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Pyramiden (ou Piramida), uma cidade improvável quase no Pólo Norte

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http://cartas.edutrindade.com/2015/07/piramida.html

 

Ali, quase tocando o paralelo 79° N, está Пирамида. Ou o que sobrou dela. Пирамида - Piramida - ou Pyramiden, como dizem os noruegueses, foi um povoamento soviético que floresceu durante certo tempo na longínqua e polar Svalbard graças ao carvão lá existente e à sua importância estratégica em tempos de Guerra Fria - era a extremidade mais setentrional da Cortina de Ferro. Agora, o que faz de Piramida um lugar inusitado, fantástico, é que se trata de uma cidade-fantasma, no melhor estilo faroeste. Após o fim da União Soviética, já não fazia sentido para a Rússia manter operando uma velha mina de carvão nos confins do planeta. E, sem a mina, a cidade, que no seu auge chegou a ter mil moradores, também não fazia sentido. Os russos foram embora, levando consigo o que se podia e valia a pena carregar, e deixando para trás muitas outras coisas. Isso foi em 1998. O tempo passou, mas de certa forma é como se para além do Círculo Polar ele passasse mais devagar: o frio ajuda a conservar o que restou de Piramida, envolvendo-a numa baita geladeira natural (vejam Piramida cercada por gelo no Google Maps, é impressionante).

 

Chegamos a Piramida num barco saindo de Longyearbyen. Desembarcamos no cais que outrora servia para o transporte de carvão e, entre estruturas desativadas e abandonadas, somos recebidos por Sasha.

 

Sasha é um homem magro e barbado, vestindo chapéu e casaco russos, que parece saído de um filme ou álbum de quadrinhos - um antagonista de 007 ou de Tintim? Sasha, na verdade, saiu de São Petesburgo e veio parar em Piramida, onde nos leva para conhecer a cidade (o que resta dela). Suas roupas são talvez exageradas, mas o rifle a tiracolo é não apenas real como de praxe: está lá para proteger contra eventuais ursos polares. Em Svalbard há mais ursos que pessoas e a sua caça é proibida desde 1973. Confrontos com ursos, embora raros, são uma possibilidade, e o rifle é uma das precauções que se tomam.

 

Percorremos com Sasha as ruas de Piramida. Ver aqueles prédios abandonados, fechados e vazios, numa cidade silenciosa, é impactante. Entramos na casa de cultura e encontramos desenhos infantis, trabalhos escolares, em algumas paredes. Um auditório escuro e vazio e, no palco, um empoeirado piano de cauda - o piano mais setentrional do planeta, dizem. Uma quadra esportiva onde não há mais jogos. Uma escola. Um hospital. Um refeitório nos moldes soviéticos. Em frente à casa de cultura, o busto de Lenin (também o mais setentrional do planeta) continua imóvel a vigiar a praça central, mas não há mais nenhum camarada a ser vigiado. Aqui e ali, encontramos fragmentos de vidas passadas, memórias deixadas para trás, histórias que parecem interrompidas. Uma cidade é um lugar estranho quando nela não há gente; que identidade lhe resta? Fica-se a imaginar o que terá sido feito das pessoas que deveriam estar ali, como se caminhássemos por uma Chernobyl, apenas sem a radiação, a um tempo preservada e arruinada.

 

Sasha então nos confidencia que Piramida não está abandonada por completo. Aponta dois prédios que voltaram a ser habitados. O primeiro é o antigo hotel, que voltou à ativa e é mantido por seis empregados, um dos quais Sasha em pessoa. O hotel possui um bar em funcionamento para atender os visitantes que, no verão, vêm de Longyearbyen conhecer Piramida. Também possui, está claro, alguns quartos para hóspedes, embora eu não consiga imaginar quem se aventure a dormir por lá. O segundo prédio apontado pelo nosso guia é habitado por um grupo bem mais numeroso e barulhento: dezenas ou centenas de gaivotas escolheram-no para fazer seus ninhos. Já quase prontos para deixarmos (nós também) Piramida, percebemos: alheia ao nosso mundo, a velha cidade russa segue viva no grasnido dessas gaivotas.

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