Este é o relato escrito pelo meu pai, Mário César Both, sobre a viagem comigo (Guilherme Both) e meu irmão (Maurício Both), em Agosto de 2017. Saímos do aeroporto de Basel, compartilhado por França, Suiça e Alemanha, pedalamos pela Alsácia na França e pelos estados alemães de Baden-Württemberg, Renânia-Palatinado e Hesse, chegando em Frankfurt depois de 485 km.
PARTE UM
Muitos anos atrás, quando Guilherme e Mauricio eram pequenos, tínhamos uma brincadeira de sábados. Pegávamos nossas bicicletas e fazíamos o que era chamado de “Ir a Um Lugar Que Nunca Fomos Antes”, geralmente um passeio mais longo por ruas ou estradinhas que não havíamos passado. Esta é a história desta brincadeira levada às suas últimas consequências.
Toda viagem tem um começo, um princípio físico, um embarcar, que se segue ao planejamento iniciado lá atrás. Eu comecei a aventura de 2017 pegando o ônibus Cachoeira – Porto Alegre da Unesul, às sete da manhã, bagagem um alforje e uma mega caixa com a bicicleta desmontada lá dentro. Meus primeiros temores eram sem razão: a companhia aérea nem perguntou o que havia na caixinha, despachou como o contrato previa – um volume, vinte quilos, amem. Em Guarulhos aluguei uma camionetinha Fiat Dobló. Facilitou e muito a nossa vida no dia seguinte, evitando os problemas de levar de taxi as caixas, duas agora, até a rodoviária, despachar por ônibus. A noite do dia 4, sexta – feira, foi dedicada ao desmonte e embalagem da bicicleta do Guilherme, com ele assando magnificamente a despedida de churrasco pelas próximas duas semanas. Quando eu resolvi mostrar para o dono da casa como haviam ficado bonitas as camisetas de ciclismo com o nosso logo, bateu o pânico. Onde estavam as camisas dos guris???Esvaziei meus alforjes completamente, abri todas embalagens das roupas…nada delas. Aí lembrei: para que não precisasse esvaziar os alforjes e abrir os sacos de roupas, eu tinha posto as camisas dentro da caixa da minha bicicleta, prontas para distribuição em Basileia, destino final.
Dia 5: esse é o dia que pode ser descrito em uma palavra – normal. Tudo perfeito, despacho das caixas no balcão da Ibéria- British, embarque voo. Normal, normal, rodas do destino engrenando.
Dia 6: Aeroporto a Saint Louis - 5 km
Soubemos, logo antes do embarque, que teríamos uma baita companhia a partir da nossa escala em Londres até Basileia: o Mauricio iria no mesmo voo. Se não tivéssemos falado haveria uma surpresa das grandes pois o plano inicial era ele chegar uma hora depois de nós no Aeroporto de Mulhouse. Pousamos no horário marcado – 11 da manhã – e fomos para a área de resgate de bagagens de tamanho maior. Eu, no entusiasmo, fui para o banheiro e troquei de roupa, envergando calça e camisa de ciclista, só faltando pular na bike e pedalar. O Mauricio brincou – Não tá te apressado, pai? Chegaram carrinhos de bebe, cadeiras de rodas...uma caixa de bicicleta...DUAS CAIXAS DE BICICLETA…mais uns carrinhos de bebe e fim. A bicicleta do fardado, nada. O encarregado das bagagens disse que não havia mais carga no avião e nos encaminhou para o setor de bagagens extraviadas, onde uma atenciosa senhora nos informou que teria uma solução entre um a cinco dias…. liquidando completamente os planos de nosso tour. Em todo caso...-Vocês têm telefone? Não? E-mail? Se houver novidades avisaremos. Bem, nessa altura, só nos restava esperar e o primeiro passo era almoçar, com nossos carrinhos de malas levando as preciosas duas caixas de bicicleta que haviam chegado. Massa, bacalhau, hambúrguer com fritas foi a primeira refeição da tropa, com o moral meio baixo. Uma notícia boa pelo e-mail...a caixa não estava perdida...havia ficado, pelas engrenagens aquelas do destino, em Londres e viria no voo seguinte, pouso previsto para 18 h. Com o pôr de sol estimado para quase 21 horas, teríamos tempo de pôr o pé na estrada ainda no domingo. Descemos ao estacionamento e o Guilherme mostrou a habilidade, montando e regulando a bicicleta do Mauricio e a sua. O aeroporto de Mulhouse é tri nacional, dá pra botar um pé na França e um na Suíça dentro dele, tem uma porta de saída para quem quer sair via Alemanha e França e outra para helvéticos. Próximo das 18 horas Mauricio e eu voltamos à área de desembarque (Suíça) deixando o Guilherme no andar de baixo (França) para e espera do último veículo. Claro que o avião atrasou, desceram mil carros de bebe, muuuitas bagagens gigantes e, lá por sete e meia da noite a esperada caixa.... com seu conteúdo desmontado em miiiinimos detalhes, que nos fizeram perder mais uma hora até aprontarmos tudo. Então subimos nas bicicletas e –Lá vamos nóóóóos, com uma vaga ideia de direção, esperando sinalização especifica de bikes ou uma ciclovia. Nos embretamos num estacionamento fechado por telas, entramos por uma estrada que parecia não levar a lugar algum e, já despontando frustração, VOLTAMOS ao aeroporto, para o balcão de informações turísticas. –Tem algum hotel bem perto daqui? Perguntamos, já desistindo da etapa planejada para o primeiro dia. A moça nos encaminhou para o Hotel F1 e reagiu com um NOOOOOOON quando eu perguntei se era caro. Fizemos o caminho indicado por um mapinha e terminamos bravamente os primeiros 5 km de nossa viagem, na porta do ...hummm, bem...hotel. Quartos pequeninos, sem ar condicionado, banheiros e chuveiros compartilhados no andar, os clientes mais mal-encarados de toda Europa justificavam o preço de 32 euros para os três aventureiros. Amanhã seria um novo dia, com o café da manhã (3,5 euros!) combinado na recepção, com a senhora que não falava uma linha de inglês. Meu francês de sobrevivência conseguiu a proeza de acertar a hospedagem e saber que, a uns dez minutos de pedalada, na vizinha São Luís encontraríamos um restaurante aberto para jantar ... a minha primeira tradução das instruções foi “depois do fogo”, mas lembrei rápido que feu é sinaleira, semáforo, para os gauleses. Encontramos a Pizzaria O Sole Mio, com italianos legítimos atendendo. Pizzas divinas, de cogumelos, presunto Parma, alcachofras, cervejas geladas e num canto um grupo festejando um aniversário. O homenageado, gordão, barbudo, de mais ou menos 1,85 m vestia uma roupa de bebezinho, azul claro com direito a touca rendada e bico. Na volta o banho, com truque – o chuveiro era programado para dar um jato d’água de vinte segundos após pressionado.... o segredo era encostar o meio da coluna na torneira para conseguir uma lavada sem interrupção.
Este é o relato escrito pelo meu pai, Mário César Both, sobre a viagem comigo (Guilherme Both) e meu irmão (Maurício Both), em Agosto de 2017. Saímos do aeroporto de Basel, compartilhado por França, Suiça e Alemanha, pedalamos pela Alsácia na França e pelos estados alemães de Baden-Württemberg, Renânia-Palatinado e Hesse, chegando em Frankfurt depois de 485 km.
PARTE UM
Muitos anos atrás, quando Guilherme e Mauricio eram pequenos, tínhamos uma brincadeira de sábados. Pegávamos nossas bicicletas e fazíamos o que era chamado de “Ir a Um Lugar Que Nunca Fomos Antes”, geralmente um passeio mais longo por ruas ou estradinhas que não havíamos passado. Esta é a história desta brincadeira levada às suas últimas consequências.
Toda viagem tem um começo, um princípio físico, um embarcar, que se segue ao planejamento iniciado lá atrás. Eu comecei a aventura de 2017 pegando o ônibus Cachoeira – Porto Alegre da Unesul, às sete da manhã, bagagem um alforje e uma mega caixa com a bicicleta desmontada lá dentro. Meus primeiros temores eram sem razão: a companhia aérea nem perguntou o que havia na caixinha, despachou como o contrato previa – um volume, vinte quilos, amem. Em Guarulhos aluguei uma camionetinha Fiat Dobló. Facilitou e muito a nossa vida no dia seguinte, evitando os problemas de levar de taxi as caixas, duas agora, até a rodoviária, despachar por ônibus. A noite do dia 4, sexta – feira, foi dedicada ao desmonte e embalagem da bicicleta do Guilherme, com ele assando magnificamente a despedida de churrasco pelas próximas duas semanas. Quando eu resolvi mostrar para o dono da casa como haviam ficado bonitas as camisetas de ciclismo com o nosso logo, bateu o pânico. Onde estavam as camisas dos guris???Esvaziei meus alforjes completamente, abri todas embalagens das roupas…nada delas. Aí lembrei: para que não precisasse esvaziar os alforjes e abrir os sacos de roupas, eu tinha posto as camisas dentro da caixa da minha bicicleta, prontas para distribuição em Basileia, destino final.
Dia 5: esse é o dia que pode ser descrito em uma palavra – normal. Tudo perfeito, despacho das caixas no balcão da Ibéria- British, embarque voo. Normal, normal, rodas do destino engrenando.
Dia 6: Aeroporto a Saint Louis - 5 km
Soubemos, logo antes do embarque, que teríamos uma baita companhia a partir da nossa escala em Londres até Basileia: o Mauricio iria no mesmo voo. Se não tivéssemos falado haveria uma surpresa das grandes pois o plano inicial era ele chegar uma hora depois de nós no Aeroporto de Mulhouse. Pousamos no horário marcado – 11 da manhã – e fomos para a área de resgate de bagagens de tamanho maior. Eu, no entusiasmo, fui para o banheiro e troquei de roupa, envergando calça e camisa de ciclista, só faltando pular na bike e pedalar. O Mauricio brincou – Não tá te apressado, pai? Chegaram carrinhos de bebe, cadeiras de rodas...uma caixa de bicicleta...DUAS CAIXAS DE BICICLETA…mais uns carrinhos de bebe e fim. A bicicleta do fardado, nada. O encarregado das bagagens disse que não havia mais carga no avião e nos encaminhou para o setor de bagagens extraviadas, onde uma atenciosa senhora nos informou que teria uma solução entre um a cinco dias…. liquidando completamente os planos de nosso tour. Em todo caso...-Vocês têm telefone? Não? E-mail? Se houver novidades avisaremos. Bem, nessa altura, só nos restava esperar e o primeiro passo era almoçar, com nossos carrinhos de malas levando as preciosas duas caixas de bicicleta que haviam chegado. Massa, bacalhau, hambúrguer com fritas foi a primeira refeição da tropa, com o moral meio baixo. Uma notícia boa pelo e-mail...a caixa não estava perdida...havia ficado, pelas engrenagens aquelas do destino, em Londres e viria no voo seguinte, pouso previsto para 18 h. Com o pôr de sol estimado para quase 21 horas, teríamos tempo de pôr o pé na estrada ainda no domingo. Descemos ao estacionamento e o Guilherme mostrou a habilidade, montando e regulando a bicicleta do Mauricio e a sua. O aeroporto de Mulhouse é tri nacional, dá pra botar um pé na França e um na Suíça dentro dele, tem uma porta de saída para quem quer sair via Alemanha e França e outra para helvéticos. Próximo das 18 horas Mauricio e eu voltamos à área de desembarque (Suíça) deixando o Guilherme no andar de baixo (França) para e espera do último veículo. Claro que o avião atrasou, desceram mil carros de bebe, muuuitas bagagens gigantes e, lá por sete e meia da noite a esperada caixa.... com seu conteúdo desmontado em miiiinimos detalhes, que nos fizeram perder mais uma hora até aprontarmos tudo. Então subimos nas bicicletas e –Lá vamos nóóóóos, com uma vaga ideia de direção, esperando sinalização especifica de bikes ou uma ciclovia. Nos embretamos num estacionamento fechado por telas, entramos por uma estrada que parecia não levar a lugar algum e, já despontando frustração, VOLTAMOS ao aeroporto, para o balcão de informações turísticas. –Tem algum hotel bem perto daqui? Perguntamos, já desistindo da etapa planejada para o primeiro dia. A moça nos encaminhou para o Hotel F1 e reagiu com um NOOOOOOON quando eu perguntei se era caro. Fizemos o caminho indicado por um mapinha e terminamos bravamente os primeiros 5 km de nossa viagem, na porta do ...hummm, bem...hotel. Quartos pequeninos, sem ar condicionado, banheiros e chuveiros compartilhados no andar, os clientes mais mal-encarados de toda Europa justificavam o preço de 32 euros para os três aventureiros. Amanhã seria um novo dia, com o café da manhã (3,5 euros!) combinado na recepção, com a senhora que não falava uma linha de inglês. Meu francês de sobrevivência conseguiu a proeza de acertar a hospedagem e saber que, a uns dez minutos de pedalada, na vizinha São Luís encontraríamos um restaurante aberto para jantar ... a minha primeira tradução das instruções foi “depois do fogo”, mas lembrei rápido que feu é sinaleira, semáforo, para os gauleses. Encontramos a Pizzaria O Sole Mio, com italianos legítimos atendendo. Pizzas divinas, de cogumelos, presunto Parma, alcachofras, cervejas geladas e num canto um grupo festejando um aniversário. O homenageado, gordão, barbudo, de mais ou menos 1,85 m vestia uma roupa de bebezinho, azul claro com direito a touca rendada e bico. Na volta o banho, com truque – o chuveiro era programado para dar um jato d’água de vinte segundos após pressionado.... o segredo era encostar o meio da coluna na torneira para conseguir uma lavada sem interrupção.