"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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Olá galera!
O relato a seguir descreve um mochilão feito por mim e minha namorada entre os dias 01 e 13/01/2014 pelo nordeste, pernoitando e/ou conhecendo um pouco de São Luís, Alcântara, São José de Ribamar, Santo Amaro, Lençois Maranhenses, Barreirinhas, Parnaiba, Jericoacoara e Fortaleza.
Dia 01 - 01/01/2014
Nosso vôo chegou por volta das 4h da manhã do dia 01/01/2014 e, por isso, resolvemos ir direto para o HI Hostel Solar das Pedras, localizado no centro histórico de São Luís, onde já possuíamos reserva. O aeroporto de São Luís fica numa região afastada do centro histórico, e foram cerca de R$ 40 de taxi (acabamos não pedindo para o taxista ligar o taxímetro, mas deve dar algo entre R$ 30 e R$ 40, acredito).
A primeira impressão do centro histórico de São Luis à noite é a de um lugar pouco seguro. Tal impressão foi, infelizmente, confirmada pelo taxista, a primeira pessoa que tivemos contato em São Luis e depois com muitos outros moradores. É triste perceber o abanadono e a falta de investimentos por parte dos orgão públicos que vem sofrendo aquela região.
O centro histórico de São Luis possui prédios belíssimos, com uma arquitetura muita charmosa e alguns com fachadas repletas de azulejos antigos portugueses. E mesmo com todos os alertas sobre a criminalidade no local, andamos sem problemas pelas ruas do centro histórico durante o dia. Sem ostentar e ficando alerta, como em qualquer metrópole, você não terá problemas também. À noite, se puder, prefira caminhar em grupo.
São Luis possui um centro histórico enorme, mas algo entre 01 ou 02 dias são suficientes para se conhecer sua maioria. Conhecemos algumas praças e ruas na região. Destaque para o Palacio dos leões, com sua vista para a Baia de São Marcos. Nessa praça, onde está localizado o Palácio, é possivel se ter acesso a praças, igrejas e outros prédios históricos também.
Nesse mesmo dia, fomos conhecer São José de Ribamar, cidade distante cerca de 1h a 1h30 de São Luis. A van para São José passa perto do camelódromo, mas por ser dia 01/01 e haverem poucas vans, tivemos que ir até o anel viário, região mais afastada do centro histórico e segundo dizem, um pouco perigosa em dias de pouco movimento e a noite.
São José de Ribamar é uma cidade pequena, com uma praia de grande faixa de areia e mar calmo. Achamos os preços das refeições um pouco salgados (R$ 60 em média para duas pessoas) e resolvemos procurar uma opção mais barata. Era um restaurante simples, localizado próximo a rotatória, sentido de quem deixa a cidade. Não me lembro o nome exato, mas era um casarão antigo que pertencia a uma senhora e ficava numa esquina. Pagamos a bagatela de R$ 15 na refeição, incluso bebida.
Abaixo, Centro histórico de São Luís/ MA
Abaixo, São José de Ribamar/ MA
Dia 02 - 02/01/2014
Conhecemos uma galera gente finíssima no Hostel e decidimos juntos visitar Alcântara neste dia. Se você pretende visitar Alcântara e caso seja em uma época de grande movimento, como foi nosso caso, é importante chegar bem cedo ao porto onde partem os barcos para lá (fica no centro histórico, próximo ao terminal de ônibus). Os barcos saiam às 8h, então chegamos bem cedo, às 7h e compramos as passagens de ida por R$ 12 (por pessoa). A passagem de volta pode ser comprada ao chegar em Alcântara, em uma agência que fica no porto de lá pelo mesmo valor. É aconselhável comprar assim que desembarcar.
Alcântara é uma cidade com um grande patrimônio histórico, datado dos séculos onde a produção de algodão era próspera na região. É marcada também por um passado triste de escravidão, com suas marcas e resquícios presentes em monumentos como o Pelourinho e nas histórias contadas pelos moradores. Suba a rua principal que sai do porto e poderá encontrar diversos prédios históricos, inclusive uma das primeiras igrejas do local, a Igreja Matriz de São Mathias, que está em ruínas. Há belos casarões, casas simples, igrejas e muitas outras construções em ruínas também. Aproveite para provar o Doce de Espécie, típico da lá, além dos licores produzidos com as frutas da região. Para almoçar, há diversos restaurantes no porto, com preços variados. A cidade possui agências bancárias do Bradesco e B. do Brasil (foram as que ví).
Na volta, em algumas ocasiões, o mar costuma ficar bravo e agitado. E esse foi um destes dias. Resultado: alguns passaram mal e tinha até gente rezando para o barco não virar (exagero, rs), mas nada que um remédio para enjôo não resolvesse.
Abaixo, Alcântara/ MA
Dia 03 - 03/01/2014
Como havíamos planejado, deixamos São Luís neste dia, indo em direção ao vilarejo de Sangue/ MA, onde de lá tomariamos uma Toyota até Santo Amaro/ MA para iniciar a travessia dos Lençõis. De São Luis até Sangue, fomos de van o que acabou não saindo muito barato, ou seja, R$ 40 por pessoa. Se for pelo terminal de ônibus pagará mais barato. Em Sangue, o ônibus/ van lhe deixará na estrada, onde você deverá pegar uma Toyota. Chegamos por lá e não havia nenhum veículo partindo para Santo Amaro, então aguardamos por lá. Há um comércio no local, com alguns produtos, como salgadinhos e refrigerantes. O senhor Perroti (acho que é isso), dono do local, possui diversas infos sobre a região e foi um bom bate-papo enquanto aguardavamos algum carro. Tome um café da manhã reforçado sempre pois, chegamos as 11h da manhã e a previsão era da Toyota aparecer somente às 15h. Tivemos a sorte de aparecer uma Toyota as 13h, e por R$ 20 (por pessoa), nos levou até Santo Amaro. O percurso é feito em aproximadamente 1h30min, numa estrada arenosa.
Em Santo Amaro, ficamos na pousada Fé Em Deus, que pertence a Dona Graça, uma simpática senhora. Pagamos R$ 60 o casal com ventilador e banheiro no quarto. Pousada simples, mas bem organizada e limpa. Combinamos com o guia Carlos Queimada o início da travessia, que seria na madrugada do dia 04, às 3h30 da manhã, para não caminhar sob o sol da tarde nos Lençois.
Santo Amaro é uma cidade calma e pequena, mas parece receber um número maior de turistas entre junho e agosto, épocas de chuvas na região, período em que as lagoas ficam cheias. Haviam poucas opções para comer e combinando com a dona da pousada, fizemos a refeição por lá, pagando a parte.
É sempre bom reservar com antecedência o serviço de guia para a travessia, pois em épocas de cheia das lagoas, este serviço fica bem requisitado. O guia Carlos Queimada ((98) 9149-9771 ou (98) 8734-0615. carlosqueimada@hotmail.com) é nativo da região dos Lençois (nasceu em Queimada dos Britos) e possui um grande conhecimento do local. Fizemos parte da travesia com ele e outra parte com seu irmão Williamy, um excelente guia também.
Dia 04 - 04/01/2014
Como combinado, iniciamos a travessia neste dia às 3h30 da manhã. Despachamos os mochilões para Barreirinhas, atráves de um parente do guia iria para lá, levando assim apenas mochilas de ataque com o essencial. Tomamos café e saímos de Santo Amaro/MA caminhando até a entrada do Parque dos Lençóis Maranhenses. Há a opção de pegar um carro e encurtar o trajeto cerca de 7km, mas escolhemos caminhar e fazer todo o percurso a pé, aproximadamente 30km nesse primeiro dia.
A sensação de caminhar nos Lençõis à noite é fantástica! A cor da areia se funde com a cor do céu, formando uma só paisagem. O céu é incrivelmente estrelado, criando um cenário mágico.
Sabíamos que, devido a época de seca, pegaríamos os Lençóis quase que secos, com pouquíssimas lagoas, mas mesmo assim não desanimamos. E no final, valeu muito a pena, pois a paisagem é deslumbrante e surpreendente. Nessa época de seca, a caminhada fica também mais curta, devido a não ser necessario margear lagoas maiores para atravessá-las.
O dia vai amanhecendo e assim vai surgindo um cenário único à frente. A sensação de estar no meio de uma imensidão de dunas, de diversos tamanhos e formatos é incrível. Paramos para descansar e tomarmos um lanche, por volta das 7h. Paramos mais a frente para desfrutarmos de algumas lagoas que estavam com água. A sensação de poder se resfrescar durante a caminhada deve ser ainda mais fantástica nas épocas de cheia das lagoas. Durante a caminhada, avistamos muitos animais que pertencem aos moradores dos vilarejos e são criados soltos pelos Lençõis, como cabras, bodes e porcos. Os lençois possuem outros animais como lagartos, cobras e até raposas, mas se encondem nas vegetações e poucos são vistos durante o dia.
Após horas de caminhada, por volta das 11h da manhã, começamos a avistar uma vegetação maior e mais concentrada. Era Queimada dos Britos, vilarejo localizado no meio dos Lençois e fundado pela família de Carlos, nosso guia. O vilarejo possui cerca de 13 famílias, que vivem basicamente da agricultura e da criação de rebanhos. O vilarejo impressiona pelo tamanho e pela forma como seus moradores se adaptaram a uma vida em meio a uma paisagem tão hostil. Conversando com seu Raimundo, pai de Carlos, vemos como aquele local é importante e faz parte da história de vida de seus habitantes. Após almoçarmos na casa de seu Raimundo, uma deliciosa refeição, fomos descansar no redário. Não é necessário levar barracas, pois há redários em Queimada dos Britos e Baixa Grande, nossa segunda parada.
Abaixo, 1º dia de caminhada nos Lençóis Maranhenses
DICAS
A quantidade de água aconselhada para se levar é cerca de 1,5l por pessoa. Leve também frutas secas, como bananas desidratadas, além de barra de cereais, paçoca e amendoim, mas cuidado para não deixar sua mochila muito pesada, ou ao fim da caminhada você terá uma dor imensa nas costas. Leve também um kit de primeiros socorros, com esparadrapos, ataduras e band-aids, apesar de todo tipo de material colante se desgrudar facilmente com a areia, serão muito úteis em qualquer emergência. Chápeu, protetor solar, óculos escuros são essenciais. Camiseta de manga comprida e calça são opcionais, além de uma canga, que ajuda muito a proteger os braços e serve de tapete nas paradas. Fizemos a caminhada utilizando dois tipos diferentes de calçado: chinelo tipo havaianas e sandália baixa, tipo papete. Caminhamos também com os pés descalços. Minha namorada caminhou sempre com meias e não teve bolha alguma nos pés. Caminhei sem meias no primeiro dia e acabei tendo algumas nas pontas dos dedões.
Dia 05 - 05/01/2014
Neste dia, iniciamos a travessia às 7h da manhã, pois o trajeto até Baixa Grande é mais curto (cerca de 9km). Foram aproximadamente 2h30 de caminhada, facilitadas pela ausência de água nas lagoas. Caso estivessemos em época de chuvas, teriamos cruzado um rio que cobria uma grande dimensão de areia, mas estava seco. Logo, chegamos em Baixa Grande, outro povoado localizado no meio das dunas. Ficamos na casa do irmão do seu Raimundo, que também nos recebeu com bastante hospitalidade. Tanto em lá como em Queimada dos Britos, é possível comprar água, refrigerante ou cerveja. Os alimentos e bebidas são mantidos através de geradores a óleo, pois não há energia elétrica nos vilarejos. Em Queimada há painéis solares, e existe a possibilidade de regarregar pequenos objetos eletrônicos. Fomos dormir cedo este dia, pois a caminhada seguinte começaria às 3h30 da manhã.
Abaixo, 2º dia de caminhada nos Lençóis Maranhenses
Dia 06 - 06/01/2014
Acordamos cedo para o terceiro e último dia de caminhada nos lençóis. Nosso destino final nessa caminhada seria Canto de Atins. Os 25km desse dia foram feitos em cerca de 6h30.
Saímos de Baixa Grande, seguindo em direção a costa e a medida que nos aproximamos do litoral, a paisagem muda. Ao invés de enormes dunas, começam a aparecer imensos campos, com dunas menores e mais distantes umas das outras. Pelo caminho, avistamos algumas cabanas abandonadas. Em outras épocas do ano, são utilizadas por pescadores como acampamento.
Chegamos ao litoral e aproveitamos para descansar e tomar um banho de mar. Nesse trecho, já começamos a avistar pescadores e turistas, algo estranho depois de três dias caminhando sem ver uma viva alma, exceto nos povoados. Nesse último dia o cansaço de toda a travessia começa a bater, os pés doem, mas a satisfação e a realização de todo o feito, são maiores.
Já em Canto de Atins, paramos para descansar e esperar a Toyota que nos levaria até Barreirinhas. Era um restaurante, que também funcionava como pousada. Aproveitamos para almoçar.
Nossa Toyota chegou e partimos para Barreirinhas. O carro passa primeiro por Atins, pega mais alguns passageiros e depois segue seu caminho.
Em Barreirinhas, depois de pegarmos nossas mochilas, fomos até a Pousada da Deusa, que nos foi recomendada inclusive aqui pelo forum. É uma pousada simples, com um bom café da manhã. Pagamos R$ 60 na diária do casal em quarto sem banheiro e com ventilador.
Barreirinhas é uma cidade bem movimentada, impulsionada pelo turismo na região. Há um grande transito de motos, quadriciclos e Toyotas, além de diversas lojas. Há um passeio pelo Rio Preguiças e outros pela região, mas como ficamoss apenas uma noite, não fizemos nenhum deles.
Abaixo, nascer do sol nos Lençóis e o litoral
Dia 07 - 07/01/2014
Acordamos cedo, pois haviamos nos informado de que saiam Toyotas para Paulino Neves/ MA as 8h, mas era bom chegar com antecedência para garantir lugar. Encontramos dois amigos que conhecemos em São Luís e partimos juntos para Paulino Neves. De lá seguiríamos para Tutóia/ MA e depois, Parnaíba/ PI. Até Paulino Neves, foram cerca de 1h30, e pagamos R$ 20 por pessoa na Toyota. Em Paulino, no mesmo local onde a Toyota nos deixou, esperariamos uma van que nos pegaria ao meio-dia. Fomos conhecer um pouco de Paulino Neves nesse meio tempo e nos pareceu uma cidade bem tranquila, bem menos movimentada que Barreirinhas.
Seguimos de van até Tutóia (pagamos R$ 08), depois de 40min chegamos a rodoviária. Não conhecemos muito de Tutóia, além da rodoviária. Embarcamos nos ônibus das 13h30 da viação Guanabara (a passagem custou cerca de R$ 17) e seguimos para Parnaíba/ PI.
Chegamos em Parnaiba sob um temporal e, como não possuíamos reserva em nenhum lugar, seguimos a dica de um funcionário da empresa de ônibus e fomos para a pousada Porto das Barcas, que fica localizada no antigo porto, que está desativado e perto da ponte que leva para o Porto do Tatus, local onde saem os barcos para o passeio do Delta. A pousada possui uma decoração bem exótica, com diversos objetos antigos e muitas pinturas e esculturas, algumas feitas pelos próprios funcionários. Funciona num antigo mercado desativado. Pagamos R$ 60 na diária do casal em quarto com suíte e ventilador.
Saímos à noite para comer ali mesmo na região, um pequeno centro histórico movimentado por lojas de artesanato, restaurantes e uma sorveteria, muito boa, por sinal.
Dia 08 - 08/01/2014
Como havíamos contratado o passeio pelo Rio Delta, acordamos cedo neste dia e fomos rumo ao Porto dos Tatus, onde sairia nosso barco. Existem algumas agências próximas a pousada que oferecem o passeio pelo delta, o preço variava entre R$ 45 e R$ 55. Nesse valor estava incluso frutas, almoço e a famosa caranguejada. É um passeio que dura das 9h as 15h, feito em barcos de dois andares, que comportam cerca de 70 pessoas. Há passeios mais reservados, para duas pessoas, mas custam mais caro. É o típico passeio "para, desce e sobe de volta", mas foi bacana para conhecer um pouco da região do Delta, seus mangues e ilhas. Vimos uma demostração de como é feita a "cata" do caranguejo, paramos em alguns locais para banho e retornamos para o porto.
De volta a Parnaíba, saímos a noite para conhecer um pouco dos arredores. Existe um SESC na região, bancos e também um mercado grande. Achamos bem tranquila a região.
Abaixo, passeio pelo Delta de Parnaíba e o "Homem-Lama"
Dia 09 - 09/01/2014
Conheçemos um sinpático casal de Tocantins durante o passeio pelo Delta e que seguiam também para Jijoca de Jericoacoara/ CE, nosso próximo destino. Eles nos ofereceram carona e aceitamos, mas tivemos que antes cancelar nossas passagens até Camocim/ CE. Foi ai que começou uma novela. Por recomendação de terceiros, compramos nossas passagens para Camocim/ CE por uma agência terceizada, chamada AGÊNCIA NAZARÉ, e ao tentarmos cancelar nossas passagens e reaver nosso dinheiro, os problemas começaram. Uma funcionária de lá, talvez fosse a dona, disse que somente poderiamos pegar o dinheiro das passagens dali a 25 dias. Dissemos a ela que não poderiamos aceitar essa condição pois moravamos distante dali e logo deixariamos a cidade. Inflexível e sem o minímo de educação, mesmo sabendo que tal cláusula aplicada pela empresa era abusiva, se negou a nos devolver o dinheiro. Fomo então até a rodoviária, e no guichê da empresa, expliquei todo o ocorrido e nos devolveram o dinheiro das passagens. Então, cuidado com essa AGÊNCIA NAZARÉ, prefira comprar direto na rodoviária.
Depois de todo o ocorrido, seguimos de carona rumo a Jijoca/ CE. Foram cerca de 4h de viagem, com algumas paradas pelo caminho. Acabamos não parando em Camocim/CE, mas caso a viagem fosse feita de ônibus, teriamos que parar lá e pegar outro transporte até Jijoca de Jericoacoara/ CE.
Chegamos em Jijoca por volta do meio-dia. Na entrada da cidade, fomos abordados por diversas pessoas oferecendo serviços de translado até a Vila de Jericoacoara. Alguns se ofereciam como guias, onde o turista tinha a opção de seguir com o próprio carro e outro se oferecia para nos levar de D20. O carro ficaria estacionado em sua casa até o dia que o casal saísse de Jeri. O casal escolheu deixar o carro em Jijoca e seguir até Jeri pela D20 e, ao meu ver, é a melhor decisão. A vila é pequena, não havendo a necessidade de usar o carro como transporte. Se tentar ir sozinho, sem guia, poderá atolar o veículo e a despesa com guincho será maior. Nosso transporte até Jeri custou R$ 80, dividido entre 5 pessoas.
Chegamos a Jeri e fomos direto ao HI Hostel Jeri Brasil, onde já haviamos feito a reserva. É um excelente hostel, com uma ótima infraestrutura, quartos bem equipados e limpos. Guardamos nossas bagagens e fomos até a Duna Pôr-so-Sol, ver o poente. A vila de Jeri possui uma boa infraestrutura, com alguns mercadinhos, diversos restaurantes e lanchonetes, peixarias, lojas de roupas e artesanato e uma vida noturna agitada.
Dia 10 - 10/01/2014
Nesse dia fomos caminhando conhecer a Pedra Furada, formação rochosa que é cartão postal de Jeri. A trilha para lá começa no Serrote, próximo a praia da Malhada e segue pela costa. É uma paisagem lindíssima, e o trajeto pode ser feito pela praia, quando a maré está baixa ou mais acima, pelo Serrote, quando alta. Leve a maquina e tire muitas fotos, a cor do mar impressiona.
Chegando na Pedra Furada, alguns vendedores se oferecem para fotografar, não cobram nada e tiram uma foto bacana. O local fica disputado para fotos, então, quanto mais cedo, melhor. De lá andamos mais um pouco adiante, paramos num quiosque para tomar água de coco e seguimos pelo Serrote, subindo em direção ao Farol, que fica no topo.
Havia uma galera muito gente boa no Hostel e agitamos uma noite de pizzas. Depois, fomos para o Samba da Malhada, que fica ali próximo. O samba, com um grupo tocando ao vivo, começa as 22h30 e vai lotando com o passar das horas. É diversão garantida, acompanhado de boa música.
Abaixo, fotos da Praia da Malhada e da Pedra Furada
Dia 11 - 11/01/2014
Com passeio marcado nesse dia, acordamos cedo. O bugueiro chegou às 9h e de lá fomos direto para nosso primeiro destino, a Lagoa Azul. O caminho foi feito pela costa, passando pela cidade de Cruz/ CE e pela praia do Preá, local muito procurado por kitesurfistas.
Logo chagamos a Lagoa Azul, com suas famosas redes nas margens. Exsitem alguns quiosques no local, aluguel de caiaques (R$ 20, 30min) e pranchas stand-up. O local onde há os quiosques fica lotado de gente, então, para quem quer sossego, a solução é ir para a margem oposta.
Ficamos por lá cerca de 1h e fomos para a próxima lagoa, a Paraíso, também chamada Lagoa de Jijoca, pois fica ao lado da cidade. Essa lagoa é imensa, muito maior que a lagoa Azul e suas águas são incrivelmente claras e azuladas, em dias de sol. Há algumas redes e também cadeiras com guarda-sois de palha. O local é bem sossegado, perfeito para se relaxar durante uma tarde inteira. Faz um vento fortíssimo, então cuidado com câmeras e objetos leves que possam ser levados. Um quiosque oferece pratos e petiscos, além de refrigerante e água. Outra opção para se chegar a lagoa, caso não queira contratar um Bug (custa R$ 50 por pessoa o passeio ida e volta nas duas lagoas) é pegar uma D20 na Vila de Jeri por R$ 10 e pedir para descer na Lagoa Paraiso. Depois é só pagar os mesmos R$ 10 e voltar para a Vila. O passeio de bug retornou as 16h para a vila.
À noite, fomos até a sorveteria Gelato & Grano e, sinceramente, o melhor sorvete que já tomei na vida! O pequeno custa R$ 7 e o grande R$ 11, mas vale cada centavo. Ah, e aproveite para provar os sabores antes de escolher, é um melhor que o outro.
Abaixo, Lagoa Azul e Lagoa Paraíso
Dia 12 - 12/01/2014
Em nosso último dia em Jeri, acordamos cedo para aproveitar a praia. Nosso ônibus em sairia de Jijoca, rumo a Fortaleza, às 15h30. Uma dica é comprar a passagem para Fortaleza com antecedência, pois em alta temporada elas ficam bem disputadas. A empresa que vende e faz o trajeto para Fortaleza é a FretCar, e há um escritório que vende passagens em Jeri. Há dois tipos de passagens, uma em que o ônibus faz menos paradas e inclui uma jardineira de Jeri para Jijoca (R$ 60, aproximadamente) e outra que sai direto de Jijoca (R$ 32, aproximadamente), sendo necessário pegar uma D20 até lá (R$ 10).
O trajeto de Jijoca até a rodoviária de Fortaleza dura 6h, com apenas uma parada para se alimentar, então, se prepare.
Chegando em Fortaleza/ CE, pegamos um taxi da rodoviária até o Hostel Terra da Luz, onde ficariamos uma noite e deu cerca de R$ 25 no taxímetro. Chegamos tarde nesse dia, 21h, e apenas arrumamos nossas coisa e saimos para comer algo ali por perto. Em Fortaleza, há diversas opções de restaurantes e bares.
Dia 13 - 13/01/2014
Último dia de viagem, pois pegariamos um vôo para São Paulo às 21h, aproveitamos para comprar algumas coisas no Mercado Central, que fica ali próximo. O Mercado oferece uma ampla variedade de produtos típicos do nordeste, como a rapadura, castanha de caju e seus derivados, roupas, calçados e muitas outras coisas. Vendem redes também, mas uma dica é comprá-las do lado de fora, numa loja chamada Atacadão da Redes, o preço é bem melhor. E aproveite para negociar.
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Bem, esse foi nosso relato, um pouco longo, talvez, mas esperamos que possa ajudá-los assim como outros relatos nos ajudaram.
Abraço!
Editado por Visitante