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TRALHA DE TREKKING: dicas rápidas e adaptadas para montanhismo quase ultralight

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Subitens: mochila; barraca; isolante e saco de dormir; roupas; calçados; higiene; cozinha; eletrônicos.

 

Resolvi postar esse texto aqui pq essa seção “gambiarra” (fórum/equipamentos/faça_você_mesmo) é a mais divertida. Não existe o equipamento mais durável, mais leve e mais barato. Obviamente, na maioria dos casos você terá que escolher uma coisa ou outra. E o mercado de equipamentos outdoor é como os outros, também explora seu consumismo, vende ilusão e te enche de parafernália. E agora, com a onda ultralight, a “obsolescência programada” é certa, pois quase tudo vai existir em versões com 50, 100 ou 200 gramas a menos daqui a alguns anos. Portanto, não vou sugerir aqui equipamentos que são os mais leves possíveis. Vou apenas falar das minhas sugestões e adaptações considerando algum equilíbrio entre preço, qualidade e baixo peso. A tralha, evidentemente, não é a essência do aficionado por montanhas, mas conhecer ela faz parte do hobby e é muito importante na hora de planejar aquela “terapia disfarçada de caminhada” ... e sem perrengue de Coach.

A primeira dica é "pesquisar, desconfiar e ponderar". Pesquisar bem e não comprar por afobação ou sem refletir se realmente é necessário ou se realmente é uma boa relação preço/qualidade/peso. A segunda dica é lembrar que perder peso (ou melhorar seu condicionamento físico) geralmente é mais barato que trocar seus equipamentos pesados por equipamentos mais leves. Afinal, para um montanhista com razoável condicionamento físico, carregar ~ 12kg de carga numa travessia de 3 ou 4 dias não é nada demais.


Bastões de trekking e mochila:

Não seja teimoso e use pelo menos 1 bastão para poupar os joelhos nas longas decidas com degraus na trilha. Não precisa ser um bastão ultraleve pois vc não vai carregar ele nas costas. Eu prefiro aqueles de regulagem de altura contínua (e não aqueles que regulam em estágios, pois assim fica mais fácil ajustar a altura correta nas barracas que usam bastão). Tenha em mente que os bastões muito leves podem ser um pouco mais frágeis (se ele for ultraleve verifique se é liga de alumínio 7075 ou se a fibra de carbono é resistente). Se você quer usar o bastão para algo mais, como se defender de algum improvável animal ou fazer travessias arriscadas de rios com correnteza pode considerar um bastão reforçado (https://a.aliexpress.com/_mP4cLVp), que tem resistência mas pesa ~800g. Além disso, para aqueles que também se irritam com o bastão caindo o tempo todo, você pode encontrar um mosquetão pequeno (o Edelrid nineteen costuma dar certo) que permita prender o bastão facilmente na alça de ombro da mochila enquanto tira fotos sem deixar o bastão cair. Na alça da mochila vc prende o mosquetão numa posição que facilite prender e desprender o bastão usando apenas uma mão.

A mochila talvez seja o item mais difícil de escolher sem poder provar ou testar previamente com carga. Para trekkings curtos e ocasionais, as da Conquista e Alto Estilo são boas opções (https://www.conquistamontanhismo.com.br/equipamentos/mochilas/mochila-para-caminhada-alpina-preta-ultra-light-50-10-litros-conquista ou https://www.altoestilo.com/produtos/ultra-light-35-11/). Para cargas maiores (> 60 L e > 15 kg), o mercado está passando por uma transição das pesadas e tradicionais tipo Deuter AirContact (todas acima de 1.8 kg) para mochilas mais leves (< 1.4 kg), mas ainda está difícil de encontrar boas opções considerando preço/conforto/peso. Na minha percepção, as Deuter Alpamayo 50+10 e 55+10 possuem barrigueiras mais confortáveis que as Aircontact Core (sem falar que a Core é muito pesada). Mas a Alpamayo ainda é pesada. Não por acaso a Deuter vem perdendo mercado para a Osprey (como destaque para o modelo Exos 58). Mas insisto, para cargas grandes (~18 kg em expedições longas como 10 a 12 dias sem reabastecimento) o ideal é testar a mochila primeiro, com especial atenção à barrigueira. Não importa quão linda ou quantos bolsos legais a mochila tenha, se ela não tiver uma barrigueira que se mantenha confortável após 1h nas costas com ~18 kg ela não serve para expedições longas.

Está difícil encontrar boas mochilas cargueiras (< 1.4 kg, capacidade de carga > 15 kg e não muito caras) pois o mercado está concentrado em mochilas leves para expedições curtas (ou para expedições com carregadores). Como grandes expedições em estilo alpino parecem estar diminuindo, há pouco mercado para mochilas leves de ~70 L e com capacidade de carga de ~18 kg. Estranhamente a maioria das mochilas cargueiras tem regulagem de altura do costado mas não tem regulagem do comprimento da barrigueira (a parte acolchoada, que deve ter ~10 cm de largura ou mais). Seria interessante ter uma opção de mochila no mercado brasileiro (de 50 e 70 L) com costado e barrigueira P, M e G, independentemente. Estranhamente também a maioria das mochilas cargueiras não priorizam a redução do peso em relação ao número de bolsos. Estranhamente, também não abrem mão daquele design excessivamente “gordo” (circunferência > 105 cm), que acaba afastando a carga das costas e assim o peso “pende” muito para trás. Nesse caminho, o uso de tecidos UHMWPE 210D (9% de dyneema) poderia permitir uma redução do peso sem comprometer muito a resistência a abrasão e a durabilidade (a Naturehike Rock 2.0 60L quase chegou lá, rsrs). E claro, ainda seria consideravelmente mais barato que usando “tecido” Cuben Fiber/DCF ou outros, como as da Zpacks ou da Hyperlite Mountain.

Capas de chuva pra mochila costumam não ter muita utilidade, o que faz diferença mesmo é saco plástico grossinho e novo (0.08 de espessura, no mínimo) para proteger e organizar suas coisas (ou sacos estanques, obviamente). Trocar as sintas laterais do mochilão por sintas maiores também é útil para aumentar a capacidade de carga (e um saco estanque caseiro, feito sob medida com nylon 70 impermeável e selador Coleman, vai ser útil).


Barraca:

Em geral, as barracas mais utilizadas são as de 1 e 2 pessoas. As de 2 pessoas tendem a ser mais leves se considerarmos o peso por pessoa. Uma barraca leve para 2 pessoas deve pesar menos de ~1.8 kg e, de 1 pessoa, menos de ~1,2 kg. Em geral, não vale a pena comprar coisas mais pesadas que isso (abrindo exceção apenas para os modelos 4 estações em condições realmente extremas). As NTK Falcon 2 e Falcon 3 satisfazem razoavelmente esse critério e são boas se você trocar os espeques e as armações originais por armações de alumínio e passar selador na metade superior de todo o sobreteto. Ao trocar as armações, você pode aproveitar para rebaixar um pouco o sobreteto, reduzindo uns 2 cm no comprimento das armações. Se vc tem um pouco mais de dinheiro pra gastar, o melhor custo/benefício/peso parece ser as 3F Lanshan 1 (apenas 700 g) e 3F Lanshan 2 (apenas 1050 g), em especial as versões PRO, que são menos teladas e são em silnylon 20D, aparentemente melhor que silpoly). Se vc é mais rústico e não liga para condensação pode considerar a Trilhas e Rumos Flash2 (que pesa 1,2 kg para 2 pessoas).

Em geral, as barracas autoportantes da Naturehike não valem a pena (relação preço/peso e resistência a vento) comparativamente às da Lanshan (pois essas usam os próprios bastões como armação). Exceto, claro, se você for usar também para viagens de bicicleta, onde não vai usar bastões. Veja boas dicas sobre barracas ultralight e equipamentos no canal https://www.youtube.com/watch?v=6Lx1poRslWE mas não entre muito na “nóia ultralight” pq quase sempre envolve custo maior e durabilidade menor. Ser autoportante geralmente não faz falta nenhuma pois é tranquilo de montar a barraca mesmo sem espeques (afinal, onde não tem solo macio tem pedras grandes pra amarrar a barraca, basta levar uns cordins pra isso). Aliás, é muito útil sempre costurar uns pontos de amarração extra nas bordas da barraca e já deixar os cordins nos pontos de amarração/escoramento. Para condições de vento extremo basta reforçar os pontos de tensão do tecido com selador de costura Coleman (ou com cola de silicone neutro se o material for silnylon) e também costurar alguns pontos extras de amarração nas bordas do sobreteto. Ah... e não esqueça do footprint, que pode ser uma manta de emergência reutilizável da Decathlon ou um "tapete/esteira de acampamento aluminizado" da Aliexpress (https://abrir.link/kuUcD) que pesa ~ 200g (no tamanho 1.4 x 1.9 m) e ainda reflete um pouco da radiação de onda longa e vai fazer diferença para acampar em terreno de cascalho.

Algumas reflexões sobre as caras barracas de CubenFiber / Dyneema / DCF. De fato, essas barracas são as mais leves do mercado, mas ainda restritas a poucos fabricantes (Zpacks por exemplo). No entanto, ainda existem dúvidas sobre a durabilidade e a resistência a vincos e à abrasão desses materiais. Você pode acompanhar um pouco sobre esse debate em: https://www.reddit.com/r/Ultralight/comments/ysp78n/dcf_vs_hail_an_involuntary_case_study/ ou em https://www.reddit.com/r/CampingGear/comments/r9nvid/why_dont_any_of_the_top_tent_brands_use_dyneema/

Por fim, vale lembrar que qualquer material sofre degradação com a poeira, o tempo e com o sol (fora as dobras e a abrasão). Com ~5 ou 10 anos, certamente o tecido da barraca não possui mais a mesma resistência, aumentando o risco de te deixar num perrengue. Para ajudar um pouco com esse problema, barracas e mochilas devem ser lavadas com sabão neutro (e pouco) e depois de secas podem receber uma leve proteção com spray de silicone náutico (aqueles sprays sem solventes agressivos e com proteção UV declarada na embalagem). Esse mesmo spray pode ser passado nos zíperes para lubrifica-los e reduzir o risco de falharem.


Sistema de dormir:

Isolantes térmicos infláveis são "furáveis" e vc deve avaliar se vale a pena correr esse risco. A economia de volume na mochila será pequena se vc tiver que também levar um isolante EVA pequeno só para proteger o inflável. Não vale a pena comprar isolantes infláveis com mais de 600 g ou com R-value menor que 1.0. Se o fabricante nem informa o R-value do isolante é provável que o isolante seja ruim. Entre os isolantes tradicionais tipo "EVA" os materiais variam muito e, em geral, os mais finos que ~2 cm são desconfortáveis, especialmente para quem dorme de lado. Além disso, com 2cm ou mais de espessura o isolante vai servir para expedições futuras sob clima mais frio. Importante notar que, aparentemente, o valor R de colchonetes infláveis não é comparável ao valor R de colchonetes de célula fechada/espuma (https://www.youtube.com/watch?v=J5UeaA0Bzuk). O valor R dos infláveis tende a estar superestimado. Uma opção interessante para modelos de célula fechada é o EggCrate Plus da Naturehike (com 2.5 cm de espessura e R-value de 2.5 e peso de 530g) ou o da MOBI Garden (com 2.6 cm de espessura, R-value de 2.6 e 400 g) ou ainda os caros e ultraleves da Mountain Spring.

Quando o assunto é saco de dormir é difícil fazer uma sugestão que agrade a todos. No Brasil em geral, um saco com temperatura de conforto de -2 graus é suficiente. Para essa temperatura de conforto há várias opções em torno de 800 g. Desconfie de sacos milagrosos, provavelmente não há sacos realmente adequados para essa temperatura abaixo de 500g, mesmo com plumas de fill-power alto. Ignore a tal "temperatura extrema" que alguns fabricantes informam. Na Aliexpress tem sacos de marcas ou de modelos que não vendem nas lojas do Brasil (como o modelo ULG400 da Naturehike para -4 graus e apenas 880 gramas, que provavelmente não aguenta -4, mas é uma boa opção para 0 e -2 graus ou o IceFlame modelo SD400-NXT para -2 graus com 730 g ou modelos da Alpine Guest acima de 800 fillpower). Se vc ocasionalmente precisar de um saco para -6 ou -8 graus vc pode simplesmente colocar 1 saco de verão dentro do saco de plumas (como o Mícron X-lite da Azteq ou mesmo um caserão costurado com mantinha de microfibra com apenas 1.3m de altura, que vai pesar ~250g). Mas não espere que colocar um saco dentro do outro seja mais leve que um bom saco especificamente projetado para -8. Outro item que recomendo para complementar o saco de dormir é o saco de dormir de emergência "aluminizado" da LIXADA, que diferente dos demais é respirável e não faz barulho. É um item barato e leve (apenas 120 g) que vale a pena. E para quem morre de medo de sujar o saco de plumas, usar um desses por dentro também pode ser uma boa ideia.

 
Roupas:

Em geral não vale a pena comprar roupas muito caras para trekking fora de alta montanha. Como todos sabem, para atividades físicas de longa duração deve-se evitar ao máximo roupas de algodão porque não secam rapidamente. Camisetas manga longa tipo "dry fit" da Decathlon são suficientes. Calças idealmente devem permitir uma boa flexibilidade. Uma camiseta manga longa leve pesa menos de 140 g e uma calça sintética leve pesa menos de 250 g. Uma blusa ou jaqueta de fleece leve pesa menos de 300 g e um corta vento leve pesa menos de 350 g (cuidado com os corta vento de trail running pois são muito frágeis). Vestir duas camisetas manga longa é suficiente para frio leve. Independentemente do número de dias do trekking, 2 camisetas manga longa e 1 calça são suficientes. Reserve apenas uma manga longa limpa para dormir e para o translado da volta. Se a previsão marcar muito frio leve uma calça segunda pele para dormir (menos de 160g no modelo Artic da Conquista Montanhismo). Confira se a previsão do tempo realmente indica a necessidade de uma jaqueta de plumas pois elas geralmente são caras demais e não podem molhar. Uma jaqueta de plumas leve pesa menos de 400g.

Um item polêmico nas roupas são as calças e jaquetas impermeáveis e respiráveis. Na maioria das vezes vc não vai usar calça impermeável-respirável e as leves (menos de 300 g) geralmente são caras demais para um uso tão ocasional. Alternativamente existem pernas impermeáveis (mas não respiráveis) na faixa dos 90g da marca 3F e outras. As jaquetas impermeáveis e respiráveis são caras e pouco duráveis (em poucos anos a impermeabilidade se acaba, mesmo num bom anorak NorthFace). Teste a sua antes de sair de casa e lembre-se de nunca usar amaciante nestas jaquetas. Infelizmente ponchos, apesar de baratos, podem ser desastrosos em chuvas com vento. E não se iluda, nenhuma jaqueta impermeável e respirável vai te manter seco se vc continuar caminhando rápido na chuva. Mesmo que ela tenha uma ótima respirabilidade ela não vai conseguir expulsar todo o suor e vc vai molhar por dentro.

As meias merecem especial atenção pois devem ser relativamente grossas e transpirarem bem para evitar bolhas (meias com Coolmax são ótimas para isso). Se vc transpira muito nos pés considere trocar as meias no meio do dia. Por fim, um boné ou chapéu ajuda a proteger do sol (ou uma camiseta com capuz) e vc poderá ficar menos melecado de protetor solar ao longo de alguns dias sem banho.

Calçados, perneira e joelheira:

Ainda recomendo botas, especialmente as de couro ou nanox, por 3 motivos: i. melhor proteção contra espinhos e cobras; ii. maior firmeza do tornozelo; iii. impermeabilidade com respirabilidade. Na maioria das vezes é tranquilo tirar a bota e pendurar no pescoço para atravessar rios ou atoleiros fundos. E como uma recomendação geral, as botas da Marluvas ainda surpreendem na relação custo/benefício. Como calçado de descanso (ou para cruzar rios), um Crocs, sandália ou “meia com sola” (“sapato de água” ou de pilates) pode ser útil. Destes, a "meia com sola" é o mais barato e interessante (~200 g mas como é fechado atrás serve para cruzar rios). Destas 3 opções, a sandália (apesar de um pouco mais pesada que “a meia com sola”) é o melhor calçado reserva para quem tem risco de dores no calcanhar, dedão, unha encravada, etc. em caminhadas longas.

A necessidade de perneira depende, entre outras coisas, do quão isolado o lugar é de um hospital que realmente tenha soro antiofídico, da época do ano e do ambiente/contexto da trilha (trilhas mais fechadas no cerrado e em solitário, por exemplo, pedem perneira). Não confunda perneira para lama ou neve com perneira para cobra. Uma perneira antiofídica comum (de courinho fino comprada em loja agropecuária) pesa ~550g. Uma perneira para cobra de material mais leve pode pesar ~330 g (como as https://www.turtleskin.com/collections/snake-armor). A perneira para cobra vai ser útil também para proteger dos espinhos nas trilhas do litoral e do sertão e servir de forro de chão no acampamento.

Se você tem dores no joelho nas trilhas longas, talvez seja útil levar 2 bastões de caminhada. Outra opção é usar uma boa joelheira já desde o começo da trilha (como por exemplo a DonJoy Reaction Knee Brace: procure na  www.fisiostore.com.br ). Se vc já sente essas dores no dia-a-dia antes de sair pra trilha, nem vá. Levar 2 bastões também poderá ser útil para atravessar rios (se tiver muita correnteza seja prudente e use um cordin de pelo menos 20 m, como um paracord 4 mm ou uma linha dyneemma soft de 2 mm).

 

Higiene e cuidados:

Em trekkings com mais de 2 pernoites (e/ou com mais pessoas menos experientes) pode ser prudente um kit de medicamentos um pouco mais completo. Para reduzir o volume, retire os comprimidos das caixas originais e corte apenas alguns comprimidos de cada (pode ser necessário reescrever os nomes dos medicamentos). Um comprimido de dipirona, Flanax, dexametasona, vonau e simeticona por pessoa, no mínimo. Salve as bulas desses medicamentos no celular e leia-as. Uma fita microporosa e um pouquinho de creme cetocort. Em trekkings mais longos, um antibiótico e um colírio Tobrex pode ser útil. Uma escova pequena, um pouco de pasta e fio dental são itens óbvios. Se vc costuma ter bolhas nos pés, um pouco mais de fita micropore e um pouco de pó granado pode ajudar a manter os pés mais secos. Protetor solar, manteiga de cacau, 30 mL álcool 70% líquido, 1/3 de sabonete e papel higiênico completam a lista.

Considero que o shit-bag deveria ser obrigatório em trilhas muito lotadas ou em locais muito frios ou ambientes com pouco ou nenhum solo. Mesmo quando este não é o caso, é muito bom ter um shit-bag quando “vem aquele chamado” às 22h numa noite de chuva. Lembre-se, cada evacuação deve ser embalada em 2 saquinhos de plástico biodegradável (https://oeko.com.br/loja/uso-residencial/sacos-compostaveis-uso-domestico/saco-em-bioplastico-compostavel-4-litros-100-unidades-2/) (que vai permitir vc enterrar esses saquinhos posteriormente em um local mais apropriado ou destinar num lixo orgânico comum caso vc use papel e não lenço umedecido, que é sintético) e mais 1 saquinho plástico de espessura 0.10 (que não precisa ser de bioplástico) para reduzir a saída de odores. Com esses 3 saquinhos, seu shit-bag poderá ser qualquer coisa, como um pote, outro saco plástico grosso ou um pequeno saco estanque.


Cozinha, água e alimentos:

Sempre leve uma garrafa com ~1L de água em local acessível (sem precisar tirar a mochila das costas) e mais uma garrafa pet 2L vazia para poder transportar água em trechos mais críticos ou no acampamento. Uma garrafa de boca bem larga (como aquelas "tipo Nalgene" pode ser útil como copo e ainda aguenta água quente sem derramar para colocar dentro do saco de dormir em noites geladas). Mas claro, uma simples garrafa pet de 1L certamente será mais leve. Não confie que a água seja limpa. Trate a água pelo menos com Clorin ou água sanitária. O Clorin, no entanto, pode não matar patógenos maiores como certos protozoários e, por isso, usar também um filtro pode ser útil. Filtrar também é muito útil para reduzir sujidades visíveis na água. Um método barato é usar um filtro de piscina cortado (tipo saco, de 1 micra ou 1 micrômetro: procure no mercado livre) e depois pingar 2 gotas de água sanitária. Mas lembre-se, a água sanitária não pode ser velha (e use um conta gotas que veda bem) e a água tratada precisa repousar por ~20 min antes de poder ser consumida.

A estratégia mais comum de alimentação em caminhadas é reforço no café e na janta e pequenos lanches ao longo do dia. Varia muito de pessoa para pessoa, mas uma opção de café é (185 gramas/dia): ovo, café solúvel, mingau de aveia com açúcar mascavo. O ovo pode ser cozido previamente (aguenta cozido uns 3 dias) ou cozido na hora em pequenas sessões de fervura e repouso na água quente. Para o ovo não quebrar na mochila é só envolver em filme de pvc e colocar num porta ovo leve. Para a janta pode ser (132 gramas/dia): miojo com batata palha, com 2 ketchup e uma pitada de salsa e cebolinha desidratada ou Lemmon Pepper. Isso é um pouco mais leve que os pacotinhos de comida liofilizada e bem mais barato. Vc não precisa ferver o macarrão por 3 minutos. Vc ferve e desliga duas vezes que dá certo e economiza gás. Como lanchinhos (200 gramas/dia) uma opção é barrinha de cereais, leite em pó, amendoim torrado, salaminho e Tang. Note que café, lanches e janta têm sempre um item salgado. Cada um precisa testar uma dieta que dê certo, seja saborosa e na quantidade mínima para não passar fome. É difícil generalizar, mas basta ~550g/dia. Vc pode se planejar e ganhar um pouco de peso antes da aventura.

Uma panela de titânio Toaks de 550 mL é uma ótima opção para trekkings com 1 ou 2 pessoas. Ela também serve de copo, pesa apenas 87g e cabe certinho um miojo. Para 3 ou mais pessoas, uma caneca de alumínio fininha compensa mais (para fazer a comida de todos ao mesmo tempo, com menos de 340g). Se vc usa gás, o fogareiro BRS 3000 MINI pesa apenas 30g, mas ele é pequeno demais para panelas coletivas grandes. Se vc prefere espiriteira a álcool dê uma olhada nos kits da Oma Gear ou nas espiriteiras de titânio na Aliexpress. Por fim, não esqueça de uma colher qualquer, um canivetinho e um mini isqueiro Bic.


Eletrônicos:

Em geral, o mínimo é levar um celular com MapsMe, Wikiloc ou outro app instalado que funcione offline. Uma das vantagens do wikiloc é que ele não é uma rede social e, portanto, não te amola com notificações nem com supostos “likes” de “amigos”. Certifique-se de carregar os mapas para uso offline no app. Mas, para mais de um pernoite, provavelmente vc vai precisar de um powerbank (como o Nitecore NB10000 mAh de apenas 150g) com cabo USB pequeno e uma lanterna pequena. Uma lanterna de cabeça pequena (de preferência a pilha, pra durar mais) é suficiente. A Nitecore tem boas opções abaixo de 50g. A maioria dos montanhistas não usa mais GPS dedicado e isso exige um pouco mais de confiança de que o celular não vai te deixar na mão. Por isso, fique atento aos sinais de "fim de vida" do seu aparelho antes de ir pra montanha dependendo dele. Além disso, se vc depende dele, lembre-se de usar uma capinha ou capinha estanque para garantir que ele não vai quebrar nem molhar caso seu aparelho não tenha certificação ip67 ou ip68. Para os mais prevenidos, um celular mais resistente, como um Doogee ou algum com resistência à água pode ser uma boa opção. Infelizmente, os celulares robustos não costumam ter câmeras tão boas, então tenha isso em mente caso vc não leve uma câmera fotográfica dedicada.

Alguns montanhistas mais prevenidos também levam um rastreador satelital, como o SpotGen ou Garmin Inreach mini, ou um rádio VHF, como o barato Baofeng de potência 5watts. Se você vai pernoitar em lugares muito frios (abaixo de -3, aproximadamente) é altamente recomendável colocar seus eletrônicos, ou apenas suas baterias, dentro do saco de dormir. Isso é útil pq o frio pode realmente descarregar algumas baterias. Caso a aventura seja muito longa, como 5 dias ou mais, pode ser interessante levar também um carregador solar portátil. A marca SOECOPO (ou outras no Aliexpress) possui alguns modelos portáteis de potencia nominal de 35W (aprox. 30 x 15 cm) que pesam apenas 100g (improvise uma fixação na parte superior do mochilão pois a velocidade de carregamento é de apenas ~800 mA/h).

Por fim, se você é um aficionado por fotografia, vai querer levar uma câmera dedicada e, ao menos, um tripé portátil. Em geral, uma câmera dedicada só vale a pena em relação ao celular se for uma câmera portátil boa (sensor de 1 polegada ou maior). Se vc usar uma câmera de sensor de 1 polegada vai conseguir usar aqueles tripés ultra frágeis e vagabundos de apenas 280g (1 m de altura). Se usar uma APS-C vai ter que usar um tripé um pouco mais firme, como o Nagnahz NA3560-A. Não encontrei ainda um tripé de 1m minimamente firme abaixo de 550g.

Espero ter sido útil.

Editado por andremundstock
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