208 kms pedalados, em tempo inferior a 13 horas. muito? talvez. mas fizemos isso, sob condições de tempo e altimetria do caminho não muito favoráveis.
mas pq fazer uma coisa dessas? ora, e pq não? tantas pessoas se perguntam sobre isso há mais de um século, quando eventos ciclísticos assim começaram a pipocar na europa. é uma forma de cicloturismo, na medida em que não há competição.
eu fiquei sabendo do audax que iria ocorrer aqui no interior de sp. já tinha feito outro, em 2003. não era novidade pra mim, mas pra muita gente que foi comigo era.
o esforço físico é grande, mas qq um que saiba pedalar, esteja com a bicicleta certa e goze de boa saúde faz isso. é como andar um dia inteiro. nossos corpos estão preparados para esse esforço. aliás, não há outro animal na face da terra que suporte esforço por tanto tempo como nós: suamos às bicas pq nossos corpos precisam manter a temperatura durante espaços de tempo muito longo, e por isso somos mais resistentes que bois, cavalos, zebras ou qq outro animal grande, em esforços contínuos.
mas nós não temos idéia da nossa capacidade até testá-la. e um audax é isso. um pequeno embate entre corpo e mente, entre vontade e apetite.
a coisa é assim: tem que se pedalar por trecho previamente demarcado, mantendo a média horária em no mínimo 15 kms/hora. é uma média baixa. o ideal é manter acima disso para ter tempo para comer, ir ao banheiro, consertar pneus furados e etc.
os percursos são tradicionalmente de 200 kms, 300 kms, 400 kms, 600 kms e por fim, os grandes (como o lendário e centenário paris-brest-paris), com 1200 kms. sempre mantendo a mesma média. isso quer dizer que as pessoas tem que completar essas distâncias nos seguintes tempos:
200 kms: 13,30 hs
300 kms: 20 hs
400kms: 27 hs.
600 kms: 40 hs.
1200 kms: 80 hs.
para se fazer o de 1200 é preciso o brevet de 600. pra se fazer o de 600, precisa-se o brevet de 400. o de 400 exige o brevet de 300 e esse, por sua vez, pede o brevet de 200. para o brevet de 200 não se exige nada. é a porta de entrada.
normalmente, junto com alguns brevets, se fazem os "desafios", com distâncias menores: 100 kms ou 150 kms.
assim que abriram as inscrições no clube audax brasil (http://www.audaxbrasil.com.br/ do qual, aliás, eu participei - timidamente - da fundação, em 2003), para o brevet de 200 kms, em holambra, interior de sp, eu me inscrevi.
e não fiz isso sozinho. como sempre, provoquei um monte de amigos, dentre os quais o piacitelli aqui do mochileiros.com, e a galera da bicicletada de sp, da associação ciclocidade e do insitituto ciclo br. fiz questão de convencer o maior número de pessoas possível, seja incentivando, seja provocando (coitada da minha amada amiga aline, vítima das minahs provocações até agora há pouco, eu sei que ela vai me dar uns cascudos quando me encontrar de novo...). e claro, nunca falta doido pra topar programa de índio.
da galera de sp fomos em muitos, inclusive alguns que não conseguiram vagas. o brevet teve 47 inscritos (200 kms) e o desafio (100 kms) 14. todas as vagas preenchidas - há limitação, pois o evento é segurado.
e como foi a coisa?
a organização da viagem começou bem antes. com semanas de antecdência o albert consguiu reservas no hotel escolhido (ok que tinha uma estradinha de terra pra chegar, mas tinha amplo espaço pras bikes,inclusive dentro dos quartos, e uma piscina pra gente torrar no domingo). acho que chama holambra garden hotel, ou algo assim.
o JP, cara genial, organizado, coordenou o aluguel do bumba que nos levou, em 21 pessoas + bikes. e tb teve a galera que foi de carro.
o piacitelli foi direto de botucatu e ficou em outro hotel.
já foi uma epopéia embarcar as 20 bikes no bagageiro do bumba. de umas tira-se as rodas, de outras não, umas vão de ré, outras de frente, até bike de cabeça pra baixo tinha. a minha eu coloquei num mala bike, o que permitiu que ela fosse em cima do compratimento do estepe, deitada.
saimos, paramos na estrada pra jantar, e organizar o jantar prum grupo grande nem sempre é tarefa fácil pra alguns restaurantes. o meu nhoque com polenta virou nhoque com batata frita...
o fato é que chegamos tarde no hotel, e até dormirmos já era mais de uma da manhã, pra acordar às 5:30...
acordamos às 5:30. eu, como sempre, com meu ótimo humor matinal já xingando tudo e todos de anormais.... heheheh. tomamos um café da manhã hiper-mega-power (do pudim que tinha, comi um quarto, entre outras coisas), e em pouco tempo rumamos para aprefeitura da cidade, onde seria feita vistoria, a partir das 6.
sim, as bikes são vistoriadas pra ver se estamos carregado o equipo obrigatório, constante de pisca traseiro, farol dianteiro (farol que ilumine mesmo), capacete e colete refletivo (esses dois a serem usados durante o dia inteiro).
como não é permitido receber assitência externa (salvo de colegas de pedal) fora dos pcs, carregamos tb o que é de praxe pras emergências: câmaras e remendos reservas, bomba de ar, ferramentas... esses são de escolhas pessoais. depois de um perrengue tentando remendar um furo em 2003, debaixo de chuva, dessa vez me precavi e levei três câmaras de ar de reserva mais uns 20 remendos... só usei uma câmara.
às 7 horas da manhã largamos, saindo de holambra e nos dirigindo à sp-340, para irmos até casa branca e voltarmos.
cliquem em "show" e depois "elevation profile" pra terem uma idéia da altimetria do caminho. simplesmente cruel.... ascenção de um total de 1750 metros.... na ida, outro tanto na volta...
bom, saímos e logo pegamos a sp-340. nesse momento fez uma chuvinha, que logo passou, mas enlameou as bikes. começamos o pedal.
eu fui tocando. pedalando um pouco mais forte, mas não muito. tava andando bem, melhor até do que imaginava estar. já se percebia, nesses primeiros 50 kms, o perfil altimétrico f.d.p., com muitas subidas e descidas. as subidas são sempre lentas e as descidas rápidas. pra efeitos de comparação, uma subida de 10 kms, a 10 por hora, levará 60 minutos pra ser percorrida. a mesa subida, descendo, a 60 por hora, será descida em 10 minutos... então, muito sobe e desce cansa.
a essa hora eu ainda estava brigando com as marchas. mania de usar marcha muito pesada. mas ok, era barbeiragem minha, não da bike.
fui tocando, passando alguns, sendro ultrapassado por outros. as bikes são as mais diversas, desde as speeds a muitas mtbs com montagens diversas (de mtbs hibridizadas com pneus finos a mtbs com caixote de feirante no bagageiro), e até bikes de triathlon, com guidões clip...
o essencial nas bikes pra audx é serem confortáveis pra se pedalar durante horas, mas com um desempenho razoável. num audax, não há competição: se chega dentro do prazo e pronto. depois são divulgados apenas os que conseguiram o brevet, em ordem alfabética, tempos não são divulgados, não há primeiro ou segundo lugar.
isso tira muito do stress de competições. deixa os colegas mais solidários. se alguém tá trocando uma câmara furada outros param pra ajudar.
inclusive aconteceu uma coisa engraçada comigo.
numa subida, quis trocar muitas marchas de repente e a corrente caiu, saiu do pedivela. eu ainda estava um pouquinho embalado, girei em falso e ia desclipar os pés (estava usando pedais de encaixe, há um encaixe no pedal e outro na sapatilha de pedalar) e olhei pra baxio vi que a corrente tava atravessada já pegando num dente da coroa menor e no câmbio, se eu forçasse poderia quebrar a corrente. olhei pro lado, o mato, capim, estava cortado rente por uns 3 metros além da rodovia. devagarinho (aproveitando o resto do embalo) fui passando pelo capim baixo até a roda encostar no capim mais alto e então eu cair de lado, em cima do capim.... daí deitado desclipei os pés... hehehehe
e claro, cada um que passava parava pra perguntar se tava tudo ok...
foi meu único tombo. e tenho a impressão que foi o único tombo do audax, não vi relato de mais nenhum acidente.
cheguei no primeiro posto de controle em cerca de 2 horas de pedal. o ritmo tava muito bom. ali tomei um copo de suco de laranja, comi uma banana, um pão de queijo, enchi as caramanholas de novo, de água e gatorade, e vi outros colegas que iriam fazer os 100 kms chegando. claro que fiquei provocado:
- bora, gente, vamos fazer o duzentinho!
o benicchio respondeu que iria fazer, achei que era brincadeira, logo saí dali.
dai fui tocando os outros 50 kms. meu companheiro nesse trecho foi o alescio, maior e mais velho que eu. fomos papeando debaixo de um sol forte. fomos tocando. nada forte demais, mas pra fazer no tempo regulamentar. mas puts, as subidas e descidas pioraram, pioraram muuuuuuuuito. fiquei muito alegre ao chegar no pc 100. já tinha alguns da turma lá: pasqualini, rafa rodo, márcio. outros foram chegando.
e a gente falando besteira. uma coisa que agente comentava é que seria bom se o benicchio tivesse fazendo os 200 kms... vi um cara de longe e comentei que parecia muito o beni, o rafa rodo faz um outro comentário e daí percebemos que era sim o benicchio, na sua caloi easy rider com pára-lamas amarelos!
aí a coisa virou bagunça, pois tb chegaram outros que achávamos que fariam só os 100, mas conversaram no PC 1 com a organização e mudaram a inscrição. dentre eles a evelyn, menina guerreira. o JP, o namorado dela, ficara antes ainda do PC 50, pois havia espanado o pedivela. chegou tb o piacitelli, xingando a bike e o peso que tava carregando nela...
acabamos por sair do PC 100 kms em casa-branca apenas 13:50 (10 minutos depois do fechamento do PC e 1:25 depois que eu chegara ali). eu lembro que citei que ia sair logo pra sair antes da chuva, fiz a curva pra sair do posto e começou a chover. primeiro uns pingos mas logo parei pra vestir o corta-vento.
mas que chuva mais f.d.p., ainda por cima com um baita vento contra! os pingos de chuva vinham tão fortes que doiam quando baitam no corpo. alguns passavam pelos furos do capacete e me doíam no couro cabeludo. e a água que vinha da roda dianteira pulava forte. aliás, uma hora me entrou água da roa no nariz!
o vento contra era tão forte que mesmo nas descidas mais longas, pra passar de 35 kms/h tinha que pedalar, e forte. e assim foi, com aquelas subidas assutadoras nas quais subíamos a meros 11 kms/h e tentando tirar as diferenças nas descidas seguintes, que fomos chegando aos poucos no PC 150 kms.
fiquei mais um tempo parado ali. uns do grupo já tinham chegado, outros chegavam aos poucos. tomei uma garrafa de refri, comi uma banana, levei uma maçã no bolso da camisa, saímos em grupo e eu com a missão de alcançar a evelyn que tinha saído uns 15 minutos antes, e seria a dona do par de luvas esquecido ali no pc 150. ela tb tinha esquecido o saco de amendoins.
me desliguei do grupo e fui tocando forte, bem forte, para alcançar a evelyn. soquei a bota mesmo, socando pesado nas subidas e nas descidas me esgoelando com a relação 53x11 (nas subidas baixava pra 39x28). em alguns trechos eu via, ao chegar ao topo de uma subida, ela no topo da subida seguinte.... e assim foi umas 3 ou 4 vezes até que consegu alcançá-la, pra descobir que não precisva correr tanto, as luvas esquecidas não eram dela, e sim de uma outra garota.
bom, aí eu passei a pedalar num ritmo mais lento do que o dos últimos quilômetros. foos papeando, eu a evelyn. um certo tempo depois, fomos alcançados pelo marcelo. mas pra frente, pelo andré pasqualini, silas, márcio... já anoitecia.
era noite fechada já quando passei sobre algo, senti um "clunk" na roda traseira, o barulho do ar saindo e gritei que estava com um pneu furado.
pararam todos ali, pra me ajudar a trocar aquilo no escuro. trocamos rapidinho, talvez rápido demais, e quanto já colocava a roda cheia de ar na bike percebi queuma parte do pneu tinha escapado do aro. toca esvaziar e encher de novo. meus braços já tavam quebrados, osilas gentilmente encheu rapidinho. uma vantagem das speeds são os pneus finos que enchemos rapidamente.
enquanto estávamos parados um apicape parou atrás, era o denis, mega -organizador do audax perguntando se tava tudo bem. estava. e seguimos. e nesse meio termo chegou a patrícia (outra das guerreiras), passa por nós, e quando vai parar a perna dá uma cãibra... acabou dando uma meia volta pegando uma das pistas. nós que olhávamos pra ela só sentíamos a luz que vinha por trás, gritamos, e ela calmamente depois explicou que eraum carro na outra faixa. ela via, nós é que não.
dali seguimos adiante, faltando uns 10 kms pra entrada pra holambra.
o povo foi tocando. o paulo tava mais lento (mtb, pneu mais largo, tinha carregado peso nos 100 kms, sem pedias de encaixe) e eu fui acompanhando-o. ora na frente, puxando um pouco, ora atrás, "empurrando" um pouco. o resto do grupo distanciou-se, já eramquase 20 hs, e o PC final fechava Aàs 20:30. se chegassemos depois, nada de brevet e portanto nada de fazer o 300.... hehehehe
na entrada pra holambra o marcelo nos esperava. fomos os 3, dois de speed e o paulo na mtb. tem mais um trechinho de estrada e então uma subidinha pra entrar na cidade. nessa subidinha provoquei o marcelo a subir sprintando e fomos os dois, que nem dois retardados, pedalando em pé e acelerando subida acima. quando olhamos pra trás, kd o piacitelli?
circulamos pela cidade procurando a prefeitura. o piacitelli tinha entrado numa outra rua e tb tava procurando a prefeitura.
o fato é que chegamos a tempo e, 3 ou 4 minutos depois, o piacitelli, sob salva de palmas, ganhando até uma cerva da organização.
bom, enquanto fiquei conversando ali com o povo da organização o resto do povo foi jantar. como disse a aline: "logo ali". o problema é que o restaurante "logo ali" tava fechado. ficamos eu e o paulo circulando pela cidade até que os achamos, num outro local. eu não tinha como ligar pra ninguém pq meu celular morreu afogado na chuva da tarde.
comemos, falamos besteira, alopramos a aline (aqui um parêntesis: ela pedala pra dedéu, fez 100 kms na correria com um dedo da mão luxado sem reclamar de dor. mas nada como deixar uma brasiliense de sergipe arretada chamado-a de "café-com-leite".... acho que ainda tomo uns cascudos dela... hehehe).
eu só sei que sonhei com bicicletas na noite de sábado. não sei o quê. tenho a impressão de que deitei, sonhei uns 2 minutos e acordei às 10 horas da manhã do domingo....
todo mundo comeu demais no café da manhã e ficou marolando na psicina. eu com marcas estranhas de sol nos braços e pernas. parecia estava manguitos e pernitos, ou no negativo, de camiseta, bermuda e meias brancas.... torrei um pouco no sol pra diminuir as marcas, e então, onde antes ardiam apenas pernas e braços, passou a arder o corpo inteiro. idéia de jerico....
saímos do hotel só às 4 da tarde, ainda pra ir almoçar (almoço "leve": einsbein com chucrute, dividido com o mr. shadow). holambra é uma cidade pra se conhecer. lindinha, pequena. bons restaurantes, docerias e etc. os hotéis e pousadas são baratos.
pois o fato é que só cheguei em casa depois das 11 da noite de domingo. queimado, quebrado e imensamente feliz. pra mim esse audax teve um significado de retomada da vida. em dezembro e começo de janeiro andei muito doente, muito sério mesmo, com direito a natal hospitalar. minha alta definitiva só se deu em 17 de fevereiro e menos de um mês depois já deu pra fazer um brevet.... pois que venham os próximos! que venha o de 300! e vou carregar o piacitelli!
- serviço:
holambra, 140 kms de sp. vale à pena ser visitada mesmo fora da primavera. de bike, dá pra ir num dia de sp e voltar no outro. boa opção prum light cyclotouring. bons restaurantes, pousadas baratas.
caramanholas de água consumidas durante o pedal: 4
caramanholas de gatorade consumidas durante o pedal: 4
um copo de café com leite no pc 3.
1800 ml de coca cola
600 ml de fanta
duas barras de proteína
6 sachês de carboidrato reduzido
6 bananas
1 pão de queijo
1 salgado
muito amendoim da evelyn
um potinho de sorvete
e claro, mais um X-tudo no prato e algumas cervejas no jantar. e mesmo assim acordei com uma fome danada no dia seguinte. pq será?
-----
sobre a organização: nota 10. escolheram boas estradas, um local barato pra servir de base, água gelada, frutinhas e gatorade à vontade nos PCs. gostei. meeesmo! parabéns aos organizadores.
208 kms pedalados, em tempo inferior a 13 horas. muito? talvez. mas fizemos isso, sob condições de tempo e altimetria do caminho não muito favoráveis.
mas pq fazer uma coisa dessas? ora, e pq não? tantas pessoas se perguntam sobre isso há mais de um século, quando eventos ciclísticos assim começaram a pipocar na europa. é uma forma de cicloturismo, na medida em que não há competição.
eu fiquei sabendo do audax que iria ocorrer aqui no interior de sp. já tinha feito outro, em 2003. não era novidade pra mim, mas pra muita gente que foi comigo era.
o esforço físico é grande, mas qq um que saiba pedalar, esteja com a bicicleta certa e goze de boa saúde faz isso. é como andar um dia inteiro. nossos corpos estão preparados para esse esforço. aliás, não há outro animal na face da terra que suporte esforço por tanto tempo como nós: suamos às bicas pq nossos corpos precisam manter a temperatura durante espaços de tempo muito longo, e por isso somos mais resistentes que bois, cavalos, zebras ou qq outro animal grande, em esforços contínuos.
mas nós não temos idéia da nossa capacidade até testá-la. e um audax é isso. um pequeno embate entre corpo e mente, entre vontade e apetite.
a coisa é assim: tem que se pedalar por trecho previamente demarcado, mantendo a média horária em no mínimo 15 kms/hora. é uma média baixa. o ideal é manter acima disso para ter tempo para comer, ir ao banheiro, consertar pneus furados e etc.
os percursos são tradicionalmente de 200 kms, 300 kms, 400 kms, 600 kms e por fim, os grandes (como o lendário e centenário paris-brest-paris), com 1200 kms. sempre mantendo a mesma média. isso quer dizer que as pessoas tem que completar essas distâncias nos seguintes tempos:
200 kms: 13,30 hs
300 kms: 20 hs
400kms: 27 hs.
600 kms: 40 hs.
1200 kms: 80 hs.
para se fazer o de 1200 é preciso o brevet de 600. pra se fazer o de 600, precisa-se o brevet de 400. o de 400 exige o brevet de 300 e esse, por sua vez, pede o brevet de 200. para o brevet de 200 não se exige nada. é a porta de entrada.
normalmente, junto com alguns brevets, se fazem os "desafios", com distâncias menores: 100 kms ou 150 kms.
assim que abriram as inscrições no clube audax brasil (http://www.audaxbrasil.com.br/ do qual, aliás, eu participei - timidamente - da fundação, em 2003), para o brevet de 200 kms, em holambra, interior de sp, eu me inscrevi.
e não fiz isso sozinho. como sempre, provoquei um monte de amigos, dentre os quais o piacitelli aqui do mochileiros.com, e a galera da bicicletada de sp, da associação ciclocidade e do insitituto ciclo br. fiz questão de convencer o maior número de pessoas possível, seja incentivando, seja provocando (coitada da minha amada amiga aline, vítima das minahs provocações até agora há pouco, eu sei que ela vai me dar uns cascudos quando me encontrar de novo...). e claro, nunca falta doido pra topar programa de índio.
da galera de sp fomos em muitos, inclusive alguns que não conseguiram vagas. o brevet teve 47 inscritos (200 kms) e o desafio (100 kms) 14. todas as vagas preenchidas - há limitação, pois o evento é segurado.
e como foi a coisa?
a organização da viagem começou bem antes. com semanas de antecdência o albert consguiu reservas no hotel escolhido (ok que tinha uma estradinha de terra pra chegar, mas tinha amplo espaço pras bikes,inclusive dentro dos quartos, e uma piscina pra gente torrar no domingo). acho que chama holambra garden hotel, ou algo assim.
o JP, cara genial, organizado, coordenou o aluguel do bumba que nos levou, em 21 pessoas + bikes. e tb teve a galera que foi de carro.
o piacitelli foi direto de botucatu e ficou em outro hotel.
já foi uma epopéia embarcar as 20 bikes no bagageiro do bumba. de umas tira-se as rodas, de outras não, umas vão de ré, outras de frente, até bike de cabeça pra baixo tinha. a minha eu coloquei num mala bike, o que permitiu que ela fosse em cima do compratimento do estepe, deitada.
saimos, paramos na estrada pra jantar, e organizar o jantar prum grupo grande nem sempre é tarefa fácil pra alguns restaurantes. o meu nhoque com polenta virou nhoque com batata frita...
o fato é que chegamos tarde no hotel, e até dormirmos já era mais de uma da manhã, pra acordar às 5:30...
acordamos às 5:30. eu, como sempre, com meu ótimo humor matinal já xingando tudo e todos de anormais.... heheheh. tomamos um café da manhã hiper-mega-power (do pudim que tinha, comi um quarto, entre outras coisas), e em pouco tempo rumamos para aprefeitura da cidade, onde seria feita vistoria, a partir das 6.
sim, as bikes são vistoriadas pra ver se estamos carregado o equipo obrigatório, constante de pisca traseiro, farol dianteiro (farol que ilumine mesmo), capacete e colete refletivo (esses dois a serem usados durante o dia inteiro).
como não é permitido receber assitência externa (salvo de colegas de pedal) fora dos pcs, carregamos tb o que é de praxe pras emergências: câmaras e remendos reservas, bomba de ar, ferramentas... esses são de escolhas pessoais. depois de um perrengue tentando remendar um furo em 2003, debaixo de chuva, dessa vez me precavi e levei três câmaras de ar de reserva mais uns 20 remendos... só usei uma câmara.
às 7 horas da manhã largamos, saindo de holambra e nos dirigindo à sp-340, para irmos até casa branca e voltarmos.
mais dados do trajeto aqui:
http://www.bikely.com/maps/bike-path/AUDAX-BRASIL-BREVET-200-DESAFIO-100-HOLAMBRA-06-03-10
cliquem em "show" e depois "elevation profile" pra terem uma idéia da altimetria do caminho. simplesmente cruel.... ascenção de um total de 1750 metros.... na ida, outro tanto na volta...
bom, saímos e logo pegamos a sp-340. nesse momento fez uma chuvinha, que logo passou, mas enlameou as bikes. começamos o pedal.
eu fui tocando. pedalando um pouco mais forte, mas não muito. tava andando bem, melhor até do que imaginava estar. já se percebia, nesses primeiros 50 kms, o perfil altimétrico f.d.p., com muitas subidas e descidas. as subidas são sempre lentas e as descidas rápidas. pra efeitos de comparação, uma subida de 10 kms, a 10 por hora, levará 60 minutos pra ser percorrida. a mesa subida, descendo, a 60 por hora, será descida em 10 minutos... então, muito sobe e desce cansa.
a essa hora eu ainda estava brigando com as marchas. mania de usar marcha muito pesada. mas ok, era barbeiragem minha, não da bike.
fui tocando, passando alguns, sendro ultrapassado por outros. as bikes são as mais diversas, desde as speeds a muitas mtbs com montagens diversas (de mtbs hibridizadas com pneus finos a mtbs com caixote de feirante no bagageiro), e até bikes de triathlon, com guidões clip...
o essencial nas bikes pra audx é serem confortáveis pra se pedalar durante horas, mas com um desempenho razoável. num audax, não há competição: se chega dentro do prazo e pronto. depois são divulgados apenas os que conseguiram o brevet, em ordem alfabética, tempos não são divulgados, não há primeiro ou segundo lugar.
isso tira muito do stress de competições. deixa os colegas mais solidários. se alguém tá trocando uma câmara furada outros param pra ajudar.
inclusive aconteceu uma coisa engraçada comigo.
numa subida, quis trocar muitas marchas de repente e a corrente caiu, saiu do pedivela. eu ainda estava um pouquinho embalado, girei em falso e ia desclipar os pés (estava usando pedais de encaixe, há um encaixe no pedal e outro na sapatilha de pedalar) e olhei pra baxio vi que a corrente tava atravessada já pegando num dente da coroa menor e no câmbio, se eu forçasse poderia quebrar a corrente. olhei pro lado, o mato, capim, estava cortado rente por uns 3 metros além da rodovia. devagarinho (aproveitando o resto do embalo) fui passando pelo capim baixo até a roda encostar no capim mais alto e então eu cair de lado, em cima do capim.... daí deitado desclipei os pés... hehehehe
e claro, cada um que passava parava pra perguntar se tava tudo ok...
foi meu único tombo. e tenho a impressão que foi o único tombo do audax, não vi relato de mais nenhum acidente.
cheguei no primeiro posto de controle em cerca de 2 horas de pedal. o ritmo tava muito bom. ali tomei um copo de suco de laranja, comi uma banana, um pão de queijo, enchi as caramanholas de novo, de água e gatorade, e vi outros colegas que iriam fazer os 100 kms chegando. claro que fiquei provocado:
- bora, gente, vamos fazer o duzentinho!
o benicchio respondeu que iria fazer, achei que era brincadeira, logo saí dali.
dai fui tocando os outros 50 kms. meu companheiro nesse trecho foi o alescio, maior e mais velho que eu. fomos papeando debaixo de um sol forte. fomos tocando. nada forte demais, mas pra fazer no tempo regulamentar. mas puts, as subidas e descidas pioraram, pioraram muuuuuuuuito. fiquei muito alegre ao chegar no pc 100. já tinha alguns da turma lá: pasqualini, rafa rodo, márcio. outros foram chegando.
e a gente falando besteira. uma coisa que agente comentava é que seria bom se o benicchio tivesse fazendo os 200 kms... vi um cara de longe e comentei que parecia muito o beni, o rafa rodo faz um outro comentário e daí percebemos que era sim o benicchio, na sua caloi easy rider com pára-lamas amarelos!
aí a coisa virou bagunça, pois tb chegaram outros que achávamos que fariam só os 100, mas conversaram no PC 1 com a organização e mudaram a inscrição. dentre eles a evelyn, menina guerreira. o JP, o namorado dela, ficara antes ainda do PC 50, pois havia espanado o pedivela. chegou tb o piacitelli, xingando a bike e o peso que tava carregando nela...
acabamos por sair do PC 100 kms em casa-branca apenas 13:50 (10 minutos depois do fechamento do PC e 1:25 depois que eu chegara ali). eu lembro que citei que ia sair logo pra sair antes da chuva, fiz a curva pra sair do posto e começou a chover. primeiro uns pingos mas logo parei pra vestir o corta-vento.
mas que chuva mais f.d.p., ainda por cima com um baita vento contra! os pingos de chuva vinham tão fortes que doiam quando baitam no corpo. alguns passavam pelos furos do capacete e me doíam no couro cabeludo. e a água que vinha da roda dianteira pulava forte. aliás, uma hora me entrou água da roa no nariz!
o vento contra era tão forte que mesmo nas descidas mais longas, pra passar de 35 kms/h tinha que pedalar, e forte. e assim foi, com aquelas subidas assutadoras nas quais subíamos a meros 11 kms/h e tentando tirar as diferenças nas descidas seguintes, que fomos chegando aos poucos no PC 150 kms.
fiquei mais um tempo parado ali. uns do grupo já tinham chegado, outros chegavam aos poucos. tomei uma garrafa de refri, comi uma banana, levei uma maçã no bolso da camisa, saímos em grupo e eu com a missão de alcançar a evelyn que tinha saído uns 15 minutos antes, e seria a dona do par de luvas esquecido ali no pc 150. ela tb tinha esquecido o saco de amendoins.
me desliguei do grupo e fui tocando forte, bem forte, para alcançar a evelyn. soquei a bota mesmo, socando pesado nas subidas e nas descidas me esgoelando com a relação 53x11 (nas subidas baixava pra 39x28). em alguns trechos eu via, ao chegar ao topo de uma subida, ela no topo da subida seguinte.... e assim foi umas 3 ou 4 vezes até que consegu alcançá-la, pra descobir que não precisva correr tanto, as luvas esquecidas não eram dela, e sim de uma outra garota.
bom, aí eu passei a pedalar num ritmo mais lento do que o dos últimos quilômetros. foos papeando, eu a evelyn. um certo tempo depois, fomos alcançados pelo marcelo. mas pra frente, pelo andré pasqualini, silas, márcio... já anoitecia.
era noite fechada já quando passei sobre algo, senti um "clunk" na roda traseira, o barulho do ar saindo e gritei que estava com um pneu furado.
pararam todos ali, pra me ajudar a trocar aquilo no escuro. trocamos rapidinho, talvez rápido demais, e quanto já colocava a roda cheia de ar na bike percebi queuma parte do pneu tinha escapado do aro. toca esvaziar e encher de novo. meus braços já tavam quebrados, osilas gentilmente encheu rapidinho. uma vantagem das speeds são os pneus finos que enchemos rapidamente.
enquanto estávamos parados um apicape parou atrás, era o denis, mega -organizador do audax perguntando se tava tudo bem. estava. e seguimos. e nesse meio termo chegou a patrícia (outra das guerreiras), passa por nós, e quando vai parar a perna dá uma cãibra... acabou dando uma meia volta pegando uma das pistas. nós que olhávamos pra ela só sentíamos a luz que vinha por trás, gritamos, e ela calmamente depois explicou que eraum carro na outra faixa. ela via, nós é que não.
dali seguimos adiante, faltando uns 10 kms pra entrada pra holambra.
o povo foi tocando. o paulo tava mais lento (mtb, pneu mais largo, tinha carregado peso nos 100 kms, sem pedias de encaixe) e eu fui acompanhando-o. ora na frente, puxando um pouco, ora atrás, "empurrando" um pouco. o resto do grupo distanciou-se, já eramquase 20 hs, e o PC final fechava Aàs 20:30. se chegassemos depois, nada de brevet e portanto nada de fazer o 300.... hehehehe
na entrada pra holambra o marcelo nos esperava. fomos os 3, dois de speed e o paulo na mtb. tem mais um trechinho de estrada e então uma subidinha pra entrar na cidade. nessa subidinha provoquei o marcelo a subir sprintando e fomos os dois, que nem dois retardados, pedalando em pé e acelerando subida acima. quando olhamos pra trás, kd o piacitelli?
circulamos pela cidade procurando a prefeitura. o piacitelli tinha entrado numa outra rua e tb tava procurando a prefeitura.
o fato é que chegamos a tempo e, 3 ou 4 minutos depois, o piacitelli, sob salva de palmas, ganhando até uma cerva da organização.
bom, enquanto fiquei conversando ali com o povo da organização o resto do povo foi jantar. como disse a aline: "logo ali". o problema é que o restaurante "logo ali" tava fechado. ficamos eu e o paulo circulando pela cidade até que os achamos, num outro local. eu não tinha como ligar pra ninguém pq meu celular morreu afogado na chuva da tarde.
comemos, falamos besteira, alopramos a aline (aqui um parêntesis: ela pedala pra dedéu, fez 100 kms na correria com um dedo da mão luxado sem reclamar de dor. mas nada como deixar uma brasiliense de sergipe arretada chamado-a de "café-com-leite".... acho que ainda tomo uns cascudos dela... hehehe).
eu só sei que sonhei com bicicletas na noite de sábado. não sei o quê. tenho a impressão de que deitei, sonhei uns 2 minutos e acordei às 10 horas da manhã do domingo....
todo mundo comeu demais no café da manhã e ficou marolando na psicina. eu com marcas estranhas de sol nos braços e pernas. parecia estava manguitos e pernitos, ou no negativo, de camiseta, bermuda e meias brancas.... torrei um pouco no sol pra diminuir as marcas, e então, onde antes ardiam apenas pernas e braços, passou a arder o corpo inteiro. idéia de jerico....
saímos do hotel só às 4 da tarde, ainda pra ir almoçar (almoço "leve": einsbein com chucrute, dividido com o mr. shadow). holambra é uma cidade pra se conhecer. lindinha, pequena. bons restaurantes, docerias e etc. os hotéis e pousadas são baratos.
pois o fato é que só cheguei em casa depois das 11 da noite de domingo. queimado, quebrado e imensamente feliz. pra mim esse audax teve um significado de retomada da vida. em dezembro e começo de janeiro andei muito doente, muito sério mesmo, com direito a natal hospitalar. minha alta definitiva só se deu em 17 de fevereiro e menos de um mês depois já deu pra fazer um brevet.... pois que venham os próximos! que venha o de 300! e vou carregar o piacitelli!
- serviço:
holambra, 140 kms de sp. vale à pena ser visitada mesmo fora da primavera. de bike, dá pra ir num dia de sp e voltar no outro. boa opção prum light cyclotouring. bons restaurantes, pousadas baratas.
audax: maiores informações aqui:
http://www.audaxbrasil.com.br/
http://sprandonnee.blogspot.com/
fotos em breve.
dados do meu pedal:
média horária: 21,6 kms/h
vel. máxima: 65.4 kms/h
total pedalado: 212 kms
tempo efetivo pedalando: 9 hs, 48min.40 s.
pneus furados: 1.
caramanholas de água consumidas durante o pedal: 4
caramanholas de gatorade consumidas durante o pedal: 4
um copo de café com leite no pc 3.
1800 ml de coca cola
600 ml de fanta
duas barras de proteína
6 sachês de carboidrato reduzido
6 bananas
1 pão de queijo
1 salgado
muito amendoim da evelyn
um potinho de sorvete
e claro, mais um X-tudo no prato e algumas cervejas no jantar. e mesmo assim acordei com uma fome danada no dia seguinte. pq será?
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sobre a organização: nota 10. escolheram boas estradas, um local barato pra servir de base, água gelada, frutinhas e gatorade à vontade nos PCs. gostei. meeesmo! parabéns aos organizadores.