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MONTÃO DE TRIGO - Litoral Norte Paulista - Remar até Morrer


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                                                                                    MONTÃO DE TRIGO

          Deitado naquele caiaque de plástico amarelo, vejo o céu qualhado de estrelas, enquanto ele roda sem rumo, num vai e vem de ondas que sobem e descem, chacoalhando feito uma máquina de lavar. Ao meu redor, uma escuridão avassaladora e a única coisa que enxergo são as luzes ao longe, numa ponta distante que deduzo ser para onde devo seguir. Fico me perguntando que fim levou o Alexandre, teria sido tragado para o fundo do mar ou estaria em segurança em algum lugar da costa, mas não há tempo nem para procurar tais respostas, preciso me levantar dessa inércia que me cooptou, mas como, se não consigo forças nem para me colocar sentado? Maldita hora que fui ter essa ideia estupida, ainda por jamais ter remado em mar aberto em toda minha vida. Meus braços mal conseguem se mexer, meu peito queima, minhas costas estão imprestáveis, não sei para onde ir, é provável que eu vá explodir em algum paredão de pedra e se isso acontecer, não sei se vou conseguir nadar até a praia, dessa vez fui longe de mais, passei dos limites por me enfiar em terreno que não domino, é o preço que se paga por ser marinheiro de primeira viagem, na verdade, estou mais para naufrago de última viagem.

          Num sábado de sol, estava eu às voltas com afazeres domésticos, quando o Alexandre Alves me liga:

          - O Diva, vamos comigo para São Sebastião? Você sabe que estou treinando remo aqui na lagoa perto de casa e acho que chegou a hora de experimentar remar no mar e estou querendo ir lá para aquela tal de ILHA MONTÃO DE TRIGO.

          - Num sei não Alexandre meu velho, acabei de retornar do litoral no último final de semana.

          - Vamos lá amigão, você fica de boa lá na praia, pode levar sua prancha de surf e tentar ver se consegue ficar em pé encima dela, já que você falou que queria aprender a surfar.

          Verdade mesmo que eu não estava animando para sair num domingo de madruga, enfrentar 05 horas de estrada e depois voltar no mesmo dia, mas o Alexandre é daqueles caras bacanas de mais, então acabei cedendo ao convite somente para não deixar ele na mão e resolvi que ia  lhe fazer companhia, nem que fosse só para ficar sentado na areia fazendo castelinhos.

          Para ajudar o Alexandre na sua saga oceânica, fui buscar informações com uns amigos que já haviam remado naquela região e todos me disseram as mesmas coisas: Fala pra ele não ir para o Montão de Trigo sem experiência de mar, melhor ele fazer o roteiro das ilhas perto da costa, remar para AS ILHAS, ILHA DAS COUVES e finalizar na ILHA DOS GATOS, que seria um roteiro mais adequado para quem nunca entrou com um caiaque no mar antes.

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          Liguei para o Alexandre e passei os betas, as informações colhidas com quem já remava a algum tempo, com quem já tinha experiência com caiaque oceânico, mas o Alexandre já mandou a real, bem na minha cara, sem rodeios.

          - O Divanei, cara, aí, eu não quero fazer o roteiro que todo mundo faz não, tô descendo para o litoral em um bate e volta alucinante com o objetivo de ir até o Montão de Trigo, vc tá ligado que a gente gosta de fazer coisas diferente, não gostamos das mesmices de sempre, vamos sempre à procura de aventura.

          Fiquei espantado com as palavras do Alexandre, mas nem falei nada, sabia eu que o “miseravi” estava certo, quem era eu para repreender tal atitude, logo eu que sempre fui desprovido de bom senso, então que ele fosse lá se lascar nessa tal Ilha do Montão de Trigo, que eu mal sabia onde ficava, mas não demorou muito e ele me ligou novamente:

          - Diva, cara, olha só, consegui contato com um local lá no litoral e consegui um caiaque pra gente alugar pra você, assim não precisa ficar só parado o dia todo na areia.

          Bom, eu era outro que jamais tinha remado no mar e minha experiência não passava de uma voltinha com um caiaque alugado em Picinguaba e outra volta de meia hora com um amigo na Ponta da Figueira, no fim do ano passado, nada mais que isso e  nem contava pra coisa nenhuma. Mas tava bom, poderia ficar matando o tempo na beira da praia enquanto o Alexandre ia se aventurar mar adentro, mas mesmo assim, fiz questão de levar meus equipos de sobrevivência, sem eles, não importa onde eu vá ou no que eu me meta a fazer, pareço estar nu.

          Pouco antes das 4 da manhã, Alexandre passou na minha casa e me apanhou e a viagem até o litoral foi tranquila, fomos batendo papo e mal vimos o tempo passar, só deu uma enroscada pra chegar na PRAIA DA BARRA DO SAHY, porque acabamos entrando no lugar errado e fomos parar em Juquei, mas logo corrigimos o rumo.

          Mal encostamos na praia e já demos de cara com o nativo que iria nos alugar o caiaque. E era como eu imaginava: um caiaque de plástico, daqueles abertos, que minha ignorância não sabe nem dizer o nome, mas se o caiaque não era lá grande coisa, a pessoa que iria rema-lo valia menos ainda, no caso eu.

          Colocamos os 2 caiaques na água, mas sinceramente, ainda não tinha a menor ideia do que iria rolar, só sabia que a intenção do Alexandre era ir para o Montão de Trigo, uma ilha que mal dava pra ver ali da praia. Na minha cabeça, vendo um conjunto de ilhas infinitamente mais perto que esse tal Montão de Trigo, pensei que poderia seguir com o Alexandre até elas pelo menos, talvez meus braços dessem conta de remar até lá, não era possível que eu não desse conta de remar uns 2 ou 3 km, mesmo nunca tendo remado na vida, mas pensando bem, ainda teria a volta, mas foda-se, ia tentar assim mesmo.

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    (Praia Barra do Sahy)

          Quando os caiaques caíram na água, fiquei meio apreensivo, pensando o que seria de mim se não conseguisse nem sair do lugar, preocupado em não dar trabalho para o Alexandre. Amarrei minha mochila estanque na traseira, nela levava além de 2 litros de água, roupa seca, camisa de neopreme, primeiros socorros, bussola, anorak, capa de chuva, comida de emergência, lanternas e até um cobertor de emergência, mesmo sabendo que não passaria ali da primeira ilha, mas não poderia deixar de estar preparado, ainda mais eu que sempre vomitei aos 4 ventos que as pessoas quando sai para uma trilha, precisa estar preparado sempre para o pior, no mar, não poderia ser diferente. No caiaque oceânico do Alexandre, com compartimento para carga, ia mais água, os lanches e outros equipamentos de emergência e foi assim, depois de verificar tudo, que dois caipiras entram no mar, vencendo as ondas iniciais, remando o mais de pressa que podem para não serem jogados de volta à praia.

          Entro no mar tentando manter o caiaque reto, sem dar chances de uma onda me pegar de lado. O bico da minha embarcação sobe, como se eu estivesse nos velhos barcos vikings da minha infância. Meto o remo na água e tento remar o mais depressa que posso, mas sou arremessado para trás e quase volto ao ponto inicial. Dobro a força dos braços, quebro a arrebentação, caiaque sobe, caiaque desce, ganho 30 metros de distância da praia e me estabilizo definitivamente e aí tenho tempo para apreciar a transparência da água, finalmente me sinto um homem do mar, agora é tentar alcançar o Alexandre voador, que já vai longe com seu caiaque oceânico.

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          Como primeiro objetivo, embicamos nossos caiaques em direção a ilha que recebe o subjetivo nome de AS ILHAS. Porque desse nome, não consegui descobrir, talvez por ao longe parecer 2 ou 3 ilhas, sendo que é apenas uma. Então para lá nos dirigimos e não passa mesmo de mais de 2 ou 3 km de distância entre a praia da Barra do Sahy e a ilha, mas para quem nunca se viu sozinho num minúsculo caiaque, em meio aquele marzão imenso, é algo que num primeiro momento assusta, mas vou me mantendo firme, colado ao Alexandre, compensando minha inexperiência e a diferença gritante de qualidade de equipamento, apenas na raiva e na força dos braços.

          No início parece que não saio do lugar, mas logo sou avisado pelo Alexandre que estamos progredindo bem e cada vez mais, vamos ficando distante da Barra do Sahy e a cada remada, mais solitário vamos nos sentindo, ainda que à nossa frente vamos mirando na praia da ilha, que é nosso foco principal. Colo de vez no caiaque do meu companheiro, na tentativa de me sentir mais confortável, porque apesar do Alexandre também não ter nenhuma experiência em mar, pelo menos já está habituado ao remo.

          Quando vamos nos aproximando da ilha ou das ILHAS, como ela é chamada, meto remo atrás de remo, ultrapasso o Alexandre e o deixo uns 300 metros para trás. Entro na área de arrebentação e sem tempo nem para pensar, sou carregado suavemente até a areia da PRAIA DE DENTRO, deslizando calmante até que possa saltar do caiaque e arrastá-lo acima da linha da maré. Foi uma saída de mar quase perfeita, nem parecia minha primeira vez. Já o Alexandre não teve a mesma sorte. Até aportou tranquilamente, mas ao sair do caiaque oceânico, tropeçou em alguma coisa e foi parar no fundo do mar, que nem era tão fundo assim, mas nos rendeu um tombo cinematográfico e várias risadas pelo batismo inesperado.

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    ( AS ILHAS)    

          A Praia de Dentro é um charme só e por estarmos num fim de semana comum, quase não há pessoas na areia, apenas meia dúzia de gatos pingados, incluindo uns remadores com uma linda canoa havaiana. Há um quiosque na ilha, mas já nos disseram que cobram os olhos da cara por qualquer coisa, então nem nos aproximamos de lá. Verdade mesmo que ficamos uns 20 minutos, até tomarmos um gole de água e do mesmo jeito que chegamos, partimos, e nem chegamos a investigar muito sobre as belezas do lugar, mas me pareceu mais um daqueles paraísos perdidos do Litoral Norte Paulista e valeria uma nova visita, com mais calma, apenas para ficar por ali mesmo, curtindo um ócio, mas nós viemos para remar e quando o Alexandre deu o start, partimos, aproveitando que as ondas quase inexistiam naquele momento e voltar para o mar foi como brincadeira de criança, coisa bem diferente da volta.

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          Saímos remando no sentido anti-horário, primeiro para oeste e depois corrigindo o rumo para sudoeste, como se fossemos dar a volta na ilha mesmo, mas nosso pensamento é irmos conhecer a outra ilha que fica atrás dessa, por isso vamos remando rente ao costão, mas não tão perto para não sermos jogados contra os rochedos, até que nos surpreendemos com mais uma prainha encantadora. Ali estava a PRAIA DE FORA, vazia e silenciosa e combinamos de visitá-la na volta, por isso passamos batido, ainda eufóricos pela empreitada que estávamos nos submetendo e ainda por parecer que estávamos indo muito bem.

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          Passamos pelo canal que separa AS ILHAS da próxima ilha e fomos nos dirigindo para um píer que avistamos de longe e 2 km depois da Praia de Dentro, aportamos na ILHA DAS COUVES DE SÃO SEBASTIÃO. Não há praias nessa ilha, por isso desembarcamos numa bela piscinas naturais do lado esquerdo e puxamos os caiaques para cima das pedras e fomos nos apresentar para umas pessoas que papeavam ao lado do píer, que imaginamos que fossem os donos da propriedade e do camping que eli existe. No píer, algumas pessoas brincavam na água, uns campistas que por lá estavam. À sombra de uma árvore, nós pusemos a conversar com os proprietários e pergunto sobre a distante Montão de Trigo e como sempre, as informações são desencontradas, ninguém sabe informar quanto tempo se levaria para lá chegar, um senhor chega a cogitar que poderia levar umas 5 horas de remo. Mas é o Alexandre que acaba me surpreendendo e cochicha no meu ouvido com seu sotaque carioca:

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        ( ilha das Couves)

            - Aí Divanei, deixa eu te falar umas paradas, não vou mais para o Montão de Trigo não, aquela ilha é longe pra caralho, tá lá na puta que o pariu, vamos ficar por aqui, curtindo essas ilhas mesmo, se é louco a gente enfrentar esse mar , aí .

          Não sei, o simples fato do desafio já começa a tomar conta da minha cabeça, meu cérebro simplesmente desliga a chave do bom senso e quando alguém diz que é algo impossível (pelo menos para a gente como nós) eu só consigo ouvir a palavra AVENTURA, como uma voz lá no fundo do inconsciente, gritando para que a gente ir – vai lá Divanei, o que pode dar errado, talvez nunca mais vocês tenham outra chance.

          - Alexandre, meu caro amigo, já viemos até aqui, o tempo parece que vai se manter firme, o mar tá balançando pouco, eu estou me sentindo bem fisicamente e se você tiver paciência comigo, acho que a gente poderia encarar essa travessia para esse tal de Montão de Trigo.

          O Alexandre ponderou, pensou , pensou :

          -Aí caraca, então vamos nessa merda, Divanei, já tamo aqui memo.

          Eu nem esperava outra resposta, o Alexandre foi provocado e respondeu à altura, sabendo que quando a gente se junta não é para fazer o comum e não importa em que esporte seja, sempre vamos estar em busca de algo a mais e remando nunca que iria ser diferente.

          Nos despedimos do pessoal da Ilha das Couves e botamos os caiaques no mar, remando sobre as piscinas naturais na beira do píer, vendo o Montão de Trigo lá na puta que o pariu, como dizia o Alexandre. O mar já não era mais aquele mar liso do início, mas ainda nos pareceu favorável e naquele sobe e desce, botamos força nos braços e nos impulsionamos, agora em mar aberto, sem a proteção psicológica do continente e nem das ilhotas, dois homens perdidos num oceano de águas salgadas, tentando esconder seus medos de principiantes, se segurando agora na vontade de reencontrar terra firme.

5f73856226c3a.jpg( Ilha dos Couves)
         

          Pouco depois de partirmos, somos parados por uma embarcação e coube ao Alexandre desenrolar a solicitação de parada. Por incrível que pareça, nesse barco se encontrava nada mais, nada menos que uma LENDA DO CAIAQUE NACIONAL. Fábio Paiva, dono da fábrica de Caiaques OPIUM, simplesmente o cara que introduziu a canoagem oceânica no Brasil, ganhador de tudo que é prêmio relacionado ao esporte. Inclusive, o Fabio ficou encantado em encontrar um dos seus caiaques, fabricado por ele, sendo remado pelo Alexandre e segundo nosso amigo, se ofereceu até para comprar de volta. O Alexandre relatou que pensávamos em ir no Montão de Trigo, mas que por não termos muita experiência, não estávamos seguros quanto a nossa capacidade e é aí que a gente consegue enxergar quem são os verdadeiros incentivadores, ao invés de ficar cagando regra, o Fábio nos incentivou a ir, nos deu forças para continuar enfrente.
          Nessa primeira experiência em mar aberto, o pensamento corre longe, num primeiro momento, ficamos a nos perguntar quão estúpida foi aquela decisão, não levamos em conta uma mudança repentina do mar, já que o tempo estava muito quente e poderíamos até termos um tempestade na volta ou sei lá, sermos pegos por alguma corrente que nos levasse para longe da ilha, meio que aqueles pensamentos cretinos de quem não conhece bulhufas nenhuma das coisas do mar, dois tontos que vivem no interior do Estado, desacostumado com os procedimentos de navegação. Mas, já estávamos totalmente comprometidos com a aventura, voltar atrás não era mais possível, então, levantamos a cabeça e remamos, remamos como nunca havíamos remado na vida, com a cabeça erguida, subindo e descendo, para baixo e para cima, até não aguentar mais, até pararmos e quase cairmos morto no fundo do caiaque.

          Paramos por um breve momento, eu já comecei a dar sinais de cansaço, na verdade, meus braços já estavam começando a queimar e um desconforto lombar já começava a me fazer querer mudar constantemente de posição, então aproveitei  para me sentar de lado no caiaque, botar as pernas para fora, com os pés dentro d’água, um claro sinal de que a vaca começava a ir para o brejo.

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          Depois dessa última parada, o Alexandre disparou na frente, segundo ele, era para ver se me convencia a me animar a remar mais rápido, mas que na verdade, só me fez me sentir um coitado, um remador de merda, perdido naquele mundão de água e parece que quanto mais rápido eu tentava remar, mais distante aquela maldita ilha ficava. Enquanto eu já ficava mareado de tanto sobe e desce, Alexandre desapareceu por completo das minhas vistas e eu já não conseguia mais identificar sua presença no mar em meio a outras embarcações que despontavam no horizonte. O jeito foi remar, remar e remar, ir vendo a ilha crescendo diante dos meus olhos, 300 metros de altura a me assombrar, procurando localizar em que parte estava o porto, tentando identificar alguma habitação que satisfizesse minha ânsia de chegar. Eu já estou em estado lastimável, tento achar energia sei lá de onde, é o último fôlego disponível, a última barrinha de energia, até que atinjo finalmente as encostas, onde o Alexandre já me espera com cara de poucos amigos.

 

           Eu pensando que o Alexandre estava meio puto comigo por eu ter me atrasado quase meia hora, mas o menino estava era mesmo muito puto com os moradores da ilha que não deixou ele aportar o caiaque no PORTO DE VARAS. Contou ele que o morador que se apresentou como líder da comunidade, foi de uma estupidez sem tamanho, mesmo o Alexandre dizendo que nem queria acessar a comunidade, apenas usar o porto para descansar por uma meia hora, antes de tomar o caminho de volta. Mas isso não era nenhuma novidade, já haviam relatos de outros que ali chegaram e foram tratados com desdenho por essas pessoas, que parece quererem se esconder atrás dos seus dogmas religiosos, numa hipocrisia sem tamanho. Talvez não sejam todos como esse senhor, mas o simples fato de deixarem esse tipo de gente como líder, também os faz coniventes com essa patifaria toda. Mas mandamos esses caras à  merda e ao adentrar uma piscina natural ali ao lado, conseguimos puxar os caiaques para cima de uma grande rocha e comemoramos nossa travessia , que mesmo com todos os percalços, foi um grande sucesso, ganhamos definitivamente a ILHA MONTÃO DE TRIGO, impossível é coisa que ainda procuramos nessa vida.

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    ( Porto de Varas a esquerda da foto)

          Nos sentamos sobre a pedra, junto a PISCINA NATURAL e ficamos observando as belezas das rochas da ilha, que são muito parecidas com as formações rochosas das Agulhas Negras de Itatiaia, lembrando até um pouco das Ilhas Seicheles no Oceano Índico. É um cenário realmente encantador e havíamos até conversado sobre a possibilidade de subir até o alto da Ilha, mesmo que fosse por algum caminho alternativo, mas esses planos foram por água abaixo quando o Alexandre me perguntou se já passava das 13 horas e me viu responder que já passava era das 3 da tarde.

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          Foi um desespero mútuo, uma correria dos infernos para engolir o lanche, beber o suco gelado, enquanto o Alexandre descia rapidamente seu pequeno drone, a fim de ganharmos tempo para sairmos vazados o mais rápido possível. Dentro de nós, um sentimento de que iríamos nos ferrar bonito, a possibilidade de voltar remando a noite já era realidade e com o mar ficando cada vez mais balançado, a preocupação já começava a querer beirar a agonia. Chutamos os caiaques para o mar e pulamos para dentro deles e sem nem pensar muito, nos pomos a remar, agora contra o tempo, mas eu não havia descansado nada e ainda sentia o peito e os braços queimarem, mas como eu sempre digo: O desespero é que move o homem antes da derrota final, era preciso continuar, seguir em frente até não aguentar mais.

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          Dois km antes de chegarmos ao Montão de Trigo, o Alexandre se ofereceu para me rebocar, mas meu orgulho foi tamanho que nem se quer passou pela minha cabeça aceitar tal ajuda, mas agora, remando de volta, talvez essa ajuda fosse bem-vinda, mesmo porque, o caiaque do Alexandre era muito mais rápido que o meu e ele estava um pouco mais preparado. Mas fiquei só na vontade, Alexandre velho, sumiu na frente e poucas vezes eu consegui alcançá-lo, ainda mais que agora éramos obrigados a remar num vento lateral, nos jogando sempre para a direita, dificultando ainda mais a gente nos mantermos no rumo. O Alexandre me confessou que estava bem mareado e não tardaria em botar os bofes para fora. Eu também estava um pouco enjoado, coisas de principiantes, mas quando resolvia parar por alguns segundos para retomar o fôlego, além de passar mal, ainda tinha que ouvir os gritos do Alexandre me alertando que deveria seguir ou iríamos ficar muito tempo remando no escuro, correndo até o risco de sermos atropelados por alguma embarcação.

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          A paciência do Alexandre comigo chegou ao fim, teve uma hora que ele não aguentou mais e picou a mula, deu linha na pipa, mas eu nem estava mais ligando, já me encontrava resignado com minha condição e só fazia tentar me manter em movimento, nem que fosse com um mínimo de esforço, só pensava em continuar remando, remando, remando....... O dia já não mais existia, apenas uma penumbra ainda nos fornecia uma leve iluminação, mas sem os óculos, eu mal enxergava as ilhas à minha frente, apenas via alguns vultos e para lá tentava remar ou ao menos, tentava continuar me movimentando. O Alexandre já havia sumido das minhas vistas faz tempo e foquei minha remada olhando apenas para o canto das ILHAS , deixando para trás a Ilha das Couves, mas quando emparelhei nela, já não mais conseguia remar. Tentei até remar deitado no caiaque, mas não conseguia manter a direção, então apenas permanecia estático por alguns minutos, tentando me livrar das dores nas costas, já que os braços eu nem sentia mais, porque já eram órgãos imprestáveis que apenas pareciam fazer peso no meu corpo. Como era um caiaque aberto e até bem estável, pensei que poderia melhorar a postura tentando remar em pé, vai que dava certo, mas a única coisa que consegui foi ir para no fundo do mar e emergir desesperado procurando voltar para o caiaque , tendo que  resgatar meu remo quase no escuro, mas que ideia mais cretina.

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          Mas era preciso continuar e não sei nem como continuei, acho que me valendo de uma energia psicológica quando ao longe avistei a praia e para lá me dirigi, só para descobrir que aquela era só a Praia de Fora, que havia esquecido que existia, então nem desembarquei, óbvio, segui me arrastando e quando fiz a curva, embiquei meu caiaque para a ponta da Praia de Dentro das ILHAS. Dessa vez o mar já não estava tão calmo como estava de manhã e era preciso encarar a pior parte de quem rema, que é fazer a entrada na praia. Sempre ouvi dize que é preciso entrar com o caiaque reto, o mais reto possível, então é isso que eu faço, alinho meu caiaque, embico para praia e espero que uma onda entre para que eu possa pegar uma carona. Quando ela aparece, remo o mais rápido que meu braço possa aguenta e subo junto com ela, mas nem tempo de gritar, dou um rodopio, viro de lado e me transformo em passageiro do destino e não tardo em ser jogado na areia, de ponta cabeça, a cara enfiada na praia, eu de um lado, caiaque do outro, remo do outro. CARALHO DOS INFERNOS.

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    ( Praia de dentro pela manha( calma), mas a noite com ondas.)  

          Me levanto muito puto, mas muito puto, é pouco. Desviro o caiaque, apanho o remo e saio arrastando pela areia da praia, tentando encontrar o Alexandre que já se encontrava no outro extremo, tentando ajudar uma pequena embarcação, que se encontrava atolada na areia. O Alexandre me pergunta se estou bem, nem forças para conversar eu tenho mais, apenas pego duas lanternas no meu estojo de primeiros socorros, dou uma para ele e fico com a outra. Acendo a minha do modo luz vermelha e ele no modo piscante. Ao longe, muito mais longe do que parecia, avistamos umas luzes meio que apagadas. Pergunto para ele para onde vamos seguir e ele me diz que acha que devemos remar em direção a grande ponta, mas sem aquela certeza e antes mesmo de conversamos mais sobre o assunto, ele bota o caiaque no mar e vai ser perder na escuridão da noite, ainda que no começo eu consiga identificar a lanterna dele piscando.

          É preciso encontrar forças, físicas e psicológicas e o simples fato de voltar ao mar já me embrulha o estômago, enjoado, mareado, destruído fisicamente, um homem atormentado pela sua condição de principiante. As primeiras remadas nessa derradeira travessia faço com cara de choro, dores terríveis são desencadeadas, mas vou avançando, na escuridão da noite, num mar que balança para cima e para baixo. Não tardou em eu já não localizar mais o Alexandre e agora sou um navegador solitário, estou por conta e risco. Miro na ponta quase escura, onde meia dúzia de luzes fracas me servem como um farol em busca da minha salvação. Remo com um braço só e vou alternando com o outro, não saio muito do lugar, não avanço, então volto a buscar energias para não desistir de vez.

          A progressão é lenta, a resignação é bruta e chega uma hora que não há mais como seguir, o limite parece ter chegado. Deito-me no caiaque, estico o corpo, recolho o remo e ali fico prostrado, entregue a minha própria solidão, num vai e vem sem rumo, num sobe e desce sem destino, apenas olhando as estrelas do céu, sem me importar do que vai ser de mim. Pareço estar a meio caminho de lugar nenhum, um homem inerte, sem coragem nem para pensar, apenas ali, estático, sendo levado ao sabor do vento. Por uns 10 minutos é assim que permaneço, até me dar conta que se eu não fizer nada por mim, ninguém irá fazer. Me levando, tomo meu assento e continuo tentando remar com os ombros e não com os braços, como foi o conselho que me deram antes de enfrentar essa aventura, mas isso não resolve, não tenho técnica para isso.

          É para ponta que eu remo, é para lá que minha alma deseja chegar, mas num estalo repentino, descubro que a única coisa que vai acontecer é eu me chocar com os costões rochosos, porque aquelas luzes não são da praia e agora, aquele homem que já não encontrava mais forças para nada, é obrigado a remar desesperadamente para escapar de um destino inglório. Desviei o rumo para a esquerda, não passava pela minha cabeça explodir nos rochedos. Fui remando paralelo a ponta, tentando ver algum vestígio que me dissesse para onde seria a praia, ainda mais por me lembrar que ali mesmo havia a foz do Rio Sahy e eu nem saberia precisar qual o tamanho da encrenca enfrentaria caso me encontrasse com a desembocadura desse rio enfrentando o mar, então só fiz tirar forças para remar ainda mais para esquerda, procurando o fundo da areia caso eu precisasse pular fora do caiaque em caso de emergência. Minha preocupação era me fuder toda ao chegar na praia, a noite e sem enxergar nada. Enquanto estava envolto na minha saída do mar, fui agraciado com um cardume de peixes enormes, pulando na frente do caiaque e mesmo na situação em que eu me encontrava, não teve como não me emocionar com tamanha beleza.

          A ficha caiu quando percebi que estava realmente perto da foz do Rio Sahy e por um breve momento, avistei a faixa de areia da praia. A minha preparação para o pior foi acontecendo. Já havia dado como certo que mais uma vez seria estraçalhado pelas ondas, era certo que seria cuspido pelo mar, sem dó nem piedade, por isso pensei em me jogar na água e deixar que o caiaque explodisse na areia, mas não tive tempo, uma onda subiu o meu caiaque, me elevou como se eu fosse uma prancha de surf: “Minha Nossa Senhora, vou me foder todo, ai, ai, ai,  caralhoooooooooooo..........” O caiaque subiu, balançou para cá e para lá, surfou, embicou para a praia, enquanto eu remava desesperado, tentando mantê-lo reto, até que bateu o bico na areia e deslizou suavemente até a linha da maré. Pulei para fora, cai de barriga para cima e por lá fiquei alguns minutos, olhando para o nada, quase chorando, um misto de vitória, êxtase, satisfação pessoal, como um naufrago que alcança a glória, 3 km,  dez horas entre o céu e o mar.

          Levantei a cabeça, e no outro canto da praia, avistei as luzes piscantes do Alexandre. Apanhei a cordinha do caiaque e como fiz na Praia de Dentro, arrastei-o até o meu amigo. Encontrando ele, nos cumprimentamos, NOSSA MISSÃO ESTAVA CUMPRIDA. E foi assim, que dois remadores inexperiente, moradores do interior do Estado, resolveram abandonar as mesmices da vida, para se aventurarem num esporte novo, enfrentar seus medos, desafiar o desconhecido, para fazer a vida valer a pena, como sempre fizemos e esse vai ser sempre o nosso compromisso com o mundo da Aventura, seja lá qual seja for, nas montanha, nas trilhas, nos rios ou no MAR.

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       ( foto Earth-Altahair de Morais) - AS ILHAS - ILHA DAS COUVES E MONTÃO DE TRIGO.                                                                       

                                                                                   Divanei- setembro/2020

         

 

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