São Luís – Maranhão


“Nem Amazônia nem Nordeste”, o Maranhão é um Estado ímpar e sua capital, São Luís, uma ilha cheia de cores, ritmos e encantos.
O rio Anil divide a São Luís moderna do Centro Histórico e uma ponte chamada José Sarney liga uma a outra. Só indo ao Maranhão, mais precisamente à capital, você vai entender a paradoxal admiração à “ponte” que, por exemplo, detém toda a rede de comunicação do Estado e que ao mesmo tempo, mesmo não inteiramente, leva a imagem local ao resto do Brasil. Passando por suas estradas e vendo às suas margens casas de pau-a-pique sem saneamento, o corre-corre nas ruas para guardar um carro, engraxar um sapato, vender-lhe um picolé, no trato das pessoas… você compreenderá todos os sentidos de “ponte”. Mas, deixando de lado as mazelas das capitais brasileiras, São Luís é só riqueza.
No Centro Histórico são mais de 3500 prédios tombados. A cidade é Patrimônio Cultural da Humanidade (Unesco, 1997). Na Praia Grande está a maior concentração de prédios já restaurados e é ali onde turistas e ludovicences se encontram. As ruas estreitas, de pedra, ficam tomadas por cadeiras onde o que rola é cerveja e música ao vivo.

Vista a partir do Centro Histórico mostra ao fundo a São Luís moderna - Foto: Silnei L Andrade / Mochila Brasil
Vista a partir do Centro Histórico mostra ao fundo a São Luís moderna – Foto: Silnei L Andrade / Mochila Brasil

Música, ritmo e dança

Jamaica Brasileira! São Luís é mais que reggae. Você deve ter ouvido falar muito nisso, nas radiolas (imensas caixas amplificadoras) em algumas ruas ou bares; talvez não tenhamos tido sorte ou não andamos pelos lugares certos, pois não nos deparamos com elas.
O reggae veio pelas ondas curtas do rádio (vindas do Caribe) e como boa parte dos Djs não fala(va) inglês é(ra) comum batizarem grandes sucessos com um nome em português cuja “pronúncia” lembre o refrão em inglês, como o “White witch gonna get you” que virou o Melô do Caranguejo – Típica criatividade brasileira!
Ainda da rica herança negra estão ritmos como o Tambor de Crioula, dança na qual somente mulheres participam e o Cacuriá, misto de dança e brincadeira prá lá de sensual.

Muito mais interessante do que estudar sobre ou ouvir falar de…

Para muitos que estão nos grandes centros urbanos ou longe do norte e nordeste do país, folclore é assunto de alguma matéria escolar. No Maranhão, o “Bumba-meu-boi”, uma manifestação folclórico-religiosa tem destaque e se informar sobre ou assistir alguma apresentação local é boa pedida para conhecer um pouco mais de nossas raízes, ainda que tão distantes estejamos delas.
Teatralidade e musicalidade mostram todas as pitadas que fizeram do Brasil, Brasil. É a mistura de nossas etnias. Índio, caboclo e branco encenam a morte e ressurreição do boi nos mais vibrantes “sotaques”. (Mais sobre os “sotaques” do Boi maranhense no final deste post).
As apresentações do boi têm todo um ritual e seu auge ocorre entre 18 e 30 de junho, período em que os brincantes homenageam os santos juninos (Santo Antônio, São Pedro, São João e São Marçal).

Brincante com fantasia de Bumba Meu Boi no Centro Histórico de São Luís - Foto: Silnei L Andrade / Mochila Brasil
Brincante com fantasia de Bumba Meu Boi no Centro Histórico de São Luís – Foto: Silnei L Andrade / Mochila Brasil

Curiosidades e lendas

Além de ficar com um leve torcicolo de tanto admirar as construções do Centro Histórico, fique atento aos nomes ou antigos nomes das ruas da cidade. Imagine-se no:
Beco da bosta – Calma! Hoje o local se chama Travessa 28 de setembro. Ali é um beco estreito por onde transitavam escravos carregando os tonéis de excremento das famílias para jogá-los na maré.
Rua do Veado – Hoje rua Barão de Itapay. Um prefeito tentou trazer o nome de volta à rua e viu surgir na esquina uma placa escrita por moradores “rua do prefeito”!
Beco do Quebra-bunda, Montanha Russa ou Rua da Inveja são outras das tantas curiosas ruas desta capital.

Casarão com fachada de azulejos – Foto: Silnei L Andrade / Mochila Brasil

Os azulejos

De acordo com a Balança Geral do Comércio de Portugal, entre 1776 e 1800, 107.402 azulejos chegaram à São Luís. Eles foram instalados nos prédios a mando dos portugueses, uma lição herdada dos árabes afeitos à tradição da azulejaria. O clima quente e úmido, além da chuva faziam com que o reboco e a caiação das casas estragasse e, as peças portuguesas, francesas, belgas e alemãs, hoje verdadeiro patrimônio se fizeram fachadas.

Piada Oficial

…O membro da Academia Brasileira de Letras e ex-presidente José Sarney escreveu um livro chamado “O dono do Mar”, e certamente você ouvirá por lá o satírico comentário: “Ele fez até um livro, o ‘O dono do Mar, ranhão'”.
(Para saber mais sobre curiosidades, origem e eventos da cidade uma boa dica de leitura é a obra Caminhos de São Luís, de Carlos Lima. Editora Siciliano, 2002, de onde foram extraídas algumas informações contidas nesta matéria).

Outras lendas que você certamente ouvirá quando chegar à São Luís são a da serpente adormecida no subterrâneo da cidade e da Carruagem de Ana Jansen. A primeira diz que a serpente cresceria sem cessar ao redor da ilha até que sua cabeça e calda se encontrassem; neste dia ela despertaria e afundaria São Luís. Já a segunda fala que nas noites de sexta-feira a escrava que se tornou uma malvada senhora, capaz de matar escravos desobedientes, passearia pelas ruas da cidade numa carroagem puxada por cavalos e um cocheiro decapitados. Cuidado, pois se receber uma vela de Ana nesta noite, no dia seguinte terá em mãos um osso humano! Muitas coisas na cidade levam o nome Jansen, há, por exemplo, uma lagoa olfativamente poluída que fica do lado moderno da cidade.

Brincantes de Bumba Meu Boi | Foto: Silnei L Andrade / Mochila Brasil
Brincantes de Bumba Meu Boi | Foto: Silnei L Andrade / Mochila Brasil

Mais atrações

Praias – o mar de São Luís tem tons escuros devido ao grande número de rios que ali desembocam. As praias são urbanas e todo tipo de carro circula por suas areias. Além disso, muitas são tomadas por quiosques e ficam à beira de avenidas. Ou seja, se você busca praias belas e tranquilas, São Luís pode não ser o destino ideal.
Fundação da Memória Republicana e Memorial José Sarney Fica no antigo Convento das Mercês, um prédio de 1639, construídos por espanhóis mercedários vindos de Belém (PA).
No local estão objetos utilizados pelo ex-presidente e também sua lápide para futuro “descanso”. Rua da Palma, 502.
Cafuá das Mercês pequeno sobrado onde ficavam os escravos que estavam à venda. Rua Jacinto Maia, 43, ao lado do Memorial José Sarney.
Casa do Maranhão exemplares dos “sotaques” do Bumba-meu-boi e instalações falando sobre os demais atrativos do Estado. Fica na Praia Grande. Aberto de terça a domingo.
Palácios La Ravadière (construído em homenagem ao fundador da cidade, Daniel de La Touche. Data de 1689) e Dos Leões (abrigava a Fortaleza de São Luís, foi contruído por franceses em 1766).
Das igrejas, vale uma olhada na Igreja do Desterro. Foi construída onde os primeiros colonizadores fizeram uma capela em devoção à Nossa Senhora do Desterro e  saqueada pelos holandeses em 1641. Hoje, ali funciona um pequeno museu de arte Sacra. Para quem gosta de arquitetura, o prédio é o único do Brasil a ter traços bizantinos.
É conhecida como a primeira igreja do Estado, construída em 1618. Fica no Largo do Desterro.

Alcântara

De São Luís é possível partir em barco para Alcântara; cidade continental que abriga ruínas dos tempos coloniais e a base aeroespacial brasileira.

Lençóis Maranhenses

Uma estrada asfaltada liga São Luís à cidade maranhense de Barreirinhas, uma das bases para a visita aos Lençóis Maranhenses (leia aqui)

Onde ficar

Pousada Portas da Amazônia Sobrado do século XVIII que foi reformado. Quarto com ar condicionado, frigobar e TV.
Pousada Colonial Prédio onde estão instalados os “azulejos cartão-postal” da cidade. Você os verá em camisetas, nas faixas dos taxis, nos artesanatos…
Albergue Solar das Pedras Albergue instalado em um casarão colonial. É ligado à rede internacional HI Hostel.

Onde comer e o que comer

Barraquinhas da Travessa Marcelino Almeida (Praia Grande): Pratos típicos vendidos em pequenas porções (vale a pena experimentar) e por preços populares.
Ali você encontra o famoso Arroz de Cuxá, entre outras delícias da diversificada culinária maranhense.
No centro histórico: Para um lanche rápido ou café da manhã, uma boa pedida é fazer uma visita ao Valéry, na rua do Giz. Croissants, pães e sucos fazem parte do cardápio.
Outro ponto legal é o Largo do Comércio onde os bares apresentam música ao vivo e as mesas ficam na rua ao ar livre.
O local, por vezes pouco cuidado, porém turístico, pode assustar alguns viajantes (sobretudo os que viajam só), mas certamente será o único ponto mais movimentado (para o bem e para o mal) do Centro Histórico.
A opção mais conhecida ali é o “Antigamente” que cobra 10% de taxa de serviço mais couvert artístico (quando há cantores), o atendimento não é rápido.
Já o Senac restaurante escola oferece boas opções com variedade de pratos.
Na orla: Na orla da praia do Calhau, por exemplo, há vários restaurantes e bares servindo os mais variados pratos.

Experimente

Tiquira: no Maranhão você encontrará a super-aguardente feita da mandioca. No Mercado da Tulhas (Largo do Comércio) encontrará as garrafas com liquido roxo, é a Tiquira. Mas nem todas possuem este tom, há também a branca.
Jesus: sim, não há dúvidas de quanto Ele é Bom, mas estamos falando do refrigerante oficial do Maranhão. Criado em 1920 tem gosto de canela é cor-de-rosa e vende como água por todo o Estado.
Arroz de cuxá: Camarão seco e gergelim fazem parte da receita da iguaria africana que se instalou de vez no Maranhão.
Frutas da região: No Maranhão você pode experimentar o Murici, o Sapoti, o Bacuri, só não peça Açaí, porque lá ele é conhecido como Juçara! Você pode encontrá-las no mercado das Tulhas (no largo do Comércio).

Serviços

Aeroporto
Aeroporto Internacional Marechal Hugo da Cunha Machado, ou Cunha Machado.

Rodoviária
Av. dos Franceses, s/n – São Cristovão. Tel: (98) 3249-0778 / 4500.


Os sotaques do Boi maranhense

Boi de matraca – também conhecido como sotaque da ilha, pois é típico de São Luís. Tem maior influência indígena, notada na organização em círculo para dançar e nas penas (artificiais).
Boi de Zabumba – criado no interior do Estado, caracteriza-se pela quantidade de fitas apresentadas. Mais uma vez é forte a influência indígena. A negra já aparece em seus tambores.
Boi de Baixada – criado na baixada maranhense, caracteriza-se pela presença do instrumento chamado pandeirão. Seus brincantes possuem chapéu em forma de meia lua e há a presença do Cazumbá. Eles são seres místicos, meio homem, meio bicho que segundo os participantes do auto trazem sorte e espantam maus espíritos dos locais das apresentações. Os Cazumbás são os primeiros a entrar na dança.
Costa de mão – como o nome diz, os pandeiros que regem este sotaque são batidos com as costas das mãos. Foi criado no interior do Maranhão, na cidade de Cururupu.
Boi de Orquestra – é o mais recente sotaque do Bumba-meu-boi, porém é o se apresenta em maior quantidade. Tem influência do branco, com passos coreografados, dança enfileirada e tem como instrumentos banjos, pistões, sax, clarinetes etc.

Fotos:

Claudia Severo de Almeida

Jornalista, há 20 anos escreve sobre Turismo Backpacker/Mochileiro e viagens independentes.
Participou do corpo de júri especializado do Prêmio 'O Melhor de Viagem e Turismo' (categoria Hospedagem - Hostel). Cocriadora do site Mochileiros.com.
Claudia Severo de Almeida

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