio para o final da tarde, os córregos começaram a ficar mais espaçados e por esse motivo quando encontramos um aos 37km decidimos que seria hora de acampar. Mais uma vez jantamos lentilha com salame, arroz e atum. Furamos as bolhas dos pés e apagamos.

Élisson e Cleiton | Foto: Arquivo pessoal.

No quarto dia, combinamos de acordar as 4:30h para aproveitar a temperatura amena, porém amanheceu chovendo bastante e acabamos saindo às 7h. O Cleiton estava de arrasto e brincava que o Opala precisava aquecer… De fato, a medida que aquecíamos os músculos, conseguíamos caminhar sem dores. Logo no meio da manhã alcançamos o segundo farol, o Farolete Verga – paramos para fotografar e continuamos.
Decidimos que não iríamos mais sentar nas pausas que fazíamos a cada 1h de caminhada. Foi um dia de muito vento contra, entretanto, o sol estava encoberto pelas nuvens – o que nos ajudou muito. Alcançamos o farol de Albardão às 17h, aonde pernoitaríamos, tendo percorrido 33km. O Cleiton estava com febre, dores nas pernas e com as costas queimadas pelo sol e eu com foliculite nos ombros, bem aonde passavam as alças da mochila. Para nossa surpresa o casal Hippie já havia chegado. Nós ficamos impressionados com a velocidade com que eles caminhavam, foi aí que conversando, descobrimos que haviam pego uma carona em um trator de uma madeireira!!! Com eles – o Jean e a Carol – tivemos nossa segunda lição, ambos eram de uma humildade e bondade sem tamanho, emprestaram ao Cleiton seu pós sol e remédios e, nós, em agradecimento, separamos 4 miojos, 2 latas de atum e dois potes pequenos com castanhas, damascos e nozes, além de um isqueiro. Eles ficaram muito felizes, pois disseram que estavam começando a ficar preocupados com a comida.
Naquela noite, fomos – gentilmente – convidados pelo pessoal da Marinha do Brasil e jantamos todos juntos. Subimos no Farol e conseguimos ligar para casa, foi reconfortante saber que estava tudo bem.

No quinto dia, nos despedimos do Albardão e saímos no ritmo lento matutino habitual, conforme o Opala (Cleiton) ia aquecendo e superando as dores nós íamos apertando o passo. Esse foi, sem sombra de dúvidas, o pior dia. O céu estava limpo, não haviam nuvens, nem vento e o sol. Ah! O sol! A impressão que tínhamos era que havia um sol pra cada um. Aliado ao calor, a paisagem ficou monótona! Não enxergávamos nenhum ponto de referência, a esquerda tínhamos o mar, a direita somente um deserto e nada de córregos. Além do cansaço físico, passamos a enfrentar o cansaço psicológico, se não fosse o GPS para comprovar a nossa evolução, teríamos a impressão de não sair do lugar.

Foto: Arquivo pessoal.

Próximo das 15h encontramos o senhor Edson Sorrentino fazendo o caminho oposto, mas com um propósito maior que o nosso, o de caminhar do Chuí até o Cabo de Orange em 2 anos. Conversamos, trocamos figurinhas sobre o que encontraríamos pela frente, tiramos uma foto e seguimos, cada um o seu caminho.

Na jornada eles cruzaram com outro aventureiro, o Edson Sorrentino | Foto: Arquivo pessoal.

Tendo completado 39 km, encontramos uma árvore caída que o Cleiton teve a ideia de usarmos como banco e acampamos. Como o Cleiton estava com os tornozelos inchados, fomos para o mar fazer “gelo” e eu passar água salgada nas foliculites dos ombros. Ao retornarmos, preparamos miojo e atum e fomos contemplados com um por-do-sol incrível, enquanto que cada um dentro da sua barraca furava suas bolhas e renovava os curativos.

Beleza em cada detalhe do caminho | Foto: Arquivo pessoal.

No sexto dia o Opala Velho (Cleiton) acordou sem dores e a caminhada rendeu desde as primeiras horas da manhã. Novamente o céu estava sem nuvens e o sol bastante forte, porém tínhamos um aliado, o vento, que além de nós refrescar ainda estava a favor do nosso destino e objetivo do dia que era chegar a praia do Hermenegildo, distante 39km. Caminhamos 9 horas sem parar, contamos histórias, piadas, escutamos músicas, o Cleiton me mentiu um pouco e assim foi até começarmos a avistar pescadores. Seguimos em frente, e tivemos outras tantas lições de bondade para com o próximo, muitas pessoas nos alcançaram água, queriam saber da nossa caminhada. Foi demais!

Mas a cada conversa boa, a cada água gelada, o retorno era mais difícil e doloroso pois a musculatura ia esfriando. Decidimos caminhar de cabeça baixa e só pararmos se fossemos chamados, até que um castelhano – um hermano Uruguaio – nos ofereceu uma cervejinha! Como dizer não para esse novo grande amigo hermano! A gente se olhou e sorriu, nós tínhamos dinheiro na carteira, mas não havia lugar para comprar água, comida ou qualquer outra coisa que fosse. Aquela cerveja desceu maravilhosamente, deve ter sido uma das mais saborosas das nossas vidas. Agradecemos, efusivamente, e continuamos. Chegamos a praia do Hermenegildo e só conseguíamos pensar em tirar a mochila das costas, comer um pancho e beber um Coca Cola bem gelada. Foi aí que entrou no nosso caminho Wagner Viana, mais conhecido como Gata, um cara muito alto astral que nos viu de mochila e nos recebeu com um carinho enorme, nos contou histórias, procurou saber do nosso propósito, já estava preocupado em conseguir um lugar para que passássemos à noite, super gente fina e proprietário da Katzelu, uma carrocinha da Pancho – espetaculares, diga-se de passagem.
Conseguimos um lugar pra dormir, jantamos em Hermenegildo e fomos descansar.

Cleiton e Élisson e os panchos | Foto: Arquivo pessoal.

O sétimo e último dia começou com o Cleiton tomando Dorflex, anti-inflamatório e anti-alérgico e ainda assim o Opala tava ruim de aquecer. Foi uma manhã difícil, apesar das condições climáticas favoráveis, creio que saber que restavam apenas 13 km apesar de ser um alento, nos deixava mais ansiosos pela chegada.
Concluímos nossa travessia às 11 horas, com 232 km percorridos, chegando nos Molhes da Barra do Chuí, cansados, agradecidos pela conquista, respeitando os limites do nosso corpo e mais experientes. Felizes pelos exemplos de bondade e humildade e mais fortes pelas dificuldades superadas!

Foto: Arquivo pessoal.

Agradeço a Natiele que sempre apoia as minhas loucuras, aos meus pais, Julio e Rosane que estão sempre presentes na minha vida e, é claro, ao Cleiton – por ter aceitado o convite – gente boa demais, que apesar de ter ficado um pouco abatido pelas dores, continuou firme se mostrando muito resistente e persistente!
Àqueles que quiserem saber mais sobre a travessia, pontos de água, locais para acampar, dicas de equipamento, pontos locados e outros, é só chamar no privado, vai ser um prazer ajudar!
É plenamente possível fazer a travessia sem apoio externo, entretanto, para aqueles que quiserem, existem empresas que oferecem esse serviço, como é o caso do José Fernandes, da Dunes.

Texto: Élisson Gularte.
Fotos: Arquivo pessoal. Legendas: Redação Mochila Brasil.

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