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Peru - inaugurando mochilas
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Antes de contar sobre esta trip, vou contar uma história. Eu era pequena e morava às margens da BR 277, próximo a Foz do Iguaçu. Por ali sempre passavam mochileiros e paravam em nossa casa em busca de comida e água. Na ponta da varanda, contavam sobre suas andanças e comiam um prato de comida que minha mãe nunca negava. Ali naquela ponta de varanda nasceu minha vontade de ser mochileira. Agora sou.
E então resolvi ir ao Peru e junto com meu marido Carlos colocamos o pé na estrada. Nosso roteiro foi: Curitiba – São Paulo - Lima- Paracas – Ica – Nasca- Arequipa – Canyon do Colca - Cusco –Lima – São Paulo – Curitiba. O trajeto foi elaborado após pesquisa sobre lugares interessantes, roteiros dos mochileiros e de agencias de turismo. Enfim tudo o que pudesse fornecer informações. A viagem durou 17 dias e foram três meses de preparativos. Demorado? Calma, afinal estávamos inaugurando as mochilas.
Saímos de Curitiba às 12:00 horas e a noite voamos a Lima onde chegamos às 23:00 horas , o Sr. Victor enviado pelo hostel , estava esperando. No caminho contou sobre o Parque do Amor, onde aos sábados casais apaixonados e recém casados vão tirar fotos e o lugar enche de turistas. Tudo certo, o dia seguinte nos esperava e partimos para um city tour. Visitamos a Catedral e suas catacumbas, Praça das Armas, a zona arqueológica de Huana Pucllana- significa sagrado em quéchua- e o local servia para sacrifícios, especialmente de mulheres e crianças. Assim aprendemos que o povo de Lima adorava o mar e os inkas adoravam o sol. Também visitamos San Isidro e suas oliveiras, algumas com mais de 500 anos e, os troncos retorcidos, merecem um olhar detalhado.
Não deixamos de conhecer o bar do hotel El Bolivar, onde o pisco souer foi inventado. Enfim se tomar três goles de pisco, qualquer um fala em quechua. Ao encerrar o passeio feito na parte da manhã, ficamos num simpático restaurante próximo a Miraflores onde experimentamos o ceviche e a títia morada, um delicioso suco de milho preto. Comemos e bebemos e, dali seguimos, a pé, pelas ruas de Lima, aproveitando a tarde para visita ao Parque do Amor e a noite o Shopping Larcomar. Lima é uma cidade cinza, sem sol a maior parte do ano, mas linda e limpa.
No 2º dia em terras peruanas acordamos cedo para e fomos para a estação de saída do ônibus com destino a Paracas. Tinha comprado passagem pela internet. Incrível! Mal entreguei o voucher e as passagens estavam esperando prontas. Mais uma vez o hotel enviou o Wilmer para nos esperar na parada do ônibus. Um simpático rapaz que em seguida nos levou conhecer o Parque Nacional de Paracas. A primeira visão do deserto ninguém esquece. Lá o deserto encontra o Pacífico e damos de cara com a Praya Supay – que em quechua significa praia do diabo. No deserto deixamos nossas apanchetas – aquelas pedras umas sobre outras, formam uma figurinha e significam que deixamos uma pessoa cuidando do deserto.
Agora seguimos para Islas Ballestas e no caminho encontramos aquele enorme e enigmático candelabro. Fantástica a visão que ali estava, 60 metros de altura por 12 de largura. Incrustado sabe-se lá como, em um paredão de areia. Sem ascender às velas, deixamos o candelabro e fomos em frente. Pinguins, lobos marinhos e milhares e milhares de pássaros habitam as ilhas. Em toda minha vida jamais verei tantos, milhares. Vou repetir: fantástica visão.
Parque Nacional de Paracas/Praia Roxa
Na tarde do 3º dia, Wilmer se tornou nosso guia e com ele fomos rumo a Ica, cidade que foi destruída por terremoto de 2008 e que ainda esta em reconstrução. No roteiro passamos por uma adega de pisco, palavra quechua que significa ave. Para comemorar a bebida os peruanos têm duas datas - no primeiro sábado de fevereiro é O dia do Pisco Sour e no quarto domingo de julho é o Dia Nacional do Pisco. De uma produção de 1600 litros de suco de uva somente 400 se transforma em álcool para industrializar o pisco e é guardado em botigas em uso desde 1856. Depois de tomarmos os diferentes tipos de pisco, seguimos em frente, não sem antes aprendermos que do alambique – primeiro sai água, em seguida álcool, e depois, Dios me perdone! sai os borrachos! Um brinde ao bom e forte pisco!
Final de tarde e chegamos a Nasca. O primeiro lugar a visitarmos foi o Cemitério de Chauchilla, onde esta enterrado o povo indígena Poroma. Foi pura emoção encontrar as inúmeras múmias expostas. O sol se punha e tingia o lugar com tons de laranja, tornando o cemitério misterioso. Um silencio no deserto e ninguém além de nós. Chorei pela paz e beleza do lugar. Ali, meu coração ficou enterrado.
Acordamos muito cedo e sem comer nada fomos para o aeroporto para fazermos o sobrevôo das linhas de Nasca. Tinha acertado, via internet com a Aeroparacas que o valor seria de US 80 por pessoa e na hora inventaram histórias e cobraram US 90. Não foi correto, mas pagamos e voamos. Muito rápido a passagem do avião sobre as figuras e quando você percebe a figura... já era. Não recomendo muito dinheiro para pouco beneficio.
À tarde dedicamos aos Aquedutos de Cantalloc, Museu Maria Riche e Museu Antonini. Caminhamos pelo rio seco e, que é caudaloso quando há degelo nos Andes e a noite, seguimos para Arequipa. Já tínhamos as passagens, compradas via internet. A viagem foi tranqüila e dormimos a noite toda. Seiscentos quilômetros depois, Arequipa nos esperava.
Linda cidade. Descemos na rodoviária e por poucos soles fomos para o hostal . Como era cedo foi nos servido chá de coca – 1º experimento – Ganhamos mapa da cidade, explicações e, a rua. Lá fomos fazer um reconhecimento. Outra visão dos sonhos – o vulcão Misti. Espreita e te segue por toda a cidade. É lindo ver um vulcão, majestoso com seu topo levemente nevado.
Ao lado do Misti também os vulcões Chachani e Pichu-Pichu. Arequipa é uma cidade onde foi usado material vulcânico nas construções. O ciliar esta presente na arquitetura e ornamentos das belíssimas e inúmeras igrejas. Na catedral construída no século 19, há um altar em mármore de carrara e um púlpito todo esculpido em madeira onde na parte debaixo tem a figura do diabo, isto para que ao falar, a palavra de Deus contenha o diabo. Histórias contadas, histórias aprendidas.
Seguindo o roteiro e, acertado com o hostel fizemos um tour de dois dias para o Canyon do Colca. A cidade base é Chivay, a 160 km de Arequipa. No caminho a guia avisou que faríamos uma parada para comprarmos folhas de coca e assim chegamos a 4800m de altitude. Eu estava levemente mareada e Carlos – meu gato, meu marido, hipertenso, feliz e sem nenhum sintoma do mal da altitude. Subimos mais e no Mirador Pata Pampa a altitude é de 4910m. Naquele dia ensolarado, mascando coca, conhecendo kuanacos, lhamas e alpacas, curtindo a viagem e a paisagem, chegamos a Chivay, pequeno vilarejo localizado em um vale que vale a pena conhecer.
Após o percurso por entre precipícios de um lado e montanhas do outro, estamos a 3600 m de latitude. Adrenalina e deslumbramento definem o Canyon do Colca com profundidades que variam de 2300 a 3600m de profundidade. Nosso objetivo era ver os condores que começaram um balé em sobrevôo. São enormes, magníficos e é emocionante ver os bichos surgindo à frente e fazendo exibições. A imensidão do lugar deixa a paisagem à disposição do olhar, subir até a Cruz Del Condor e debruçar-se sobre seu mirador é uma oração de contemplação a natureza.
Deixamos este deslumbrante lugar e retornamos a Arequipa no dia seguinte, dali partimos para a última etapa da viagem. Já estávamos no 10º dia de nosso percurso e voamos para Cusco. Deixamos a bagagem no Hostel e saímos pelas ruas. Ao chegarmos à esquina da Praça das Armas uma manifestação dos sindicatos de campesinos nos presenteou com a beleza da cultura, vestimenta e música peruana. Um instante para fotos. Viva Cusco, chegamos!
Em seguida fomos tratar de comprar nossos passeios e boletos turísticos. Como tudo já havia sido pesquisado, aqui do Brasil, as surpresas da viagem foram as paisagens e pessoas que encontramos. De resto tudo saiu como programado, não houve variação no roteiro financeiro e isto nos deu tranqüilidade. Compramos passeios para Maras, Moray e Salineiras, City Tour, Sítios Arqueológicos e Vale Sagrado.
Maras é uma vila perdida no Peru. Poucas ruas e casas construídas com adobe. Lugar para se pensar e rever alguns conceitos. Moray é a entrada ao mundo inca. Ali esta uma pequena amostra de quem foi este povo que desperta a curiosidade de milhares de turistas. Ainda nos dias de hoje não há definição do que pode ter sido. Um laboratório, um lugar para oferendas? Não sei ninguém sabe. Mas lá, no centro do último circulo, conversamos sobre a oportunidade de vivenciar e conhecer . Mereceu um obrigado!
A visão ao chegar a Salineiras - um riacho salgado nascendo na montanha e longe do mar, é para por em um quadro. Pequenos quadrados, que formam centenas de tanques um ao lado do outro e cada um produz cerca de 300 quilos/mês de sal, todo exportado para o Japão.
No city tour visitamos a catedral e todo seu ouro e prata, o templo do Koricancha, Sacsayhuaman, Kenko, Pucapucara e Tambomachay. Lugares especiais por sua historia, pelo inusitado e por exercer certo ar de magia. Afinal estamos em território inca.
Como tínhamos comprado o boleto turístico que nos dava direito a visitar os vários lugares, me interessei pela dança típica que seria exibida ao final da tarde no Centro Cultural. Ao irmos para o local, vimos uma grande aglomeração de pessoas próximas ao Templo de Koricancha. Curiosa, solicitei a uma guarda informação de que era aquilo e ela amavelmente me disse que era a abertura oficial das comemorações do centenário de Machu Picchu. Deus salve os incas, eu estava lá!
Ao nos aproximarmos das grades que separavam o povo e as autoridades, vi uma arquibancada quase vazia. Pedi ao segurança se podíamos sentar naquele privilegiado lugar e, ele disse sim. Não pensamos duas vezes, subimos a arquibancada, o espetáculo começou e nós fotografamos tudo.
Seguiu-se um espetáculo de teatro e dança contemporânea da cultura andina. Os quentes sentimentos peruanos, sobre as pedras sagradas de Cusco invocaram os espíritos para divulgar o legado cultural. Naquele ritual de dança da água e do fogo, da adoração ao sol, do patrimônio religioso, de reverencia a Pacha Mama, mais uma vez chorei. Todo o sonho de conhecer Machu Picchu estava concretizado.
No dia do tour ao Valle Sagrado e, após termos feito todo o belo percurso de conhecimento e paisagens, ao final da tarde ficamos em Ollantaytambo. Vilarejo gostoso até para falar o nome. O trem saiu de Ollantaytambo pontualmente e percorreu 43km. Chegamos a Aguas Calientes onde mais uma vez o Hostel enviou o José para nos buscar na estação. Luz, a dona do hostal, ainda na recepção nos deu uma aula sobre Machu Picchu e nos tranqüilizou sobre Waina Picchu, a montanha dos sonhos. Nela nós queríamos estar.
Mal deu tempo de fecharmos os olhos. Às 3:00 horas eu não conseguia mais dormir e então levantamos para o grande dia. Às 3:40 horas eu era a 3ª da fila para comprar ingresso de entrada em Machu Picchu. Carlos estava na fila para comprar as passagens de ônibus. Eram 4:00 horas, caia uma fina garoa e eu me protegia embaixo da marquise. Sentada no piso, sem café da manhã, aguardava a abertura da bilheteria. Nada mais importava, era o dia de conhecer Machu Picchu.
As 5:30 horas saiu o 6º ônibus e nós estávamos dentro. A garoa persistia e então chegamos à fila de entrada. Nosso objetivo era a conquista da montanha Waina Picchu e, fomos para a fila da senha. Conseguimos para subir as 7:00 horas. O coração batia forte e sem olharmos para nada fomos para o portão de entrada da subida a Waina Picchu. Enquanto aguardamos, pedi a meus antepassados inkas para que a garoa cessasse no que fui atendida. Firmes, fortes, cansados e felizes, chegamos ao topo da montanha. Visão deslumbrante, acima de nós, o sol e abaixo a cidadela sagrada. A morada dos deuses deveria ser nossa também.
Quase meio dia, então retornamos e encontramos um casal de brasileiros. Com eles contratamos um guia e percorremos a cidadela. Tinham, os inkas, vasto conhecimento de arquitetura, agricultura, hidráulica e sabedoria para nos deixar loucos pelo legado que permitiu ao mundo conhecer o patrimônio cultural da humanidade. Nós vivemos um pouquinho do Peru, o suficiente para ficar com saudade de sua gente!
MALA EXTRA DE AGREDECIMENTOS: Aos mochileiros, por todas as dicas.
Ao marido Carlos, pelo companheirismo e fotos.