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  1. Pelo Pontal de Tapes, chegamos à Lagoa dos Patos “Coqueiro e figueira dos matos
 e a bela Lagoa dos Patos, ó verdadeiro tesouro. Lago verde e azul, 
que na América do Sul, Deus botou pra bebedouro.” A transcrição acima é de um pequeno trecho da linda canção Lago Verde Azul de Helmo de Freitas que exalta as peculiaridades e belezas pontuais da grandiosa Lagoa dos Patos, considerada a maior laguna do Brasil e a segunda da América Latina. Situa-se paralelamente ao Oceano Atlântico, na direção nordeste-sudoeste do Rio Grande do Sul, tem 265km de comprimento, 60km de largura e 7m de profundidade, nas suas quotas máximas, com uma superfície de 10.144 km². O nome estaria relacionado às tribos de índios que habitavam a região do Rio Grande do Sul, conhecidos como "patos". Outra versão conta que a origem do nome desta laguna teria ocorrido em 1554, quando viajavam para a região do Prata algumas embarcações espanholas que, acossadas por um temporal, viram-se na contingência de procurar abrigo na barra do Rio Grande. Aí deixaram fugir alguns patos que traziam a bordo e de tal modo se deram bem as aves com o lugar, que se reproduziram assombrosamente, chegando a coalhar a superfície das águas da laguna, dando-lhe o nome. Dentre os pacatos vilarejos banhados pelas suas douradas águas, Tapes conhecida como "a namorada da lagoa", se destaca por ser proprietária do famoso Pontal de Tapes, enseada de 20km de comprimento e 2km de largura, nas suas quotas máximas, não poluída e que serve de cartão postal do município. A programação e a ida até o Willi A ideia era usufruir das belezas da laguna no feriadão do dia do trabalho juntamente dos amigos Felipe Koch e Gean Cenci, porém ao confirmar as previsões do tempo para a data, obriguei-me a adiar a programação em virtude de fortes chuvas e ventos, confirmados após alguns dias com o simpático Simon (vou falar mais dessa figura). Entrei em férias na semana seguinte ao feriado, mas os amigos não poderiam me acompanhar. Iria me lançar a mais um trekking solo, mas tive uma enorme surpresa quando meu querido pai Edmiro (é daí que vem meu nome), pediu se poderia me acompanhar. Fiquei muito feliz, nossa convivência é pouca; ambos trabalhamos bastante e nos sobra alguns finais de semana para os almoços em família. Organizamos as mochilas (para meu pai, peguei a de Gean emprestada) e partimos às 4h30 da terça-feira 08.05.2012 para a viagem de 4h até a cidade de Tapes. A manhã estava coberta pelas brumas da serra e os ares característicos de outono nos obrigaram a andar boa parte da viagem com o ar quente ligado. Chegamos à namorada da lagoa por volta das 9h da manhã e fomos direto para a Pousada do Simon deixar o carro. Fomos muito bem recebidos pelo Seu Armindo, figuraça e dono da pousada. Cara calmo, sereno, de grande simpatia e com uma bagagem enorme da vida. Enchemos os cantis com água de uma fonte da pousada, ajudei meu velho a ajeitar a mochila e partimos rumo à praia do Jacarezinho para início do trekking, distante uns 400m da pousada em sentido sudeste. Simon disse que poderíamos seguir beirando a lagoa ou trilhar por uma estrada de terra até a porteira vermelha, nosso primeiro ponto de referência. Já havia estudado previamente o roteiro, então decidimos ir pela praia, caminho mais cansativo em virtude da areia fofa, porém mais curto. Logo que pisamos na areia, nos deparamos com um pequeno riacho que precisava ser cruzado; era o Jacarezinho. Atravessei sem maiores problemas, pois estava com a bota impermeável, mas meu pai teve que tirar o calçado e as meias. A água estava fria e ele, na preguiça de secar e limpar os pés para colocar novamente o tênis, andou por um bom tempo descalço na areia e se arrependeria no final do dia! A névoa estava baixa e cobria toda nossa volta, tornando impossível visualizar o trajeto e a lagoa. Uns poucos metros caminhados, encontramos um pescador no meio dos juncais e o indagamos sobre a pesca. Ficamos chocados quando ele afirmou que em mais de 20 anos, esta teria sido a pior época para a pesca na lagoa; nunca houve tanta escassez de peixes e o fato obrigava os pescadores menos preparados a lançar suas iscas várias vezes ao dia. A poucos quilômetros adiante, nos deparamos com uma pequena rês de gado, algo como 15 ou 20 cabeças. Meu pai já queria carnear uma para assarmos no almoço! Uns 3km após o início da trilha, nosso passo diminuia gradativamente; a areia fofa castigava, os pés atolavam e o progresso era absurdamente lento. Infelizmente, não há outro ponto para a passagem desse areal, que exige boa paciência e persistência por generosos 500m! Ao pisar em terra firme, a presença de juncos e arbustos alagados formando um banhado, te afastam da beirada da lagoa; aqui a caminhada fica fácil pois se dá boa parte do tempo sob a sombra dos cinco milhões de pés de pinus, plantados uniformemente em fiadas retas e bem distanciadas. Suas folhas secas formam uma boa camada para se andar, porém não permitem que nada se desenvolva sobre as árvores. O sol, timidamente mostrava seu brilho e, surgindo por entre a copa das árvores, esquentava a manhã fria de outono. As mínimas previstas eram de 9ºC a 10ºC e máximas na casa dos 20ºC a 22ºC sem chuvas. Paramos para um rápido lanche e descanso, sentados num tronco caído e observando ao longe, a costa da cidade de Tapes e alguns barcos trafegando pelas calmas águas da laguna. Meu pai nasceu no interior onde foi criado por poucos anos e mais tarde mudou-se para a cidade. Com muito trabalho e a ajuda de minha mãe querida e batalhadora, conseguiu construir uma família digna, honesta e simples. Aqui onde moramos é praticamente interior, região de serra com terras cultivadas, muita mata e mesmo assim, meu velho ficava maravilhado com aquela paisagem que contemplávamos. Em pensamento, agradecia por estar na companhia de meu pai, afinal não tínhamos um momento desses há tempos! Arrumamos as mochilas, recolhemos o lixo do lanche e partimos seguindo uma fiada de pinus na direção leste para fugir da areia fofa. Poucos minutos após, encontramos a porteira vermelha trancada e cruzamos para o pontal por um portão menor somente para passagem de pessoas. Sobre a porteira, uma ponte em madeira auxilia a travessia de um riacho que deságua na lagoa, vindo da Laguna Comprida, localizada à norte de onde estávamos. Meu velho que entende muito de madeira, logo saiu falando sobre os tipos que utilizaram para construir a porteira e observou que deveriam ter utilizado outra para a construção da ponte, pois aguentaria mais as intempéries da região. Aqui, novamente haviam duas opções: seguir pela estrada que fora aberta para o plantio dos pinus ou seguir beirando a lagoa. Como a sombra era maior na estrada, continuamos trilhando por ela por poucos metros. Concordei com a maioria das ideias e opiniões de meu pai que se mostrou um excelente “índio rastreador”, pois queria respeitar seu limite e como seu preparo não é o dos melhores, deixei-o ir boa parte na frente, puxando a fila para que ele desenvolvesse o ritmo adequado. Minha maior preocupação era com seus joelhos (deve ser defeito hereditário!) já que ele fez cirurgia em ambos e sempre reclamou de dores e desconforto ao caminhar. Felizmente, não tivemos maiores problemas. Queria mostrar a verdadeira beleza da Lagoa dos Patos e para isso seria necessário cruzar o pontal transversalmente (sentido leste) por aproximados 2km. Seguimos um pouco mais pela parte interna, para garantir uma menor distância até a praia de fora e novamente fomos obrigados a desviar a rota para o interior, desta vez numa escala maior. Chegamos num descampado enorme, com juncos e arbustos alagados nos dois lados da trilha, o sol batia forte no juízo e as temperaturas amenas deram espaço ao calor intenso que minava nossas forças a cada passo. Implorávamos por uma sombra que logo apareceu e não demorou para sacarmos a comida das mochilas e almoçarmos. A trilha que atravessa o pontal em sua largura, era bem visível e depois de saborear vários sanduíches de pão, queijo e salame coloniais, acompanhados de um delicioso suco de laranja, amendoins e chocolate (esse não pode faltar!), seguimos rumo à praia de fora. Meu pai sugeriu que andássemos na direção sudeste, com isso teríamos mais sombra e pouparíamos um bom trecho na praia de fora, onde a exposição ao sol é grande. Ficamos em silêncio por um tempinho e aí deu pra sentir aquela sensação de isolamento mesmo estando à 10km da civilização. O som das águas já não se ouvia, somente o vento balançando a copa das árvores, nossos passos calmos e nada mais. A chegada na praia de fora foi rápida. Ventos fortes que sopravam do leste amenizavam o forte calor do sol e de seu reflexo na areia. Fomos obrigados a caminhar bem na beira da água, onde a areia era mais dura, para render o passo e cansar menos. A lagoa estava tranquila, poucas ondas mesmo com o forte vento. Não avistamos barcos, nem pescadores e o clima estava igual aos filmes que mostram as praias desertas. Infelizmente, pudemos observar a grande quantidade de lixo trazida pelas ondas. Garrafas pet, calçados, chinelos, baldes e bombonas plásticas eram os itens mais comuns e em maior quantidade. Até uma televisão encontramos! Isso estraga qualquer trekking e muito mais do que isso, estraga pra valer qualquer ecossistema. Sentamos à sombra de uma árvore caída, lanchamos, tiramos os calçados e descansamos por uns minutos. O som das águas fez meu pai quase cair no cochilo. Se parássemos muito, não teríamos vontade de continuar até o Willi, a preguiça nos dominaria. Ao longe, na direção sul, dava pra ver onde a mata entrava na lagoa e lá seria o ponto de volta para a praia de dentro. Cruzaríamos novamente o pontal, mas desta vez na direção oeste, para chegarmos ao acampamento. Meu pai rendeu-se à teimosia e quebrou dois galhos da árvore para utilizar como bastões. O início foi meio desengonçado, sem ritmo, mas quando ele pegou o jeito da coisa, gostou e aprovou. Comentou que deveria ter levado um par desde o início. Novamente pegamos um bom trecho de areia fofa em subida e, igualmente ao anterior, atolávamos a cada passo. Nesses trechos, os bastões são extremamente úteis e indispensáveis! Passada a dificuldade, esbanjamos felicidade ao trilhar pela sombra das árvores, desta vez numa distância menor em virtude do estreitamento do pontal. Já havíamos trilhado aproximadamente 18km e por volta das 16h, chegamos ao acampamento, onde fomos recepcionados pelo pescador Vilmar. Cara humilde, de bom papo e que cozinha muito bem (já vou explicar mais)! Até então, ouvimos muito sobre o Sr. Willi e o local onde ele vive, porém não esperava encontrar tamanha infra-estrutura à disposição. Gerador para iluminação, além de um pequeno cata-vento para recarga das baterias, enormes barracas para cozinha e quartos, banheiros com chuveiro elétrico e até televisão! Vilmar estava aguardando o retorno do Willi que estava em Tapes comprando mantimentos. Ele voltaria com o óleo para o motor de seu barco que apresentava problemas. Enquanto isso, nos contou muito sobre a lagoa e a vida que leva como pescador. A conversa foi interrompida pelo som do barco que se aproximava; era Willi e sua esposa Noeli. Atracaram em meio aos juncos e passaram os mantimentos para uma canoa no intuito de se aproximarem mais da margem para a descarga. Ficaram surpresos e alegres ao ver que estávamos lá. Não recebiam visitas há tempos! Auxiliamos no transporte dos pesados sacos de milho para alimentar os bichos que criam (patos, galinhas e gansos), farinha, arroz e feijão. Como agradecimento e boas vindas, Noeli preparou um saboroso chimarrão e sentamos em roda para a prosa. A cuia passava de mão em mão e as histórias de vida contavam a experiência até então vivida. Willi, descendente de alemães, se mostrava forte e dono de uma invejável saúde no auge de seus 80 anos. Contou que visitou o médico apenas duas vezes: a primeira quando entrou para o exército e a segunda para remover o apendicite. Há 9 anos vive no pontal e percebeu a mudança drástica que o mesmo e a lagoa sofreram ao longo desse tempo. A prosa estava boa e mal percebemos que o sol havia se despedido. Willi mostrou onde poderíamos acampar e ligou o gerador para iluminar suas instalações. Gentilmente, Noeli nos cedeu uma bombona de água potável de 5l que havia comprado na cidade e enquanto arrumava as barracas e organizava a tralha para a janta, meu pai foi tomar banho na lagoa. Na volta, reclamou de dores nas plantas dos pés por ter andado muito tempo descalço na areia. Jantamos muito, a comida estava deliciosa. Infelizmente não pudemos curtir o silêncio e a calmaria do local em virtude do forte barulho do gerador. Ao menos tínhamos luz! Ao final da comilança, reuni a tralha para lavar e ao sair da cozinha, Vilmar surge com duas panelas cheias de arroz temperado com frango e feijão. Ele pediu desculpas por não ter nos convidado para jantar no seu abrigo, enquanto enchia nossas panelas com aquela saborosa comida local. Para não fazermos uma desfeita, jantamos novamente e não sobrou sequer um grãozinho de arroz nas panelas. Comida simples, saborosíssima entretanto. A sobremesa foi chocolate e já que meu pai não é muito chegado, se ofereceu para limpar a louça enquanto eu descansava e tomava um gostoso e gélido banho numa pequena sanga da lagoa. Noeli nos convidou para vermos televisão juntamente deles, mas o cansaço falou mais alto e a vontade mesmo era de cair no isolante e no saco de dormir. Nada de fotos à noite, deitei e fiquei visualizando as imagens do dia. Tive uma enorme surpresa ao ouvir meu celular tocando. No início do trekking, desliguei para economizar bateria mas creio que algo na mochila pressionou o botão e ele deve ter ligado. O sinal no acampamento era ótimo e Dai, minha dona onça, estava do outro lado da linha para ver como passamos o dia e se tudo estava em ordem. Confesso que desmaiei e entrei em sono profundo. O retorno para Tapes Dormimos extremamente bem e acordei as 5h30 com o cantar do galo de Noeli. Pensei em levantar, cruzar o pontal para a praia de fora e tirar umas fotos do nascer do sol, mas a preguiça era tanta que sem dar na conta, caí novamente em sono até o despertar do celular às 7h. A temperatura manteve-se boa a noite toda, estava de camiseta e fui fechar metade do zíper do saco quando acordei na madrugada. O café da manhã foi reforçado: sopa, cereais, granola e um chimarrão bem quentinho para espantar o friozinho. Mal começamos a comer e seu Vilmar veio correndo pedindo se queríamos carona em seu barco para Tapes. Ele pensava que já havíamos partido. Se a volta fosse a pé, seria necessário uma pernoite em Tapes ou viajar para casa à noite, pois meu pai tinha compromisso no dia seguinte e, indo contra os planos iniciais, aceitamos a carona. Meu pai ficou aliviado, pois estava cansado do dia anterior e queria muito dar uma volta de barco, assim unimos o útil ao agradável. Marcamos de partir as 10h e enquanto cevávamos um bom mate, Willi e Noeli revisavam as redes lançadas na lagoa. O velho ficou boquiaberto ao ver os frutos da pescaria e quis posar para a foto com os pescadores. Infelizmente, já era hora da partida. A despedida foi alegre, ainda mais quando Willi convidou meu pai para voltar e acompanhá-lo numa pescaria, um dos hobbies favoritos dele. Até hoje ele está tentando abrir uma brecha num final de semana ou feriado para visitá-los de novo e já está com o equipamento separado! Noeli tirou uma foto nossa com seu celular para guardar como lembrança e num abraço caloroso de ambos, partimos para o barco de Vilmar. A embarcação cortava as pequenas ondas, em sentido noroeste, empurrada pelo barulhento e ensurdecedor motor. Vilmar exibia agilidade nos movimentos ao navegar tranquilamente por aqueles 18km de calmas águas, apreciando toda a exuberância da lagoa por bons 50 minutos. O sol nos presenteava com as mais belas paisagens, banhando aquele mar calmo, ora doce, ora salgado, com um tom dourado. Via nitidamente a felicidade estampada no rosto de meu velho pai e se bem o conheço, estava adorando fazer aquilo. O pontal se distanciava a cada onda transpassada e a marina se aproximava. Passamos por vários barcos ancorados e Vilmar se dirigia ao box para atracarmos, mas um pescador havia utilizado o seu, fato que o obrigou a ancorar na areia mesmo. Auxiliamos na descarga dos materiais de Vilmar que estava no Willi há 11 dias e ele nos mostrou o caminho para a avenida principal. Aqui a despedida não poderia ter sido diferente; um abraço caloroso marcou o final da jornada entre os novos amigos. Já eram 11h da manhã e 5km nos separavam do carro. Poderíamos pegar um táxi para lá ou ir andando e, como estávamos com tempo, resolvemos caminhar. A estrada de chão batido cortava imensos campos onde predominam o cultivo de arroz e soja. Simon, dono da pousada, ficou feliz em ver que estávamos bem; achava que éramos doidos! Contamos sobre a aventura e ele nos falou muito sobre sua rotina. Contou sobre o gosto pelo jogo de bochas e pelos bailes da terceira idade que frequenta. Nos mostrou as plantações de frutas, verduras e legumes e a criação de abelhas produtoras de mel. Conhecemos a infra-estrutura que ele disponibiliza aos visitantes, sendo o chalé o que mais se destaca e chama a atenção. Não quis cobrar nada por guardar o carro e como agradecimento, compramos uns vidros de mel muito delicioso. Muito gentilmente, ele nos convidou para ficarmos no almoço e, não querendo abusar de sua boa vontade, partimos com um sorriso no rosto. O restaurante de frutos do mar no centro de Tapes e uma cerveja bem gelada, findaram essa fantástica jornada pela Lagoa dos Patos. Embora não seguimos a programação inicial, fiquei feliz em poder trilhar na excelente companhia de meu velho pai e vi que esses momentos são necessários para que nos conheçamos melhor, para que nos entrosemos mais. Aprendi muito com ele nesses poucos dias; dividimos experiências, companheirismo, uns goles de água e bons momentos. Estar inserido em toda aquela beleza digna da Criação e poder compartilhar a rotina dos locais é um dos presentes mais gratificantes que se pode ter na vida. Nenhum outro bem material supera esse sentimento! Abraços, Edver
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