Liberdade vs Segurança: nos mudamos para um motorhome


Por Lucas Miguel, do Rota Alternativa

“Liberdade e segurança – Zygmunt Bauman dizia que esses são os dois valores essenciais à uma vida satisfatória e que uma existência digna não se faz possível na ausência de um deles. O grande problema, segundo ele, é que esses dois valores são excludentes entre si. Toda vez que você obtém mais segurança, você entrega um pedaço da sua liberdade. E toda vez que você alcança mais liberdade, você abre mão de uma parte da sua segurança. Não há outra maneira.

Há 4 meses eu e minha namorada, Eve, colocamos em prática um plano que demoramos mais de um ano para amadurecer: nos mudamos para um motorhome. Foi uma mudança extrema em busca de mais liberdade. Mas seria hipócrita da minha parte dizer que levar uma vida de aventura sempre foi minha vontade, já que, assim como a maioria das pessoas, eu passei grande parte da minha vida buscando por segurança. É o curso natural das coisas e é muito difícil se esquivar da influência implacável do sistema. Nossa formação passa por vários estágios, mas o objetivo final é um só: nos fazer consumir. E para consumir nós precisamos de dinheiro, e o que é o dinheiro se não a maior de todas as ‘seguranças’?!

Eve e Lucas | Foto: @rotaalternativarv

Mas em 2017, tentando ganhar um pouco mais de liberdade, eu me mudei para Dublin e no começo dessa nova vida eu realmente me sentia mais livre. Tudo era novidade, as pessoas, os lugares, as sensações. Foi nessa época que conheci a Eve e através de longas conversas fomos descobrindo como eram parecidos nossos anseios e desejos por uma vida mais simples. Percebemos então que aquela empolgação inicial foi se esvaecendo e dando lugar a uma nova rotina, e que a mudança para o exterior não passava de uma busca por ainda mais segurança. Não me entenda errado, nós amávamos Dublin e a cidade pra sempre ficará marcada para nós como um símbolo de mudança, mas algo dentro de nós clamava por uma vida mais simples e sabíamos que não teríamos outra opção além de atender ao insistente chamado. Então, apenas 6 meses após minha chegada em Dublin, nós decidimos que moraríamos em um motor home. Começamos então a guardar dinheiro e a pesquisar muito (mas muito mesmo) e um ano depois era chegada a hora de deixar a Irlanda.

Essa é história de como viemos morar no Rogerinho, nome que carinhosamente demos ao nosso motorhome. O baque inicial foi grande e a primeira coisa que sentimos foi a falta de espaço. O Rogerinho é um modelo menor que a maioria dos campers e sua área interna não passa de 3m², por isso cada centímetro deve ser otimizado. Hábitos considerados básicos, como banho e a ida ao banheiro, ganharam uma nova perspectiva. Só com água fria disponível, nosso banho é de garrafinha com água que fervemos no fogão. O banheiro evitamos ao máximo usar o do motor home porque o cheiro pode se tornar bem desagradável, por isso estamos sempre usando sanitários públicos ou de cafés e restaurantes. Com relação a segurança, nossa estabilidade financeira não existe mais e teremos que nos virar com trabalhos temporários e de freelance. Até mesmo nossa segurança física está mais frágil, afinal apenas alguns centímetros de lataria velha separam a rua de onde dormimos. Tudo isso junto à saudade de Dublin e o medo de ter jogado fora algo tão certo fez dos primeiros dias um desafio. Mas nossa adaptação foi rápida e em pouco tempo começamos a sentir os efeitos da liberdade recém conquistada. Aprendemos a contornar a falta de conforto inicial e agora nos sentimos livres dos hábitos que considerávamos indispensáveis, entendendo que eles, na verdade, não passam de luxos.

“Rogerinho” | Foto: @rotaalternativarv

Já o sentimento de liberdade de viver sobre rodas é praticamente indescritível. Começamos nossa viagem na Holanda e em 4 meses de vida na estrada nós já percorremos 8.432km. Isso dá, em média, 2.108km por mês e 70km por dia. Das 120 noites dormidas no Rogerinho, 72 foram em lugares diferentes. Cidades, vilas, praias, montanhas, florestas, parques, postos de gasolina e beiras de estradas de 9 países nos hospedaram com os mais variados níveis de glamour e segurança. Em alguns nos sentimos completamente em casa, como se estivéssemos dormindo em nosso próprio quintal. Em outros nem tanto e a batida pesada na porta de moradores locais deixaram bem clara a insatisfação com nossa presença. Tiveram também os meios assustadores, no meio do nada, que faziam levantar o cabelo da nuca quando chegávamos e éramos engolidos pela escuridão assim que desligávamos os faróis do carro.

Foto: @rotaalternativarv

Claro, toda essa locomoção tem um preço, literalmente, e nosso gasto com Diesel costuma representar quase metade do orçamento mensal. A comparação é bem magra, mas, por se tratar da maior fatia dessa pizza amarga chamada “despesas”, nós costumamos dizer que o preço do combustível equivale proporcionalmente ao aluguel dentro do orçamento de uma vida comum na cidade. Na média, nosso gasto em mensal com isso é de quase €250. É um preço alto quando se pensa em Diesel, mas um valor muito baixo quando se considera os preços altos dos aluguéis aqui pela Europa. Ainda mais quando a casa em questão possui tantos quintais. E outra, saber que cada nascer do dia traz consigo novos horizontes, pessoas e experiências, não tem preço.

Nós não temos a mínima pretensão de afirmar que encontramos a fórmula para uma vida satisfatória. Até onde sabemos essa jornada pode terminar tão logo quanto na próxima semana. Bauman mesmo já dizia que ninguém nunca encontrou o equilíbrio perfeito entre liberdade e segurança e já alertava para os perigos de uma via muito próxima dos dois extremos. Segundo ele, segurança sem liberdade é escravidão, e liberdade sem segurança é um caos total. Sabemos que ainda vamos errar muito em busca do equilíbrio, mas sabemos também que preferimos errar pelo excesso, e se o excesso nos fizer flertar com algum dos dois extremos então que seja com o caos e nunca a escravidão.

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8 comentários em “Liberdade vs Segurança: nos mudamos para um motorhome”

  1. Parabéns pelo lindo texto, tenho muita vontade de fazer o mesmo, adoro estrada, e penso apenas em ter cia, acho que por ser mulher, sair sozinha é arriscado, mas mesmo assim estou me programando pra ir correr nesse tênue fio entre a segurança e a liberdade, mas querendo mesmo é ter histórias e muito conhecimento pra levar pro resto da vida, obrigada por me dar mais um pouco de coragem.

  2. Olá Lucas.
    Parabéns aos dois pela coragem,em primeiro lugar e também irem em busca do ideal que sonharam. Pode ser que tenham que voltar ao real,mas se eu pudesse faria a mesma coisa.Tudo vale a pena na vida .Só não vale deixar de viver. Beijos

  3. Olá gostei muito de ler o que escreveu. Palavras bem pensadas. Gostaria de que pudesse pesquisar de mente aberta como parece ser o vosso ideal de vida sobre o que é ser verdadeiramente livre e viver em segurança num futuro muito próximo. Muito poderia lhe escrever mas com certeza tirará mais proveito se puder pesquisar por esse e outros assuntos em jw.org.

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