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  1. RELATO DE AVENTURA Já havia algum tempo que eu gostaria de levar minha filha para fazer trilhas mais selvagens. Com 8 meses de vida, na "carcunda" do papai, já estava alguns conhecendi alguns caminhos pela Ilha Grande, no estado do Rio de Janeiro. Aos 2 anos e meio colocou as perninhas pra trabalhar na trilha que leva à Piscina Natural de Caxadaço, em Trindade/RJ. Uma caminhada um tanto quanto longa para uma criança dessa idade. Ainda mais por se tratar de uma boa parte da caminhada ser sobre o solo arenoso e fofo das praias que antecedem Caxadaço. Mas, observando com atenção, notei que a parte onde a trilha segue por mata fechada, com chão repleto de raízes sobre a terra e folhas caídas formando tapetes, minha pequena sorria ao tocar e deslizar seus pequeninos pés descalços sobre a lama que havia pelo caminho. Ela segurava em minha mão e seguia sem medo de cair nas subidas e descidas escorregadias, enquanto crianças da mesma estatura chovavam querendo o colo de suas mães. Isso já era um grande sinal de que ela adorou e adoraria qualquer contato com a natureza a partir daquele instante. Seria pedir demais, para ela voltar caminhando. Cansada, retornou todo o percuso no colinho de papai, rs. Por conta dessas, e outras vivências, meu desejo era de levá-la logo para um acampamento selvagem, mas, era minha obrigação ter o bom senso de saber esperar o momento oportuno para isso. Pois, a cada pensamento de estar na mata com ela me deixava receoso... "Alergia causadas por picadas de insetos poderiam aparecer, medo por estar em um ambiente conhecido por ter animais de todas as espécies e peçonhas, estranheza, fadiga, frio durante a noite, etc e tal." Mas, algo me tranquilizava: toda vez que eu saia de casa para fazer alguma trilha, ou travessia, minha pequena pedia para que eu a levasse comigo para o mato. Eu sempre respondia que estava indo para lugares perigosos e difíceis de caminhar, mas, que algum dia eu a levaria para acampar na mata junto comigo. E essw dia chegou. Era Julho de 2019, o ápice da temporada de montanhas no Brasil, que se inicia em Abril e se estende até Setembro. As temperaturas baixíssimas no sul e sudeste do país (as vezes abaixo de zero) proporcionavam lindos dias de sol, e, longas noites geladas pelos pontos mais altos de cada região. Eu estudava a melhor maneira de como fazer uma "atividade pesada" se tornar divertida para uma criança de 4 anos e 9 meses. Primeiro, escolhi para qual montanha gostaria de levá-la. Em seguida, trabalhei uma forma de atrair seu interesse pelo lugar, monstrando fotos de vezes que estive na Pedra. Eu contornava o formato do sapo com a ponta do dedo para aguçar sua imaginação. E, quando lhe fiz a pergunta decisiva: filha quer que o papai leve você na Pedra do Sapo? A gente faz a trilha, escala as cordas e acampa do lado do Sapo. Quer? SIIIMMMMM!!!! foi a resposta que ela deu, com o sorriso mais radiante que ela poderia estampar no rosto. - onde a gente vai fazer cocô e tomar banho, papai? - indagava dando risada kkk A partir daí foi só ansiedade até chegar a data de nossa aventura, que ainda não estava com data definida. Parecia que eu era a criança que sairia para seu primeiro passeio. Cheio de nervosismos, receios e expectativas fui cuidando para não despertar os mesmos sentimentos nela. Eu fazia e refazia a lista de itens que deveria, ou não, levar para garantir o conforto, a segurança e a alegria dela. Decidi que o acampamento seria feito no final de semana do Dia dos Pais (10 e 11 de Agosto/2019). No sábado, às 14h, após a aula de Ballet, onde foi feita uma homenagem paternal que me fez suar pelos olhos, saímos às pressas para trocar de roupas e seguir a viagem de 1h30 até o Rancho da Dona Maria - estrutura base para quem vai caminhar pelas trilhas da região. Chegando lá às 15h50, só tivemos tempo para papear pouco tempo com a simpática senhorinha, que havia levado uma mordida de seu próprio cachorro, que causou um ferida enorme, e se encontrava sentada segurando uma bengala. Pude ver o medo se desennhando no rosto da Cristal, quando um bicho passou correndo entre nós, à mil por hora. Dona Maria mencionou ser um Preá. Cristal se enfiou entre minhas pernas e perguntou. - o que era aquilo, papai? - disse - é um Preá, filha. Igual a um coelhinho. Ele é bonzinho e não faz nada com a gente. - respondi sereno para tranquilizá-la. Coloquei minha cargueira de 70L nas costas, ela vestiu sua mochilinha de alça, cabendo apenas sua blusa de frio e sua garrafinha d'água, vestiu a lanterna de cabeça se sentindo pronta, e começamos a caminhada pela estrada de chão batido, às16h em ponto. Calculei que gastaríamos, entre paradas para descanso, lanches, beber água e fazer xixi, algo perto de 1h30 até o topo da Pedra. Tive medo de ela não gostar de adentrar a mata, chorar, fazer manhas e querer dar meia volta pedindo para retornarmos até o carro e ir embora dalí. Algo que seria muito comum vindo de uma criança daquele tamanho. Ao invés disso, ao primeiro sinal de insegurança, ela me pediu: segura na minha mão, papai. E, ao longo de todo o percurso, poucos foram os momentos em que sua pequenina mão não estava grudada na minha. Ela caminhava tranquila e alegre, questionando o porquê de os passarinhos não virem pousar em nossos dedos, igual nos fimes e desenhos. Ela desejava muito ver passarinhos voando perto de nós. Expliquei que para isso seria necessário ficarmos em silêncio, mas a matraquinha não parava de falar 1 minuto se quer, rs. Ela apontava as direções dos sons, querendo que eu varasse mato, pois, os cantos de passarinhos vinham de todos os lados, mas, o máximo que conseguimos foi avistar um pardalzinho há uns 10 metros a nossa frente. Logo em seguida paramos para beber água no riozinho que cruza a trilha. Sabendo que ali era nosso último ponto de coleta, fui obrigado a subir com 2,5 litros para passarmos a noite. Quando acabou o trecho mais estreito da estradinha, a trilha afunilou de vez, ganhado uma inclinação forte logo de cara. Começava ali o nosso desafio. Onde a subida rasga uma floresta de eucaliptos e segue forte. Uma subida que nos faz tropeçar em galhos que se escondem sob as folhas secas que estalam sob nossos pés, nos obrigando a andar mais devagar e parar para descansar mais vezes. A alegria da Cristal ainda seguia na mesma sintonia, mesmo estando na parte mais exaustiva da trilha (subir com o auxílio de cordas) que, consequentemente, seria a parte mais lúdica para ela. Minha pequena já foi metendo as mãos na corda e me olhando com a maior felicidade do mundo. Teve dificuldades para se equilibrar nos primeiros metros da ascensão, mas, com as orientações que passei, logo se familiarizou com a escalada, e pôde se equlibrar com facilidade. Se apoiva em raizes e pedras, debruçava sobre as rochas, escorregava vez ou outra, mas se sentia forte e confiante a ponto de não pedia ajuda. Quando se cansava, sentava em algum degrau da ladeira, pedia água e algo para comer. Bolinhos recheados e suco de caixinha eram seus "belisquetes" preferidos. Foram três paradas estratégicas, a quarta pausa foi feita no mirante, depois de não haver mais subidas fortes. Sentamos para puxar um pouco de fôlego, adimirar a linda vista de um final de tarde, com o sol colorindo de laranja as Pedras da Forquilha e do Sapo. Faltavam mais ou menos 15 min até o alto da Pedra. Expliquei para ela que dali pra frente não teríamos grandes dificuldades, a não ser as duas pequenas rampas cravejadas de raízes que servem de degraus. A quinzena de minutos passou rápido, pois apostamos corrida na parte plana da trilha, e, claro que ela ganhou, rs. Novamente escalando as raízes que saltam do solo, Cristal continuava animada, olhava para trás para saber se eu ainda estava por perto, pois a mata havia ficado um pouco escura no trecho mais fechado. E ela percebeu. Enquanto eu gravava pequenos vídeos, ela não perdia o pique, e me acelerava: AAANDA, Pai (rs). Quando a última ascensão permitiu um clarão de luz do sol mais à frente, ela bradou: CHEGAAAMOS o/ - uaall, que lindo. - disse. Estávamos aos pés do Sapo, onde há uma pequena clareira que comporta, bem juntas, duas barracas. Caminhamos mais uns 40 metros até o alto da Pedra, onde pude ouví-la dizer novamente: que lindo, papai. E não era pra menos! O sol já começaria seu espetáculo em instantes, mas já deixava o horizonte alaranjado sob um céu sem nuvens, e refletia seu brilho sobre as águas da Represa de Taiaçupeba. Ventava forte, mas, era um vento com ar quente - devido aos 29°C que fez naquele sábado. A vista de 360° para toda a região, possibilita avistar até o litoral de Bertioga. Eram 17h30, e, até o final do poente nos sobrou tempo para comer, beber, brincar e fotografar tudo. Ela, sentadinha na rocha, se encantou quando a bola de fogo que se deitou lentamente por trás das montanhas. E, quando a última pontinha de luz não pôde ser mais vista... - tchau sol. - disse minha pequena, balançando a mão. Quando começamos a montar a barraca, ela entrou em eudoria total ao ver que três gaivotas planavam sobre nós, há uns 4 metros de altura, no máximo. Quando terminamos, ela já me pedia para entrar e brincar com ela, mas, ainda havia muita coisa a ser organizada pelo lado de fora da casinha. Mas, não tardou, logo me vi lá dentro brincando com as massinhas e moldes de modelar que separamos para levar. Fizemos uma infinidade de bonequinhos, flores, bichinhos, montanhas e lanches, tudo de massinha. Ela me disse que queria ver as estrelas, mas, ainda não era possível. Não passava das 19h, e o crepúsculo ainda era predominante. Toda hora ela colova a cabeça para fora da barraca e perguntava: - Papai, já dá para ver as estrelas? Tem umas bolinhas aparecendo no céu. Tive que responder por umas quatro vezes que ainda não dava para vé-las, rs. Fiz macarrão para ela, depois fritei hambúrguer e preparei um lanche por que ela estava faminta. Quando bateu 21h, lá estávamos nós, trilhando o curto caminho até a parte mais alta. Dessa vez a surpresa se deu por conta das luzes das cidades vizinhas. Eram centenas de milhares de luzinhas acesas, na terra e no céu. A lua crescente nos iluminava a ponto de não usarmos nossas lanternas de cabeça. Fizemos do lugar nosso palco de apresentações. Cantamos e dançamos músicas infantis que tocavam no celular. Fizemos a festa. Quando paramos um pouco a figura deita no chão com as pernas dobradas, cruza as mãos na nuca e solta: - Papai, "tô de boa" vendo as estrelas e a lua. Eu ri demais, e fui obrigado a me juntar à ela nesse momento de relaxamento e contemplação, pois a noite estava perfeita, e eu tinha a melhor companhia. Por volta das 22h já estávamos dentro da barraca, ela brincando, eu fazendo seu "tetê com chocolarte." Meia hora depois já estávamos em sono profundo (eu, nem tanto). Acordei várias vezes para verificar se ela estava coberta e dormindo bem. Às 2h20 da chegou um pequeno grupo (talvez três), comemorando a chegada na Pedra àquela hora da madrugada. Fiquei em alerta, ouvi meia hora de conversas, depois o silêncio voltou a reinar. Deveriam estar fazendo bate e volta com navegação noturna para treinar, ou superar algum desafio pessoal. Sei lá. Com a intenção de ver o nascer do sol, programei o celular para despertar às 06h00, mas a previsão me pregou uma peça, e o que eu pude ver ao abrir o ziper da barraca foi muita neblina e garoa fina molhando o solo. Às 6h23, Cristal se espreguiçou como nunca, e acordou de prontidão pulando sobre meu peito, me abraçando e desejando bom dia. Em casa ela não acorda antes das 10h, rs. - Papai, vamos levantar pra brincar lá fora. Eu já acordei. - disse, toda animada, com os olhos cheios de remela, rs. Preparei o café da manhã, depois ficamos brincando por um longo tempo, lá dentro mesmo. Não dava para sair. Às 09h00, enquanto ela permanecia abrigada, comecei a ajeitar as coisas na mochila para poder iniciar logo o nosso retorno, que se deu 30 minutos depois. A descida foi menos cansativa, porém, muito divertida por conta dos escorregões sem quedas que dávamos. Ela sorria a cada um deles, tropeçava em tudo que era galho pelo chão e dizia que era engraçado, rs. Ela também estava mais atenta aos detalhes na volta. Apontava teias de aranha cobertas pelo orvalho, formigueirosem plena atividade, flores e pedras de cores e formatos diferentes ao seu conhecimento, e pedia para tirar foto de tudo. Às 11h00 chegamos ao Rancho da Dona Maria. Cuidei de trocar nossas roupas molhadas, que enxugaram a chuva que caiu sobre a mata da trilha. A levei ao banheiro, e, comemos mais algumas coisinhas antes de dar como encerrada nossa aventura do dia dos pais. Ao volante, olhando pelo retrovisor interno do carro, eu olhava minha pequena, cansada, dormindo toda torta em sua cadeirinha, com a cabeça balançando feito um pêndulo (coitadinha) estava super cansada)) Mas, acima de todo aquele cansaço, eu estava crente de que, a partir daquele momento, brotava um novo gostar no coraçãozinho de minha filhota. Pois o contato direto com a natureza só poderia estar fazendo dela uma criança ainda mais feliz e saudável, agregando valores e conhecimentos super válidos para lhe fazer crescer uma pessoa de bem. Eu, como papai coruja, pude sair de lá com o coração transbordando felicidade. Me sentia orgulhoso e satisfeito em ver que "minha continuidade" pôde me proporcionar um momento tão emocionante/marcante: o acampamento mais feliz de toda minha vida
  2. Travessia da Serra Fina em 3 dias – Achados e Malucos A ideia nasceu de um infortúnio feliz, vicejou nos longos meses entre uma temporada de montanha e outra, floresceu sob as incertezas do clima do início de abril 2019 e frutificou nos passos de 18 montanhistas que se tornaram amigos, ao longo de 3 dias e duas noites na Serra Fina. Explico a aparente contradição no início acima: dois jovens montanhistas, durante uma tentativa de travessia solo da SF em 2018, sob más condições visuais e climáticas, perderam a curva à esquerda, onde se deixa o Cupim de Boi e se desce para o bosque ao pé do Três Estados e desceram para o colo entre esse o Cabeça de Touro. Com o erro de navegação, uma travessia de 4 dias progrediu para uma operação de busca e resgate. Ficaram nas montanhas 7 dias no total, 4 deles em condições não previstas. O perrengue deles virou história, felizmente de final feliz. Um susto para familiares e amigos que serviu de lição para uns e outros. Mas não acabou aí: o Adilson, tocado pelas dificuldades da dupla, curioso das histórias e imbuído de um senso de montanhismo às antigas, em vez de criticar os jovens pela ousadia ou imprudência, parabenizou-os pela capacidade de lidar com as adversidades, de manter o otimismo e ainda, propôs ajudá-los a completar a travessia. Quando ele trouxe a ideia ao grupo de travessias que montamos, Malucos da Amantikir, (ou simplesmente, MDA) aderimos de imediato, convictos da pertinência da ação. Ficou ao seu encargo o planejamento, com o apoio pontual dos demais. Ano de poucos feriados mais longos, 2019 trazia a primeira oportunidade em abril. Marcada a data, começamos os preparativos, verificando equipamentos e buscando melhorar o condicionamento físico. Eu particularmente, acabei por abusar nessa busca e no dia 26 de fevereiro dei um mau-jeito na coluna mais sério que me deixou de cama por 3 semanas e convalescente cuidadoso por outras 5 semanas. A cada questionar do Adilson “vcs estão treinando?!?” eu respondia com um sonoro silêncio. Na verdade, não tinha nenhuma certeza de que conseguiria subir mais que os 4 lances de escada de casa com uma cargueira. Estudos e plano C, visão geral última aula de Fisio antes da travessia A uma semana da travessia, sentindo algumas dores ainda, comecei a fisioterapia recomendada. Sabia que não teria efeito relevante no mau condicionamento cardiorrespiratório resultante dos dois meses de doloroso sedentarismo, mas o objetivo era uma avaliação técnica das condições da minha coluna. Continuei mau condicionado, mas adquiri confiança para tentar a pernada. Durante a semana arrumei e revisei a arrumação da minha cargueira até obter o menor peso que já utilizei numa travessia de 3 dias, pouco mais de 8kg, com comida e guloseimas. Com agua, minha ideia era de que pesasse próximo dos 10 kg na primeira subida da travessia. Subiria o Capim Amarelo com 2 litros, e teria capacidade de levar até 5 litros. Se com os 10 kg na cargueira, minha coluna não suportasse a subida, com 13kg é que não o faria. Nesse caso, havia prometido a mim mesmo a jogar a toalha e desistir ainda na subida do CA. Chegado o dia, após o trabalho parti para São Paulo, para encontrar com o Douglas, seu filho Lucas, a Amanda e o Adilson. Atrasados devido ao trânsito na véspera de feriado e partimos em direção à Passa Quatro às 20h. Soubemos então que o Rodrigo não poderia ir, pois estava com a filha pequena muito mal, indo para o hospital. Como a coisa evoluíra de forma inesperada ao longo do dia, outros 3 colegas que seguiriam com ele, ficaram sem carona. Verificamos os ônibus para Passa Quatro, mas em véspera de feriado não havia mais vaga. Tristes com a notícia e preocupados com a filha de nosso amigo, seguimos em silêncio por alguns quilômetros até termos a informação de que o quadro da criança estava estável, apesar de ainda inspirar cuidados constantes. Apesar desse atraso inicial, pegamos menos trânsito que esperávamos e pouco depois da meia noite, chegamos a pousada do Guto, onde dormiríamos algumas horas, aguardando os colegas dos outros estados para pegarmos o transfer até o início da trilha. Entre jantar, fazer a revisão final da cargueira e tomar um banho, deitei para tentar dormir pouco antes das 2 da matina. Tentei, mas a sinfonia de roncos e a minha ansiedade não o permitiram, de forma que fui esperar fora do quarto, arrumando os arquivos do celular. Acabou que tomei café antes de todos, com direito a pão de queijo recém-saído do forno. 1º Dia O dia nasceu, os colegas chegaram, tomaram café e todos colocamos as cargueiras na van e na Kombi que substituiu uma van defeituosa de última hora. Para os que foram na Kombi, as emoções começaram mais cedo, ante a pouca habilidade ao volante do condutor. Cochilei até que os solavancos me acordassem, indicando que já havíamos deixado a rodovia e seguíamos pela estrada rural ganhando preciosos metros de altitude até a Toca do Lobo. A Kombi seguia na frente e, rapidamente o cheiro característico de metal aquecido nos alertou que algo não ia bem. A embreagem claramente estava sendo desgastada pelo mau uso, e logo a fumaça branca que se via passou a indicar o pior. Numa das subidas, o condutor jogou a toalha e ficou a aguardar que a van que nos levava nos deixasse próximo da trilha e voltasse para buscar os demais integrantes do grupo. Fizemos uma foto com todos na Toca do Lobo, abastecemos de água para o primeiro trecho e partimos para a primeira subida do dia, em direção ao Cruzeiro. Com todos esses imprevistos, atrasamos o começo da trilha em quase duas horas. De forma que o sol já estava brilhando sobre nossas cabeças assim que saímos do trecho de mata e passamos a caminhar pela crista. Caminhávamos admirando a paisagem, as orquídeas que florescem em quantidade nesse trecho e avaliando, cada um, o que poderia ter deixado para trás e que pesava agora e pelos próximos três dias pesaria ainda mais. Na partida, Toca do Lobo. Ansiosos, descansados e ainda asseados. A subida do Cruzeiro foi rápida e, em pouco tempo, passamos a ter visual das cidades nos vales. Andávamos tranquilos, conversando e admirando. Ao pé do Quartizito, peguei mais dois litros de água, de forma a poder “socorrer” alguém na subida do Capim Amarelo, mais longa e que pegaríamos sob o intenso sol da manhã... com o horário que partíamos, era provável que alcançássemos o cume apenas próximo ao meio dia. Subida do CA, PM ao fundo, à direira Douglas e Lucas, CA ao fundo Na subida do Quartizito, a Márcia começou a ter cãibras na panturrilha, que logo progrediram para a região anterior da coxa, tornando o caminhar doloroso. assagens, mel, sachê de carbogel e castanhas de caju ajudaram a contornar o problema, provavelmente originado na alimentação inadequada pela manhã. Com notável determinação e perseverança, ela continuou a subir e, pouco antes do meio dia, alcançamos o cume do Capim Amarelo. Fizemos uma pausa para registro no livro, descanso e lanche, enquanto aguardávamos os últimos elementos do grupo, também castigados pelas cãibras, pelo sol e pelo expressivo ganho de altitude imposto pela subida do CA. Flores nas montanhas, onde repousa o olhar, há beleza a se testemunhar Alimentados, hidratados e, tanto quanto possível, descansados, partimos em direção ao Melano, nossa última subida intensa do dia. Com cuidado e atenção, iniciamos a descida, sabedores de que, muito à esquerda e caminha-se na direção do Tijuco Preto, muito à direita, é um precipício que obriga o retorno. Como em tantos momentos na vida, a virtude não está nos extremos, mas no meio. Nesse caso, a virtude buscada é o caminho que segue pela encosta do CA até a mata em seu colo, por onde avançamos, segurando nos bambuzinhos da margem da trilha, no infindável descer que fazia o Melano se agigantar a cada metro de altitude perdida e que seria causa de muito suor para recuperarmos. Melano, Asa, Pedra da Mina e Tartarugão vistos do Capim Amarelo Do colo do CA viramos pouco à direita e começamos a buscar o acesso ao ombro do Melano, subindo e descendo pequenas elevações e entrando e saindo de bosques de arbustos e bambus. Pouco depois das 13 horas, passamos pela área de camping do Maracanã. Andamos mais um pouco e paramos para nos abastecer de água, antes de enfrentar a subida mais forte do Melano e a caminhada pela sua crista até a base da Pedra da Mina. Abastecidos, tocamos para cima, tomando a esquerda na bifurcação que surge pouco após o ponto de água e que deve levar a alguma área de camping, ganhando altitude de forma constante enquanto nos aproximávamos do trecho mais íngreme que marca o início da última subida intensa do dia. Ali, nos trechos de laje de pedras, não há segredo... é apenas manter o subir lento e constante. Com algumas pausas, alcançamos o ombro e por ali seguimos, ganhando altitude a cada falso cume que surgia. Pouco depois das 15 horas alcançamos a crista do Melano. Estávamos preocupados com a Stela e Amanda que haviam seguido na nossa frente, mas separados do grupo de ataque aos cumes extras, formado pelo Adilson, Alexandre, Anderson, Jorge e Paulo. O receio de que tivessem pego uma bifurcação errada nos acompanhou naqueles passos. Ainda que a Stela tivesse o trajeto salvo no celular, um desencontro poderia ter graves consequências. Com o grupo fragmentado e ainda com isso feito em desacordo com o que havíamos orientado previamente, havia diversos desvios no planejado. No grupo que estava à frente, a Stela estava sem saco de dormir e sem comida. O Jorge sem barraca. No nosso grupo, após rápida verificação, concluímos que teríamos abrigo para todos, pois havia barracas com ocupação abaixo da capacidade. Forçamos o passo, buscando aproveitar os últimos minutos de sol para nos aproximarmos da base da PM, ponto de acampamento planejado para aquela noite. Com o pôr-do-sol se avizinhando, ficava cada vez menos provável que conseguíssemos descer a crista do Melano para a base da PM antes que escurecesse. Ainda que todos portassem as lanternas de cabeça, as chuvas dos últimos dias haviam deixado as descidas mais delicadas, como as escorregadelas ao longo do dia haviam evidenciado. Mesmo com as melhores condições para escolher onde pisar e onde se segurar, a Serra nos cobrava a passagem, não só em suor, como em tombos. Revisamos os planos e passamos a considerar avançar até a primeira área de acampamento, após o platô rochoso que havia logo à frente. Porém, como estávamos na área de sombra das encostas que descíamos, as condições de visibilidade se deterioram mais rápido que havíamos previsto e logo, nos dividimos entre acampar numa laje rochosa inclinada ou seguirmos até o platô à frente, em busca de uma área plana, ainda que irregular. Com o grupo cansado, acordamos que o Douglas e o Lucas seguiriam até o platô, para avaliar se era melhor opção do que a laje que em que estávamos, enquanto eu ficaria com os demais. Bastaram poucos passos para longe do grupo, que o grito aflito do Lucas nos gelasse o peito. Temeroso do que ocorrera, corri em direção à dupla, para constatar aliviado, que fora apenas a soma das emoções do dia ao cansaço da pernada e a lama em que se atolava, até os joelhos, naquele trecho. Procurei acalmá-lo, permitindo q o Douglas se recobrasse do susto, que com certeza lhe batera ainda mais forte que em nós e sem uma palavra sobre os planos de segundos antes, voltamos, confortando o pequeno trilheiro até o grupo. Com a decisão de pernoitar ali tomada, tratamos de escolher os lugares onde armaríamos as barracas. Procurando deixar os lugares mais amplos para as barracas maiores, escolhi um trecho de laje que permitiria alinhar a barraca com a inclinação da pedra e que, exceto o provável escorregar dentro dela, parecia bastante confortável. De experiências anteriores, sabia que dormir alinhado à inclinação, com os pés para o lado mais baixo era muito mais adequado que fazê-lo de transverso. A água que escorria pela lateral esquerda não parecia grande problema. Enquanto montava a barraca, tentei o contato via rádio, em hora redonda, conforme combinado. Foi um alívio estabelecer contato com o outro grupo, saber que estavam todos juntos. O Isaias se prontificou a levar o saco de dormir da Stela e os demais materiais do grupo que estava à frente que haviam sido transportados por nós até ali. Ajudei-o a atravessar a parte enlameada da trilha e o coloquei na subida para o platô, antes de voltar e terminar de armar meu abrigo. Durante a noite, com o luar parecendo a alvorada acordei diversas vezes. Pela manhã soube q a barraca do Douglas e do Lucas havia cedido, tendo que ser remontada, com nova ancoragem durante a noite. Apesar do frio da madrugada, próximo de 0C, a noite transcorreu sem maiores dificuldades. Nosso “lar” na primeira noite. Preparando a partida, 2 ºdia 2º dia Com o nascer do dia, desmontamos rapidamente o acampamento, enquanto preparávamos um café da manhã reforçado. Fizemos novo contato via rádio, com a troca das alvissareiras notícias de que a noite transcorrera de forma tranquila, em ambos os grupos, combinamos os próximos passos, com o grupo à frente fazendo um ataque ao Tartarugão. Nesse meio tempo, terminaríamos o café, arrumaríamos as cargueiras e partiríamos em direção a PM. Assim o fizemos, depois de verificar atentamente que não deixávamos marcas de nosso pernoite ali. Vivência de Montanha: tira-se o Sulista do Sul, nunca o Sul do Sulista. Durante nossa subida, nas pausas para recuperar o folego e admirar a paisagem, observávamos os demais integrantes do nosso grupo, ou seja, Adilson, Alexandre, Amanda, Anderson, Isaias, Jorge e Paulo caminharem pela crista do Tartarugão, extasiados com um dos melhores ângulos para se admirar a PM e o vale do Rio Claro. A Stela seguia conosco, cooptada durante nossa passagem pelo acampamento dos colegas, nas vizinhanças da Cachoeira Vermelha. O tubo de cume do Tartarugão foi pintado de amarelo, com spray de forma a aumentar sua visibilidade, e principalmente, sua resistência à degradação fotoquímica. Alcançamos o cume da PM, pouco antes do meio dia, fizemos um intervalo para lanche, recolhemos o livro de cume que estava quase completamente tomado de registros, anotamos nossa passagem no novo livro que trazíamos e partimos em direção ao Ruah, onde faríamos uma parada mais longa para lanche, coleta de água e banho. Descemos pela face norte da PM, admirando a beleza do vale, circundado pelo Ruah Norte e Leste. À frente, via-se o Cupim de Boi, à direita o Cabeça de Touro e o Três Estados à esquerda. Com as chuvas das últimas semanas, o Ruah tinha água em todas as trilhas. Água e lama. Sem melhor alternativa, seguimos no serpentear entre as moitas de capim até a cachoeira que existe na garganta formada pelos dois Ruah. Enquanto descíamos a PM, parte do grupo de ataque, nesse caso o trio composto pelo Kleiton, Vanderlei e Jorge, fez uma rápida incursão ao cume do Morro do Avião. Quando digo, rápido, entendam “corrida morro acima”... Jorge, nosso velocista-mor subiu a encosta em pouco menos de 9 minutos... a conclusão é óbvia e irrefutável: lidávamos com um ser com um par de pulmões extras. Revezando os jogos de pulmões, o camarada não apenas dispara morro acima, como conversa enquanto o faz... Os três registraram a passagem no livro de cume instalado em 2017 pelos amigos Douglas, João, Rodrigo e Adilson, foram até próximo das ferragens do avião que colidiu contra a montanha e desceram para nos encontrar na cachoeira. Foi bom saber que o livro se encontra em bom estado, dentro do tubo de cume que o Douglas idealizou. Enquanto o grupo coletava água e fazia a pausa para lanche, avancei um pouco à frente e abaixo, para tomar banho no pequeno poço que se forma após a cascata. Já havia adiado meu batismo na SF por diversas vezes, em função do horário em que passara ali antes. Entrar naquela água, próxima do congelar próximo ao fim do dia me pareciam mais insensato que divertido. Há quem leve roupa de banho e há quem o faça nú. Optei por um meio termo prudente: removi botas e meias (bobagem), assim como a camiseta e entrei na água de calças. A água estava menos fria que o esperado, o que me levou a fazer uma segunda incursão, mais demorada, com menos roupa. Saullus e Stela, Marins ao fundo Vanderlei e Márcia, cume do Quartzito Aproveitamos para curtir um pouco o visual e a sensação de superação de ter chegado até ali, deixando a primeira metade da travessia para trás e convictos de que todos lograríamos completa-la. Pouco após as 14 horas, com as reservas de água ao máximo, deixamos a Cachoeira e começamos a buscar a série de pequenos morreres que se interpõe entre o Vale do Ruah e o colo do Cupim de Boi. As subidas nesse trecho são breves, preponderando as descidas. Esse é um dos trechos em que os bambuzinhos mais marcam a memória do caminhante, cobrando a passagem em lanhos e pedaços de qualquer coisa que não estiver bem protegido dentro da mochila. Já ouvi, que ante as terras do Paraná, ali temos uma avenida de trânsito desimpedido... inquietante. À direita evidência das pressões geológicas na formação da rocha. Pouco após as 16h alcançamos a crista do Cupim de Boi e passamos a progredir mais rápido, considerando montar o acampamento ainda com luz natural. Nesse trecho, é importante manter-se sempre à esquerda na trilha, evitar qualquer brincadeira e zelar muito pela segurança. A trilha passa, em alguns lugares a menos de meio metro de um penhasco de pelo menos 300 m. Apesar do cansaço, não é trecho para se ficar descansando, ainda mais em grupo grande, de forma que mantivemos o ritmo, com pausas curtas para recuperar o fôlego, ingerir algo doce ou salgado, um ou dois goles de água, logo retornando ao caminhar. Com o sol a bordejar o horizonte, alcançamos o ponto em que a trilha faz uma curva à esquerda e deixa l Cupim de Boi para descer pela sua encosta em direção aos bosques que existem no sopé do Três Estados. Nesse ponto, nossos amigos do RJ, na tentativa de 2018, não notaram os totens que indicam a mudança de direção e seguiram pelo Cupim de Boi até seu derradeiro cume, de onde se desce para o vale entre o Três Estados, o Cabeça de Touro e o próprio Cupim de Boi. Cumpre ressaltar que a navegação visual, com o tempo aberto como estava, em tudo difere das condições em que eles passaram por esses mesmos pontos no ano anterior. Com neblina, nada se vê de referência de longa distância. Não é difícil, se não se estiver muito focado, desaperceber-se de que o caminho, em laje de pedra e, portanto, guardando poucas marcas de passagens anteriores começou a descer, sem a curva à esquerda. Depois disso, uma “desescalada” na encosta nordeste os levou para o vale e a cada passada se afastavam da rota. Pode-se dizer que a travessia deles começou a “dar ruim” quando acamparam no Ruah e acabaram com os equipamentos de dormir molhados. A partir dali, não lhes pareceu “prudente” acampar e esperar o tempo melhorar, uma vez que com os equipamentos molhados, o risco de hipotermia lhes parecia muito presente. Descemos pela encosta do Cupim de Boi, no contra fluxo dos que, acampados no bosque em seu colo, subiam para ver o pôr do sol. Agradeço a cada um que nos deu passagem, freando sua subida, de forma a maximizar nosso tempo de luz para montar acampamento. Avançamos até o segundo bosque, ocupado apenas pelo Jorge, que nos informara das melhores condições para acampamento ali, enquanto levava seus 4 pulmões para curtir o pôr do sol no Cupim. O lugar é espetacular. Abrigado do vento e ainda assim com algumas aberturas que permitiam ver o céu. Escolhi um canto plano, afastado da mata e, portanto, sem raízes superficiais. Discutimos um pouco sobre a conveniência/oportunidade de subir o CT de ataque na madrugada para ver o sol nascer lá, e concluímos por alternar isso para fazer a subida ao Três Estados, de forma a minimizar a exposição do grupo ao sol no último dia de pernada. Para quem faz a TSF pela primeira vez, ver o sol nascer atrás das Agulhas Negras é mágico e imperdível. O ataque ao CT resultaria no inevitável privar da maioria desse espetáculo, além de colocar todos a subir os três cumes finais (Três Estados, Bandeirantes e Alto dos Ivos) sob o sol mais forte. Com a anuência compreensiva dos colegas do “grupo de ataque”, combinamos de acordar às 3:20 para partir às 4:00. Todos fizeram suas refeições, conversaram um pouco, trocando experiências, angústias e impressões e, pouco depois das 20h estávamos dormindo. 3º dia Acordei 3:20 e 3:40, estava de cargueira pronta para seguir. Fiquei fazendo hora, ajudando aqui e ali e mexendo para aquecer e motivar aos hesitantes para o último dia. Partimos com pequeno atraso, às 4:10 e em pouco tempo o frio deixava de ser um incômodo, ante o fôlego que fugia a cada vez que a subida tinha o grau aumentado. Mesmo assim, subimos tranquilos, sentindo os músculos responderem aos comandos, no terceiro dia em que os demandávamos de forma intensa. O trecho final do acesso ao Três Estados é uma escalaminhada com rochas recobertas de escorregadia lama, com algum grau de exposição. Sabedores disso, fizemos uma parada de 10 minutos em sua base, suficiente para todos retomarem bem o fôlego e sentirem o frio se aproximar. Nada como a autopreservação para motivar as pessoas. Começamos a subida do trecho final com atenção e sem pressa, enquanto a aurora cedia lugar ao arrebol do dia que nascia. Nesse momento, a Márcia que seguia à minha frente deslanchou mais por habilidade e determinação que por força e passei a ajudar mais a Stela que lutava contra seus temores a cada passagem mais exposta. Em pouco tempo, alcançamos o cume e atravessamos os acampamentos, para nos aboletarmos junto ao livro de cume (inexistente). Como bom montanhista, fiquei feliz em ceder os 230g de caderno que carregara nos últimos dois dias para a caixa de cume. Identificamos o livro, fizemos os devidos registros e passamos o livro para os amigos da pernada, assim como aos colegas de montanha. Foi uma grata surpresa ver o Cainã, o Duque, a Raposinha lá em cima. Aquela serra é a casa deles aos fins de semana, ao que parece, dado o número de vezes que já os encontrei por ali. Na última TSFF, em 3 dias, eles fizeram a gentileza de cuidar das nossas coisas enquanto atacávamos o cume do Ruah Leste (maior). Vista da PM: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro Nossa testemunha silenciosa. Enquanto esperávamos o sol surgir por detrás das Agulhas Negras, nossos corpos esfriavam e logo os aprazíveis 13C que fazia lá em cima levavam nossas pernas a tremerem. Por preguiça de abrir a mochila eu permanecia apenas com a blusa de caminhada no tronco, e sentia desconforto com o vento, procurando me abrigar como dava, mas sem perder o visual. Com o nascer do sol, a temperatura (sensação apenas?) caiu um pouco mais e, vencendo os pruridos, vesti as duas segundas peles, e o fleece. Senti-me muito melhor assim, o calor foi quase imediato e me dei ao luxo de ficar curtindo a brisa, agora apenas refrescante. Nascer do sol, por detrás das Agulhas Negras visto dos Três Estados Combinamos de partir às 7h10, para não pegar mais sol que o necessário. De forma que pouco antes do horário combinado, vestimos as cargueiras e começamos a descida para o colo do Bandeirantes. Conversando nas descidas, apreciando a paisagem nos trechos planos enquanto recuperávamos o fôlego e nos arrastando nas subidas, fomos progredindo sem muito notar e “em pouco tempo” estávamos no alto do Bandeirantes. Fizemos outra breve parada para comer algo rápido, tomar água, descansar e admirar as montanhas ao redor e, cuidando de não deixar os músculos esfriarem, partimos para buscar o Alto dos Ivos. Pausa para respirar: Oscar, Saullus, Eu, Márcia Stella, Saullus, Oscar, Jennifer, Márcia, Eu Na ascensão para esse cume, a derradeira subida “mais séria”, há um curto, mas intenso trecho de escalaminhada. Ali, o melhor é tomar um gole d’água, respirar fundo e tocar forte pela lateral direita até não ter mais o que subir, como notei q estavam estudando por onde subir e inclinados para fazê-lo pela esquerda (mais complicado), pedi licença e dei o exemplo, chegando lá em cima com meus dois pulmões a gritarem do castigo que lhes infligira, como se estivesse em forma. Depois de recuperar 1/6 do fôlego, peguei o celular e me posicionei para as fotos do progredir dos amigos na ascensão. Particularmente, gosto dessas fotos onde o “empilhar” das pessoas permite avaliar melhor o obstáculo. Stella no último “toca pra cima” mais sério da travessia No falso cume do Alto dos Ivos, fizemos um grande lanche coletivo, com ovos mexidos, linguiças e ervas estranhas. Também teve enroladinho de queijo e presunto. Essa galera carrega peso, mas faz gastronomia “Ogra” na montanha. Nada de emulsões de sabores, prato decorado, etc... apenas a boa, velha e nutritiva comida caseira em fartura. Descansados (mais ou menos), mais leves e determinados, retomamos a caminhada, perdendo altitude sem muito notar, já que as subidas, embora curtas, são frequentes nesse trecho ainda. Mesmo assim, não tardou para a subirmos um morro pela metade e virarmos à direita, chegando, enfim, na parte do trajeto com vários trechos de capoeiras e fragmentos de bosque, indicando que a altitude já havia decrescido substancialmente. Pouco antes do meio dia, alcançamos o ponto d’água. Dado o excelente estado de hidratação com que chegamos, fizemos apenas uma breve parada e tocamos para enfrentar a estradinha, que liga o Sítio do Pierre com a rodovia. Eu seguia em passo apertado, buscando os morangos e amoras silvestres que abundam por ali nos meses de julho e agosto. Encontrei poucos, mesmo assim é algo que ocupa a mente e ajuda a não ansiar demais pela última curva da pernada. Chegamos ao final da travessia com 1h30 min de antecedência ao acordado com o resgate. Forçamos mais um pouco o caminhar até a vendinha onde fomos muito bem atendidos pelo “seu” Advir, um produtor rural muito humilde e simpático. Uma alegria ajudar a gerar renda diretamente ao produtor daquelas terras. Dessa vez, trouxe doce de leite, geleias e queijo defumado. Tudo muito saboroso. Uma das vans que nos levaria, fora levar outro grupo até Passa Quatro, já que não sabia que nos anteciparíamos. Aproveitara e levara dois colegas que chegaram ainda mais cedo (4 pulmões explicam muita coisa) até a pousada para o ansiado banho antes do retorno até Curitiba. Como não tínhamos pressa, nos oferecemos para esperar essa van voltar, já que ainda havia dois amigos na travessia, à caminho. Fizemos uma foto de “todos”, nos despedimos e fomos ficar de bobeira, à sombra, conversando com os grupos que chegavam. Com a chegada deles, pouco antes do horário previsto, às 15h estávamos na van, à caminho de Passa Quatro. Chegada: suados, cansados e doloridos; mas orgulhosos e alegres. Na pousada, após um banho revigorante, entregamos o caderno da PM ao Guto, fizemos nova seção de despedidas e pegamos estrada para casa. Na viagem, vínhamos, eu, Douglas e Adilson rememorando o caminhado, fazendo planos e contando causos. Lucas e Amanda dormiam o merecido sono. Cheguei em casa às duas da matina de segunda, dormi um pouco, arrumei barraca, roupas e botas e pedalei para o serviço. Outros foram virados para o trabalho, em função da maior distância. Porém todos compartilhávamos da mesma sensação de gratidão às montanhas e à vida. Quando perguntam porque faço essas travessias, me é difícil traduzir em palavras, mas a resposta repousa no brilho no olhar de quem se supera, no sorriso de quem vê, pela primeira vez, as nuvens lá embaixo. O caminhar me desopila a mente e me recarrega a alma de energia, não só da mata, da montanha, mas d’Ele, seja Ele spinozano ou convencional. Aqui, antes de concluir o relato, farei um registro: tivemos a “honra” de acompanhar os passos do Lucas Torres Garcia, com 9 anos, o mais novo a atravessar a SF em 3 dias. E isso não é pouco... ainda que o físico seja cobrado no subir e descer incessante, que o frio congelante faça tremer ou mesmo a carestia de agua se faça presente no rachar dos lábios, o desafio da travessia, em si, é muito mais um lidar consigo mesmo, com suas dificuldades, suas dores, seus anseios e temores. E isso aprendemos e desenvolvemos com o passar dos anos, o que nos colocava em um patamar muito mais confortável. Parabéns, Lucas! Mandou muito bem. Concluindo: Pernada de responsa!! A superação de limites, físicos para uns, emocionais para outros ou aquele amálgama em que ambos se fundem me alegram no lembrar. Se foram muitas as risadas, foram poucas as lágrimas e quase infindáveis as paradas para caçar o fôlego que fugia a cada metro que galgávamos. O brilho no olhar de todos com o esplendor das paisagens e o orgulho de uns no perseverar de outros. Poder ajudar a desfazer, com segurança, a má fama da SF para certos pais. Foram tantas as alegrias, que só posso agradecer. Agradecer ao Adilson pela ideia e oportunidade. Agradecer à cada um/uma pela companhia e confiança. E, claro, à Deus por tudo ter transcorrido como transcorreu, na medida exata de angústias e doçuras. Travessia SF Malucos e Achados.pdf
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