Olá viajante!
Bora viajar?
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Bora viajar?
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esse é um pequeno ensaio sobre o que é ser mochileiro. é uma grande pretensão minha tentar definir o que é mochilar. mas surge da necessidade de tentar definir limites (limites?) para que nós consigamos definir o que é mochilar e o que é apenas fazer turismo, com tintura de aventura, mas na essência a mesma coisa que um pacote de férias em cancun....
o mochileiro é uma figura controversa. é alguém que insiste em ser um pouco nômade numa civilização sedentária. é alguém que rema contra a maré. para entendê-lo, precisamos rastrear seu DNA.
nieztsche já nos alerta sobre o erro de procurar uma origem pura das coisas, um mito puro na origem das coisas... o fato é que não há um mochileiro primordial e arquetípica, uma figura mítica fundadora do mochilismo.
na antigüidade as pessoas não mochilavam ou faziam turismo. mas viajavam. o homo erectus é o primeiro humanídeo que viaja o mundo inteiro: povoou o planeta, seus fósseis são achados praticamente em todos os continentes menos a antártida.
seus sucessores também viajavam: o homo neanderthalensis povoou a europa inteira nas épocas geladas das glaciações, e depois o seu contemporâneo e sucessor, o homo sapiens, povoou o mundo... onde não há humanos hoje? até na antártida tem....
mas se viajamos desde as épocas imemoriais, fazemos isso por necessidade. até poucas centenas de anos, alimentar-se era uma questão de esforço. ter peixe à mesa era uma questão de ir pescar, sem os anzós modernos, sem molinetes.... ou trocar tomates plantados, regados, cuidados e colhidos por um peixe, ou arar o campo com a ajuda de uma mula, plantar o trigo, colhê-lo....
o fato é que o homem, assim que soube como, trocou a caça pelo pastoreio e a coleta pelo plantio. o homem sedentarizou-se, em menor grau quando se trata de pastores, em maior grau quando se fala em agricultores.
com o tempo surgiram os conflitos entre pastores e agricultores. essa é a origem da construção inicial da muralha da china, originalmente para defender os agricultores das incursões dos povos pastores armados do norte, das grandes planícies da mongólia...
a sedentarização progressiva permitiu aos seres humanos produzir cada vez mais. produzir excedentes comercializáveis, especializar-se na produção de algumas coisas em detrimento de outras, obtidas pela troca. assim surgiram profissionais mais especializados, como carpinteiros, ferreiros... depois construtores e mesmo comerciantes.
os comerciantes são os primeiros viajantes profissionais: levavam mercadorias de um lugar ao outro, não raro percorrendo longas rotas, levando mercadorias de um entreposto a outro, e a mercadoria seguia adiante... indo parar a milhares de quilômetros de distância... assim surgiu, por exemplo, a lendária rota da seda. no 4º milênio a.C. os egípcios já usavam cerâmicas importadas da síria... portanto não é tão surpreendente saber que a seda utilizada pelos césares de roma vinha de mais de 12 mil kms de distância.
então, viajar, o homem viaja, há muitos milênios. mas mochilar? mochilar não. viajava-se por necessidade, ou por infortúnio, como se deu com hasnstaden, aqui na costa brasileira, ou mesmo alvar nuñez cabeza de vaca, primeiro náufrago que perambula pela américa do norte até achar a nova espanha, e depois como governador do rio da prata, explorando o sul das américas e descobrindo as cataratas do iguaçu, em nome do governo espanhol.
índios também viajavam, e os indígenas encheram a américa do sul de caminhos... os peabirus remanescentes no sul do brasil são prova da ligação entre o atlântico sul e os andes. caminhos indígenas também foram utilizados pelos bandeirantes, como domingos jorge velho, que surpreende os portugueses com a rapidez com que leva, por terra, homens de são paulo para destruir palmares.
a motivação para essas andanças todas era a sobrevivência: achar ouro, achar minas de pedras preciosas, arregimentar escravos, conseguir pau-brasil. inseriam-se na economia da época.
a partir do século XVIII o mundo conhece a revolução industrial e então a sociedade solidifica-se. a riqueza não se consegue pelas andanças, mas pela fixação no território, pela territorialização: a fábrica fixa, territorizaliza seus trabalhadores.
o mundo é explorado comercialmente de outro modo. a paz de westfalia estabiliza a europa e os europeus se jogam contra o resto do mundo, efetivamente, e não apenas no processo colonial extrativista típico do século XVI: não se tratava mais apenas de extrair pau-brasil. os europeus colonizam o mundo. um deslocado do século XIX, joseph conrad, descreve muito bem esse colonialismo brutal em “no coração das trevas” - obra que vai ser adaptada por francis ford copolla com o título de “apocalypse now”, e deslocada do rio congo para o rio mekong, da áfrica pra ásia, da inglaterra para os estados unidos.
quem é o viajante do século XIX? militares, marinheiros, mineradores.... exploradores que penetram a fundo na áfrica pra produzir um conhecimento que vai permitir os europeus explorar melhor esse continente. exploradores que vão mergulhar na ásia, nas américas para melhor explorar esses continentes. gente que vai se desgastar em minas longínquas nos mais recônditos lugares, como o frio alaska.
muitos são os cronistas. além de joseph conrad, temos jack london, por exemplo. ou mesmo mark twain.
mas esses viajantes são uma minoria entre a população. a grande parte da população mundial está fixada, territorializada e não conhece diretamente, do mundo, nada além de um raio de alguns poucos quilômetros de sua casa. e se pensarmos bem, grande parte da população mundial vive exatamente assim: pouco se desloca, e quando o faz , o faz por necessidade, salvo umas poucas viagens em que o ambiente familiar é emulado: fica-se me hotéis padronizados, usa-se serviços de guias que falam a língua do viajante, viaja-se em grupo com gente da mesma região de origem. então, o que muda apenas são os cenários. esse é o mundo do turista. o turista busca apenas cenários, molduras pra suas fotos.
a crise dos anos 30 fez surgir um outro tipo de viajante: o hobo. o hobo é um sem teto itinerante. é representado muitas vezes como um mendigo carregando um trouxa pendurada num bastão... mas é muito mais que isso. existe uma cultura hobo – na prática hobos existem desde o século XIX, mas a grande depressão jogou milhares às ruas: sem ter onde morar, procurando trabalhos, biscates, viajando pegando carona em trens.... desenvolveram uma ética própria, e mesmo um código escrito de sinais, para comunicarem-se: um sinal, por exemplo, avisa onde há “angel food”, a comida que é distribuída após festas.
mochileiros muitas vezes convivem com hobos em geral, em diversos lugares do mundo. como o mochileiro não é preconceituoso, e o hobo também não é mendigo, há muita troca de informações, por exemplo, sobre meios de transporte ou localização de banheiros públicos... mas o hobo não mora me lugar nenhum, e o mochileiro tem casa, mora em algum lugar, tem um trabalho fixo em algum momento da vida, tem escolaridade.
um outro tipo de viajante surge no pós-guerra, o dito “cidadão do mundo” mas que é cidadão do capital internacional. altos executivos que flanam ao redor do mundo, a trabalho. sempre usam o mesmo tipo de estrutura: hotéis coma infra-estrutura necessária aos negócios e pequenos mimos. esses hotéis possuem redes com unidades ao redor do mundo. viaja-se para lugares diferentes e fica-se sempre no mesmo lugar. esse tipo de gente sente-se em casa em bangcok ou são paulo ou berlim ou nova york.... os hotéis são iguais, a língua falada é apenas e tão somente o inglês, os bares frequentados e os restaurantes servem a “comida internacional”. o mochileiro às vezes consegue se valer da estrutura servida aos “cidadãos do mundo”: usa as mesmas casas de câmbio. mas enquanto o “cidadão do mundo" viaja de primeira classe ou classe executiva, o mochileiro vai na classe econômica ou mesmo de ônibus... enquanto o cidadão do mundo come nos restaurantes caros que servem a “comida internacional”, o mochileiro come nos locais baratos, normalmente os restaurantes com a comida local, quando não prepara a própria comida na cozinha dos albergues ou campings onde se hospeda.
mas como efetivamente surge essa figura, o mochileiro?
o mochileiro surge com a mochila de grande porte. em outro texto (como-comprar-uma-mochila-cargueira-t35742.html) eu já tracei vagamente a história da mochila, principalmente o seu desenvolvimento pelos militares na II guerra e depois sua apropriação pelos mochileiros, logo em seguida. de fato, no final dos anos 40 e começo dos anos 50, o modo mais fácil de se possuir uma mochila usável era ir aos locais onde se vendiam os restos dos materiais usados na guerra. ali se achavam as sobras militares: mochilas, algumas botas, casacos, sacos de dormir, cantis, panelinhas/marmitas e etc.
isso é perceptível no melhor livro de ficção mochileira, de jack kerouac, que não é seu primeiro (e mais afamado) livro, “on the road”, mas seu segundo livro, “vagabundos iluminados”, onde o personagem principal tem as características do mochileiro contemporâneo: usa mochila, não viaja de carro, tem nível universitário, estica o dinheiro pra viajar mais, adora as montanhas e os locais inóspitos, é incompreendido pela família (que o pressiona pra encaixar-se no sistema) e manifesta muito interesse pelas culturas orientais e/ou exóticas. em resumo, não um marginal, mas um deslocado: alguém que se sente bem quando viaja pois se sente estrangeiro em sua própria casa, e parece estar numa busca incessante pelo lar original perdido.
essas características vão manter-se até o presente. num mundo onde a mobilidade e a imobilidade definem classes, o mochileiro desafia as lógicas de territorialização e desterritorialização. ele recusa-se a fixar-se no território, embora a pressão em sentido contrário seja gigantesca. e ao exercitar essa recusa, ele também questiona o padrão de consumo da sociedade contemporânea, que privilegia marcas: ele privilegia os produtos (não adianta a mochila linda e cara que rasga ao ser arrastada numa pedra ou puxada de mal jeito pela alça pelo funcionário de uma empresa de ônibus nos andes...), os serviços que consome são pautados por uma equação que não aquela do luxo: abre-se mão do quarto privativo para poder se passar mais noites numa determinada cidade, anda-se de meios de transporte coletivos ou bicicleta, e não se aluga carros, roupa boa é a que aquece, é leve, não suja, não amassa, e não a bonita, e não se expõem marcas caras para não chamar atenção dos amigos do alheio que adoram furtar turistas, e o dinheiro que acumula com seu trabalho é para financiar suas aventuras e sua base territorial: morar numa casa simples e dar a volta ao mundo vale mais para o mochileiro do que morar numa mansão num condomínio fechado e pouco viajar.
então, dentro da lógica sistêmica capitalista contemporânea, do capitalismo turbinado das finanças e marcas, o mochileiro é um problema: ele não é alguém que foi excluído do sistema, pela pobreza extrema que aflige ¾ da população mundial: ele é alguém que recusa-se a enquadrar-se nesse sistema, embora tenha plena capacidade para tanto. ele não compra por que não pode, mas por que não quer!
claro, isso tem uma série de implicações. quem se expõe mais a experiências adquire experiência (tautológico, né?) , é mais experiente.
nos anos 70, os hippies que caíram na estrada nos anos 60 começaram a enquadrar-se em empregos. o mundo corporativo logo percebeu que essa juventude viajada era capaz de pensar fora do esquadro, era mais criativa, dinâmica, e maleável, falava outras línguas, tinha uma excelente capacidade de comunicação... afinal, se vc está no nepal e não fala inglês no meio de um monte de nepaleses que também não falam inglês, precisa assim mesmo saber onde é o banheiro ou onde comprar comida... e ou aprende a se comunicar, ou morre de fome....
essa moçada poderia compor os quadros gerenciais das corporações cada vez mais transnacionais. a experiência no estrangeiro fazia a diferença. e isso fez com que os pais, muitas vezes, não vissem tanto as fugas mochileiras com olhos tão reprovadores: como se fosse uma etapa importante da formação das pessoas, da formação profissional!
nessa época tomam fôlego as empresas de intercâmbio estudantil e também é o momento do surgimento duma praga, o “mochileiro-cvc”.
o nome “mochileiro-cvc” é uma alusão à maior empresa de turismo por pacotes do brasil ora, quem não quer trabalho, e quer pagar pelo conforto, tem e deve fazer turismo por pacotes, com agências de viagens. nada contra isso.
mas pais que criam seus filhos como verdadeiros sinhozinhos e sinhazinhas , incapazes de ensinar o filho adolescente a arrumar a própria cama gostam de mandá-los passar um ano no exterior em algum intercâmbio, para que seus filhos aprendam a lavar louças... mas passam o sinal errado, de que a experiência não se vive, se compra.
assim o “mochileiro-cvc” surge como praga: nos fóruns de discussão na internet e nos orkuts da vida, ele não pesquisa as infos já existentes, ele simplesmente abre um tópico e quer que todos os outros foreiros parem suas vida spara responderem àquelas perguntas com respostas já dadas em outros locais. ele reclama com a agência de viagens pois compra pacote pra porto seguro e chove naqueles dias: quer seu dinheiro de volta. ele não tem a mochila mais adequada, ele tem a mais cara.
ele discrimina outros mochileiros com base na aparência. ele bagunça a cozinha coletiva do albergue, ele não respeita a etiqueta das trilhas e dos albergues, ele exige de guias contratados a prestação de serviços absurdos e quer submeter o grupo aos seus desejos. é uma criança mimada um tanto crescida e com uma mochila grande nas costas (bem grande, pois costuma carregar um monte de coisas desnecessárias).
mas basta 5 minutos de conversa e os mochileiros conseguem reconhecer os não-mochileiros: turistas, mochileiros-cvc e etc. o mochileiro que se preze possui uma atitude de abertura às coisas do mundo, um olhar atenciosos a essas coisas, às pessoas, aos modos de ser e de fazer. é esse olhar inquieto, perscrutador, sobre tudo o que o cerca: o bom observador não interfere no objeto de observação, respeita-o, é fascinado por ele do modo como é...
em resumo, o olhar do mochileiro não é o olhar do cidadão embasbacado e entorpecido pelas propagandas, pelo fluxo de imagens incessante das publicidades, dos merchandisings, dos marketings. ele quer ver além disso. mesmo que pra isso seja preciso também ir além.
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há uma variante do mochileiro: o mochileiro sobre rodas, sobre duas rodas: o cicluturista.
olhar o mundo a partir da bicicleta é uma experiência interessantíssima. afinal, como disse a renata falzoni em algum lugar há muito tempo, real leitura de mundo só tem a pé ou de bicicleta.
a bicicleta permite real independência. pra quem acha que a bicicleta não leva a lugar nenhum eficientemente, eu recomendo uma rápida pesquisa no google sobre voltas ao mundo sobre bicicletas.
as bicicletas possuem mais de 100 anos, e já no começo do século XX eram usadas pra trajetos muito longos. na europa e na américa do norte é levada mais a sério como meio de transporte do que na américa latina e nós, brasileiros, dada a nossa herança escravagista, parecemos ter ojeriza ao esforço físico. mas progessivamente mais brasileiros estão subindo sobre bicicletas e saindo para descobrir o mundo: começa-se redescobrindo a própria cidade onde se vive, que é diferente daquela que se vê pela janela do carro. progressivamente vão ficando mais longos os trajetos, começam a ter pernoites... e em pouco tempo estamos discutindo quais os alforges ideais para fazer a rio-santos ou o vale europeu em santa catarina, ou qual pneu é bom, durável, confiável e barato...
a relação do cicloturista com sua bicicleta é diferente daquela do esportista. o esportista muitas vezes sofre do fetiche do produto de marca ou de tecnologia-top, como o mochileiro-cvc. no caso do cicloturista, a confiabilidade, o conforto, a durabilidade e a possibilidade de se fazer consertos em qualquer bicicletaria pequena de cidade de 10 mil habitantes são os itens mais valorizados.
bicicleta boa pra cicloturista é como mochila boa pra mochileiro: barata. durável, não quebra. e se quebrar, o conserto é fácil, e é confortável. assim, novamente contraria-se a lógica de consumo baseado na marca, e não no produto: enquanto os esportistas estão preocupados como conseguir os novos quadros de fibra de carbono, cicloturistas brasileiros garimpam velhos quadros de cromo com geometria mais tradicional e olhais pra instalação de bagageiros. enquanto esportistas preferem os modernos freios a disco, cicloturistas acabam no mais das vezes preferindo v-brakes e cantilevers mais antigos, cuja disponibilidade de peças é maior e mais disseminada.
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não é raro vermos mochileiros que sejam cicloturistas e cicloturistas que também sejam mochileiros. uma coisa parece extensão da outra, caminha-se sempre na contra-mão dos valores capitalistas tradicionais: o desconforto existencial é o mesmo, a válvula de escape é semelhante, o deslocamento está igualmente presente em ambos os casos, trata-se apenas de facetas do mesmo nomadismo voluntário e atávico, a mesma forma de resistência. viajemos, pois!