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Na trilha da insensatez (Relato pré-viagem)

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Se quer saber, nunca é tarde de mais para ser quem você quiser ser; não há limite de tempo, comece quando você quiser. Você pode mudar ou ficar como está, não há regras para esse tipo de coisa.

Podemos encarar a vida de forma positiva ou negativa, espero que encare de forma positiva; espero que veja coisas que surpreendam você; espero que sinta coisas que nunca sentiu antes; espero que conheça pessoas com ponto de vista diferente; espero que tenha uma vida da qual você se orgulhe. E, se você descobrir que não tem, espero que tenha forças para conseguir começar de novo.

(Filme O Curioso Caso de Benjamim Button)

Assisti esse filme quando tinha uns 11 anos de idade. Na época, enquanto os créditos finais subiam na tela, me via profundamente incomodada com o que eu era, o que fazia e o que estava fadada a me tornar. Minha vida não era motivo de orgulho.

Para uma pré-adolescente é difícil conseguir começar de novo, afinal a vida sequer havia começado, e meus responsáveis seriam contra uma viagem solo de autodescoberta. Conforme os anos passavam, esta insatisfação se aprofundava dentro de mim. Para driblá-la, eu seguia o caminho básico de qualquer pessoa que almeja ser razoavelmente bem-sucedida: não repeti na escola, trabalhei desde cedo, fiz cursos variados e dei o meu melhor para não desapontar aqueles que me amavam. Ainda assim, todas as vezes que realizava alguma conquista, esta era ofuscada pela sensação de vazio. Não me orgulhava delas.

O problema não era a minha vida, não realmente. O problema era que aquela não parecia ser a minha vida. Nada era como eu queria que fosse, e sim como os outros esperavam que eu quisesse. Seguindo indicações alheias, acabei estudando um curso superior que desgostava e trabalhando em um escritório insuportavelmente tedioso e restritivo. “O que mais poderia querer em tempos de crise?”, me questionava. E, mesmo assim, não me orgulhava de nada daquilo.

Uma profunda autoanalise e o auxílio de uma coaching foram necessárias para que enxergasse a razão da minha infelicidade: eu encarava o mundo de forma negativa. Nada seria satisfatório enquanto insistisse em dar voz ao pessimismo que sussurrava nos meus ouvidos. A partir daí, passei a travar uma feroz batalha interior para descobrir que pessoa poderia me tornar sem essa negatividade nublando as minhas decisões.

Agora posso até dizer que sempre entendi esse trecho do filme pela perspectiva errada. Me concentrava tanto em “espero que tenha uma vida da qual você se orgulhe” que ignorava o “nunca é tarde de mais para ser quem você quiser ser”. Engraçado, né?

Ainda não sei o que quero ser e, pela primeira vez, não estou com pressa em saber. Bem, “não há regras para esse tipo de coisa”! Então, com toda a coragem que percebi possuir, iniciei o Projeto Preciosas.

O projeto envolve duas paixões pessoais: escrita e viagem. Escrever é meu ponto de equilíbrio, o que me impede de correr pela rua arrancando os cabelos da cabeça. Viajar é algo que vivencio desde que aprendi a ler, pois a leitura já me transportou a incontáveis lugares.

Preciosas é o título de uma série de romances que venho desenvolvendo há longos anos. Apenas nos últimos meses que me permiti idealizar uma viagem baseada nos cenários das histórias, que se passam no Rio Grande do Sul.

A viagem, ou melhor, expedição, iniciará em agosto/2018. Serão três meses circulando por diferentes cidades gaúchas, e mais três cruzando o Sul do Brasil até regressar ao meu estado natal. Comprei as passagens de avião em março – só de ida –, e cada dia que me aproxima da data de partid a me traz mais certeza, mais confiança, de que enfim tomei uma decisão por mim mesma. Ainda que rolar uma merda estratosférica, terei o consolo de ser a única responsável e não mais ser teleguiada pelas indicações dos outros.

O slogan Na trilha da insensatez se refere exatamente a isso. Estou seguindo o caminho tortuoso da autonomia, realizando algo que todos ao meu redor acreditam ser uma loucura. Aonde essa estrada me levará? Acredito que até ao fim. Não tenho medo... pelo menos não muito. Mas há uma satisfação, um orgulho, em saber que estou me tornando a pessoa que sempre quis ser.

 

Post original em https://www.lljj.com.br/

Imagem em Pixabay

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