Olá viajante!
Bora viajar?
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felipe.farias1 2 posts
Essa é pra você, que curte trekk
Dando sequência à minha rota de escaladas em montes e montanhas, eis que se aproximava a vez do Villarrica, que tem cume a 2.843 de altitude e é um vulcão classificado como estratovulcão, situado na cordilheira dos Andes, IX região da Araucania, no Chile. Minha viagem para Pucón estava marcada para o dia 6 de março, e o sonho de conhecer a cratera do Villarrica estava muito próximo, porém, quis a natureza atrapalhar meus planos.
O gigante blanco, que é um dos mais ativos de todo o Chile, cuspiu fogo e pedra líquida em forma de lava no dia 3 de março de 2015, três dias antes de minha expedição à sua tão almejada cratera. Mas para um aventureiro apaixonado pela natureza, por conhecer lugares, culturas e tradições novas, amante de viagens econômicas, tendo já conhecido 44 diferentes nações, essa adversidade seria encarada não como um empecilho, mas como uma aventura. Mochila nas costas, passagem promocional que paguei R$ 515 (reais) nas mãos e rumo à Santiago, com partida de Guarulhos. Já conhecia Santiago de outras primaveras e a parada rápida serviu para tomar um hermoso helado e preparar a bunda para mais um trecho, até Pucón.
Diferente da normalidade, o Villarrica, que sempre se mostra coberto por neve durante todo o ano, desta vez deu lugar à color negra em grande parte de onde era blanca. Era possível identificar o trajeto que a lava havia tomado durante a erupção pelas ravinas formadas na floresta presente no pé do vulcão, muito próximo das lindas cidades de Pucón e Villarrica, sendo que, desta última, mais de 3 mil pessoas haviam sido deslocadas pelas autoridades governamentais, por conta da erupção.
Também conhecido como Rucapillán, ou "casa do demônio" na língua mapuche, o Villarrica fica localizado dentro de uma área de preservação ambiental conhecida como Parque Nacional Villarrica, que além de resquícios da erupção, permanecia forrado de viaturas policiais e de departamento ambientais do Chile. Passar por ali, muito além de perigoso, era proibido: um convite à conhecer os xadrezes chilenos. Algumas fotos da recente marca de lava negra escorrida do cume, do parque e da cidade e nada mais a fazer. Mas a viagem estava apenas começando e outra atividade teria que ser inserida na lacuna deixada pelo magnífico fenômeno da natureza.
Mas, e agora, o que fazer?
Levanta a cabeça, jovem mochileiro. Olhe ao seu redor e a resposta virá do alto.
Sim. Lá estava ele. A cerca de 20 quilômetros de distância (em linha reta), o vulcão Quetrupillán, muito próximo ao vulcão Lanin.
Excelente ideia. Vislumbrar o Villarrica de uma altitude muito próxima de seu cume. O Quetrupillán, também localizado dentro do Parque Nacional Villarrica, tem seu cume a 2370m de altitude.
Ascensão
A subida ao Quetrupillán é tão árdua como a do Villarrica. Apesar de ser 500 metros mais baixo e menos íngreme, a caminhada é bem maior. São 5 horas para subir e outras 3 e meia para descer. As agências praticam um preço aproximado de 50 mil pesos chilenos (250 reais) para esta expedição. São fornecidos roupas adequadas à época (blusa, calça, bota, óculos, polainas, gorro e grampões, quando necessário). A saída da expedição é marcada para as 6h30 do Centro de Pucón (normalmente da loja onde foi comprado o passeio). O expedicionário tem que levar água (indicado 2 litros), protetor solar e alimentação para o dia.
Após meia hora de preparo e algumas orientações, uma ou duas Vans recolhe os aventureiros e parte para um local refugiado, após trafegar por cerca de 50 minutos, onde é oferecida a última oportunidade de utilizar o ‘banho’ (banheiro), que a partir daquele ponto só de forma natural.
Mais algumas orientações, os expedicionários foram divididos em dois grupos. O primeiro com os guias que falariam em inglês e o segundo, em espanhol. Um dos guias segue à frente, enquanto que o outro permanece na culatra, para que ninguém se perca na caminhada.
A caminhada começa às 8 horas da manhã. De início o que se vê é um pasto e depois uma mata com aspecto jurássico, com árvores gigantescas, algumas já mortas, em pé e caídas. A aparência é que estão lá há séculos. A primeira parada acontece há cerca de 1 hora e meia de caminhada. Dois colegas ficam para trás e chegaram no local da parada uns 10 minutos depois. Ofegantes, davam sinais claros que Quetrupillán seria um desejo impossível. Mesmo assim, após mais 20 minutos do merecido descanso partiram junto ao grupo rumo ao tão almejado ‘cumbre’.
A caminhada continua e no topo do primeiro monte, deixamos a floresta e chegamos a um descampado, de onde era possível admirar, tanto o voluptuoso Villarrica quanto o Quetrupillán. Novamente os colegas que sofreram a exigência física não estavam entre o grupo. Partimos na dura caminhada, seguindo por trilhas que, de maneira equidistantes, eram demarcadas com pedras empilhadas.
No chão, era visível a presença de pedras e fuligem negra, vindas recentemente do Villarrica, apesar de estar localizado muito longe daquele local.
Mais uma parada, desta vem em um lugar mais alto, rochoso, já com a presença de glaciar (neve dura) que mesclava o branco com o preto por conta da fuligem do Villarrica. A parada quase que não é suficiente para o lanchinho, fotos e filmagem. Faço um pequeno buraco no gelo e coloco minha garrafa d’água até que o guia determine a retomada da caminhada. Chegamos à parte mais difícil do trajeto, onde o ângulo de subida é mais inclinado. Mais fotos e mais uma parada. Já não víamos mais os colegas atrasados. Por telefone, o guia recebe a informação que eles haviam desistido da caminhada.
Mas era justificada a desistência, pois a caminhada é dura e a música de Milionário e José Rico explicava os motivos. “Mas o tempo cercou minha estrada. E o cansaço me dominou. Minhas vistas se escureceram. E o final da corrida chegou”. Mas eu que não ouço música durante as trekks, tinha minha mente tomada pelo objetivo de alcançar o cume do Quetrupilán e não deixar transparecer o famigerado histórico de que os brasileiros normalmente são mais frágeis que visitantes de outros países.
Dor nas pernas, sede, desgaste, mas bastão à frente, cabeça erguida, bora para o cume.
Exatamente às 13 horas, ou seja, após cinco horas de árdua caminhada, enfim, a recompensa. O cume do Quetrupillán, localizado exatamente entre outros dois vucões, o já falado Villarrica e o Lanin, que divide território chileno e argentino. Não era possível contemplar a cratera do Quetrupillán, que estava obstruída por glaciar. É mesmo maravilhoso, gigantesco. Enquanto todos descansam e fazem fotos, era hora de honrar o meu país e hastear a Bandeira brasileira, mesmo que em um pequeno pedaço de pau velho e arcado.
Longe de estar triste por não poder ascender ao Villarrica, deixei registrada minha passagem ao cume do Quetrupillán, com muito orgulho. A Bandeira nacional tinha mais que um significado. Com a face voltada para o Villarrica, emanava a energia e uma promessa: nos aguarde!
Retorno:
Como minha água já havia terminado, consegui um pouquinho de dois colegas que tinham ‘radiador’ menor que o meu. Foi o suficiente para vencer o retorno, que durou cerca de 3 horas e meia. Neste trajeto, que mesmo não contando com a exigência física de uma subida, um integrante do grupo (israelense) sentiu fortes dores em uma das pernas e ficou para trás. Como não existia um terceiro guia, a contusão obrigou todo o grupo a caminhar com menos intensidade e aguardar a aproximação dos que ficavam para trás. Às 17 horas já nos aproximávamos do local onde estavam as vans. Embarcamos e seguimos exaustos para um bom e merecido banho. Contrariando alguns, à noite fiz um tour pela cidade, com direito a uma jarra de cerveja e uma boa pizza de Pucón.
Villarrica
Até o momento (14/03) não existe estimativa de data para a liberação do acesso ao Villarrica e sua cratera. Geólogos trabalham para saber os fatores de radiação no local. Aqui, no site Mochileiros, encontrei alguns colegas que, com a erupção do Villarrica, cancelaram a viagem ou mudaram seu destino. Eu fiz o contrário, fui de encontro àquela maravilha negra de branca, que muito em breve terei o prazer em fincar a bandeira de nosso Brasil em seu cume.