Bem, me preparei para uma caminhada de 4 dias, iria até o Sertão Zen e desceria o Vale do Rio Macaco até chegar no complexo de cachoeiras do rio Macaquinho. Audacioso, não? E era mesmo, ainda mais porquê o faria sozinho.
Como não poderia dividir peso com ninguém minha mochila, uma Crampon 77 da trilhas e rumos, ficou lotada, pesando 16,5 kg sem a água. É minha primeira mochila desse porte e eu não sabia o que eram quase 20 Kg nas costas. Até cogitei que seria muito peso, porém acreditei que andar com ela durante 4 horas em solo plano era suficiente para crer que não era tanto.
Ledo engano, logo na primeira serra, das duas que dão acesso ao Sertão Zen, senti o peso da mochila dobrar. Não era o fim, mas dificultou bastante.
O tempo, alternava entre sol e chuva, a temperatura era amena e estava bem úmido. Isso tudo, somado ao corpo sempre molhado fez diminuir a sensação de sede e cometi o segundo erro, não bebi água o suficiente. Foram apenas 4 litros durante todo o percurso, muito pouco para a distância, o calor e o peso que carregava.
Não percebi na hora, claro, porém mais tarde viriam as consequências.
Cheguei na cachoeira as 16:30 horas, bem mais tarde do que o previsto. Preparei a janta, o acampamento, e contemplei a paisagem.
Meu cantil tinha pouca água, aproximadamente 300 ml, e precisava enche-lo. Quem conhece o Sertão Zen lembra da cor da água, bem vermelha por conta da grande quantidade de substâncias com ferro presentes. Teoricamente não é um empecilho, mas na hora ela me parecia intragável. Pensei que os 300ml seriam suficientes para passar a noite e resolvi não toma-la.
Sertão Zen e suas águas vermelhas.
A noite foi uma experiência única! Como fui sozinho e não tinha uma barraca para uma pessoa levei minha rede Kampa Joy, cordeletes e lona, como podem ver abaixo. Sinceramente, eu nunca passei tanto medo na minha vida!!! Acho que por acampar de rede e não ter a "proteção" da barraca me senti demasiado exposto à toda natureza a minha volta. Não tinha lua, a fogueira só fazia fumaça, ventava muito e os bichos estavam a solta.
acampamento.
Deitei as 21 horas, escrevi no diário e me preparei para dormir. Mas não consegui, qualquer barulho me despertava, o vento me despertava e quando não era o vento.. Bem, la pelas 23 horas escutei algo mexendo na minha sacola de lixo, me assustei, criei coragem, liguei a lanterna e fui ver o que era: um rato do mato enorme procurava alimento no meu lixo! Ficou estático olhando para a lanterna e percebi que ele não sairia dali enquanto não pegasse o que queria. Me levantei, tirei o lixo da sacola e deixei o "ratinho" terminar seu trabalho.
Quando acho que vou dormir, escuto um barulho e ligo novamente a lanterna, algo que eu fazia de 15 em 15 minutos, e vejo minha mochila sendo atacada por milhares de formigas vermelhas cabeçudas. Pensei logo na minha maleta de comida, que por sinal estava bem fechada e limpa. Tratei logo de me proteger como dava e tirar as formigas com um graveto, retirei a maleta da mochila, pendurei as duas em uma árvore e urinei no tronco sem saber se isso faria algum efeito. As formigas não voltaram.
Eram aproximadamente 05 horas da manha e eu não tinha dormido nada, apenas pesquei a noite toda!
Levantei as 06:40 pois queria ver o sol nascer. Lá o Vale do Rio do Macaco segue para o leste e deveria ser incrível o sol nascendo naquele visual. Subi umas pedras a direita da cachoeira e me preparei para a alvorada, porém estava nublado! Percebi no local vários coquinhos quebrados e uma pedra, ou é macaco ou gente, mas quem quer que seja escolheu um ótimo lugar para uma refeição. Como não veria o sol desci e fui preparar o café.
coquinhos.
Senti vontade de urinar e quando tentei urinei pouco e amarronzado,(diferente da noite quando a cor e quantidade eram normais) nessa hora me assustei de verdade! Pensei alguns segundos e percebi que a boca estava seca, a pele também e nas fotos os olhos estavam fundos. Eu estava desidratado, abortei imediatamente a viagem, arrumei minhas coisas, enchi meu cantil de água vermelha e bebi avidamente, me hidratei cerca de uma hora antes de voltar pela trilha.
Na volta não choveu e o sol estava implacável. Não cometi o erro novamente mas os danos já estavam feitos e o organismo demora a se recuperar. Eu bebi água a manha inteira e só fui urinar a tarde, a cor não mudava era sempre amarronzada.(No hotel percebi que a urina estava na verdade vermelha e dias depois quando fui ao médico fui informado que tive uma hematúria, sangramento nos rins por esforço, o que geralmente não é grave, mas se não beber muita água o sangue pode coagular no rim e ai sim complica, irônico não?) Segui firme pois sou teimoso e não desisto facilmente, mas caminhava 2 minutos e parava 1, quase larguei aquela mochila de 100 kg no Sertão, quase pedi arrego, quase fiz uma oração, mas continuei até o fim, até o Átrio hotel, sempre caminhado.
Galera, em dezembro estive no Sertão Zen. Passei um perrengue mas ao final deu tudo certo. Vou contar aqui o perrengue, a parte legal postei no meu blog. http://tupitravel.blogspot.com/2011/02/sertao-zen.html
Bem, me preparei para uma caminhada de 4 dias, iria até o Sertão Zen e desceria o Vale do Rio Macaco até chegar no complexo de cachoeiras do rio Macaquinho. Audacioso, não? E era mesmo, ainda mais porquê o faria sozinho.
Como não poderia dividir peso com ninguém minha mochila, uma Crampon 77 da trilhas e rumos, ficou lotada, pesando 16,5 kg sem a água. É minha primeira mochila desse porte e eu não sabia o que eram quase 20 Kg nas costas. Até cogitei que seria muito peso, porém acreditei que andar com ela durante 4 horas em solo plano era suficiente para crer que não era tanto.
Ledo engano, logo na primeira serra, das duas que dão acesso ao Sertão Zen, senti o peso da mochila dobrar. Não era o fim, mas dificultou bastante.
O tempo, alternava entre sol e chuva, a temperatura era amena e estava bem úmido. Isso tudo, somado ao corpo sempre molhado fez diminuir a sensação de sede e cometi o segundo erro, não bebi água o suficiente. Foram apenas 4 litros durante todo o percurso, muito pouco para a distância, o calor e o peso que carregava.
Não percebi na hora, claro, porém mais tarde viriam as consequências.
Cheguei na cachoeira as 16:30 horas, bem mais tarde do que o previsto. Preparei a janta, o acampamento, e contemplei a paisagem.
Meu cantil tinha pouca água, aproximadamente 300 ml, e precisava enche-lo. Quem conhece o Sertão Zen lembra da cor da água, bem vermelha por conta da grande quantidade de substâncias com ferro presentes. Teoricamente não é um empecilho, mas na hora ela me parecia intragável. Pensei que os 300ml seriam suficientes para passar a noite e resolvi não toma-la.
Sertão Zen e suas águas vermelhas.
A noite foi uma experiência única! Como fui sozinho e não tinha uma barraca para uma pessoa levei minha rede Kampa Joy, cordeletes e lona, como podem ver abaixo. Sinceramente, eu nunca passei tanto medo na minha vida!!! Acho que por acampar de rede e não ter a "proteção" da barraca me senti demasiado exposto à toda natureza a minha volta. Não tinha lua, a fogueira só fazia fumaça, ventava muito e os bichos estavam a solta.
acampamento.
Deitei as 21 horas, escrevi no diário e me preparei para dormir. Mas não consegui, qualquer barulho me despertava, o vento me despertava e quando não era o vento.. Bem, la pelas 23 horas escutei algo mexendo na minha sacola de lixo, me assustei, criei coragem, liguei a lanterna e fui ver o que era: um rato do mato enorme procurava alimento no meu lixo! Ficou estático olhando para a lanterna e percebi que ele não sairia dali enquanto não pegasse o que queria. Me levantei, tirei o lixo da sacola e deixei o "ratinho" terminar seu trabalho.
Quando acho que vou dormir, escuto um barulho e ligo novamente a lanterna, algo que eu fazia de 15 em 15 minutos, e vejo minha mochila sendo atacada por milhares de formigas vermelhas cabeçudas. Pensei logo na minha maleta de comida, que por sinal estava bem fechada e limpa. Tratei logo de me proteger como dava e tirar as formigas com um graveto, retirei a maleta da mochila, pendurei as duas em uma árvore e urinei no tronco sem saber se isso faria algum efeito. As formigas não voltaram.
Eram aproximadamente 05 horas da manha e eu não tinha dormido nada, apenas pesquei a noite toda!
Levantei as 06:40 pois queria ver o sol nascer. Lá o Vale do Rio do Macaco segue para o leste e deveria ser incrível o sol nascendo naquele visual. Subi umas pedras a direita da cachoeira e me preparei para a alvorada, porém estava nublado! Percebi no local vários coquinhos quebrados e uma pedra, ou é macaco ou gente, mas quem quer que seja escolheu um ótimo lugar para uma refeição. Como não veria o sol desci e fui preparar o café.
coquinhos.
Senti vontade de urinar e quando tentei urinei pouco e amarronzado,(diferente da noite quando a cor e quantidade eram normais) nessa hora me assustei de verdade! Pensei alguns segundos e percebi que a boca estava seca, a pele também e nas fotos os olhos estavam fundos. Eu estava desidratado, abortei imediatamente a viagem, arrumei minhas coisas, enchi meu cantil de água vermelha e bebi avidamente, me hidratei cerca de uma hora antes de voltar pela trilha.
Na volta não choveu e o sol estava implacável. Não cometi o erro novamente mas os danos já estavam feitos e o organismo demora a se recuperar. Eu bebi água a manha inteira e só fui urinar a tarde, a cor não mudava era sempre amarronzada.(No hotel percebi que a urina estava na verdade vermelha e dias depois quando fui ao médico fui informado que tive uma hematúria, sangramento nos rins por esforço, o que geralmente não é grave, mas se não beber muita água o sangue pode coagular no rim e ai sim complica, irônico não?) Segui firme pois sou teimoso e não desisto facilmente, mas caminhava 2 minutos e parava 1, quase larguei aquela mochila de 100 kg no Sertão, quase pedi arrego, quase fiz uma oração, mas continuei até o fim, até o Átrio hotel, sempre caminhado.
me preparando para a viagem.
volta, pouco antes da serra.