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Bora viajar?

ESCALADA E AVENTURA : MARIA NEBULOSA

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.(foto wiki montanhas)

..............O sol já havia nos abandonado e a escuridão daquela noite fria de inverno, pairava sobre nossas cabeças. O Dema levou a nossa corda, uns 50 metros para cima e não tendo encontrado a "parada" para poder nos puxar, simplesmente se entregou aos gritos estridentes, tentando chamar a nossa atenção para situação que já parecia meio fora de controle.

Ancorado em um pequeno arbusto mequetrefe , informou claramente que a sua missão naquela enfiada( lance) estava terminado e naquele momento, uma ajuda seria fundamental para a sequência da escalada.
-Alexandre, assume a segurança da corda, que vou subir.

Me desclipei do mosquetão mãe, logo após desmontar o freio e entreguei a corda para o Alexandre. Passei minha solteira pela corda, montei um nó prussik e me pus a escalar, já que era um lance de uma graduação baixa e antes mesmo de chegar ao Dema, encontrei um desvio para a esquerda, tentando me valer da leitura do croqui da via.
Com a corda presa nas duas extremidades, fui até onde era possível, desfilei por abismos perigosos, mas nada de encontrar as duas proteções que tanto almejávamos e sem mais o que fazer, me juntei ao Dema e juntos, fizemos subir o Alexandre, para agora sermos três trouxas presos num pé de pau qualquer, a meio caminho de lugar nenhum.
Sem outra opção, pedi para que o Dema saísse a procura das proteções, já que à luz de lanternas, ele enxergaria melhor que eu. E realmente, com a corda livre e mais espaço para percorrer, a nossa esquerda e pouco acima da gente, a nossas proteções, em forma de dois "P" foram encontradas, por hora a gente ainda estava no jogo, a escalada continuaria .

O vento se juntou a escuridão e a incerteza tomou conta das nossas almas e quando o Dema se livrou da “parada” e se pôs a escalar, eu me perguntei se a gente já não teria ido longe demais, se já não era hora de nos darmos por vencidos naquele dia, afinal de contas, ainda estávamos com os pés firmes ao chão, mas não querendo abalar psicologicamente meu companheiro de escalada, só fiz incentivar, já que não poderia fazer outra coisa e como uma assombração , desapareceu na lombada escura.

A cada metro de corda esticada, de parede escalada e sem ter encontrado uma mísera “chapeleta” para costurar a corda, meu coração parecia receber uma flecha. Se o Dema não encontrar um porto seguro, a situação começaria a sair do nosso controle, se é que já não havia saído. E a corda foi esticando, cinco, dez, quinze metros e nada de encontrar a chapeleta. Nosso amigo estava nervoso, cansado, adrenalizado, destruído psicologicamente. Voltar atrás já não era mais opção, então ele esticou mais de 30 m de corda, não enxergou a proteção e se perdeu num mundo feito de pedra e solidão, desamparado, quase que sem ter a quem recorrer.

Eu e o Alexandre estamos atônitos do outro lado da corda. Não sabemos o que fazer, mal conseguimos nos comunicar com o nosso amigo. Não sabemos se incentivamos ele a tentar esticar toda a corda até tentar achar a “parada” ou se confiamos na decisão dele, não sabemos nem se ele poderia tentar uma desescalada ou se proteger com algum equipamento móvel ou até mesmo em algum arbusto e tentar um rapel desesperado para retornar onde estamos.

O Dema não passa de um rato que subiu em uma mesa e não consegue mais descer e nós somos 2 homens atormentados pela situação em que nos colocamos, pendurados a 500 metros de altura, desolados porque a nossa esperança de poder dormir confortável numa espécie de gruta, umas 3 paradas acima de onde estamos, havia se desmoronado como um castelo de cartas.

- Divanei, Alexandre, está acabado, não vou esticar mais nem um metro de corda.

Acima das nossas cabeças veio o veredito final e só poderia ser dado por quem se colocou em uma condição miserável e agora precisa preservar sua própria segurança. Não dar mais nem um passo era uma tomada de decisão grandiosa, da envergadura daquela montanha, porque sair vivo e inteiro era prioridade indiscutível e inegociável.

- Meninos, estou vendo um arbusto junto à umas bromélias e aqui farei desse lugar medíocre, nesse patamar cretino, minha cama, meu lar por essa noite, espero que tenham alguma sorte aí embaixo e se Deus quiser, nos vemos vivos amanhã de manhã.

A gente havia ido atrás de AVENTURA, fomos atrás de lugares fora do comum, para fazer a vida valer a pena, queríamos nos livrarmos das mesmices da nossa existência e acabávamos de encontrar o que fomos procurar, mais cedo do que eu esperava. Eu e o Alexandre nos olhamos, praticamente não dissemos nenhuma palavra um ao outro, nosso pensamento vagava em direção aos abismos que nos consumia, imaginando a noite de cão que teríamos, dormindo sentados ou sei lá como, pendurados a centenas de metros do chão, mas lá dentro de nós, o espírito aventureiro se regozijava, porque via a vida pulsando, por mais difícil que fosse a situação..............

Foi no longínquo ano de 1997 que botei meus olhos na MARIA COMPRIDA (1926m), até então uma montanha completamente desconhecida, vista da travessia Petrópolis x Teresópolis. Fiquei encantando com aquele gigante rochoso, um espigão que se estendia para o céu e desafiava a minha capacidade de compreender aquela paisagem extraordinária. Mas era quase que o início da minha caminhada como montanhista e ao longo do tempo fui sabendo da existência de centenas de montanhas igualmente sensacionais, então, por quase 3 décadas, ela ficou esquecida e foi só uns 3 anos atrás, procurando algo novo para subir, já que havia subido quase tudo naquela incrível região, que voltei novamente meus olhos para ela.

As pesquisas sobre a trilha que poderia me levar ao cume da Maria Comprida, me causou um certo desanimo ao saber das burocracias cretinas que envolvia aquela montanha: Era necessário pedir autorização para o condomínio onde começa a trilha, além de ter que contratar um guia credenciado, pagar uma fortuna, além de que, havia um limite de no máximo 5 pessoas por dia, numa agenda já transbordando de tão cheia.

Se as burocracias jogaram uma balde de água fria nas minhas pretensões, pelo menos as pesquisas sobre a montanha, haviam despertado dentro de mim, um sentimento arrebatador, quando descobri, quase que por acaso, a existência de uma via de escalada que poderia nos levar ao cume, mas essa informação foi muito mais além, porque essa não era uma via de escalada qualquer, era simplesmente a PRIMEIRA VIA DE ESCALADA A PASSAR DE 1 KM NO BRASIL. E quando li aquilo, eu fiquei quase que sem acreditar e fui confabular com o Alexandre, um dos únicos companheiros de escalada que eu ainda mantinha contato, mas que infelizmente havia se aposentado do esporte e ele simplesmente cagou para a informação, sua vida havia tomado outro rumo inesperado e não havia espaço mais para o esporte.

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(foto net cia da escalada)

Claro, eu poderia eu mesmo organizar a escalada, conseguir os equipamentos emprestados, inclusive do próprio Alexandre, mas sem ele, não fazia sentido, já que a gente não era nem escaladores e sim montanhistas que se juntaram para aprender os rudimentos do esporte a fim de conquistar montanhas como essas. Então, deixei o tempo passar, esqueci da d. Maria Comprida, fui cuidar da minha vida, conquistar outras montanhas, abrindo novas trilhas, indo a picos que nunca ninguém me disse como chegar, mas surpreendentemente, esse ano o próprio Alexandre ressurgiu das cinzas e deu logo um ultimato:

- Se Prepara Divanei, esse ano a Maria Comprida vai cair.

O Alexandre fixou uma data para o evento, mas antes, se juntou a nós o Prof. Dema, outro integrante do nosso grupo de carregadores de cordas e duas semanas antes, partimos para o Rio de Janeiro para um treinamento no Pão de Açúcar e no Corcovado, já que fazia uns 3 anos que nenhum de nós escalava. E finalizado o treinamento, chegamos à conclusão de que continuávamos tão somente carregadores de cordas, mesmo assim combinamos que no próximo feriado Paulista, daríamos cabo daquela escalada e não interessava que a via fosse tão grande a tal ponto de meter algum medo na gente, porque vivíamos de desafios, o fracasso e a gloria eram dois lados da mesma moeda.

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( Croqui Maria Nebulosa)

Dez horas de viagem, partindo da região de Campinas, nos deixou no final da Estrada da Rocinha, num vilarejo conhecido como Secretario, talvez um subdistrito de Petrópolis, por volta das 11 horas da manhã. O carro ficou estacionado à beira do caminho, pouco antes de uma porteira de um sítio. A gente havia combinado que subiríamos preparado para tudo, com cargueira nas costas, contendo saco de dormir, água, alguma comida, lonas para isolar o chão, primeiros socorros, porque dentro do nosso planejamento, estava dormir numa tal GRUTA que existiria junto a parada de número 13, onde pretendíamos chegar até o final da tarde.

Jogamos as mochilas às costas e partimos, mas quando chegamos a porteira do sítio, a encontramos fechada com cadeado e perto dela, 2 homens faziam um serviço de jardinagem. Pedimos autorização e nos deram o aval para pular a porteira, mas disseram que teríamos que falar com um tal de Paulo, que estaria numa casa mais à frente. Passamos pela casa, do lado esquerdo e não vimos ninguém e pouco mais de 5 minutos à frente, antes mesmo de chegar em outra residência, talvez seja essa onde o tal casa que o Paulo estaria, interceptamos o riacho à esquerda, que deveríamos subir sem trilha, caminhando por dentro do seu leito, as vezes seco, outras vezes com um pouco de água.

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Talvez houvesse alguma trilha nesse trecho inicial, porque até encontramos um vestígio mais acima, por onde seguimos, mas o caminho vai ser mesmo por dentro desse riacho, tendo que escalar algumas rampas de pedra, uma caminhada não muito fácil e enfadonha, mas sem bifurcações, num caminho meio óbvio.

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Mas quando chegamos numa rampa gigantesca, eu dei bobeira e pegue para a esquerda e chegando ao alto, tivemos que varar mato para a direita e reencontrar a outra rampa, que nos levou direto para o início da VIA DE ESCALADA MARIA NEBULOSA.

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(Inicio da via junto a uma rocha)

Não há nada que indique o início da via, mas uns arbustos altos servem de referência e um olho bem treinado já avistará as chapeletas grudadas à rocha. Era quase uma hora da tarde, quando iniciamos a escalada e mal o Alexandre havia chegado a primeira chapeleta, ouvimos uma gritaria que parecia vir um pouco mais abaixo, talvez na grande rampa de acesso que havíamos passado. Alguns homens diziam palavras de ordens, meio inaudíveis e incompreensíveis pela distância. Perguntas desconexas, querendo saber porque não falamos com o tal de Paulo, que pelo que entendemos, era o novo xerife ali das redondezas. Gritos de um lado e gritos do outro e a única coisa que ficou claro, é que deveríamos pedir a autorização da próxima vez. Não descobrimos o que estava rolando, por que um caminho que antes parecia ter livre acesso, agora parecia ter um dono, que mandava capangas para intimidar, mas isso pouco importava, a nossa missão estava ali, diante dos nossos olhos, 1040 metros de paredes.

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Voltando à nossa escalada, o Alexandre estava na primeira chapeleta, onde parou e parecia não estar confiante pra subir, estava visivelmente cansado, afinal de contas, foi ele quem dirigiu por 10 horas seguidas e mesmo com nosso incentivo, não avançou e pediu para que eu o descesse de volta até onde estávamos. Ali eu e o Dema já vimos que ele não teria condições de guiar nada hoje, então o próprio Dema pediu para assumir a ponta da corda e eu fiquei com a incumbência de fazer o “segui”(nome popularmente chamado assim na escalada, que designa o homem que dará a segurança para o guia) . E esse primeiro lance tem um adendo, uma espécie de tetinho, onde é preciso encaixar um camalot 2 (peça móvel que pode ser enfiada em fendas e passado a corda) e em seguida, já é possível ganhar a primeira parada que chamamos de “P1” e serão 20 paradas até o fim dessa escalada.

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O Dema subiu com maestria, mas é claro, estamos afastados há muito tempo da escalada e todo o processo entre conquistar as “paradas”e subir os dois participantes, é feito com muita lentidão e isso vai se perdurar por um bom tempo até a gente conseguir estabelecer um ritmo mais rápido. Essas 4 primeiras “enfiadas”, realmente vão nos treinando, tanto na arte de escalar em aderência”, quanto na arte de achar as chapeletas e as "parada". Porque uma coisa é você ter a técnica para levar a ponta da corda num quarto ou quinto grau em aderência, a outra coisa é ter nervos de aços para suportar esticar 20, 30 metros de corda sem encontrar uma proteção.

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Imagina a situação, você vai escalando e ficando cada vez mais alto, mais distante da sua última parada, não encontra uma “chapeleta”, ou porque a perdeu em algum lugar ou porque simplesmente esse fdp aqui do rio não colocaram ( rsrsrsrs), aí vai subindo, sabendo que se cair vai virar carne moída, não há nervos que aguente e pernas que não tremam, principalmente para nós com pouca experiência.

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Antes de chegarmos a “P4”, já ouvimos o Alexandre balbuciar algo a respeito de acamparmos perto dela, mas eu e o Dema conversamos sobre tentar tocar o máximo que pudermos, na nossa cabeça, queríamos chegar até a “P13” para acampar confortável na tal gruta que haveria por lá, mas o tempo jogava contra nós e o destino já havia reservado outra coisa para a gente.

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Acima da P4 até a P13, vem a chegada de um trecho considerado mais fácil, com graus em torno do nível 3sup para quarto, mas mesmo assim, a gente começou a sentir o peso sobre nossas costas, não da responsabilidade da escalada, mas do peso das mochilas cargueiras, que como eu disse, continha equipamentos pesados de camping e água para quase 2 dias. Eu e o Dema resolvemos tocar agora num ritmo alucinante e quando todos estavam em segurança nas paradas, sem pensar muito, eu já montava a segurança e o Dema partia para a próxima, por vezes enroscava para achar as próximas "parada" e a gente se enrolava na leitura do croqui, que eu levei impresso, como na parada 8 para a nove, quando as proteções estavam escondidas na pedra elevada.

Algumas enfiadas, não passava de uma escalaminhada, então era hora de avançar velozmente, ganhar terreno, e foi assim que chegamos na base da P9. A paisagem estava mudada, um mundo de montanhas que víamos sobre nossas cabeças, agora estavam sob nossos pés. O horizonte se abriu e toda a Serra dos Órgãos parecia estar quase na mesma altura que nós e atrás dela, os TRÊS PICOS DE Friburgo, se levantou assombrosamente. O sol já era um arremedo querendo se jogar para oeste, quando o Dema partiu da P9 para a P10, quase uma escalaminhada, arrastando corda pelo mato e já sabendo que não havia nenhuma proteção pelo caminho, puxou 50 metros de corda até se perder já na escuridão daquela noite fria de inverno.

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De onde o Dema estava, tentava se comunicar com a gente, mas seus gritos eram levados pelo vento para longe dos nossos ouvidos e levou tempo para compreender que ele havia se perdido na via e que precisava de ajuda com a leitura do croqui, que estava comigo, então com muito custo, pedi para ele se ancorar num arbusto , deixei o Alexandre fazendo a segurança da corda , passei uma solteira pela mesma, amarrei um nó prussik para uma proteção e me pus a subir pela corda, tentando achar onde foi que o Dema havia errado, procurando o caminho a luz de lanterna.

O croqui dizia que depois de dois terços escalados antes da parada, deveríamos sair para a esquerda, achar um corredor de pedras e subir até encontra-la e eu até achei essa saída, mas diante da escuridão da noite e da minha baixa visão no escuro, não encontrei absolutamente nada, beirei rampa perigosa e como a corda estava presa nas duas extremidades, não consegui vasculhar como deveria, então me juntei ao Dema ancorado no arbusto, puxamos o Alexandre e aí éramos 3 trouxas amarrados num pé de pau qualquer, a meio caminho de lugar nenhum, lamentando a má sorte de ter perdido a via .

Não havia o que fazer, era preciso que outro homem se desgrudasse do pé de pau (rsrsrs) e fosse investigar, mas não poderia ser eu, já que eu mesmo já havia fracassado na missão, por deficiência visual, então soltamos a corda e botamos o Dema na ponta dela e ele foi varrendo tudo, alcançou o corredor de pedra e foi subindo até tropeçar na maldita “parada”, onde ele se ancorou e nos puxou e enfim, a “P10”era nosso porto seguro naquela escuridão perturbadora.

A escalada tinha que continuar, apesar de já estarmos arrebentados e cansados, não havia muito o que fazer e ainda apostávamos que poderíamos prosseguir por mais 3 enfiadas e chegar na P13 onde estaríamos salvos, mas o Dema parecia já ter chegado ao seu limite, enquanto eu e o Alexandre, já éramos carta fora do baralho faz tempo e não seria no momento mais crítico que assumiríamos a ponta da corda, então o próprio Dema, sabendo que ele mesmo teria que cometer o crime, se livrou da parada, pediu permissão para escalar e foi se perdendo na escuridão da noite, tentando encontrar as proteções a qualquer custo.

A enfiada previa uma saída à esquerda, contornando a vegetação grudada a rocha e em seguida teria que subir reto. E foi isso que o Dema fez, mas sua leitura da via acabou o levando mais para a esquerda, numa língua de pedra mais seca, quando ele deveria se manter mais à direita. E ele foi esticando corda sem encontrar nenhuma chapeleta e eu e o Alexandre íamos cantando o mapa, enquanto ainda conseguíamos uma boa comunicação, dizendo para ele que deveria achar as chapeletas para costurar e se proteger, porque a coisa começava a desandar, a corda estava sumindo rapidamente e uma queda ali poderia causar um acidente grave.

E a corda foi subindo e o homem na ponta dela acabou por se transformar num ponto perdido na escuridão, que vez ou outra tentava se comunicar, tentava se fazer ouvir, enquanto eu liberava sua corda com o coração apertado.

- Dema, pelo amor de Deus cara, você tem que achar a chapeleta e se proteger, já esticou uns 30 metros de cordas.

- Diva, eu não estou vendo nada, estou extremamente nervoso, está difícil até para raciocinar o que fazer, estou “adrenado”, não dá para desescalar e não consigo ir mais além.

Nessa hora, eu e o Alexandre já havíamos dado conta de que a situação se encaminhada para sair fora do controle, e parecia não haver o que fazer, estávamos reféns da tomada de decisão do Dema, ele era o dono da situação e esperávamos que tomasse as providencias certas para se preservar de algum acidente.

- Diva, Alexandre, para mim acabou. Não vou esticar mais nem um metro de corda, avistei um pequeno arbusto, onde vou me ancorar, porque minha jornada nessa escalada, terminou por hoje, espero que tenham sorte aí embaixo e amanhã, com luz a gente vê o que o destino vai nos reservar.

Lá embaixo, eu e o Alexandre nos olhamos e nem precisávamos trocar nenhuma palavra, a gente sabia que o nosso destino seria sobreviver a uma noite fria e miserável, daquelas passadas no inferno. Não havia um só metro de pedra plana que a gente pudesse nos acomodar. O Alexandre puxou uns 5 metros de corda para cada um e amarrou à “parada”, para que pudéssemos nos movimentar sem sermos arremessados no vazio e cada qual foi tentar achar uma cova para se deitar.

Num primeiro momento, escolhemos um patamar junto a umas bromélias, que nos pareceu dar sustentação, mas não demorou muito, parte delas já despencaram da parede e quase nos levou junto e tivemos que nos realocar. O Alexandre ficou onde estava, mas eu escalei outro patamar e me hospedei mais acima, onde uma grande bromélia conseguia aparar meu corpo franzino, num espaço de um 1 m por 50 cm, onde me acomodei feito um cachorro caramelo, que rodeia antes de se deitar, numa posição totalmente humilhante.

Protegi o mato molhado com uma loninha, vesti meus agasalhos, botei meu corta vento, comi meia esfiha, que havia sobrado do almoço, bebi 200 ml de refrigerante, entrei dentro do saco de dormir e fiquei vendo as luzes das cidades distantes, até que o sono viesse para me levar para outra dimensão. A noite demorou 3 dias para passar e na madrugada, eu já estava com metade do corpo pendurado no barranco, só as costas se mantinha ao patamar. Meu saco de dormir, virou um trapo molhado, um pouco pelo sereno e outro pouco pelas bromélias que vertiam água mais acima de onde eu estava e quando o sol nasceu, aquele homem frágil do início da noite, havia se transformado num Neandertal, rindo das suas próprias desgraças.

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(Alexandre, bivacando )

O Alexandre e o Dema não tiveram vida melhor que a minha e agora éramos 3 homens entregues a nossa própria resiliência, unidos cada vez mais no intuito de fazer cume naquela escalada, ainda mais quando o Dema gritou lá de cima, que havia dormido a alguns metros da chapeleta e que só agora com a luz do sol, é que foi possível enxerga-la.

O Dema, que havia dormido uns 30 ou 40 metros acima da gente, costurou na chapeleta perdida e seguiu escalando até a “P11”, que estava ali, aos pés do início de uma canaleta à nossa direita, de onde escorria um fio de água, que aliás, nos pareceu ser o início da grande canaleta que iria crescer montanha acima e pelo que ouvi falar, foi por onde se chegou ao topo praticamente caminhando, na conquista do cume da montanha. A próxima parada (P12), é uma linha reta que tem suas proteções numa rocha alta e depois até a P13, não passa de uma mera TRILHA, onde chegamos embaixo de um paredão, num patamar que teria nos dado uma noite mais confortável. Ali, ao lado direito da “P13”, uma grande rocha poderia esconder a tal GRUTA DO BIVAC, que seria o nosso objetivo na noite anterior, mas como também não era tão fácil chegar nela e para nós, pouco importava agora, não chegamos nem a investigar, muito porque, ali sobre nossas cabeças se apresentou o CRUX DA VIA, o ponto mais difícil da escalado e a gente tinha que se concentrar, uma vez que a gente conseguisse passar aquele lance, praticamente nada mais nos tiraria o cume.

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("P13" , O Crux da escalada)

Até então, só o Dema havia guiado a nossa corda e eis que havia chegado a hora do Alexandre assumir a sua posição de destaque naquele escalada. Deixamos para ele a incumbência de passar o crux da via. Montei o freio e dei aval para que ele subisse, mas logo no início, já notamos que ele não estava confiante, como sempre fora. Deu umas derrapadas, umas refugadas em alguns lances que me pareceu serem muito tranquilos, pelo menos nesse início. O certo é que ele não avançou, não conseguiu chegar nem até a primeira chapeleta e por estar bem baixo, desescalou e voltou ao ponto de partida.

Aí não teve jeito, o Dema voltou para corda e aos trancos e barrancos foi avançando, ganhando terreno até se proteger na terceira chapeleta. Daí para cima a parede aponta para o céu e parece que nem calango de chuteiras vai conseguir dominar essa parte da via, mas logo uma leitura mais minuciosa do croqui, conseguimos observar que é preciso sair para a direita, fazer uma pequena volta, onde várias agarras nos dá sustentação e aí é só voltar para a direção de antes e tocar reto, de olho num tetinho miserável.

Ali o Dema suou frio, ficou parado, tentando buscar coragem para encarar seus medos, tentando se concentrar a fim de não cair. Lá embaixo, eu e o Alexandre não desgrudamos os olhos da parede, tensos, principalmente eu, porque se o Dema falhasse, refugasse, eu teria que sair da minha zona de conforto e levar meu rabo lá para cima, porque iria ser o próximo a ser chamado para tentar salvar a escalada e eu não estava contente com isso. Mas o Dema não prometeu nada e entregou tudo, meteu a faca nos dentes e partiu e lá embaixo, eu extremamente atento para que ele não ficasse preso na corda e levasse uma “vaca”. Quando chegou embaixo do teto, enfiou um “camalot 5” numa fenda e passou a corda e sem pensar muito, achou um apoio de mão salvador encima do tetinho, jogou as pernas e ganhou a “parada” e recebeu os aplausos da multidão de 2 pessoas que se alegrou com a sua conquista, o CRUX havia caído e ele agora era um homem que espezinhava sobre a “P14”.

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Assim que o Dema se ancorou, já montou o freio e me fez subir. E subir a aderência como "segue", ou seja, com uma corda vindo de cima, facilita muito as coisas, mas não é tão fácil quanto parece, ainda mais porque a mochila insiste em te jogar para baixo, então é preciso botar força nas pernas, apertar o pé na parede e confiar na sapatilha, mas quando chego na terceira chapeleta, acabo esquecendo que deveria cair mais para a direita e passo reto e me lasco todo na parede em pé, sem uma mísera agarra e ali eu acabei por pagar todos os meus pecados. Mas aí é que entra a técnica que eu chamei de “mãos de curupira”, que é a arte de escalar com mãos invertidas, com os dedos virados para baixo, fazendo muita pressão e se elevando aos poucos. É uma técnica que dá muito certo e logo chego embaixo do teto, livro a minha corda do "camalot" e fico mais à esquerda para tentar encontrar uma agarra de mão que irá me sustentar, até que eu me eleve para cima, mas é uma ação ariscada, porque uma queda ali, não tem corda que te segure, que te livre de bater o joelho ou até a boca na beirada do teto, mas eu não havia caído em nenhum momento da escalada até agora e não seria ali que eu daria esse mole.

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A sequência da escalada não vai mudar muito, sempre um quarto grau ou um terceiro, vão marcar a “P15” e a “P16”, mas entre a parada 16 e a “P17”, é preciso tomar cuidado para não se perder na via, porque ela vai se curvar para a esquerda, escapando da vegetação, a fim de logo em seguida passar encima de uma grande rocha mais à direita, que já avistamos lá de baixo. A escalada vai avançando rapidamente, mas hora ou outra a gente vai ficando tenso quando o homem que carrega a nossa corda, grita que ainda não conseguiu encontrar a 'parada', mas a tensão logo se transforma em alívio, quando o grito ecoa lá de cima, informando que a enfiada estava ganha.

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Entre a “P17" e a “P18”, vamos nos encontrar com mais uma espécie de tetinho, mas esse muito mais fácil que o anterior, mesmo assim é preciso não subestimar esse lance, principalmente para quem tem pernas curtas , que é o meu caso, porque fui com muita sede ao pote e quase fui jogado de volte, tendo que travar o joelho na pedra e desesperadamente procurar uma laca de pedra para poder me sustentar.

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O Alexandre pediu para que eu assumisse a ponta da corda, queria dar um descanso para o Dema, mas achei que não seria justo, já que ele havia guiado tudo até aqui, seria honroso que ele fosse ao cume primeiro, então foi nele que resolvemos confiar até o fim. Um terceiro grau em aderência nos conduz até a “P19” e é hora de parar, tomar fôlego, beber uma água e nos preparar para o fim apoteótico. Já, sobre nossas cabeças era possível avistar o que nos pareceu ser o cume, uma barriga de pedra arredondada, que subia depois de uma vegetação um pouco mais densa.

E o Dema partiu para o último ato dessa escalada, avançou sobre a vegetação, porque se tratava apenas de uma espécie de trilha, que foi escalaminhada sem maiores problemas e ao bater de frente com a grande rocha, duvidou que a linha da escalada tocasse reto e ele estava certo, logo lá de baixo gritamos que deveria sair à direita, quase que subindo por uma canaleta que separava a rocha da vegetação. Seguindo nessa direção, ao alcançar quase o topo, voltou para a esquerda e bradou lá de cima:

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( Dema em cima da "P20")

- É CUME galera, a “P20”está ganha.

Eu e o Alexandre nem esperamos ele montar a segurança, desclipamos nossas solteiras, escalaminhamos a rampa à nossa frente e ganhamos a trilha em meio a vegetação e quando batemos na parede de pedra, aguardamos o Dema esticar a corda e subimos quase que sem esperar ele montar a parada, ali aflorou o espírito dos exploradores da Serra do Mar Paulista , o modo sertanista de fazer as coisas, trepando e nos agarrando à vegetação lateral e depois saindo à esquerda numa travessia, feito calango com chuteira, até nos vermos juntos na parada, que obviamente ainda não era o cume, mas o fim glorioso da via de escalada e assim havíamos vencido a parede, que entrou para os anais do montanhismo nacional, por ser a primeira a passar de 1 km no país, para ser mais preciso, 1040 m e como o Alexandre havia dito, A MARIA NEBULOSA ACABARA DE CAIR...

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A escalada havia terminado, mas para nós, passa longe de termos como objetivos só a subida de uma parede, porque a montanha será sempre o nosso foco principal, é para isso que viemos, para nos carregar por inteiro até o cume. Então enrolamos nossa corda, recolhemos nossos equipamentos, localizamos uma trilha que subia levemente por dentro de um mato rasteiro e a seguimos, até que ela desembocou numa clareira, onde um amontoado de pedras guardava o LIVRO DE CUME e foi nesse momento que nos demos conta de que finalmente havíamos conquistado a lendária MARIA COMPRIDA, havíamos vencido os seus 1.926 metros de altitude e suas burocracias cretinas.

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O topo é bem plano e comporta várias barracas, que podem ser montadas em diversos lugares, mas em dias de tempo ruim e muito vento, deve ser um inferno acampar ali, mas esse não será o nosso caso, muito porque, ainda são duas da tarde e assim que terminamos as comemorações, nos pusemos a comer e beber o que sobrou perdido no fundo das mochilas, assinamos o livro de cume e partimos para nossa jornada final.

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Poderíamos simplesmente nos entregarmos aos 20 lances de rapéis, porque portávamos 2 cordas de 60 metros, mas sinceramente, a gente não aguentava mais ver cordas na nossa frente e tem o problema de que, para quem vem pela primeira vez, achar as “paradas” no rapel, seria mais um parto que teríamos que enfrentar e como estávamos em três, isso demandaria muito tempo e talvez as 4 horas de sol que ainda nos restava, não fosse suficiente e se perder no rapel a noite, tendo talvez que enfrentar mais um acampamento passado no inferno, pendurados na parede, sem comida e praticamente sem água, não estava na nossa programação, então entramos em consenso e todo mundo votou por voltar pela TRILHA, ainda que eu tivesse avisado que essa não era uma trilha qualquer e sim uma das mais complicadas do Estado do Rio.

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( Dema deixando o cume)

Eu acabei por não guiar nenhum lance na escalada, mas agora havia chegado a hora de eu dar minha contribuição naquela empreitada e ficou na minha responsabilidade nos levar de volta à civilização. A trilha sai ali mesmo do amontoado de pedras que marca o cume e segue para o lado contrário de onde viemos, mas é um caminho nítido, que corre por dentro da vegetação rasteira e vai perdendo altitude lentamente, mas em pouco mais de 10 minutos, já mostra sua cara e começa a despencar nos abismos da montanha, descendo violentamente por dentro de sulcos que em alguns lugares tiveram que colocar sacos de areia para preservar a trilha.

À nossa frente vai se descortinando uma paisagem arrebatadora, o cenário é de sonhos e é até difícil acreditar que esse caminho vai nos levar com segurança até o chão, mas logo um despenhadeiro nos mostra que essa descida não vai ser de graça, porque a fenda simplesmente se abre sob nossos pés e os abismos riem na nossa cara. Estamos no que foi chamado de Passagem Leander, uma fenda beirando um vazio existencial. O Dema se enfiou na beirada do inferno e foi desescalando metro à metro, mas é uma descida tão exposta que uma queda não daria uma segunda chance, então aproveitando uma chapeleta instalada na parede da montanha, passamos a corda e descemos no rapel, talvez sem mochila e numa necessidade extrema, até fosse possível descer sem corda, mas eu e o Alexandre preferimos nos proteger.

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Ao lado da parede a fenda segue. Agora vão aparecendo proteções fixas, algumas cordas instaladas e que foram deixadas para uma maior segurança. Vamos perdendo altitude rapidamente, até que uma trilha escapa da parede e nos joga para a esquerda e quando achamos que iremos descer em direção ao vale, a trilha simplesmente nos joga para cima e nos faz colarmos novamente à ao monumento rochoso e logo à frente saímos num mirante sensacional.

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Estamos encima do CAMELO, uma crista que pela sua espessura, lembra a da Serra Fina, abismos dos lados, onde alguns lances de via ferrata, com alguns vergalhões encrustados na pedra, são vencidos rapidamente, até nos vermos em mais uma espécie de corcova, onde atrás de nós, a silhueta da pedra gigante vai crescendo e fica difícil acreditar que conseguimos passar, descer aquele monstro e somos obrigados nos deter novamente para apreciar a vista e render homenagens aos homens do passado, que descobriram essa passagem até o cume.

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A tarde já se aproximava das 4 horas da tarde, quando começamos o derradeiro trecho, que abandona as terras altas e se enfia definitivamente no meio da mata, aproveitando alguns lances de cordas colocados em lugares estratégicos.

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Mas a trilha, que até então esperávamos que fosse uma breve descida, que nos levaria rapidamente para o condomínio, foi ziguezagueando para todos os lados, descendo cordas e vergalhões em forma de degraus, tomou novamente o rumo da Maria Comprida e tornou a encostar no espigão rochoso, às vezes voltando a subir e isso simplesmente foi nos irritando, acabando com a nossa parte psicológica, porque já não tínhamos mais água e a comida havia acabado no dia anterior e só estávamos nos sustentando em pé com a força do ódio e um docinho que havíamos devorado na hora do almoço.

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A sombra das montanhas ao redor e a densa floresta, transformou o dia em quase noite. Aqueles homens fortes e corajosos, agora não passavam de zumbis que vagavam dentro da mata, tentando não cair nas inúmeras voçorocas que eram descidas com pedaços de cordas em situação duvidosa. As pernas não mais nos carregavam, apenas éramos levados pela nossa capacidade de não desistir. A goela seca, urrando de sede, o estomago gritando. Por vezes, fazia um silencio ensurdecedor, ninguém parecia querer conversar, cada qual se fechou no seu mundo interior, tentando achar forças para não se jogar ao chão e por lá ficar. Alexandre levantou a hipótese de estarmos numa "Roda de Samsara", num ciclo sem fim, de nascimento, morte , sofrimento e renascimento. Já eu um pouco menos iluminado, já achava que havíamos morrido, ido para o inferno e estávamos rodando num ciclo sem fim e que provavelmente voltaríamos ao início da parede de escalada e ficaríamos rodando pela eternidade.

Mas como não há sofrimento que dure para sempre, pouco passado das 06 da tarde, desembocamos numa estradinha estreita, onde caímos extenuados. Por mais 30 minutos, tropeçamos na portaria do condomínio, onde já esperávamos sermos tratados com desdenho por estarmos em área particular sem autorização, mas o guarda não fez nenhum questionamento e ainda nos forneceu água e nos fez voltar à vida, porque até então, não passávamos de uma flor murcha e seca.

Mais 20 minutos de caminhada, nos levou até a rodovia principal, onde por sorte conseguimos um Uber que nos levou de volta ao distrito de Secretário e antes de pensar em conseguir alguém que pudesse nos levar até onde havíamos estacionado nosso carro, quase 10 km fim de mundo adentro, nos sentamos numa padaria o fomos buscar um refresco para nossa fome, já que mal parávamos em pé de tanta fraqueza. E foi na própria padaria, que conseguimos o contato de um motoqueiro, que se propôs a levar o Alexandre para resgatar o veículo e antes das 10 da noite, já estávamos na estrada e, seguindo uma dica valiosa, uma hora depois, estávamos mortos em uma barraca de camping, num posto de gasolina à beira da rodovia e só retornamos para casa no outro dia.

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Dez anos atrás, a gente se juntou numa pedreira abandonada perto de nossas casas para aprender a escalar, com um só objetivo: pôr os nossos pés nas grandes montanhas do Brasil, onde só se pode chegar usando uma corda, ou para chegar ao cume, ou para escalar paredes clássicas que fazem parte da história do montanhismo nacional. E foi assim que, montanhas como o Dedo de Deus, Agulha do Diabo, Pico Maior, Pedra da Gávea, Pão de Açúcar, Pedra do Baú, Ana Chata e tantas outras e algumas selvagens, acabaram sendo conquistadas por nós, mas a Maria comprida, mais precisamente a sua parede gigante, que atende pelo nome de MARIA NEBULOSA, essa entrou na minha lista pelo simples fato de termos que evitar as burocracias cretinas e pelo que ela representa para a escalada no país, tendo a honra de figurar entre as maiores paredes, sendo simplesmente a primeira a passar de 1 km e achei que a gente merecia pôr no curriculum, mesmo que a gente nem se enquadre como escaladores de coisa nenhuma.

E não poderia ser diferente, a gente transformou uma escalada, que para quem escala poderia ser algo simples, numa verdadeira aventura. Porque sempre foi da nossa natureza tirar o máximo das montanhas que a gente se propõe a subir e por quase dois dias, a gente viveu como se fossemos bichos selvagens, dormimos pendurados, vagamos a noite, passamos fome, frio e sede, levamos nosso corpo ao extremo, mas emergimos de dentro da floresta com a sensação de termos cumpridos o que prometemos apenas para nós mesmos: subir e descer vivos e vivendo..............

Divanei, julho/2026

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