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Desafio das catedrais 2021: de Maringá a Londrina


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Desafio das catedrais 2021 
De Maringá a Londrina

Começo esse relato lembrando que ano passado participei pela primeira vez do desafio das catedrais: da catedral de Londrina até a catedral de Maringá a pé, pelas estradas rurais, 130 km, em 24 hs. Sai de Londrina as 17 e caminhei por 81 km até a vila progresso, Sabáudia, onde exausta, acreditando que iria morrer antes do próximo ponto de apoio chegar, pedi abrigo para a primeira casa que encontrei. Era a casa de um anjo chamado Lucineide, que me recolheu e me ofereceu abrigo, comida, banho, descanso. Eu estava a menos de 1 km do ponto de apoio: o bar da Rose. Mas, estreiando no caminho eu não sabia nem mesmo onde estava. Sai do meu ponto de apoio as 4:30 da manhã do domingo, com a prova ja encerrada, segui sozinha e por minha conta até Sarandi, onde a 10 km da catedral de Maringá, com medo da entrada na cidade, das galeras reunidas nas calçadas ouvindo funks e fumando narguilé, num bairro que na época me pareceu perigoso (a cabeça já estava completamente sem foco pelo cansaço) eu chamo um Uber que não cheguei a usar pois o marido me diz que estava entrando em Maringá, ao me encontrar, a cara era tão fechada que eu preferi não me atrever a pedir pra terminar o caminho.
O desafio das catedrais alterna a saída a cada ano: um ano sai de Londrina, outro de Maringá, e assim por diante. 

Esse ano me inscrevi desde a abertura das inscrições, nem me lembro quando, na primeira metade do ano. Pensei que era cedo demais, que talvez acontecesse algo que eu não pudesse ir e eu perdesse a inscrição, mas fiz justamente pra isso... Pra me comprometer com tal evento desde do início do ano, mas já sabia que não haveria muitas condições de preparação física, pois trabalhando em dois empregos, com plantões de 12 horas de segunda a segunda, o tempo que sobra preciso estar em casa e tal... 
Pra não dizer que não me preparei, em todas as minhas folgas eu procurei fazer caminhadas acima de 20 km, fui ao *Morro da Cruz mais de 15 vezes esse ano (são 15 km ida e volta pelo caminho mais simples) e muitas vezes o fiz por caminhos mais longos, enfim, em todos os meses eu fiz caminhadas além de 25 km. Houveram treinos preparatórios promovidos pela organização, de 40 km de caminhadas e subindo a média gradualmente até 70 km, dentro da rota das catedrais, sendo que desses eu só consegui participar de 2 - o primeiro de 40 km, que foi bem, e o último, de 70, do qual choveu o dia todo e foi um treino muito pesado, muita lama, barro, eu só fiz 42 e pedi resgate quase com hipotermia e muitas dores nos dois tornozelos.

O evento marcado para dia 10/12, uma sexta feira saída às 19 da catedral de Maringá. Cogitei ir de ônibus e chegar bem mais cedo de Maringá, mas como tinha a companhia de uma grande amiga, Verônica, decidi sair com ela numa Van alugada por uma galera. A van sairia as 15:30, mas atrasou um monte e saiu mais que 16:30. Chegamos em Maringá as 18 e o evento todo montado pra sair às 19. Meu desejo de sair mais cedo é porque sei que vou ficar pra trás. Mas vendo a alergia de Verônica em entrar no clima da galera, acabo topando sair às 19 também. Fico na igreja carregando o celular até 100 por cento, está acontecendo uma missa de formatura e o contraste entre os dois núcleos é visível: meninas com lindos vestidos pretos, longos, curtos, rendados, decotados, salto altos, os cabelos lindos penteados engomados com laque, e as máscaras que prevalecem são maquiagem daquelas que nem precisa de fotoshop pra esconder os defeitos nas fotos. Os meninos de terno e gravata, mas a cor preta é a que padroniza o evento. Do outro lado da catedral, uma galera de azul, mochila nas costas, tênis, chapéu com saia até os ombros, lanternas nas cabeças, máscaras no rosto, reservatório de água nas costas. Saber qual grupo é o mais feliz é difícil. 
Na saída, uma aglomeração se junta diante de um arco inflável, pose pra fotos e diante de uma contagem regressiva, lá vamos nós... Enquanto saímos pela cidade a fora correndo, vamos ouvindo as pessoas comentando: tudo doido, tem que ter muita coragem mesmo... 
A cidade está bombando, luzes de Natal por todo lado e as lojas abertas, as pessoas andam nas ruas aos montes, sem máscaras, nada lembra o cenário de um ano atrás quando a pandemia ofuscava todo esse clima natalino. Ao menos, eu não me lembro se o comércio de Londrina estava aberto ou se passei por luzes de Natal. Pode ser que Maringá esteja bem mais decorada que Londrina esteve ano  passado, mas não tem como desconsiderar o cenário da covid.
Eu saí usando nos pés, um crock! Isso mesmo, um crock. Em outubro desse ano eu corri 21 km com um tênis muito velho e acabei com a unha do dedão esquerdo, o pé não suportava mais sapato nenhum, tive que ir trabalha de chinelos de dedos, ao chegar no trabalho, usei o crock que "mora" lá há mais de 5 anos, naquele dia fui pra casa de crock e acabei dando a ele a liberdade de sair dali do meu trabalho. Meu velho crock ganhou as ruas, a medida que meu pé melhorou, minha unha caiu, fui fazendo pequenas caminhadas, grandes, e até corridas... De crock. E cheguei acreditar que pudesse ser uma boa estratégia iniciar o percurso de crock, levar um tênis para se preciso fosse. E é claro, eu precisei, a ideia não foi boa, enquanto os outros preparavam seus pés com vaselina e meias anti atrito, eu saí com os pés pelados, sem meias, a 20 km eu já percebia que não daria certo... Os pés estavam cansados e eu sentia a atrito, mas ainda não havia bolhas evidentes. Calcei meus tênis, mas os mesmos que acabaram com o dedão, o mesmo velhinho de guerra, completamente vencido, já fora colado o solado umas 4 vezes... Acredito ter sido isso que me custou as bolhas que tive: falta de preparo com os pés.
Quando cheguei ao bairro que fica a saída de Sarandi, trata se de uma deliciosa descida de asfalto... Desci correndo e feliz, só parei na entrada de estrada de terra onde também se inicia uma subida. Aquela mesma estrada onde ano passado eu desci morrendo de medo do temporal que nem choveu. As pessoas passavam por mim, mas eu já era uma das últimas, passei por dois fotógrafos, passei cantando 🎵🎶 ando devagar porque já tive pressa... E uns 5 km a frente entrava na rodovia estreita que tanto me assustou da outra vez em que passava por aqui a caminho de Maringá. Parei, fiz xixi na estrada antes de pegar o asfalto, e confesso que fiquei morrendo de medo de passar por ali naquele escuro. A rodovia não tem postes de iluminação, não tem olho de gato, nada, só escuridão. E na escuridão eu iluminava meus passos com a lanterna, encontrei cobra coral morta, gelei! Se tem morta é porque tem viva! Andava meio na pista de medo de andar na margem do pequeno acostamento que na verdade é só o mato, quando vinha carro eu ia pra beirada, raramente vinha um carro. O barulho dos meus próprios passos me assustavam muito, ficava a olhar pra trás o tempo todo e quando o fazia, o tênis que estava pendurado na mochila se virava e tocava meus ombros, parecia alguém com a mão nos meus ombros, na primeira vez que percebi isso quase gritei de medo, depois, mesmo entendendo, assustava toda hora. Passou um carro e desviou pra bem perto de mim, uma garota com a cabeça pra fora gritou: "mula sem cabeçaaaaaaaaa!!!" É claro, da mula sem cabeça eu não tenho medo, mas do carro desviando em minha direção e do grito dela eu quase infartei. 
No escuro as entradas são todas iguais, e eu só não entrei errado porque tinha o aplicativo com o mapa, e ainda antes da entrada pra estrada de terra, aparece o primeiro ponto de apoio: água, banana. Eu sou uma das últimas.
Quando enfim chego a entrada para a estrada de chão, sento numa pedra e enfim, coloco o tênis. 20 km até aqui. Ligo meu MP4 e agora tenho músicas, sigo a passos firmes e animada. Daí em diante não sei reconhecer nada do caminho, nenhum detalhe, pois tudo o que se segue eu passarei sozinha e engolida pela escuridão, só a luz da lanterna a guiar meus passos, quando chego a 24 km é quase  meia noite.  Paro, quero reiniciar o aplicativo pois ano passado ele não entendeu que o dia virou, e eu só não perdi a marcação daquela caminhada porque fiz um print da tela onde mostrava 81 km e sem dados de sono durante a noite, mas ao clicar pra abrir e ver o desenho do percurso, não abre. Eu uso 2 aplicativos: o mi fit, da pulseira xiaome, e Nike run, esse último deixei virar a noite, mas o mi fit preferi encerrar aqueles 24 km e dar início à uma nova marcação. São 23:58, eu paro, finalizo o aplicativo, aproveito e faço xixi, olho as estrelas, o céu está lindo como nunca antes vi. Eu já tive oportunidade de olhar pro céu em lugares sem iluminação algumas poucas vezes na vida, também me lembro de chegar em casa de madrugada da balada e antes de entrar, ficar olhando pro céu e admirando, ou ainda, quando criança eu acordei uma vez de madrugada e sentei nos fundos da casa pra ver o céu, já que o jornal tinha noticiado uma chuva de méteoros as 4 da manhã, e que seria visível, na época vi uma única estrela cadente bem pequenininha... Mas nunca tinha visto um céu tão bonito e pontilhado como o de hoje, a via láctea completamente visível, tão encantador que fico um tempo de olhos pra cima a admirar... Fiz um registro em vídeo, fotografei a lua, que parecia ser crescente mas a foto nada mais era que um pontinho, e vambora.
Num trecho de descida eu derrapo, chego a encostar o joelho no chão e ralar, me dobro toda, dói mais a dobrada de corpo que o próprio joelho, sigo morrendo de medo um acidente mais grave e a dor demora um pouco a passar. 
Só a lua, as estrelas e as corujas me fazem companhia, algumas corujinhas seguem comigo, ficam na minha frente e avoam quando me aproximo pra me esperar lá na frente de novo.
Quando aviso a igreja de Belém fico encantada, ela está toda contornada com luzes brancas por causa do Natal, sei que estou completando agora 30 km, já são mais de 01 da manhã. Caldinho a vista!! Eu entro animada achando que vou encontrar o mesmo caldinho de cabotiá do ano passado, mas o caldinho é de carne, a decepção passa porque o caldinho está uma delícia! Tomo dois copos. A primeira providência que tomei nem foi o caldinho, foi colocar o celular pra carregar um pouco, ele carrega rápido e eu não sei se o carregador externo que tenho, emprestado, é bom. Usando dois aplicativos de distância e acessando o tempo todo o celular, é bom garantir um pouco mais de bateria. Cheguei alguns minutos antes de 3 outras pessoas, eu avistava a luz delas na minha frente, mas já sou a última. A prosa vai bem, me envolvo numa conversa boa com as pessoas que estão lá e elas me parabenizam por aproveitar bem o caminho, por não ter pressa, mas a parada dura cerca de 20 minutos e já vou indo. Antes de sair ainda passo na igreja e tiro foto do interior, nunca tinha entrado aqui.
Saio e avisto as três lanternas bem lá na frente, se corresse alcançaria, mas não quero me arriscar correr sem o cuidado de onde pisar, embora fique com medo de cachorros porque sei que ali tem sítios e eu estou ouvindo cachorros, desejei estar juntos daquelas três pessoas, mas sigo sem problemas, os cachorros devem estar presos, não vejo nada.
Começo a tomar consciência de que nada passara por mim, que caminharei sozinha até o raiar do dia, e apesar disso me assustar um pouco, fico imensamente encantada com o fato, estou ouvindo Osvaldo Montenegro e isso me cai muito bem, a música me abraça, me traz lembranças boas, em seguida ouço Luizeiro, é quase uma serenata pra lua. Ali eu olho no relógio, são 2:30 e eu me surpreendo ao achar pouco o tempo que tenho no escuro com a lanterna, ano passado eu não via a hora de raiar o dia. E assim eu sigo sozinha ouvindo boas músicas até perto de 4 da manhã quando acaba a bateria do MP4. Uma brisa  fria prevalece, e se tivesse uma blusa de frio leve iria muito bem agora. 
As 4:20 ganho de presente: uma estrela cadente, um dos mais lindos espetáculos que já assisti, surreal, a estrela saiu do nada e viajou pelo céu fazendo um arco parecendo introdução do filme da Disney, ela deixou um rastro que marcava sua trajetória em forma de arco, o rastro foi sumindo dando a impressão daquela cena se passar em câmera lenta, eu fiquei de encantada, de boca aberta! Fiz meu pedido nada secreto: quero que meus filhos estejam felizes (eles estão viajando com os avós) quero que eles um dia possam ver essa cena, que todos aqueles que amo vejam um dia, uma cena dessas.
As 4:30 mais ou menos consigo avistar luzes na minha frente, consigo alcança las, passa um carro de apoio e "recolhe as três pessoas", perguntam pra mim se também quero resgate. Digo que não, estou muito bem. E é verdade, estou bem, disposta, não há sinais de exaustão, nem de dores, mas já sinto as bolhas no pé, mas não quero nem pensar nisso. 
Um pouco mais adiante o carro passa de novo, me pergunta se realmente não quero resgate. Não quero. Eles pegam meu contato dizendo que vão mandar mensagem ao longo... Nunca me mandaram nada kkkkkk.
As 4:40 tudo já está mais claro, até poderia desligar a lanterna, mas temo pisar errado, pedras, bichos, etc. Pelo caminho já não preciso mais de lanterna, já posso ver o horizonte, mas ainda quero iluminar meus passos. Vejo mais uma estrela cadente, dessa vez ela vem por trás, passa na vertical em cima da minha cabeça. Será que as estrelas estão apressadas? Perdendo a hora de ir embora? E o pedido? Ah... Meus filhos de novo, acho que vale repetir o desejo.
O dia começa a amanhecer, antes mesmo de dar 5 hs eu desligo a lanterna e já é possível caminhar vendo todos os contornos, estou numa subida no meio de uma trilha apertada, parece até que estou subindo o *morro da Cruz, mas logo a estrada se alarga e é possível avistar no horizonte as cores mais lindas: liláses, laranjas... Eu estou encantada, feliz e faminta, penso que seria uma excelente hora pra se parar, comer e tomar um remédio pra dor (pra não ter dor), então caminho até onde eu possa achar um lugar pra sentar, uma pedra, um montinho... Vejo claramente serras, montanhas, o cenário me lembra Minas, me lembra o vale europeu que fiz em julho, lá na frente do Horizonte vejo dois rios vindos de lados opostos, parecem se encontrar... É lindo, e a foto coloca tudo no mesmo plano, impossível contar por imagens o que vejo. O lilás vai dando lugar ao laranja, a beleza é tanto que emocionada, vivo esse momento como algo sagrado: sozinha, em lágrimas, parada no caminho e assistindo ao sol nascer, a vontade é fotografar a cada 5 segundos. O sol brota tão rápido, em dez minutos está pleno, e o laranja avermelhado já dá lugar ao amarelo alaranjado. Eu seco minhas lágrimas, o frio eu esqueci por completo, como um x egg e sigo sem pressa, lamentando a brevidade do espetáculo, com a plena consciência do quão valioso foi esse presente, alimentada minha alma está, nesse momento não há dores, não há frio, não há peso, não há angustia ou incertezas, só comunhão. Ali está a certeza da presença de Deus, de que somos regidos por forças tão inexplicáveis e que só cabe a nós... Gratidão. 
A partir daí eu sigo encantada com as estradas, fotografando tudo, a visão que a escuridão me privava eu tenho agora: estradas a perder de vista. O sol por entre os eucaliptos, o sol e os matinhos enrolados, os cavalos, os açudes, tudo encantada...
Envio uma mensagem a meu marido avisando que vou fazer uma pausa, pois nesse ritmo, se continuar direto vou entrar em Londrina por volta da 1:00 da manhã, sozinha, em trecho de rodovia e passar por points de bebedeira e arruaça, tenho menos medo de estar sozinha no meio do mato, no escuro, do que dessa situação. Planejo fazer a pausa na casa da Lucineide, uma amiga que fiz na prova do ano passado quando parei por exaustão.
Por volta das 11, não sei ao certo, avisto alguém de camiseta azul, alguém do caminho. Nossa, consegui alcançar alguém! É uma menina, está parada e tem mais alguém deitada na beira da estrada, chapéu no rosto pra proteger do sol - não havia sombras - chego e pergunto o que houve, ela me responde que as dores são muitas, e que sentiu náuseas, e tonturas, uma queda de pressão subida. Ofereço bolachinhas doce, ela me diz que não. Eu sento do lado e falo que carrego comigo um "kit sobrevivencia" com remédio pra dor, antiinflamatório e soro, que posso fazer um remedinho endovenoso, *trabalho em hospital e sei pegar veia, o kit eu trouxe pra mim mesma se minhas tendinites atacassem. Ela me diz que pode ser, não se incomoda de tomar uma injeção. 
Agacho ao lado dela e tiro da mochila minha sacolinha contendo equipo, luva, abocath, algodão, seringa, agulha, dipirona e tilatil, e um pequeno sorinho de 100 ml, lavo as mãos com a água da garrafinha, preparo a medição e jogo dentro do soro, preparo o soro, amarro o braço dela e com um algodão com álcool, seleciono a veia mais fácil que se pode encontrar: na curva do braço. A furada é certeira e eu conecto o soro , solto o garrote do braço e levanto o equipo, o soro vai que é uma beleza. Uso uma única fita de micropore para fixar e levando preocupada com as dores que a essa altura dói o corpo todo, mas não me atento ao fato de que o equipo enrosca no meu joelho! AFF, que desastre, o abocath vem junto e todo o serviço está perdido! Peço desculpas e aviso que vou precisar furar de novo, ela me diz que tudo bem, ela me questiona se tenho outra agulha... Sim tenho, de puro pessimismo né, nunca se sai pra pegar uma veia com um abocath só. Refaço o processo, furo a mesma veinha... Mas dessa vez eu uso a colega Maria pra ser "suporte de soro". O soro pinga rápido e não leva nem dez minutos para que se acabe. Marta levanta, diz que se sente melhor. Elas ligam pro marido de uma delas e diz que não precisa mais ir buscar ninguém, estão bem e vão seguir. 
Maria e Marta me dizem que não caminharão mais sem mim, está estabelecido a parceria. Eu, que a pouco tinha enviado uma mensagem avisando o marido que pararia na casa de Lucineide pra descanso e recomeçar no domingo de madrugada pois conforme minhas contas, entraria em Londrina de madrugada e sozinha, de repente não estou mais só. Evito outra mensagem avisando que vou tocar direto, pois agora tenho companhia, e estou bem. Marta se diz revigorada e está muito agradecida, seguimos proseando. 
Conto a elas que meus pés estão me matando, bolhas pra todos os lados. Elas param e me fazem tirar o tênis, envolvem meus pés em absorventes noturnos, em cima da meia mesmo... Uma ótima dica, mas antes de começar, agora o estrago já está feito. A retomada é difícil, parar não é uma boa quando os pés estão já lesados, mas logo vejo que realmente, os absorventes são ótimos. Acho que caminhamos mais uns 15 km até chegar de fato na vila progresso, onde começa a estrada de paralelepípedo, chegando agora no bar da Rose, ponto de parada do caminho. 
No bar da Rose o dilema está estabelecido: parar ou seguir. As meninas temem seguir e conseguir apenas mais cerca de 10 ou 20 km, mas restam mais de 65, 70 talvez. Elas tem o apoio para parar a hora que quiser, é só entrar no carro. E eu... Se daqui pra frente elas pararem, seguirei sozinha, e perco meu ponto de apoio que está aqui - a Lucineide - e só me restará seguir sozinha e enfrentar o que eu planejei evitar: entrar sozinha na madrugada pelas grandes vias em Londrina. A decisão é parar, mas até que se bata o martelo... Ficamos nessa: vamos, não vamos, então vamos, então não vamos... É cômico, vou rir disso por muito tempo. Eu já tinha tirado o tênis e visto o estrago: bolhas em todos os dedos no pé esquerdo, e na sola do pé. Furo minhas bolhas, mas mau tenho mobilidade pra dobrar o corpo e ver minha sola do pé. 
Nisso vem a decisão: vamos até a placa que indica o meio do caminho, pra tirar foto, e depois, parar mesmo. (No meio do caminho tem uma placa na árvore que diz: você está no meio do caminho, 65 km). Em minha lembrança essa placa fica ao lado da casa da Lucineide, digo a elas que topo, e depois volto pra casa dela. O carro de apoio do marido vai nos acompanhar. Seguimos, eu quase não ando mais, os pés pulsam de dor, a casa da Lucineide que fica ao lado do bar da Rose passa batido, por incrível que pareça eu não vejo passar... Avistamos uma árvore no horizonte ao longo da estrada de paralelepidos, a Vila Progresso fica pra trás e eu começo a estranhar: a casa da Lucineide é a primeira da vila, como eu não vi? Olho pra trás, a primeira casa está longe já e eu não reconheço. Fico pensando que se a tal placa está longe, a casa dela também é mais pra frente. A tal árvore chega, e nada de placa, deve ser na próxima árvore lá longe do Horizonte, estranho... A casa dela sendo a primeira da vila, a vila começa e segue até acabar, pequenininha mesmo, não tem esse trecho, esse trecho era antes de chegar na casa dela... A gente segue rindo e eu teimando que tal casa existe, as meninas dizendo que não, não existe... Lucineide não existe... A placa não existe... O carro segue de árvore em árvore nos esperando... Uma, duas, três, quarto... (As árvores estavam espaçadas, e em nossa lembrança, a placa está em uma delas. Na minha, na árvore ao lado da casa da Lucineide).
Até que a última árvore parece tão longe que nossos pés já não aguentam mais! Entramos no carro e pegamos carona de 400 m até a próxima árvore! Pode isso!
E lá está ela: a placa! A gente quase chega na catedral de Londrina!! A gente ri, sabemos que o horizonte que nos move é assim, nos atrai, e quando chegamos lá... Não é lá, caminho sem fim...
A tal foto sai linda, três meninas morrendo de rir em frente a uma placa. O caminho delas termina ali, e pra elas, é só entrar no carro, eu, que tinha prometido voltar pra meu ponto de apoio... Estou disposta a seguirei sozinha, e eu não vou voltar 4 km sozinha. Isso mesmo, andamos 4 km até a tal placa. A essa altura eu não aceito voltar pra trás, estou bem, disposta. Mas as meninas não me deixam prosseguir... Me dão carona até a Lucineide e assim eu não escapo da parada. 
Nos despedimos, para elas, o caminho das catedrais acaba ali, para mim, protelo até amanhã meu desafio, pois acredito que tenho condições de chegar sozinha.

Parte II
Abrigo, parada

Dessa vez eu não estou exausta, estou bem, chego como uma amiga, sou muito bem recebida e caímos na risada por eu não reconhecer a casa dela. Ela me diz que me viu passar e pensou: passou direito mesmo! Dessa vez eu não a preocupo. Ano passado ela chegou a esboçar um pedido de ajuda enviando mensagens à organização do evento. Chego, ela me encaminha para o banho. Tudo dói, os pés estão horríveis, eu nem consigo me agachar pra lavar direito os pés, mas o banho tem um efeito revigorante. 
A casa de Lucineide está animada, a filha, a neta - uma graça - o marido... Um domingo típico de família, eles me recebem como sendo parte dela. O almoço é tudo muito simples: arroz, feijão, salada, frango... Essa simplicidade me faz muito bem, me faz sentir em casa, gosto muito disso, da pessoa não sair correndo pra fazer algo especial pra te agradar, é como chegar na casa da mãe: comida é simples e é isso que faz bem. Converso com todos, e logo vou pro sofá, ela me oferece a cama, mas digo que não, basta o sofá. Conheço a dar as notícias a todos e anúncio minha saída da prova à organização, logo o sono vem e tiro um bom cochilo. Quando acordo já deve ser por volta das 17 hs. Lucineide me convida a jantar fora, é claro que digo não, fico pensando que estou incomodando, mas ela é tão natural que acredito na hospitalidade, ela me diz pra ficar a vontade, avisa que voltarão tarde e a porta ficará aberta. Eu agradeço, fico apenas com a companhia do cachorrinho pintcher que já é meu amigo também. Esquento no microondas um pouco e arroz e feijão, não quero mexer em nada na geladeira, pego apenas ovos de codorna como mistura, pra mim não tem nada melhor do que ovo. Janto cedo e já vou pra cama, quer dizer, sofá, eu e o cachorrinho. Coloco tudo pra carregar: MP4, lanterna, celular... Escrevo um pouco, mando algumas notícias e já vou dormir, não são nem 21 hs, o que pra mim é super cedo. Mas logo caio no sono. Não vejo nem ouço nada, nem vestígios da chegada da anfitriã.
Acordo às 2 hs, renovada. Começo a arrumar minhas coisas, aínda dói um pouco pisar. Faço dois lanches com pão caseiro e ovos de codorna, embalo em papel toalha. Fico com receio de levar apenas minha única garrafinha de 250 ml de água já que agora é por minha conta, então pego uma garrafa pet de 1.500 vazia e suja de suco da mesa da Lucineide, lavo, encho, não tenho onde carregar, mas vou levar na mão mesmo. Na hora de calçar os tênis, aí sim vejo que a pausa não foi suficiente pra regenerar as bolhas. Eu envolvo os pés nos absorventes sujos, calço as meias e com muito custo, os tênis. Vou  andando muito devagar e com muita dor, mas logo a dor de ajeita feito pedra no sapato, e vou seguindo: lanterna numa mão, água na outra. Está muito incômodo carregar a água na mão, mas não pesado.
O céu agora está nublado e não há estrelas, mas o infinito é sempre digno de contemplação.
Lembro de ontem quando estávamos nós três a caminho da placa do meio do caminho... Sigo rindo sozinha.

A cerca de 3,5 eu começo a ouvir muitos latidos de cachorro, e a medida que me aproximo da penúltima árvore, aquela que dali entramos no carro do marido das meninas pra pegar carona até a próxima e enfim chegar na placa... Os latidos ficam intensos de mais e ameaçadores, um cachorro sai do nada do meio da plantação de soja, cruza minha frente e entra do outro lado da plantação, fica na margem latindo pra mim e pra frente, como quem manda uma mensagem pros outros. Fiquei imóvel - morro de medo de cachorros no caminho - achei que agora todos os outros viriam até ali. Saco do bolso meu pau de self, abro ele e uso como se fosse um bastão, vou falando alguma coisa como : "passa! Vai pra casa, fica longe..." E volto. 
No caminho de volta eu penso: de que adianta voltar, vou pra onde? Talvez a casa da Lucineide de novo até o dia amanhecer, talvez ela me de carona até lá. Volto acho que uns 3 km,  percebo que não estou com a garrafa de água nas mãos, devo ter deixado no chão na hora do cachorro e nem vi. Só vejo uma saída: esperar passar algum carro, esperar o dia clarear... Mando uma mensagem pra Maria, contando a ela que não consigo prosseguir, ela me responde prontamente dizendo que já está acordada, que eu posso apagar a lanterna e tentar passar, se eu esperar clarear, vou passar por eles e eles vão latir do mesmo jeito. Avisto um farol de um carro... espero... É uma Kombi, aceno na certeza de que vai parar... Passa direto! Como pode? Passar direto por alguém as 4 da manhã, mulher, com vestes de caminhante, cajado, lanterna... De certo pensou que era assombração kkkkk. É hoje em dia a bandidagem tá tão desmedida que ninguém confia mais em ninguém! Impossível passar mais alguém ali... Desanimada, sigo em frente bem devagar. A hora que percebo os latidos paro de novo e espero naquela mesma penúltima árvore, aquela que ali pegamos carona até a placa, por sorte em baixo da árvore tem uma pedra, sento ali e espero de novo, minha garrafa de água estava lá, em pé, quase no meio da estrada, fico grata e recolho ela. 
Vem outro carro... Aceno e ele também não para! Meu Deus, ninguém confia mais em ninguém! Já são 4:30 e falta pouco pro dia clarear, fico ali assistindo as poucas estrelas irem embora, agora o céu está mais aberto. Assim que consigo desligar a lanterna, sigo devagar, quando chego bem próximo aviso os cachorros, são mais de 10! Todos rosnando, me avisando que se eu der mais um passo, vou levar mordida! Paro e fico esperando eles se acostumarem comigo, uma hora eles vão voltar pro sítio...
Já que não consigo progredir, o jeito é assistir mais uma vez o espetáculo do nascer do sol, lindo, dessa vez entre as nuvens, não dá pra ver o sol brotando, mas o festival de cores laranja e rosa é tão bonito quanto. Uso aquelas imagens e jogo bom dia ao vento para os quatro cantos do meu wats, quem vê vai saber que estou num lindo lugar, só não imagina que esperam por mim uma dezena de cachorros "raivosos". 
Maria criou um grupo de wats só pra que eu possa mandar notícias. Apenas nós 3. 
Bom, eu preciso passar, então, a minha direita tem uma estradinha estreita que nem consta no mapa, daquelas que vai dar pro sítio de alguém, soja de um lado, soja do outro... É por ali que eu vou... Sigo cerca de uns 300 metros, até que os cachorros se dispersem e voltem a seus afazeres, daí de longe eu avisto a placa do meio do caminho, rio sozinha, e me adentro soja a fora... A princípio pulando os primeiros pezinhos de soja, pois são baixinhos, quando chego nuns mais altos o jeito é roçar eles mesmo, que dó. E o medo de cobra!!! Nem fale! Não acaba nunca, parece que atravesso o mar a nado, pra dou rizada de mim, ora sinto raiva de minha covardia... Medo dos cachorros perceberem que adentrei por ali e vir defender aquele território também. Os veios da plantação mudam e agora minha direção coincide com a linha do soja, que alívio, não preciso mais pular os pés de soja, nadar a favor da correnteza é melhor. Acho que devo ter andando quase 1 km de soja. Terra a vista, saio na rua onde deveria virar a direita depois dos cachorros! Dentro da rota, certinho!!! Ufa, consegui. São 6:45, sai às 3 e só progredi 5 km, um atraso de cerca de 10 km! Paciência, é história pra contar.
Agora sigo cantando e feliz pensando que faz de conta que tudo começa agora, faltam 65 km, logo ali. Logo o meu MP4 acaba a bateria, não deve ter carregado direito. Lamento pois ainda tem muito chão.
Quando cruzo a BR não posso deixar de pensar nisso: cortar caminho, seguir reto e chegar em Londrina 40 km, e não em 60 como restam. Mas sigo firme. Entro agora num vilarejo, os cachorros latem não estão presos. O caminho segue deserto e o solo é regular, plano, uma especie de terrinha fina, ainda restam alguns rastos de tênis dos mais atrasados, mas as pegadas mais bonitas são as dos quero quero. Formas desenhos, linhas curvas, pura poesia efêmera impressa no solo do caminho, com direito à trilha sonora e tudo. Apesar do cateter efêmero, garanto que quem passa por aí a qualquer dia vai poder apreciar tais obras de arte, pois ela se renova a cada dia. Quem me diz são os próprios autores, tantos a cantar em alto e bom tom, e aliás, pode ser que eles nem gostam de visitas se considerar os rasantes que executam sobre minha cabeça, fico imaginando que ali deve ser um berçário de aves, coisa mais linda. Estou muito grata de estar ali nessa exposição de desenhos orgânicos, mas lamento ao mesmo tempo, cuido para não destruir nenhuma das patinhas que vejo, quase peço desculpas aos donos da casa. Fotógrafo, admiro, ainda bem que passei por aqui durante o dia! Que previlegio!
Quando essa estradinha chega ao fim, lembro de ter chegado a umas estradas a perder de vista, só soja, um mar de soja. Pelo menos agora não vou a nado, vou no meu barquinho a vela mesmo. Lembro de Tamara klink que cruzou o oceano Atlântico em um barquinho a vela, sozinha, e que levou junto tantos sonhos de mulheres que sonham grandes travessias, mas tem medo de partir. Esse é meu oceano, olho para todos os lados e só o horizonte está na minha linha de visão, o mar verde me rodeia. Daqui eu não posso voltar, eu só posso seguir. Uma sensação de consciência toma conta de mim, de estar realizando aquilo que eu tanto quis, de atenção redobrada comigo mesma, com cada sinal que meu corpo dava. Eu sou meu barco, qualquer luz que acenda nesse painel, eu preciso saber interpretar, e a que vejo agora é uma luz laranja talvez, a do medo, eu sei que ela não quer dizer nada preocupante, mas se nada for feito, ela se intensifica pra vermelho.
Então eu conheço a conversar comigo mesma, é nessa hora que a gente não escapa de se encontrar consigo mesma, de olhar nos meus olhos e ter que responder as mais intrigantes perguntas: porque você está aqui? Porque não comprou um calçado adequado? Você está com dor, falta muito, o que vai fazer? Ah não, eu não vou ficar respondendo à um interrogatório desses, nada vai mudar! Vamos brincar que é melhor.
Eu começo a brincar comigo mesma pra que o tempo passe. Me lembro das viagens que fizemos quando as crianças eram pequenas e Heloísa, a mais nova, entediava, o irmão lhe dizia: dorme que o tempo passa. É, não posso dormir. 
Eu e minha melhor companhia inventamos de cantar: cantar a música que vem a cabeça, não vale pensar muito... Com a letra A, depois com a B, depois C... Tem que cantar alto. Aqui em alto mar ninguém vai ouvir... Embora a brincadeira realmente me distraia, e apesar das músicas serem cantadas a esmo, caio em algumas armadilhas: "🎶 a felicidade está no caminho... / Quando me chamou eu vim, quando dei por mim tava aqui..." E ainda bem que ninguém vê, mas a voz embarga e meu rosto molhado de lágrimas se mistura ao suor fazendo arder os olhos. 
Segui remando e cantando, já cantava sem muito entusiasmo só pra satisfazer a minha companhia que insistia que a brincadeira continuasse até a letra Z! Minha parceira é metódica igual a mim. 
Me dou conta de que o céu ainda está nublado, faz muito calor, mas o sol está manso as 10 da manhã, que bom! Mas assim que entro num trecho asfalto - asfalto? Juro que não lembro de asfalto no meio do caminho - confiro o mapa, tá certo, por aqui. Uma rodovia estreita, sem acostamento pior do que aquela que margeia Sarandi porque lá pelo menos tem terra pra andar como acostamento. Aqui só mato dos lados. A esquerda uma encosta, prefiro ir por ali pois é a contramão dos carros e a encosta projeta sombra - agora o sol dá as caras bonito - mas não tem onde andar e são muitas curvas, nas curvas nas dá pra ver quando vem carros e caminhões... Melhor andar na direita onde o acostamento é um pouco maior... Sigo morrendo de medo, tanto que já até esqueci a brincadeira, me arrisco até a correr um trotinho na descida pra sair logo daquele trecho, mas tem muito mais subidas, parece não acabar nunca! Vejo um carro parado quase dentro do mato (não tem acostamento) de janelas abertas e tudo, só não vejo o motorista... Gelo de medo! Sigo quieta, eu e eu mesma que a essas alturas não quer nem brincadeira. É nessas horas que aparecem as dores, a pedra no sapato se desloca e vai parar onde mais incomoda, as dores gritam.
A rodovia é feia, só mato ao redor, um cheiro muito ruim, de curtume, sei lá. Logo chego a algumas fábricas ou indústrias, a JBS, em Rolândia. Minha garrafa de água está fervendo agora, daria pra passar café, chego na portaria da JBS, está vazia e parece desativada, tem que descer pra chegar a outra portaria, eu desço e pergunto se tem um bebedouro por perto onde eu possa trocar minha água, a pessoa que me atende me indica um tanque atrás da portaria abandonada. Ok obrigada, vou até lá e abro a torneira, a água é morna e deixo correr um pouco, a temperatura da água melhora, eu molho a cabeça e o rosto, troco a água, já vou saindo e aviso uma tomada pro lado de fora da guarita, pergunto pra um funcionário que está passando se posso me sentar ali e carregar o celular um pouco, ele diz que sim, eu sento no chão e coloco o celular pra carregar, abro a mochila e pego o pão com ovo de codorna que fiz antes de sair da Lucineide, será meu almoço. Passa um homem e me pergunta se está tudo bem, eu explico que sim, que estou caminhando em direção a Londrina pois estou participando de uma prova e parei pra almoçar e trocar minha água, ele me diz que há um bebedouro gelado lá em baixo, que eu posso ir até lá, e se precisar de qualquer coisa eu posso chamar - meu aspecto deve estar horrível - agradeço muito, penso na diferença do atendimento da pessoa que conversei a pouco, e esse de agora. Enquanto almoço assisto um carro estacionar na minha frente, o motorista avisa que chegou pelo celular e logo é recebido por um homem forte, careca, com um capacete de operário na cabeça, pinta de chefe. A conversa de trabalho é rápida e na volta ele vem conversar comigo. Fala que se lembra do tempo do exercito, fez uma marcha de 90 km de uma vez só, me conta detalhes: a bota, o caminho na lama, o almoço que tiveram que preparar, a situação que ficaram os pés... Legal! Ele me ouve falar um pouco sobre o desafio que estou fazendo, me diz que está devendo uma promessa a N. Senhora Aparecida: fazer o caminho da fé de bike. Mas está gordo, é preciso emagrecer. 
Ele encerra a prosa e eu acesso o celular pra mandar notícias, vejo que o celular nem carregou direito, mas com mais de 60% de bateria acho que posso utilizar o Google maps. Acesso e digito o destino: catedral de Londrina. A resposta marca 31 km de distância, muito animador. Eu só andei 29 até agora, sei que tem mais de 40 km pela frente se seguir a rota das catedrais.
Me levando e é difícil demais dar um passo a frente, quem dirá ir até onde me indicaram pra pegar água gelada! Meus passos são arrastados e até uma tartaruga passaria por mim, ali eu e minha parceira eu mesma travamos uma briga  feia: decido ligar pro marido e pedir socorro, no instante seguinte decido prosseguir pois eu consigo, sou forte. Não, não sou, dói demais, só preciso achar um ponto na rodovia onde o carro possa parar pra me pegar, porque ali nem isso dá... Mudo de ideia a cada minuto entre parar e prosseguir...
Em menos de um quilômetro chega a decisão: pra direita a seta amarela pede pra virar ou seguir em frente na rota traçada pelo Google maps, 10 a 15 km menor. De novo um bate boca entre eu e eu... E pronto, eu ganhei, vou pelo Google! Covardia? Talvez né, entrar em alto mar verde de novo... Sozinha, sei lá... Sigo reto e deixando a seta amarela pra trás muito desolada... 
Mas logo eu revivo... A rodovia agora é linda!! O mau cheiro acabou, a pista é margeada por mata dos dois lados, o que faz sombra no caminho, uma calçada na esquerda é quase uma pista de caminhada, e a vista para morros que me fazem lembrar minas ou SC no vale europeu se não fosse pelo lixo jogado no mato denunciando a falta de educação e pobreza de espírito do nosso povo, chácaras com as fachadas bem cuidadas, uma bica d'água da mina, me aproximo e aproveito! Incrível, parece mágica!!! Água milagrosa, vinda da geladeira de Deus... Molho a cabeça, tomo água nas mãos em concha, que maravilha!! Sararam todas as minhas dores, olho no Google e faltam 28 km, eu ligo até música no celular e sigo cantando, sou capaz de saltitar... Acesso mensagens andando, aviso a todos que vou chegar...
Esse trecho deve ser cerca de 6 ou 7 km mais ou menos, logo chega em Rolândia... Aí a beleza acaba, e quando chega na BR... Nada mais encanta, tudo já é conhecido, a poluição no entorno é muito grande... Caminhões, buzinas, trânsito intenso... 
Na beira da BR num trecho mais urbano, uma linda árvore, um banco na sombra e uma senhorinha. Cumprimento com um boa tarde, "tá calor né"... Pergunto se ela mora ali em frente, ela me diz que sim, na casa de baixo. Peço por água fresca, ela pega minha garrafa e diz que vai encher pra mim, eu digo que enquanto isso eu cuido do banco pra ela. Ali me sento, abri um saco de pipoca doce que trago na bolsa, já que vou ter água gelada né, bora comer pipoca doce. Ela demora voltar, mas trás a garrafa de 1,5 cheia de água geladinha... Agradeço, me farto e a gente começa a prosear: ela me conta que tem 60 e tantos anos, teve 3 derrame, quase morreu e que agora tá aguardando vaga pra operar pois o exame mostra hemorragia no cérebro de novo, mas o filhos e o companheiro não vão autorizar que ela opere. O médico avisou que ela pode não sair. Me conta que esquece das coisas, tem lapsos de memória (de certo esqueceu que tinha que me trazer água, por isso demorou tanto kkkkkk) ihhh a prosa vai longe... Acho que ela tava ali sentada tão precisada de prosa quanto eu de água... Mas matamos a nossa sede, a pausa deve ter sido de uns 20 minutos. Volto a caminhar e o retorno é sempre muito dolorido... AFF, vem de novo aquela voz pedindo socorro... 
Olho pra placa de trânsito que me diz: reduza a velocidade... Fotógrafo, faço um post pra marcar com bom humor aquele momento: " vish, se eu obedecer a sinalização hoje não chego".
Já em Cambé o espírito de contemplação já não existe mais, minha companhia virou uma chata que só reclama, eu me arrasto, chego num trevo que não entendo direito se viro ou sigo reto, sigo e o Google me manda retornar, retorno e o Google me manda seguir, AFF... Quando viro andei cerca de uns 300 m e pergunto pra uns rapazes por onde é melhor ir pra Londrina (quem vê pensa que é de fora) e a resposta é; por lá, por aqui não. Volto, pego a saída que tinha pego antes... Isso só aumenta o stress, parece alimento pra dor, a dor dói mais.
Já não olho mais o celular, não dou notícias, só cara feia, bebi tanta água que cheguei a achar que era muita, mas não vou no banheiro desde de que sai da estrada de terra cerca das 10 hs e tenho vontade, agora são 17 e tanto, o sol castiga, açoita, chicoteia sem piedade...
Subida, descida, subida, descida, sol, caminhão e mais caminhão, dor e mais dor, nada é bonito... 
Quando passo em frente ao motel Tróia, uma sombra de árvore, a única, envio uma mensagem ao marido: para me esperar em frente a catedral as 19:30, faltam 15 km e eu não vou mais acessar o celular... Não vou mais fazer pausa... Porém por várias vezes eu me sinto tonta, com as pernas bambas, é preciso acessar alguma coisa na bolsa: bolacha, pão... É preciso ter muita atenção com os sintomas do meu corpo. Qualquer parada é muito prejudicial, mesmo parar pra atravessar a rua, as marginais... A retomada dói, dói muito. 
Chego na Coca cola, Pado... Divisa com Londrina já, percebo que corro perigo ao  atravessar as marginais, são quase 19 e vejo que minha previsão de chegada não irá se cumprir, ainda faltam 9,5 km. Eu olho pra um banco na sombra e cogito sentar ali, um homem que está do outro lado olha pra mim e me chama, dizendo alguma coisa tipo: "ei, vem cá", só faço cara feia e respondo com a cabeça que não, ele atravessa e vem na minha direção, eu respondo com grosseria, dizendo alguma coisa como "me deixa em paz, não quero conversa" e ele continua a dizer "vem ver meu celular se você não quer comprar". Peguei meu celular e liguei pro marido dizendo em alto e bom tom: Venha me buscar, a caminhada já encerrou. O tal homem ouve, e prefere não vir atrás, eu me arrasto pra longe visivelmente mancando até um ponto em que eu possa sentar e esperar por meu resgate. 
81 km de sexta pra sábado, 57 no domingo, somando 138 km, sendo que faltaram 9,5 pra chegar. A rota das catedrais tem 134 km, eu penso que deve ser maior... Enfim, de novo morri na praia, entrei dentro do carro xingando até a quinta geração: de raiva de mim mesmo, de dor, de stressada que estava naquele entorno barulhento onde só o que restou de mim foram as dores, jurando que agora chega... 
Ao chegar em casa e tomar um banho, a água leva toda aquela camada de pó e terra, revela o que ficou, a verdade sobre os pés e eu entendo porque doia tanto: no pé esquerdo eu tenho bolhas faraônicas em todos os dedos, sola do pé. Eu olho pra eles, meus pés guerreiros, sofrem as consequências das minhas decisões erradas, foram obrigados a andar sem o devido preparo... Tudo o que vivi nesse caminho, o que aprendi... É muito grande, só quem passa por um caminho assim sabe o quão transformador ele é. 
Sobre não voltar nunca mais... Ser caminhante é um caminho sem volta, o caminho já me engoliu, eu já estou completamente apaixonada por ele. 
Ano que vem tem mais.

 

 

*Morro da Cruz: o pico Guarani também conhecido como morro da Cruz é um morro pequenininho de 560 M de altitude, fica em Ibiporã, pode ser acessado por uma trilha que sai dos bairros da região norte de Londrina, percorre se 7 km para chegar no pico.

Como gosto muito de caminhar por estradas rurais, pela proximidade com minha casa esse trajeto e o próprio pico acabou virando meu refúgio, em 2021 acho que fui até lá pelo menos 15 vezes... Sozinha, acompanhada... 

A quem teve a paciência de ler até aqui, meu muito obrigada (minha capacidade de síntese é pequena kkkk)

@Lopesszcspanski

 

 


 

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