Postado Abril 5, 2006 19 anos Membros SUSTO E CA(N)GAÇO PELAS ESTRADAS DO SERTÃO Recorrente no romanceiro popular nordestino, o cangaceiro carrega a aura mística e anárquica necessarias p/ romantizar qualquer "bom-ladrão" q se preze. Na vida real, o cangaço terminou há quase um século, em tese. Contudo, viajar pelas estradas q rasgam o sertão e caatinga nordestinas - principalmente na área do "Poligono da Maconha" - pode revelar-se bem + arriscado e emocionante se levarmos em consideração q esta paupérrima região do nosso país ainda continua sendo terra de ninguém e q este velho personagem nordestino continua + presente do q nunca, porem com nova roupagem. Deixei a simpática São Raimundo Nonato ("a cidade q tem + urubu que pardais", segundo um amigo) no primeiro dia do ano, por volta das 20hrs, com destino à Teresina. Estava um caco de podre, físicamente falando. A maratona dos dias anteriores rodando a Serra da Capivara, Confusões e o animado reveillon fizeram c/ q dormisse aquele inicio de noite, q iria se revelar mais longa e imprevisivel q o desejado. Ouvira falar superficialmente do tal "Polígono da Maconha", ampla área do vale do Velho Chico, na divisa de Pernambuco e Bahia, cujas estradas sao consideradas as mais perigosas do pais. Tanto q no mapa rodoviario 4 Rodas trechos como Cabrobó-Petrolina e Afrânio-Picos consta tacitamente como apresentando "alto indice de assaltos". Boatos de q onibus noturnos so transitavam em comboio apenas reforçavam a péssima fama local. Verdade ou não, o fato é q chegara em São Raimundo sem nenhum entrave desta natureza e agora viajava pela BR-324 p/ depois tomar a Transpiauí (PI-140), já no limite oeste do Poligono. Portanto, aparentemente sem razão alguma p/ maiores preocupações. Dormia confortavelmente qdo subitamente o ônibus parou e um certo burburinho tomou conta do corredor. Ouvi alguém comentar q gente parada no meio da estrada obrigara o motorista a parar. Estávamos nalgum trecho entre Tamboril do Piauí e Recanto do Buriti, isto, é no meio do nada e lugar nenhum. Ainda sonolento, naquele estado entre o sono e a vigília, vejo homens entrando com fuzis e revólveres em punho, e não eram policiais. "Puta m...! Fudeu!", pensei. Com a real possibilidade de minha trip se encerrar prematuramente ali acordei rapidinho, lógico! Instintivamente, peguei meu cartão e dinheiro vivo q levava e enfiei no meio do banco, c/ discrição. A maquina fotográfica coloquei embaixo da poltrona, enqto deixei uma pequena "caixinha" na minha pochete caso precisasse. Seja o q Deus quiser agora.. Nervosa, uma senhora começou a chorar em silencio. Do fundao, outro passageiro pede encarecidamente p/ não molestar ou machucar ninguém, na tentativa de amenizar o clima de tensão q tomou conta dentro do busao. O casal à minha frente resmungava algo enqto os jagunços ordenam p/ ninguém levantar dos assentos e p/ entregar celulares. Estavam sem mascara e de rosto limpo e pela fisionomia deviam ser da região ou arredores. Baixos e atarracados, pareciam ser jovens beirando a meia-idade. A ação foi rápida mas pareceu durar uma eternidade. Enquanto 2 nos revistavam, um tomava conta na porta e outro aguardava num veiculo, na frente do busao e com motor ligado. "Passa grana, passa grana!", ordenavam, avançando pelo corredor e revistando freneticamente carteiras, bolsas ou simplesmente apanhavam relógios ou jóias à esmo e enfiavam nos bolsos. Tive a leve impressão q buscavam algo (ou alguém) especificamente e, não encontrando, tentavam compensar de alguma maneira. Notei tb q o tratamento era discriminado; gringos e pessoas + bem-vestidas eram as q tinham boa parte de seus pertences arrancados. Não era meu caso: barba por fazer, pele tostada, sem banho a 2 dias, cabelo desgrenhado, chinelao, trajando bermuda e camiseta surradas, enfim, o protótipo do bicho-grilo-riponga sem um puto no bolso, conforme já havia sido confundido noutras ocasiões. No entanto, isso não impediu q tb me borrasse e sentisse um medao danado. Minha garganta secou qdo um deles passou por mim, parou, me olhou dos pés à cabeça e seguiu corredor adentro. Ufaaa! Minha aparência desta vez serviu (+ uma vez!) p/ alguma coisa. Devo ter sido considerado "indigno" de ser assaltado. Ainda bem. Mesma sorte não teve o senhor do meu lado, q ficou sem sua rechonchuda capanga. Em seguida, desceram e parece q reviraram o bagageiro às pressas. E assim, tão rapidamente quanto surgiram, nos largaram ali p/ se perderem na escuridão da caatinga, estrada adentro. Demorou um tanto p/ ficha cair p/ todo mundo, mas logo o motorista tomou a dianteira perguntando se estava td mundo bem. Com o celular de um passageiro (q estava bem guardado dentro da bagagem) ligou p/ policia mais próxima, q tardou meia hora em chegar. Nesse tempo, cada um avaliava seu preju, amaldiçoava os larápios ou ameaçava de processo a empresa de ônibus. Pra minha felicidade, minha surrada e modesta mochila ainda estava no bagageiro! Graças a Deus! Com outro passageiro tomei conhecimento da situação q ali impera. A região do Rio São Francisco oferece condições perfeitas p/ o plantio da maconha, q abastece boa parte dos traficantes das gdes cidades do país. A seca e a pobreza faz com q gente "de bem" aceite dinheiro de traficantes p/ plantar a droga. Consequentemente, circulam muitas armas e os assaltos a carros e ônibus - interestaduais e municipais - são justamente p/ financiar as lavouras. E comuns. Qdo a precária viatura chegou, tivemos q acompanha-la p/ cidadezinha mais próxima (q nem me recordo o nome) q mais parecia um vilarejo, onde por mais uma hora permanecemos registrando BO. Ate aquela altura td mundo tava cansado e so queria continuar viagem. A noite do sertão estava terrivelmente estrelada e quente, contrastando com o frio glacial do ar condicionado do busao. Depois de toda a burocracia no DP, o busao continuou sua viagem, desta vez mais leve. Alem do q foi subtraído, alguns passageiros ficaram por lá na esperança (!?) da policia reaver seus pertences ou por não ter condições de prosseguir. Paciência.. Ainda não recobrados do ocorrido, creio q ninguem conseguiu dormir depois, embora o busao seguisse seu trajeto num silencio sepulcral. Com todos esses percalços, ainda assim chegamos na capital piauiense no horario previsto, quase 5 da madruga, onde tive q aguardar um tempao ate abrir o guichê e garantir passagem p/ Piripiri, afim de ir p/ PN 7 Cidades. A rodoviária em si é muito suja e feia, mas ainda assim consegui me aninhar num banco e cochilar p/ repôr o sono e cansaço daquela noite pitoresca. Enqto isso, a policia dos municípios no entorno do Polígono tem atuado em conjunto p/ coibir a ação desses grupos especializados, com relativo sucesso. Mas não é suficiente. Prender os criminosos não ataca a raiz do problema, uma vez q a pobreza generalizada da região oferece permanentemente mão-de-obra p/ estes traficantes, q simplesmente ampliam mais o seu raio de ação dando seqüência a este circulo vicioso. E se o cangaço dos tempos de Corisco & Lampião sucumbiu c/ a chegada das estradas no sertão, é por ironia do destino q justamente delas hoje sobrevivam estes "neo-cangaceiros". Um problema social calcado num eufemismo q não tem nada de romântico.
Postado Abril 5, 2006 19 anos Autor Membros Quando era ainda criança, viajando de carro com meus pais, nos perdemos e fomos parar no meio do polígono, pertinho de Cabrobró. Lembro que chegamos num trecho em que meu pai perguntou a uns senhores qual o melhor trecho pra seguir a viagem e eles recomendaram que atravessassemos de balsa e pegássemos uma outra estrada que tornaria o percurso maior em mais de 1 hora. Perguntávamos porquê e eles desconversavam, mas diziam que realmente deveríamos fazer isso. Aí é que caiu a ficha do meu pai e fomos pelo tal caminho mais longo e deu tudo certo.
Postado Julho 11, 2006 19 anos Membros Olá Jorge, também passamos por experiência parecida nesse mesmo trecho de nossa viagem (SR Nonato a Teresina), acordamos durante a madrugada com homens armados revisando nossas bagagens, felizmente eram policiais civis do Piauí, estavam a procura de bandidos e drogas. Em todo o Nordeste existe o perigo de assaltos e não acredito na justificativa da pobreza, nada justifica cometer crimes. A pobreza dessa região só existe pela falta de visão pois em cada canto que se olha é possível ver oportunidades em negócios de turismo, agricultura ou pecuária, e esses negócios não necessitam de grandes investimentos, basta ter vontade e disposição de trabalhar. Os políticos deveriam parar com esses "programas" de renda mínima que dão dinheiro a troco de nada e investir em capacitação para as pessoas terem seus pequenos negócios e não precisarem de esmolas do governo ou de roubar, traficar e matar para sobreviver, e assim viver com dignidade. um abraço,
SUSTO E CA(N)GAÇO PELAS ESTRADAS DO SERTÃO
Recorrente no romanceiro popular nordestino, o cangaceiro carrega a aura
mística e anárquica necessarias p/ romantizar qualquer "bom-ladrão" q se
preze. Na vida real, o cangaço terminou há quase um século, em tese.
Contudo, viajar pelas estradas q rasgam o sertão e caatinga nordestinas -
principalmente na área do "Poligono da Maconha" - pode revelar-se bem +
arriscado e emocionante se levarmos em consideração q esta paupérrima região
do nosso país ainda continua sendo terra de ninguém e q este velho
personagem nordestino continua + presente do q nunca, porem com nova
roupagem.
Deixei a simpática São Raimundo Nonato ("a cidade q tem + urubu que
pardais", segundo um amigo) no primeiro dia do ano, por volta das 20hrs, com
destino à Teresina. Estava um caco de podre, físicamente falando. A maratona
dos dias anteriores rodando a Serra da Capivara, Confusões e o animado
reveillon fizeram c/ q dormisse aquele inicio de noite, q iria se revelar
mais longa e imprevisivel q o desejado. Ouvira falar superficialmente do tal
"Polígono da Maconha", ampla área do vale do Velho Chico, na divisa de
Pernambuco e Bahia, cujas estradas sao consideradas as mais perigosas do
pais. Tanto q no mapa rodoviario 4 Rodas trechos como Cabrobó-Petrolina e
Afrânio-Picos consta tacitamente como apresentando "alto indice de
assaltos". Boatos de q onibus noturnos so transitavam em comboio apenas
reforçavam a péssima fama local. Verdade ou não, o fato é q chegara em São
Raimundo sem nenhum entrave desta natureza e agora viajava pela BR-324 p/
depois tomar a Transpiauí (PI-140), já no limite oeste do Poligono.
Portanto, aparentemente sem razão alguma p/ maiores preocupações.
Dormia confortavelmente qdo subitamente o ônibus parou e um certo burburinho
tomou conta do corredor. Ouvi alguém comentar q gente parada no meio da
estrada obrigara o motorista a parar. Estávamos nalgum trecho entre Tamboril
do Piauí e Recanto do Buriti, isto, é no meio do nada e lugar nenhum. Ainda
sonolento, naquele estado entre o sono e a vigília, vejo homens entrando com
fuzis e revólveres em punho, e não eram policiais. "Puta m...! Fudeu!",
pensei. Com a real possibilidade de minha trip se encerrar prematuramente
ali acordei rapidinho, lógico! Instintivamente, peguei meu cartão e dinheiro
vivo q levava e enfiei no meio do banco, c/ discrição. A maquina fotográfica
coloquei embaixo da poltrona, enqto deixei uma pequena "caixinha" na minha
pochete caso precisasse. Seja o q Deus quiser agora..
Nervosa, uma senhora começou a chorar em silencio. Do fundao, outro
passageiro pede encarecidamente p/ não molestar ou machucar ninguém, na
tentativa de amenizar o clima de tensão q tomou conta dentro do busao. O
casal à minha frente resmungava algo enqto os jagunços ordenam p/ ninguém
levantar dos assentos e p/ entregar celulares. Estavam sem mascara e de
rosto limpo e pela fisionomia deviam ser da região ou arredores. Baixos e
atarracados, pareciam ser jovens beirando a meia-idade.
A ação foi rápida mas pareceu durar uma eternidade. Enquanto 2 nos
revistavam, um tomava conta na porta e outro aguardava num veiculo, na
frente do busao e com motor ligado. "Passa grana, passa grana!", ordenavam,
avançando pelo corredor e revistando freneticamente carteiras, bolsas ou
simplesmente apanhavam relógios ou jóias à esmo e enfiavam nos bolsos. Tive
a leve impressão q buscavam algo (ou alguém) especificamente e, não
encontrando, tentavam compensar de alguma maneira.
Notei tb q o tratamento era discriminado; gringos e pessoas + bem-vestidas
eram as q tinham boa parte de seus pertences arrancados. Não era meu caso:
barba por fazer, pele tostada, sem banho a 2 dias, cabelo desgrenhado,
chinelao, trajando bermuda e camiseta surradas, enfim, o protótipo do
bicho-grilo-riponga sem um puto no bolso, conforme já havia sido confundido
noutras ocasiões. No entanto, isso não impediu q tb me borrasse e sentisse
um medao danado. Minha garganta secou qdo um deles passou por mim, parou, me
olhou dos pés à cabeça e seguiu corredor adentro. Ufaaa! Minha aparência
desta vez serviu (+ uma vez!) p/ alguma coisa. Devo ter sido considerado
"indigno" de ser assaltado. Ainda bem. Mesma sorte não teve o senhor do meu
lado, q ficou sem sua rechonchuda capanga. Em seguida, desceram e parece q
reviraram o bagageiro às pressas. E assim, tão rapidamente quanto surgiram,
nos largaram ali p/ se perderem na escuridão da caatinga, estrada adentro.
Demorou um tanto p/ ficha cair p/ todo mundo, mas logo o motorista tomou a
dianteira perguntando se estava td mundo bem. Com o celular de um passageiro
(q estava bem guardado dentro da bagagem) ligou p/ policia mais próxima, q
tardou meia hora em chegar. Nesse tempo, cada um avaliava seu preju,
amaldiçoava os larápios ou ameaçava de processo a empresa de ônibus. Pra
minha felicidade, minha surrada e modesta mochila ainda estava no bagageiro!
Graças a Deus! Com outro passageiro tomei conhecimento da situação q ali
impera. A região do Rio São Francisco oferece condições perfeitas p/ o
plantio da maconha, q abastece boa parte dos traficantes das gdes cidades do
país. A seca e a pobreza faz com q gente "de bem" aceite dinheiro de
traficantes p/ plantar a droga. Consequentemente, circulam muitas armas e os
assaltos a carros e ônibus - interestaduais e municipais - são justamente p/
financiar as lavouras. E comuns.
Qdo a precária viatura chegou, tivemos q acompanha-la p/ cidadezinha mais
próxima (q nem me recordo o nome) q mais parecia um vilarejo, onde por mais
uma hora permanecemos registrando BO. Ate aquela altura td mundo tava
cansado e so queria continuar viagem. A noite do sertão estava terrivelmente
estrelada e quente, contrastando com o frio glacial do ar condicionado do
busao. Depois de toda a burocracia no DP, o busao continuou sua viagem,
desta vez mais leve. Alem do q foi subtraído, alguns passageiros ficaram por
lá na esperança (!?) da policia reaver seus pertences ou por não ter
condições de prosseguir. Paciência.. Ainda não recobrados do ocorrido, creio
q ninguem conseguiu dormir depois, embora o busao seguisse seu trajeto num
silencio sepulcral.
Com todos esses percalços, ainda assim chegamos na capital piauiense no
horario previsto, quase 5 da madruga, onde tive q aguardar um tempao ate
abrir o guichê e garantir passagem p/ Piripiri, afim de ir p/ PN 7 Cidades.
A rodoviária em si é muito suja e feia, mas ainda assim consegui me aninhar
num banco e cochilar p/ repôr o sono e cansaço daquela noite pitoresca.
Enqto isso, a policia dos municípios no entorno do Polígono tem atuado em
conjunto p/ coibir a ação desses grupos especializados, com relativo
sucesso. Mas não é suficiente. Prender os criminosos não ataca a raiz do
problema, uma vez q a pobreza generalizada da região oferece
permanentemente mão-de-obra p/ estes traficantes, q simplesmente ampliam
mais o seu raio de ação dando seqüência a este circulo vicioso. E se o
cangaço dos tempos de Corisco & Lampião sucumbiu c/ a chegada das estradas
no sertão, é por ironia do destino q justamente delas hoje sobrevivam estes
"neo-cangaceiros". Um problema social calcado num eufemismo q não tem nada
de romântico.