...........................Preso a quase 30 metros do chão, lutando contra um mal subido, que me acometeu por causa de um superaquecimento, tento me livrar de uma blusa e um corta vento, enquanto me seguro numa costura de escalada presa a uma chapeleta (uma espécie de argola presa a rocha). Enquanto fico ali, pendurado feito siri no pau, Alexandre e Dema confabulam um pouco mais acima de mim e mesmo antes de eu chegar onde eles estão, o que até então nos parecer ser só uma neblina corriqueira de início de manhã, despencou sob uma chuva fina e extremamente fria, deixando a rocha um sabão inescalável. Desclipo minha solteira da proteção e deixo meu porto seguro, lutando agora para não ser jogado no abismo pelo pêndulo da corda, tentando achar agarras que me mantenha preso à parede, buscando forças sei lá de onde, ainda com o estomago nauseando, meio grogue. Quando finalmente clipo minha solteira na parada, onde estão meus companheiros, sou informado pelos dois, que a escalada acabou, que seguir em frente com aquele tempo não seria mais possível, então que eu deveria me preparar para o pior, que era fazer o rapel suicida, mas até então, não sabíamos nem se a corda daria para chegar de volta ao chão e havia chegado a hora que a montanha ia separar os homens dos meninos........................
Num belo dia de sol, o Alexandre Alves me liga e diz que havia desaposentado e que queria minha presença e a do DEMA numa escalada no Rio de Janeiro, sua terra natal. Dizer "não" para o Alexandre é algo inimaginável, porque toda trip que ele confirma presença, é sinal de confusão na certa, é a certeza de que a gente vai se divertir em alguma enrascada, então só nos restou confirmar presença e torcer para que a gente saia inteiro da aventura proposta.
O plano era ousado: Escalar o PÃO DE AÇUCAR e o CORCOVADO no mesmo dia, fazer um bate e volta alucinante, partindo de Campinas, uma espécie de treinamento para outra escalada grandiosa num futuro próximo. Eu desconfiei do planejamento, não pelo Alexandre, mas por mim e pelo Dema, porque estávamos longe da escalada há pelo menos uns 3 anos, mas mesmo assim, aceitamos o desafio, sem botar muitas expectativas, a gente ia lá se divertir, treinar um pouco e nos encantar novamente com dois ícones mundiais.
Cabeceando de sono, desembarcamos antes das 6 da manhã na Lagoa Rodrigo de Freitas, uma parada meio clandestina, mas que veio bem a calhar por nos deixar mais perto da Praia Vermelha e rapidamente descolamos um Uber para nos levar até lá. E é uma satisfação imensa ser apresentado novamente a um dos cartões postais mais conhecidos do planeta, porque estar aos pés do conjunto do Pão de Açúcar, formado também pelo Morro da Urca , é se sentir cidadão do mundo. E o cenário nunca deixa de surpreender e não importa quantas vezes você tenha ido ao Rio de Janeiro, você vai se maravilhar, se encantar e até se emocionar, mas o melhor ainda está por vir.
PRAIA VERMELHA antes mesmo das 7 da manhã, já apresenta uma quantidade considerável de banhistas, que buscam alguns esportes aquáticos, mas nós, naquele momento, só buscávamos contemplação, vendo o sol surgir por detrás do monólito gigante, isolado e cercado de nuvens, que passavam ao largo, tornando-o mais misterioso ainda.
Existem 3 maneiras de alcançar o Pão de Açúcar: A primeira, mais fácil, é subir pelo BONDINHO (teleférico) mais famoso do mundo, mas vai custar mais de 150 reais, uma fortuna. A segunda é por uma trilha que vai margeando o mar e sobe numa escalaminhada perigosa, com uso de cordas em alguns trechos, indo parar direto no topo do Pão de Açúcar. A terceira, é por trilha que sobe até o ombro do Morro da Urca e desvia para a direita até bater no grande maciço do próprio Pão de Açúcar e ali estarão as vias de escalada, que será o nosso objetivo dessa viagem.
Sem perder muito tempo, ali mesmo, do lado esquerdo da Praia Vermelha, adentramos na trilha CLAUDIO COUTINHO, que inicialmente irá nos levar em direção ao Morro da Urca, que poderíamos subir de bondinho, mas pagando outra fortuna, melhor mesmo é ir por trilha que é gratuita e sem nenhuma burocracia. No início, o caminho é um calçamento de concreto, tendo o mar do lado direito e as grandes paredes da Urca do lado esquerdo, onde também há algumas vias de escalada e uns 500 metros de caminhada, vamos abandonar em favor de uma trilha que subirá e esquerda por escadas de barro , pedras e madeira.
Essa trilha que nos levará ao ombro do Morro da Urca, uma espécie de colo ou selado entre a própria Urca e o Pão de Açúcar, vai subir para valer, inclinada e cansativa, mas curta, percorrendo apenas outros 500 metros até essa curva, já a 150 metros de altitude. Não existe placa alguma que indica a saída à direita, que vai nos levar para a base da via de escalada, mas quem vai prestando atenção, verá que bem na curva, há uma cerca dearame liso, de onde brota uma discreta trilha, que alguns metros mais à frente, vai se tornar uma verdadeira avenida e é por ela que devemos seguir.
Antes de nos enfiarmos definitivamente na trilha em direção ao Pão de Açúcar, vamos nos livrar de todo excesso de bagagem que trouxemos, então saímos alguns bons metros da trilha e escondemos tudo no mato, levando apenas os equipamentos de escalada e nossa água. E a trilha é realmente um passeio que vai se desenvolvendo rapidamente, sem nenhuma bifurcação, que possa nos confundir e uns 15 minutos depois, lá estamos, diante de um colosso de pedra de quase 400 metros de altura, um ícone reconhecido em qualquer parte do mundo, que abriga simplesmente o bondinho mais famoso do planeta.
Antes de narrar a escalada, preciso aqui fazer um parêntese: Encostado no gigante rochoso, bem a nossa frente, que é onde termina a trilha, teremos duas opções. Primeiro é a via ITALIANOS, uma das vias mais clássicas do país, que pode ser subida por uns 100 metros e depois para se chegar ao cume pega-se uma variante conhecida popularmente como SECUDO ou, assim que termina a Italianos, pode emendar com a via CEPI e subir pelos cabos de aço por mais uns 150 m até o cume.
A gente poderia muito bem escolher essa via clássica para subir o Pão de Açúcar, mas para isso teríamos que entrar na fila e esperar nossa vez, já que é uma via mega concorrida, mas além desse problema, seria o tempo de escalada, já que em 3, não conseguiríamos bater cume em menos de 5 ou 6 horas e isso inviabilizaria nossa tentativa de subir o CORCOVADO, então nos restou escolher a via CEPI, uma via ferrata, composta basicamente de cabos de aço, mais rápida que a italianos e nos daria a oportunidade de treinar os procedimentos para poder escalar o Corcovado, já que eu e o Dema andávamos há muito tempo longe da escalada.
Num passado não muito distante, os cabos de aço da via CEPI do Pão de Açúcar, chegavam até o chão, mas isso proporcionava que qualquer um se metesse na via, sem nenhum tipo de equipamentos, vindo a causar acidentes, então se convencionou retirar os cabos iniciais, obrigando os escaladores a chegar munidos de equipamentos.
Eu havia visto vários vídeos de escaladores subindo nessa via sem cordas, apenas usando alguns estribos para vencer a primeira enfiada, que não tem cabos, e depois subindo apenas na força dos braços, usando a cadeirinha e duas solteiras (fitas que vão presas a cadeirinha e cada uma com um mosquetão nas ponta). Eu sinceramente faria isso sem nenhum problema, aliás, é o meio mais rápido de subir a via, mas no mundo da escalada há uma cagação de regra absurda e também se convencionou, subir com a corda, como se fosse uma escalada tradicional, costurando nas chapeletas ao longo do caminho, fazendo a parada nas proteções duplas e puxando os outros participantes, principalmente depois de um acidente em que um dos cabos se rompeu e um escalador morreu, mas por sorte, os cabos foram todos trocados, então para não afrontar nenhum cagador de regra, optamos por fazer igual ao manual, ou seja, subir com cordas.
( Inicio da CEPI)
E como é lindo olhar para esse gigante e ver a insignificância de outros escaladores acima das nossas cabeças, grudados na rocha. O Alexandre prepara a corda, organiza os equipamentos, depois de ter escalaminhando uma rampa de pedra que o leva até a parede onde está o início da via de escalada. Essa primeira enfiada (lance) tem uma sequência de chapeletas, mas não é uma escalada que vem de graça não, tanto que no croqui para quem vai escalar sem depender dos cabos, está graduado em VIIa, um nível absurdo, ainda mais em se tratando do Rio, onde a graduação é muito mentirosa (rsrsrsrs). O melhor a se fazer é usar uns estribos, caso o guia não queira sofrer muito. O Alexandre acabou dando conta, depois de suar um pouco e quando chegou na parada, no início dos cabos, que naquele momento se estendia para a direita, praticamente na horizontal.
Nesse começo de escalada, eu me ponho como o “homem segui”, o indivíduo que se encarregará de fazer a segurança do guia que sobe à frente e o Dema será o participante que virá logo a seguir. Quando o Alexandre chega na primeira parada, que convencionalmente chamamos de “P1”, ele se ancora e vai puxando eu e o Dema. Sem muitas delongas e frescuras, nos penduramos logo nas fitas que foram deixadas ao longo do caminho e vamos ganhando terreno até que nós dois chegássemos também a “P1”, onde está instalado o início dos CABOS DE AÇO.
O horizonte se abiu e agora estamos colados nesse gigante de rochas, uns 30 ou 40 metros do chão e os nossos olhos não podem mais se desgrudar da paisagem e daqui para frente, muito mais do que as paredes de escalada, as belezas do Rio de Janeiro é que vão guiar nossas conversas .
Os cabos de aço vão correr para nossa direita, na horizontal, como numa travessia. A dinâmica da coisa é bem simples: Nós usamos 2 fitas que também chamamos de solteiras ou até rabo de vaca e na ponta delas, 2 ganchos instalados, que são os mosquetões. E a técnica consiste em abraçar o cabo de aço com os 2 mosquetões e quando houver uma emenda no cabo ou entre um cabo e outro, a gente tira apenas um mosquetão e passa para o outro lado e aí vendo que estamos seguros, passamos o outro mosquetão, tendo em mente que sempre teremos que ter um deles preso ao cabo e ainda assim, estaremos seguros pela corda de escalada, que vai sendo passada nas chapeletas, que foram instaladas ao lado dos cabos em espaços regulares, talvez um excesso de preciosismo, mas como também não sou nenhum escalador, vou seguir os procedimentos, porque se fosse nossas expedições na Serra do mar Paulista, bastava um cipó reforçado. ( rsrsrsrssr)
O Alexandre chega ao fim do cabo, no momento em que ele faz uma curva e começa a correr para cima, uns 90 graus. Nesse momento, parece estarmos na curva no monólito, uma visão lindíssima do escalador e das ilhas que “boiam” calmante no oceano. Essa travessia na horizontal pelos cabos é puro divertimento, mas quando ela embica para cima, a gente descobre que não estamos ali para brincadeira, então vamos ter que suar em bicas para poder segurar o peso do nosso corpo apenas com os braços.
Eu continuando dando a “segui”, ou seja, dando proteção de baixo, enquanto o Alexandre faz o mesmo, quando chega acima nas paradas duplas. A força que se faz para ganhar terreno puxando os cabos de aço é absurda, principalmente quando a parede inclina de vez e pior ainda é conseguir passar os mosquetões de um cabo para o outro, porque vez ou outra, as travas de rosca vão se fechando e quando você tenta fazer o procedimento com uma só mão, o miserável enrosca e a força da gravidade simplesmente te empurra de volta, sem contar as vezes que se esquece de prestar atenção e acabamos ficando enroscado, tento que retornar a emenda com o cabo anterior.
As paradas duplas são várias pelo caminho, muito porque, serve para dar a segurança para quem vai escalar em livre, sem depender dos cabos, então podemos passar dessas paradas e usar todo o tamanho da corda, indo até paradas mais distantes.
Vamos ganhando altitude rapidamente, mas sempre que a gente pode, paramos com nossas atividades para apreciar a paisagem, ver aviões que parecem passar raspando ao Cristo Redentor, dar um rasante ao nosso lado a caminho do aeroporto, enquanto isso, mais perto da gente, os bondinhos vão sobrevoando sobre nossas cabeças, abarrotados de turistas.
A nossa escalada chega finalmente a um platô, junto a uma espécie de GRUTINHA, onde instalaram umas placas para homenagear os conquistadores dessa via, conquistada pelo Clube Excursionista Pico Itatiaia (CEPI), em 1952, clube esse que nem existe mais. A Gruta é um lugar bem confortável para ficar, para se deslumbrar com mais paisagens do Rio de Janeiro, que vai desde as Praias de Copacabana, passando pelo Morro Dois Irmãos, até a vista alcançar a própria Pedra da Gávea e o Cristo Redentor.
A manhã vai passando e o Alexandre nos lembra que precisamos estar no cume até a hora do almoço se ainda quisermos tentar escalar o Corcovado no mesmo dia, então libero logo a corda e vejo o Dema e ele desaparecerem na curva do nosso lado esquerdo, iniciando outro estirão até a próxima parada, onde o Alexandre já me puxa rapidamente e sem nem pensar muito, já ordena que eu próprio comece a guiar a escalada, levando a nossa corda até a parada bem mais acima.
Eu meto marcha nos cabos, acelero o mais rápido que posso, me sinto otimamente bem, braços fortes me elevam rapidamente, mas ao chegar na próxima para dupla, passo reto e tento alcançar a próxima, mas infelizmente a corda acaba não dando, mas toco o foda-se e sigo até um platô um pouco mais acima, onde é possível se ancorar sem ter que colocar peso nos cabos e é no próprio cabo que instalo a parada e puxo meus companheiros.
De onde estamos, já conseguimos ver as construções que seguram o Bondinho e foi justamente nesse lance que anos atrás um dos cabos se rompeu e um escalador acabou morrendo ao se precipitar no abismo, mas agora tudo está novinho, então me agarro com toda força e vou arrastando a corda que tem na ponta, meus companheiros de aventura. Já estou muito emocionado, subo extasiado, com a aventura vivida e com a paisagem mais bonita do mundo. O BONDINHO mais famoso do planeta passa raspando na minha cabeça e ele visto desta posição, é algo tão inusitado quanto a tentativa do vilão em derrubá-lo, cortando seus cabos com os dentes no clássico filme do 007, o agente secreto mais famoso do mundo.
Voltando para o nosso mundo, os nossos cabos dão uma guinada para a direita, ao chegar praticamente no topo da pedra. O Alexandre insiste que eu devo passar reto, mas não há qualquer sinal que a saída seja por ali e insisto que devemos seguir o cabo mesmo para a direita, praticamente em nível, passando embaixo da linha suspensa do bondinho. E é exatamente isso que eu faço e também já não me importo mais com a corda, porque não há mais para onde cair, e quando os cabos de aço tornam a tomar o caminho para cima, meio que atabalhoado, escalaminho a rampa final e vendo que os meninos já estão seguros, me concentro em ir puxando a corda até que eles se juntem a mim.
Antes de subirmos ao patamar reservado exclusivamente para quem chega escalando, somos avisados pelo segurança do bondinho que devemos tomar a nossa esquerda e subir pela escadinha, mas antes, é precisar unir o grupo num só abraço, cumprimentos calorosos de quem cumpriu o objetivo proposto, vencendo um dos símbolos urbanos mais reverenciados do planeta.
Subindo pela escadinha lateral, que dá acesso a chegada do BONDINHO, saltamos a cerca e somos recebidos com festa e entusiasmo por uma multidão de todos os cantos do mundo e já não sei mais se estou no topo do PÃO DE AÇÚCAR ou da Torre de Babel. As pessoas nos cercam, todos querem tirar foto com a gente, querem saber mais daqueles malucos que subiram aquele gigante apenas com a força dos braços. Alguns ariscam um português porco, outros vão no espanhol mesmo e quem fala russo, tenta a mímica. Mas apesar da tietagem, a gente corre contra o tempo, tentando chegar ao bondinho o mais rápido possível, por que ainda temos outro gigante para conquistar.
O Alexandre toma a dianteira e quando entramos no saguão de onde parte o teleférico, observamos que todos carregam uma pulseira que libera a catraca e aí já pensei que teríamos que morrer com uma fortuna para descer no bondinho, mas quando nos aproximamos, fomos recebidos com um sorriso no rosto do controlador de acesso, que simplesmente abriu uma passagem lateral e nos deu as boas-vindas, como se fossemos artistas e ainda enrolado na corda e com os equipamentos a balançar, nos jogamos para dentro do bondinho e vimos os abismos passar sob os nossos pés, enquanto apreciávamos a vista da cidade mais linda do mundo.
( Fotos com amigos turistas no Bondinho)
A descida até o Morro da Urca é gratuita para quem sobe escalando, mas é só até aí mesmo, quem quiser ir ao chão de bondinho, terá que arcar com a outra parte da decida ou usar a trilha. Para a gente, essa era a única opção já que tínhamos que resgatar nossas mochilas, que havíamos escondido no mato.
A descida de volta à praia foi rápida, mas cansativa e sem pensar muito, compramos umas marmitas e pegamos um Uber para nos levar até a o CENTRO DE VISITANTES PAINEIRAS. Ali, antes de subir pela estrada asfaltada até interceptar a trilha que nos levaria até o início da via de escalada do Corcovado, tínhamos uma missão: COMER AS NOSSAS MARMITAS. E foi ali mesmo, sentados no chão, junto a calçada, num lugar que se reúnem gente de todo o planeta, que vão em direção a uma das SETE MARAVILHAS DA HUMANIDADE. Ali, a gente não conhecia ninguém e ninguém nos conhecia, poderiam pensar que éramos mendigo, alguns até pensaram mesmo, mas nós simplesmente fingimos não ser com a gente, o mundo ao nosso redor nem existia, somente nosso frango à parmegiana e nossa quentinha de churrasco. Mas não demorou muito e nos pareceu que alguém se incomodou com nossa audácia. Um grupo se deslocou da multidão e veio em nossa direção e na nossa cabeça, iam tirar satisfação, pedir para a gente tomar vergonha na cara e parar de envergonhar o Brasil perante o mundo, mas ouvimos em alto e bom som: “ Boa tarde meninos, onde vocês compraram essas quentinhas? ” Carioca é um povo descolado mesmo, quando a gente vem com o milho, eles já estão com o fubá. ( rsrsrsrsrsrsr)
A partir da PAINEIRAS, somente vans autorizadas podem subir até o Cristo Redentor e como há uma guarita de acesso, pensei que poderíamos ter problemas para passar com mochilas cargueiras nas costas, mas ninguém nos perguntou nada, nem olharam na nossa cara e como se nem existíssemos, passamos direto e subimos pela estrada asfaltada, passando pouco dá uma da tarde. E o caminho vai subindo pra valer, até que uma meia hora depois, talvez um pouco mais, numa grande curva a gente consegue avistar um arremedo de trilha escondida atrás de uma mureta de concreto e aí foi só pular e se pôr a caminhar dentro da floresta, sempre beirando os paredões à nossa direita. A trilha é bem óbvio, passa por uma espécie de caverninha, se lança para o alto e uns 25 minutos depois, chegamos a uma clareira onde há uma pedra em forma de mesa e que marca o fim da caminhada, onde agora teremos que virar à esquerda e descer umas pirambas que em um minuto mais, vai nos levar bem aos pés da parede de ESCALADA DA VIA K2, uma das vias mais tradicionais do pais.
Quando chegamos à clareira, demos de cara com um casal de escaladores, na verdade nos pareceu ser o guia com sua cliente, com traços orientais. Ele já foi nos avisando que deveríamos entrar na fila, já que havia 3 grupos na parede. Ai sentimos que a vaca foi para o brejo, já que estávamos no horário limite e quando o casal começou a escalar, o grupo mais acima ainda estava emperrado na parede, causando congestionamento, então a gente simplesmente teve que enfiar a viola no saco e abortar a escalada naquela tarde, decidimos que íamos bivacar ali mesmo no pé da parede, já que havíamos carregado sacos de dormir e redes, com a intenção de acampar só depois da escalada concluída.
Combinamos de acordar bem cedo, antes mesmo do sol nascer e realmente, pouco depois das 6 da manhã, já estávamos enfiados aos pés da via de escalada. No dia anterior, resolvemos dar uma treinada e deixamos a primeira enfiada (lance) pronta, então o Alexandre conseguiu chegar à primeira parada com rapidez, mas já vimos que a coisa estaca feia. Aliás, o tempo estava totalmente fechado, mas pensamos ser apenas aquele nevoeiro da manhã, na esperança de que o tempo abriria logo que o sol esquentasse, mas não foi isso que aconteceu.
O nevoeiro foi ficando cada vez mais espesso e já era possível ver algumas gotas de água se condensar nos nossos corta ventos e o Dema, que no dia anterior havia levado nossa corda até a P1 com maestria, começou a sambar na rocha e aí já notei que havia algo de errado, porque a parede estava sem aderência nenhuma.
Quando chegou a minha vez, a sapatilha não grudava na rocha e aquele quinto grau, que obviamente é mentiroso, ficou quase insubível . Eu me esforcei, mas não saia do lugar, não conseguia apoio de mãos no diedro vagabundo e comecei a fazer esforço absurdo. Eu estava com uma blusa e um corta vento e a temperatura começou a subir vertiginosamente. Além da dificuldade da escalada, comecei a sofrer um superaquecimento, de tal maneira que o estomago começou a embrulhar. Claro, poderia ter parado e tirado os abrigos, mas pensava em fazer isso um pouco mais acima, quando me juntasse aos companheiros, mas eu estava num lugar medonho, mesmo tendo uma corda que vinha de cima, estava exposto a beira do abismo, onde a corda ameaçava fazer um pendulo e me jogar no vazio.
Pior ainda, foi me lembrar que exatamente naquele lance, a parceira do guia no dia anterior, que obviamente parecia ser bem mais experiente que eu, tomou “uma vaca”, quando se perdeu na subida e foi jogada para fora da parede, caiu rolando na rocha e ficou de pernas para o ar, parecendo uma tartaruga quando fica caída com o casco para baixo (rsrsrs)
A situação, que já era ruim, desgraçou a piorar ainda mais. Por cinco minutos, eu quase que apaguei, fiquei pendurado numa costura, lutando bravamente para conseguir me livrar da blusa e do corta vento, esperando a temperatura do corpo baixar, enquanto ao nosso redor, a chuva fina começou a cair e a molhar tudo que nos rodeava. Eu me levantei, me agarrei novamente à rocha e como uma lagartixa manca, subi aos trancos e barrancos, até me agarrar à “parada”, como um faminto que se agarra a um prato de comida.
A minha chegada, quase que foi ignorada, já que o Dema e o Alexandre estavam imbuídos na tarefa de dar fim àquela escalada. Sem rodeios anunciaram:
- Divanei, a escalada acabou, se prepara, a gente vai descer, ainda não sabemos como, porque a corda parece não ter comprimento para chegar ao chão, mas isso, é um mero detalhe.
O Dema tomou a frente, não quis descer de “baldinho”, preferia ariscar na corda dupla, mas não era tão simples assim, se ele fosse jogado para o abismo pelo pêndulo, a coisa ira ficar feia. Então achamos que deveríamos tentar nos manter encostado à parede, fazer uma costura na chapeleta mais abaixo, para que a corda se mantivesse o mais reto possível. E ele desceu, aos trancos e barrancos e quando chegou perto do chão, teve que se pendurar e tentar se agarrar a um patamar que o levaria para longe do abismo, até que conseguiu se “solteirar” num arbusto e liberar a corda para eu descer.
A minha descida também foi traumática. A força da gravidade tentando me arrastar para o abismo, a pedra lisa querendo fugir dos meus pés, enquanto eu lutava com meus medos imaginários, tentando me afastar do vazio descomunal. E a corda, que já havia faltado embaixo dos pés do Dema, agora faltava mais ainda embaixo dos meus e o meu olhar só enxergava 500 metros abaixo, a lagoa Rodrigo de Freitas, que naquele momento, parecia me querer. O Dema me arremessou umas fitas longas e quando segurei, ele me puxou para junto dele e me fez chegar ao patamar uns 2 metros acima do chão e esse procedimento, também serviu como base para resgatar o Alexandre, que veio logo a seguir e quando tudo parecia resolvido, eis que nada é tão ruim que não posso piorar.
Quando tentamos puxar a nossa corda, a infeliz enroscou e não houve força que pudesse fazê-la descer. Para se proteger, o Alexandre teve que deixar um mosquetão numa das chapeletas e a maldita estava travando a nossa corda. A gente lutou, o Alexandre ameaçou subir novamente, mas a chuva comeu solto naquela manhã e quando tudo parecia perdido, tivemos a brilhante ideia de fazer 3 prussiks (espécie de nó com cordelete, que se prende à corda quando tencionado), que conectamos às cadeirinhas e juntos, nos pendurávamos com todo nosso peso na corda, até que ela foi cedendo, centímetro à centímetro até despencar da parede.
Estava acabado, nossa missão no Rio de Janeiro havia sido concluída. A intenção era apenas fazer um treino forte para uma escalada clássica numa parede com mais de 1 km, no próximo feriado, mas ao invés de encontrarmos somente um bom treino, encontramos AVENTURA das boas, fomos submetidos a uma infinidade de situações que serviria muito de lição para uma das maiores aventuras das nossas vidas num futuro bem próximo. Saímos encantados novamente com as belezas naturais do Rio e felizes por ter podido nos pendurar num dos ícones mais famosos do planeta e de agora em diante, nunca mais veremos o PÃO DE AÇUCAR e seu famoso BONDINHO, com os mesmos olhos, foi lindo, foi mágico.
...........................Preso a quase 30 metros do chão, lutando contra um mal subido, que me acometeu por causa de um superaquecimento, tento me livrar de uma blusa e um corta vento, enquanto me seguro numa costura de escalada presa a uma chapeleta (uma espécie de argola presa a rocha). Enquanto fico ali, pendurado feito siri no pau, Alexandre e Dema confabulam um pouco mais acima de mim e mesmo antes de eu chegar onde eles estão, o que até então nos parecer ser só uma neblina corriqueira de início de manhã, despencou sob uma chuva fina e extremamente fria, deixando a rocha um sabão inescalável. Desclipo minha solteira da proteção e deixo meu porto seguro, lutando agora para não ser jogado no abismo pelo pêndulo da corda, tentando achar agarras que me mantenha preso à parede, buscando forças sei lá de onde, ainda com o estomago nauseando, meio grogue. Quando finalmente clipo minha solteira na parada, onde estão meus companheiros, sou informado pelos dois, que a escalada acabou, que seguir em frente com aquele tempo não seria mais possível, então que eu deveria me preparar para o pior, que era fazer o rapel suicida, mas até então, não sabíamos nem se a corda daria para chegar de volta ao chão e havia chegado a hora que a montanha ia separar os homens dos meninos........................
Num belo dia de sol, o Alexandre Alves me liga e diz que havia desaposentado e que queria minha presença e a do DEMA numa escalada no Rio de Janeiro, sua terra natal. Dizer "não" para o Alexandre é algo inimaginável, porque toda trip que ele confirma presença, é sinal de confusão na certa, é a certeza de que a gente vai se divertir em alguma enrascada, então só nos restou confirmar presença e torcer para que a gente saia inteiro da aventura proposta.
O plano era ousado: Escalar o PÃO DE AÇUCAR e o CORCOVADO no mesmo dia, fazer um bate e volta alucinante, partindo de Campinas, uma espécie de treinamento para outra escalada grandiosa num futuro próximo. Eu desconfiei do planejamento, não pelo Alexandre, mas por mim e pelo Dema, porque estávamos longe da escalada há pelo menos uns 3 anos, mas mesmo assim, aceitamos o desafio, sem botar muitas expectativas, a gente ia lá se divertir, treinar um pouco e nos encantar novamente com dois ícones mundiais.
Cabeceando de sono, desembarcamos antes das 6 da manhã na Lagoa Rodrigo de Freitas, uma parada meio clandestina, mas que veio bem a calhar por nos deixar mais perto da Praia Vermelha e rapidamente descolamos um Uber para nos levar até lá. E é uma satisfação imensa ser apresentado novamente a um dos cartões postais mais conhecidos do planeta, porque estar aos pés do conjunto do Pão de Açúcar, formado também pelo Morro da Urca , é se sentir cidadão do mundo. E o cenário nunca deixa de surpreender e não importa quantas vezes você tenha ido ao Rio de Janeiro, você vai se maravilhar, se encantar e até se emocionar, mas o melhor ainda está por vir.
PRAIA VERMELHA antes mesmo das 7 da manhã, já apresenta uma quantidade considerável de banhistas, que buscam alguns esportes aquáticos, mas nós, naquele momento, só buscávamos contemplação, vendo o sol surgir por detrás do monólito gigante, isolado e cercado de nuvens, que passavam ao largo, tornando-o mais misterioso ainda.
Existem 3 maneiras de alcançar o Pão de Açúcar: A primeira, mais fácil, é subir pelo BONDINHO (teleférico) mais famoso do mundo, mas vai custar mais de 150 reais, uma fortuna. A segunda é por uma trilha que vai margeando o mar e sobe numa escalaminhada perigosa, com uso de cordas em alguns trechos, indo parar direto no topo do Pão de Açúcar. A terceira, é por trilha que sobe até o ombro do Morro da Urca e desvia para a direita até bater no grande maciço do próprio Pão de Açúcar e ali estarão as vias de escalada, que será o nosso objetivo dessa viagem.
Sem perder muito tempo, ali mesmo, do lado esquerdo da Praia Vermelha, adentramos na trilha CLAUDIO COUTINHO, que inicialmente irá nos levar em direção ao Morro da Urca, que poderíamos subir de bondinho, mas pagando outra fortuna, melhor mesmo é ir por trilha que é gratuita e sem nenhuma burocracia. No início, o caminho é um calçamento de concreto, tendo o mar do lado direito e as grandes paredes da Urca do lado esquerdo, onde também há algumas vias de escalada e uns 500 metros de caminhada, vamos abandonar em favor de uma trilha que subirá e esquerda por escadas de barro , pedras e madeira.
Essa trilha que nos levará ao ombro do Morro da Urca, uma espécie de colo ou selado entre a própria Urca e o Pão de Açúcar, vai subir para valer, inclinada e cansativa, mas curta, percorrendo apenas outros 500 metros até essa curva, já a 150 metros de altitude. Não existe placa alguma que indica a saída à direita, que vai nos levar para a base da via de escalada, mas quem vai prestando atenção, verá que bem na curva, há uma cerca de arame liso, de onde brota uma discreta trilha, que alguns metros mais à frente, vai se tornar uma verdadeira avenida e é por ela que devemos seguir.
Antes de nos enfiarmos definitivamente na trilha em direção ao Pão de Açúcar, vamos nos livrar de todo excesso de bagagem que trouxemos, então saímos alguns bons metros da trilha e escondemos tudo no mato, levando apenas os equipamentos de escalada e nossa água. E a trilha é realmente um passeio que vai se desenvolvendo rapidamente, sem nenhuma bifurcação, que possa nos confundir e uns 15 minutos depois, lá estamos, diante de um colosso de pedra de quase 400 metros de altura, um ícone reconhecido em qualquer parte do mundo, que abriga simplesmente o bondinho mais famoso do planeta.
Antes de narrar a escalada, preciso aqui fazer um parêntese: Encostado no gigante rochoso, bem a nossa frente, que é onde termina a trilha, teremos duas opções. Primeiro é a via ITALIANOS, uma das vias mais clássicas do país, que pode ser subida por uns 100 metros e depois para se chegar ao cume pega-se uma variante conhecida popularmente como SECUDO ou, assim que termina a Italianos, pode emendar com a via CEPI e subir pelos cabos de aço por mais uns 150 m até o cume.
A gente poderia muito bem escolher essa via clássica para subir o Pão de Açúcar, mas para isso teríamos que entrar na fila e esperar nossa vez, já que é uma via mega concorrida, mas além desse problema, seria o tempo de escalada, já que em 3, não conseguiríamos bater cume em menos de 5 ou 6 horas e isso inviabilizaria nossa tentativa de subir o CORCOVADO, então nos restou escolher a via CEPI, uma via ferrata, composta basicamente de cabos de aço, mais rápida que a italianos e nos daria a oportunidade de treinar os procedimentos para poder escalar o Corcovado, já que eu e o Dema andávamos há muito tempo longe da escalada.
Num passado não muito distante, os cabos de aço da via CEPI do Pão de Açúcar, chegavam até o chão, mas isso proporcionava que qualquer um se metesse na via, sem nenhum tipo de equipamentos, vindo a causar acidentes, então se convencionou retirar os cabos iniciais, obrigando os escaladores a chegar munidos de equipamentos.
Eu havia visto vários vídeos de escaladores subindo nessa via sem cordas, apenas usando alguns estribos para vencer a primeira enfiada, que não tem cabos, e depois subindo apenas na força dos braços, usando a cadeirinha e duas solteiras (fitas que vão presas a cadeirinha e cada uma com um mosquetão nas ponta). Eu sinceramente faria isso sem nenhum problema, aliás, é o meio mais rápido de subir a via, mas no mundo da escalada há uma cagação de regra absurda e também se convencionou, subir com a corda, como se fosse uma escalada tradicional, costurando nas chapeletas ao longo do caminho, fazendo a parada nas proteções duplas e puxando os outros participantes, principalmente depois de um acidente em que um dos cabos se rompeu e um escalador morreu, mas por sorte, os cabos foram todos trocados, então para não afrontar nenhum cagador de regra, optamos por fazer igual ao manual, ou seja, subir com cordas.
( Inicio da CEPI)
E como é lindo olhar para esse gigante e ver a insignificância de outros escaladores acima das nossas cabeças, grudados na rocha. O Alexandre prepara a corda, organiza os equipamentos, depois de ter escalaminhando uma rampa de pedra que o leva até a parede onde está o início da via de escalada. Essa primeira enfiada (lance) tem uma sequência de chapeletas, mas não é uma escalada que vem de graça não, tanto que no croqui para quem vai escalar sem depender dos cabos, está graduado em VIIa, um nível absurdo, ainda mais em se tratando do Rio, onde a graduação é muito mentirosa (rsrsrsrs). O melhor a se fazer é usar uns estribos, caso o guia não queira sofrer muito. O Alexandre acabou dando conta, depois de suar um pouco e quando chegou na parada, no início dos cabos, que naquele momento se estendia para a direita, praticamente na horizontal.
Nesse começo de escalada, eu me ponho como o “homem segui”, o indivíduo que se encarregará de fazer a segurança do guia que sobe à frente e o Dema será o participante que virá logo a seguir. Quando o Alexandre chega na primeira parada, que convencionalmente chamamos de “P1”, ele se ancora e vai puxando eu e o Dema. Sem muitas delongas e frescuras, nos penduramos logo nas fitas que foram deixadas ao longo do caminho e vamos ganhando terreno até que nós dois chegássemos também a “P1”, onde está instalado o início dos CABOS DE AÇO.
O horizonte se abiu e agora estamos colados nesse gigante de rochas, uns 30 ou 40 metros do chão e os nossos olhos não podem mais se desgrudar da paisagem e daqui para frente, muito mais do que as paredes de escalada, as belezas do Rio de Janeiro é que vão guiar nossas conversas .
Os cabos de aço vão correr para nossa direita, na horizontal, como numa travessia. A dinâmica da coisa é bem simples: Nós usamos 2 fitas que também chamamos de solteiras ou até rabo de vaca e na ponta delas, 2 ganchos instalados, que são os mosquetões. E a técnica consiste em abraçar o cabo de aço com os 2 mosquetões e quando houver uma emenda no cabo ou entre um cabo e outro, a gente tira apenas um mosquetão e passa para o outro lado e aí vendo que estamos seguros, passamos o outro mosquetão, tendo em mente que sempre teremos que ter um deles preso ao cabo e ainda assim, estaremos seguros pela corda de escalada, que vai sendo passada nas chapeletas, que foram instaladas ao lado dos cabos em espaços regulares, talvez um excesso de preciosismo, mas como também não sou nenhum escalador, vou seguir os procedimentos, porque se fosse nossas expedições na Serra do mar Paulista, bastava um cipó reforçado. ( rsrsrsrssr)
O Alexandre chega ao fim do cabo, no momento em que ele faz uma curva e começa a correr para cima, uns 90 graus. Nesse momento, parece estarmos na curva no monólito, uma visão lindíssima do escalador e das ilhas que “boiam” calmante no oceano. Essa travessia na horizontal pelos cabos é puro divertimento, mas quando ela embica para cima, a gente descobre que não estamos ali para brincadeira, então vamos ter que suar em bicas para poder segurar o peso do nosso corpo apenas com os braços.
Eu continuando dando a “segui”, ou seja, dando proteção de baixo, enquanto o Alexandre faz o mesmo, quando chega acima nas paradas duplas. A força que se faz para ganhar terreno puxando os cabos de aço é absurda, principalmente quando a parede inclina de vez e pior ainda é conseguir passar os mosquetões de um cabo para o outro, porque vez ou outra, as travas de rosca vão se fechando e quando você tenta fazer o procedimento com uma só mão, o miserável enrosca e a força da gravidade simplesmente te empurra de volta, sem contar as vezes que se esquece de prestar atenção e acabamos ficando enroscado, tento que retornar a emenda com o cabo anterior.
As paradas duplas são várias pelo caminho, muito porque, serve para dar a segurança para quem vai escalar em livre, sem depender dos cabos, então podemos passar dessas paradas e usar todo o tamanho da corda, indo até paradas mais distantes.
Vamos ganhando altitude rapidamente, mas sempre que a gente pode, paramos com nossas atividades para apreciar a paisagem, ver aviões que parecem passar raspando ao Cristo Redentor, dar um rasante ao nosso lado a caminho do aeroporto, enquanto isso, mais perto da gente, os bondinhos vão sobrevoando sobre nossas cabeças, abarrotados de turistas.
A nossa escalada chega finalmente a um platô, junto a uma espécie de GRUTINHA, onde instalaram umas placas para homenagear os conquistadores dessa via, conquistada pelo Clube Excursionista Pico Itatiaia (CEPI), em 1952, clube esse que nem existe mais. A Gruta é um lugar bem confortável para ficar, para se deslumbrar com mais paisagens do Rio de Janeiro, que vai desde as Praias de Copacabana, passando pelo Morro Dois Irmãos, até a vista alcançar a própria Pedra da Gávea e o Cristo Redentor.
A manhã vai passando e o Alexandre nos lembra que precisamos estar no cume até a hora do almoço se ainda quisermos tentar escalar o Corcovado no mesmo dia, então libero logo a corda e vejo o Dema e ele desaparecerem na curva do nosso lado esquerdo, iniciando outro estirão até a próxima parada, onde o Alexandre já me puxa rapidamente e sem nem pensar muito, já ordena que eu próprio comece a guiar a escalada, levando a nossa corda até a parada bem mais acima.
Eu meto marcha nos cabos, acelero o mais rápido que posso, me sinto otimamente bem, braços fortes me elevam rapidamente, mas ao chegar na próxima para dupla, passo reto e tento alcançar a próxima, mas infelizmente a corda acaba não dando, mas toco o foda-se e sigo até um platô um pouco mais acima, onde é possível se ancorar sem ter que colocar peso nos cabos e é no próprio cabo que instalo a parada e puxo meus companheiros.
De onde estamos, já conseguimos ver as construções que seguram o Bondinho e foi justamente nesse lance que anos atrás um dos cabos se rompeu e um escalador acabou morrendo ao se precipitar no abismo, mas agora tudo está novinho, então me agarro com toda força e vou arrastando a corda que tem na ponta, meus companheiros de aventura. Já estou muito emocionado, subo extasiado, com a aventura vivida e com a paisagem mais bonita do mundo. O BONDINHO mais famoso do planeta passa raspando na minha cabeça e ele visto desta posição, é algo tão inusitado quanto a tentativa do vilão em derrubá-lo, cortando seus cabos com os dentes no clássico filme do 007, o agente secreto mais famoso do mundo.
Voltando para o nosso mundo, os nossos cabos dão uma guinada para a direita, ao chegar praticamente no topo da pedra. O Alexandre insiste que eu devo passar reto, mas não há qualquer sinal que a saída seja por ali e insisto que devemos seguir o cabo mesmo para a direita, praticamente em nível, passando embaixo da linha suspensa do bondinho. E é exatamente isso que eu faço e também já não me importo mais com a corda, porque não há mais para onde cair, e quando os cabos de aço tornam a tomar o caminho para cima, meio que atabalhoado, escalaminho a rampa final e vendo que os meninos já estão seguros, me concentro em ir puxando a corda até que eles se juntem a mim.
Antes de subirmos ao patamar reservado exclusivamente para quem chega escalando, somos avisados pelo segurança do bondinho que devemos tomar a nossa esquerda e subir pela escadinha, mas antes, é precisar unir o grupo num só abraço, cumprimentos calorosos de quem cumpriu o objetivo proposto, vencendo um dos símbolos urbanos mais reverenciados do planeta.
Subindo pela escadinha lateral, que dá acesso a chegada do BONDINHO, saltamos a cerca e somos recebidos com festa e entusiasmo por uma multidão de todos os cantos do mundo e já não sei mais se estou no topo do PÃO DE AÇÚCAR ou da Torre de Babel. As pessoas nos cercam, todos querem tirar foto com a gente, querem saber mais daqueles malucos que subiram aquele gigante apenas com a força dos braços. Alguns ariscam um português porco, outros vão no espanhol mesmo e quem fala russo, tenta a mímica. Mas apesar da tietagem, a gente corre contra o tempo, tentando chegar ao bondinho o mais rápido possível, por que ainda temos outro gigante para conquistar.
O Alexandre toma a dianteira e quando entramos no saguão de onde parte o teleférico, observamos que todos carregam uma pulseira que libera a catraca e aí já pensei que teríamos que morrer com uma fortuna para descer no bondinho, mas quando nos aproximamos, fomos recebidos com um sorriso no rosto do controlador de acesso, que simplesmente abriu uma passagem lateral e nos deu as boas-vindas, como se fossemos artistas e ainda enrolado na corda e com os equipamentos a balançar, nos jogamos para dentro do bondinho e vimos os abismos passar sob os nossos pés, enquanto apreciávamos a vista da cidade mais linda do mundo.
( Fotos com amigos turistas no Bondinho)
A descida até o Morro da Urca é gratuita para quem sobe escalando, mas é só até aí mesmo, quem quiser ir ao chão de bondinho, terá que arcar com a outra parte da decida ou usar a trilha. Para a gente, essa era a única opção já que tínhamos que resgatar nossas mochilas, que havíamos escondido no mato.
A descida de volta à praia foi rápida, mas cansativa e sem pensar muito, compramos umas marmitas e pegamos um Uber para nos levar até a o CENTRO DE VISITANTES PAINEIRAS. Ali, antes de subir pela estrada asfaltada até interceptar a trilha que nos levaria até o início da via de escalada do Corcovado, tínhamos uma missão: COMER AS NOSSAS MARMITAS. E foi ali mesmo, sentados no chão, junto a calçada, num lugar que se reúnem gente de todo o planeta, que vão em direção a uma das SETE MARAVILHAS DA HUMANIDADE. Ali, a gente não conhecia ninguém e ninguém nos conhecia, poderiam pensar que éramos mendigo, alguns até pensaram mesmo, mas nós simplesmente fingimos não ser com a gente, o mundo ao nosso redor nem existia, somente nosso frango à parmegiana e nossa quentinha de churrasco. Mas não demorou muito e nos pareceu que alguém se incomodou com nossa audácia. Um grupo se deslocou da multidão e veio em nossa direção e na nossa cabeça, iam tirar satisfação, pedir para a gente tomar vergonha na cara e parar de envergonhar o Brasil perante o mundo, mas ouvimos em alto e bom som: “ Boa tarde meninos, onde vocês compraram essas quentinhas? ” Carioca é um povo descolado mesmo, quando a gente vem com o milho, eles já estão com o fubá. ( rsrsrsrsrsrsr)
A partir da PAINEIRAS, somente vans autorizadas podem subir até o Cristo Redentor e como há uma guarita de acesso, pensei que poderíamos ter problemas para passar com mochilas cargueiras nas costas, mas ninguém nos perguntou nada, nem olharam na nossa cara e como se nem existíssemos, passamos direto e subimos pela estrada asfaltada, passando pouco dá uma da tarde. E o caminho vai subindo pra valer, até que uma meia hora depois, talvez um pouco mais, numa grande curva a gente consegue avistar um arremedo de trilha escondida atrás de uma mureta de concreto e aí foi só pular e se pôr a caminhar dentro da floresta, sempre beirando os paredões à nossa direita. A trilha é bem óbvio, passa por uma espécie de caverninha, se lança para o alto e uns 25 minutos depois, chegamos a uma clareira onde há uma pedra em forma de mesa e que marca o fim da caminhada, onde agora teremos que virar à esquerda e descer umas pirambas que em um minuto mais, vai nos levar bem aos pés da parede de ESCALADA DA VIA K2, uma das vias mais tradicionais do pais.
Quando chegamos à clareira, demos de cara com um casal de escaladores, na verdade nos pareceu ser o guia com sua cliente, com traços orientais. Ele já foi nos avisando que deveríamos entrar na fila, já que havia 3 grupos na parede. Ai sentimos que a vaca foi para o brejo, já que estávamos no horário limite e quando o casal começou a escalar, o grupo mais acima ainda estava emperrado na parede, causando congestionamento, então a gente simplesmente teve que enfiar a viola no saco e abortar a escalada naquela tarde, decidimos que íamos bivacar ali mesmo no pé da parede, já que havíamos carregado sacos de dormir e redes, com a intenção de acampar só depois da escalada concluída.
Combinamos de acordar bem cedo, antes mesmo do sol nascer e realmente, pouco depois das 6 da manhã, já estávamos enfiados aos pés da via de escalada. No dia anterior, resolvemos dar uma treinada e deixamos a primeira enfiada (lance) pronta, então o Alexandre conseguiu chegar à primeira parada com rapidez, mas já vimos que a coisa estaca feia. Aliás, o tempo estava totalmente fechado, mas pensamos ser apenas aquele nevoeiro da manhã, na esperança de que o tempo abriria logo que o sol esquentasse, mas não foi isso que aconteceu.
O nevoeiro foi ficando cada vez mais espesso e já era possível ver algumas gotas de água se condensar nos nossos corta ventos e o Dema, que no dia anterior havia levado nossa corda até a P1 com maestria, começou a sambar na rocha e aí já notei que havia algo de errado, porque a parede estava sem aderência nenhuma.
Quando chegou a minha vez, a sapatilha não grudava na rocha e aquele quinto grau, que obviamente é mentiroso, ficou quase insubível . Eu me esforcei, mas não saia do lugar, não conseguia apoio de mãos no diedro vagabundo e comecei a fazer esforço absurdo. Eu estava com uma blusa e um corta vento e a temperatura começou a subir vertiginosamente. Além da dificuldade da escalada, comecei a sofrer um superaquecimento, de tal maneira que o estomago começou a embrulhar. Claro, poderia ter parado e tirado os abrigos, mas pensava em fazer isso um pouco mais acima, quando me juntasse aos companheiros, mas eu estava num lugar medonho, mesmo tendo uma corda que vinha de cima, estava exposto a beira do abismo, onde a corda ameaçava fazer um pendulo e me jogar no vazio.
Pior ainda, foi me lembrar que exatamente naquele lance, a parceira do guia no dia anterior, que obviamente parecia ser bem mais experiente que eu, tomou “uma vaca”, quando se perdeu na subida e foi jogada para fora da parede, caiu rolando na rocha e ficou de pernas para o ar, parecendo uma tartaruga quando fica caída com o casco para baixo (rsrsrs)
A situação, que já era ruim, desgraçou a piorar ainda mais. Por cinco minutos, eu quase que apaguei, fiquei pendurado numa costura, lutando bravamente para conseguir me livrar da blusa e do corta vento, esperando a temperatura do corpo baixar, enquanto ao nosso redor, a chuva fina começou a cair e a molhar tudo que nos rodeava. Eu me levantei, me agarrei novamente à rocha e como uma lagartixa manca, subi aos trancos e barrancos, até me agarrar à “parada”, como um faminto que se agarra a um prato de comida.
A minha chegada, quase que foi ignorada, já que o Dema e o Alexandre estavam imbuídos na tarefa de dar fim àquela escalada. Sem rodeios anunciaram:
- Divanei, a escalada acabou, se prepara, a gente vai descer, ainda não sabemos como, porque a corda parece não ter comprimento para chegar ao chão, mas isso, é um mero detalhe.
O Dema tomou a frente, não quis descer de “baldinho”, preferia ariscar na corda dupla, mas não era tão simples assim, se ele fosse jogado para o abismo pelo pêndulo, a coisa ira ficar feia. Então achamos que deveríamos tentar nos manter encostado à parede, fazer uma costura na chapeleta mais abaixo, para que a corda se mantivesse o mais reto possível. E ele desceu, aos trancos e barrancos e quando chegou perto do chão, teve que se pendurar e tentar se agarrar a um patamar que o levaria para longe do abismo, até que conseguiu se “solteirar” num arbusto e liberar a corda para eu descer.
A minha descida também foi traumática. A força da gravidade tentando me arrastar para o abismo, a pedra lisa querendo fugir dos meus pés, enquanto eu lutava com meus medos imaginários, tentando me afastar do vazio descomunal. E a corda, que já havia faltado embaixo dos pés do Dema, agora faltava mais ainda embaixo dos meus e o meu olhar só enxergava 500 metros abaixo, a lagoa Rodrigo de Freitas, que naquele momento, parecia me querer. O Dema me arremessou umas fitas longas e quando segurei, ele me puxou para junto dele e me fez chegar ao patamar uns 2 metros acima do chão e esse procedimento, também serviu como base para resgatar o Alexandre, que veio logo a seguir e quando tudo parecia resolvido, eis que nada é tão ruim que não posso piorar.
Quando tentamos puxar a nossa corda, a infeliz enroscou e não houve força que pudesse fazê-la descer. Para se proteger, o Alexandre teve que deixar um mosquetão numa das chapeletas e a maldita estava travando a nossa corda. A gente lutou, o Alexandre ameaçou subir novamente, mas a chuva comeu solto naquela manhã e quando tudo parecia perdido, tivemos a brilhante ideia de fazer 3 prussiks (espécie de nó com cordelete, que se prende à corda quando tencionado), que conectamos às cadeirinhas e juntos, nos pendurávamos com todo nosso peso na corda, até que ela foi cedendo, centímetro à centímetro até despencar da parede.
Estava acabado, nossa missão no Rio de Janeiro havia sido concluída. A intenção era apenas fazer um treino forte para uma escalada clássica numa parede com mais de 1 km, no próximo feriado, mas ao invés de encontrarmos somente um bom treino, encontramos AVENTURA das boas, fomos submetidos a uma infinidade de situações que serviria muito de lição para uma das maiores aventuras das nossas vidas num futuro bem próximo. Saímos encantados novamente com as belezas naturais do Rio e felizes por ter podido nos pendurar num dos ícones mais famosos do planeta e de agora em diante, nunca mais veremos o PÃO DE AÇUCAR e seu famoso BONDINHO, com os mesmos olhos, foi lindo, foi mágico.
Divanei, junho/2026