Ir para conteúdo

Pesquisar na Comunidade

Mostrando resultados para as tags ''serra fina''.



Mais opções de pesquisa

  • Pesquisar por Tags

    Digite tags separadas por vírgulas
  • Pesquisar por Autor

Tipo de Conteúdo


Mochileiros.com

  • Perguntas e Respostas
    • Perguntas Rápidas
    • Perguntas e Respostas & Roteiros
  • Relatos de Viagem
    • Relatos de Viagem
  • Companhia para Viajar
  • Equipamentos
  • Trilhas e Travessias
  • Nomadismo e Mochilão roots
  • Outras Formas de Viajar
  • Outros Fóruns

Encontrar resultados em...

Encontrar resultados que...


Data de Criação

  • Início

    FIM


Data de Atualização

  • Início

    FIM


Filtrar pelo número de...

Data de Registro

  • Início

    FIM


Grupo


Sobre mim


Ocupação


Próximo Destino

Encontrado 12 registros

  1. Em julho de 2.019, realizamos bate/volta nos 3 Picos mais importantes da Serra Fina (Mina, Capim Amarelo, 3 estados) A NOVELA: PEDRA DA MINA Para muitos o bate/volta na Pedra da Mina é um dos trekkings mais difíceis de se fazer em um dia, devido a quantidade de subidas e descidas fortes, tem dois lugares complicado, até pelos nomes já dá para preocupar: o "Deus me livre" e o "Misericórdia". Sem contar os relatos de pessoas que se perderam e tiveram que ser resgatados pelo corpo de bombeiros.Diante disso, esse trekking me consumiu muito tempo e estudo (coisa que geralmente não faço). Apesar de se preparar adequadamente, ainda assim, se perdemos justamente no início da trilha. Faz parte da aventura. Farei um relato diferente, é muito difícil pessoal que se perdeu em determinado lugar, explicar o que aconteceu depois. Vou procurar descrever o máximo possível para outras pessoas não errem o início da trilha para o Pico da Mina. Apesar de ser bate/volta no mesmo dia, tivemos que levar muita roupa de frio (na semana no pn itatiaia pegamos -4°), muita água (3 litros cada) e comida para 2 dias (se perdemos na trilha teríamos mantimentos até o resgate), nossas mochilas ficaram com +-10 kgs. CAPÍTULO 1: PEDRA DA MINA - Conhecendo o caminho até a fazenda Serra Fina, início da trilha. 16° dia - 13.07.2019 - Sábado 1° dia - Saída de Santana do Capivari-Mg de carro, ida até a cidade de Passa Quatro comprar lanternas (1 se cabeça a $9,90 e 1 de mão $12), luva de moto $10, pilhas, comida para subida da Pedra da Mina. Fomos até o Paiolinho/fazenda Serra Fina conhecer o caminho e ver se tinha onde ficar, descobrimos a casa do Zé, dono dum restaurante antes do paiolinho.. Para não se perder durante a madrugada de carro, na subida entre Passa Quatro e a fazenda Serra Fina(na nossa previsão iríamos dormir em PASSA QUATRO, acordaríamos as 02:30 da manhã e subiríamos até o início da trilha de carro). Tiramos o sábado para ir de carro até lá para gravar bem esse roteiro, quando se faz bate/volta longo e difícil, como a PEDRA DA MINA, tem que começar bem cedo, pois pode acontecer de se perder(FOI O QUE ACONTECEU). Saímos do centro de Passa Quatro-Mg e chegamos no trevo da rodovia asfaltada, atravessamos e pegamos estrada que começa neste local, não pega a Br(tem um restaurante do lado esquerdo da estrada asfaltada que vai para a fazenda Serra Fina, essa estrada começa do lado direito desse restaurante). Dirigimos +- 1 km, asfalto com muitos buracos, chegamos numa bifurcação (tem uma placa informando que são 12 kms até o Paiolinho) viramos à esquerda e pegamos estrada de terra em boas condições, mas subida forte, depois de uns 6 kms pegamos um pequeno trecho com pedras médias(devagar, passa tranquilo), após uns 100 metros chegamos numa bifurcação (do lado esquerdo tem uma casa amarela com piscina) seguimos reto - 1125msmm OBS.: Já fizemos esse trecho à pé várias vezes, no caminho dos anjos(2 vezes), na Estrada Real (4 vezes) e no CRER (1 vez), até essa bifurcação não teríamos problema na madrugada. Logo depois da bifurcação tem um pequeno trecho com muitas pedras. Continuamos sempre subindo, alguns trechos com algumas pedras(tem algumas entradas de fazenda) e quebra mola. Após um tempo chegamos numa bifurcação(tem uma casinha branca em cima dum morrinho à esquerda), SEGUE À ESQUERDA (tem uma plaquinha branca no início desse trecho) - 1185msnm. Começa trecho de descida e logo à frente subidas fortes, chegamos num entrocamento(tem um grupo escolar do lado esquerdo) continuamos reto, logo a seguir chegamos numa bifurcação que tem uma árvore bem alta, seguimos reto (NÃO vire à esquerda) (depois de umas casas - bairro PAIOLINHO) - 13 Kms desde Passa Quatro-MG - 1305msnm . A subida ficou mais forte, tem um quebra mola (CUIDADO) tem duas entradas à esquerda, CONTINUE RETO, chegamos numa virada e logo a seguir uma PONTE COM VÃO NO CENTRO (CUIDADO), depois de poucos metros chegamos na fazenda Serra Fina (muitos carros estacionados). Dona Maria, de Segunda-feira a sexta fica o dia todo. No sábado ela fica até meio dia, sai e fica no Paiolinho +- 3km(casa branca com um pé de maracujá, em frente a escola) até domingo no final da noite. Estacionamento $20. Se por acaso chegar na fazenda e não tiver ninguém, deixe o carro no estacionamento e na volta paga para dona Maria, sem problema ok Esporadicamente pode armar barraca no estacionamento da fazenda Serra Fina (não cobra, mas não tem banho nem refeição). Obs.: acredito que se tiver chovido nos dias anteriores, dificilmente carro sem tração nas 4 rodas conseguem subir até lá. No restaurante do Zé, +-4kms antes da fazenda Serra Fina: Tem camping: $20 por pessoa por dia (refeição +-$25 por pessoa, frango caipira $60 só o frango inteiro) porções à parte). Arroz $9 Feijão $9 Salada $8 (alface tomate cebola) Linguiça $15 Boi $10 Truta $30 porção Porções servem 4 pessoas. Tem hospedagem(na casa do Zé e da mãe) a uns 500 metros antes do restaurante: Casa pequena: $80 casal Casa grande: $80 casal Por pessoa: $40 por dia Só o banho: $10 cada Cozinha completa sem microondas tem fogão à lenha. Zé: 35 99934-6593 sem whattsap O sinal da operadora vivo não é constante na casa do Zé. Do restaurante a fazenda Serra Fina são aproximadamente 4 kms Se for chegar à noite tem que pedir para deixar refeição pronta para quem ficar hospedado na casa(eles deixam a comida pronta e você esquenta quando chegar, tem fogão à gás na casa que alugam). Negociamos com o Zé e pernoitamos na casa dele, e já deixamos encomendada a comida para o outro dia, pois chegaríamos tarde na volta do pico da Mina. Preço: $80 o casal sem caféda manhã. Jantar $25 por pessoa.
  2. Travessia da Serra Fina Full – 3 dias Sabe aquela sensação de que “faltou algo”? Então... havíamos concluído uma grande travessia, que intitulamos de Travessia da Serra Fina Full, acrescendo à travessia tradicional o cume de todas as montanhas próximas. Subimos, de ataque, o Tartarugão, o Ruah Menor (ou Ruah Leste – conforme relato de um montanhista que nos precedeu ali), os Camelos 1, 2, 3 e 4, o São Joao Batista (ou do avião), o Cabeça de Touro...mas não ascendemos ao cume do Ruah Maior (ou Ruah Norte – conforme o relato desse mesmo montanhista precursor). Ou seja, faltara algo. Na incursão anterior, cogitamos entre o subir ou não aquela montanha pelo horário em que começaríamos a ascensão, pois sendo inverno e passando pouco das 15h, seríamos obrigados a descer a noite, com visibilidade quase zero pela neblina que ameaçava formar, por uma região desconhecida, sem trilha e com a temperatura abaixo de 0C. A prudência prevaleceu e não fomos. Terminamos a travessia, mas o não acumear do Ruah Maior nos ficou atravessado... então, quando o Douglas propôs no grupo, que retornássemos à SF e repetíssemos o feito, dessa vez, com o Ruah Maior, não lembramos do cansaço, da fome ou do frio... topamos na hora. A questão agora não era “se”, mas “quando”. Temporada de montanha findando, os compromissos profissionais de cada um conduziram para a única data viável para 2018 ainda: aproveitar o feriado do Dia da Independência, 7/9, que cairia numa sexta. Sairíamos de SP assim que possível, para iniciar a subida à noite e aproveitar o enregelante frescor noturno para caminharmos mais leves, poupando peso e pernas. Só que isso nos traria outro desafio: o feriado cairia na sexta, de forma que teríamos apenas 3 dias nas montanhas: sexta, sábado e domingo. Daríamos conta?!? Procuramos nos lembrar da caminhada anterior, das sobras de tempo, das dificuldades, do cansaço.... Acreditávamos que sim, mas sabíamos bem como subir montanha no papel, na fala, difere da realidade... o somar dos infindáveis passos, o perseverar, independente da falta de folego... balançávamos entre o tentar ou não, quando notamos que seria Lua Nova. Se na travessia anterior a Lua Cheia tudo iluminava, ao ponto de trilharmos com as lanternas apagadas nos trechos de crista... dessa vez teríamos o mar de estrelas por testemunhas do feito. Foi o que bastou para nos decidirmos. Já éramos conhecedores das incríveis fotos da via láctea a partir da PM, e sabíamos, também que as fotos não faziam jus a real beleza que veríamos. Ao grupo original (Douglas, Marinaldo, Rodrigo e Rogério) somaram-se alguns amigos que acreditávamos darem conta da empreitada: Leonardo, Adilson, Zagaia. Compromissos familiares, complicações de saúde prejudicaram a participação do Adilson e do Rodrigo. Sob recomendação do Zagaia, passamos a contar com a Areli, que apesar de nunca ter feito trilha de montanha aqui, tinha na bagagem larga experiência em ambientes frios e estava treinando para uma corrida de aventura de 300 km. Não nego que a qualificação do grupo me intimidava... todos em excelente forma física e eu apegado ao meu sedentarismo... ante os insistentes (e pertinentes) alertas do Marinaldo quanto ao esforço físico que nos esperava, deixei minha habitual inércia e me obriguei a duas semanas de academia, com frequência quase perfeita. A posteriori, posso dizer que foi isso que evitou um constrangedor pedido de resgate, por total exaustão física. Nos encontramos nas catracas do metro Barra Funda às 15h, demos cabo do primeiro desafio dessa jornada, acomodando 5 cargueiras, uma dama e 4 marmanjos num (modelo do carro?) e partimos para Passa Quatro. Na estrada, o Leo nos informou de que o conserto da Kombi ainda se arrastava. Procuramos otimizar os tempos previstos e concluímos que iniciar a trilha após as 23h colocaria em risco o êxito do primeiro dia. Então, se o Léo não conseguisse estar em Passa Quatro a tempo de partirmos para a Toca do Lobo até as 22h30, partiríamos sem ele; com a possibilidade dele nos alcançar pelo Paiolinho e seguirmos juntos. Com o avançar das horas, ficou claro que o Léo não poderia nos acompanhar, pelo menos nesse primeiro momento, de forma que acordamos com a Patrícia (que faria nosso resgate) que iríamos direto para a casa dela e partiríamos assim que possível. Primeiro dia A Patrícia nos deixou perto da Toca do Lobo, pouco antes das 23h e, rapidamente, nos equipamos e nos colocamos a caminhar. Mochilas leves, a maioria com um litro de agua apenas, em pouco tempo chegamos à Toca do Lobo onde fizemos a primeira foto, ajustamos as cargueiras e iniciamos a travessia, pouco após as 23h. Subimos a passo as encostas que nos levariam ao Cruzeiro e, ao pé do Quartzito fiz o primeiro reabastecimento de água, completando meu inventário para 1 litro. Enquanto eu buscava água (e tirava minha primeira foto dessa travessia, uma “flor de maio”, avistada ainda em botão na travessia da SF com meu filho, há pouco mais de um mês, se mostrava agora perdendo o viço em consonância com o findar da temporada). Os amigos aguardavam, lanchando e curtindo o visual na brisa gélida da crista e assim que retornei, recomeçamos a ascensão. Em pouco tempo, caminhávamos pelo encantador Passo dos Anjos, onde a SF revela a origem do seu nome...mesmo sob as luzes da lanternas, não deixa de impressionar como a crista se estreita naquela parte...aproveitávamos os trechos de ascensão mais suave para retomar o folego, já que nossa intenção era prosseguir sem paradas até o alto do Capim Amarelo. Subíamos pouco ansiosos, confiantes do planejamento e validando a estratégia de caminhar à noite e minimizar o peso nas cargueiras. Encontramos um pedaço de bastão de caminhada e passamos a levá-lo conosco, certos que em pouco tempo encontraríamos seu dono. De fato, não tardou, e num dos pontos de acampamento dos falsos cumes do CA, encontramos dois colegas montanhistas acampados há pouco, ainda com chocolate quente nas panelas... restituímos a parte perdida, conversamos um pouco, tomamos uns goles de chocolate quente e retornamos a caminhada. Pouco depois das 2h alcançamos o cume do CA. Fizemos uma breve parada, substituímos o livro de cume, que já não apresentava espaços em branco e após a devida preparação do livro, identificando o nome do cume, sua localização, data, responsáveis pela guarda, etc, registramos a composição do grupo, objetivo e horário de partida, descansamos alguns minutos, procurando não perturbar muito aos montanhistas acampados ali e retomamos a caminhada, buscando assegurar a descida do CA pela trilha correta, bem à esquerda. Sem grandes dificuldades, descemos o CA, notando ao passar pelo Maracanã que havia pelo menos mais sete barracas armadas.... de fato, o último feriado dessa temporada prometia que a SF estaria lotada de caminhantes... não nos afetava, já que estaríamos quase que todo o tempo fora da trilha mais batida. Havia uma remota possibilidade de termos algum contratempo com a lotação da serra, no acampamento do primeiro dia, no Vale do Ruah. Para essa eventualidade, cogitávamos acampar aos pés do Ruah Leste, o que exigiria atravessar o capim à noite. No Maracanã, nos abastecemos com o suficiente para a caminhada até o Rio claro, na base da Pedra da Mina. Flor na encosta do Quartzito Foto: Rogério Alexandre Cristais de gelo Melano: Foto: Rogério Alexandre De forma geral, partimos com pelo menos dois litros, sabedores que, com o nascer do Sol, o consumo de água aumentaria. Com poucas paradas, em breve estávamos começando a longa ascensão do Melano, um dos desafios propostos quanto à regularidade da caminhada, já que queríamos apreciar a alvorada em sua crista, de forma a permitir registrarmos o nascer do sol com a lua minguante ainda visível no céu. Caminhávamos compenetrados, procurando aproveitar os trechos planos para trocarmos ideias e retomarmos o folego. Talvez pela adrenalina do desafio, a caminhada transcorreu rápida e alcançamos a crista do Melano perto das 5h30, passando sobre diversas poças de agua congeladas nas encostas. Fizemos uma parada para um rápido lanche e retomamos a caminhada, agora em passo mais tranquilo, apreciando o dia que nascia. Nascer do Sol e Lua Minguante visto na crista do Melano. Silhueta da PM contra o sol nascente. Fotos: Douglas Garcia Tocamos em frente pelo sobe e desce da crista do Melano, ganhando altitude devagar, na diferença entre as subidas e descidas infindáveis desse trecho. Aproveitávamos para apresentar para a Areli, as montanhas que havíamos passado desde o início da caminhada, as montanhas que subiríamos antes de acamparmos, nominá-las, fazer comentários e contar causos de pernadas anteriores por aquelas plagas. Isso nos distraia, e, quase sem perceber, alcançamos a base da cachoeira vermelha, às 8h. Preparamos as mochilas de ataque com material para emergência, lanches e água, guardamos as cargueiras nas moitas, atravessamos a cachoeira vermelha, buscando a trilha que começa bem próxima da sua queda. Fomos ganhando altitude aos poucos, pelo ombro do Tartaruguinha, quase que sem nenhum vara-mato e em pouco tempo estávamos aos pés do Tartarugão. Seguimos a mesma técnica da vez anterior, avançando meio que em paralelo, para minimizar a possibilidade de um acidente com as pedras soltas, que são abundantes nessa face da montanha Com as inevitáveis paradas para descansar, levamos cerca de meia hora para alcançar o cume da primeira montanha fora-da-rota da travessia planejada. Fizemos uma pausa, contemplando a paisagem, retomando o folego e lanchado. Verificamos que haviam poucos registros no livro de cume, uma incursão de um colega de montanha, desbravador de ambos os Ruah Norte e Leste. Registramos os nomes do grupo, algumas impressões da caminhada e das nossas intenções, horário de partida e destino, acrescemos dois saches de mel no kit perrengue deixado antes, guardamos tudo no tubo de cume e partimos para explorar parte dos ombros do Tartarugão, avaliando possíveis alternativas para uma travessia a partir da face sul da PM, subindo a partir do Vale do Paraíba. Essa avaliação acabou por consumir um tempo precioso pois descemos o Tartarugão em direção a PM e na face sudeste bem à direita de quem está de frente para a PM encontramos um ponto de agua corrente, onde nos hidratamos. Por outro lado, essa investigação nos causou considerável transtorno para retornar, pois os trechos de lajes na base são intercalados com trechos de vegetação o que exigia varar o mato, com considerável dispêndio de energia e tempo. Procurando manter a altitude, fomos costeando as encostas do Tartarugão e do Tartaruguinha, buscando a direção da Cachoeira Vermelha, onde chegamos às 12h. Pedra da Mina vistas do Tartarugão. Foto: Marinaldo Bruno Contemplando o Vale do Rio Claro. Foto: Douglas Garcia Retomamos as mochilas e seguimos para a PM, passando pelo Rio Claro, onde nos hidratamos e coletamos água apenas para a subida da pedra, uma vez que acampando no Ruah, teríamos fartura de água. Apreciando o visual, fomos ganhando altitude e, perto das 13h estávamos a 2978m, no cume da PM. Encontramos o Rafael preparando o acampamento para um grupo que o Cainã, ambos guias na SF e amigos de outras caminhadas, que fizeram a gentileza de cuidar das nossas cargueiras enquanto descíamos em direção ao acampamento da base da PM, no sentido do Paiolinho, por onde atacaríamos o Ruah Norte. Sabe aquela história de barraca voando? Então, por pouco não conseguem alcançar uma delas a tempo, rs... Do acampamento base, fizemos uso do tradicional trepa-pedra para descermos a encosta da área de acampamento na base da PM em direção ao Ruah, na sua extremidade NO. Atravessando o vale pelas lajes de pedra, cruzamos com um pequeno curso de água, avaliamos a direção pela qual faríamos o vara-mato da subida e tocamos para cima, com o Douglas abrindo a passagem e os demais procurando facilitar a volta, quase consolidando uma trilha... mas a verdade é que a passagem de 5 pessoas por ali, sem outros que a repitam, talvez não seja perceptível na próxima temporada. Sob sucessivos alertas de “caminho errado” e “voltem” dos companheiros de montanha que chegavam na PM via Paiolinho, com pouco mais de 40 minutos de vara mato, para total deleite da Areli, alcançamos o cume. Sob congratulações mútuas, entre respirações ofegantes, apreciamos por uns minutos o visual que se descortinava... ângulos incomuns da travessia, detalhes de ambas as faces da PM e das montanhas ao redor enchiam nossos olhos. O sentimento de respeito, ante a enormidade do que propúnhamos fazer, grassava em nosso peito, dividindo espaço com a sensação de superação e ineditismo. Verificamos no livro de cume, colocado pelo Douglas pouco mais de um mês antes, a ausência de outros registros, acrescemos ao “kit perrengue” um cobertor de emergência e dois saches de mel. Tomamos o último lanche do dia, descansamos um pouco e lembrando que ainda precisaríamos de duas horas para estarmos com o acampamento montado, iniciamos a descida do Ruah Norte procurando refazer o caminho trilhado na subida. Pegamos um pouco de água no pequeno curso que escorre na passagem e voltamos sob os nossos passos até a parede quase vertical do acampamento base. Usando a já consolidada estratégia de ataque em rotas paralelas fomos tocando para cima até atingir a área de acampamento na base da PM, onde nos reagrupamos antes de subir a PM, na rota tradicional de quem chega pelo Paiolinho. Havíamos cogitado descer a PM com as cargueiras, para depois cortar pela trilha que ouvimos existir na encosta da PM, ligando a área do acampamento base com o Ruah, mas abandonamos essa ideia pela segura, ainda que mais cansativa, opção de descer e subir a PM de ataque, pelo caminho já conhecido. Subimos em passos largos, recuperamos as mochilas e seguimos para o vale do Ruah, onde acamparíamos. Iniciamos a segunda descida da PM com o sol buscando o horizonte, e pouco antes do anoitecer, estávamos com as barracas prontas para a noite. Como cuidados adicionais, ante a afamada geladeira que o Ruah se transforma à noite, colhemos porções de palha para colocarmos sob as barracas, dando preferência para as folhas mais secas, que por conterem menos água são mais eficazes como isolamento térmico. Cedi meu cobertor de emergência ao Marinaldo, que, apesar da minha insistência não aceitou ficar com o saco de bivaque de emergência. Fizemos a primeira refeição quente, conforme o cardápio que escolhemos e que nos foi fornecido, abaixo do preço de custo, pela Livre Adventure Tour. Agradecemos muito pelo apoio, todas as refeições juntas não somavam 2 kg, o que contribui significativamente na redução de peso das cargueiras. Optei pelo espaguete com frango e legumes, porção individual, e que pelas menos de 85g de peso que faziam na mochila constituiu uma excelente refeição, após hidratado com os 240g de água quente recomendados. O processo de liofilização, preserva muito da textura dos alimentos, assim como do sabor e do seu valor nutricional. É sempre recomendável, para quem inicia no uso desse tipo de alimento, planejar com alguma folga, para verificar como se adapta aos tamanhos das porções, principalmente naquelas que servem duas porções. Cansados pela pernada do dia, alteramos os planos de vermos o sol nascer no cume do Ruah Leste, optando por estendermos um pouco o repouso e nos recuperarmos para o segundo dia, que prometia ser tão exaustivo quanto o que se findava. A temperatura caiu rapidamente, meu relógio marcando 8C pouco mais de uma hora após o pôr do sol, e todos se recolheram às barracas, não saindo para nada, após o jantar. Ante a previsão de 2C para a PM, esperava dormir bem tranquilo com o que levava de equipamento: saco de dormir para -4C, meias de trekking, segunda pele leve para as pernas e duas mais fortes para o tronco, luvas e gorro. Por praticidade e cansaço adormeci com ambas as segundas-peles, luvas e gorro... imaginava que acabaria por acordar de madrugada com calor, mas aí já teria recuperado um pouco das forças... e estava tão agradável daquele jeito, usando quase toda roupa que tinha disponível... dois isolantes, um de espuma e outro inflável acresciam conforto e luxo ao necessário. A camada de palha sob a barraca fazia as vezes de colchão e mesmo fora dos isolantes, o contato com o piso da barraca era agradável. Segundo dia Realmente dormi muito bem, acordando apenas às 5:00 como de hábito, quando na montanha ou muito ansioso com algo. As surpresas começaram ao constatar a condensação congelada dentro da barraca, por sobre minha cabeça... pequenas estalactites de gelo pendiam do teto da barraca... curioso, fui verificar a temperatura em meu relógio, que apontava -6C. Isso dentro da barraca... lá fora estaria ainda mais frio! Fiquei no saco de dormir, curtindo o ineditismo do Ruah... Pouco depois, ouvia-se o alarido normal de quando se desmonta acampamento, ainda às escuras e um pessoal acampado próximo de nos informou que o termômetro levado por eles havia marcado -9,6C às 23h e outro pessoal falar em -11,7C. Meus dedos do pé doíam de frio e, vencendo a preguiça com algum receio, saí do saco de dormir para verificar o estado em que eles se encontravam. As pontas dos dedos estavam muito avermelhadas, e temi que estivessem queimados de frio... fiz uma massagem vigorosa em ambos os pês e mesmo a cor não normalizando, senti-me um pouco melhor. Como não sairíamos em seguida e não curto ficar à toa na cama, vesti calca, calcei botas, coloquei o saco de dormir dentro de um estanque e sai da barraca para caminhar e ver o sol terminar de nascer. A esperança de que, caminhando os dedos parassem de gritar de frio não se concretizou, mas a beleza do sol nascendo entre o Ruah Leste e a PM compensava o desconforto. Pouco depois, o sol incidia sobre a encosta da PM e, após despir a segunda pele das pernas, peguei a mochila de ataque, preparada na véspera e avisei aos amigos que iria esperá-los tomando um pouco de sol. Subi um pouco e fiquei admirando o vale do Ruah, branco pelo gelo que cobria o capim ainda que as moitas superassem a altura de um homem. No ano anterior, em minha primeira travessia ele estava ainda mais branco, com o gelo no capim subindo as encostas. Talvez seja isso que encante tanto na natureza, nas montanhas... tudo está lá, nada mudou... mesmo assim, a experiência sempre é inédita, a vista sempre é outra. A viagem não é apenas pelo exterior, mas trilha-se para dentro também... para a alma. Agrupamos e partimos, às 6h30 para o ataque ao Ruah Leste, que com 2640m de altitude faz o limite leste do Vale do Ruah e fica à direita de quem, na travessia caminha em busca do Cupim de Boi. As mochilas de ataque continham além dos kits de perrengue, de primeiros socorros, água e lanches, os materiais que usaríamos nos livros de cume que iríamos passar antes de retornar ao acampamento: o próprio Ruah Leste, os Camelos 1, 2, 3 e 4, o do Avião e o São João Batista. Alcançamos o primeiro cume do dia às 8h10, fizemos uma parada para café da manhã com as frutas liofilizadas, chocolates, queijos e guloseimas trazidas, curtindo os diferentes ângulos das montanhas da Serra Fina. Verificamos não haver registros no livro de cume desde nossa incursão anterior, apontando que, mesmo tão próximo a concorridíssima trilha da travessia, ainda há montanhas tranquilas, bastando ter a disposição de ousar um pouco mais e fugir do convencional. Acrescemos alguns itens (mel e cobertor de emergência) ao tubo de cume, considerando que possam ser de grande valia para algum colega num eventual perrengue explorando os arredores da trilha tradicional. Pouco depois, 8h20 iniciamos a descida em direção ao Ruah, onde um vara-mato nos aguardava, mirando alguma laje que abreviasse o sofrimento. Pouco antes das 9h, passamos pela lata de sardinha deixada por algum excursionista pioneiro, dessa vez não confabulamos entre leva-la ou não... o estado de corrosão apontava algo muito antigo e estando colocada sobre uma parte mais elevada da laje, ela claramente tinha a intenção de marcar um ponto de passagem, e na caminhada anterior já havíamos deliberado mantê-la ali, pelo menos enquanto seus restos fossem reconhecíveis. Curiosos com a história que havia ali, condensada naquelas poucas gramas de folha de flandres, subimos buscando o colo entre o Pico do Avião e o primeiro dos camelos. A partir dali, viramos em direção norte e tocamos para cima, chegando aos 2550m de altitude do cume em pouco mais de 30 minutos de caminhada. Mantendo a mesma direção, descemos em direção ao colo entre os Camelos 1 e 2, atravessamos com cautela pela maior exposição do trecho e tocamos para o cume do Camelo 2, quase tão alto quanto o anterior. A diferença de altitude entre os dois não ultrapassa 20 m. Nesse cume, havíamos deixado, na incursão anterior um tubo de cume, cujo o único registro era o da nossa passagem, na travessia full anterior. Da esquerda para a direita: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro, vistos a partir do Camelos 2. Foto: Douglas Garcia Ali registramos nossa passagem, acrescemos o mel ao material de emergência deixado anteriormente, retomamos um pouco o folego e partimos para o Camelos 3, alcançando às 10h15 os 2480m de altitude do seu cume. Para o Camelos 4, o caminho começa pela lateral direita descendo a encosta íngreme e seguindo o vara-mato desbravado na passagem anterior, à esquerda. Apesar de já haver palmilhado a passagem, ainda havia o receio de buracos e fendas e, paradoxalmente, exatamente no momento em que eu alertava a Areli e o Zagaia da possibilidade de haver buracos escondidos na vegetação e da necessidade de cautela, encontrei um deles e sumi, diante dos olhos dos dois, quase como em um passe de mágica... enquanto caía, esperava que a vegetação me freasse a queda, como isso não aconteceu, tratei de agarrar o que tinha à mão, e, às custas de dois cortes maiores nas luvas (de couro, grossas) que não se aprofundaram muito nas mãos, freei minha descida e me vi de ponta cabeça a uns 4 m abaixo dos pês do pessoal. Gritei informando estar tudo bem, e procurei me firmar antes de escalar a encosta, usando a vegetação como apoio. Nesse momento meu receio era que os tufos de capim e os poucos bambus que me via aqui e ali, não suportassem mais peso que apenas o meu e cedessem, caso alguém buscasse me ajudar ou caísse também. Refeitos do choque do susto, retomamos a caminhada com mais cuidado, uma vez que os trechos seguintes são de exposição bem maior e uma errada como a de poucos minutos antes, quase certo de que teria consequências graves. Passamos pelas partes de exposição com bastante zelo, procurando não dedicar mais que um olhar de relance à paisagem por mais espetacular que fosse. Da mesma forma que na vez anterior subimos pela direita de forma a evitar ter que dar um “salto de fé” para cima. Com maior cautela, alcançamos o totem que erguemos na vez anterior, às 11h20, fizemos uma parada maior, registramos a passagem pelo livro de cume, aproveitando para revestir duas pedras maiores com parte de um cobertor de emergência danificado. Acrescentamos os saches de mel ao material de emergência, descansamos um bocado e partimos explorar os arredores... a crista dos camelos tem um quinto cume, cerca de 30 metros inferior em altitude ao Camelo 4. Aproveitamos bem o tempo observando o PNI, o Cupim de Boi, o Três Estados e curtindo a pausa maior, fizemos um lanche mais substancial apreciando o que havíamos caminhado e o que ainda o faríamos antes de dar o dia por encerrado. CT visto do 5 Camelo. Foto: Marinaldo Bruno Retornando dos Camelos “Toca para cima”. Foto: Douglas Discutimos as alternativas para acampamento entre a base do CT e o bosque na descida do Cupim de Boi. A expectava de descer a encosta do Cupim, à noite e com cargueiras era um pouco apreensiva e concordamos, que se, encontrássemos um lugar, por pequeno e ruim que fosse, acamparíamos no bambuzal e partiríamos de madrugada para ver o sol nascer instalados no alto do CT. Aproveitamos o horário pouco avançado e esticamos até o próximo cume da crista, que seria o “Camelos 5” e curtimos um pouco o visual da SF a partir dali, com vistas inéditas para nós. Iniciamos o retorno com o sol brilhando forte, o que consumia nossas reservas de água, e eu aproveitei todos os filetes de água que encontramos para me hidratar, por fraco que fosse o correr de água, em quase todos consegui uns goles. Já na subida do Morro do Avião, encontramos uma poça maior, onde eu, a Areli e o Zagaia nos fartamos de beber. Continuamos a subir, buscando o cume do pico do Avião, alcançado pouco antes das 14h. Estávamos dentro do planejado, então fomos até os destroços do avião monomotor na encosta antes de retornamos ao acampamento e arrumarmos as cargueiras para o restante da pernada do dia. Seria o trecho que faríamos com o inventário de água totalmente ocupado, pois não teríamos agua até o final da tarde do dia seguinte. Com as cargueiras arrumadas, partimos para nos abastecer de água na cachoeira que o Rio Verde faz, na parte em que o vale se estreita entre o Ruah Norte e Ruah Leste. Procuramos nos hidratar bastante considerando a previsão de mais um dia sem nuvens, sem disponibilidade de termos acesso a outro ponto de água antes das 17h, já na saída da trilha. Ficamos quase meia hora na pequena queda, alguns de nós aproveitando para tomar um rápido banho nas frescas águas. Eu, levando em conta que o sol já ameaçava deixar o vale, optei por postergar mais uma vez meu banho naquelas águas. Nesse ponto, nos abastecemos de toda água possível nas mochilas e no corpo, buscando a melhor condição para a pernada final. Caprichamos nos ajustes das cargueiras, que agora fariam valer sua capacidade de transferir a maior parte do esforço para os quadris. Com 4l de água, minha mochila pesava pouco mais de 14kg, e, com os benefícios da observação à posteriori, devo dizer que 4l eram “pouco”. Imaginava terminar o último dia com água contada, carregando o mínimo de peso e administrando o consumo. Houve quem pegasse 6l e nenhum de nós imaginava esbanjar o precioso líquido. Com os últimos raios de sol se perdendo atrás da PM, deixamos o Ruah para a derradeira caminhada do dia, com destino ao bosque de bambus à direita do Cupim de Boi. Com as mochilas em seu peso máximo dessa travessia, caminhávamos de forma tranquila, procurando preservar o fôlego e as forças para o dia seguinte. Pouco antes das 21h estávamos no bosque, com as barracas montadas, nos preparando para dormir algumas horas, já que o planejado era partirmos antes das 4h para acompanharmos o nascer do sol a partir do cume do CT. Tranquilizamos o pessoal de outro grupo que já estava ali, e que havia se dividido ao longo do dia. Parte dos montanhistas desse grupo tinha chegado ao ponto em que acampamos na véspera, no Ruah, aos pés da PM e ficara no aguardo de alguns retardatários. Estimamos que eles tardariam no máximo duas horas, porém, com o cansaço e a progressão à noite pouco confortável, eles optaram por armar acampamento antes do Cupim, numa área de acampamento alternativa. A expectativa de um visual inédito nos inebriava, e com o cansaço do segundo dia apoiando, rapidamente adormecemos. Decidi não cozinhar e poupar água para o dia seguinte, decisão que se mostraria bastante oportuna. Apesar de não estar com fome, já que passara o dia com diversos petiscos, me obriguei a comer pelo menos uma barrinha de cereais; ou melhor, tentei me obrigar... o sono e o cansaço venceram e adormeci com a barrinha na mão... rs... a noite foi muito agradável e dormi direto, sem interrupções, depois que desisti de utilizar o isolante inflável... o saco de dormir teimava em escorregar de sobre ele, mesmo ante a suave inclinação em que minha barraca fora montada. Felizmente, era uma questão de luxo, de forma que apenas coloquei o isolante inflável de lado e adormeci sobre o bom e velho isolante “casca de ovo”. Terceiro dia Confirmando a fama de ser um dos melhores lugares para pernoite na travessia, a temperatura amena no bosque e o abrigado do vento, possibilitaram uma noite de sono espetacular. Acordei 3h30, revisei a arrumação da mochila de ataque feita na véspera e sai da barraca para esticar as pernas enquanto os amigos faziam os últimos preparativos. Por mais que procurasse, não consegui encontrar o estojo com os óculos, e como não queria colocar a lente de contato ainda, para dar um período maior de descanso para as pupilas, coloquei o estojo de lentes na mochila de ataque, junto com soro e um pequeno espelho de sinalização, revisei a mochila, verificando se os itens críticos estavam lá e me preparei para iniciar a caminhada. Partimos no horário previsto, subindo rapidamente o Cupim e virando à esquerda, para alcançar seu cume e voltar a descê-lo, agora agarrando nas pedras e na vegetação. A descida naquele trecho é bastante íngreme, e após alguns minutos tensos, alcançamos a grande rocha que serve de totem natural para os que atravessam o colo entre as duas montanhas. Não deixamos de notar o quanto o caminho estava batido, pela passagem de sucessivos montanhistas. A montanha do começo do ano, nesse aspecto diferia demais daquela que alcançávamos de forma tão desimpedida. Na minha primeira incursão naquela montanha, ainda no início da temporada de montanhas de 2018, foi necessário dispender um tempo considerável para avaliar por onde passaríamos equais pontos de referência teríamos ao estar no colo e depois varando o mato que apresentava, apenas aqui e ali, marcas de já ter sido desbravado anteriormente. Eu caminhava em passo mais lento que os demais, já que a minha visão era bastante limitada. Quando o Zagaia comentou ter visto água próximo à trilha, lembrei-me de que, no vara-mato do começo do ano, eu havia visto uma pequena lagoa, à esquerda da trilha. Com a trilha mais aberta, avançamos mais rápido do que havíamos planejado, e seguindo a velha estratégia de ataques paralelos, visando minimizar o risco de uma pedrada amiga, alcançamos o cume 6h30, a tempo de ver o nascer do sol na direção do Agulhas Negras. Fizemos uma pausa para um lanche à guisa de café da manhã. Aproveitei a parada mais longa para colocar, sem pressa, a lente de contato... com 5,25º de miopia, garanto que os contornos das montanhas mudam sensivelmente. Um arrepio me passou pela espinha, lembrando da descida do Cupim, tateando cada passo no que o colega da frente fazia, quase que às cegas. Curtimos bastante o cume, exploramos rapidamente duas de suas cristas, passando pelos destroços do bimotor e instalamos um novo tubo de cume num pico mais afastado à 2580m de altitude, após os destroços do avião. Junto com esse livro de cume, colocamos um kit perrengue minimalista, haja vista que ali não se pode contar com a chegada providencial de outro montanhista para lhe “safar a onça”. Nascer do sol a partir do Cabeça de Touro Sombra do CT na Pedra da Mina Fotos: Marinaldo Bruno Após estudar brevemente com o Marinaldo, a crista sudeste do CT, eu e o Douglas encontramos com o Zagaia e Areli que retornavam para o cume vindo da parte onde estão os destroços do avião. Combinamos de iniciar a descida do CT no mais tardar às 8h e nos apressamos com a instalação do tubo complementar, buscando iniciar a descida com o restante do grupo ou pouco atrás. Com o cansaço da subida, parte do grupo iniciou a descida pouco antes de nós, porém como desciam mais devagar nos aproximamos deles rapidamente. Novamente, utilizamos a estratégia de descer em linhas paralelas, cuidando para que alguma rocha eventualmente deslocada não atingisse ninguém abaixo. Com isso, em pouco tempo estávamos à margem do colo entre o Cupim de Boi e o Cabeça de Touro. Marinaldo, Areli e Zagaia, já estavam no colo, buscando a lagoa vista a partir da trilha de ida. A questão é que não encontraram o caminho da ida e estavam varando mato, na busca das referências: peladona e peladinha. Confiando na impressão e no que lembrava da ida, esquecendo que a fizera quase que às cegas, busquei a trilha que havíamos passado pouco antes com a intenção de coletar um pouco de água na lagoa que existe ali. Com a informação de que o pessoal que havia descido antes não estava voltando por ela, supus que a trilha estaria mais para a esquerda e fui no vara-mato buscando interceptar a trilha. Acontece que, por causa da pouca visão na ida ou não, a trilha estava à minha direita. Quase que certamente a trilha estava ali, entre a minha posição e a posição dos 3 (Marinaldo, Areli e Zagaia). Como segui à direita, conforme varava o mato, me afastava cada vez mais da trilha correta e o vara-mato ficava cada vez pior. Sem perceber eu descia, por entre as moitas de capim que, superavam os três metros de altura. Em pouco tempo, do chão eu não conseguia mais nenhuma referência visual, e apesar de estar com GPS ainda queria fazer a navegação visual. Para conseguir ver por sobre o capim e me orientar, escolhi duas moitas próximas e tratei de “escalar” elas até ter um panorama do entorno. Do alto das moitas, tudo que eu via era capim, o CT e o Cupim, de forma que ajustei o rumo para a encosta do Cupim, pois sabia que costeando a base havia grandes lajes de pedra que fariam o avançar menos custoso. Gritei “oi” buscando que a resposta indicasse a posição dos outros e não logrei escutar nenhuma resposta... apesar de saber que estavam lá, foi muito inquietante... Procurei avançar por cima das moitas, e por certo tempo se desenhou como solução ... Posso dizer que “nadei” no capim, ali... pois apesar de todo o esforço parecia que eu não avançava “nada”.... encontrei uma rocha que se destacava no mar de capim e tentei galgá-la num pulo, mas o capim sobre o qual eu me equilibrava cedeu quando dei impulso, me fazendo errar o pulo e acertar a borda da pedra com a canela esquerda... a dor excruciante me fez crer que havia me machucado, mas naquele momento, eu só queria saber de sair dali... dei a volta na pedra, por sob o capim e encontrei um lado que me permitiu galgá-la com êxito. De sobre ela, gritei novamente o “oi” e ouvi a resposta do Douglas perguntando onde eu estava, levantei os bastões e escutei um “estou vendo” muito alvissareiro. Pedi que levantasse as mãos, já que ele não estava com bastões e vi um movimento no capim ... acertamos de irmos um em direção ao outro para depois retornamos pelo caminho que ele abria em minha direção...ainda que o vara-mato ali não fosse tão ruim quanto o que eu havia passado pouco antes, o avanço era muito moroso. Para efeito de comparação, no caminho que percorri através do capim consumi 32 minutos enquanto na ida, atravessamos o mesmo colo em 8 minutos. Estar na trilha, só com o tradicional e cansativo “toca pra cima” da íngreme subida do Cupim de Boi, foi um grande alivio, rs... Com calma e fôlego, parando algumas vezes para que o Douglas apreciasse as Amarilis que cresciam em um jardim escondido,, numa quantidade que ainda não havíamos visto pela SF. Numa das pausas para recuperar o folego, ele comentou que elas seriam o tema provável de seu trabalho de conclusão de curso... identificar habitat, mecanismos de dispersão, a exigência do frio intenso para quebrar a dormência da gema, etc. Achei muito legal, e continuamos a debater o que poderia ser estudado, eu sempre procurando que fosse algo de cunho prático, talvez alguma aplicação fitoterápica. Chegamos ao acampamento no bosque às 10h e rapidamente começamos a arrumar nossas cargueiras para a última pernada do dia. Uma vez que eu, para poupar água e por falta de apetite, não utilizara minha segunda refeição liofilizada, a cedi para o Zagaia e para Areli. Partimos para a última pernada da travessia, às 11h, com o sol rachando tudo e a todos. Alcançamos o cume do Três Estados pouco antes das 12h30, ficamos cerca de 10 minutos recuperando o folego e descansando na deliciosa sombra dos arbustos que insistem em sobreviver ali, apesar de todos os maus tratos que montanhistas menos afeitos à política de minimizar o impacto na natureza lhes impõem. Aproveitei para fazer uma cata dos lixos escondidos em algumas moitas de capim, à exemplo do que encontrara quando ali estive, atravessando a SF com meu filho, pouco mais de um mês antes. Sem muito procurar, acresci à minha bagagem, uma lata de sardinha, uma embalagem de macarrão instantâneo e outras duas de barrinha de cereais. Antes de partir, registramos a passagem no livro de cume, batemos um pouco de papo com um colega de montanha que chegara pouco depois e que iria esperar o resto do grupo em que estava. O sol não dava trégua e como a descida do Três Estados é toda à descoberto, desci procurando poupar a agua, respondendo com monossílabos e procurando manter a respiração controlada. Levamos pouco mais de uma hora para atingir o cume do Bandeirante.... ainda que progredíssemos bem, o sol abrasador fazia parecer que levávamos várias horas ao invés de minutos entre cada cume. No meu caso, a sede era uma presença constante, dominada com curtos goles de água a cada parada para recuperar o folego ou apreciar a paisagem. No Alto dos Ivos, fizemos nova parada e contatamos a Patrícia para programar nosso resgate. Consideramos que levaríamos cerca de 4 horas, a partir dali, para alcançarmos a estrada, colocamos uma margem de segurança de cerca de meia hora, de forma a permitir que andássemos sem pressa e agendamos o resgate para as 19h. Nesse momento eu tinha pouco mais de 1l de água. As poucas nuvens que surgiam no horizonte não bastavam para nos proteger do sol. Decidi que consumiria toda (ou quase) toda a minha agua no trecho mais exposto ao sol, deixando uma eventual sede para o trecho de trilha que percorre a floresta. Dessa forma, considerei levar três horas até o próximo ponto de água, imponto como meta, tomar 300 ml por hora, 5ml por minuto ou 75 ml a cada 15 minutos. Como resultado, o tempo não passava, mas a sede ficou bem administrada, permitindo chegar próximo do ponto de água com cerca de 300 ml que, já sob o abrigo das árvores, tomei em generosos goles. Eu e o Marinaldo seguíamos um pouco à frente, chegando no ponto de água com alguma vantagem em relação aos amigos e, após esperar o grupo que nos precedia se reabastecer, preparamos uma limonada que caiu perfeita: doce e gelada. Dali, segui em frente com a Areli, enquanto os outros procuravam se recuperar e matar a sede com a escassa vazão de água que se apresentava. Fomos perdendo altitude de forma lenta e contínua pela estradinha até o Sitio do Pierre e depois até a estrada, onde chegamos 18h30. Aproveitamos o embalo e subimos um pouco pela estada para tomar sorvete caseiro. Cada um escolheu a parte do gramado que mais lhe agradava e procurou relaxar enquanto esperávamos o resgate, rememorando a caminhada, as paisagens, petiscando o delicioso biscoito de polvilho, avaliando os estragos nos pés e as dores nas pernas. A Travessia da Serra Fina Full, foi a concretização de um sonho antigo... inserir livros e caixas de cumes em alguns dos principais cumes no entorno da PM.... onde, após várias tentativas, mapeando e explorando, avançando a partir dos relatos dos montanhistas percursores, conseguimos realizar. Nesse processo cumulativo de aprendizado e desenvolvimento, percebemos o quanto alguns trechos demandam maior cuidado, até por estarem longe de tudo e de todos, sem sinal de celular ou a passagem ocasional de outro montanhista por diversos dias. Na esperança de apoiar algum irmão de montanha que se veja numa fria nessas partes da SF, tomamos a iniciativa de acrescer aos livros de cume, um material básico para “safar a onça”. Se você que lê essas linhas, precisar utilizar esse material, pedimos que nos avise para que possamos planejar a reposição. Claro que, pelas dificuldades logísticas, consideramos o uso “kits perrengue” na necessidade, não para conforto. Cabe a cada montanhista, novato ou experiente, preservar e cuidar da Mantiqueira, Amantikir para os índios, nascente de inúmeros rios que suportam a vida nas cidades, nas vilas e nas fazendas ao seu redor e ainda mais, a muitos quilômetros de distância. Com certeza, a Serra da Mantiqueira, em sua imponência, é um dos fatores determinantes para o clima que experimentamos no Sudeste. Se você que lê essas linhas, já for montanhista experiente, vá preparado, pois em alguns dos picos fora da rota tradicional, você poderá entrar numa grande “fria” se não tomar as devidas cautelas. Esteja sempre com alguém experiente também, evite se aventurar solo ou considere na preparação eventuais imprevistos. Não descuide do “e se”... há trechos em que não são necessários três erros para um acidente mais grave. Como registrei acima, fizemos parte da caminhada à noite, mas ainda que estivéssemos voltando sobre nossos passos em vários locais, evitamos os trechos menos frequentados à noite, por perder algumas paisagens e pelo risco de algumas passagens. Enquanto escrevo essas linhas, relatando a travessia da SF Full em 3 dias, comentam comigo que há montanhistas que pretendem fazê-la em 2 dias... me perguntam o que acho, e depois de refletir um pouco me vem a resposta: amigo, a montanha não é minha nem sua, ela é de todos que a amam e cuidam, seja do sitiante que planta ao pé da serra, ou do turista "modinha" que posta no Instagram, ela é uma obra de Deus seja você materialista ou espiritualista. Você que lê essas toscas e mal traçadas linhas, saiba: se estiver na montanha e precisar, um bom montanhista vai ajudá-lo no que puder, apenas por estar lá e poder. Vejo isso naqueles irmãos de montanha, que buscam ajudar e orientar desconhecidos, nos guias que, pesados, sobem rindo aquelas encostas que tantos outros se arrastam chorando... e ainda encontram forças para apoiar as equipes de resgate daqueles menos afortunados, seja por que motivo for e independente de sua forma de pensar ou ver a vida... Forte abraço! Nos vemos por essas trilhas desse mundão de Deus!
  3. Caminho da Fé – Pedra do Baú – Travessia da Serra Fina – Agulhas Negras e Prateleiras (PNI). Estou escrevendo este relato um ano depois que fiz esse passeio. Talvez eu esqueça alguma coisa. Eu estava precisando me desligar da vida que eu vinha levando. Estava precisando fazer o que eu mais gostava, caminhar bastante, travessias em trilhas, subir montanhas, me isolar do mundo “civilizado”. Tinha decidido que eu iria “largar tudo” e sair, sem saber até onde eu iria ou quando voltaria. Tinha uma grana guardada (cinco mil) e deveria ser suficiente para eu viver por pelo menos uns 3 meses. Falei com meu irmão que ele teria que se virar sozinho em nosso comércio. Falei com minha família que eu estava indo por não sei quanto tempo, mas que eu voltaria qualquer dia. Trabalhei até 31 de agosto, quase meia-noite. No dia 01 de setembro fui para um apartamento onde fiquei por 4 dias planejando lugares que queria conhecer, vendo preço de ônibus, tracklogs, etc. Na manhã de 4 de setembro parti para São Paulo e naquela noite para águas da Prata, onde minha jornada começaria. Como eu iria para vários lugares, diferentes um do outro, tive que levar muita coisa na mochila. Coisas que usaria em algum passeio, mas que seriam dispensáveis em outro. Ainda assim tentei levar o mínimo possível. Ítens que levei: - Mochila Osprey Kestrel 48 litros com Camel Back de 2 litros - Dois cantis de 900 ml. Um com caneca de alumínio. - Rede Amazon e tarp Amazon da Guepardo. - Saco de dormir Deuter 0º - 4 camisas dry fit - 2 blusas finas de fleece. - 2 calças quechua de secagem rápida - 6 cuecas - 3 pares de meia - 1 boné - 1 touca - 1 par de luvas (daquelas de pedreiro) - 1 par de sandálias Quechua - 1 par de botas La Sportiva - Kit Fogareiro + panela pequena - 2 isqueiros - 1 canivete - 1 colher plástica - 1 botija de gás Nautika pequena - GPS - Celular (para fotografias) - Caderneta e caneta - 1 Anorak - Corda e cordelete - Bolsa de nylon (para transportar a mochila no ônibus) Caminho da Fé. Águas da Prata até Aparecida. Caminho da Fé – 1º dia. 30Km 05-09-2018 Águas da Prata (SP) até Andradas (MG). Início 05:15 horas e chegada 12:55 horas Almoço : Pavilhão hamburgueria Jantar: bolachas e sanduba no hotel. Pernoite: Palace Hotel. Seguindo o conselho de um cara que desceu comigo e iria fazer o caminho de bike eu iniciei cedo para evitar o sol. Só que por esse motivo fui sem comida. Só comi uns pedacinhos de rapadura que ele me deu e uma banana que ganhei de um ciclista. Pelo longo tempo inativo, eu senti um pouco o peso dos 17Kg que estava levando na mochila. Caminho da Fé – 2º dia. 36 Km 06-09-2018. Andradas (MG) até Crisólia (MG). Partida às 08:00 horas e chegada às 17:40 horas. Almoço: salgadinho no Bar Constantino, comunidade da Barra. Jantar: miojo num banco ao lado da rede. Pernoite: rede Subidas cavernosas. Serra dos Lima, Barra, Taguá e Crisólia. Cheguei tarde, fui numa pousada carimbar a credencial e depois procurei duas árvores para esticar a rede, fazer o rango e dormir. Nesse dia não teve banho. Caminho da Fé – 3º dia. 38 Km 07-09-2018 Crisólia (MG) até Borda da Mata(MG). Partida às 07:30 e chegada às 18:00 horas. Almoço: pastel no Bar do Maurão em Inconfidentes Jantar: x-salada em lanchonete perto do hotel. Pernoite: Hotel Virgínia. Feriado da Independência. Fui acordado às 6 da manhã com queima de fogos e hinos. Passagem por Ouro Fino e Inconfidentes. Desfile cívico em todas as cidades. No hotel em borda da mata conheci um casal de cicloturistas que estava com um carro de apoio. Consegui que levassem um pouco das minhas coisas até Estiva. Foram 6 Kg a menos para carregar. Caminho da Fé – 4º dia. 17,5 Km. 08-09-2018. Borda da Mata(MG) até Tocos do Mogi (MG). Início às 08:00 horas e chegada às 12:40 horas. Almoço: um pouco de morangos colhidos no caminho. Jantar: Lanche na festa da padroeira. Pernoite: Pousada do Zé Dito. (muito boa e barata) Dia mais curto. A pousada ficava no calçadão principal, onde estava acontecendo a festa da padroeira. Estava difícil dormir. O jeito foi sair para a festa e tomar umas, apesar do frio que fazia de noite. Caminho da Fé – 5º dia. 21,5 Km 09-09-2018 Tocos do Mogi (MG) até Estiva (MG). Início às 09:00 horas e chegada às 14:20 horas. Almoço: moranguinhos (quase 1 Kg) e queijo fresco com caldo de cana. Jantar: Restaurante perto da pousada. Pernoite: Pousada Poka. Trecho muito bonito. Muitas plantações de morango. Muitos pássaros. Na pousada eu recuperei minhas coisas que haviam sido deixadas ali e já consegui ajeitar um novo transporte delas até Potim, já pertinho de Aparecida. Caminho da Fé – 6º dia. 20 Km 10-09-2018 Estiva (MG) até Consolação (MG). Partida às 07:30 e chegada às 12:45 horas. Almoço, jantar e pernoite: Pousada Casarão Destaques deste dia. Cervejinha gelada num bar onde um piá gordinho queria tirar uma selfie comigo. E também queria meu bastão de selfie de qualquer jeito. Também destaque para o canto da seriema, triste e ao mesmo tempo bonito, que se fez presente muitas vezes. Também tem a subida da serra do Caçador, cavernosa. Além disso, nesse trajeto é comum vermos carros de boi e também “canteiros”onde os agricultores esparramam o polvilho para secar. Caminho da Fé - 7ºdia. 22,5 Km 11-09-2018. Consolação (MG) até Paraisópolis (MG). Início às 07:00 e chegada às 12:30 horas. Almoço: Restaurante Sabor de Minas. Muito bom e barato. Comi pra danar. Janta: coxinha na praça. Pernoite: Hotel Central Foi um dia especialmente marcado pela presença dos pássaros ao longo do caminho, canários, sabiás, pássaros pretos, coleirinhas, gralhas, joões-de-barro, tucanos, maritacas. E aves maiores, como gaviões, seriemas e garças brancas. Também vale destacar a grande quantidade de flores, principalmente nos portões das casas dos sítios. Caminho da Fé – 8º dia. 28,5 Km. 12-09-2018 Paraisópolis (MG) até A pousada da Dona Inês, que fica 4 Km depois do distrito de Luminosa, município de Brazópolis. Início às 07:55 e chegada às 15:15 horas. Almoço: Salgadinho e coca numa mercearia em Brazópolis. Jantar e Pernoite: Pousada da Dona Inês. Foi o dia mais quente desde o início do caminho. Era meu aniversário de 52 anos e ficou marcado porque depois do jantar na Pousada, uma amiga de caminho, a Fabiana, puxou um parabéns a você, junto com as outras cerca de 20 pessoas que estavam ali. Fiquei bem emocionado. Caminho da Fé – 9º dia. 33 Km 13-09-2018 Pousada Dona Inês (Luminosa-MG) até Campos do Jordão (SP). Início às 05:45 e chegada às 18:45 horas. Almoço: Restaurante Araucária. Fica perto da placa que indica a entrada para a pousada da Dona Rose e da madeireira Marmelo. Comida muito boa. Jantar: Caldo de Mandioca com carne. NIX Caldos e lanches. Pernoite: Refúgio dos Peregrinos Na verdade, a quilometragem total desse dia foi de 51 Km porque no meio do caminho decidi que iria subir a Pedra do Baú. Isso me custou várias horas e me fez chegar em Campos do Jordão já de noite. Mas valeu muito a pena. O dia amanheceu lindo. Logo de cara a temida subida da Luminosa, mas que não é nada de tão difícil. Depois é asfalto até o fim do dia. A pousada Refúgio dos Peregrinos é bem diferente. Tem uma tabela de preços na parede. Você anota o que consumiu, faz as contas, paga e faz o troco. Tudo na base da confiança. Caminho da Fé - 10º dia. 52 Km 14-09-2018 Campos do Jordão(SP) até Pindamonhangaba(SP). Início às 06:00 horas e chegada às 17:45 horas. Almoço: Sanduíche em Piracuama. Jantar e pernoite: Pousada Chácara Dois Leões. Nesse dia todos os que estavam no refúgio dos peregrinos foram por Guaratinguetá, menos eu que fui por Pindamonhangaba. Descida pela linha do trem até próximo a Piracuama, com uma garoa fininha que de vez em quando virava um chuvisco. De tarde foi só asfalto e chuva. Cheguei na pousada já escurecendo. Foi o dia mais cansativo, pela quilometragem, pela chuva e principalmente pelo asfalto. Caminho da Fé - 11º dia. 24 Km. 15-09-2018. Pindamonhangaba(SP) até Aparecida(SP). Início às 09:00 horas e chegada às 15:15 horas. Almoço: Pesqueiro Potim. Comida muito boa. Comi feito um louco. Aqui eu recuperei o restante de minhas coisas que tinham vindo no carro de apoio de amigos. Pernoite: Hotel em Aparecida. Esse era o último dia no caminho. Um misto de ansiedade por chegar e de nostalgia antecipada das experiências vividas e das paisagens do caminho. A chegada na basílica é emocionante, não importa em que você acredita, ou se acredita em algo. Fica a saudade dos lugares. Dos amigos. Dos passarinhos. Fiquei em Aparecida até segunda-feira, quando fui ao correio e despachei para casa algumas lembrancinhas que tinha comprado e coisas que tinha levado e que vi que não ia usar. A calça jeans e a camisa de passeio. Umas cordas. Um dos fleeces e a bolsa de transporte. A Vida e o Caminho da Fé. Durante esse derradeiro dia de caminhada me veio à mente uma analogia entre a vida e o “caminho da fé”. O caminho da fé cada um começa de onde quiser, mas todos com o mesmo destino. No caminho o destino é a basílica de Aparecida, na vida a gente sabe o destino. No caminho as pessoas vão chegando, amizades vão sendo feitas. Uns mais lentos outros mais apressados. Uns madrugadores outros nem tanto. Uns alegres e comunicativos, outros mais quietos e introspectivos. Muitos de bike, passam pela gente voando, só dá tempo para um “bom dia”. Assim também é a vida e os amigos que vamos fazendo. Uns continuam por perto, outros se distanciam, mas continuam amigos No caminho não importa sua classe social, sua cor, opção sexual, grau de instrução ou idade. O destino é o mesmo para todos. Assim também é na vida. No caminho a jornada é longa, alguns dias são mais difíceis, parecendo que não vão terminar. Outros passam leves e agradáveis, a gente nem queria que terminassem. Igualzinho a nossa vida Temos que superar o cansaço, as bolhas, os pés inchados, joelhos e tornozelos doendo, a mochila pesada que nos deixa com os ombros marcados. Enfrentar as subidas, as descidas, os buracos, as pedras, a fome e a sede em alguns momentos. Por mais difíceis que sejam esses obstáculos, eles são superados. Ficam para trás. Igualzinho na vida. O caminho também nos oferece muitas coisas boas. Simples, mas inesquecíveis. Os pássaros cantando ao lado da estrada. A beleza e o perfume das flores. Os riachos que nos permitem um banho refrescante depois de uma subida cansativa. As conversas com os amigos. O pôr do sol por trás das montanhas. A janta e a cama quente que nos restabelecem para o dia seguinte. O nascer do sol de um novo dia, nos lembrando que sempre nos é dada uma nova chance de sermos felizes. Assim também acontece na nossa vida. Seja no caminho da fé, ou na vida, o destino a gente sabe qual é. O importante é deixar para trás o que para trás ficou. E aproveitar ao máximo a jornada. Pedra do Baú. Eu sempre gosto de planejar meus passeios, travessias. Mas sobre a Pedra do Baú eu não sabia nada. Só de ouvir falar, de ler alguma coisa de relance. Mesmo assim era uma coisa que eu tinha vontade de fazer algum dia, se desse certo. Era o dia 13-09-2018, meu nono dia no caminho da Fé. Era de manhã e eu caminhava pela rodovia, junto com um peregrino de nome Donizete, que eu conhecera na pousada da Dona Inez. Passamos por uma placa que indicava a entrada para o Parque Estadual da Pedra do Baú. Eu falei para ele: - Donizete, vai em frente que eu vou subir a Pedra do Baú. Ele disse: - Cara, isso vai demorar. Você só vai chegar em Campos do Jordão de noite. Isso se der tudo certo. Daí eu disse:- Tem que ser hoje. Não sei se vou ter outra chance. Quem sabe eu nunca mais passe por aqui. Me despedi dele e entrei na estradinha que levava ao parque. Escondi minha mochila e fui só de ataque, levando água, uma rapadura, uma paçoca, o GPS e o celular para tirar as fotografias. Depois de uns 4 Km cheguei onde começavam as trilhas e entrei na que indicava Pedra do Baú, face norte. Passei por uns caras que eram guias e estavam levando equipamentos de escalada. Depois de um tempo cheguei num local que tinha uma escada amarela grande, fixada na parede de pedra. Não pensei duas vezes. Subi aquela escada e depois continuei uma escalaminhada, com misto de escalada em alguns pontos, até que já estava bem alto e não tinha mais para onde subir. Estava pensando até em desistir e voltar embora, quando avistei uns caras no cume de um morro que eu julguei ser o Baú, mas acho que era o Bauzinho. Gritei para eles e eles responderam de volta. Perguntei como chegava na Pedra do Baú e eles me disseram para descer de novo e seguir mais em frente. Desci e estava chegando ao ponto em que tinha começado a subida quando vi eles vindo. Esperei por eles. Conversamos por um tempo e eles me deram as informações sobre como chegar até onde a subida começava realmente. Segui em frente pela trilha e pouco depois eu chegava na base da Pedra do Baú, onde um guia estava terminando os preparativos para iniciar a subida com um casal de clientes. Capacetes, corda, mosquetões, etc. Eu estava ali de bermuda, boné e botina. Eu vi aquela parede enorme e aquela sequência de grampos na pedra que eu não sabia onde terminaria. Pensei: - vou esperar ele começar a subida e assim pego uma carona. Se o negócio apertar eu peço arrego para ele. Foi quando ele virou pra mim e perguntou: - Vai subir? Falei que sim e ele disse:- Pode ir na frente então. A gente ainda vai demorar uns minutos. Eu pensei:- já era minha carona. Era uma parede de pedra quase vertical e muito exposta, que devia ter mais de 300 metros de altura. O jeito foi encher o peito de ar, mirar para cima e começar a subida. Subi meio que com medo no começo, mas também com muita confiança Parei algumas vezes no meio para tirar fotos. Passei por mais dois guias com clientes antes de chegar ao cume. Um deles foi bem legal e me deu umas dicas sobre o percurso que faltava. Muitos trechos com vento forte e eu pensava: - se eu parar agora eu travo. E ia em frente. Os últimos grampos, quando se está chegando no cume são especialmente complicados, porque você tem que abandonar a “segurança” que os grampos te dão para poder chegar no cume. Mas depois de uns 20 minutos de subida, lá estava eu no cume da Pedra do Baú. Foi um momento mágico. Bem mais do que eu esperava. O visual era incrível. Tirei foto de tudo que é jeito. Deitado sobre a beira do abismo, em pé, etc. Aqui vou abrir um parênteses. Apesar de estar no caminho da Fé, um caminho católico, onde se passa por muitas igrejas, as únicas vezes na vida que eu senti realmente uma presença muito forte, do que alguns podem chamar de Deus, foi quando estive no cume de alguma montanha ou embaixo de uma cachoeira. Nunca em uma igreja. Deixei de frequentá-las faz muito tempo. Me lembro de ter me encontrado com “Deus”, no cume do Alcobaça (2013), em Petrópolis. Embaixo da cachoeira do Tabuleiro, literalmente, em 2013 (e agora em 2019 de novo). Nos Portais de Hércules, Travessia Petro-Tere, em 2014. No cume do Pico Paraná em 2015 (não encontrei quando retornei em 2017). Na base das Torres e no Mirante Francês, no Parque Nacional Torres del Paine, em 2016. E agora, na Pedra do Baú. É uma sensação difícil de explicar. É como se você se sentisse realmente parte de um todo, de uma coisa muito maior. Se sentisse nada e tudo ao mesmo tempo. Uma paz muito grande torna conta da gente. E em todas essas vezes eu senti a presença do meu pai, já falecido. Restava agora a descida, que metia mais medo que a subida. Principalmente os primeiros grampos, onde tinha que se virar de costas para o abismo para alcançar os grampos. A Mesmo assim a descida foi rápida e durou cerca de 15 minutos. Cheguei na base e peguei o caminho de volta pela trilha. Pouco tempo depois quase pisei em uma jararaca de cerca de um metro de comprimento. Ela estava junto a uma pedra onde eu iria colocar meu pé. Ela se mexeu e eu a vi. Consegui dar um pulinho e evitei pisar nela. Foi por muito pouco. Segui rápido pela trilha e tempo depois eu já estava de volta à rodovia, rumo a Campos do Jordão. A Pedra do Baú foi muito gratificante. Mais do que eu esperava. Mais do que eu merecia. Serra Fina. Fiquei em Aparecida até na segunda-feira, 17-09-2018 e daí fui para Passa Quatro (MG), onde cheguei já escuro na rodoviária local. Peguei um ônibus circular e fui para o hostel Serra Fina, do Felipe, onde fiquei até na sexta-feira quando comecei a travessia. Choveu na terça, quarta e quinta, mas na sexta a previsão era de tempo limpo que duraria tempo mais que suficiente para a travessia e por isso decidi esperar e aproveitar para descansar e ler. Mesmo assim fui até a toca do lobo, pra passear e conhecer o Ingazeiro gigante. Também fui conhecer o centro da cidade. A região estava em alvoroço. Dois rapazes cariocas estavam perdidos em algum ponto da travessia e vários bombeiros, guias e montanhistas estavam à procura deles. Por sorte conseguiram um ponto onde tinha sinal de celular e conseguiram passar a localização e foram resgatados. Se bem que já estavam próximos de uma propriedade rural. Passa Quatro é uma cidadezinha linda e é um lugar onde eu moraria tranquilamente. O Hostel Serra Fina também é muito bom e o Felipe é um cara nota dez. Eu me senti em casa. Todas as travessias que eu faço eu vou sozinho. Não que não goste de pessoas. É que eu gosto de ir no meu rítmo. Gosto de ficar sozinho. Andar sozinho. Pensar na vida, etc. A intenção era fazer essa travessia também de modo solitário. Mas na quinta-feira de noite chegou ao hostel uma gaúcha baixinha, menor que eu até, que iria começar a travessia na sexta também, então decidimos começar juntos. A mochila dela era enorme e certamente tinha coisa que não precisava. Começamos o primeiro dia da travessia, 21-09-2018, uma sexta-feira, mais tarde do que eu queria. Saímos da toca do lobo já era meio-dia. Logo no começo da travessia, primeira subida, eu percebi que ela iria me atrasar, mas já que estávamos juntos, seguiríamos juntos. Foi quando ele me disse:- Vai na frente, você anda mais rápido. Eu disse que não, mas ela insistiu. Disse que ficaria bem. Eu então dei um até logo e disse que a reencontraria no Capim Amarelo..A subida é intensa e o ganho de altitude é rápido. Talvez pelo “treino” feito no Caminho da Fé eu não senti muito e passei por mais gente no caminho. Primeiro por 3 mineiros (que depois se tornariam grandes amigos) e depois por outros dois caras que pareciam ser militares. Cheguei ao cume do Capim Amarelo eram 15:15 horas. Praticamente 3 horas só de subida. Montei minha “barraca”, que era na verdade a minha rede estendida sob a lona que tinha sido disposta como se fosse uma barraca canadense. Fiz um rango e fiquei apreciando a paisagem. Como sabia da falta de água eu decidi que não levaria comida que precisasse de água no preparo, então comi basicamente tapioca de queijo, ou de nutella, ou de salaminho, paçoca, geléia de Mocotó e castanhas, durante toda a travessia. Os mineiros chegaram um pouco mais tarde e armaram suas tendas. Os militares chegaram quando já estava começando a escurecer. Eles não traziam barracas, dormiram de bivaque. Quando já estava quase escuro chegou um grupo que iria passar direto pelo Capim Amarelo e acampar no Maracanã. Perguntei pela gauchinha e me disseram que ela tinha montado acampamento em algum local no meio do caminho. Depois disso fiquei sabendo que ela desistiu e retornou para Passa Quatro. E que depois reiniciou a travessia na segunda-feira, tendo que ser resgatada de helicóptero no cume dos 3 Estados. E que depois disso voltou mais uma vez, acompanhada de um escoteiro, só que mais uma vez desistiram, abortando a travessia na Pedra da Mina, via Paiolinho. Estávamos a 2490 m de altitude e o pôr do sol e a noite foram lindos e gelados. Meu termômetro marcou a mínima de 3,5ºC. O dia 22-09-2018 era o segundo dia da travessia. A intenção era dormir no cume da Pedra da Mina. Depois do café da manhã, junto com os mineiros, desarmei e guardei toda a tralha e deixei o Capim Amarelo para trás às 10:20 horas. Logo no começo encontrei uma garrafa de uísque que tinha sido esquecida pelos militares. Voltei até onde os mineiros estavam e depois de bebermos uns goles eu retornei para a trilha, levando a garrafa para devolvê-la assim que encontrasse os rapazes. Não demorou muito para encontrá-los porque eles tinham pegado uma trilha errada logo na saída do Capim Amarelo. Depois de muito sobe e desce, mata fechada, bambuzal, escalaminhada, trepa pedra, cheguei na cachoeira vermelha e no ponto de abastecimento de água. Estava cedo e daria para pernoitar no cume. Foi o que fiz e cheguei ao cume eram 16:40 horas. Chegando ao cume estendi a minha lona fazendo um teto que ligava uma parede de pedras empilhadas até o chão Estendi ali embaixo o isolante e joguei o saco de dormir por cima. Essa noite não teria o mosquiteiro. Deixei a rede guardada. Comi meu jantar, assinei o livro de cume e fui apreciar o fim da tarde, o pôr do sol e as estrelas aparecendo. A noite estava bem fria. Os 3 mineiros chegaram quando a noite já tinha caído. Ajudei eles a montarem as barracas e depois ficamos conversando até altas horas. Os militares chegaram ainda mais tarde e no dia seguinte abandonariam a travessia, descendo pelo Paioloinho. Essa noite teve como temperatura mínima 3,7º C, mas a sensação foi de que era uma noite muito mais fria que a anterior. Talvez pela exposição ao vento, o que não tinha acontecido pela proteção que o capim elefante fornecera na noite anterior. A noite foi linda, repleta de estrelas e prometia um amanhecer incrível, fato que aconteceu. O único porém foi a grande quantidade de pessoas que estavam na Mina, quase todos fazendo bate-volta, o que trouxe muito barulho até algumas horas da noite. Apesar disso dormi muito bem e acordei bem disposto. A água até aqui não tinha sido problema. O dia 23-09-2018 era o terceiro dia da travessia e amanheceu espetacular, apesar de muito frio. Acordei antes do sol nascer e escolhi um bom lugar para apreciar o espetáculo. Depois disso o café da manhã (sem café) e desmontar acampamento. A surpresa foi quando levantei o saco de dormir e vi que uma aranha bem grande tinha vindo se aquecer embaixo dele. Peguei a bichinha com cuidado e a levei para perto de uma moitinha de capim. A travessia começou mesmo já eram 10:50 horas da manhã e daí para frente decidi caminhar junto com os 3 mineiros, afinal a gente combinava bastante. E assim saímos nós 4 da Pedra da Mina, eu , o Vinícius (Vini), o Daniel (boy) e o Nelson (Bozó). E assim passamos pelo Vale do Ruah, onde abastecemos os cantis pela última vez, com água que deveria ser suficiente até as 16 horas do dia seguinte. Daí foi uma grande sequência de morros até chegarmos ao Pico dos Três Estados às 17:20 horas. Mais uma vez montei a lona no estilo canadense, dispus a rede com mosquiteiro dentro e esparramei minhas coisas. De noite nos reunimos junto ao triângulo de ferro que representa a divisa dos 3 estados para a janta. Os caras já tinham pouca água. Eu ainda tinha meus dois cantis cheios e mais um bom tanto no camelback. Dessa maneira cedi um cantil para que eles fizessem a janta e bebessem o que sobrasse. Essa noite foi a mais fria, com o termômetro marcando 2,7º C, mas o capim elefante nos protegeu bem dos ventos e deu para dormir muito bem. No dia seguinte pela manhã, o Bozó sugeriu que fizéssemos café. Lá se foram mais 500 ml de água. Mas foi muito bom aquele cafezinho e aquela vista que se tinha lá de cima. De lá dava para ver Prateleiras e Agulhas Negras, minha próxima empreitada. Era o dia 24-09-2018, nosso quarto e último dia de travessia. Deixamos o 3 Estados às 09:40 da manhã. Esse foi um dia bem sofrido. Uma sequência de morros. Sobe e desce. Muitos trechos de mata, e bambuzal. Mas o principal obstáculo era a falta de água. Minha água era para dar tranquilamente, mas depois da janta, café e dividir com os amigos, eu tinha deixado o 3 Estados somente com a água que restava no camelback, que era pouco mais de meio litro. Fomos racionando, mas quando chegamos no Alto dos Ivos, todos bebemos o que nos restava de água. Foram mais 3 horas até encontrarmos água de novo. A falta de água aliada ao esforço físico fez com que o Vini começasse a passar mal. Mesmo assim tocamos em frente.Chegamos inclusive a beber água acumulada nas bromélias. Eu e o Bozó, que estávamos melhor, seguimos mais rápido enquanto Daniel ficou para trás acompanhando o Vini. Chegamos ao ponto de água e enchemos os cantis e o Bozó voltou correndo para encontrá-los e matar a sede dos amigos. Já eram 16:50 horas quando chegamos na rodovia BR-354, onde o resgate que eles tinham combinado estava esperando. A Patrícia, que era a dona da caminhonete de resgate me deu uma carona até Itamonte, onde seria meu pernoite. Por coincidência, a Patrícia era o resgate dos rapazes que estavam perdidos quando cheguei em Passa Quatro. Como eles não chegaram no ponto de resgate no dia combinado, ela entrou em contato com os bombeiros e com a família dos rapazes. Era o fim da travessia. Uma das mais puxadas e mais bonitas que já fiz. Foi também a última vez que vi os amigos Daniel e Vinícius. O Bozó eu encontrei de novo em Belo Horizonte agora em maio de 2019. Foi uma travessia que exigiu muito, mas que ofereceu muito mais em troca. Alvoradas e crepúsculos inesquecíveis. Paisagens sem igual, amizade, companheirismo. E que deixou uma vontade enorme de retornar e fazê-la novamente. Parque Nacional de Itatiaia. Agulhas Negras e Prateleiras. Desde que eu estava no hostel em Passa Quatro, eu já estava procurando um guia para o Parque Nacional de Itatiaia. Sabia que se tudo desse certo eu terminaria a travessia na segunda-feira 24-09 e na terça-feira 25-09 queria ir para o PNI, para subir o Agulhas Negras e o Prateleiras. Durante os telefonemas para casa, eu vi que teria que voltar logo. Dessa maneira, eu teria que fazer os dois cumes no mesmo dia. Entrei em contato com vários guias, mas ninguém queria fazer os dois cumes em um único dia. Uns disseram que não dava. Outros disseram que não era permitido. Até que encontrei um cara. Tudo isso pela internet e pelo tal de whats app, que eu nunca tinha usado antes disso. Deixamos mais ou menos combinado. Ele me cobraria 300 reais pela guiada. Eu sabia que o PNI exigia equipamentos para a subida aos cumes. Eu não tinha esses equipamentos. Após o PNI eu teria que voltar para casa, minha jornada terminaria ali, portanto não precisaria mais ficar regulando a grana. Durante a travessia da Serra Fina a gente ficou sem contato. No final da travessia, o resgate dos mineiros me deu uma carona. Eu tinha planejado ficar no Hostel Picus, ou no Yellow House, mas ambos estavam fechados. Dessa forma fui com eles até Itamonte, onde me deixaram e seguiram rumo a Passa Quatro. Saí procurando hotel ou pousada e acabei ficando no Hotel Thomaz. O Hotel era bom e tinha um restaurante onde eu jantei. Só que fica bem na rodovia e eu peguei um quarto de frente para a rodovia e o barulho dos caminhões e carros freando durante toda a noite incomodou um pouco e prejudicou o sono. Na manhã do dia 25-09-2018, terça-feira, acordei bem cedo, tomei banho, preparei as coisas que levaria para o Parque, entrei em contato com o guia e desci para tomar o café da manhã no Hotel. Por volta das 7 horas o guia chegava de carro para me pegar e seguirmos para o parque. Durante o caminho fomos conversando e falei pra ele sobre a travessia e sobre o caminho da fé e pedra do Baú, que tinha feito recentemente. Ele também é guia na travessia da Serra Fina. Chegamos ao parque fizemos os procedimentos de entrada, onde um guarda-parque alertou que caso não começássemos a subida do Prateleiras até as 14 horas, não deveríamos continuar. Desse modo, às 08:45 da manhã iniciamos nossa caminhada rumo a base do Agulhas Negras. Ele apertou o passo, acho que querendo me testar. Eu fui acompanhando de boa. Paramos num riozinho para abastecer a água e fazer um lanchinho, já próximo da base. A conversa ia progredindo e ele me falou que achava que eu era um cara que parecia estar preparado e que normalmente ele guiava por uma via conhecida como Via Normal ou Via Pontão, mas que se eu quisesse a gente poderia tentar uma via diferente, pra se divertir um pouco. Falei pra ele que ele é quem estava guiando e que por mim tudo bem. Dessa maneira subimos por uma via menos utilizada, que passa por dentro de uma espécie de chaminé que é conhecida como útero. Na verdade quando você emerge dessa “chaminé” é como se você estivesse nascendo. Não levamos capacete, nem cadeirinha, apenas uma corda e uma fita. Usamos a corda somente duas vezes, uma delas para rapelar e depois subir um lance de rocha que fica entre o falso cume e o cume verdadeiro onde fica o livro de cume. Atingimos o cume verdadeiro às 10:40 horas. Comemos, descansamos um pouco, apreciamos a paisagem, tiramos várias fotos e depois iniciamos a descida. Dessa vez por uma via diferente, a Via Bira. No início da descida um rapel de uns 40 metros por uma descida bem íngreme junto a uma fenda e uma parede. Bem legal. Foi uma descida bem bacana. Uma via bem mais interessante que a tradicional. Eram 12:40 quando chegamos de volta ao ponto onde tínhamos iniciado a caminhada. Fizemos um lanche rápido e às 13:00 horas partimos em direção ao Prateleiras. Desta vez sem mochila, sem corda, sem água. Só levamos uma fita de escalada, que foi usada uma única vez. Achei bem mais tenso que o Agulhas, apesar de mais rápido. Muita fenda, muito lance exposto, muito salto de uma pedra para outra com abismos logo embaixo. No ataque final, nos últimos 15 minutos, o cara me salvou por duas vezes. A primeira em um lance de escalada livre onde se tem que fazer uma força contrária. Como não tem "pega", a gente sobe com os pés numa face da fenda, empurrando a outra face para baixo. Complicado. Eu tava a abrindo o bico de cansaço aí ele me deu a mão e a puxada final. Depois disso, num paredão bem inclinado, tinha que começar a subir quase correndo agarrando na pedra para conseguir chegar ao fim. Faltando um meio metro para o fim dessa rampa minha bota começou a escorregar na pedra e eu fiquei sem força. Gritei ele e novamente me deu a mão ajudando a chegar. Muito tenso. Atingimos o cume às 13:50 e depois de alguns minutos começamos a descida. Paramos para comer uma bananinha e paçoca e descemos mais tranquilos. Às 14:58 estávamos de volta ao local onde tinha ficado o carro. Daí o cara olha pra mim e fala: - Agulhas e Prateleiras em 6 horas. Nada mal. E rachamos o bico de dar risada. Tinha acabado de subir dois cumes que sempre tinha sonhado. Agulhas Negras e Prateleiras. Os dois em cerca de 6 horas. Eu estava muito feliz. O visual de cima dessas montanhas é incrível. Mas a experiência da subida é demais. A adrenalina a mil. Saber que um escorregão e já era. Isso não tem preço que pague. Acabei ficando amigo do guia e ele me deu uma carona para Itanhandu no dia seguinte, onde pegaria o ônibus de volta pra minha terra. Dormi mais uma noite no mesmo hotel, dessa vez num quarto de fundos e o sono foi muito melhor. Desci para comer um sanduíche de pernil numa lanchonete próxima e bebi uma coca-cola de 1 litro. Depois de todo aquele esforço eu merecia. VID-20180925-WA0004.mp4 VID-20180928-WA0014.mp4 VID-20180928-WA0014.mp4 vidoutput.mp4 Na manhã da quarta-feira, 26-09, eu parti de volta para Maringá, com uma parada longa em São Paulo, de onde saí de noite e cheguei em casa na manhã de 27-09-2018. Decidi ir pra casa a pé. Pra caminhar um pouco. rsrsrs. Logo depois do almoço eu estava em casa e na manhã do dia seguinte tudo voltaria à mesma rotina de antes. Mas eu não era o mesmo cara que tinha saído 23 dias antes. Eu tinha caminhado mais de 420 Km. Tinha estado em 3 dos dez pontos mais altos do país. Tinha visto o sol nascer e se por proporcionando espetáculos inesquecíveis. Tinha conhecido gente da melhor qualidade, o povo bom e humilde do interior de Minas Gerais. Dá para aguentar essa rotina por mais um tempo, numa boa.
  4. Bom dia/tarde/noite aos aventureiros e aventureiras. Apesar de existirem dezenas de relatos sobre a Travessia da Serra Fina, creio que, independente de todos compartilharem do mesmo objetivo (completar o roteiro), também possuímos experiências e perspectivas diferentes das situações que planejamos e encontramos, portanto, como os relatos nos ajudaram muito, retribuirei com minha parte, para quem sabe ajudar próximos aventureiros também. Não tem como escapar, a rotina de trabalho dificulta muito os planejamentos para realizar estes desafios. Juntando a temporada ideal + 4 dias de folga seguidos = feriado prolongado. É grupo em cima de grupo. Você sobe em uma árvore e tem gente sentado no galho que você iria sentar, cava um buraco e sai três trilheiros, pega fila para abraçar a árvore, saem 15 pessoas de Robert na selfie (fica parecendo entrevista de político com os papagaios de piratas atrás) e por aí vai. É lotado mesmo e ponto final. Isso é um problema? Não se você for já sabendo isso. É possível curtir e apreciar tudo sim, afinal é melhor uma Serra lotada do que o metrô de Sampa. Eu e minha companheira Mi ingressamos nas trilhas há alguns anos. Como paulistanos, fomos conhecendo as trilhas mais próximas. Subimos aqui, ali e logo começamos a sentir falta de algo mais imersivo. Descobrimos as inúmeras travessias que podem ser realizadas próximo a SP, principalmente nas divisas de MG e RJ. Já que é o desafio que nos motiva, nos preparamos para a Serra Fina, a travessia mais difícil do Brasil, segundo algumas reportagens. Se é verdade, ou não, explicarei ao longo do relato. Feriado prolongado de 9 de julho, no meio do inverno, em alta temporada, nas férias de julho de muitos trilheiros, previsão de maior frente fria já registrada... Pensamos igual no filme missão impossível: altas chances de fracasso, certeza de explosão, é isso, vamos. Chega de introdução, vamos para o relato. Nosso grupo se define em: Rafael, Miriam, Luan e Charles (guia). Roteiro previsto: 1º dia: saída da Toca do lobo - Pernoite no Pico do Capim amarelo ou Maracanã (01h30m depois) - Aprox. 7 km; 2º dia: saída Pico do Capim Amarelo ou Maracanã – Pernoite Pedra da Mina - Aprox. 7 km; 3º dia: saída Pedra da Mina – Pernoite Pico dos 3 estados - Aprox. 7 km; 4º dia: saída Pico dos 3 estados – Pernoite Sampa City Summit - Aprox. 11 km. Total aprox. 33km. Na prática: 1º dia: Saída do Hostel as 07h com o transfer. Chegada no início da subida de barro as 07h30m aproximadamente. Dependendo do transfer, ele te leva uns 500 metros mais para cima, bom negócio se for possível. Começamos a subir e as 08h estávamos no point inicial. A toca do lobo. Todos se abasteceram de água no nível máximo (4L cada), pois precisaríamos de água para o dia e para a janta, já que o próximo ponto de água seria 01h:30m após o Pico do Capim Amarelo, no maracanã. Tivemos uma breve conversa com o guia Charlinho, no qual explicou o roteiro, dicas, perigos, etc. Partimos para a aventura. 🧗‍♂️ Como previsto, você sobe, daí sobe um pouco, sobe ali, escalaminhada aqui, subiu um trecho, subiu outro, daí tem uma subida e você chega onde? No ¼ da subida do dia. Num trecho famoso, o quartzito. Muita nuvem, mas já bonito e animador. Que tal subir agora? Subiu, subiu e continuamos subindo, até que apareceu um dos cartões postais da travessia. O passo dos anjos. Emblemático trecho que mostra toda crista da serra que vinha pela frente no primeiro dia. Só que aconteceu o que previmos, estava com neblina devido a chuva do dia anterior. Não vimos no ângulo tão sonhado, mas conseguimos uma imagem semiaberta depois que passamos. Paramos algumas vezes para petiscar e adivinha? Subimos mais. Daí aconteceu algo que abalou a todos. Estávamos na trilha quando passamos por uma senhora que estava desacordada. Isso quando já estávamos há mais de 2 mil metros de altitude. Ficamos sabendo depois que ela teve um AVC e inclusive saiu no G1 uma notícia sobre isso. Esperamos que ela esteja bem. Um helicóptero dos bombeiros fez um trabalho espetacular junto dos guias que estavam na montanha. Fizeram uma tremenda força tarefa e conseguiram levar a senhora até o helicóptero, que conseguiram pousar NA MONTANHA. Foi um trabalho de extrema competência. Todos ficaram baqueados, mas seguimos em frente. Fica como um adendo para todos. A montanha deve ser levada a sério. Muito importante estar com exames em dia e se preparar, pois imprevistos podem acontecer, infelizmente. Após este ocorrido, fizemos um lanche em uma área coberta por bambus e já fomos recebidos pelos proprietários da montanha, . Os ratinhos. Chegam a ser bonitinhos, pois são pequenos, como hamsters, mas não deixa de ser um rato, eita bicho medonho e travesso. Já notamos que eles estariam presentes na viagem. Também ficamos chocados com trechos congelados que encontrávamos já na subida. Imagine o frio que estava por vir. Chegamos no capim amarelo as 13h. Um local incrível. Já sentimos muito orgulho de ter iniciado essa aventura. Conversamos sobre o planejamento e decidimos ir para o Maracanã, pois seria mais próximo da água e também do próximo destino do dia seguinte. Ao descer o capim amarelo, o joelho do nosso amigo Luan deu uma esperneada, afinal o dia da ascensão exige muito. Decidimos parar em um bambuzal bastante abrigado, chamam de "avançado". Por volta das 15h já estávamos com as barracar montadas e prontos para um por do sol próximo dali. No fim ficamos sabendo que fizemos boa escolha, perceberá o porquê. Pendure suas comidas e lixos em árvores, pois os ratos causam nesse lugar, como em qualquer outro. Tivemos visitas na madrugada que incomodaram um pouco. Inclusive a barrigueira da Mi foi roída , pois havia o sachê do gel (que é doce) usado, então deve ter vazado um pouco. Tivemos de colocar as cargueiras para dentro da barraca. Deixar no avance deu receio. Aproveitamos e usamos as mochilas para colocar a perna em cima nos locais onde dormimos inclinados. Importante nivelar para não ter dores na madrugada. 2º dia: Sair da barraca já foi o primeiro desafio, pois o frio estava insano. Arrumamos as coisas, tomamos o café e iniciamos o dia. Não adianta, a roupa para o dia depende de cada um. Alguns saem igual esquimó e ficam no efeito cebola o dia inteiro, outros já saem com pouca roupa para fazer menos pausa para tirar. Todas as vezes que coloquei blusa a mais eu me arrependi. Assim que o sol aparece você já começa a sentir calor. Protetor solar eu já passo antes mesmo do sol aparecer, pois nessa altitude o sol judia. 40 minutos após o início da caminhada e avistamos o Maracanã. Os grupos que dormiram ali já estavam saindo também. Para surpresa nossa, todos reclamaram do frio. Congelaram todas as águas que eles tinham nas garrafas. Fez -8º no maracanã, surreal. No bambuzal pegamos uns 0º, tivemos “sorte”. ❄️ Reabastecemos em um ponto de água logo após o maracanã. Fizemos um isotônico do Popeye e deixamos 2 litros de água na camelbak para cada um caminhar, visto que antes do ataque ao cume da Mina haviam 2 pontos de água para reabastecer completo. Desde a primeira subida do dia já podíamos avistar nosso objetivo: a Pedra da Mina. Eita negócio alto. Quando você acha que ela é pequena, você se surpreende ao ver o pessoal mais atleta já subindo com as mochilas fluorescentes. Pareciam 1 grão de areia na montanha. Dia mais agradável de percurso, pois são constantes sobe e desce, diferenciando bem do primeiro dia do Everest amarelo . Logo após o primeiro "mini" cume que passamos já tínhamos uma linda vista do Capim Amarelo atrás. E também conseguíamos ver Marins / Itaguaré no fundo. Que show! Quase chegando na base da Mina, fomos para o ponto de água chamado cachoeira vermelha. Incrível o lugar. Água com muito ferro, por isso dos tons avermelhados. Reabastecemos com água para a janta, pois o próximo ponto de água só aconteceria no dia seguinte após descermos a Pedra. Ao chegar na base da Pedra, passamos por cima da mini ponte do rio que cai 🌁. Ali havia um bom acampamento no qual vimos um grupo já instalado para pernoitar. Era um grupo com roteiro diferente. Eles não dormiam nos cumes, fizeram um outro planejamento. Ali tinha o rio com pessoas abastecendo para a subida, mas eu não acho uma fonte muito confiável. O guia inclusive comentou que pode estar contaminado. É ao lado do acampamento, consequentemente os banheiros também devem ser. Se for pegar esta água, ferva e jogue o clorin como precaução, pois dor de barriga ninguém merece . Iniciamos o ataque. Estávamos pesados com a água, mas suportável. Como todas outras subidas da travessia, esta era mais uma bem estruturada. Sempre com degraus “curtos” formados pelas pessoas. Quase não esticamos as pernas na travessia inteira, pois as ascensões eram todas em pequenas “escadinhas” já formadas. Um agravante seria o barro, muito presente na serra inteira, mas como a temperatura estava hiper baixa, os barros estavam congelados, evitando possíveis deslizes dos pés ao subir. Uma boa perspectiva para ver o tamanho da encrenca com as formigas atômicas fluorescentes subindo. Pausa na subida da Pedra com a vista para o Capim Amarelo a esquerda da foto (ponto onde iniciamos o dia). Chegamos no incrível no cume, que lugar sensacional! Sem dúvidas o pico mais legal de toda a viagem. Bem cheio de barraca, pois haviam os grupos da travessia completa, meia travessia e bate a volta pelo Paiolinho, uma opção bem legal de chegar na Pedra da Mina também. O bom é que há espaço para todos, pois mesmo sem ficar no cume, você consegue ficar logo abaixo dele, 5 minutos de caminhada. O Agulhas Negras já aparecia imponente no parque Itatiaia. Que vista! Pegamos um baita pôr do sol, jantamos e fomos dormir. Nessa noite conseguimos uns goles de cachaça e dormimos mais quentes. Já virou um item indispensável para as próximas travessias. O cobertor de litro salva sua noite.🍹 3º dia: Meio congelado, meio vivo. Era mais ou menos nossa situação. Com certeza fez menos que -5º esta noite. Serra fina do gelo!!! Após o ritual sagrado de desmontar, arrumar e seguir, iniciamos a descida pelo lado de trás da montanha, num visual muito show! O vale do Ruah já se destacava no nascer do sol. Os primeiros raios de sol no Vale refletiam o rio de uma maneira diferente, achamos estranho. Quando chegamos perto que entendemos, o rio inteiro estava congelado. Imagine como foi a noite num dos locais mais frios do Brasil. Há quem diga que bateu -15º. E que lugar muito doido, achamos legal demais. Capim Elefante para todo o lado, barro, labirinto, rio congelado... Parecia um filme! Bom momento para se despedir da bota semi limpa. Ali não tem jeito, você vai usar todas funções da sua bota impermeável. Os grupos seguiram e abasteceram a água em umas cachoeiras mais a frente, mas nós abastecemos antes em uma correnteza que passava no meio do vale. Parecia bem limpa e cristalina, afinal é dali que surge a fonte do Rio Verde. Nome fácil de entender, pensa em uma água transparente e limpa! Atenção!!! É aqui o último ponto de água da trilha, basicamente. Coloque água nas garrafinhas, camelbaks, meias, bonés, toucas, etc. 🌊. Saímos com 4 litros e pouco cada um (para caminhada do dia, jantar e caminhada da volta). Foi o suficiente, mesmo fazendo macarrão a noite. Também passamos por mais cristas, muito lindas por sinal, em direção ao cupim de boi. Da pra entender o porquê do cupim de boi. É esta montanha menor que está um pouco abaixo do Agulhas Negras. A montanha a direita é a cabeça de touro. Bem alta e imponente, mas é um passeio a parte. Do cupim, partimos pelas cristas até a montanha mais alta a esquerda, que já é o Pico dos 3 estados. Pedra da Mina ficou para trás... A caminho do cupim do boi a esquerda. Chegando no topo do cupim, fizemos um almoço com vista para o Pico dos 3 estados de um lado e todo o parque do Itatiaia do outro. Vista incrível!!! O Agulhas Negras estava nítido, mesmo há bons km’s de distância. Dica: Levem filtros de lente UV e Polarizados para a câmera. Eu esqueci a minha câmera no transfer, sorte que a Mi tem uma super potente com um zoom sinistro, mas as fotos ficaram azuladas com a luminosidade da altitude. Energias renovadas, partiu 3 estados. Trilha nota 10. Escalaminhadas só próximo ao cume. Nenhuma pernada longa, escalaminhamos porque no final estava mais íngreme e escorregadio, mas não havia exposição. Mais uma montanha top 10 Brasil na listinha pessoal!!! Rolou aquela vida “chata” de bater papo sentado nas pedras do cume, vendo o pôr do sol, tomando um refresco, se preparando para o jantar e rindo dos perrengues da trilha. Depois disso caímos no sono. Noite bem tranquila, local abrigado por capim, então rolou pouco vento, foi bom o descanso. Não esquecendo nunca daquela boa olhada no céu MUITO estrelado e das cidades brilhando bem longe. Que cenário show! 4º dia: Já acordamos naquele ar de: Será que tô feliz por conseguir chegar até aqui? Triste por ir embora? Feliz por chegar perto de um banho? Triste por pensar na rotina de SP voltando? Não tem segredo, o jeito é curtir o momento. E esses momentos são incríveis todos os dias da travessia. Todos têm suas particularidades e belezas diferentes. Nascer do sol de praxe... Despedida da montanha e partiu dia mais longo (11 km). Como diz a Mi, subir é sempre mais difícil, em tudo na vida, mas na serra fina não tem nada fácil. Até o descer é difícil, pois os joelhos já estão cansados dos 21 kms já percorridos e o esforço da constante descida é ainda mais doloroso para os joelhos do que a subida. Mesmo já não estando tão pesado. Tínhamos quase 1,8L cada em média para o dia até a última fonte, que já é próxima do fim. Sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce até que avistamos a última subida da viagem. Até comemoramos quando subimos, pois para quem tem joelho meio abalado, subir é melhor que descer. Chegamos no Pico dos Ivos, mais um dos muitos picos de 2400+ que passamos. Paramos para o lanche, fizemos a selfie da equipe e voltamos para a descida. Se tivesse uma tirolesa do pico dos 3 estados até a fazenda pierre, seriam 2 horas na corda de aço eita descida interminável! Aos poucos a vegetação foi mudando, brigamos com os bambuzinhos (use capa nas mochilas e proteja seu isolante, pois a treta é brava) e a mata mais fechada surgiu. Incríveis bons km’s no meio da mata, show de bola! Nossa água deu na medida. Acabou a hidratação minutos antes da última fonte de água antes da saída. Já batia um sentimento de saudade da montanha. Andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, chegamos na mansão do Pierre. Olha só, chegamos! Não, não chegamos. Ainda tinham uns 2 km, eita! Meu joelho, que vinha tão bem, já começou a me questionar o pq eu estava fazendo isso com ele e decidiu resmungar, mas isso ficou de lado e foi só comemorações e orgulho do corpitcho que, apesar de um pouco acima do peso, conseguiu aguentar essa travessia incrível. Chegada... Óbbbbvvviiioo que brindamos com a cervejinha na casa e fomos para o transfer. Pensa numa cerveja merecida! Fim... Vou deixar informações abaixo sobre o que utilizamos. Minha companheira Mi, que a todo momento ficou ao meu lado, foi um exemplo de força, determinação e comprometimento. E claro representando as mulheres, que já são mais fortes e corajosas 💪 por natureza. Senti muito orgulho de poder participar de momentos como esse. Certos ensinamentos e pensamentos só são apreciados de verdade na montanha, quando estamos na hora da dificuldade, na hora da esperança e também na hora da vitória! Luan, um parceiro que surgiu do boteco e com certeza perdurará muitos anos, tanto nas trilhas, como nos botecos também, óbvio. Sempre agradável e solicito, um rapaz de futuro! Charles joelhos de aço, nosso guia atleta, que nos ajudou a todo o momento e deu o suporte que precisávamos. Além de cada dia tirar uma surpresa da mochila para comemorar. Nosso muito obrigado! Um exemplo de que todos nós podemos realizar nossos desejos e enfrentar nossos medos. Menino, menina, homem, mulher, idoso e idosa. Vimos todos juntos nas trilhas, se unindo e se incentivando. Bonito de se ver o respeito, educação e limpeza que os guias pregam para todos, proporcionando uma montanha agradável, limpa e o menos impactada possível. Se você tá em dúvida se aguenta, se é bonito o lugar, se vale a pena... pode parar por aí. Se prepare, se equipe com materiais de qualidade e partiu! A Serra Fina é possível para todos! Equipamentos necessários /// utilizados: · Mochilas cargueiras 70L ou mais. Item primordial, pois temos escassez de água e trajetos relativamente longos. A capacidade e ergonomia precisam ser consideradas com seriedade. Invista na sua cargueira /// Cargueira Deuter Aircontact Lite; · Sacos de dormir conforto 0º ou -5º /// Deuter Orbit -5. Foi mais do que o suficiente. Deu conta dos -9º que passamos. Não vacile com o saco de dormir, pois hipotermia é perigoso de verdade; XXX · Isolante Térmico. /// Naturehike modelo inflável Nylon TPU. Ótimo custo benefício. Isolantes tapetes também são ótimos. Ideal os de 1 cm de espessura, pois o chão é muito frio e úmido; · Bastões de caminhada. Joelhos agradecem! Acho primordial. /// Bastão de Trilha Arpenaz 200 Quechua. Modelo ok, até que aguentou, mas possuem bem superiores no mercado; · Travesseiro. Fica ao critério de cada um. O ideal é inflável para ocupar menos espaço e peso. /// Naturehike dobrável; · Barraca 2 ou 3 pessoas. Quanto mais leve e bem projetada para ventos, melhor. /// Naturehike Cloud 2p. As vezes sentimos falta de espaço, pois eu e a Mi somos relativamente altos (1,83 e 1,70), mas no frio isso não é um problema. XXX · Lanternas de cabeça e de punho. Tem que ter ou vc só funciona até o por do sol. Item obrigatório. XXX / Importei da china, nem sei o modelo, mas vale dar uma investida. · Kits cozinha: fogareiro, gás, panelas, talheres, papel toalha, álcool em gel, pratos, etc. · Botas. Impermeáveis, confortáveis e com ótima aderência (para as escalaminhadas cheias de barros e pedras). Se for nova, amaciar antes da viagem! /// Salomon Mid GTX; · CamelBak ou Garrafinhas. Vai do gosto de cada um. Gosto da praticidade da camelbak, pois você se hidrata sem parar. /// Modelo chinês, 2L. Paguei barato e deu problema na torneirinha. Aconselho investir um pouco, pois perder água por vazamento numa travessia com escassez de fontes não é nada agradável. · Cobertor de alumínio para emergências; · Roupas: Corta-vento, Jaqueta e calça impermeável, camisetas de manga comprida com proteção UV, meias para trilha, luvas (ajudam a escalar também), touca e boné, Buff (proteção UV para nariz, boca e nuca); Tudo de secagem rápida e o mais leve possível. · Protetor solar para rosto e boca. Refeições: Tudo sempre prático, que utilize pouca água de preferência e que tenha alto valor nutritivo. Na próxima viagem levarei ovos para o café da manhã. Desta vez não levei e fez bastante falta. Não fizemos almoço, apenas parávamos e comíamos os petiscos em maior quantidade e hidratávamos com isotônico em pó diluído na água (excelente negócio!!!). Uma boa dica é variar o máximo possível. Fizemos os lanches com queijo e mortadela. O ideal é fazer no mínimo 2 sabores para não enjoar. Também não tomávamos um café muito elaborado, pois acordávamos muito cedo para caminhar e nessa hora o apetite não é dos maiores. Sempre se hidratando o máximo possível. Carregávamos 4 litros de água por dia para cada um. Também ingeríamos algo a cada 1 hora, para sempre manter energia. · Primeiro dia: o Café da manhã no hostel: Bolo de queijo, diversas frutas, sucos e café (caprichado, pois estávamos com o carro ainda); o “Almoço”: lanche; o Jantar: Risoto de queijo, frango em pedaços e legumes. Tudo pré-cozido. o Petiscar: 4 barras de cereais, mix de castanhas, banana e frutas desidratadas, isotônico para hidratação e 2 Carb-Up em gel. · Segundo dia: o Café da manhã: 2 bisnagas com presunto e queijo e café; o “Almoço”: lanche; o Jantar: macarrão, molho vermelho, calabresa e bacon; o Petiscar: 4 barras de cereais, mix de castanhas, banana e frutas desidratadas, isotônico para hidratação e 2 Carb-Up em gel. · Terceiro dia: o Café da manhã: 2 bisnagas com presunto e queijo e café; o “Almoço”: lanche; o Jantar: macarrão alho e óleo, calabresa e bacon; o Petiscar: 4 barras de cereais, mix de castanhas, banana e frutas desidratadas, isotônico para hidratação e 2 Carb-Up em gel. · Quarto dia: o Café da manhã: 2 bisnagas com presunto e queijo e café; o “Almoço”: lanche; o Petiscar: 2 barras de cereais, mix de castanhas, banana e frutas desidratadas, isotônico para hidratação e 1 Carb-Up em gel. o Jantar na humilde residência XXX. Guia: Charles Llosa. Muito experiente na montanha, nota 10! - 35 9917 9001 Transfer: Leleco, gente boa, carro 4x4 (necessário) e pontual. - 35 9747 6203 Hospedagem: Hostel e Pizzaria Serra Fina. Falar com Felipe. - 35 99720 3939 Dúvidas só perguntar que respondo. Abraços.
  5. A TRAVESSIA DA SERRA LINDA - E FINA. Relato sobre a travessia da Serra Fina – MG, realizada por Julio Celestino Pedron Romani e Cristiano Cavanha. Dizem por aí que o nome Serra Fina foi inspirado nas estreitas cristas das montanhas que a compõe. Resolvi confirmar in loco e descobri outro significado: Fina, no dicionário, refere-se ao que expressa delicadeza; delicada; cortês; de excelente qualidade. Também contam que é a travessia mais difícil do Brasil. Se é não sei, não fiz todas e particularmente acho impossível comparação como esta quando o assunto é natureza e montanha. Mas que é difícil, isto é. Após ler um dos livros sobre as conquistas dos Senhores Arlindo Zuchello e Édio Furlaneto (Treze Cumes do Brasil), houve um processo de iluminação e decidi descobrir as montanhas do Sudeste. Partimos então eu e meu parceiro de fé meu irmão camarada Cristiano, de Curitiba com destino a Minas Gerais para andar 32 Km de Passa Quatro até Itamonte. Ansiosos para os últimos preparativos, fomos recepcionados pela também Finíssima Passa Quatro em um final de sábado azulado de julho. Nos deparamos com uma exposição de carros antigos em que os fuscas predominavam; com a maria fumaça manobrando na velha estação e a torre da igreja centenária ao fundo. Extasiados com a acolhedora muvuca da pequena cidade (naquele dia era a abertura do festival gastronômico local), em menos de uma hora estávamos conversando com o Seu Cipriano e acertando o transporte, após providenciarmos queijo, salame e cachaça mineira. Sem isto, não teria travessia. (Foto:Recepção em Passa Quatro) Sete da noite estávamos em um fusca de estado duvidoso (o que significa exatamente nada para um fusca...) rumo ao ponto de início da pernada. Conversa vai e vem, descobrimos que o Seu Cipriano do Fusca era o Edinho da Toyota, recomendado por muitos montanhistas e cujo número estava anotado desde Curitiba. Na pressa para resolver as últimas pendências, ao invés de ligar para ele pedimos indicações para os comerciantes e funcionários da Estação e por coincidência chegamos a mesma pessoa. Sendo tanto eu como o Cristiano proprietários e apaixonados pela baratinha, já curtimos o início da bagunça. Após 15 KM de aclive esburacada, sob medida para o Volks, o mineiro gente boa e contador de causos nos deixou na Toca do Lobo em uma noite estreladíssima, não sem antes recomendar a trilha via Paiolinho em caso de desistência e sobre a escassez de água. No início de nossa conversa ele pareceu um pouco espantado com os dois malucos indo para aquela empreitada pela primeira vez sem guia. Contou quando nos reencontramos que ficou preocupado com nossa ausência na terça, pois assim tinha entendido ele que seria o dia em que voltaríamos, quando na verdade programamos o retorno para quarta-feira. A noite estava seca e com céu limpo, propícia para um bivaque, mas decidimos montar as barracas a fim de termos mais conforto e nos recuperarmos da viagem. Abortamos a janta pois almoçamos um elefante em Aparecida as três da tarde. Ouvi três assobios finos e cadenciados ao longe e como não pareciam em nada com o som de algum pássaro conclui ser o Saci avisando para respeitarmos Pachamama. Após ver alguns meteoros rasgarem o céu, noite bem dormida. Oito da manhã estávamos com o pé na trilha e em menos de 40 minutos já tínhamos maravilhoso visual; pegamos água no Quartzito e tocamos rumo ao Capim Amarelo. Como Montanhistas Amadores Profissionais Contemplativos Raiz que somos, era vinte passos e dedo na máquina, mais vinte e olho no horizonte, nas montanhas, na vegetação, nas pequenas cidades lá embaixo, na imensidão... E assim foi o restante da Travessia: contemplação e imersão na paz e energia infinita lá de cima. Uma marcante característica da Serra Fina é o visual constante e de extrema beleza. Em pouco tempo já se atinge os dois mil metros, altitude esta que só baixará ao final da caminhada. Cada trecho realizado é fantástico e peculiar, sendo desnecessário tentar descrever com palavras pois resultaria em um livro e seria enfadonho. (Foto: Rumo ao Capim Amarelo) Calculo que ali pelas três da tarde, pelo sol, chegamos ao Capim Amarelo. Pernada exaustiva, mais ou menos o esperado. Desde que comecei a estudar sobre esta travessia, imaginava comparações com as familiares montanhas Paranaenses. Creio que é equivalente no mínimo a um Pico Paraná por dia em esforço e distância (porém a altimetria varia muito mais, especialmente entre o Capim e a Mina). Andando sempre acima de 2000 metros, não há a raizeira e os vales úmidos característicos das montanhas mais baixas . Diferente do que é muito propagado por aí de que o primeiro dia é o mais difícil, todos os trechos são de igual dificuldade, cada um com suas características. As distâncias são realmente muito grandes, a alternância de aclives e declives é frequente; some a isto a cargueira, que mesmo muito bem planejada, sempre será pesada. Além do mais, em 2.600/2800 metros o organismo já sente o efeito da menor pressão atmosférica de oxigênio. Não é um sorochi, mas a exigência cardiorrespiratória é maior, certamente. Consideração digna de nota: sujeira só encontramos no Três Estados. Quem frequenta a Serra Fina, cuida. Talvez pela dificuldade, farofeiros de plantão (ps.: o termo farofeiro pode servir para muitos que se auto intitulam montanhistas) portando vinho em garrafa de plástico e dispostos a quebrar o silêncio da montanha não se aventuram para deixar suas indeléveis marcas. Muito diferente do depósito de lixo que viraram as montanhas da Serra do Mar Paranaense, mas isto é outra história. Aproveitando dias de férias, conseguimos programar de maneira a evitar aglomerações e assim, até o Capim pegamos algum movimento, depois encontramos somente dois pequenos grupos fazendo a travessia inversa e um jovem casal no mesmo trajeto que a gente. Todo montanhista é um pouquinho egoísta e fica mais feliz se tiver a Montanha só para si… fato inegável. (Foto: parte da trilha percorrida no primeiro dia - vista do Capim Amarelo) Após montar acampamento, analisamos o percurso para chegar até a Pedra da Mina e fiquei apreensivo com a distância a ser vencida no dia seguinte. Me assolou um profundo sentimento de impotência que se evaporou após uma farofa de carne seca e um cochilo revigorante. Visual maravilhoso para todos os lados, contemplamos exaustivamente as demais montanhas da Serra Fina, o Marins, o Itaguaré e as cidades de Cruzeiro e Passa Quatro, mais ao longe Aparecida e Queluz. (Foto:Vista do alto do Capim Amarelo - Pedra da Mina ao centro) Ao cair da noite, Cristiano, cozinheiro oficial de nossas empreitadas, preparou aquela rica sopa para repor as energias. De rotina, café da manhã foi “rapidez” ou pão sírio com queijo e salame; sementes, barras, e glicose na caminhada e uma densa (e deliciosa) sopa todas as noites, além de algumas maçãs e cenouras. Acostumados a levar a despensa para os morros e voltar com metade para casa, nos policiamos e de excedente, só a quota de emergência. Assim conseguimos gerenciar bem a água e passamos muito bem alimentados, mas o gasto energético enorme me fez perder pelo menos 2,0 kg. Coberto pelo manto estrelado, muito cedo já estávamos nos braços de Orfeu, até porquê o forte vento e a temperatura baixa impediam muito tempo fora da barraca. Antes, aquela obrigatória sapeada no espetacular contraste entre o breu de noite de lua minguante e as luzes das cidades, mais parecendo brasas esparsas. Acordando junto com a claridade do dia, 8:00 estávamos descendo o Capim para subir o Melano (e muitos outros) e seguir à Pedra da Mina. Após o Maracanã há um ponto de água (não perene) em que completamos nossa hidratação e assim bebemos tanto quanto precisávamos e muito mais durante o percurso do dia. Tinha lido sobre este ponto, mas foi um camarada gente boa que estava guiando dois rapazes no sentido inverso que deu a letra, caso contrário não sei se teríamos encontrado. Fica a dica: passando o Maracanã, entre 5 a 10 minutos de caminhada, lado esquerdo (sentido Mina). (Foto: Aurora do alto do Capim Amarelo) (Foto: metade da trilha entre Capim Amarelo e Pedra da Mina - Capim Amarelo ao fundo) (Foto: Faces da Montanha) Vales, escarpas, montanhas, horizontes, vegetação e chegamos a cachoeira vermelha. Cruzamos um vale que lembrou paisagens Andinas – aliás, alguns trechos lembram os Andes Bolivianos – e na base da Pedra da Mina bebemos e nos abastecemos de puríssima e gelada água. Após contemplar o que suponho ser o Vale das Cruzes, em torno de quatro da tarde estávamos no alto da quarta montanha mais alta do país, para nós a maior altitude alcançada em terras Brasileiras. Despojada de vegetação, ao contrário do Capim Amarelo que recebe este nome pelos altos tufos em todo seu topo, o vento nos açoitava violentamente e a temperatura estava baixa. Chegamos ao cume com o tempo nublado e me pareceu que a chuva esperada para terça estava adiantada em um dia. Estávamos somente nós e o jovem casal que também estava fazendo a travessia, assim conseguimos encontrar um acamps razoável, protegido por muretas de pedra. (Foto: Suposto Vale das Cruzes. Vista da base da Pedra da MIna) (Foto: Pedra da Mina) (Foto: Mochila proseando com Apacheta) Fiquei preocupado com a possibilidade de chuva devido as condições do solo (compacto, repelia a água) e o leve desnível onde apertadamente montamos as barracas. Se chovesse, estaríamos em uma poça. Além disto, o vento e o frio eram insuportáveis, tornando um xixi uma atividade complexa, obrigatoriamente muito bem planejada e até perigosa: o vento exigia extremo esforço para se manter em pé. Porém o tempo abriu, pudemos apreciar o pôr do sol e mais uma noite viajamos pela via láctea, observando meteoros e as constelações, bebericando um chá quente e a ração de cachaça do dia, além de um espetacular palheiro mineiro. Lembrei dos meus colegas Xanxerenses e das adolescentes vigílias estudando o céu, contando meteoros e satélites, identificando planetas e cometas. Escorpião, cruzeiro do sul, Centauro… Ah céu da Mantiqueira, vontade de não sair mais debaixo dele. (Foto: Acamps no cume da Pedra da Mina) A manhã chegou sem o sol e o vento continuava intenso, o que nos fez demorar um pouco para levantar acampamento. Iniciamos a rápida descida ao Vale do Ruah, e o vento ficou para trás. Vimos que havia acampamento e ao nos aproximarmos fomos muitíssimos bem recebidos por quatro paulistas que estavam curtindo o Vale por alguns dias. Ao som de Pink Floid, tomamos um café com vodka, comemos granola e recebemos dicas de como atravessar o vale com menos estrago, ou seja, se molhando menos na nascente do Rio Verde – a mais alta do Brasil. Cristiano decidiu seguir o conselho de tirar as botas e preservá-las secas, eu preferi arriscar, escolhendo milimetricamente os tufos de capim onde pisar. Pensamos em fazer um caminho mais distante do rio, a direita, mas optamos por margeá-lo. No fim das contas, nenhuma decisão foi melhor que a outra. Quase no final do maravilhoso Vale, repentinamente houve uma precipitação de granizo e imaginei no frio que vinha junto. Dez minutos depois, além do frio, veio chuva e vento intensos. (Foto: Fantástico Vale do Ruah) Sob a intempérie saímos do Vale do Ruah rumo ao Cupim de Boi preocupados em chegar ao Bambuzal, local de acampamento muito bem sugerido pelos novos amigos paulistas, que nos demoveram da idéia de chegar ao Três Estados neste dia - mesmo com tempo bom seria besteira, constatamos depois. Como os dois Amadores Profissionais orientavam-se visualmente e por um mapa simples, além de uma bússola que pouco nos revelava naquele momento, o perrengue estava instalado. Não víamos mais de 10 metros a nossa frente, o vento empurrava-nos em direção aos precipícios e a chuva intensa encharcou tudo o que não estava protegido e também parte do que estava. Demos alguns perdidos, retornando a trilha sem muita dificuldade. Com visual quase zero e com a escassez de sinalização, agradeci aos colegas montanhistas que marcam a trilha com pequenos pedaços de papel metalizado e segui na frente olhando para baixo, até porque olhar para frente não fazia sentido... Subimos o Cupim de Boi sem saber que era ele; cheguei a pensar que tínhamos passado pelo bambuzal e estávamos subindo o Três Estados. Mesmo tendo encontrado e ultrapassado o casal que se adiantou enquanto paramos no Ruah e que portava um GPS, não houve alívio da tensão. Em determinado momento decidimos andar mais dez minutos e se são chegássemos ao bambuzal retornaríamos, pois a situação estava no limite. Nos encontrávamos em uma crista exposta sem nenhuma possibilidade de proteção e eu estava extenuado, sentindo o efeito do frio intenso. Jogava duas balas na boca por vez para ter alguma energia e mentalizava que não podia parar. Cheguei a pensar no pior quando sem esperar saímos do cume e penetramos em encosta protegida onde logo encontramos o Bambuzal, um local muito bem abrigado, excelente acamps. Lembro vagamente de montar a barraca e me livrar das roupas molhadas. Recobrei a consciência normal quando me enrolei no cobertor de emergência e, batendo o queixo, me vesti com roupa seca. As condições do tempo, a extenuação física mais a falta de um relógio (prometi a mim mesmo que será meu próximo investimento em tecnologia, um relógio de pulso de deizão do camelô), fizeram com que perdesse a noção de tempo. Pensei ser mais que 17:00, mas era em torno de 14:30. Com chuva e o saco de dormir parcialmente úmido, dormimos umas três horas após rapidamente comermos algo. A chuva lentamente parou e consegui ver algumas estrelas por meio dos bambus, prenúncio de frio e tempo bom no outro dia. Ao despertar as 6:00, percebi a vegetação totalmente seca. Estendi minhas roupas para esgotar um pouco a água e uma hora depois elas estavam congeladas, sob o frio de -2 graus como nos informou o gps do casal que também acampou no bambuzal. Então passei o segundo maior frio da minha vida (o primeiro foi a quase hipotermia do dia anterior), ao ter que calçar a bota e meias congeladas. Até botar o pé na trilha e esquentar, foi insuportável. Mas o sol estava lá e aos poucos foi secando – o que estava no corpo, porque o que estava na mochila chegou em Curitiba encharcado. Aliás, todo o peso que tínhamos aliviado com os mantimentos consumidos e gerenciamento de água foi substituído pelas roupas molhadas, e no último dia andamos provavelmente com o mesmo ou mais peso que no primeiro. Chegar ao Três Estados foi tranquilo, ao Alto dos Ivos também, mas a alternância de aclives/declives continuava. Após o alto dos Ivos, longo caminho em declive acompanhado da constante e maravilhosa paisagem, agora com destaque ao maciço de Itatiaia. Pudemos reconhecer o Agulhas Negras, Prateleiras, Pico da Antena, do Sino, etc., além do Picu, uma apacheta gigante que nos mostrava a rota a seguir. Se a Serra Fina não nos satisfizesse plenamente, meu plano desde o início era convencer meu parceiro a fazer o Agulhas na quinta-feira, mas resolvemos deixar para a próxima. (Foto: Vista do cume do Três Estados: Pedra da Mina a direita. O triângulo mais claro ao centro da foto é o Vale do Ruah - Dá para ter idéia das enormes distâncias!) (Foto: Cume do Alto do Pico Três Estados, tríplice fronteira - RJ/MG/SP) O final da travessia também é um Show. O Sítio do Pierre na verdade é uma fazenda maravilhosa e foi um prazer largar as mochilas sob as Araucárias e imaginar o que era aquele local, agora deserto. Seu Cipriano nos contou depois que ali já funcionou um Hotel; falando em nosso amigo, quando fizemos contato com ele recebemos a notícia de que deveríamos andar mais uns três quilômetros até a rodovia. Caminho maravilhoso também, mas inesperado; achávamos que o fuqueta subiria até a sede da fazenda. (Foto: Maciço de Itatiaia. Agulhas Negras a esquerda, Prateleiras a direita) (Foto: Picu e Araucárias: travessia concluída com sucesso!!) Reunimos forças e ao anoitecer fomos resgatados, com seu Cipriano encurtando caminho por uma estrada rural. Espremidos no Volks, esfomeados e felizes voltamos até Passa Quatro pelo poeirento caminho, onde pernoitamos em um hotel em frente à estação, suficiente para o que precisávamos. Creio que demos prejuízo, porque as toalhas brancas fornecidas passaram a coloração marrom mesmo após longo banho. Fomos prestigiar o festival gastronômico e devoramos um prato de leitoa à pururuca com tutu de feijão e aquele chopp para comemorar, além de degustarmos cachaças excelentes. Ainda curtimos os ares noturnos da pitoresca e maravilhosa cidadezinha antes de despencar na cama. Sinceramente, me senti desconfortável e não tive uma plena noite de descanso, pois senti falta da barraca, do isolante no solo duro e do amigo vento. Na manhã seguinte nos abastecemos de produtos mineiros no comércio da estação e arredores e, um pouco reticentes e já saudosos, partimos para o Paraná. Rasgo elogios a hospitalidade, educação e prestatividade do povo mineiro. Quem puder esticar um pouco após a montanha e curtir Passa Quatro e redondezas não se arrependerá. A travessia da Serra Fina é exigente, de modo algum recomendada para quem não tem alguma (e não mínima) experiência. Sem guia então, avalie as pernadas que fez na vida antes de assumir o risco e planeje muito, mas muito bem. Passei dez anos da minha vida imaginando se um dia iria usar o cobertor de emergência, e ele me salvou. A trilha é óbvia do início ao fim e muito bem marcada até a a Pedra da Mina, tanto pelo solo batido como pelas apachetas abundantes no caminho. Do vale do Ruah em diante os totens e outros sinais são escassos, mas se perder é difícil, só mesmo em caso de condições climáticas muito ruins ou inexperiência extrema. Sinal de celular é artigo de luxo e resgate também deve ser. Ter algum problema importante nesta travessia é preocupante. Creio ser pouco proveitoso fazer em menos de quatro dias, a menos que sua vibe seja chegar ao cume, sem priorizar o caminho. Fizemos a clássica Travessia de quatro dias e três noites, e achamos pouco! Assim, a volta ainda não tem data, mas já está certa, e o programa também: já decidimos subir a Pedra da Mina via Paiolinho e acampar alguns dias no Vale do Ruah, fazendo incursões a partir desta base; se repetirmos a travessia, e tenho certeza que sim, uns seis dias serão dedicados a esta porção da Mantiqueira. Como paixão te leva a algumas insanidades, dez dias depois estava com a família na Maria Fumaça de Passa Quatro e, sorrateiramente, fazendo juras para a Mina de abraçá-la novamente em breve.
  6. Boa tarde. Tenho interesse em realizar a travessia da Serra Fina no feriado prolongado de 6 a 9 de julho. Por enquanto sou eu e minha esposa. Talvez mais 2 colegas. Encontrei algumas agências que já possuem pacotes, mas o valor está um pouco acima do planejado (acima de 1k), portanto caso alguém esteja formando um grupo, queira formar um grupo ou que conheça um guia experiente, mande um oi o/ *** Edit: conseguimos formar um grupo com guia especializado no local e possui 1 vaga. Valor bem mais em conta que por agência. Interessados me mandem msg. Abraços.
  7. Bom, depois de muitos anos acompanhando o fórum eu resolvi contribuir também com este relato de um dos lugares mais incríveis que eu já conheci! A pedra da mina é um pico de 2795m (5o mais alto do Brasil) localizado entre o estado de São Paulo e Minas Gerais e é um dos picos opcionais presentes na travessia da serra fina (quem começa a travessia pela toca do lobo chega lá no segundo dia). A trip começou a ser organizada no ano anterior (2015) pelo André, um dos fundadores do grupo Trilhadeiros e o Danilo, fundador do grupo Trilhas e Passeios (ambos de São Paulo capital). O Danilo costumava levar a galera para trekkings de um dia, ele é tão louco que fez o caminho do sal inteiro em um dia (+ de 50km)! Sendo assim o André se ofereceu para guiar o pessoal para uma trip um pouco mais longa e complexa e que exigiria um pouco mais de preparo físico e psicológico. No meio tempo em que a viagem começou a ser planejada e o dia em que ela ocorre, houveram diversas mudanças, inclusive de pessoal e algumas até de última hora, infelizmente o Danilo teve alguns contratempos e não pode nos acompanhar na empreitada e teve que abandonar a trip na última semana! Com a saída de última hora do Danilo o André convidou o Oscar, o Hermano de Santa Fe que não consegue nem falar GPS sem entregar sua gringoles hahaha! Enfim, com o grupo de 8 fechado mudamos uma última coisa que foi o transporte, todos cancelamos nossas passagens de ônibus e fomos divididos em 2 carros. Eu, o Vinicius e o André fomos no carro da queridíssima Carol e o Andy, A Marta e o Oscar foram com o William. Saímos de São Paulo por volta da meia noite e chagamos em Passa Quatro por volta das 3:30 da manhã do dia 16. Chegando lá, nos encontramos todos em frente a casa do Edinho que nos levaria até a entrada para a trilha (quem já fez ou já leu sobre serra fina conhece a figura), não arriscamos subir até a fazenda serra fina com nossos carros comuns por que ouvimos dizer que a estrada estava péssima (#dica: se não tiver chovido na semana da pra subir de carro normal sim, vai penar um pouco com os buracos e com as subidas íngremes mas vai conseguir chegar lá!). O traslado ficou em 300,00, divido em 8 não ficou pesado pra ninguém! Chegando na fazenda, uma senhora veio nos atender com um livro para que assinássemos e nessa parte eu já estava morrendo de frio, depois de 1 hora pegando vento na carroceria da bandeirante do Edinho eu já não estava sentindo nem minha alma, e aí não é que a tiazinha vem de saia comprida e camiseta, como se tivesse um calor de 30 graus quando na verdade estava na beira dos 12. Livro assinado e cargueiras nas costas era hora de partir para a trilha! A trilha para a pedra da mina via paiolinho é uma das mais diversificadas que eu já vi, você começa dentro de uma mata fechada com características de floresta tropical, e termina em uma montanha com muito pedregulho e vegetação rasteira e espinhenta típica de florestas de altitude. A trilha se inicia dentro da própria fazenda à aproximadamente 1570m de altitude, e começa com aproximadamente 1km de subida leve seguido por descida leve de 1km também, após percorrer esses 2km você chegará ao primeiro ponto de água, onde você vai ficar babando com os poços d'Água que a corredeira forma, sem brincadeira, é a água mais cristalina é mais pura que você vai beber na sua vida! (#Dica: sugiro que você comece a trilha com o mínimo de água possível e ande com o mínimo também até o terceiro e último ponto de água). Atravessando a pequena corredeira você continuará por uma trilha de mata fechada (nesse final de semana que escolhemos pra ir estava tendo uma competição de corrida de montanha, a KTR. Dessa forma, a trilha estava bem aberta e muito visível, mas eu acredito que normalmente seria necessário um pouco mais de atenção pra não se perder). Andando mais a frente você passará pelo segundo ponto, não pegamos água nesse. Após esse ponto a trilha começa a ficar mais íngrime e você começará a ganhar um pouco de altitude. Logo no final da mata e no início da montanha existe uma clareira que você pode usar pra comer uma barrinha ou tomar um carb up (confie em mim, você precisará de energia para a próxima etapa), mas cuidado com as abelhas. A melhor parte é que logo à frente dessa clareira está localizado o último ponto de água, é aí que você deve encher todas os seus reservatórios para não faltar água no resto da subida e no dia seguinte quando você retornar, pois os próximos pontos não são permanentes e podem não estar lá dependendo da época que você for, te sugiro a subir com no mínimo 4 litros para não ter problemas. Deixando o último ponto de água, você começará a subir para valer agora, a primeira parte ainda é leve e é caracterizada por ser coberta por um capim elefante (use roupas longas para não se arranhar), saindo da vegetação você se deparará com o "Deus me Livre" (lembra que eu disse que você precisaria de energia? Pois é aí mesmo que a maioria será gasta). O Deus me livre é uma ascensão bem íngrime pela rocha em que você escalaminhará até o cume da formação rochosa e ganhará nada menos que 500 metros de altitude em uma paulada só! Não subestimem esse morro, eu vi neguinho da corrida arregando no meio dele, tomando capote por causa de câimbra e passando mal de sede, até ajudamos alguns que estavam nessa condição, com sal e repositor de eletrólitos. Minha dica é que você suba devagar, no ritmo do mais lento (caso esteja em grupo) e sem pressa, assim quando você chegar ao cume você poderá prosseguir até a próxima área de descanso ao invés de ficar lá em cima tomando sol na cabeça. Lá de cima você conseguirá enxergar o falso cume da pedra da mina, que é uma montanha enorme que esconde nas suas costas o cume verdadeiro da pedra da mina, esse por sua vez ainda não é visível dessa perspectiva. Muito bem, prossiga pela trilha descendo e subindo os 2 morros entre o topo do deus me livre e o início da subida do falso cume (apelidado gentilmente pelo nosso amigo Will de "Puta que Pariu"). Ao chegar ao pé do falso cume você encontrará uma clareira bem agradável e sentirá até vontade de acampar por ali, dependendo do seu grau de cansaço. Nós paramos ali por aproximadamente uma hora para descansar, uns aproveitaram o tempo para almoçar, outros para dormir, (alguns dormiram tão profundo que alegam ter sonhado que chegaram no cume hahahaha). Como eu estava pilhado na adrenalina, resolvi parar por alguns segundos e subir a frente do grupo antes que meu corpo esfriasse e a dor no joelho aparecesse. Essa subida também não deve ser subestimada, ela é extensa e técnica (não tanto quanto a do deus me livre, mas ainda sim não é uma subida simples), então tome seu tempo, beba água, pare alguns minutos para retomar o fôlego se necessário. Muito bem, chegando lá em cima do falso cume você já começa a ter uma visão muito mais ampla, já consegue enxergar o vale do Paraíba, as montanhas do Itatiaia e ainda tem a visão de Minas Gerais. Após alguns minutos que eu atingi o topo, os últimos 2 competidores da corrida chegaram lá, exaustos mas maravilhados com a paisagem, assim como eu. Eram eles o Luiz, de Atibaia-SP e o Vitor, de BH. Conversamos um pouco, trocamos contatos e eles iniciaram seu retorno montanha abaixo. Abrindo um parênteses gigante aqui para relatar um fato que eu esqueci de mencionar, quando chegamos em Passa Quatro, na frente da casa do Edinho estava um cachorro de rua muito simpático, brinquei com ele um pouquinho antes de partimos. Pois bem, quem estava lá em cima da montanha? O tal do cachorro, desidratado e incapacitado até de se mexer! Tentei dar água pra ele mas ele só conseguiu mexer a cabeça pra beber após alguns minutos. Eu não sou aquele tipo de pessoa totalmente animal friendly e coisa e tal, mas ver aquele cachorro lá em cima abandonado (ele deve ter seguido os corredores e não conseguiu retornar com eles devido ao cansaço), me partiu o coração. Logo em seguida meus companheiros chegaram e eu decidi que levaria o cachorro conosco pra cima e o levaria de volta para cidade no dia seguinte. O problema é que o cachorro não conseguia nem andar de tão cansado, então eu o carreguei por boa parte do fim do trajeto, resultando em uma lesão no joelho que me atrapalhou muito no dia seguinte (já adianto que valeu muito a pena). Fechando o parênteses, continuamos rumo ao cume verdadeiro, caminhando montanha a baixo e acima até o acampamento base que fica no pé da pedra da mina. Lá paramos pela última vez antes de atingir o nosso objetivo. A última subida é inteira pela pedra e bem sinalizada por totens, não tem como se perder. Quando chegamos ao topo já era aproximadamente umas 3 da tarde e estávamos todos exaustos, mas a vista compensaria todas as gotas de suor, todos os músculos e ossos que estavam doendo, todo o esforço que fizemos para chegar naquele ponto. O vento lá em cima é extremamente forte e constante, nos agasalhamos bem e fomos assinar o livro do cume onde nos deparamos com mais 3 pessoas que estavam acampadas lá (uma inclusive era um morador de São José do Rio Pardo, cidade onde meus pais moram, que coincidência não?) Após assinar o livro, montamos as barracas e nos preparamos para jantar e dormir, já que o por do sol não poderia ser visto por conta da serração que tomou conta da montanha. Após jantar, montei uma espécie de abrigo improvisado pro nosso dog dormir um pouco mais confortável e protegido do frio. Como não conseguimos ver o céu estrelado, eu e o Oscar fomos pra barraca descansar e combinamos de acordar de madrugada pra contemplar as estrelas. Acordamos então as 3 da manhã e o céu estava tão iluminado pelas estrelas que não precisava nem de lanterna para andar em cima da pedra! Galera, eu sei que todos falam do céu do Atacama e tal, mas aquele céu é simplesmente maravilhoso, dava pra ver as marcas das estrelas que estavam mais distantes, as estrelas mais próximas brilhavam tanto que até ardia os olhos! Infelizmente o frio estava muito intenso e o vento castigava muito, então logo eu voltei pra me abrigar, mas o meu companheiro de barraca ficou lá tirando mais algumas fotos (as fotos de céu estrelado mais lindas que eu já vi). Quando entrei na barraca adivinha quem já estava lá dentro? O dog! Tomei um baita de um susto, mas fiquei feliz com a companhia e deixei ele dormir entre minhas pernas em cima do saco de dormir! Acordamos novamente as 05:45 para ver o sol que já estava quase nascendo. E se eu não fui enfático o suficiente com as outras paisagens que eu havia visto no caminho, vou ser agora, por que PU** QUE PARIU, QUE AMANHECER MAIS FO** DO MUNDO! Sério cara, o sol nasce atrás do parque nacional do Itatiaia em cima certinho de uma montanha e deixa você boquiaberto! Para finalizar, retornamos pelo mesmo caminho, sem maiores problemas, mas vale ressaltar que o dog ficou tão agradecido que eu cuidei dele que ele veio o caminho de volta inteiro cuidando de mim. Toda vez que ele se distanciava na frente ele me esperava e assim que eu passava por ele, ele me seguia! Para chamar ele eu só precisava assobiar uma vez e ele já estava no meu pé. Nunca vi um ser tão grato e obediente me toda a minha vida, foi de emocionar! Esse foi meu relato sobre uma viagem muito intensa, com um trekking bem forte e uma galera muito animada e alegre, sem eles nada daquilo teria acontecido! Gostaria de agradecer a cada um de vocês, por me aturarem e serem parceiros, e gostaria de agradecer em especial ao grande André e o Danilo que se prontificaram a organizar essa trip maravilhosa! Espero que vocês tenham gostado, segue abaixo o link do vídeo que eu fiz ressaltando os pontos cruciais da trilha!
  8. Travessia da Serra Fina em 3 dias – Achados e Malucos A ideia nasceu de um infortúnio feliz, vicejou nos longos meses entre uma temporada de montanha e outra, floresceu sob as incertezas do clima do início de abril 2019 e frutificou nos passos de 18 montanhistas que se tornaram amigos, ao longo de 3 dias e duas noites na Serra Fina. Explico a aparente contradição no início acima: dois jovens montanhistas, durante uma tentativa de travessia solo da SF em 2018, sob más condições visuais e climáticas, perderam a curva à esquerda, onde se deixa o Cupim de Boi e se desce para o bosque ao pé do Três Estados e desceram para o colo entre esse o Cabeça de Touro. Com o erro de navegação, uma travessia de 4 dias progrediu para uma operação de busca e resgate. Ficaram nas montanhas 7 dias no total, 4 deles em condições não previstas. O perrengue deles virou história, felizmente de final feliz. Um susto para familiares e amigos que serviu de lição para uns e outros. Mas não acabou aí: o Adilson, tocado pelas dificuldades da dupla, curioso das histórias e imbuído de um senso de montanhismo às antigas, em vez de criticar os jovens pela ousadia ou imprudência, parabenizou-os pela capacidade de lidar com as adversidades, de manter o otimismo e ainda, propôs ajudá-los a completar a travessia. Quando ele trouxe a ideia ao grupo de travessias que montamos, Malucos da Amantikir, (ou simplesmente, MDA) aderimos de imediato, convictos da pertinência da ação. Ficou ao seu encargo o planejamento, com o apoio pontual dos demais. Ano de poucos feriados mais longos, 2019 trazia a primeira oportunidade em abril. Marcada a data, começamos os preparativos, verificando equipamentos e buscando melhorar o condicionamento físico. Eu particularmente, acabei por abusar nessa busca e no dia 26 de fevereiro dei um mau-jeito na coluna mais sério que me deixou de cama por 3 semanas e convalescente cuidadoso por outras 5 semanas. A cada questionar do Adilson “vcs estão treinando?!?” eu respondia com um sonoro silêncio. Na verdade, não tinha nenhuma certeza de que conseguiria subir mais que os 4 lances de escada de casa com uma cargueira. Estudos e plano C, visão geral última aula de Fisio antes da travessia A uma semana da travessia, sentindo algumas dores ainda, comecei a fisioterapia recomendada. Sabia que não teria efeito relevante no mau condicionamento cardiorrespiratório resultante dos dois meses de doloroso sedentarismo, mas o objetivo era uma avaliação técnica das condições da minha coluna. Continuei mau condicionado, mas adquiri confiança para tentar a pernada. Durante a semana arrumei e revisei a arrumação da minha cargueira até obter o menor peso que já utilizei numa travessia de 3 dias, pouco mais de 8kg, com comida e guloseimas. Com agua, minha ideia era de que pesasse próximo dos 10 kg na primeira subida da travessia. Subiria o Capim Amarelo com 2 litros, e teria capacidade de levar até 5 litros. Se com os 10 kg na cargueira, minha coluna não suportasse a subida, com 13kg é que não o faria. Nesse caso, havia prometido a mim mesmo a jogar a toalha e desistir ainda na subida do CA. Chegado o dia, após o trabalho parti para São Paulo, para encontrar com o Douglas, seu filho Lucas, a Amanda e o Adilson. Atrasados devido ao trânsito na véspera de feriado e partimos em direção à Passa Quatro às 20h. Soubemos então que o Rodrigo não poderia ir, pois estava com a filha pequena muito mal, indo para o hospital. Como a coisa evoluíra de forma inesperada ao longo do dia, outros 3 colegas que seguiriam com ele, ficaram sem carona. Verificamos os ônibus para Passa Quatro, mas em véspera de feriado não havia mais vaga. Tristes com a notícia e preocupados com a filha de nosso amigo, seguimos em silêncio por alguns quilômetros até termos a informação de que o quadro da criança estava estável, apesar de ainda inspirar cuidados constantes. Apesar desse atraso inicial, pegamos menos trânsito que esperávamos e pouco depois da meia noite, chegamos a pousada do Guto, onde dormiríamos algumas horas, aguardando os colegas dos outros estados para pegarmos o transfer até o início da trilha. Entre jantar, fazer a revisão final da cargueira e tomar um banho, deitei para tentar dormir pouco antes das 2 da matina. Tentei, mas a sinfonia de roncos e a minha ansiedade não o permitiram, de forma que fui esperar fora do quarto, arrumando os arquivos do celular. Acabou que tomei café antes de todos, com direito a pão de queijo recém-saído do forno. 1º Dia O dia nasceu, os colegas chegaram, tomaram café e todos colocamos as cargueiras na van e na Kombi que substituiu uma van defeituosa de última hora. Para os que foram na Kombi, as emoções começaram mais cedo, ante a pouca habilidade ao volante do condutor. Cochilei até que os solavancos me acordassem, indicando que já havíamos deixado a rodovia e seguíamos pela estrada rural ganhando preciosos metros de altitude até a Toca do Lobo. A Kombi seguia na frente e, rapidamente o cheiro característico de metal aquecido nos alertou que algo não ia bem. A embreagem claramente estava sendo desgastada pelo mau uso, e logo a fumaça branca que se via passou a indicar o pior. Numa das subidas, o condutor jogou a toalha e ficou a aguardar que a van que nos levava nos deixasse próximo da trilha e voltasse para buscar os demais integrantes do grupo. Fizemos uma foto com todos na Toca do Lobo, abastecemos de água para o primeiro trecho e partimos para a primeira subida do dia, em direção ao Cruzeiro. Com todos esses imprevistos, atrasamos o começo da trilha em quase duas horas. De forma que o sol já estava brilhando sobre nossas cabeças assim que saímos do trecho de mata e passamos a caminhar pela crista. Caminhávamos admirando a paisagem, as orquídeas que florescem em quantidade nesse trecho e avaliando, cada um, o que poderia ter deixado para trás e que pesava agora e pelos próximos três dias pesaria ainda mais. Na partida, Toca do Lobo. Ansiosos, descansados e ainda asseados. A subida do Cruzeiro foi rápida e, em pouco tempo, passamos a ter visual das cidades nos vales. Andávamos tranquilos, conversando e admirando. Ao pé do Quartizito, peguei mais dois litros de água, de forma a poder “socorrer” alguém na subida do Capim Amarelo, mais longa e que pegaríamos sob o intenso sol da manhã... com o horário que partíamos, era provável que alcançássemos o cume apenas próximo ao meio dia. Subida do CA, PM ao fundo, à direira Douglas e Lucas, CA ao fundo Na subida do Quartizito, a Márcia começou a ter cãibras na panturrilha, que logo progrediram para a região anterior da coxa, tornando o caminhar doloroso. assagens, mel, sachê de carbogel e castanhas de caju ajudaram a contornar o problema, provavelmente originado na alimentação inadequada pela manhã. Com notável determinação e perseverança, ela continuou a subir e, pouco antes do meio dia, alcançamos o cume do Capim Amarelo. Fizemos uma pausa para registro no livro, descanso e lanche, enquanto aguardávamos os últimos elementos do grupo, também castigados pelas cãibras, pelo sol e pelo expressivo ganho de altitude imposto pela subida do CA. Flores nas montanhas, onde repousa o olhar, há beleza a se testemunhar Alimentados, hidratados e, tanto quanto possível, descansados, partimos em direção ao Melano, nossa última subida intensa do dia. Com cuidado e atenção, iniciamos a descida, sabedores de que, muito à esquerda e caminha-se na direção do Tijuco Preto, muito à direita, é um precipício que obriga o retorno. Como em tantos momentos na vida, a virtude não está nos extremos, mas no meio. Nesse caso, a virtude buscada é o caminho que segue pela encosta do CA até a mata em seu colo, por onde avançamos, segurando nos bambuzinhos da margem da trilha, no infindável descer que fazia o Melano se agigantar a cada metro de altitude perdida e que seria causa de muito suor para recuperarmos. Melano, Asa, Pedra da Mina e Tartarugão vistos do Capim Amarelo Do colo do CA viramos pouco à direita e começamos a buscar o acesso ao ombro do Melano, subindo e descendo pequenas elevações e entrando e saindo de bosques de arbustos e bambus. Pouco depois das 13 horas, passamos pela área de camping do Maracanã. Andamos mais um pouco e paramos para nos abastecer de água, antes de enfrentar a subida mais forte do Melano e a caminhada pela sua crista até a base da Pedra da Mina. Abastecidos, tocamos para cima, tomando a esquerda na bifurcação que surge pouco após o ponto de água e que deve levar a alguma área de camping, ganhando altitude de forma constante enquanto nos aproximávamos do trecho mais íngreme que marca o início da última subida intensa do dia. Ali, nos trechos de laje de pedras, não há segredo... é apenas manter o subir lento e constante. Com algumas pausas, alcançamos o ombro e por ali seguimos, ganhando altitude a cada falso cume que surgia. Pouco depois das 15 horas alcançamos a crista do Melano. Estávamos preocupados com a Stela e Amanda que haviam seguido na nossa frente, mas separados do grupo de ataque aos cumes extras, formado pelo Adilson, Alexandre, Anderson, Jorge e Paulo. O receio de que tivessem pego uma bifurcação errada nos acompanhou naqueles passos. Ainda que a Stela tivesse o trajeto salvo no celular, um desencontro poderia ter graves consequências. Com o grupo fragmentado e ainda com isso feito em desacordo com o que havíamos orientado previamente, havia diversos desvios no planejado. No grupo que estava à frente, a Stela estava sem saco de dormir e sem comida. O Jorge sem barraca. No nosso grupo, após rápida verificação, concluímos que teríamos abrigo para todos, pois havia barracas com ocupação abaixo da capacidade. Forçamos o passo, buscando aproveitar os últimos minutos de sol para nos aproximarmos da base da PM, ponto de acampamento planejado para aquela noite. Com o pôr-do-sol se avizinhando, ficava cada vez menos provável que conseguíssemos descer a crista do Melano para a base da PM antes que escurecesse. Ainda que todos portassem as lanternas de cabeça, as chuvas dos últimos dias haviam deixado as descidas mais delicadas, como as escorregadelas ao longo do dia haviam evidenciado. Mesmo com as melhores condições para escolher onde pisar e onde se segurar, a Serra nos cobrava a passagem, não só em suor, como em tombos. Revisamos os planos e passamos a considerar avançar até a primeira área de acampamento, após o platô rochoso que havia logo à frente. Porém, como estávamos na área de sombra das encostas que descíamos, as condições de visibilidade se deterioram mais rápido que havíamos previsto e logo, nos dividimos entre acampar numa laje rochosa inclinada ou seguirmos até o platô à frente, em busca de uma área plana, ainda que irregular. Com o grupo cansado, acordamos que o Douglas e o Lucas seguiriam até o platô, para avaliar se era melhor opção do que a laje que em que estávamos, enquanto eu ficaria com os demais. Bastaram poucos passos para longe do grupo, que o grito aflito do Lucas nos gelasse o peito. Temeroso do que ocorrera, corri em direção à dupla, para constatar aliviado, que fora apenas a soma das emoções do dia ao cansaço da pernada e a lama em que se atolava, até os joelhos, naquele trecho. Procurei acalmá-lo, permitindo q o Douglas se recobrasse do susto, que com certeza lhe batera ainda mais forte que em nós e sem uma palavra sobre os planos de segundos antes, voltamos, confortando o pequeno trilheiro até o grupo. Com a decisão de pernoitar ali tomada, tratamos de escolher os lugares onde armaríamos as barracas. Procurando deixar os lugares mais amplos para as barracas maiores, escolhi um trecho de laje que permitiria alinhar a barraca com a inclinação da pedra e que, exceto o provável escorregar dentro dela, parecia bastante confortável. De experiências anteriores, sabia que dormir alinhado à inclinação, com os pés para o lado mais baixo era muito mais adequado que fazê-lo de transverso. A água que escorria pela lateral esquerda não parecia grande problema. Enquanto montava a barraca, tentei o contato via rádio, em hora redonda, conforme combinado. Foi um alívio estabelecer contato com o outro grupo, saber que estavam todos juntos. O Isaias se prontificou a levar o saco de dormir da Stela e os demais materiais do grupo que estava à frente que haviam sido transportados por nós até ali. Ajudei-o a atravessar a parte enlameada da trilha e o coloquei na subida para o platô, antes de voltar e terminar de armar meu abrigo. Durante a noite, com o luar parecendo a alvorada acordei diversas vezes. Pela manhã soube q a barraca do Douglas e do Lucas havia cedido, tendo que ser remontada, com nova ancoragem durante a noite. Apesar do frio da madrugada, próximo de 0C, a noite transcorreu sem maiores dificuldades. Nosso “lar” na primeira noite. Preparando a partida, 2 ºdia 2º dia Com o nascer do dia, desmontamos rapidamente o acampamento, enquanto preparávamos um café da manhã reforçado. Fizemos novo contato via rádio, com a troca das alvissareiras notícias de que a noite transcorrera de forma tranquila, em ambos os grupos, combinamos os próximos passos, com o grupo à frente fazendo um ataque ao Tartarugão. Nesse meio tempo, terminaríamos o café, arrumaríamos as cargueiras e partiríamos em direção a PM. Assim o fizemos, depois de verificar atentamente que não deixávamos marcas de nosso pernoite ali. Vivência de Montanha: tira-se o Sulista do Sul, nunca o Sul do Sulista. Durante nossa subida, nas pausas para recuperar o folego e admirar a paisagem, observávamos os demais integrantes do nosso grupo, ou seja, Adilson, Alexandre, Amanda, Anderson, Isaias, Jorge e Paulo caminharem pela crista do Tartarugão, extasiados com um dos melhores ângulos para se admirar a PM e o vale do Rio Claro. A Stela seguia conosco, cooptada durante nossa passagem pelo acampamento dos colegas, nas vizinhanças da Cachoeira Vermelha. O tubo de cume do Tartarugão foi pintado de amarelo, com spray de forma a aumentar sua visibilidade, e principalmente, sua resistência à degradação fotoquímica. Alcançamos o cume da PM, pouco antes do meio dia, fizemos um intervalo para lanche, recolhemos o livro de cume que estava quase completamente tomado de registros, anotamos nossa passagem no novo livro que trazíamos e partimos em direção ao Ruah, onde faríamos uma parada mais longa para lanche, coleta de água e banho. Descemos pela face norte da PM, admirando a beleza do vale, circundado pelo Ruah Norte e Leste. À frente, via-se o Cupim de Boi, à direita o Cabeça de Touro e o Três Estados à esquerda. Com as chuvas das últimas semanas, o Ruah tinha água em todas as trilhas. Água e lama. Sem melhor alternativa, seguimos no serpentear entre as moitas de capim até a cachoeira que existe na garganta formada pelos dois Ruah. Enquanto descíamos a PM, parte do grupo de ataque, nesse caso o trio composto pelo Kleiton, Vanderlei e Jorge, fez uma rápida incursão ao cume do Morro do Avião. Quando digo, rápido, entendam “corrida morro acima”... Jorge, nosso velocista-mor subiu a encosta em pouco menos de 9 minutos... a conclusão é óbvia e irrefutável: lidávamos com um ser com um par de pulmões extras. Revezando os jogos de pulmões, o camarada não apenas dispara morro acima, como conversa enquanto o faz... Os três registraram a passagem no livro de cume instalado em 2017 pelos amigos Douglas, João, Rodrigo e Adilson, foram até próximo das ferragens do avião que colidiu contra a montanha e desceram para nos encontrar na cachoeira. Foi bom saber que o livro se encontra em bom estado, dentro do tubo de cume que o Douglas idealizou. Enquanto o grupo coletava água e fazia a pausa para lanche, avancei um pouco à frente e abaixo, para tomar banho no pequeno poço que se forma após a cascata. Já havia adiado meu batismo na SF por diversas vezes, em função do horário em que passara ali antes. Entrar naquela água, próxima do congelar próximo ao fim do dia me pareciam mais insensato que divertido. Há quem leve roupa de banho e há quem o faça nú. Optei por um meio termo prudente: removi botas e meias (bobagem), assim como a camiseta e entrei na água de calças. A água estava menos fria que o esperado, o que me levou a fazer uma segunda incursão, mais demorada, com menos roupa. Saullus e Stela, Marins ao fundo Vanderlei e Márcia, cume do Quartzito Aproveitamos para curtir um pouco o visual e a sensação de superação de ter chegado até ali, deixando a primeira metade da travessia para trás e convictos de que todos lograríamos completa-la. Pouco após as 14 horas, com as reservas de água ao máximo, deixamos a Cachoeira e começamos a buscar a série de pequenos morreres que se interpõe entre o Vale do Ruah e o colo do Cupim de Boi. As subidas nesse trecho são breves, preponderando as descidas. Esse é um dos trechos em que os bambuzinhos mais marcam a memória do caminhante, cobrando a passagem em lanhos e pedaços de qualquer coisa que não estiver bem protegido dentro da mochila. Já ouvi, que ante as terras do Paraná, ali temos uma avenida de trânsito desimpedido... inquietante. À direita evidência das pressões geológicas na formação da rocha. Pouco após as 16h alcançamos a crista do Cupim de Boi e passamos a progredir mais rápido, considerando montar o acampamento ainda com luz natural. Nesse trecho, é importante manter-se sempre à esquerda na trilha, evitar qualquer brincadeira e zelar muito pela segurança. A trilha passa, em alguns lugares a menos de meio metro de um penhasco de pelo menos 300 m. Apesar do cansaço, não é trecho para se ficar descansando, ainda mais em grupo grande, de forma que mantivemos o ritmo, com pausas curtas para recuperar o fôlego, ingerir algo doce ou salgado, um ou dois goles de água, logo retornando ao caminhar. Com o sol a bordejar o horizonte, alcançamos o ponto em que a trilha faz uma curva à esquerda e deixa l Cupim de Boi para descer pela sua encosta em direção aos bosques que existem no sopé do Três Estados. Nesse ponto, nossos amigos do RJ, na tentativa de 2018, não notaram os totens que indicam a mudança de direção e seguiram pelo Cupim de Boi até seu derradeiro cume, de onde se desce para o vale entre o Três Estados, o Cabeça de Touro e o próprio Cupim de Boi. Cumpre ressaltar que a navegação visual, com o tempo aberto como estava, em tudo difere das condições em que eles passaram por esses mesmos pontos no ano anterior. Com neblina, nada se vê de referência de longa distância. Não é difícil, se não se estiver muito focado, desaperceber-se de que o caminho, em laje de pedra e, portanto, guardando poucas marcas de passagens anteriores começou a descer, sem a curva à esquerda. Depois disso, uma “desescalada” na encosta nordeste os levou para o vale e a cada passada se afastavam da rota. Pode-se dizer que a travessia deles começou a “dar ruim” quando acamparam no Ruah e acabaram com os equipamentos de dormir molhados. A partir dali, não lhes pareceu “prudente” acampar e esperar o tempo melhorar, uma vez que com os equipamentos molhados, o risco de hipotermia lhes parecia muito presente. Descemos pela encosta do Cupim de Boi, no contra fluxo dos que, acampados no bosque em seu colo, subiam para ver o pôr do sol. Agradeço a cada um que nos deu passagem, freando sua subida, de forma a maximizar nosso tempo de luz para montar acampamento. Avançamos até o segundo bosque, ocupado apenas pelo Jorge, que nos informara das melhores condições para acampamento ali, enquanto levava seus 4 pulmões para curtir o pôr do sol no Cupim. O lugar é espetacular. Abrigado do vento e ainda assim com algumas aberturas que permitiam ver o céu. Escolhi um canto plano, afastado da mata e, portanto, sem raízes superficiais. Discutimos um pouco sobre a conveniência/oportunidade de subir o CT de ataque na madrugada para ver o sol nascer lá, e concluímos por alternar isso para fazer a subida ao Três Estados, de forma a minimizar a exposição do grupo ao sol no último dia de pernada. Para quem faz a TSF pela primeira vez, ver o sol nascer atrás das Agulhas Negras é mágico e imperdível. O ataque ao CT resultaria no inevitável privar da maioria desse espetáculo, além de colocar todos a subir os três cumes finais (Três Estados, Bandeirantes e Alto dos Ivos) sob o sol mais forte. Com a anuência compreensiva dos colegas do “grupo de ataque”, combinamos de acordar às 3:20 para partir às 4:00. Todos fizeram suas refeições, conversaram um pouco, trocando experiências, angústias e impressões e, pouco depois das 20h estávamos dormindo. 3º dia Acordei 3:20 e 3:40, estava de cargueira pronta para seguir. Fiquei fazendo hora, ajudando aqui e ali e mexendo para aquecer e motivar aos hesitantes para o último dia. Partimos com pequeno atraso, às 4:10 e em pouco tempo o frio deixava de ser um incômodo, ante o fôlego que fugia a cada vez que a subida tinha o grau aumentado. Mesmo assim, subimos tranquilos, sentindo os músculos responderem aos comandos, no terceiro dia em que os demandávamos de forma intensa. O trecho final do acesso ao Três Estados é uma escalaminhada com rochas recobertas de escorregadia lama, com algum grau de exposição. Sabedores disso, fizemos uma parada de 10 minutos em sua base, suficiente para todos retomarem bem o fôlego e sentirem o frio se aproximar. Nada como a autopreservação para motivar as pessoas. Começamos a subida do trecho final com atenção e sem pressa, enquanto a aurora cedia lugar ao arrebol do dia que nascia. Nesse momento, a Márcia que seguia à minha frente deslanchou mais por habilidade e determinação que por força e passei a ajudar mais a Stela que lutava contra seus temores a cada passagem mais exposta. Em pouco tempo, alcançamos o cume e atravessamos os acampamentos, para nos aboletarmos junto ao livro de cume (inexistente). Como bom montanhista, fiquei feliz em ceder os 230g de caderno que carregara nos últimos dois dias para a caixa de cume. Identificamos o livro, fizemos os devidos registros e passamos o livro para os amigos da pernada, assim como aos colegas de montanha. Foi uma grata surpresa ver o Cainã, o Duque, a Raposinha lá em cima. Aquela serra é a casa deles aos fins de semana, ao que parece, dado o número de vezes que já os encontrei por ali. Na última TSFF, em 3 dias, eles fizeram a gentileza de cuidar das nossas coisas enquanto atacávamos o cume do Ruah Leste (maior). Vista da PM: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro Nossa testemunha silenciosa. Enquanto esperávamos o sol surgir por detrás das Agulhas Negras, nossos corpos esfriavam e logo os aprazíveis 13C que fazia lá em cima levavam nossas pernas a tremerem. Por preguiça de abrir a mochila eu permanecia apenas com a blusa de caminhada no tronco, e sentia desconforto com o vento, procurando me abrigar como dava, mas sem perder o visual. Com o nascer do sol, a temperatura (sensação apenas?) caiu um pouco mais e, vencendo os pruridos, vesti as duas segundas peles, e o fleece. Senti-me muito melhor assim, o calor foi quase imediato e me dei ao luxo de ficar curtindo a brisa, agora apenas refrescante. Nascer do sol, por detrás das Agulhas Negras visto dos Três Estados Combinamos de partir às 7h10, para não pegar mais sol que o necessário. De forma que pouco antes do horário combinado, vestimos as cargueiras e começamos a descida para o colo do Bandeirantes. Conversando nas descidas, apreciando a paisagem nos trechos planos enquanto recuperávamos o fôlego e nos arrastando nas subidas, fomos progredindo sem muito notar e “em pouco tempo” estávamos no alto do Bandeirantes. Fizemos outra breve parada para comer algo rápido, tomar água, descansar e admirar as montanhas ao redor e, cuidando de não deixar os músculos esfriarem, partimos para buscar o Alto dos Ivos. Pausa para respirar: Oscar, Saullus, Eu, Márcia Stella, Saullus, Oscar, Jennifer, Márcia, Eu Na ascensão para esse cume, a derradeira subida “mais séria”, há um curto, mas intenso trecho de escalaminhada. Ali, o melhor é tomar um gole d’água, respirar fundo e tocar forte pela lateral direita até não ter mais o que subir, como notei q estavam estudando por onde subir e inclinados para fazê-lo pela esquerda (mais complicado), pedi licença e dei o exemplo, chegando lá em cima com meus dois pulmões a gritarem do castigo que lhes infligira, como se estivesse em forma. Depois de recuperar 1/6 do fôlego, peguei o celular e me posicionei para as fotos do progredir dos amigos na ascensão. Particularmente, gosto dessas fotos onde o “empilhar” das pessoas permite avaliar melhor o obstáculo. Stella no último “toca pra cima” mais sério da travessia No falso cume do Alto dos Ivos, fizemos um grande lanche coletivo, com ovos mexidos, linguiças e ervas estranhas. Também teve enroladinho de queijo e presunto. Essa galera carrega peso, mas faz gastronomia “Ogra” na montanha. Nada de emulsões de sabores, prato decorado, etc... apenas a boa, velha e nutritiva comida caseira em fartura. Descansados (mais ou menos), mais leves e determinados, retomamos a caminhada, perdendo altitude sem muito notar, já que as subidas, embora curtas, são frequentes nesse trecho ainda. Mesmo assim, não tardou para a subirmos um morro pela metade e virarmos à direita, chegando, enfim, na parte do trajeto com vários trechos de capoeiras e fragmentos de bosque, indicando que a altitude já havia decrescido substancialmente. Pouco antes do meio dia, alcançamos o ponto d’água. Dado o excelente estado de hidratação com que chegamos, fizemos apenas uma breve parada e tocamos para enfrentar a estradinha, que liga o Sítio do Pierre com a rodovia. Eu seguia em passo apertado, buscando os morangos e amoras silvestres que abundam por ali nos meses de julho e agosto. Encontrei poucos, mesmo assim é algo que ocupa a mente e ajuda a não ansiar demais pela última curva da pernada. Chegamos ao final da travessia com 1h30 min de antecedência ao acordado com o resgate. Forçamos mais um pouco o caminhar até a vendinha onde fomos muito bem atendidos pelo “seu” Advir, um produtor rural muito humilde e simpático. Uma alegria ajudar a gerar renda diretamente ao produtor daquelas terras. Dessa vez, trouxe doce de leite, geleias e queijo defumado. Tudo muito saboroso. Uma das vans que nos levaria, fora levar outro grupo até Passa Quatro, já que não sabia que nos anteciparíamos. Aproveitara e levara dois colegas que chegaram ainda mais cedo (4 pulmões explicam muita coisa) até a pousada para o ansiado banho antes do retorno até Curitiba. Como não tínhamos pressa, nos oferecemos para esperar essa van voltar, já que ainda havia dois amigos na travessia, à caminho. Fizemos uma foto de “todos”, nos despedimos e fomos ficar de bobeira, à sombra, conversando com os grupos que chegavam. Com a chegada deles, pouco antes do horário previsto, às 15h estávamos na van, à caminho de Passa Quatro. Chegada: suados, cansados e doloridos; mas orgulhosos e alegres. Na pousada, após um banho revigorante, entregamos o caderno da PM ao Guto, fizemos nova seção de despedidas e pegamos estrada para casa. Na viagem, vínhamos, eu, Douglas e Adilson rememorando o caminhado, fazendo planos e contando causos. Lucas e Amanda dormiam o merecido sono. Cheguei em casa às duas da matina de segunda, dormi um pouco, arrumei barraca, roupas e botas e pedalei para o serviço. Outros foram virados para o trabalho, em função da maior distância. Porém todos compartilhávamos da mesma sensação de gratidão às montanhas e à vida. Quando perguntam porque faço essas travessias, me é difícil traduzir em palavras, mas a resposta repousa no brilho no olhar de quem se supera, no sorriso de quem vê, pela primeira vez, as nuvens lá embaixo. O caminhar me desopila a mente e me recarrega a alma de energia, não só da mata, da montanha, mas d’Ele, seja Ele spinozano ou convencional. Aqui, antes de concluir o relato, farei um registro: tivemos a “honra” de acompanhar os passos do Lucas Torres Garcia, com 9 anos, o mais novo a atravessar a SF em 3 dias. E isso não é pouco... ainda que o físico seja cobrado no subir e descer incessante, que o frio congelante faça tremer ou mesmo a carestia de agua se faça presente no rachar dos lábios, o desafio da travessia, em si, é muito mais um lidar consigo mesmo, com suas dificuldades, suas dores, seus anseios e temores. E isso aprendemos e desenvolvemos com o passar dos anos, o que nos colocava em um patamar muito mais confortável. Parabéns, Lucas! Mandou muito bem. Concluindo: Pernada de responsa!! A superação de limites, físicos para uns, emocionais para outros ou aquele amálgama em que ambos se fundem me alegram no lembrar. Se foram muitas as risadas, foram poucas as lágrimas e quase infindáveis as paradas para caçar o fôlego que fugia a cada metro que galgávamos. O brilho no olhar de todos com o esplendor das paisagens e o orgulho de uns no perseverar de outros. Poder ajudar a desfazer, com segurança, a má fama da SF para certos pais. Foram tantas as alegrias, que só posso agradecer. Agradecer ao Adilson pela ideia e oportunidade. Agradecer à cada um/uma pela companhia e confiança. E, claro, à Deus por tudo ter transcorrido como transcorreu, na medida exata de angústias e doçuras. Travessia SF Malucos e Achados.pdf
  9. Travessia da Serra Fina Full em 3 dias. Subimos, de ataque, aos cumes das montanhas próximas. Relato com fotos e tempos gastos, para ajudar quem quiser a fazer a pernada! Abraço! Travessia da Serra Fina Full - 3 dias.pdf
  10. Olá Pessoal, encontrei esse artigo no site do Alta Montanha e acho que vai ajudar muita gente a encontrar o equipamento certo para fazer a travessia sem se dar mal, segue o link do artigo e o vídeo abaixo: http://altamontanha.com/guia-completo-de-equipamentos-travessia-da-serra-fina/
  11. Com o feriado de 7 de Setembro se aproximando, eu e mais 3 amigos começamos a nos preparar para fazer a subida à Pedra da Mina via Fazenda Serra Fina, não fazendo ideia do que nos esperava. Moramos em Barbacena, e a viagem de carro até o pacato município de Passa Quatro (MG) demora em torno de 4 horas, mas o acesso à fazenda é por uma estrada de terra que nos toma mais 1h15min...enfim, saímos de Barbacena por voltas das 3h50 minutos, enfrentamos as precárias estradas do sul de MG, paramos em Pouso Alegre para tomar um café da manhã reforçado e seguimos para enfrentar a mais precária ainda estrada de terra que dava acesso à Fazenda Serra Fina. A estrada é bem sinalizada, então não houve grandes dificuldades para chegar até a fazenda, principalmente usando o GPS. Chegando lá por volta das 9h30, pagamos R$20,00 à senhorinha que mora na fazenda, assinamos um livro que é para controle de quem entra e sai da trilha, nos arrumamos e iniciamos a trilha por volta das 10h. A placa que marca o início do caminho passa uma ilusão gigantesca de que a subida até o pico leva 5h, o que nós realmente acreditamos veementemente e achamos inclusive que dava para abaixar esse tempo (iludidos 😓). A primeira parte da trilha é muito tranquila, basicamente um caminho por mata fechada (bem fechada, alguns pontos é até difícil ver a trilha), com alguns pontos de lamaçal e riachos, mas todos com algumas pedras que auxiliam na passagem. Após 30 min de caminhada tranquila, chegamos à cascata, com uma água cristalina e um visual sensacional. Após atravessar pelas pedras, bem escondido no canto esquerdo da outra margem do rio, tem um acesso à uma cachoeirinha que nos brinda com esse visual SENSACIONAL. Perdemos uns 20 minutos ali descansando, tirando fotos, hidratando e checando a trilha no WikiLoc (app que recomendo muito, inclusive, baixamos a trilha antes de sairmos de casa e nos ajudou muito). Na cascata também existem muitas abelhas pretas, que não têm ferrão, mas grudam no cabelo e tem uma mordida muito doída. A trilha a partir daí começa a exigir muito mais do físico, já que começa uma subida já com traços de escalaminhada, muito íngreme e muito longa (realmente parece que nunca mais acabar). É válido lembrar para levar um calçado adequado, pois a terra e o capim tornam a trilha muito escorregadia. Após esse primeiro "susto" com a necessidade física da trilha, chegamos num primeiro local de acampamento, onde paramos para almoçar e abastecer nossos recipientes de água numa bica que tem por lá (a água é geladinha e tem um gosto sensacional, a vontade era encher algumas garrafas para levar para casa), já que segundo o WikiLoc e alguns relatos, ali é o último ponto de água antes do cume (e a informação realmente procede, a travessia toda se destaca pela escassez de pontos de água). Ali tinham alguns grupos de trilheiros que almoçavam e conversavam, e todos eles nos disseram que a pior parte da trilha estava logo a frente (o que muitos relatos também confirmavam). Após uma parada de mais ou menos 1h para almoço, descanso e abastecimento de água, seguimos viagem já preparando o psicológico para enfrentar o temido "Paredão do Deus Que Me Livre", e o paredão faz jus ao nome ! Estávamos animados com o horário, já que segundo o WikiLoc, fizemos praticamente metade da trilha em questão de distância em 2 horas, mas ao observar o que nos esperava, vimos que a trilha mal havia começado. O subidão é praticamente do começo ao fim uma escalaminhada muito pesada, em alguns momentos exigindo inclusive uma certa experiência com escalada. É bom sempre ficar atento aos totens e às marcações reflexivas, pois alguns pontos da subida possuem várias bifurcações e é realmente muito fácil se perder. Sempre que possível, parávamos em algum lugar para descansar e hidratar, mas o cansaço bateu forte do começo ao fim, pensamos em desistir algumas (muitas) vezes. Terminando o subidão da Deus Que Me Livre, demos de cara com o Morro da Misericórdia, que era igual ou pior ao anterior. A essa altura, o psicológico bate forte, muitas pessoas montam equipamento ali mesmo, ou um pouco mais a frente, dentro da mata no vale, aonde tem uma área de acampamento em uma área de mata fechada; mas resolvemos continuar. Após chegar ao fim do Morro da Misericórdia, com as pernas e os ombros pedindo arrego, nos deparamos com mais uma caminhada considerável até chegar no pé do morro da Pedra da Mina, aonde montaríamos acampamento. Andamos devagar, ainda nos recuperando das duas subidas absurdas que havíamos acabado de vencer, mas chegamos à área de acampamento por volta das 17:10, montamos acampamento rapidamente e subimos ao morro sem mochila para acompanhar o por do sol, o que com certeza valeu muito a pena. Lá de cima é possível ver claramente o belo Vale do Rhua, o Pico das Agulhas Negras e alguns vários municípios da região, a vista é DESLUMBRANTE, por um instante até se esquece o esforço feito para chegar até ali. Após ver o por do sol, descemos para nos alimentar e ir dormir. Colocamos algumas roupas secas, já que as da trilha estavam encharcadas de suor e o frio já estava começando a dar as boas-vindas, fizemos um macarrão com frango desfiado usando o fogareiro a álcool, apreciamos o belíssimo céu estrelado com direito até a chuva de meteoros e fomos dormir. Nosso "rango", que deu uma sustância muito boa e ficou pronto rápido Acordamos por volta das 5:30, desmontamos acampamento e andamos um pouco até o pico do Morro da Misericórdia, para afastar-nos um pouco do frio. Lá no pico, tomamos café com uma vista deslumbrante do vale, e por volta das 7:00 começamos a descida da trilha, que é tão doída quanto a subida. O joelho dói muito na descida, já que boa parte da trilha é escalaminhada e descidas muitos íngremes, um bastão de caminhada é ESSENCIAL para a volta. Chegamos até a área em que almoçamos na subida, descansamos por mais ou menos 1h e repusemos a água na bica para continuar a descida. Chegamos à fazenda exaustos por volta das 11:30 e embarcamos no carro para a volta para casa e o merecido descanso. Nossa vista do vale durante o café da manhã A trilha exige MUITO preparo físico, equipamento bom (principalmente calçado, bastão de caminhada,barraca, isolante térmico e saco de dormir para -10ºC) e exige também muito preparo psicológico, mas com certeza valeu muito a pena. A vista durante toda a trilha é sensacional, o céu noturno no alto do pico é inexplicável e a experiência como um todo é sensacional. Da próxima vez, pretendemos fazer a travessia de 4 dia da Serra Fina, começando pela Toca dos Lobos, mas até lá ainda vamos nos recuperar por um bom tempo 😅😅😅. O frio castigou durante a noite ! ❄️❄️
  12. Olá Mochileiros, como vão? Espero que bem, aqui estou eu novamente escrevendo meu segundo relato do ano de 2018. Ano passado fizemos a travessia da Serra Fina em 17h, se quiserem ler o relato segue o link: O propósito para esse ano seria fazê-la em 2 dias para podermos aproveitar mais a montanha e o companheirismo da turma. Como de costume, o Nandão plantou a ideia de fazer a travessia em 2 dias e nós aceitamos de cara. Nosso parceiro Breno deu ideia de fazermos a travessia ao contrário, pois assim passaríamos no Vale do Ruah à tarde e não de madrugada. Escolhemos uma data que fosse melhor para todos e reunimos a turma. Aquele medo de fazer a Serra fina já não era tão grande como foi da primeira vez, o medo agora era de tentar terminá-la com o peso da mochila. Como sabíamos da dificuldade da travessia, treinamos por vários meses e, depois de adiarmos o passeio por 2 vezes por conta do tempo, nos dias 18 e 19 deu tudo certo. Confesso que torci para chover novamente porque estava com muito medo de fazer a Serra fina, ainda mais no sentido inverso, mas como eu havia prometido aos meus amigos que eu iria, eu fui. Estávamos em 5 pessoas: Samuel (eu), Nandão, Breno, Zé Renato (Fotógrafo oficial) e Jonas (primeira vez na SF). Saímos da Cidade de Santa Rita do Sapucaí-MG às 23h com o nosso motorista oficial Edson, chegamos até a entrada do Sítio do Pierre às 2:20 da manhã, fizemos uma oração e partimos rumo ao nosso objetivo. Passamos pela trilha, chegamos no primeiro ponto de água e já atacamos o Alto dos Ivos. Chegamos lá por volta de 7h14min, onde esperamos nosso companheiro Jonas que demorou cerca de 1h para chegar. Enquanto isso, deu pra fazer um café para dar uma aquecida - o café saiu sem açúcar porque nosso companheiro Breno esqueceu de trazer...hehe, mas faz parte. Saindo do Alto dos Ivos fomos direto para o Pico dos Três Estados. Até antes de chegar nesse pico eu estava animado e pensei “Até que o meu treino fez efeito, estou me sentindo muito bem”. Doce ilusão, mal sabia que a subida dos 3 Estados era difícil e ao contrario mais difícil ainda. Subindo aquela montanha enorme pensei em abortar a travessia, mas segui firme até o pico. Zé Renato e Nandão como sempre subiram primeiro, esses dois sem sombra de dúvidas são de outro planeta. Quando eu e o Breno chegamos os dois já estavam dormindo e nós aproveitamos para também tirar um cochilo e esperar o Jonas (esse cochilo rendeu viu?!). Chegada nos 3 Estados 10h21 Saindo dos 3 Estados, fomos para o Cupim do Boi. Lá tiramos algumas fotos, paramos para fazer um lanche e esperar o Jonas...rsrs. Nesse momento, nosso amigo Zé Renato deu a Ideia de criarmos uma #cadeojonas...hehe, e não é que pegou?! Logo depois disso, partimos para o Vale do Ruah. Chegada no Cupim do Boi 12h58. O caminho até o Vale do Ruah é relativamente mais tranquilo, a única coisa que enche o saco são os Capins Elefantes que seguram, dificultando a caminhada. Lá pegamos água, molhamos os pés e fomos atacar a Pedra da Mina. Chegada no Vale do Ruah 14h51 A subida da Pedra da Mina é muito cansativa, quando eu a vi lá debaixo bateu um desanimo, é muito alta. Quem já fez a travessia ao contrário sabe do que eu estou falando, é uma subida que não tem fim. Eu várias vezes sentei e comentei com o Breno que queria chorar e abortar a travessia. Sentamos umas 3 vezes para descansar e toda vez que sentávamos cochilávamos por um tempo. Quanto mais a gente subia, mais cansado a gente ficava e nunca chegava, sinceramente, nesse momento eu queria ter um amigo rico, mais bem rico com um helicóptero pra eu poder ligar e ele vir me buscar..rsrs Depois de todo o sofrimento, chegamos no topo. Ufa! Pensei que não chegaríamos. Montamos nossa barraca, fizemos aquela feijoada ao som de Sorriso Maroto e Thiaguinho (créditos ao Nandão), comemos e fomos dormir. Dentro da barraca eu tive vontade de chorar, pensei que no outro dia não daria conta, mas dormimos. Na madrugada fez -4°C, nossa barraca congelou. gelo.MP4 No outro dia levantamos para ver o sol nascer - que espetáculo gente! Coisa linda demais. É um espetáculo da natureza ver o sol subir por cima do Agulhas Negras. Vejam as imagens: Depois do espetáculo, arrumamos as coisas, assinamos o livro e partimos com o objetivo de terminar a travessia. Nosso ânimo estava renovado e, apesar da noite mal dormida, estávamos todos bem, nesse momento esquecemos dos problemas do dia a dia e demos várias risadas pelo caminho. Isso me fez lembrar de uma frase que o grande Maximo Kausch (Gente de Montanha) disse na entrevista com o Danilo Gentili “Quando a gente está na cidade a gente segura uma máscara tentando ser outra pessoa e quando estamos na montanha, longe do conforto do dia a dia, você realmente vê quem é quem”. Eu particularmente gostei dessa frase e ela retrata muito bem os amigos que eu fiz na montanha, eles são demais. Descemos a Pedra da Mina e paramos no primeiro ponto para pegarmos água. O Sol estava bem quente e teve um parceiro nosso que queria ir de cueca, pois já não aguentava mais. Pedimos pelo amor de Deus para que ele não fizesse isso, por fim, todos reabastecidos, fomos rumo ao Camping Maracanã. Camping Maracanã às 09h44. Passamos rapidamente pelo Camping e paramos um pouco acima para comermos. tirar umas fotos e esperar o Jonas. #cadeojonas Descemos um pouco mais e logo depois avistamos o Pico do Capim Amarelo - o último pico dessa travessia. Que felicidade gente! Nem acreditava que não teríamos que subir outra montanha. Apertamos o passo, chegamos lá em cima às 12h43min e Zé Renato fez um time lapse animal lá de cima. time capim.mp4 A subida até o Capim Amarelo é pesada. subida capim.MP4 Nesse momento ligamos para a pessoa que iria nos resgatar e a mesma disse que iria nos buscar às 17h30min da tarde, pois estava saindo para fazer outro resgate, detalhe que nós havíamos conversado com ela anteriormente e cantamos a pedra que chegaríamos na Toca do Lobo por volta de 15h30min – 16h. Nesse momento lembrei do Sr. Edinho (uma ótima pessoa que todos que fazem a travessia já devem ter ouvido falar dele) e na mesma hora ele disse que iria nos resgatar, isso foi um alívio. Esperamos o #cadeojonas chegar e descemos às 13h30min do Capim Amarelo, rumo à Toca do Lobo. Estávamos ansiosos para passar no Caminho dos Anjos, pois na primeira vez que fizemos a travessia, não deu para tirarmos fotos, pois estava de madrugada ainda. Chegamos lá e as fotos ficaram incríveis (Creditos José Renato). Gostaria aqui de fazer uma pausa no relato e falar de uma pessoa que realmente é nota 10: José Renato Ribeiro - ele é uma pessoa que não mede esforços para tirar uma fotografia. Além de ser um ótimo profissional e humilde, ele é feliz fazendo o que gosta. Carregando a mochila pesada, cheia de acessórios, ele é capaz de ir na frente da turma e parar em um certo lugar só pra tirar fotografias da galera e das belas paisagens. Sinto-me privilegiado de conhecer essa grande pessoa e ser seu amigo. Além disso, agradeço ao Nandão por ter nos apresentado a ele. Obrigado por tudo Zé. Os créditos pelas fotos desse relato é seu. Chegamos na Toca do Lobo às 16h, tiramos mais algumas fotos, tomamos um meio banho na cachoeira pra tirar o cheiro de urso e fomos ao encontro do Sr. Edinho. Considerações finais: a travessia da Serra Fina no sentido normal já é bruta, no sentido inverso ela fica mais bruta ainda. Pensei em desistir várias vezes, mas a vontade de terminar, o encorajamento dos amigos e o desejo de não desistir falaram mais alto e isso me fez criar forças para concluir essa travessia tão linda e ao mesmo tempo tão dificultosa. É difícil colocar em palavras o quão difícil é subir uma montanha. Às vezes as pessoas acham que estamos exagerando e que não é tão difícil assim, pra essas pessoas eu digo e sempre vou dizer: vá lá e veja como é. A briga com o psicológico é constante, mas com um jeitinho e incentivo de todos a gente chega lá, lembrando que quando eu digo “eu”, eu me refiro ao grupo todo. Gostaria de agradecer de coração aos que foram nessa mega aventura - Nandão, Breno, Zé Renato, Edson (nosso motorista oficial, que todo ano está com a gente e dessa vez não foi diferente), Jonas (mesmo sofrendo para andar e acompanhar a turma, concluiu a travessia e foi até o final #cadeojonas). Muito obrigado a todos, espero que ano que vem nós possamos fazer outras travessias. Apesar de difícil ela se tornou extremamente divertida por conta de vocês. Estava lendo um blog um tempo atrás e vi uma frase que não sei se é da blogueira, mas eu achei que essa frase faria todo o sentido para terminar esse relato, que ficará marcado nas nossas memórias por um bom tempo. “E então é o seguinte: Não desista. Não deixe que um sentimento de incapacidade cresça e tome conta de você. O melhor impulso para a falta de coragem é meter a cara e sair do lugar mesmo! Porque sempre há uma chance da gente tropeçar em algo maravilhoso. E é impossível tropeçar em algo enquanto estamos sempre sentados no mesmo lugar.” Até a próxima. 1º dia: 18,2km Ganho de elevação: 1.972m Tempo: 14h21m 2º dia: 11,6km Ganho de elevação: 531m Tempo: 8h 5m Elevação maxima: 2798m Dados do Strava.
×
×
  • Criar Novo...