Visitei Morro de São Paulo com minha namorada de 19/02/2014 até 22/02/2014, logo após nossa visita à Chapada Diamantina (relato da chapada aqui). Morro de São Paulo é um dos piores locais para onde viajei, se não o pior. Gosto de contato com a natureza e tranquilidade. Quando viajo, me interesso por conhecer as características naturais do local que estou visitando, conversar com moradores, conhecer a cultura local e ser respeitado como turista. Morro de São Paulo é um daqueles lugares em que o turista é visto como um otário endinheirado que está ali para ser explorado. O lugar está saturado de visitantes e os locais não se preocupam em tratar ninguém com cordialidade, tudo é cobrado (e bem cobrado) e a qualidade dos serviços deixa muito a desejar.
As características naturais do local foram fortemente impactadas pelo turismo predatório. A impressão que se tem é estar caminhando em um shopping center encaixado numa ilha. A primeira sensação que tive quando cheguei na ilha foi uma profunda tristeza por ver um lugar que certamente já foi um paraíso natural e hoje está nas mãos de estrangeiros, voltado para atender ao turismo internacional, aos modismos e a badalação. Não conheço ainda Fernando de Noronha, mas este relato que li no mochileiros está em sintonia com a percepção que tive de Morro de São Paulo:
Saímos de Salvador com destino à Morro a partir do Terminal Marítimo, em frente ao Mercado Modelo. Após uma viagem de cerca de 2,5 horas, estávamos chegando ao nosso destino. Mal o catamarã encostou no cais da ilha, já embarcaram uns caras com o uniforme da "Associação de Informantes de Turismo de Morro de São Paulo". Começaram então a abordar os passageiros, se oferecendo insistentemente para carregar as suas bagagens até as hospedagens, ou ainda ofertando pousadas. Não bastava o cais estar bem cheio com todos os turistas que desembarcavam ou esperavam para embarcar, os tais "informantes" ainda ficavam ali empatando a passagem e perturbando quem acabou de pisar na ilha. Conseguimos atravessar o cais e fomos arrebanhados para uma espécie de bilheria onde fomos obrigados a pagar R$ 15 por pessoa para "ingressar" na ilha, a chamada "Taxa de Preservação Ambiental".
Uma vez paga a taxa, ganhamos o direito de pisar no chão de Morro de São Paulo. Dali até a entrada da nossa pousada foram não sei quantas abordagens dos "informantes de turismo" querendo carregar nossas mochilas. Para piorar, se você diz que não está interessado e agradece, sua educação é a porta aberta para a insistência. Se você simplesmente ignora e segue em frente, ouve insinuações audaciosas como "Ih! Esse aí é surdo!".
Deixamos nossas mochilas na pousada e fomos caminhar pela rua principal, que dá acesso à primeira praia. A rua possui "fino calçamento" onde pisam turistas de várias partes do mundo e, aparentemente, um número menor de brasileiros. São pousadas, lojas de lembranças, lojas de grife, bares e restaurantes, um do lado do outro. Em Morro de São Paulo, também já adquiriram o péssimo hábito de enfiar um cardápio na sua cara enquanto você caminha em frente aos restaurantes e abordam você falando em espanhol, como se essa fosse a lingua nativa do local. De fato, esta parece ser a língua mais falada na ilha, tanto pelos turistas quanto pelos donos de estabelecimentos que, em grande parte, não são brasileiros.
Quando alcançamos a praia, caminhamos por um deck de madeira onde, à direita, se enfileram hotéis e pousadas caríssimas com piscinas de frente para o mar e "varandas lounge, estilo Ibiza". À esquerda, se vê a faixa de areia loteada por restaurantes que ali dispõem suas mesas com velas, tochas, e até lonas para bloquear o vento evitando assim despentear alguma madame que esteja acomodada confortavelmente à beira mar apreciando um espumante. À noite, transitam pelo deck jovens vestidos com roupas caras, preparados para curtir a noite em alguma balada ou apenas exibindo seus modelitos e bronzeado.
No dia seguinte, caminhando pela parte menos turística da cidade, vi pessoas bem humildes, habitando casas muito simples, ladeadas por um córrego de água cinzenta, muito suspeito. Pode ser uma avaliação leviana para quem teve apenas alguns dias para conhecer a ilha, mas a impressão que tive foi que o turismo predatório construiu uma vitrine de cristal para atender os visitantes estrangeiros em um pedaço da ilha, enquanto, do outro lado, os nativos foram relegados à pobreza e à subserviência a este mercado do turismo. O atendimento nos locais é ruim, e o preço cobrado por tudo é alto. Passamos mal com a comida que comemos em um dos restaurantes (a propósito, as moscas infestavam todos os restaurantes reforçando a ideia de que estávamos vivendo em uma fachada bonita para uma realidade bem diferente…).
Fizemos o passeio de barco em volta da ilha. Para embarcar, caminhamos pelas praias hora sendo direcionados para o grupo que ia em determinado barco, hora para outro barco até que todos os "atravessadores de turistas", comandantes e marinheiros chegaram ao consenso de qual seria a embarcação que de fato nos conduziria. Uma das atrações do passeio é a visita à cidade de Cairu. Para desembarcar em Cairu, adivinha? Se paga. Assim que se desembarca, os "guias locais" se apresentam cobrando para te levar para dar uma volta pela cidade e contar a história local. Quer entrar na Igreja/Convento da cidade? Ok, é só pagar também.
Para voltar à Salvador descobrimos que também precisavámos pagar pelo uso do cais. Já havíamos comprado as passagens da volta no terminal marítimo de Salvador, com hora marcada, pela empresa BioTur. Quando chegamos para embarcar, a fila no cais era enorme. Nosso catamarã encheu e tivemos que permanecer na fila, em pé com as bagagens, no sol, esperando uma próxima embarcação. Os catamarãs também não são nenhuma maravilha. Os assentos parecem de ônibus público, bem sujos e duros. Os vidros também são todos sujos, não dá nem pra ver o mar direito. A viagem, principalmente a de volta, é bastante desconfortável. A embarcação sacode bastante e muitos passageiros passaram mal. Um cara estava tão mal que viajou deitado no chão. Pediram pra usar um colchonete que estava no barco mas o comandante não autorizou.
Algo de bom? A ilha tem praias bonitas, em especial as mais afastadas do centrinho da badalação. A água do mar não é tão fria, o que agrada aqueles que se incomodam com isso. A água é bem clara também, principalmente nas piscinas naturais que podem ser visitadas de barco. De qualquer forma, eu ainda acho a Ilha Grande (RJ) e Ilha do Mel (PR) muito mais bonitas, ricas e interessantes. Torço para que, apesar de também já bem sofridas com o turismo predatório, estas e outras ilhas brasileiras não sejam completamente descaracterizadas e vendidas aos estrangeiros como aconteceu com Morro de São Paulo.
[t1]Morro de Tristeza[/t1]
Visitei Morro de São Paulo com minha namorada de 19/02/2014 até 22/02/2014, logo após nossa visita à Chapada Diamantina (relato da chapada aqui). Morro de São Paulo é um dos piores locais para onde viajei, se não o pior. Gosto de contato com a natureza e tranquilidade. Quando viajo, me interesso por conhecer as características naturais do local que estou visitando, conversar com moradores, conhecer a cultura local e ser respeitado como turista. Morro de São Paulo é um daqueles lugares em que o turista é visto como um otário endinheirado que está ali para ser explorado. O lugar está saturado de visitantes e os locais não se preocupam em tratar ninguém com cordialidade, tudo é cobrado (e bem cobrado) e a qualidade dos serviços deixa muito a desejar.
As características naturais do local foram fortemente impactadas pelo turismo predatório. A impressão que se tem é estar caminhando em um shopping center encaixado numa ilha. A primeira sensação que tive quando cheguei na ilha foi uma profunda tristeza por ver um lugar que certamente já foi um paraíso natural e hoje está nas mãos de estrangeiros, voltado para atender ao turismo internacional, aos modismos e a badalação. Não conheço ainda Fernando de Noronha, mas este relato que li no mochileiros está em sintonia com a percepção que tive de Morro de São Paulo:
http://www.mochileiros.com/a-farsa-de-fernando-de-noronha-t22293.html
Saímos de Salvador com destino à Morro a partir do Terminal Marítimo, em frente ao Mercado Modelo. Após uma viagem de cerca de 2,5 horas, estávamos chegando ao nosso destino. Mal o catamarã encostou no cais da ilha, já embarcaram uns caras com o uniforme da "Associação de Informantes de Turismo de Morro de São Paulo". Começaram então a abordar os passageiros, se oferecendo insistentemente para carregar as suas bagagens até as hospedagens, ou ainda ofertando pousadas. Não bastava o cais estar bem cheio com todos os turistas que desembarcavam ou esperavam para embarcar, os tais "informantes" ainda ficavam ali empatando a passagem e perturbando quem acabou de pisar na ilha. Conseguimos atravessar o cais e fomos arrebanhados para uma espécie de bilheria onde fomos obrigados a pagar R$ 15 por pessoa para "ingressar" na ilha, a chamada "Taxa de Preservação Ambiental".
Uma vez paga a taxa, ganhamos o direito de pisar no chão de Morro de São Paulo. Dali até a entrada da nossa pousada foram não sei quantas abordagens dos "informantes de turismo" querendo carregar nossas mochilas. Para piorar, se você diz que não está interessado e agradece, sua educação é a porta aberta para a insistência. Se você simplesmente ignora e segue em frente, ouve insinuações audaciosas como "Ih! Esse aí é surdo!".
Deixamos nossas mochilas na pousada e fomos caminhar pela rua principal, que dá acesso à primeira praia. A rua possui "fino calçamento" onde pisam turistas de várias partes do mundo e, aparentemente, um número menor de brasileiros. São pousadas, lojas de lembranças, lojas de grife, bares e restaurantes, um do lado do outro. Em Morro de São Paulo, também já adquiriram o péssimo hábito de enfiar um cardápio na sua cara enquanto você caminha em frente aos restaurantes e abordam você falando em espanhol, como se essa fosse a lingua nativa do local. De fato, esta parece ser a língua mais falada na ilha, tanto pelos turistas quanto pelos donos de estabelecimentos que, em grande parte, não são brasileiros.
Quando alcançamos a praia, caminhamos por um deck de madeira onde, à direita, se enfileram hotéis e pousadas caríssimas com piscinas de frente para o mar e "varandas lounge, estilo Ibiza". À esquerda, se vê a faixa de areia loteada por restaurantes que ali dispõem suas mesas com velas, tochas, e até lonas para bloquear o vento evitando assim despentear alguma madame que esteja acomodada confortavelmente à beira mar apreciando um espumante. À noite, transitam pelo deck jovens vestidos com roupas caras, preparados para curtir a noite em alguma balada ou apenas exibindo seus modelitos e bronzeado.
No dia seguinte, caminhando pela parte menos turística da cidade, vi pessoas bem humildes, habitando casas muito simples, ladeadas por um córrego de água cinzenta, muito suspeito. Pode ser uma avaliação leviana para quem teve apenas alguns dias para conhecer a ilha, mas a impressão que tive foi que o turismo predatório construiu uma vitrine de cristal para atender os visitantes estrangeiros em um pedaço da ilha, enquanto, do outro lado, os nativos foram relegados à pobreza e à subserviência a este mercado do turismo. O atendimento nos locais é ruim, e o preço cobrado por tudo é alto. Passamos mal com a comida que comemos em um dos restaurantes (a propósito, as moscas infestavam todos os restaurantes reforçando a ideia de que estávamos vivendo em uma fachada bonita para uma realidade bem diferente…).
Fizemos o passeio de barco em volta da ilha. Para embarcar, caminhamos pelas praias hora sendo direcionados para o grupo que ia em determinado barco, hora para outro barco até que todos os "atravessadores de turistas", comandantes e marinheiros chegaram ao consenso de qual seria a embarcação que de fato nos conduziria. Uma das atrações do passeio é a visita à cidade de Cairu. Para desembarcar em Cairu, adivinha? Se paga. Assim que se desembarca, os "guias locais" se apresentam cobrando para te levar para dar uma volta pela cidade e contar a história local. Quer entrar na Igreja/Convento da cidade? Ok, é só pagar também.
Para voltar à Salvador descobrimos que também precisavámos pagar pelo uso do cais. Já havíamos comprado as passagens da volta no terminal marítimo de Salvador, com hora marcada, pela empresa BioTur. Quando chegamos para embarcar, a fila no cais era enorme. Nosso catamarã encheu e tivemos que permanecer na fila, em pé com as bagagens, no sol, esperando uma próxima embarcação. Os catamarãs também não são nenhuma maravilha. Os assentos parecem de ônibus público, bem sujos e duros. Os vidros também são todos sujos, não dá nem pra ver o mar direito. A viagem, principalmente a de volta, é bastante desconfortável. A embarcação sacode bastante e muitos passageiros passaram mal. Um cara estava tão mal que viajou deitado no chão. Pediram pra usar um colchonete que estava no barco mas o comandante não autorizou.
Algo de bom? A ilha tem praias bonitas, em especial as mais afastadas do centrinho da badalação. A água do mar não é tão fria, o que agrada aqueles que se incomodam com isso. A água é bem clara também, principalmente nas piscinas naturais que podem ser visitadas de barco. De qualquer forma, eu ainda acho a Ilha Grande (RJ) e Ilha do Mel (PR) muito mais bonitas, ricas e interessantes. Torço para que, apesar de também já bem sofridas com o turismo predatório, estas e outras ilhas brasileiras não sejam completamente descaracterizadas e vendidas aos estrangeiros como aconteceu com Morro de São Paulo.