Galera, em primeiro lugar quero agradecer a todas as pessoas que contam suas historias de viagens aqui no fórum, todas me ajudaram muito, MUITO OBRIGADO.
Em segundo lugar, quero dizer que esse relato é o meu ponto de vista dos dias em que viajei pela Bolivia e Peru com meu grande amigo Marcelo. Vou tentar ser o mais fiel aos acontecimentos e me desculpe se eu escrever algo que ofenda algum leitor.
Terceiro ponto: Se vc pretende fazer um mochilão por Bolivia e Peru, ou pra qualquer outro lugar do mundo, não pense duas vezes. FAÇA. Viajar é uma experiencia incrível. Espero que meu relato te incentive a isso.
Sem mais delongas, vamos começar a historinha:
Depois de alguns meses imersos em nostalgia, saudade e até uma certa depressão finalmente tomei coragem e contarei nos próximos dias minha primeira experiência mochileira.
Tudo começou em meados de Março de 2013, quando o destino quis que eu e meu companheiro de viagem/primo/brother Marcelo tivéssemos um hiato de 25 dias disponíveis em nossas vidas chatas e burocráticas. Eu recebi um singelo aviso de demissão, e o Marcelo, que na época trabalhava como corretor de imóveis, fechou algumas boas vendas. Tinhamos tempo e dinheiro para viajar.
Nos falamos em uma terça-feira qualquer, nos reunimos na quarta e nesse mesmo dia estávamos de passagens compradas. Iriamos dia 14/04 e retorno para 01/05. Não tínhamos sequer ideia do que iríamos fazer nesse período, o máximo que fizemos foi eleger alguns lugares chave que não poderiam faltar de jeito nenhum, como o Salar de Uyuni, Chacaltaya, Titicaca, Death Road e Macchu Picchu.
Alias, esse é meu primeiro conselho: NÃO SEJA UM TURIS-CHATO COM UMA PLANILHA.
Tenha em mente os lugares que você quer conhecer, quanto quer gastar, etc, mas não se prenda incondicionalmente a isso. Aconteceram alguns imprevistos na nossa trip, o segredo é não se desesperar, muito menos ficar nervoso, e claro, aproveitar para descobrir as coisas boas que os imprevistos podem trazer.
Vamos ao que interessa, vou colocar o que utilizamos de roupas e equipo na viagem, o roteiro que fizemos e aproximadamente o quanto gastamos.
Roupas/Equipo:
1 Mochila cargueira 80l ( Sam’s Club – leve, resistente e barata) – R$ 140,00
1 Mochila Ataque 25l (Doite - comprada por acaso no Lago Titicaca) – R$ 50,00
1 Mochilinha compacta de 20l (comprada na Decathlon) – R$ 25,00
2 Camisetas segunda pele (Decathlon) – aprox. R$ 20,00 cada
1 Calça segunda pele (Decathlon) – aprox. R$ 20,00
1 Par de botas Bull Terrier – aprox. R$ 150,00
1 Frasco de Rinossoro – Muito importante para quem tem problemas nas vias aéreas
Listei acima o que considero mais importante, além disso levei algumas camisetas, shorts, meias, cuecas e etc. Pô, não vai esquecer de levar essas coisas, pelamor.
Roteiro
O roteiro planejado era um pouco diferente, mas nada que tenha comprometido o andamento da trip.
• São Paulo/Santa Cruz de la Sierra (Aéreo)
• S. Cruz/ Oruro (Aéreo)
• Oruro/Uyuni (Bus)
• Uyuni/La Paz (Bus)
• La Paz/Titicaca/Cuzco (Bus)
• Cuzco/Macchu Picchu (Trilha)
• Macchu Picchu/Cuzco (Trem)
• Cuzco/La Paz (Aéreo)
• La Paz/Santa Cruz (Bus)
• S. Cruz/ São Paulo (Aéreo)
1º dia – SP – S. Cruz – 14/04/2013
Excitação, é a melhor palavra para descrever o que eu sentia na manhã do dia 14 de abril, domingo. Após semanas de pesquisa, principalmente aqui no Mochileiros.com, nos reunimos no sábado à noite em nosso QG, a casa do Marcelo. Fizemos e desfizemos as malas pelo menos 3 vezes, tudo conferido, estávamos prontos. Deitamos já era madrugada, mas cadê o sono?
Acordamos, ou melhor, levantamos da cama às 6h, café e partimos pra Guarulhos. Nosso voo estava marcado para as 10h na manhã.
Voo sussa, vazio, com uma comissária muito simpática (sempre que eu referir uma moça como simpática subentende-se que ela era pelo menos bonita).
Chegamos em Santa Cruz as 13h aproximadamente.
Cambiamos 10 US$ no aeroporto ( Troque o mínimo possível em aeroportos, rodoviárias, etc. , de preferencia á casas de cambio de rua, ou então as Cholas que trocam no centro das grandes cidades, qualquer centavo vai fazer a diferença)
Nosso hostel era próximo do Centro de S. Cruz. Tentamos primeiro um Taxi, o usurpador teve a coragem de cobrar 60 bolivianos por pessoa. Nada feito, andamos alguns metros e arranhamos um portunhol com um motorista de ônibus, falamos o endereço e ele nos indicou qual ônibus pegar. Nova tentativa de comunicação e o motorista do ônibus confirmou que passaria naquela rua. Preço do ônibus: 1,50 bolivianos, algo em torno de R$ 0,45.
Combinamos que ele iria nos avisar quando estivéssemos próximo do ponto. Rodamos, rodamos, e nada de aviso. O Marcelo, que fala espanhol melhor do que eu, foi falar com o motorista. Coitado, fez uma cara arrependido, parou o coche com tudo e se desculpou, dizendo que o ponto havia ficado pra atrás a alguns minutos. Sem problema, agradecemos a força e voltamos algumas quadras a pé. Um pequeno parênteses: os Bolivianos são um povo maravilhoso, educados, sempre prontos a ajudar turistas desavisados como nós.
Chegamos no hostel e tivemos nossa primeira experiência cômica.
Novamente o Marcelo foi o porta voz da dupla, se apresentou e mostrou o papel da reserva (essa foi a única situação que reservamos hostel do Brasil, já que era o primeiro dia e estávamos em um lugar completamente desconhecido. Percebemos depois que não era necessário ter feito a reserva, e inclusive perdemos alguns bolivianos por ter feito com antecedência), o dono do hostel de um sorrisinho, e disse que tinha um quarto esperando por nós, detalhe: o quarto tinha uma cama... de casal.
No mínimo o cara entendeu pelos e-mails do Marcelo que eramos um casal gay.
Tentamos trocar, mas de acordo com ele todos os quartos estavam ocupados
( mentiraaaaaa, tinha umas 5 pessoas no hostel, foi sacanagem mesmo, haha).
Saímos para dar uma volta, andamos pela cidade, almoçamos um Pollo Broasted e voltamos.
O hostel não tinha chuveiro quente, mas não era necessário, Santa Cruz é um lugar quente e abafado, tomaria banho gelado de qualquer jeito.
A noite fomos andar por uma avenida próxima do Hostel no intuito de conhecer a cervezza Boliviana. Paramos em uma birosquinha que tocava uma musiva local, misto de eletrônico com música andina, que se dançava feito forró/funk, com as chicas descendo até o chão e sensualizando com a rapaziada. Sentamos e fomos brindar o primeiro gole em terras estrangeiras. Uuuuurgh, a cerveja era ruim, muito estranha, parecia que foi feita com água com gás, lembrei na hora do parque das aguas que eu ia quando criança em Caxambu. O gosto da cerveja pouco importava, tomamos algumas garrafas ( 7 ou 8, não me recordo), e ficamos imaginando o que nos aguardava nas próximas semanas.
2° dia – S. Cruz- Oruro – 15/04/2013
Primeiro imprevisto, esse dia que fiquei puto da vida com a cia área.
Como não tínhamos muito tempo, e as estradas bolivianas são terríveis, resolvemos ir de avião para Potosi, e de lá pegar um ônibus de algumas horas para Uyuni, dessa forma iríamos economizar tempo, e o preço da passagem aérea não estava muito caro, pagamos algo em torno de R$ 150,00.
O voo estava programado para as 9:30h da manhã.
Bem, vocês lembram que dormimos em uma cama de casal certo!?!? Esqueci de mencionar que o quarto era um forno, e fomos obrigados a dormir de cueca, simplesmente um luxo, haha, amigo é pra essas coisas mesmo.
Nessa manhã eu descobri uma faceta de minha pessoa que até então era desconhecida. Eu tenho a habilidade de acordar extremamente cedo, sem a necessidade de um despertador, mesmo tendo ido dormir borracho.
Combinamos de acordar as 6:30, já que o aeroporto era nas redondezas.
O Marcelo era o dono do despertador, e até então ele era o responsável por nos acordar.
Acordei todo atabalhoado, gritando... Maaarcelo, acorda c***, tamo fu***, perdemos a hora. Ele levantou assustado, jogando tudo pra dentro da mochila, se trocando... quando foi ver o celular, a surpresa: 4:45h da manhã. PQP.Imagina um cara nervoso pra c****, o Marcelo devia estar um pouco mais. Dormimos de novo.
Menos de uma hora depois a cena se repete. Todo mundo doido, pega mala, coloca a bota, confere a carteira, olha pro celular: 5:30h. Ouvi um sonoro: FDP, VSF, VTC e outros elogios.
Já estava quase na hora mesmo e acabamos por tomar o café da manha. No dia anterior compramos uns pãezinhos, frios e um bolo em um mercado. Tudo muito barato. Comemos no quarto e saímos.
Fomos para a avenida da noite anterior esperar o bus, nº 13 se não me engano.
O problema é que os ônibus não tem numero, tão pouco o nome do destino na parte da frente, salvo raras exceções. Ficamos um tempão esperando, e nada. No mínimo o ônibus passou despercebido por nós. Enfim, passa o dito cujo, e quase perdemos novamente, saímos gritando pela rua para o motorista parar, já que ele passou pela terceira faixa da esquerda, a milhão. Cara, boliviano é um bicho doido dirigindo, trânsito de maluco.
Chegamos no aeroporto e SURPRESA: Senhores, o voô de vocês foi cancelado. A empresa mandou email notificando que essa linha mudou de horário, ele sai amanha às 7h da manhã.
Opa, pera lá, o voo mudar de horário tudo bem, agora o cara dizer que avisou foi a gota d’agua, respirei fundo, olhei pro cara e disse: Meu amigo, você não mandou email nenhum, estamos conectados desde que saímos do Brasil e não recebemos nada. Não podemos esperar até amanhã, amanha a gente tem que estar em Uyuni, sem negociação.
Ele entrou na salinha e voltou uns 5 minutos depois, disse que realmente não tinha avisado, que sentia muito, e que poderíamos pegar um voo para Oruro naquela manhã, e que de Oruro poderíamos pegar um ônibus para Uyuni, iriamos chegar as 5h da manhã em Uyuni, sem nenhum prejuízo ao nosso itinerário.
Agradecemos o rapaz, que assumiu uma bronca alta por nós, esperamos 2 horas ou até menos, e embarcamos pra Oruro.
Sala de embarque, aguardando a chamada do nosso voo, eis que um senhor puxa assunto, disse que morou em SP, na zona leste, eu logo emendei: deve ser no Brás, é perto da minha casa, tem muito boliviano morando por lá. Quem diria que eu ia encontrar um vizinho boliviano em um saguão de aeroporto em S. Cruz de la Sierra. E o pior é que eu estava certo, ele realmente tinha morado no bairro do Brás, o senhor abriu um sorriso e ficamos conversando. Ele explicou um pouco da historia do país, disse que La Paz não era a capital como a maioria pensava, e sim Sulcre. Disse que o Evo Moralez era um baita presidente, que o país estava progredindo, e etc.
Fim de papo, chegou minha hora de embarcar.
Embarcamos a pé. E não era um avião, era um teco teco mirrado, 14 lugares, isso mesmo senhores, 14 lugares. Eu, no alto de meus 1,74 não conseguia ficar em pé na pequena aeronave.
Enfim, não tinha outra opção.
Primeiro a hélice da direita ligou, mas a hélice da esquerda, justo o lado que eu estava, não queria ligar. Um homem fazia gestos pro comandante, dizendo algo do tipo: Essa porra não quer ligar, aperta os botão ai cabra. E o comandante mexendo em trocentos botões e nada de hélice virando. Cada segundo era uma aflição, já que eu estava me cagando de medo. Um estampido, algumas rotações descompassadas e a bichinha pôs-se a girar em ritmo normal. Hora da decolagem, eu não sou nenhum expert, mas deu pra perceber que o aviãozinho sofreu pra pegar velocidade suficiente pra alçar voo. Estávamos no céu, voando em um mini avião teco-teco, com a hélice suspeita bem do meu lado, sem qualquer tipo de vedação ou coisa do gênero. Cada mudança de direção era sentida no estomago. Pus- me a rezar como vocês vão ver nas fotos abaixo.
O pior ainda estava por vir, ao nos aproximar de Oruro o avião começou a fazer orbita para pousar. Adivinha o lado escolhido pelo comandante para fazer a rota??!?!? Sim senhores, ele fez a curva para o lado esquerdo. Meus sistema digestivo todo veio parar na boca, não passava nem ar pelo meu toba. Eu olhava pro Marcelo do outro lado com uma cara de medo e ele la, tranquilão, ouvindo um som. Eu devo ser muito medroso, não é possível, até uma senhora de idade dormia tranquilamente naquela mini banheira voadora.
Pousamos, e o avião parecia uma passista de escola de samba, requebra pra direita, requebra pra esquerda, levanta, abaixa, frita os pneus.. e finalmente para. Sãos e salvos. Desci do avião e beijei o solo, só eu sei o medo que passei.
Nosso ônibus para Uyuni partiria às 22h, e era por volta de meio dia, fomos á rodoviária pegar as passagens, deixamos a cargueira na empresa de ônibus e fomos dar uma volta. Eu não mencionei, mas Oruro tem uma estatua enoooorme de uma Santa, que eu não me recordo o nome, vimos esse monumento ainda no avião e tivemos a brilhante ideia de ir andando, subir no mirante da estatua e curtir o visual. Saímos da rodoviária, e fomos olhando pra cima, seguindo a silhueta de concreto a nossa frente. Saímos do mainstream da cidade, e embrenhamos pelas ruazinhas aconchegantes de Oruro. Numa dessas ruazinhas paramos em um restaurante e pedimos um almoço. Que delicia, refeição completa, com direito a sopa de entrada e prato principal, pela bagatela de 8 bobs (bobs = bolivianos). Tinha varias opções, entre elas carne de carneiro, frango, carne assada, frita, etc. Somente locais almoçavam ali, era uma típica comida boliviana caseira.
Depois do almoço voltamos a caminhada, o sol estava a pino e as ruas começam a ficar ingrimes. Enfim chegamos ao mirante, não aquele, mas um genérico, tão alto quanto o outro, mas um pouco mais perto, ficamos com medo de não dar para voltar e perder o ônibus e as malas.
Que visual, Oruro é uma cidade em desenvolvimento, pouquíssimos prédios, os que existem são baixos, no max 4 andares. Tinhamos vista para toda a cidade, o aeroporto, e a incrível paisagem ao fundo: A cordilheira se apresentava a nós, infinita, quilômetros e quilômetros distante, escondida entre as nuvens, com seus picos nevados tocando um céu azul celeste, simplesmente lindo. Ficamos ali hipnotizados por quase uma hora, lamentando o fato de não ter nenhum verdinho para potencializar o deslumbre.
Voltamos á rodoviária, jantamos por lá mesmo (comida típica de centro de cidade, um frango frito a milanesa com arroz, fritas e pimenta, o famoso Pollo Broasted), embarcamos rumo ao salar de uyuni, onde finalmente nossa viagem ia começar.
O clima que era quente e seco durante a tarde rapidamente se transformou em frio. Tomamos nosso lugar no ônibus e começa a viagem. O ônibus estava super lotado, com varias pessoas em pé e deitadas no chão. No começo da viagem o ônibus para e entra um homem vendendo uma paradinha natural, tipo esses unha de gato, cogumelo do Sol, e etc, que libera aquilo que ficou preso no estômago do cabra por dias a fio, um desentupidor natural. O cara era bom de lábia e vendeu pra uma galera que estava no bus. Até o Marcelo resolveu comprar um para experimentar, que está guardado no armário de remédios até hoje. Depois que ele saiu de cena fiquei imaginando o modo de vida daquelas pessoas, toda a dificuldade, a humildade de se viver com o mínimo possível, eu estava em um ônibus com pelo menos 50 bolivianos, todos eles tinham os espinhos da vida escancarados no rosto,um semblante duro, sofrido e mesmo assim alguns ainda gastaram algum dinheiro comprando o tal sachê natural do vendedor boa praça. Me senti agradecido por poder viver de uma maneira completamente diferente, uma vida mais amena e prazerosa. Essa foi uma grande lição que eu aprendi. Por mais que passemos por algumas dificuldades, desilusões e privações eu sei que isso não é nada em comparação ao que a maioria das pessoas que vivem em países como a Bolivia passam diariamente, sem a menor perspectiva de melhora. Ponto para o povo boliviano, que apesar de todas as dificuldades sempre se mostrou alegre.
Adormeço após a primeira e única parada.
Abaixo algumas fotos do dia que passamos em Oruro, e uma tirada de dentro do teco-teco.
Galera, em primeiro lugar quero agradecer a todas as pessoas que contam suas historias de viagens aqui no fórum, todas me ajudaram muito, MUITO OBRIGADO.
Em segundo lugar, quero dizer que esse relato é o meu ponto de vista dos dias em que viajei pela Bolivia e Peru com meu grande amigo Marcelo. Vou tentar ser o mais fiel aos acontecimentos e me desculpe se eu escrever algo que ofenda algum leitor.
Terceiro ponto: Se vc pretende fazer um mochilão por Bolivia e Peru, ou pra qualquer outro lugar do mundo, não pense duas vezes. FAÇA. Viajar é uma experiencia incrível. Espero que meu relato te incentive a isso.
Sem mais delongas, vamos começar a historinha:
Depois de alguns meses imersos em nostalgia, saudade e até uma certa depressão finalmente tomei coragem e contarei nos próximos dias minha primeira experiência mochileira.
Tudo começou em meados de Março de 2013, quando o destino quis que eu e meu companheiro de viagem/primo/brother Marcelo tivéssemos um hiato de 25 dias disponíveis em nossas vidas chatas e burocráticas. Eu recebi um singelo aviso de demissão, e o Marcelo, que na época trabalhava como corretor de imóveis, fechou algumas boas vendas. Tinhamos tempo e dinheiro para viajar.
Nos falamos em uma terça-feira qualquer, nos reunimos na quarta e nesse mesmo dia estávamos de passagens compradas. Iriamos dia 14/04 e retorno para 01/05. Não tínhamos sequer ideia do que iríamos fazer nesse período, o máximo que fizemos foi eleger alguns lugares chave que não poderiam faltar de jeito nenhum, como o Salar de Uyuni, Chacaltaya, Titicaca, Death Road e Macchu Picchu.
Alias, esse é meu primeiro conselho: NÃO SEJA UM TURIS-CHATO COM UMA PLANILHA.
Tenha em mente os lugares que você quer conhecer, quanto quer gastar, etc, mas não se prenda incondicionalmente a isso. Aconteceram alguns imprevistos na nossa trip, o segredo é não se desesperar, muito menos ficar nervoso, e claro, aproveitar para descobrir as coisas boas que os imprevistos podem trazer.
Vamos ao que interessa, vou colocar o que utilizamos de roupas e equipo na viagem, o roteiro que fizemos e aproximadamente o quanto gastamos.
Roupas/Equipo:
1 Mochila cargueira 80l ( Sam’s Club – leve, resistente e barata) – R$ 140,00
1 Mochila Ataque 25l (Doite - comprada por acaso no Lago Titicaca) – R$ 50,00
1 Mochilinha compacta de 20l (comprada na Decathlon) – R$ 25,00
1 Agasalho corta-vento (Triboard - Decathlon) – aprox. R$ 110,00
2 Camisetas segunda pele (Decathlon) – aprox. R$ 20,00 cada
1 Calça segunda pele (Decathlon) – aprox. R$ 20,00
1 Par de botas Bull Terrier – aprox. R$ 150,00
1 Frasco de Rinossoro – Muito importante para quem tem problemas nas vias aéreas
Listei acima o que considero mais importante, além disso levei algumas camisetas, shorts, meias, cuecas e etc. Pô, não vai esquecer de levar essas coisas, pelamor.
Roteiro
O roteiro planejado era um pouco diferente, mas nada que tenha comprometido o andamento da trip.
• São Paulo/Santa Cruz de la Sierra (Aéreo)
• S. Cruz/ Oruro (Aéreo)
• Oruro/Uyuni (Bus)
• Uyuni/La Paz (Bus)
• La Paz/Titicaca/Cuzco (Bus)
• Cuzco/Macchu Picchu (Trilha)
• Macchu Picchu/Cuzco (Trem)
• Cuzco/La Paz (Aéreo)
• La Paz/Santa Cruz (Bus)
• S. Cruz/ São Paulo (Aéreo)
1º dia – SP – S. Cruz – 14/04/2013
Excitação, é a melhor palavra para descrever o que eu sentia na manhã do dia 14 de abril, domingo. Após semanas de pesquisa, principalmente aqui no Mochileiros.com, nos reunimos no sábado à noite em nosso QG, a casa do Marcelo. Fizemos e desfizemos as malas pelo menos 3 vezes, tudo conferido, estávamos prontos. Deitamos já era madrugada, mas cadê o sono?
Acordamos, ou melhor, levantamos da cama às 6h, café e partimos pra Guarulhos. Nosso voo estava marcado para as 10h na manhã.
Voo sussa, vazio, com uma comissária muito simpática (sempre que eu referir uma moça como simpática subentende-se que ela era pelo menos bonita).
Chegamos em Santa Cruz as 13h aproximadamente.
Cambiamos 10 US$ no aeroporto ( Troque o mínimo possível em aeroportos, rodoviárias, etc. , de preferencia á casas de cambio de rua, ou então as Cholas que trocam no centro das grandes cidades, qualquer centavo vai fazer a diferença)
Nosso hostel era próximo do Centro de S. Cruz. Tentamos primeiro um Taxi, o usurpador teve a coragem de cobrar 60 bolivianos por pessoa. Nada feito, andamos alguns metros e arranhamos um portunhol com um motorista de ônibus, falamos o endereço e ele nos indicou qual ônibus pegar. Nova tentativa de comunicação e o motorista do ônibus confirmou que passaria naquela rua. Preço do ônibus: 1,50 bolivianos, algo em torno de R$ 0,45.
Combinamos que ele iria nos avisar quando estivéssemos próximo do ponto. Rodamos, rodamos, e nada de aviso. O Marcelo, que fala espanhol melhor do que eu, foi falar com o motorista. Coitado, fez uma cara arrependido, parou o coche com tudo e se desculpou, dizendo que o ponto havia ficado pra atrás a alguns minutos. Sem problema, agradecemos a força e voltamos algumas quadras a pé. Um pequeno parênteses: os Bolivianos são um povo maravilhoso, educados, sempre prontos a ajudar turistas desavisados como nós.
Chegamos no hostel e tivemos nossa primeira experiência cômica.
Novamente o Marcelo foi o porta voz da dupla, se apresentou e mostrou o papel da reserva (essa foi a única situação que reservamos hostel do Brasil, já que era o primeiro dia e estávamos em um lugar completamente desconhecido. Percebemos depois que não era necessário ter feito a reserva, e inclusive perdemos alguns bolivianos por ter feito com antecedência), o dono do hostel de um sorrisinho, e disse que tinha um quarto esperando por nós, detalhe: o quarto tinha uma cama... de casal.
No mínimo o cara entendeu pelos e-mails do Marcelo que eramos um casal gay.
Tentamos trocar, mas de acordo com ele todos os quartos estavam ocupados
( mentiraaaaaa, tinha umas 5 pessoas no hostel, foi sacanagem mesmo, haha).
Saímos para dar uma volta, andamos pela cidade, almoçamos um Pollo Broasted e voltamos.
O hostel não tinha chuveiro quente, mas não era necessário, Santa Cruz é um lugar quente e abafado, tomaria banho gelado de qualquer jeito.
A noite fomos andar por uma avenida próxima do Hostel no intuito de conhecer a cervezza Boliviana. Paramos em uma birosquinha que tocava uma musiva local, misto de eletrônico com música andina, que se dançava feito forró/funk, com as chicas descendo até o chão e sensualizando com a rapaziada. Sentamos e fomos brindar o primeiro gole em terras estrangeiras. Uuuuurgh, a cerveja era ruim, muito estranha, parecia que foi feita com água com gás, lembrei na hora do parque das aguas que eu ia quando criança em Caxambu. O gosto da cerveja pouco importava, tomamos algumas garrafas ( 7 ou 8, não me recordo), e ficamos imaginando o que nos aguardava nas próximas semanas.
2° dia – S. Cruz- Oruro – 15/04/2013
Primeiro imprevisto, esse dia que fiquei puto da vida com a cia área.
Como não tínhamos muito tempo, e as estradas bolivianas são terríveis, resolvemos ir de avião para Potosi, e de lá pegar um ônibus de algumas horas para Uyuni, dessa forma iríamos economizar tempo, e o preço da passagem aérea não estava muito caro, pagamos algo em torno de R$ 150,00.
O voo estava programado para as 9:30h da manhã.
Bem, vocês lembram que dormimos em uma cama de casal certo!?!? Esqueci de mencionar que o quarto era um forno, e fomos obrigados a dormir de cueca, simplesmente um luxo, haha, amigo é pra essas coisas mesmo.
Nessa manhã eu descobri uma faceta de minha pessoa que até então era desconhecida. Eu tenho a habilidade de acordar extremamente cedo, sem a necessidade de um despertador, mesmo tendo ido dormir borracho.
Combinamos de acordar as 6:30, já que o aeroporto era nas redondezas.
O Marcelo era o dono do despertador, e até então ele era o responsável por nos acordar.
Acordei todo atabalhoado, gritando... Maaarcelo, acorda c***, tamo fu***, perdemos a hora. Ele levantou assustado, jogando tudo pra dentro da mochila, se trocando... quando foi ver o celular, a surpresa: 4:45h da manhã. PQP.Imagina um cara nervoso pra c****, o Marcelo devia estar um pouco mais. Dormimos de novo.
Menos de uma hora depois a cena se repete. Todo mundo doido, pega mala, coloca a bota, confere a carteira, olha pro celular: 5:30h. Ouvi um sonoro: FDP, VSF, VTC e outros elogios.
Já estava quase na hora mesmo e acabamos por tomar o café da manha. No dia anterior compramos uns pãezinhos, frios e um bolo em um mercado. Tudo muito barato. Comemos no quarto e saímos.
Fomos para a avenida da noite anterior esperar o bus, nº 13 se não me engano.
O problema é que os ônibus não tem numero, tão pouco o nome do destino na parte da frente, salvo raras exceções. Ficamos um tempão esperando, e nada. No mínimo o ônibus passou despercebido por nós. Enfim, passa o dito cujo, e quase perdemos novamente, saímos gritando pela rua para o motorista parar, já que ele passou pela terceira faixa da esquerda, a milhão. Cara, boliviano é um bicho doido dirigindo, trânsito de maluco.
Chegamos no aeroporto e SURPRESA: Senhores, o voô de vocês foi cancelado. A empresa mandou email notificando que essa linha mudou de horário, ele sai amanha às 7h da manhã.
Opa, pera lá, o voo mudar de horário tudo bem, agora o cara dizer que avisou foi a gota d’agua, respirei fundo, olhei pro cara e disse: Meu amigo, você não mandou email nenhum, estamos conectados desde que saímos do Brasil e não recebemos nada. Não podemos esperar até amanhã, amanha a gente tem que estar em Uyuni, sem negociação.
Ele entrou na salinha e voltou uns 5 minutos depois, disse que realmente não tinha avisado, que sentia muito, e que poderíamos pegar um voo para Oruro naquela manhã, e que de Oruro poderíamos pegar um ônibus para Uyuni, iriamos chegar as 5h da manhã em Uyuni, sem nenhum prejuízo ao nosso itinerário.
Agradecemos o rapaz, que assumiu uma bronca alta por nós, esperamos 2 horas ou até menos, e embarcamos pra Oruro.
Sala de embarque, aguardando a chamada do nosso voo, eis que um senhor puxa assunto, disse que morou em SP, na zona leste, eu logo emendei: deve ser no Brás, é perto da minha casa, tem muito boliviano morando por lá. Quem diria que eu ia encontrar um vizinho boliviano em um saguão de aeroporto em S. Cruz de la Sierra. E o pior é que eu estava certo, ele realmente tinha morado no bairro do Brás, o senhor abriu um sorriso e ficamos conversando. Ele explicou um pouco da historia do país, disse que La Paz não era a capital como a maioria pensava, e sim Sulcre. Disse que o Evo Moralez era um baita presidente, que o país estava progredindo, e etc.
Fim de papo, chegou minha hora de embarcar.
Embarcamos a pé. E não era um avião, era um teco teco mirrado, 14 lugares, isso mesmo senhores, 14 lugares. Eu, no alto de meus 1,74 não conseguia ficar em pé na pequena aeronave.
Enfim, não tinha outra opção.
Primeiro a hélice da direita ligou, mas a hélice da esquerda, justo o lado que eu estava, não queria ligar. Um homem fazia gestos pro comandante, dizendo algo do tipo: Essa porra não quer ligar, aperta os botão ai cabra. E o comandante mexendo em trocentos botões e nada de hélice virando. Cada segundo era uma aflição, já que eu estava me cagando de medo. Um estampido, algumas rotações descompassadas e a bichinha pôs-se a girar em ritmo normal. Hora da decolagem, eu não sou nenhum expert, mas deu pra perceber que o aviãozinho sofreu pra pegar velocidade suficiente pra alçar voo. Estávamos no céu, voando em um mini avião teco-teco, com a hélice suspeita bem do meu lado, sem qualquer tipo de vedação ou coisa do gênero. Cada mudança de direção era sentida no estomago. Pus- me a rezar como vocês vão ver nas fotos abaixo.
O pior ainda estava por vir, ao nos aproximar de Oruro o avião começou a fazer orbita para pousar. Adivinha o lado escolhido pelo comandante para fazer a rota??!?!? Sim senhores, ele fez a curva para o lado esquerdo. Meus sistema digestivo todo veio parar na boca, não passava nem ar pelo meu toba. Eu olhava pro Marcelo do outro lado com uma cara de medo e ele la, tranquilão, ouvindo um som. Eu devo ser muito medroso, não é possível, até uma senhora de idade dormia tranquilamente naquela mini banheira voadora.
Pousamos, e o avião parecia uma passista de escola de samba, requebra pra direita, requebra pra esquerda, levanta, abaixa, frita os pneus.. e finalmente para. Sãos e salvos. Desci do avião e beijei o solo, só eu sei o medo que passei.
Nosso ônibus para Uyuni partiria às 22h, e era por volta de meio dia, fomos á rodoviária pegar as passagens, deixamos a cargueira na empresa de ônibus e fomos dar uma volta. Eu não mencionei, mas Oruro tem uma estatua enoooorme de uma Santa, que eu não me recordo o nome, vimos esse monumento ainda no avião e tivemos a brilhante ideia de ir andando, subir no mirante da estatua e curtir o visual. Saímos da rodoviária, e fomos olhando pra cima, seguindo a silhueta de concreto a nossa frente. Saímos do mainstream da cidade, e embrenhamos pelas ruazinhas aconchegantes de Oruro. Numa dessas ruazinhas paramos em um restaurante e pedimos um almoço. Que delicia, refeição completa, com direito a sopa de entrada e prato principal, pela bagatela de 8 bobs (bobs = bolivianos). Tinha varias opções, entre elas carne de carneiro, frango, carne assada, frita, etc. Somente locais almoçavam ali, era uma típica comida boliviana caseira.
Depois do almoço voltamos a caminhada, o sol estava a pino e as ruas começam a ficar ingrimes. Enfim chegamos ao mirante, não aquele, mas um genérico, tão alto quanto o outro, mas um pouco mais perto, ficamos com medo de não dar para voltar e perder o ônibus e as malas.
Que visual, Oruro é uma cidade em desenvolvimento, pouquíssimos prédios, os que existem são baixos, no max 4 andares. Tinhamos vista para toda a cidade, o aeroporto, e a incrível paisagem ao fundo: A cordilheira se apresentava a nós, infinita, quilômetros e quilômetros distante, escondida entre as nuvens, com seus picos nevados tocando um céu azul celeste, simplesmente lindo. Ficamos ali hipnotizados por quase uma hora, lamentando o fato de não ter nenhum verdinho para potencializar o deslumbre.
Voltamos á rodoviária, jantamos por lá mesmo (comida típica de centro de cidade, um frango frito a milanesa com arroz, fritas e pimenta, o famoso Pollo Broasted), embarcamos rumo ao salar de uyuni, onde finalmente nossa viagem ia começar.
O clima que era quente e seco durante a tarde rapidamente se transformou em frio. Tomamos nosso lugar no ônibus e começa a viagem. O ônibus estava super lotado, com varias pessoas em pé e deitadas no chão. No começo da viagem o ônibus para e entra um homem vendendo uma paradinha natural, tipo esses unha de gato, cogumelo do Sol, e etc, que libera aquilo que ficou preso no estômago do cabra por dias a fio, um desentupidor natural. O cara era bom de lábia e vendeu pra uma galera que estava no bus. Até o Marcelo resolveu comprar um para experimentar, que está guardado no armário de remédios até hoje. Depois que ele saiu de cena fiquei imaginando o modo de vida daquelas pessoas, toda a dificuldade, a humildade de se viver com o mínimo possível, eu estava em um ônibus com pelo menos 50 bolivianos, todos eles tinham os espinhos da vida escancarados no rosto,um semblante duro, sofrido e mesmo assim alguns ainda gastaram algum dinheiro comprando o tal sachê natural do vendedor boa praça. Me senti agradecido por poder viver de uma maneira completamente diferente, uma vida mais amena e prazerosa. Essa foi uma grande lição que eu aprendi. Por mais que passemos por algumas dificuldades, desilusões e privações eu sei que isso não é nada em comparação ao que a maioria das pessoas que vivem em países como a Bolivia passam diariamente, sem a menor perspectiva de melhora. Ponto para o povo boliviano, que apesar de todas as dificuldades sempre se mostrou alegre.
Adormeço após a primeira e única parada.
Abaixo algumas fotos do dia que passamos em Oruro, e uma tirada de dentro do teco-teco.