Excelente texto, Ogum, até por dar uma perspectiva histórica.
É interessante notar que a figura do viajante, aquele que viaja por prazer, não por necessidade, surge na Grécia antiga, sempre relacionada à busca do aprendizado. A cultura grega clássica entendia que o aprendizado se dava nas ruas, nas ágoras, conversando, debatendo e trocando idéias. E conhecer outros países, outros povos e outras culturas fazia parte deste aprendizado. Isso continuou fortemente com os romanos, no período da pax romana, especialmente. Os cidadãos romanos tinham muitos recursos vindos de todo o império, muito tempo livre e excelentes estradas.
O retrocesso se dá fortemente na Idade Média com o homem ficando preso à terra, mas ainda assim com a existência de figuras como os cavaleiros andantes, normalmente de linhagem nobre, mas sem títulos; que vagam de feudo em feudo e de reino em reino. Mesmo alguns povos como venezianos e genoveses que dependiam do comércio eram exceções.
Agora, o auge foi mesmo a época dos Descobrimentos e das Grandes Navegações, quando verdadeiros aventureiros saíam sem saber pra onde, sem saber se sua nau despencaria pra fora do mundo. Se hoje temos dificuldade de nos comunicar com alguém de outro país, caso não haja uma língua em comum, imaginem pra um Caramuru, um Bacharel da Cananeia ou um João Ramalho largados numa terra como o Brasil pré-colônia?
Nesse ponto, o século XX fez muitos bens ao viajante em geral. Na verdade, democratizou esse acesso. Se antes você só conseguia ter esse acesso a novas culturas se fosse um aristocrata ou um aventureiro; cada vez mais pessoas, digamos, normais conseguem expandir seus horizontes. A expansão dos meios de transporte e comunicação em 100 anos é algo que nem dá pra medir.
Mesmo assim, acho que o brasileiro - de maneira geral - ainda está aprendendo, está se criando uma cultura de viajante ainda por aqui, seja mochileiro, CVC, homem do mundo, turista, seja o que for. A própria falta de infraestrutura e incentivo ao turismo interno é incipiente (quantos exemplos não temos que é mais fácil e barato viajar pro exterior que aqui dentro do país?), o que cria uma grande barreira para novos viajantes. Muitos dos episódios que vemos de brasileiros passando vergonha no exterior é típico de neófitos. Assim como nos anos 80 havia várias histórias de hordas de adolescentes que destruíam hotéis na Disney quando seus pais os mandavam pra lá com a Vovó Stella, presente de aniversário de 15 anos.
Muitos outros povos (europeus em geral, israelenses, australianos e daí em diante) já tem uma cultura de viajantes que já passou por algumas gerações. Tanto que ninguém se escandaliza por lá quando se tira um sabático - uma licença não remunerada - de 6 meses pra viajar. Uma verdadeira heresia para as empresas daqui.
Mas, com todas as facilidades aumentando, confio que acabe se implantando uma filosofia viajante/mochileira no Brasil dentro dos próximos anos. Lembro de quando fiz minha primeira viagem com uma mochila nas costas (Europa em 1997, na época da internet à lenha) tudo que tinha de informações era meu Guia Fromer's - Europa a US$ 50 por dia e a carteirinha com o guia da IH (nem sabia que havia albergues sem ser IH

). Foi na viagem que me deparei pela primeira vez com coisas como Lonely Planet ou Rough Guide; ninguém conhecia por aqui.
Hoje, em termos de informação, não existe segredo pra ninguém. Felizmente está cada vez mais acessível a mais e mais gente, até porque o Mochileiros é a prova que pra viajantes com pouca grana, informação é o bem mais precioso. E essa cultura... bem, vamos ajudando a construir. Vai demorar, mas chegaremos lá.