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17 dias no Marrocos - Relato de Viagem (parte 1)

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Chegada à Cidade Vermelha, por Luiz Fernando Niquet

 

A visão do oceano ocre através da pequena janela do avião que me levou de Lisboa à Marraquexe já era uma prenúncio do que me esperava. A inconfundível cor do norte da África, com seus diferentes tons e nuances, e ocasionais palmeiras verdes, contrastava com o azul vivo do céu de janeiro. A expectativa fazia com que esse rápido trajeto de pouco mais de duas horas se transformasse em uma longa jornada. Mas, ocasionalmente, pousamos em segurança no pequeno e limpo aeroporto da cidade.

 

Marraquexe, também conhecida como cidade-vermelha, é a terceira maior metrópole do Marrocos. Está incrustada na base da Cordilheira Atlas, que parece observar a cidade à distância, com suas montanhas nevadas, nos convidando para ir adiante. A coloração marrom-avermelhada que a caracteriza, é a primeira impressão de um viajante ao desembarcar no aeroporto de Menara. E ao cruzar as suas largas avenidas, sentado junto à janela do ônibus que me levaria à milenar Praça Djemaa El-Fnaa, esta impressão se confirma e o título de pérola do sul se mostra mais do que justo.

 

O ônibus me deixou em frente à Mesquita de Koutoubia, com seu magnífico minarete, visível de boa parte do centro histórico, e que passou a funcionar como uma espécie de localizador, nas muitas vezes em que me perdi nas infinitas ruelas da Medina. De lá, após caminhar poucos metros, estava na famosa praça.

 

Djemaa El-Fna é o centro de toda ação e de todo turismo de Marraquexe. Em um primeiro encontro, é impossível não se sentir intimidado pela multidão e pelo aparente caos. Os diferentes sons, as músicas que se misturam e os cheiros mais diversos, confundem um pouco os sentidos, e o viajante de primeira hora inevitavelmente procura recuar e observar à distância. Mas na loucura da praça, isso é quase impossível. Qualquer sinal de dúvida ou indecisão é rapidamente detectado pelas dezenas (ou serão centenas?) de rapazes e senhores que fazem do local seu campo de caça. Logo sou abordado seguidamente com ofertas de ajuda, hospedagem, comida, suco de laranja, tecido, e qualquer outra coisa que possa ser comercializada e que costume atrair a atenção dos milhares de turistas que lotam a praça todos os dias. Acuado, recuso rapidamente qualquer oferta e tento me dirigir ao Riad Andalla, onde me hospedaria nos próximos quatro dias. No meio da confusão, tento recordar o mapa que o pequeno hotel disponibilizava aos seus hóspedes pela internet, mas que eu não havia levado comigo na viagem. O trajeto parecia bem simples, e o Riad ficava a apenas alguns minutos da praça, porém na confusão da Medina, bastam alguns passos para um turista desavisado se perder de forma irremediável.

 

Após três tentativas mal sucedidas, partindo da praça e recuando diante de um beco escuro, ou de um caminho sem saída, comecei a pensar que não seria assim tão simples. A minha mochila denunciava minha situação de recém chegado, e me tornava alvo de uma atenção cada vez maior. Partindo e retornando à praça, olhar confuso buscando alguma placa ou sinal que pudesse ter passado despercebido nas tentativas anteriores, as abordagens se tornavam cada vez mais freqüentes. Por fim, contrariando meus próprios princípios e deixando um pouco de lado meu orgulho de viajante, aceitei a ajuda de um senhor que me guiou por entre ruelas e becos até o meu destino final. Ao alcançar a porta de madeira belamente trabalhada do Riad, tive a certeza que jamais teria avançado até ali sem a ajuda do meu novo amigo marroquino. Em troca de uma moeda de dois euros, pude finalmente relaxar no terraço com vista para a praça, debruçado sobre o mapa da cidade, e antecipando dezessete dias de aventuras no Marrocos.

 

(Acompanhe nos próximos posts a continuação deste relato. Foram 17 dias nos Marrocos, em janeiro de 2011, visitando diversos lugares, incluindo Marraquexe, Essaouira, Ouarzazate, Merzouga, o deserto e Fez)

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Marraquexe e uma Introdução ao Marrocos, por Luiz Fernando Niquet

 

Marraquexe talvez não seja a melhor opção de um viajante para uma introdução ao Marrocos. O labirinto de ruelas da Medina, tomado por uma multidão apressada, por mulas, carroças e uma infinidade de motocicletas provavelmente será um pouco demais para um turista iniciante. E a insistência dos vendedores, que tomam quase todos os espaços, certamente não proporciona um passeio tranqüilo ao final da tarde. Isso sem mencionar os encantadores de serpentes, macacos amestrados, contadores de histórias e outros seres que parecem retirados de um conto de fadas.

 

A maioria dos turistas e viajantes, entretanto, inicia seu roteiro com uma visita a mais famosa das cidades marroquinas. Normalmente por uma questão prática: a boa oferta de vôos baratos para a cidade. No meu caso não foi diferente. E os quatro dias que passei em Marrakesh acabaram servindo para uma abrupta adaptação à realidade berbere. Utilizando o Riad em que estava hospedado como uma espécie de bunker, realizava rápidas saídas pela Medina, sempre retornando ao hotel quando a confusão parecia demais para mim. Assim, fui me acostumando aos poucos a esse cenário tão diferente do que havia encontrado em outros países.

 

As melhores lembranças que ficaram de Marraquexe certamente foram das noites na Praça Djemaa El-Fna, quando jantamos em algumas das inúmeras barracas que tomam o local após o pôr-do-sol. Os tajines e o couscous sempre eram saborosos e não custavam mais do que três euros. E o suco de laranja estava sempre disponível, por menos do que cinqüenta centavos. Para aproveitar, entretanto, tem que se abstrair de um simples detalhe: higiene. Mas, se isso for um fator importante, então o Marrocos não é o seu lugar...

 

Além da praça, são as inúmeras lojas que compõem os Souks a outra grande atração do local. Nesses pequenos negócios, insistentes vendedores fazem de tudo para vender uma enorme gama de produtos, de lanternas e luminárias a aparelhos de chá, sandálias, tecidos, e tudo aquilo que faz parte do imaginário ocidental quando se idealiza um mercado marroquino. Mesmo consciente da necessidade de se barganhar muito, uma coisa é certa: você será enganado. A minha rotina marroquina consistia em comprar um item por um valor que considerava baixo, após negociar o preço por mais de quinze minutos, e encontrá-lo na próxima esquina por menos da metade do que tinha acabado de pagar!

 

Marraquexe tem ainda outras atrações que me mantiveram ocupado nos quatro dias que estive na cidade. Logo chegou o momento de me dirigir à estação para tomar o ônibus que me levaria à cidade de Essaouira, segunda parada desta viagem. Seria um trajeto rápido, de menos de três horas. Saindo pela manhã cedo (após mais uma rodada de negociações com motoristas de taxi), antes do meio dia estava desembarcando.

 

(Acompanhe nos próximos posts a continuação deste relato. Foram 17 dias nos Marrocos, em janeiro de 2011, visitando diversos lugares, incluindo Marraquexe, Essaouira, Ouarzazate, Merzouga, o deserto e Fez)

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Essaouira, a Pérola do Atlântico, por Luiz Fernando Niquet

 

O ônibus me deixou a alguns metros da entrada da medina, nesta bela cidade costeira do Marrocos. Em pleno inverno, a cidade estava um pouco vazia, apesar da temperatura agradável, em torno dos 15 graus, e do belo dia ensolarado. Logo, algumas senhoras vieram me oferecer acomodação, o que destoava um pouco do que havia observado em Marraquexe, onde apenas dos homens cumpriam essas tarefas. Mas, como já havia providenciado uma reserva, fui caminhando em direção ao hotel Atlas.

 

No trajeto, fui observando a beleza da costa, com sua longa praia de areias douradas, observada a distancia pela bela fortaleza e pelas muralhas que demarcavam a fronteira entre cidade antiga e as novas construções. O vento soprava forte e constantemente, o que faz desse local um dos melhores do mundo para a prática de windsurfe. As velas coloridas contrastavam com a visão monocromática da medina, compondo um belo cenário para uma caminhada.

 

Essaouira, também conhecida como “Pérola do Atlântico” e declarada Patrimônio da Humanidade, é uma cidade histórica. O esplendor desta cidade tem origem na Civilização Fenícia. Estes foram logo seguidos pelos romanos, cartagineses, berberes, portugueses e, por fim, pelos franceses. Lá termina o Mediterrâneo e começa o oceano: é a última fortificação com muralhas nas margens atlânticas, cujas casas parecem irmãs das dos "pueblos blancos" da Andaluzia.

 

Simples, despretensiosa, e bem mais calma que sua irmã em Marraquexe, a minúscula medina de Essaouira é composta por um conjunto de pequenos edifícios pintados de um branco imaculado, pontuados pelo azul-marinho das portadas das janelas. Ruas estreitas e angulosas procuram proteger os moradores dos fortes e constantes ventos alísios vindos do Atlântico, que se entranham no recato dos lares muçulmanos. No cais, a pesca mantém-se quase inalterada há séculos.

 

Para um viajante recém-chegado da loucura de Marraquexe, Essaouira era uma bem-vinda brisa de tranqüilidade. Sentado à beira-mar e observando os belos barquinhos azuis, tão característicos da cidade, senti que Essaouira poderia ser a mais agradável parada desta minha jornada. Há algo nas pequenas cidades costeiras que transmitem certa tranqüilidade e a impressão que o mundo gira em um ritmo mais lento. E, naquele momento, era exatamente o que eu precisava para recarregar minhas energias e me preparar para a longa jornada de carro que me levaria através das montanhas Atlas, até o deserto marroquino.

 

Da costa marroquina aos picos nevados do Alto Atlas

 

Um transporte organizado pelo hotel me levou ao pequeno e deserto aeroporto de Essaouira. O motorista estranhou o destino, já que só saiam vôos de Essaouira duas vezes por semana. E aquele dia não era dia de vôo. No caminho, demos carona para o oficial responsável pelo aeroporto, que aguardava ao largo da estrada. Ele também me questionou sobre o motivo de estarmos indo em direção ao aeroporto, já que o próximo vôo só saía dali a três dias. Expliquei aos dois que estava apenas indo buscar um carro alugado, que guiaria através das Montanhas Atlas até o Deserto do Saara, em seu trecho marroquino.

 

Após algumas ligeiras formalidades, a chave me foi entregue e logo estava na estrada, tentando me localizar em um grande e detalhado mapa Michellin. As estradas marroquinas eram surpreendentemente boas, com exceção de alguns trechos em obras, o que me permitia avançar em um bom ritmo.

 

No trecho inicial, entre Essaouira e Marraquexe, o fluxo de carros era razoável, e as obras atrasavam um pouco o meu avanço. Mas como seria um longo dia na estrada, e estava apenas começando, eu seguia o fluxo tentando aproveitar um pouco da paisagem. Logo após deixar a costa, seguindo o mesmo trajeto que havia feito de ônibus alguns dias atrás, a paisagem se torna árida e plana. Ao fundo, as montanhas ainda estavam longe, demarcando o destino desse primeiro dia na estrada. A monotonia inicial da paisagem foi quebrada com a incrível visão das árvores de Argan, uma espécie endêmica da região sudoeste do Marrocos. Esta árvore produz um fruto pequeno e verde, que é utilizado na produção de óleos. As cabras são particularmente atraídas por esse fruto e, por isso, passaram a viver em cima das árvores, onde se alimentam. Esse fenômeno se tornou uma atração turística, e uma parada para fotos, obrigatória.

 

Cruzar a cidade de Marraquexe dirigindo não é uma tarefa agradável. O trânsito caótico é agravado pela falta quase absoluta de placas de sinalização. O meu mapa rodoviário não me ajudava em trechos urbanos, e o que seria uma simples travessia, se tornou em um longo suplício, de quase duas horas. Não foi uma boa forma de se despedir desta bela cidade.

 

Uma hora após deixar o caos urbano, a estrada sempre tão direta começou a serpentear, anunciando que as Montanhas Atlas que avistara ao longe pela manhã, já começavam a ser vencidas. O tráfego começou a rarear, deixando claro que nos afastávamos da região populosa do país, em direção aos povoados berberes das montanhas.

 

Meu objetivo era chegar à cidade de Ouarzazate ainda durante o dia, já que dirigir no escuro das montanhas não era, evidentemente, uma boa idéia. A distância entre Marraquexe e Ouarzazate é de apenas duzentos quilômetros, mas leva-se cinco horas para atravessar esse trecho. A estrada não é das mais fáceis, com infinitas curvas enquanto subimos e descemos os Atlas. O incrível cenário, porém, fez com que as horas passassem rapidamente, e o sol tocava os picos nevados enquanto eu cruzava as avenidas largas e bem cuidadas de Ouarzazate, histórico ponto de repouso no milenar trajeto entre o deserto e a costa do mediterrâneo africano.

 

(Este post contém a terceira e a quarta partes do relato da minha viagem ao Marrocos, em janeiro de 2011)

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Ouarzazate e Ait-Bennhadou, por Luiz Fernando Niquet

 

Ouarzazate está situada na cordilheira dos Atlas, ao sul da região conhecida como Alto Atlas, e é comumente chamada de “A Porta para o Deserto”. Há milênios é utilizada como ponto de parada para descanso e abastecimento por viajantes e mercadores em suas caravanas entre o deserto do Saara e a costa do Mediterrâneo. Após um longo dia dirigindo desde Essaouira, segui a tradição e me detive nesta cidade por algum tempo, a fim de conhecer melhor suas atrações e me preparar para outro longo dia na estrada, rumo às dunas de Merzouga.

 

Ao sul de Ouarzazate, a paisagem se torna desértica. Não um deserto de areia e dunas, mas um oceano de pedras e terra seca, com seus diversos tons formando um belo cenário marrom-avermelhado. Pontilhando esse cenário árido, os kashbas resistem bravamente à ação do tempo e da chuva, apesar de serem construídas basicamente de terra batida.

 

Os kashbas são fortalezas construídas há centenas de anos como uma forma de defesa dos povos locais. Seu tamanho e beleza representavam o prestígio de uma população. Nas cercanias de Ouarzazate há um grande número dessas estruturas, e os melhores e mais bem preservados exemplos estão localizado em Ait-Benhaddou, um ksar declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1987. Ait Benhaddou está localizado ao largo de um pequeno riacho, que devemos atravessar cuidadosamente antes de cruzar as muralhas da cidade-fortaleza. Uma vez em seu interior, pode-se notar a aparente fragilidade das construções. As paredes, o piso e o teto são feitos de terra batida, pequenos gravetos e palha. Parece incrível que tenham resistido tanto tempo em boas condições. O local é composto de inúmeras casas de dois ou três andares, além de outras pequenas construções, formando um vilarejo onde até hoje habitam algumas famílias. Por longas escadas e vielas estreitas, pode-se subir ao topo da encosta onde o ksar foi construído.

 

A visão do topo de Ait-Benhaddou me fez lembrar Macchu Picchu, apesar dos cenários absolutamente distintos. Observar uma cidade histórica totalmente preservada, como se congelada no tempo, é um grande privilégio e a preservação desse local, uma obrigação. Os picos nevados no horizonte, sempre presentes, compunham com o verde oásis à beira do rio e a paisagem lunar do deserto de pedras, um cenário magnífico e único.

 

Soube pelo meu guia que o ksar é comumente utilizado como cenário em gravações de Hollywood. Filmes como Alexandre (2004), Gladiador (2000), A Múmia (1999), A Jóia do Nilo (1985), Lawrence da Arábia (1962) e muitos outros já foram gravados em seu interior. Isso acabou favorecendo a preservação e a manutenção do local, como uma forma de compensação pela utilização do espaço.

 

Antes de retornar à cidade, fiz uma breve parada nos grandes galpões que serviam de estúdio durante as gravações de Hollywood. O tour guiado nos levava por grandes cenários de isopor e por itens trabalhados em madeira, que representavam estátuas de época, bigas, armaduras e uma grande variedade de armamentos. A artificialidade e o caráter descartável desses itens contrastava com o a presença grandiosa dos kashbas e ksares.

 

Alguns locais emocionam por sua beleza e pela inevitável consciência de que é um privilégio poder observá-los de perto. Certamente Ait-Benhaddou se enquadra nessa categoria. Revigorado por esta experiência inesquecível e ansioso pelo que me aguardava nos próximos dias, parti em direção ao deserto e rumo a visões ainda mais belas.

 

O magnífico "Gorges du Dadès" e a chegada ao Saara marroquino

 

Ainda sob o efeito da espetacular visão de Ait Benhaddou no dia anterior, retornei à estrada rumo ao Saara marroquino. Deixei o Hotel Mercure Ouarzazate logo após o café da manhã, reforçado com as tradicionais panquecas locais e o sempre presente chá de menta. Os planos para o dia não estavam bem definidos. Merzouga, o meu destino final, estava um pouco distante demais, e não era certo se conseguiria atingi-lo antes do anoitecer. As condições da estrada e da sinalização não eram conhecidas e isso poderia prejudicar a velocidade média do percurso. Sendo assim, resolvi avançar até onde o tempo permitisse, e parar assim que a noite surgisse. Dirigir no escuro não seria prudente.

 

Logo após deixar Ouarzazate, entramos no que é conhecido como Vale dos Mil Kasbahs, um local belíssimo que foi assim batizado devido às muitas ruínas de antigas fortalezas berberes que se encontram ao longo da estrada. A paisagem era incrível, com suas cores variadas e seu cenário desértico. As oportunidades fotográficas são infinitas nessa região do país, e mesmo um amador como eu consegue excelentes fotografias. O céu sempre azul oferece um colorido ainda maior, e faz com que as imagens fiquem mais lindas.

 

As estradas estavam em boas condições, o que acabou sendo o padrão pelo restante da viagem. O tráfego era bem escasso, e passavam muitos minutos sem que eu avistasse outro carro na estrada. Como em um cenário de imaginação, o que se via era uma longa e reta estrada vazia, cortando uma paisagem semi-árida e quase intocada. Em pouco mais de uma hora, e após um desvio de quinze minutos da estrada principal, chegamos a um local conhecido como Gorges du Dadès. Após a visão de Ait Benhaddou, uma maravilha histórica feita pelo homem, os cenários deste cânion me surpreenderam e se igualaram na beleza e no impacto que proporcionavam ao viajante desprevenido.

 

Aquela era uma região bastante remota, que se estendia por quilômetros, cruzando as entranhas da Cordilheira do Atlas. Tentando em vão manter a concentração enquanto dirigia, admirava as formações rochosas e os desfiladeiros que marcavam a paisagem, com seus cores e tons em uma mistura única e espetacular. Dirigi por uma hora nas pequenas estradas, ora seguindo o leito de um pequeno rio, ora serpenteando pelas encostas rumo às altas montanhas. Do alto do cânion, sem uma construção ou ser humano à vista, agradeci pela oportunidade de estar ali, e me senti um sortudo por ter feito a opção por este roteiro ao invés de escolher o trajeto mais comum, o famoso trem que liga Marrakesh à Fez.

 

Distraído e hipnotizado pelos Dades, me retive um pouco mais do que deveria no local. Após aproximadamente duas horas desde que tomei o desvio à esquerda, retornei à estrada principal, rumo à Merzouga. Já passava bastante de meio dia, e ainda havia um longo caminho até o deserto. Acelerando na estrada vazia, fui observando a paisagem mudar enquanto os quilômetros eram deixados para trás. A aridez das pedras e formações rochosas foi sendo substituída pelo deserto de dunas douradas. Surgiram os primeiros dromedários ao longo da via, e cada foto era acompanhada por um pedido de dinheiro de algum menino pastor.

 

Como o deserto era um destino turístico relativamente movimentado, ao se aproximar de Merzouga começamos a observar algumas pessoas conhecidas como faux guides. São os falsos guias, que ficam a beira da estrada tentando fazer com que os motoristas parem ou reduzam a velocidade, mesmo que isso signifique parar no meio do caminho balançando os braços e obstruindo a passagem, ou mesmo pintar de negro as placas que apontam as direções, tentando confundir os desavisados motoristas. Assim, tentam intimidá-los e atraí-los para hotéis, tours ou mesmo roubá-los. Como descobri posteriormente, muitos desses falsos guias são originários da Argélia, e vivem, além do que conseguem com a tática descrita acima, da extração de fósseis que são vendidos aos turistas.

 

Cruzando esse inesperado obstáculo, seguimos com ainda mais pressa, pois o sol já tocava as montanhas no horizonte. Faltavam apenas algumas dezenas de quilômetros, mas conseguimos chegar à cidade. Finalmente parei o carro na porta do Riad Mamouche, após dez horas na estrada, quando a escuridão escondia as dunas ao largo das poucas ruas que formavam a pequena cidade de Merzouga.

 

(Este post contém a quinta e a sexta parte do relato da minha viagem ao Marrocos, em janeiro de 2011)

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17 dias no Marrocos - Relato de Viagem (partes 7 e 8 )

 

O Oceano de Fogo das Dunas do Deserto, por Luiz Fernando Niquet

 

Dizer que Merzouga é uma pequena cidade seria exagerar enormemente no seu tamanho. Chamá-la de vila já seria muito. Merzouga é pouco mais do que um grupo de casas baixas, ocres, feitas de barro e com um terraço plano onde os turistas aproveitam a vista e o café da manhã em seus Riads. O turismo é a única razão para a existência desse povoado, e a insistência com que os homens e rapazes oferecem hospedagem, passeios e tudo o mais, reflete esta dependência econômica.

 

Menos de uma hora após minha chegada apressada ao Riad Mamouche, já estava sentado em um sofá, de banho tomado, enquanto aguardava meu jantar. Surpreendentemente, o sistema de internet sem fio funcionava perfeitamente, apesar de, pela janela, enxergar pouco mais do que areia. Em um espanhol perfeito, o funcionário do Riad explicava os detalhes do passeio ao deserto, que sairia no dia seguinte às três da tarde. Ele falava sete línguas, incluindo o japonês. Mais um retrato da importância do turismo para esse povo berbere.

 

O jantar estava delicioso e incluía sobremesa, mais uma surpresa agradável neste local tão remoto. Cansado pela longa viagem, logo estava deitado. Adormeci pensando em quanto dependemos da sorte quando estamos viajando. Por mais que nos preparemos, sempre ficamos à mercê da boa vontade de estranhos, ou de acontecimentos aleatórios. Naquele dia, tudo havia corrido conforme o planejado. Rezei para que continuasse assim.

 

A manhã seguinte foi de repouso e letargia. Mas logo após o almoço já estávamos aos pés de uma duna, grande como uma montanha, chacoalhando sobre um dromedário rumo a um acampamento em pleno Saara. Seriam duas horas e meia até chegarmos às nossas tendas.

 

O oceano de fogo das dunas do deserto está além de qualquer descrição. As longas sombras projetadas pelo sol do fim da tarde tornavam a paisagem ainda mais bela. Um frenesi fotográfico tentava em vão captar tamanha beleza. Nenhuma câmera conseguiria refletir com precisão as cores do lugar.

 

Um pouco antes do por do sol atingimos nosso acampamento, cedo o suficiente para subirmos na mais alta duna, de onde pudemos observar o magnífico pôr-do-sol. Do alto da duna se via todo o deserto marroquino, com as montanhas Atlas ao fundo, nos indicando de onde havíamos vindo e para onde iríamos no dia seguinte. Mesmo na imensidão do deserto, não estávamos sozinhos. Alguns outros turistas observavam o mesmo cenário. Do alto da duna, outras barracas eram visíveis, mas estavam estrategicamente posicionadas de forma que não pudessem ser vistas ou ouvidas quando retornássemos ao nosso abrigo.

 

O jantar foi servido à luz de velas pelo nosso guia, acompanhado do chá de menta tradicional. O silêncio era absoluto e só a nossa voz era ouvida. Fora de nossa tenda, a claridade surpreendia. A luz da lua era suficiente para iluminar mesmo à distância. O frio castigava e se tornava mais intenso a casa hora.

 

Foi uma noite desagradável. Muito devido ao frio imenso que me impedia de dormir, apesar dos três cobertores oferecidos pelo guia. Um pouco também pela minha falta de preparo, já que estava apenas com uma calça jeans e um casaco, evidentemente insuficientes para o inverno no deserto.

 

De acordo com o roteiro, o guia deveria nos acordar ao final da madrugada, para que testemunhássemos a aurora. Não foi o que ocorreu. O sol já estava no horizonte quando despertei. Hassan, o guia, dormia profundamente quando passamos pela sua tenda, caminhando em direção a uma duna um pouco mais alta. Mesmo tendo perdido o nascer do sol, a paisagem era muito bela. As cores da manhã, mais suaves, eram bem diferentes do tom dourado do fim de tarde.

 

Já passava das nove horas quando Hassan apareceu, sonolento, e afirmou que devíamos partir, pois estávamos atrasados. As duas horas e meia do retorno à Merzouga foram semelhantes às do dia anterior, apesar da mudança na paisagem. O encanto com a visão do infinito deserto e a compulsão por fotos e vídeos foram os mesmos. Logo estávamos de volta ao nosso Riad, onde o café já nos esperava no terraço.

 

Das dunas douradas aos brancos picos nevados, a completude marroquina

 

As dunas de Merzouga não eram mais do que uma imagem minguante no empoeirado retrovisor. À frente, as montanhas se aproximavam lentamente, e os picos nevados demarcavam minha próxima parada. Seria mais um longo dia ao volante, em direção à Fez, com uma breve parada no caminho. Tentando decifrar o complexo mapa marroquino, segui por oito longas horas guiando meu pequeno, mas valente Sukuzi pelas montanhas. Contornando as encostas e desafiando desfiladeiros, atingi a elegante cidade de Ifrane, no topo dos Atlas, já ao fim da tarde.

 

O cenário ao longo do trajeto era majestoso. Inspirado pela beleza do Saara e ansioso pela noite fria e nevada de Ifrane, mal senti passarem as horas. O sol forte e um céu azul sem nuvens colaboravam para uma bela visão, enquanto a paisagem ia mais uma vez se transformando do deserto dourado e arenoso, ao clima montanhoso de árvores coníferas. As estradas eram quase sempre vazias, com exceção de algum eventual caminhão, que seguia buzinando pelas estreitas curvas, tentando evitar uma colisão. O clima se tornava frio e úmido à medida que avançávamos. Logo o marrom deu lugar ao cinza das pedras e este ao verde da vegetação de altitude.

 

Atingimos o topo da cadeia de montanhas no início da tarde. Logo depois, avistamos surpresos o branco da neve. Apenas algumas horas após deixarmos nossos dromedários descansando em frente ao Riad, estávamos cercados pelo gelo e frio, numa cidade conhecida como a “Suíça marroquina”.

 

Ifrane é uma pequena cidade encravada na cordilheira dos Atlas. Famosa por sua estação de esqui, foi desenvolvida pelos franceses durante o período de protetorado, sendo escolhida como sede da administração colonial devido ao seu clima agradável (na perspectiva francesa, é claro). Com uma atmosfera claramente européia e tomada por chalés e lareiras, a cidade conta também com um grande palácio de verão do Rei. Recentemente, este mandou construir uma universidade privada com aulas na língua inglesa, em uma parceria estratégica com o governo norte-americano.

 

Não se poderia imaginar um contraste maior entre duas cidades. Tomando café da manhã na vila berbere de Merzouga, após uma noite sobre as areias do Saara, descansar ao fim do dia junto à lareira quase alpina da cidade quase francesa de Ifrane. Uma visão curiosa de uma elite marroquina, onde véus eram raros e as ruas não tinham espaço para jumentos, carroças ou vendedores de poções. Apesar de europeizada e mesmo elitizada, as ruas impecáveis de Ifrane eram tão marroquinas quanto o caos da Medina de Marraquexe. Eram apenas dois extremos de um país complexo e milenar.

 

(Este post contempla a sétima e a oitava partes do relato da minha viagem ao Marrocos, em janeiro de 2011. Acompanhe os trechos anteriores em meus posts mais antigos, e fique atento às novas atualizações)

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Fez, a cidade imperial

 

A distância entre Ifrane e Fez é curta e o trajeto é feito em pouco mais de uma hora. Antes mesmo do meio dia já estacionávamos ao lado da estação ferroviária e nos dirigíamos para o Hotel Ibis, onde ficaríamos nos próximos quatro dias. O hotel não era especial em nenhum aspecto, mas oferecia o essencial para proporcionar um merecido descanso, após o extenuante ritmo das semanas anteriores. A viagem estava chegando ao fim. Esta seria a última parada antes do destino final, Casablanca.

 

Fez é a segunda maior cidade marroquina, com aproximadamente um milhão de habitantes. É uma cidade histórica, fundada em 789 por Idriss I, que governou o Marrocos por apenas quatro anos, entre 788 e 791. Já foi a capital do país e hoje sua Medina é considerada patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO. A sua principal Universidade, Al-Karaouine, fundada em 859, é a mais antiga universidade ainda em funcionamento no mundo.

 

Todo esse passado e importância histórica são sentidos no momento em que atravessamos os enormes portões da cidade antiga, Fez El Bali. Como viajantes do tempo, retornamos a um mundo de mercadores árabes e berberes, de vielas e carroças, de cheiros e sons, que nos embriaga e confunde. Após um período atravessando estradas e descobrindo o deserto, com sua solidão e silêncio, somos novamente surpreendidos com a confusão e os ruídos da Medina, apesar de já termos vivido algo semelhante em Marraquexe. A alma marroquina está mais viva do que nunca nas pequenas tendas onde aproveito os últimos dias da viagem para comprar alguns presentes e lembranças. O grande esforço e o longo debate para se atingir um preço um pouco mais justo confirmam a fama de firmes negociantes dos marroquinos. Mas é algo que um turista dificilmente consegue evitar, e nem deveria. Afinal, negociar é parte da brincadeira.

 

As mesquitas são uma visão comum na Medina, estão por toda a parte. O freqüente chamado para oração é a trilha sonora de qualquer viagem ao Marrocos. Infelizmente, a entrada é proibida para os que não são muçulmanos. Me resta, portanto, ficar do lado de fora, tentando fotografar ou espiar pela porta ou qualquer fresta que surja e permita uma breve visão do seu interior belo e trabalhado.

 

Outra famosa atração da cidade são as “tinturarias” a céu aberto, também conhecidas como tanneries. Dos terraços das casas vizinhas, se observa centenas de recipientes talhados em pedra e preenchidos por substâncias dos mais diversos tons, utilizados no tingimento do couro da região. Depois de tingidos, são pendurados para secar. É uma visão estranha e curiosa, e o terrível odor completa um cenário excêntrico. Mais uma amostra da fascinante cultura local.

Encontrar as tanneries não é uma tarefa fácil no enorme labirinto da Medina. Dezenas de jovens rapazes se oferecem para nos guiar, em troca de um euro ou dois. Mas para aqueles que desejam caminhar com conta própria, só resta vagar pelas vielas tentando esbarrar no local procurado, quase que por obra do acaso. A única pista são os próprios “guias”. Um crescente número de ofertas e abordagens nos mostra que estamos nos aproximando do local correto.

 

A algumas dezenas de quilômetros de Fez situa-se outra grande atração, muitas vezes desconhecida dos turistas e viajantes. Volubilis é um sítio arqueológico onde estão localizadas as mais bem preservadas ruínas romanas do norte da África. Assim como a Medina de Fez, Volubilis também foi decretado patrimônio da humanidade pela UNESCO.

 

Uma visita a este grandioso local é um experiência imperdível. As colunas e arcos, assim como os incrivelmente preservados mosaicos, nos dão uma breve visão de como seria a vida neste remoto canto do Império Romano. O estado de preservação das ruínas surpreende e talvez seja explicado pela sua localização um pouco remota. Ainda distante da legião de turistas que invade Roma todos os anos, Volubilis pode oferecer um pouco de paz aos seus visitantes. Observar a paisagem sem qualquer pessoa por perto, sentado nos degraus do antigo Fórum ou descansando sob os arcos construídos por ordem do imperador Caracallas, é um grande privilégio.

 

Com tantas atrações, logo os quatro dias se passam e chega a hora de retornar o carro alugado em Essaouira e me dirigir à bela e moderna estação ferroviária de Fez, onde embarcaria no trem que parte rumo à Casablanca. Seria meu primeiro trecho ferroviário no país, e estava ansioso por essa experiência.

Pontualmente, o trem partiu. Seriam quatro horas até a maior cidade do país. Na mesma noite, embarcaria no vôo que me levaria ao Brasil após dezessete dias de aventuras marroquinas.

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