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Expedição Redescobrir (Pela Amazônia e de bike no Nordeste)


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Enfim, a estrada!

 

Para iniciarmos a Expedição Redescobrir foi necessário chegar até Porto Velho, de onde lhes escrevo. Partimos de Londrina dia 24 pela tarde e enfrentamos nada mais nada menos que 48 horas de ônibus. Bom começo, já que houve tempo suficiente para reoganizar o sentimento interior para enfrentar o longo caminho que teremos a seguir.O trajeto foi Londrina - Presidente Prudente - Campo Grande - Cuiabá - Vilhena - Ariquemes - Porto Velho, ou seja, passamos pelos estados do Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia e o ônibus deve ter realizado, se não errei na conta, 3830 paradas!!!!

 

 

A paisagem foi transformando-se muito ao longo do caminho. Nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, muitas plantações de soja, plantações gigantecas, que não deixam ver onde começa nem onde acaba! Fiquei pensando, ora, como pode o maior produtor de soja do mundo ter pessoas sofrendo de fome??? Ah, será que a soja não é alimento de gente?Cruzamos os Parecis, entre o estado do Mato Grosso e Rondônia e essas paisagens me despertaram fascínio. Lindas escarpas, montanhas e um lindo pôr-do-sol para comtemplar!No estado de Rondônia, prevalece a pecuária, tanto é que, ao pechinchar no restaurante dizendo que não queria comer a carne o dono surpreendeu-me dizendo que para ele a salada gera mais gastos do que a carne, já que esta tem de ser trazida dos estados do sul enquanto a carne é produzida em alta escala na região.

 

Chegamos em Porto Velho e fomos direto para o mercado Cai N´agua onde compramos as passagens de barco para Manaus por R$80. Um ótimo preço... é claro que com muita conversa...Já passamos a noite dentro do barco, que está ancorado onde estão as ruiínas da estação de trem Madeira-Mamoré, que surgiu e desapareceu junto com um surto de desenvolvimento desta região.

 

É incrível mesmo as dimensões deste país. Tente visualizar quantos países teríamos cruzado se fizessemos esta travessia num continente como o europeu. No entanto, aqui todos falamos a mesma língua, ouvimos as mesmas músicas, torcemos pelos mesmos times. É incrível! Só comemos coisas diferentes e falamos um pouco diferente, mas é difícil crer que vivia no país destas pessoas que habitam as margens do Rio Madeira.

 

Ah, como fomos prevenidos com nossa comida para não gastarmos durante o caminho, sempre que o ônibus parava sacavamos nossos pães, bolos, etc e saciávamos muito bem nossa fome... o que logo nos rendeu o apelido de farofeiros... e nem levamos frango assado hein!Também logo que entramos no ônibus, a moça simpática que sentava ao nosso lado de cara perguntou "Vocês são turistas né??". Turistas?!? Hummm..acho que não...

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Vento forte e neblina densa. Frio e um infinito silêncio. A vontade sempre era de permanecer na rede, aquecido, contemplando. Assim iniciavam os dias a bordo do Dois Irmãos, barco que usamos para descer quase toda e extensão do Rio Madeira, desde a cidade de Porto Velho até sua foz, no Rio Amazonas, já próximo de Manaus, em três dias.

 

Fomos acompanhados de muita gente, em torno de 150, entre elas, muitas crianças, com as quais nos divertíamos. Além de tomates e laranjas, que preenchiam o primeiro andar do barco. O tratamento cabia ao Seu Wilson, responsável pelo bom funcionamento do barco. Distribuía o café (às 7 horas em ponto), o almoço e a janta, sempre com seu apito, fazendo muito barulho para nos acordar e chamar todos à mesa. Também cabia a ele a limpeza do barco, dos banheiros ao chão do convés.

 

Assim que passava o frio da manhã, o céu se abria e começava a esquentar. Entretiamo-nos com livros e música, além das conversas com nossos companheiros de viagem. Cada um deles levava uma história. Desde Seu Raimundo, que saiu de Boa Vista/RR e foi até Paranavaí/PR, passando por Manaus, Belém, Feira de Santana, Salvador, São Paulo e Curitiba, tudo em menos de um mês. Como também Jorge. Um músico lunático que deixou sua terra, Manaus, na década de 80, para aventurar-se por São Paulo e Rio de Janeiro, atrás de fama e fortuna. Agora volta, com o violão e uma sacola, desiludido e confuso, para reencontrar a família e os amigos que não vê há 25 anos.

 

Outro fato interessante é a criatividade usada para batizar as crianças, vejam só: Herlon, Elaise e Heidy (três irmãos que estavam com o pai e que levavam junto dez pintinhos numa caixa); Cidele e Querolin (irmãs, esta última prefere ser chamada de Keyziane); Lierdison (o pai é caminhoneiro, estava com a mãe, que já conhece todas a capitais do país); Diurliane (mas que é chamada de Juliane); todas muito lindas e animadas, cheias de histórias engraçadas.

 

Após o almoço, normalmente podíamos saborear o calor do sol com a brisa fresca que fazia, indo até o último andar, onde tinha apenas um bar e três alto-falantes enormes que tocavam Banda Calypso praticamente o tempo todo, num volume pra lá de irritante.A chuva caia na parte da tarde, o que não nos impedia de aproveitar o sol se pondo, formando um espetáculo incrível com a mata e o caudaloso Rio Madeira.

 

A sensação, ao adentrar a Floresta Amazônica, é a de que um tesouro estivesse sendo revelado. Tamanha exuberância e perfeição são dignas de conservação. O risco que corremos é de desperdiçar um fenômeno natural tão expressivo que sua revitalização seja impossível num espaço de tempo relativo à existência humana.

 

Preservar é necessário.Para as pessoas que vivem na floresta e que estão substituindo seus valores pelo modo de viver industrial de consumo, o rio muitas vezes não passa de uma enorme lixeira, já que atiram tudo nele, incluindo o lixo do banheiro, que Seu Wilson joga toda vez que os limpa, duas vezes por dia.A noite cai e o silêncio inabalável da floresta só é quebrado pelo ecoar do som amplificado da Banda Calypso.Chegamos em Manaus perto da meia-noite, aportamos e dormimos mais uma noite no barco até que pudessemos descer e conhecer a cidade. Por aqui permaneceremos pelo menos duas semanas.

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Com seus quase dois milhões de habitantes, Manaus é uma metrópole que já sofre com os problemas de uma cidade grande, ou seja, desigualdade social, aumento desordenado da periferia, trânsito caótico, criminalidade, falta de saneamento, etc.

 

Por outro lado, é notória sua riqueza cultural. Fruto da miscigenação característica de nosso páis, mas que aqui deixa prevalecer os traços do caboco (caboclo) e do índio. Claro que com forte influência da cultura massificada que tapa os olhos e ouvidos de muita gente pelo mundo, que faz com que as pesoas ouçam uma música que sequer entendem a letra ao invés de uma linda canção regional.

 

Pelo fato de sua inacessibilidade por terra ao sul do país, o simples fato de chegar à cidade já é pitoresco, podendo ser somente pelo céu ou pela água, esta última, mais tradicional, tendo feito a cidade desenvolver-se à beira do Rio Negro.Os viajantes que de barco chegam, como nós, são recebidos pelo enorme porto da cidade, com seu amontoado de embarcaçãoes. Logo em seguida, encontra-se o centro antigo, onde vemos o mercado público e adiante o suntuoso e magnífico Teatro Amazonas, herança de um tempo remoto, quando havia riqueza e prosperidade na região, com a produção da borracha em grande escala.

 

Dentre as tantas atrações da região, elegemos as que ofereciam fonte de pesquisa e inspiração.

 

O Inpa (Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia), desenvolve diversos trabalhos dentro da floresta, em áreas como Ecologia e Zoologia. Pudemos conhecer o projeto do Peixe-Boi e da Ariranha, animais com sério risco de extinção, além do setor dos insetos, com uma coleção formidável, incluindo o maior besouro do mundo e mariposas com mais de 20 cm de envergadura. Este é o prinipal centro de referência de pesquisa da Amazônia.

 

Ao longo de três dias, fomos muito bem recebidos na Abra 144 (Aldeia Bio-Regional da Amazônia) que é uma ecovila que busca a auto-suficiência através da produção em pequena escala e busca artifícios de cooperação para se manter. O lugar fica no alto de um imenso vale, que nos presenteia com uma vista magnífica da floresta com sua paz característica.

 

Na volta curtimos um dia em Presidente Figueiredo, o município brasileiro com o maior número de cachoeiras. Visitamos a Cachoeira da Orquídea e celebramos a vida nos banhando em suas águas escuras.

 

A seguir, o IPA (Institudo de Permacultura da Amazônia). Lá, foi possível conhecer na prática diversas ações efetivas de permacultura. Todas as construções, cultivos e criações buscam o consórcio com o que o ecossistema oferece. A sustentabilidade será fruto do melhor aproveitamento da energia e dos recursos naturais. Por exemplo, lá existem apenas banheiros secos, que não utilizam água para descarga, mas sim um sistema de tratamento das fezes, que a partir do calor do sol as transforma em adubo. Também toda a água é captada das chuvas através de diversas cisternas, num perfeito reaproveitamento da matéria. Respeitando aquela lei universal de que na natureza nada se cria, tudo se transforma.

 

Cruzamos com diversas pessoas que estão trabalhando para presevar a Floresta Amazônica. As opiniões divergem um pouco, mas o otimismo é raro de se encontrar. A maior parte das pessoas aponta com tristeza a devastação que está ocorrendo e já começam as previsões para o fim deste ecossistema. Claro que o maior problema é a extração da madeira e a derrubada da mata para criação de gado e cultivo de soja.

 

A lição que tiramos é que depende de cada um de nós.

 

Agora, vamos começar a descer o maior rio do mundo em direção a Belém.

 

www.inpa.gov.br/

www.abra144.org/

www.permacultura.org.br/rbp/index800.html

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Esplendor, a melhor palavra para descrever o sentimento que transmite o Amazonas, maior rio do mundo (pela quantidade de água, sem dúvida). Majestoso rio-mar! Às vezes nos confundia, pelo seu tamanho, não deixava saber se era rio ou se era mar. A viagem de Manaus a Belém, que levou quatro dias a bordo de um navio, foi impressionante.

 

Fomos surpreendidos no porto de Manaus pela recusa do dono de um barco em aceitar as passagens que haviamos comprados numa agência. Lá em Manaus, pode-se comprar as passagens no guichê do porto por R$236 ou atrás do mercado público com agências pelo melhor preço que conseguir. Com a habilidade que estamos desenvolvendo na arte da pechincha, conseguimos comprar cada passagem por R$125 e esse foi o motivo da atitude do dono do barco, já que ele queria no mínimo R$170. Com toda nossa bagagem já a bordo e com tempo escasso, fomos obrigados a trocar de embarcação.

 

Nos instalamos no Amazon Star, agora por R$150. Um navio gigantesco, um amontoado de ferro que nos deixou em dúvida se flutuava mesmo. Péssima comida. Deixamos Manaus e logo pudemos apreciar o famoso encontro das águas dos rios Negro e Solimões, um show singular. O navio seguiu rumo leste com a correnteza a favor, sem parar noite adentro.

 

O principal porto do caminho é Santarém, onde o navio atracou para subistituição da carga. Do convés saíram seis lanchas e entraram algumas peças gigantes de carne bovina, que virou a sopa da última noite. O navio voltou a ativa e já passou por outro encontro de águas, desta vez o Tapajós, com suas águas esverdeadas correu separado por longo tempo das águas barrentas do Amazonas.

 

O ponto alto da viagem foi a travessia do Estreito de Breves, próximo a Ilha de Marajó. Além do fato da floresta estar mais próxima, toda vez que o navio passava próximo de uma comunidade ribeirinha, surgiam diversas canoas conduzidas geralmente por mulheres e cheias de crianças que faziam movimentos com as mãos e imitavam um som de bicho. Elas estavam ali pedindo comida e roupas, que eram atiradas aos montes, em sacolas de plástico, pelas pessoas do navio. "É uma forma de purificar-me. Lá na cidade eu tomo minha pinga e tá tudo certo, não tenho problemas..." dizia um companheiro de viagem que levou as sacolas já prontas para serem atiradas. Muito comovente essas cenas.

 

Na última noite da viagem vimos pela TV o show dos Rolling Stones na praia de Copacabana. Uma antena parabólica instalada no barco recebia as imagens e nos deixou mais próximos das mais de um milhão de pessoas que estavam no local. Ali, do coração da Amazônia, estavamos conectados àquele grande evento.

 

Chegamos em Belém do Pará, a terceira capital. Encontramos com nossas duas companheiras de viagem: as bicicletas e assim encerramos a primeira parte da Expedição Redescobrir. Vamos passar duas semanas aqui antes de partimos para São Luis do Maranhão e entrarmos na região nordeste.

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Foram 15 dias redescobrindo os encantos do Pará, que revelou sua excêntrica culinária, suas riquezas naturais sem fim e sua gente, cativando-nos com sua simplicidade, bom humor e com uma recepção extraordinariamente calorosa. As lembranças da terceira capital da Expedição Redescobrir ficarão guardadas com carinho por muito tempo.

 

Logo que chegamos em Belém fomos buscar nossas bicicletas, que nos esperavam na casa de um amigo. A partir daí a viagem ganhou um novo sabor, visto que desta vez pudemos conhecer a cidade sobre duas rodas, proporcionando-nos um contato mais próximo e dinâmico com seu entorno. Sob as mangueiras que enfeitam a cidade, em cada esquina, descobríamos uma nova fruta, uma construção histórica ou algum paraense com alguma boa história pra contar.

 

Cupuaçu, pitomba, taberebá, pupunha, graviola, cacau, açaí, bacuri, muriti... São tantos os sabores experimentados que fica até difícil lembrar de todos os nomes das frutas. Tamanduá, onça, jacaré, gavião-real, preguiça, sucuri, camaleão, anta, ariranha, jibóia, peixe-boi, tucano, ararauna... Infelizmente alguns foram vistos em cativeiro, já que uma revoada de guarás ao ar livre é a manifestação da perfeição da natureza. O homem vai aumentando as cidades e expulsa os bichos, ou simplesmente os aniquila.

 

Refúgio natural que conserva atrações magníficas, destacando-se no cenário natural do estado do Pará, a Ilha de Marajó entrou no nosso roteiro. "Aqui quem manda não é o presidente da República, nem o Papa. Quem manda aqui é a água. É a chamada ditadura da água, com seus três tempos: seca, lama e cheia."- nos avisou o diretor do Museu do Marajó. Lá passamos o carnaval com um grupo de Belém, que realiza diversas atividades ligadas à bicicleta (http://www.eart.esp.br/), foram 315 km pelas trilhas, estradas de terra e rodovias da maior ilha fluviomaritima do mundo.

 

De Belém tomasse uma balsa até Camara, já em Marajó. De lá conhecemos Salvaterra, Soure e Cachoeira do Arari, alguns dos 16 municípios da ilha, sempre de bicicleta. Vivenciamos paisagens impares, que nunca esperávamos que pudessem existir em nosso país. Vegetações rasteiras com árvores baixas esparsas nos remetiam às savanas da África. Campos alagados repletos de búfalos e praias lindas de água doce também compunham o cenário. Muito sol, muita chuva e muita lama depois voltamos à balsa para retornar a Belém, realizados pelo inesperado presente.

 

Mais alguns dias na cidade e nos prepararamos para o início da fase cicloturística, que agora começaremos a trilhar. Também aproveitamos para saborear o açaí do Ver-o-peso, dançar o carimbó no Mormaço e tomar água de coco na feira de domingo da Praça da República. Muito paidegua esse povo!

 

http://www.museudomarajo.com.br/

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É a terra de Sarney. E também de Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzzi, Arthur de Azevedo e Henrique Beckmann. E de Zeca Baleiro, Humberto do Maracanã e da Tribo de Jah. A terra do reggae, do bumba-meu-boi e do tambor de crioula. Do cuxá, do doce de espécie e do arroz de Maria Izabel. Vou lhes contar a história de nosso encontro com o mar e com Jesus. Claro que estou falando do Maranhão.

 

Impressionante como a distância que separa Belém de São Luis guarda tantas discrepâncias e marca a fronteira não só entre o norte e o nordeste, mas separa um ecossistema de floresta para um que vai se transformando pouco a pouco. Primeiro os alagados de bufálos vão dando lugar às criações de mulas, quase sempre soltas. As árvores imensas com copas grandes são substituídas por palmeiras e coqueiros e a população não mais é influenciada pela cultura do índio e do caboclo, mas sim do caiçara e do negro. Daquele escravo que construiu as casas, que pavimentou as ruas e desenvolveu a capoeira e cantou sua tristeza. O rio cedeu seu trono ao mar, que tranquilo marca o ritmo da cidade com sua maré oscilante. E nós fomos presenteados com essa imensidão e com as bençãos de Iemanjá.

 

Pedalamos 80km entre Pinheiro e Cujupe, já no Maranhão e chegamos à capital pela balsa que atraca num porto distante. Nos instalamos no pitoresco centro histórico da cidade, onde estão preservados casarões de uma época em que o Brasil sequer era uma democracia, revitalizados pelo Projeto Reviver, que hoje dá nome ao lugar e onde acontece o forte movimento noturno. Para nossa surpresa, recebemos um convite do Comandante Geral da Polícia Militar do Estado do Maranhão para nos alojarmos no quartel, onde passamos todo o tempo de nossa estada na cidade.

 

O centro é marcado por ruas e becos, ladeiras e esquinas que sobrevivem ao tempo e são as maiores testemunhas da história da cidade. Nascida francesa, transformou-se em holandesa e portuguesa e é fruto dessa mistura que dá vida e um colorido especial às suas tradições. É lá que acontece o tambor de crioula, dança maranhense tocada por homens e dançada somente pelas mulheres, muito animada e marcada pela tradicional fogueira que aquece e amacia a pele dos tambores. É no centro também onde podemos dançar o enraizado reggae que é a trilha sonora não só de São Luis mas de todo estado, trazendo a harmonia de suas melodias para o dia-a-dia.

 

A cidade é separada pela baía de São Marcos e a partir das duas pontes que a atravessam chega-se às praias, que começam na Ponta da Areia e vão até a Raposa, transformando-se nas praias de São Marcos, Calhau, Olho D´agua e Araçagi. É também onde estão os bairros mais populosos e mais adiante os municipios de Paço do Lumiar e São José do Ribamar, de onde saem barcos para uma imensidão de ilhas e vilarejos da costa.

 

Inevitável retratar como aconteceu, logo na primeira cidade maranhense, lugar ermo e sombrio, num posto numa rodovia qualquer, logo ali, o nosso inesquecível encontro com Jesus! Um encontro marcado pelo cansaço de uma viagem longa e pelo ânimo novo para seguir adiante. Pela satisfação de um verdadeiro sonho cor-de-rosa. Com uma fórmula secreta e cor atraente, Jesus é a inigualável bebida maranhense!

 

O que podemos dizer é que o Maranhão é uma grande redescoberta!

 

Avante!

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Muita emoção e paisagens únicas na travessia que fizemos dos Lençóis Maranhenses. Saindo de São Luis por São José de Ribamar passamos por vilarejos onde a luz acabou de chegar e, de bicicleta, cruzamos todo este parque nacional.

 

A saída de São Luis foi de barco, pelo município de onde pode-se ir para uma infinidade de ilhas e vilarejos distantes. Nosso destino era Areinha, comunidade centrada numa porção descomunal de areia (ah é?) onde precisávamos tomar uma carona de jipe até Travosa, já que pedalar por ali era tarefa impossível: muita areia e diversos trechos alagados.

 

Travosa é uma lenda. Cabe aos bem-aventurados e persistentes revelarem os segredos deste lugar pitoresco e descobrir a excentricidade das pessoas que lá moram. Não mais que um punhado de casas compõe o cenário, além das centenas de coqueiros e, claro, muita areia. Esta vila de pescadores sobrevive longe da civilização e quase inacessível. Porém, pertinho do mar, motivo de sua existência. Escolhemos uma dessas casas para pedir abrigo, a de Dona Maria de Jesus que, muita disposta, ofereceu seus ganchos de rede e abriu as portas de sua casa. Seu filho Ribamar, um pescador hábil, logo se mostrou um guia e amigo, nos indicou os caminhos do lugar e foi responsável por uma história que contarei já já.

 

Do farol que existe em Travosa é possível avistar a Lagoa de Santo Amaro, a maior dos Lençóis. E de lá pudemos vislumbrar a grandeza deste acidente geográfico, que é do tamanho da cidade de São Paulo, ou seja, uma metrópole de areia.

 

Numa certa manhã fomos à praia e para isso é necessário andar por uma hora pelas dunas, atravessando as lagoas. Fomos com Ribamar, que nos levou para ver uma palhoça de pescadores na praia e aproveitou para jogar bola com seus amigos. Depois de um tempo, resolvemos voltar sozinhos e encaramos as dunas de volta. Tudo parecia exatamente igual, isto é, não tínhamos noção do caminho a seguir para chegar à vila, já que perdemos a rota das pegadas da ida. Quando acabou a areia entramos num manguezal mas não conseguíamos encontrar uma passagem. Contornamos o mangue e acabamos achando um rio. Sabíamos que não tínhamos atravessado aquele rio na ida mas aproveitamos para relaxar nas suas águas fresquinhas. Não mais que cinco minutos depois, nosso amigo Ribamar conseguiu nos achar! Não só isso, ele sabia exatamente onde tínhamos passado. Ele conhece as pegadas de cada um dos pescadores dali e sabia reconhecer quais eram as nossas.

 

Isso mostrou uma relação muito simples e integrada com o ambiente em que ele vive. Um pouco desta relação que temos aprendido. Respeitar os fenômenos naturais e lidar da melhor forma com eles. Para sair de Travosa e ir até Atins tínhamos que percorrer 60 km pela praia. Tivemos que calcular qual o melhor horário do dia para que pegássemos o intervalo entre as duas marés cheias do dia, ou seja, a maré que fosse mais baixa e que deixasse uma faixa mais larga de areia para pedalarmos. No dia que havíamos planejado sair não púdemos pela forte chuva que caiu no dia, nos forçando a rever a tábua de marés e aceitar as condições naturais.

 

Partimos às 5 e meia da manhã e tivemos que primeiro fazer a travessia de uma hora das dunas para chegar na praia. Pedalamos 30 km curtindo um visual surreal, de um lado o mar, do outro os Lençóis, alguns pescadores apareciam, mas a sensação sempre era de isolamento. Já esperávamos o grande desafio do dia: o Rio Negro. Sabíamos que a maré estava baixando, mas não sabíamos por quanto tempo. O nível da água estava alto e tínhamos que passar as bicicletas e nossas bagagens. Tentamos em alguns pontos mas sequer alcançavamos o fundo do rio. Procuramos mais e achamos um trecho onde a água batia no pescoço. Tinha que ser naquela hora, a maré começava a subir. Amarramos cordas um no outro e nas bikes no caso de perdermos para a correnteza. Íamos com os braços bem levantados e os pés tateando o fundo de areia. Depois de quatro viagens conseguimos levar tudo para o outro lado, mas o sufoco não tinha terminado. Faltavam 30 km, a maré tinha subido e o sol estava de rachar.

 

Encostamos debaixo da única sombra do caminho para descansar e comer. Nosso problema agora era a maré. Não havia mais espaço na praia para pedalar. Tínhamos que esperar a próxima maré baixa, a da noite, para seguir. Perto das 17:30 conseguimos de novo pedalar e aceleramos para aproveitar a luz que se findava. O sol se pôs quando atravessamos outro rio, este mais raso. Agora, no escuro, tínhamos que chegar até Atins. Mas sabíamos que não precisávamos nos preocupar porque a fase da lua era cheia, o que rendeu uma ótima pedalada noturna de lua cheia à beira-mar.

 

Lá pelas tantas, depois de umas duas ou três horas, conseguimos avistar uma luz. A luz foi ficando mais próxima e fomos ver o que era. Para nossa surpresa e felicidade geral da nação brasileira tratava-se de uma pousada! Ali, no meio do nada! Não só isso. Por R$5 comemos um PF digno de caminhoneiro. De banho tomado e barriga cheia dormimos muito bem em nossas redes, ali, naquele paraíso feito de areia e água.

 

Para aumentar a magia desta travessia, conhecemos nesta pousada dois ciclistas de Barreirinhas que estavam dando uma volta pelos Lençóis e nos convidaram para ir com eles pelo meio das dunas, passando pelas lagoas e chegando direto ao nosso destino, Atins.

 

Insano! As dunas serviram de pista para nossas bikes. Nas subidas sofríamos um pouco, mas todo esforço era recompensado nas descidas... pura adrenalina!

 

No final chegamos na Lagoa Azul e fomos presenteados pela natureza com um banho em suas águas cristalinas.

 

Dias que deixarão saudade.

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Um rio pode desembocar no oceano em forma de estuário, isto é, da mesma maneira que o leito segue todo seu curso suas águas unem-se ao mar, todo de uma vez. Ou então em forma de delta, formação não muito comum, quando o rio divide-se antes de desaguar no mar formando caminhos diferentes e , em consequência disso, muitas ilhas.

 

Temos, no Brasil, o Amazonas com sua foz em estuário e o Parnaíba que forma um majestoso delta antes de tornar-se Oceano Atlântico. Popularmente conhecido como Delta das Américas, por ser o maior do gênero em mar aberto do continente.

 

Chegando em Tutóia, precisávamos tomar um barco para chegar à cidade de Parnaíba. Após a construção de uma rodovia que interliga as duas cidades este trajeto feito por terra se popularizou, culminando na escassez de barcos em circulação. Hoje existe somente um, o Cidade de Tutóia, que segue de Parnaíba para Tutóia às segundas, quintas e sábados e faz o trajeto inverso às terças, sextas e domingos.

 

Ao chegarmos em Tutóia, pretendíamos tomar o barco logo no dia seguinte. Levantamos, arrumamos nossas coisas e fomos até o cais. Para nossa surpresa, aquele dia não haveria barco, já que ele não havia vindo de Parnaíba no dia anterior, em virtude do feriado que era celebrado aquele dia. Só nos restava esperar três dias para que pudéssemos fazer a travessia, que foram desfrutados na pacata cidade sem internet de Tutóia, no aconchego da Pousada Jagatá, onde o proprietário, Marcos, nos deixou passar esses dias.

 

Finalmente embarcamos logo cedo numa sexta-feira ensolarada. Nos acompanharam uma família mineira, um argentino, um casal italiano, um carneiro e poucos moradores da região. A viagem de 8 horas passa por muitos canais que formam o delta. Dos dois lados pode-se apreciar os muitos manguezais com uma vegetação bem densa. Aqui e acolá surgiam praias muito bonitas de areias bem claras.

 

O lugar mais procurado da região é a Ilha do Caju, com praias em mar aberto. Outro atrativo é a observação de aves, seja em bandos ou solitárias, sempre despertavam a curiosidade dos olhares mais atentos. Vez ou outra o barco parava em alguma vila para troca de passageiros e de mercadorias. Uma das principais fontes de renda da região é a coleta e venda de caranguejos, que são comprados ali por atravessadores que os vendem bem mais caro aos frigoríficos e restaurantes das cidades grandes. Claro que quem ganha menos nessa história é o catador. É a lógica de mercado atual.

 

O dia deu lugar à noite e já estávamos próximos de Parnaíba. Descemos no Porto das Barcas, charmoso ponto de encontro da cidade, e fomos procurar por uma pousada. Após algumas horas de procura e conversas com recepcionistas, fizemos amizade com uma delas, Clayce, que nos ofereceu a sala de sua casa para armarmos as redes. Mais uma economia em tempos de contenção de gastos e mais uma bela amizade!

 

Um dos roteiros mais interessantes do Brasil sem dúvida é a travessia que se faz dos Lençóis Maranhenses à Jericoacoara, ou vice-versa, passando pelo Delta do Parnaíba. Encontram-se muitas belezas naturais neste caminho. Imagens e sensações únicas em cenários perfeitos.

 

Embora bem curto o litoral do Piauí guarda praias lindíssimas, como Macapá, Cajueiro da Praia e a famosa Pedra do Sal. Daí entramos no Ceará, um rico estado, o sexto da Expedição Redescobrir.

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Alguns acreditam que o Paraíso poderia facilmente ser uma praia. Se isto for verdade, não resta dúvida de que esta praia poderia ser no Ceará. O problema, em consequência, seria escolher qual delas. Eu faço minha aposta.

 

Entramos no Ceará pela cidade de Chaval, um pouco afastada do litoral e de lá percorremos 56km pela rodovia até a simpática cidade de Camocim. Passamos a noite por ali e logo de manhã fizemos uma travessia de barco para chegar à Ilha do Amor, primeira praia que precisaríamos percorrer para alcançar nosso objetivo do dia: Jericoacoara! De início tivemos que empurrrar as bikes embaixo do sol forte por um trecho de dunas, até chegar junto ao mar. Dali teríamos uma longa faixa de areia a percorrer e também uns rios pra atravessar.

 

Passamos pelas praias de Imburanas, Moréia e Tatajuba até chegar a Guriú, onde de balsa atravessamos um braço de rio. Lindas praias, onde a paisagem inspirava os pensamentos e o movimento das pedaladas deixava todo o corpo completamente ligado. Muitos coqueiros e quase nenhuma pessoa, a não ser os pescadores e alguns bugues que levavam turistas para fazer passeios. Em Tatajuba, a mais linda praia do caminho, há um braço de rio que por sorte conseguimos atravessar na canoa de um pescador, já que ali não tinha balsa. Um lugar que me fez pensar em passar uns dias... ou semanas, meses, anos...

 

De Guriú faltava muito pouco pra chegar em Jericoacoara, uns 12 kms. Mas quando saímos da balsa vimos que a maré já tinha subido, o que não deixava a faixa de areia que precisávamos para pedalar. Demos uma descansada e tomamos a única atitude que nos restava: empurrar as bicicletas. Ir empurrando é o que mais nos cansava quando íamos pela areia, as bikes pesadas na areia fofa é realmente muito desgastante e, além disso, chato. Tinhamos que percorrer 12 kms, iria tomar muito tempo. Mas não tínhamos outra opção.

 

Quando faltavam uns 5km pra chegar em Jericoacoara, já foi possível pedalar de novo, após umas duas horas ou mais de sofrimento. De longe foi possível enxergar a duna que a caracteriza, mas parecia que nunca ia chegar. O prêmio do dia foi o lindo pôr-do-sol que avistamos da praia e absorvemos o astral do lugar logo na chegada. Jericoacoara é o auge.

 

Jeri, como é comumente chamada, foi transformada em Parque Nacional, o que possibilitou algumas atitudes de preservação e manejo consciente. Mas é claro que nem tudo por lá é muito sério. Estamos no Brasil. Por ser um local completamente isolado, Jeri sofre por não ter banco, ter má conexão telefônica e saneamento precário. Os moradores fazem muitas reclamações e o prefeito (um espanhol!?!?) está bastante ocupado com seus negócios. Os imóveis por ali estão super valorizados já que a expansão das construções está proibida. Uma das praias mais bonitas do mundo precisa ser cuidada como tal.

 

O pôr-do-sol de lá é inesquecível. Jeri foi presenteada pela natureza com o sol se pondo no mar, algo muito raro no Brasil pela nossa posição geográfica, já que o que normalmente ocorre é o sol nascer no mar. E mais, tem até arquibancada! Uma duna que se levanta junto à água e que possibilita que o público tenha uma ótima posição para apreciar sua insignificância.

 

A capoeira dá o ritmo do lugar, que ainda tem grandes lagoas que podem ser apreciadas em passeios por dunas gigantes e, pelo outro lado, uma formação peculiar lapidada ao longo dos anos pelo mar, que resiste em querer subir pela areia: a Pedra Furada.

 

O que comumente se diz sobre Jeri é que você provavelmente vai ficar por lá mais tempo do que havia planejado.

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Deixar Jeri não representou somente a continuação da jornada. Mas sim o início de um ciclo que representou importantes transformações na viagem e, é claro, em mim. Viajar, assim é viagem.

 

No primeiro dia que deixamos Jeri pedalamos até Jijoca, município que agrega Jericoacoara e serve de base para a localidade. Conhecemos o Luis, que nos recebeu em sua casa que fica junto à maravilhosa Lagoa Paraíso. Depois de longas conversas, comidas e uma fogueira chegou a hora de dormir. Já ali, deitado na rede, percebi algo estranho em mim.

 

Foi a pior noite que havia tido na viagem. Tive sonhos ruins e sentia que meu corpo não estava legal. Acordei não tão bem e logo arrumamos as coisas para partir. Senti pela primeira vez uma falta de vontade para pedalar. Estava sem ânimo. Fraco fisicamente e creio que mais ainda emocionalmente. Pedalamos todo o dia 36km até Cruz e lá comemos e descansamos para o outro dia.

 

Pensei que uma boa noite de sono me recarregaria as energias, mas no dia seguinte, quando pedalamos 41km até Almofala, ainda não me sentia bem. Já em Itarema, alguns kms antes, já tinha resolvido seguir andando, mais devagar e pensativo.

 

Passamos a noite numa instalação na beira da praia e na manhã seguinte voltamos a pedalar pela areia. Passamos por um trecho dificilissímo de Patos pra Barra de Moitas. A areia se transformou num manguezal, com lama no joelho e mais de 20 kg em cada bike sofremos muito para conseguir chegar na beira de um rio. Atravessamos com a ajuda de uma canoa e conhecemos umas pessoas que estavam num bar. Estava muito quente, eu tocia muito e sentia meu corpo fraco. A maré já estava enchendo, resolvemos ficar aquela tarde por lá, descansar um pouco e rever os planos. Comemos e eu fiquei um bom tempo deitado numa rede.

 

Analisando a situação vimos que a melhor opção era esperar a maré baixar, umas 6 da tarde, e aproveitar a lua cheia para seguir de noite, sem o calor. Voltamos a pedalar 5 e meia por uma estrada de terra que tinha até Icarai, aonde retornamos para a praia e pedalamos umas três horas de noite. Mantivemos um ritmo bom. Pedalar pela areia é tranquilo, o problema são os acidentes geográficos que ocorrem, como pedras, rios, etc. Em Caetanos senti que já estava suficiente para aquele dia e fomos procurar um lugar para dormir. Encontramos um lugar para colocar nossas redes na Companhia de Pescadores.

 

Logo cedo, sob um sol quente, voltamos a pedalar. Embora eu estivesse desanimado, mantinha a convicção de que não podia ceder àquela circunstãncia. Logo tudo passaria, só não sabia quando. Atravessamos as praias de Sabiaguaba, Apiques, Inferno, Baleia, Mundaú e Fleixeiras até chegar em Guajiru. Todas muito bonitas, principalmente a Baleia, e extensas. Ótimos visuais e um pouco de ânimo. Só pensava em chegar logo em Fortaleza.

 

Na manhã seguinte saímos em direção à Lagoinha. Foi uma pedalada tranquila, somente nos últimos 5 kms pegamos um fortíssimo vento contra que fez com que levássemos muito tempo pra chegar. Outra linda praia que vale a pena. Nós não ficamos muito ali. Do jeito que estava o vento, não conseguiríamos seguir pela praia. Do jeito que estava minha saúde e meu ânimo, não tinha tanta vontade de pegar a estrada até Fortaleza. Pegamos uma carona num ônibus e chegamos naquele mesmo dia na capital cearense.

 

Cidade grande. O ser humano e suas cidades. Buzina, fumaça. Fumaça e buzina. Asfalto, grana, relógio. Todos querem muito, menos saber quem são. A maré que dita o tempo é a da bolsa de valores, a cotação do dólar. Você já fez o seu pedido senhor? Coloque tudo numa sacola de plástico.

 

Alguns dias em Fortaleza. Meu ânimo não melhorava. Minha saúde parecia estar pior. Buscava forças dentro de mim. Buscava encontrar eu mesmo a solução. Mas o que senti era vontade de sair logo dali. Fizemos uma entrevista com o jornal local e revisamos nossas bikes. Eu passava meu tempo indo numa livraria para ficar horas olhando um atlas maravilhoso. Construindo rotas, sonhando com estradas e lugares distantes. Mentalizando pedaladas.

 

Num certo domingo, pela primeira vez eu e o Rodrigo nos separamos. Combinamos de nos encontrar mais à frente. Saindo de Fortaleza, segui até Aquiraz passando pelo Porto das Dunas e mais umas belas praias. Ainda não estava animado. Cruzei Prainha, Presídio, Iguape e finalmente achei um lugar maravilhoso para acampar em Barro Preto. Armei minha barraca num gramado perto do mar. Não coloquei o sobre-teto para poder ficar apreciando as muitas estrelas que brilhavam aquela noite.

 

Foi uma noite muito especial. Sozinho, ali bem perto da natureza, sem barulho, sem nínguem, só eu, o mar e as estrelas, tive uma forte sensação de que logo as coisas estariam melhor. Que, assim como as fases boas não duram pra sempre, assim também é com as fases ruins. Contemplei e agradeci por estar ali, tão perto do sublime.

 

Acordei com o sol e um pouco mais animado para seguir, porém nem tanto. Decidi pegar a estrada direto para Canoa Quebrada e não parar em Morro Branco. Cheguei em Canoa dois dias antes do Rodrigo e aproveitei um pouco do sossego do lugar.

 

Apesar de ser muito bela, Canoa Quebrada também passa por um processo de super urbanização. Existe até um loteamento que mede quase o tamanho da vila que já existe. Há pousadas em excesso, bares em excesso e turistas em excesso. É bom corrermos para conhecer tudo antes que nada mais sobreviva intacto.

 

Ali mesmo em Canoa Quebrada, eu e o Rodrigo resolvemos seguir separados. Existiram muitos motivos para essa decisão e cada um de nós temos nossas razões. Passamos 120 dias viajando e nossa convivência era praticamente de 24 horas. Dormimos até na mesma cama em Belém. O desgaste foi inevitável.

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