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TRAVESSIA VALE DOS DEUSES X VALE DOS FRADES : FRIBURGO A TERESÓPOLIS-RJ

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TRAVESSIA VALE DOS FRADES X VALE DOS DEUSES

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“Em um tempo muito, muito distante, onde os Deuses mitológicos reinavam soberanos sobre o universo, fez-se um concurso para ver quem conseguiria criar a montanha mais espetacular e monstruosa de um reino onde seus súditos chamavam bolacha de biscoito. Em um vale deste reino, onde corria um rio com a mais cristalina das águas, foi travada a grande batalha onde cada Deus tentava superar seu oponente criando montanhas que pudesse desconcertar os olhares humanos e a esse lugar foi dado o nome de VALE DOS DEUSES e é nesse vale que caminha um velho montanhista que se arrasta atrás e a poucos metros dos novos aventureiros, que não demora muito, serão uns dos caras que dominaram as serras e montanhas do atual reino chamado Brasil. O homens já pra lá da meia idade conduz seu cajado como um personagem bíblico que tenta chegar à terra prometida, vai de vagar, pensando na vida e se emocionando a cada curva do caminho, está cansado mas muito feliz de poder , ainda nesta idade, acompanhar os amigos que esbanjam vigor e vitalidade.”

 

O Parque Estadual dos Três Picos em Nova Friburgo-RJ é um daqueles lugares que quase todo mundo ouviu falar, mas efetivamente, por causa do seu visinho mais famoso, a Serra dos Orgãos, acaba por ficar no esquecimento principalmente para quem está mais ao sul do Brasil., como os paulistas, por exemplo, devido a grande distância. Na minha vida de montanhista sempre voltei meus olhos para lá, mas a falta de uma caminhada um pouco mais longa, sempre me fazia adiar a trip por conta de outras que me parecia muito mais importantes. Até que um dia alguém me soprou uma tal de Travessia Vale dos Deuses x Vale dos Frades e então coloquei logo na minha lista de possíveis caminhadas e deixei o tempo passar, até que uma folga no trabalho em plena sexta-feira e o aval de um amigo campineiro e outro do Rio, me fez achar que era hora riscar essa travessia do meu caderninho de trilhas.

 

Partimos Eu e o Vinícius de Campinas-SP numa quinta à noite e na sexta de manha, mas com duas horas de atraso, nos encontramos na rodoviária do Rio com o Jacó, que nas redes sociais atende pela alcunha de Viana, acho que é uma espécie de nome artístico, coisa de quem chama bolacha de biscoito, sei lá ( rsrsrsrsr). Do Rio de Janeiro partimos imediatamente para Nova Friburgo e depois que o ônibus passa por Cachoeiras de Macacu, sobe a impressionante Serra do Mar fluminense, umas três horas depois encosta na rodoviária sul da cidade das calcinhas, de lá ainda é preciso pegar um coletivo e descer no terminal de transferência para pegar outro ônibus para o vilarejo de São Lourenço, que é um daqueles lugares que fica uns 30 km pra lá de onde o Judas perdeu as botas, mas nós nem vamos na casa da avó do Judas mesmo, ficamos a meio caminho e uma hora e meia depois de Friburgo o cata prego entra no vilarejo de Santa Cruz, faz meia volta, entra a direita e nos deixa bem na entrada do vale que vai nos levar até o centro do Parque Estadual dos Três Picos.

 

Já passa das três horas da tarde quando saltamos na estradinha de terra e sem nenhum aquecimento prévio já nos pomos a caminhar, depois que cruzamos um ponto sobre um belo riacho de águas cristalinas. Passamos por uma igrejinha e logo à frente por um lugar que parecia ser um clube. A caminhada segue ganhando altitude bem lentamente e a nossa frente podemos ver a nossa direita, somente o Morro do Gato (1.540 m), já que os Três Picos continuam encobertos por causa da forte neblina. Vamos continuando sempre enfrente, sem pegar nenhuma bifurcação até que chegamos ao único boteco do caminho, na verdade uma birosca empoeirada de onde não conseguimos descolar nada para comer e acabamos apenas tomando um suco sem gelo e sem graça. Quarenta minutos depois do início da caminhada nos deparamos com uma placa que nos indica que estamos entrando na área do PARQUE ESTADUAL DOS TRÊS PICOS e a partir daí, depois de passarmos pela Pousada dos Paula, o vale vai se estreitando cada vez mais e às 16h00min a estradinha acaba bem na porteira de um sitio/pousada. Na verdade ela não acaba e sim vira radicalmente para a direita onde tivemos que abrir uma porteira e ai a caminhada começa a ganhar altura sem dó nem piedade até que minutos depois nos deparamos com um estacionamento gramado, onde é o ultimo lugar que se pode chegar de carro.

 

Daqui para frente as pernas serão exigidas ao máximo nesta estradinha, que vai subindo em zigue –zague até que meia hora depois chegamos a um mirante , onde o grande vale que acabamos de deixar se descortina à nossa frente, um bom lugar para umas fotos, um gole d’água e um descanso. Quinze minutos mais à frente chegamos a uma casa salmão, onde pensamos ser a sede do Parque Estadual, mas que na verdade trata-se do Abrigo Três Picos. No abrigo só encontramos um gato gordo e solitário e vendo que ali não seria o lugar que buscávamos, passamos pela porteira e adentramos por mais uma propriedade onde o caminho era por uma estradainha toda gramada, com umas araucárias espetaculares, onde uma em especial chamava a atenção pela sua grandiosidade. Atrás desta araucária encontramos umas placas que indicavam o caminho que deveríamos seguir. Perto desta placa havia mais uma casinha e novamente fomos investigar para saber se não se tratava da sede do Parque, mas igualmente a outra, não encontramos viva alma. Portanto seguimos as placas que indicavam o sentido da Cabeça do Dragão e da Caixa de Fósforos, que era para direita, subindo pela estradinha de grama e logo fazendo uma curva à esquerda, para depois tomar a direita de novo e continuar subindo até virar para a direita quase a noventa graus até que uma ultima porteira nos fecha o caminho por estar trancada de cadeado.

A porteira em questão pode ser transposta pelo seu lado esquerdo, passando por um quebra corpo e adentrando de vez na pequena sede/abrigo de montanha do Parque Estadual, por onde caminhamos por uma linda estradinha, também gramada por não mais de dois minutos até finalmente, ás 17h30min chegarmos ao nosso destino. Esse abrigo fica bem aos pés do Pico do Capacete, em um lugar deslumbrante, onde fomos recebidos por um sonolento montanhista que nos disse que não havia ninguém do parque por lá por ser numa sexta feira. Perguntamos sobre o camping e suas taxas e fomos informados que não havia taxas algumas no parque e que tudo era gratuito, inclusive o abrigo de montanha, que no momento já estava sendo usado por ele e por seus amigos. O camping não fica junto ao abrigo e sim alguns metros à frente, depois de se cruzar uma ponte de madeira por um pequeno capão de mata e foi para lá que nós nos dirigimos o mais rápido possível porque a noite já se avizinhava. O camping também fica em um lindo gramado, bem entre o Capacete e a Cabeça do Dragão. No local existe uma estrutura com pia, fogão à lenha, mesa comunitária e pasmem, até um local onde é permitido se fazer fogueira, alem de dois chuveiros de água fria e dois sanitários. Eu que sempre costumo criticar os Parques do Brasil por causa do excesso de burocracia, taxas abusivas e desrespeito com os excursionistas, sou obrigado a dar a mão a palmatória e a elogiar esse exemplo ( em se tratando de Brasil )de Parque Estadual. Mas não é só isso, ainda tinha um abrigo e como estávamos somente nós ali no camping, não pensamos duas vezes, adentramos no quartinho e nos alojamos ali mesmo, sem termos que montarmos barraca alguma. Enquanto eu cortava todos os alimentos para prepararmos uma janta de gala, o Vinicius e o Jacó mostravam toda a sua incompetência tentando acender o fogão à lenha, falei para os caras que eles deveriam jogar um pouco de papel de lixo embaixo das madeiras, mas os caras me ignoraram e depois vendo que eles não conseguiriam botar fogo nem em palha seca, resolvemos usar o fogareiro mesmo. Mas como os caras são teimosos, ficaram tentando, tentando até que por causa dos dois coiós o meu arroz acabou virando papinha de criança de tanto ficar ali naquele fogo mequetrefe (rsrsrsrsrrsrs).

Seis horas da manhã já estávamos de pé, ali onde estávamos é o centro do VALE DOS DEUSES, onde as grandes montanhas assombram qualquer mortal e uma delas é o grande destaque por ser nada mais nada menos que o ponto culminante de toda a Serra do Mar no Brasil, o grandioso PICO MAIOR DE FRIBURGO ( 2.366 m). Ele faz parte do conjunto chamado de Três Picos, que acabou dando nome ao maior Parque Estadual do Rio de Janeiro, os outros dois são o Pico Médio e o Pico Menor e ao lado destes três gigantes completando o cenário fabuloso, o Pico do Capacete. O Capacete e o Pico Maior só podem ser acessados através de escalada técnica, com equipamentos e cordas, inclusive ali estão uma das mais longas vias de escaladas do país. Nós não viemos preparados para escalar, por isso vamos ao cume apenas do Pico Menor e Médio, que é apenas 5 metros mais baixo do que o cume do Pico Maior.

 

Jogamos às costas apenas as mochilinhas de ataque, contendo apenas água, agasalho, equipamento de primeiros socorros, mapas e bússola, comida rápida e nossa câmera fotográfica. Atravessamos a ponte por onde havíamos chegado à tarde anterior e nos dirigimos novamente para o abrigo oficial do Parque. Demos um bom dia para o montanhista que tomava seu café sossegado, passamos novamente pela porteira e refizemos o mesmo caminho de volta até a casinha com as placas de identificação das trilhas, junto à exuberante araucária. O tempo ainda estava com muita neblina, mas dava para ver a magnitude estupenda do conjunto de montanhas. Já eram oito horas da manhã quando adentramos na trilha que a placa apontava como sendo a trilha para os Três Picos. Ela começa uns dez metros depois da placa e vai contornando a casinha pela esquerda até cruzar um riachinho e chegar a uma porteira sem tranca. Vai seguindo em nível, sem ganhar muita altitude, entra na matinha, cruza um riachinho e volta a subir um pouco e depois desce de vez a um vale e desemboca em um riacho largo e de leito pedregoso, por onde vamos subindo até percebermos que não é por ali não. Na verdade quando a trilha chega ao pequeno córrego é preciso atravessá-lo e pegar a trilha que começa do outro lado e aí sim vai subir desgraçadamente e castigar as pernas.

 

Quando eu estava prestes a sair de casa tive que ouvir a ladainha da minha mulher que me apontou o dedo na cara e me avisou que eu não deveria ir para essa travessia porque já fazia bem uns três ou quatro meses que eu não caminhava em lugar nenhum e que agora com a mudança de emprego eu só fazia era fica enfiado atrás de uma mesa de escritório. Pois bem, tava na hora de eu provar para mim mesmo que o velho montanhista de outrora ainda estava vivo, estava firme e forte e que apesar de quase o dobro da idade dos meus amigos e companheiros de jornada, eu ainda poderia andar ao lado deles, que apesar da minha inatividade momentânea, eu poderia acompanhá-los, mesmo sabendo que pagaria o preço no final da jornada. E foi assim que eu tomei a frente do caminho, botei a faca nos dentes e fui escalaminhando e destruindo aquela trilha no peito, que foi cada vez ficando mais íngreme até que meia hora depois do riacho, cheguei até a rocha que marca a grande subida em sua reta final. Escalei a rocha e me sentei logo acima e fiquei esperando pelo Vinicius e pelo Jacó e quando os dois meninos chegaram, tomamos um bom gole de água e partimos a passos largos na esperança de que aquela neblina que ainda cobria nosso objetivo viesse a se dissipar.

 

Acelerei o passo e depois de menos de dez minutos de subida me deparei com uma parede bem inclinada onde uma corda velha auxiliava na subida. Subi e logo acima parei e esperei a chegada dos dois que venham logo atrás e daí em diante nós três passamos por uma gruta que serviria muito bem de um abrigo improvisado , dando até para acampar dentro dela e em mais uns dez minutos chegamos a mais um lance inclinado, que desta vez foi subido usando como apoio outra corda safada, amarrada numa moita de capim elefante. Daqui para frente era o estirão final até o topo do Pico Menor, onde a caminhada quase se torna numa escalada sem cordas e as dez da manhã já nos vimos encostados no topo do Pico Menor, mas por causa da neblina, nem percebemos que estávamos a menos de vinte metros do cume e acabamos passando batido e logo nos deparamos com uma parede que despencava vale abaixo e marcava a descida para o selado que separa o Pico Menor do Pico Médio.

 

Essa parede rochosa que despenca no vazio, conta com uma corda instalada para dar segurança na descida. O Jacó desceu à frente e logo em seguida fiz o mesmo, mas vendo que, apesar da inclinação, a rocha era bem abrasiva, arisquei fazer a descida apenas confiando na experiência de usar a aderência da minha bota e é claro, me mantive com os olhos bem grudados na corda no caso de algo dar errado. Desci no limite do que seria possível e logo atrás de mim veio o Vinicius. A continuação do caminho é escalando a encosta também rochosa e meio exposta do próprio Pico Médio e às vezes nem há um caminho definido, é preciso usar a intuição, mesmo porque a neblina não deixava que a gente visse muita coisa à frente e uns dez minutos depois atingimos o cume falso e ai foi só caminhar mais uns 50 metros e finalmente botar os pés no cume da maior montanha que se pode subir caminhando na Serra do Mar no Brasil, foi assim que às 10h30min do dia 22 de agosto de 2015 ascendemos ao cume do PICO MÉDIO ( 2.361 m) de altitude, apenas cinco metros mais baixo que o Pico Maior de Friburgo.

No cume do Pico Médio e envolto numa neblina espessa, não conseguíamos ver coisa alguma e por isso nos mantivemos ali parados por cerca de uns vinte minutos até que uma rajada de vento pudesse nos blindar com largas vistas do lado de Nova Friburgo e o suficiente para que víssemos surgir a monstruosidade de ponta do Pico Maior( 2.366 m) e quando vimos que não seria desta vez que teríamos aquela visão que todo mundo sonha ao ir ao topo de uma montanhas desse porte, tratamos logo de picar a mula para o Pico menor. Descemos toda a encosta do Pico Médio e depois subimos a grande parede do Menor e como fiz na descida, subi sem usar a corda, apenas na aderência para provar que era realmente possível fazer essa caminhada sem estas ajudas artificiais. Encostados na parede final, foi só fazer uma pequena escalada e atingir de vez o cume do Pico Menor, para constatar que por causa da neblina, também não era possível ver coisa alguma. Batemos uma foto do nada e antes de 11h20min da manhã deixamos o cume e voltamos para a trilha principal. Aproveitando que estávamos apenas com mochila de ataque, desembestei montanha abaixo e revivi os velhos tempos que descíamos montanhas correndo e derrapando à beira dos abismos e os meninos, que não estavam querendo bater recorde, desceram de boa. No fim quando cheguei à beira do rio, parei para esperar-los e tomar um gole de água e de lá seguimos juntos a passos largos até voltarmos ao abrigo/sede do Parque Estadual, onde desta vez encontramos os responsáveis pelo parque, que nos cadastrou e nos deu valiosas dicas da travessia que iríamos fazer no dia seguinte.

 

Ás 13: 30 estávamos de volta a área de camping, ao todo com paradas para fotos e contemplações, gastamos umas 6 horas de caminhada para ir e voltar ao Pico Médio e Menor, mas é uma caminhada puxada e que exige bem das nossas pernas. Nossa idéia era fazer um almoço e partir para a escalada do Pico Cabeça de Dragão, mas logo comecei a notar que o Jacó estava bem cansado e eu tinha dúvidas se ele seguiria conosco em mais essa empreitada, mas não disse nada, pensei que talvez depois de um bom almoço e uma boa descansada, ele voltasse a se animar e segui com o nosso plano inicial. O camping agora não estava mais vazio e começaram a chegar varias famílias e o local já tinha uma meia dúzia de barracas montadas.

 

Alimentados e revigorados, partimos todos para a subida da Cabeça do Dragão. A trilha sai bem atrás do camping, depois de uma porteira e de cara já se enfia na mata e vai ganhando altura rapidamente até que meia hora depois já estamos caminhando no selado e por lajes expostas, de onde é possível se deslumbrar em dias limpos , com as formação dos Três Picos de Friburgo e o imenso e não menos espetacular Capacete, mas no momento em que passamos por lá, estava quase tudo encoberto e somente hora ou outra era possível ver algo. Depois do mirante a trilha faz uma curva para direita e entra no capim elefante até nos jogar em um platô rochoso um pouco mais acima, já no espigão mestre da montanha. De cima desta elevação se descortinava todo o vale compreendido entre a Cabeça do Dragão e a Ronca Pedra (2080 m), um vale realmente digno de ser apreciado com calma. Mas chega uma hora que é preciso deixar de moleza e botar logo os pés em mais uma montanha desta travessia e aí então partimos para o esforço final, caminhando firmemente rumo ao grande bico rochoso á nossa frente, passando pelo cume falso, até atingirmos de vez os ( 2.075 m) do cume da CABEÇA DE DRAGÃO, em pouco menos de uma hora e meia de caminhada, contando com as paradas para contemplação. Ficamos por uma meia hora no topo batendo papo com um alemão e um maluco que dava “um tapa na macaca” e mal dizia coisa com coisa e a fumaça do seu cigarro do capeta só corroborava para deixar ainda mais obscuro os horizontes, pois é, mais um pico sem ver nada.

 

Como o tempo não tava ajudando, nos despedimos dos candangos que encontramos no topo e partimos rapidamente montanha abaixo. O Vinicius desta vez foi o coelho da caminhada e saiu voado na frente, enquanto que eu e o Jacó resolvemos descer vagarosamente na esperança de que pudéssemos nos favorecer com a possível abertura de tempo que se avizinhava. Foi uma decisão mais que acertada essa que tivemos. Quando chegamos de volta ao mirante na laje, que fica de frente para o Capacete (2.200 m) e os Três Picos, o tempo já estava começando a abrir e a impressionante formação rochosa conhecida como Caixa de Fósforo, já dava o ar da sua graça e então nós resolvemos não arredar pé daquele lugar até que tudo estivesse aberto. Sentamos-nos lá e foi muito bom estarmos sentados para não cairmos de costa quando um ventania levou toda aquela neblina embora e nos deu a honra de podermos nos deslumbrarmos com todas as paisagens ao nosso redor, foi lindo demais ! Abandonamos todas aquelas maravilhas rochosas e voltamos para a trilha, agora tendo que se virar para enxergar no escuro. Meia hora depois já desembocamos de novo na área de camping, para constatar que ele havia se tornado num verdadeiro Woodstock, onde já havia umas 15 barracas montadas.

 

Foi realmente um dia puxado e quase todos os outros montanhistas ficaram abismados de termos feito as três montanhas no mesmo dia. Ficamos um pouco em volta da fogueira que havia sido armada por outros campistas e quando a fome bateu, corremos para o nosso quartinho e fomos preparar o jantar. A noite estava fria e na madrugada a temperatura caiu para quase zero grau. Antes das 06h00min da manhã já estávamos de pé e logo depois de um café, jogamos nossas mochilas nas costas e partimos de vez para a parte final da travessia. Atravessamos a área de camping, passamos pela pontinha de madeira e ao interceptarmos a trilha principal, viramos á direita no sentido da Caixa de Fósforos. Vamos seguindo pela trilha de grama sendo sempre tendo ao nosso lado a parede gigante do Capacete e a cada metro que avançamos mais perto ficamos deste monstro rochoso. Logo a trilha gramada sai em campo aberto e então é preciso dar uma parada para apreciar o Capacete e o Pico Maior de um ângulo diferente. Agora não temos mais a companhia de ninguém, o interior do vale é só nosso e meia hora depois, desde o camping, chegamos à bifurcação, onde uma placa do Parque indica a direção da Caixa de Fósforos e do Vale dos Frades. O nosso caminho é descendo o Vale, mas a gente não poderia passar por esse lindo parque e deixar de conhecer essa formação tão espetacular, portando, escondemos nossas mochilas na mata e seguimos apenas com um cantil de água.

 

A trilha da Caixa de Fósforos é bem aberta e vai ganhando altura aos poucos dentro da mata, até que uns vinte minutos depois da bifurcação, é preciso se pendurar numa corrente e se puxar para cima da rocha, contorná-la pela esquerda e ir escalaminhando até sair em uma grande rocha mais acima, ajoelhar-se e agradecer por estar em um dos lugares mais impressionantes do Brasil. Em poucos lugares do país tem-se a sensação de ser um nada diante da grandeza da paisagem. Estamos bem do lado oposto dos Três picos e do Capacete, numa área selvagem e deslumbrante. Um pouco mais acima ainda temos a pedra que dá nome à formação rochosa, que por incrível que pareça, não parece uma caixa de fósforos. Nós três ficamos ali batendo papo a beira do grande abismo, o tempo estava perfeito, sem nenhuma nuvem no céu. Em mais uns cinco minutos de caminhada, nos vimos no cume da CAIXA DE FÓSFOROS (1.750 m). Verdade mesmo é que cume é modo de falar porque para subir na grande rocha equilibrada no topo da montanha, somente com uma escalada técnica, onde é preciso vencer uns dez metros para se chegar ao cume. Mas isso pouco importa porque embaixo daquele gigante é possível apreciar todo o Vale dos Frades e seus paredões que o cerca de ambos os lados e que será o nosso objetivo daqui para frente. Olhando para o outro vale, no caso o Vale dos Deuses, de onde acabávamos de sair, pode-se avistar toda a Cabeça de Dragão e se você, como nós, não fumou uma maconha de qualidade, jamais poderá ver dragão algum, ou então era a gente que estava meio sem inspiração para achar dragão naquela montanha. (rsrsrsr)

 

Poderíamos ter ficado no topo daquela montanha para o resto da vida, mas a travessia tem que continuar e em vinte minutos estávamos de volta para a bifurcação da trilha e depois de resgatarmos nossas mochilas escondidas no mato, pegamos a trilha principal e descemos para terminar de cruzar o Vale dos Deus em direção ao Vale dos Frades. O nosso caminho vai perdendo altitude aos poucos e às 09h40min, surge acima das nossas cabeças o grande paredão da Caixa de Fósforos, onde pode-se ver toda a imponência desta formação rochosa, destacando-se as duas pedras quadradas que fazem jus ao nome. Vinte minutos depois a trilha se abre e se transforma numa pequena estradinha sombreada, onde agora os destaques são os grandes eucaliptos. Vinte minutos mais de caminhada no meio da floresta de eucalipto e já desembocamos numa estradinha, onde pegamos para a esquerda porque a direita daria numa porteira da fazenda Itayba. Neste momento começávamos a deixar o Vale dos Deuses para adentrarmos no Vale dos Frades. A nosso lado direito corria agora o rio que da nome ao Vale e pouco mais à frente chegamos a uma casinha que estava poucos metros abaixo do nível da rua e que seria uma capitação de água para a empresa que engarrafa o precioso liquido. Às 10h30min da manhã passamos pela sede da fazenda e interceptamos a estrada principal do vale, onde cruzamos uma ponte sobre um afluente do Rio dos Frades, perto de onde havia outra capitação de água para engarrafar e é por essa estradinha que iremos seguir até o final da nossa travessia.

 

Agora a caminhada irá seguir somente por uma deserta estradinha de terra, mas não se iluda em achar que será aquelas caminhadas modorrentas que fazem todo aventureiro querer pegar uma carona. Pelo contrário, a cada curva será irá aparecer paisagens cada vez mais monstruosas e as 10:30 chegamos à uma plantação florida , do qual não conseguimos identificar que tipo de cultura seria. Aquelas flores do campo faziam com a paisagem ficasse parecendo um quadro e depois de pararmos para mais uma foto, dói minutos de caminhada mais à frente nos levou até uma casa de onde partinha uma estradinha para a direita e o Vinicius identificou como sendo o caminho para subir a Branca de Neve, uma montanha muito alta. Devido ao horário já avançado, decidimos que seria impossível subi-la e então tomamos a decisão de seguir enfrente, mas não sem antes nos postarmos à beira do caminho para mais uma foto deslumbrante de todo o conjunto de montanha que havíamos deixado para trás.

 

Estamos definitivamente dentro do VALE DOS FRADES, e vamos ter por companhia colossais montanhas dos dois lados, sendo do nosso lado esquerdo a Pedra dos Cabritos e do lado direito as monumental cadeia de montanhas conhecida como Pedras do Fonseca . A cada curva vamos nos aproximando cada vez mais perto da Pedra dos Cabritos que vai se erguendo como se fosse uma grande onda rochosa de um tsunami pronto a nos encobrir. A visão dessa montanha acaba por nos desconsertar e ficamos felizes por não precisarmos economizar fotos como acontecia antigamente. Do lado oposto nos alegra a alma a visão do vale do Rio dos Frades, com sua água cristalina a nos chamar para um banho e quando o singelo rio se aproxima de nós e nos dá a chance de descermos a ele, não temos a menor dúvida, jogamos as mochilas no chão e decretamos uma parada para o almoço, já que o dia já chegou a suam metade e aquela prainha de rochas e águas translúcidas seria o lugar perfeito para um descanso.

 

Enquanto eu vou cuidar de fazer o almoço, o Vinicius e o Jacó não perdem tempo e se entregam aos mergulhos no rio e aos banhos nas águas das cachoeirinhas do lugar. Esse é mesmo um lugar perfeito , inclusive para montar um acampamento , mas como não temos todo esse tempo, comemos e voltamos para a caminhada, com o objetivo de darmos uma passada na famosa cachoeira dos Frades. Depois da prainha cruzamos mais uma ponte, passamos por uma casa avermelhada, onde a Pedra dos cabritos começa a ser vista por outro ângulo e uma meia hora depois chegamos a uma construção colonial, que parece ser a sede de mais uma fazenda e ao fazermos uma grande curva para direita, chegamos a uma bifurcação. Seguindo para a esquerda poderíamos ir para o Vale das Sebastianas, onde a Pedra dos dois Bicos nos convida para uma subida, mas não vai ser desta vez que iremos ao seu cume e nos resta admirar mais essa grande montanha. Viramos, portanto para a direita, seguindo sempre pela estradinha principal e vinte minutos à frente já avistamos o que seria a Cachoeira dos Frades, que infelizmente com a falta de chuvas, se encontra quase seca e alem do mais por já estar mais perto da civilização, estava entupida de gente e demos só uma descida para um registro fotográfico e partimos.

 

Agora a cada curva vamos ficando mais perto da civilização e em mais 15 minutos de caminhada passamos por um tal museu do futuro, por uma sede de uma bonita fazenda, onde do outro lado do rio, surge mais uma espetacular montanha que “atende “pelo nome de Pedra do índio. Vamos seguindo, agora debaixo de um sol escaldante. Fico um pouco para trás, vou admirando o final da paisagem e já sabendo que nossa aventura vai chegando ao fim e também porque nessa altura da caminhada , vou pagando o preço de ter exagerado nos outros dias e aí não tem jeito, o cansaço já vai tomando conta do corpo. Mas não há porque se preocupar, o caminho praticamente já foi vencido e quando aparece um boteco não temos dúvida, abandonamos o caminho e fomos nos esbaldar com um refrigerante gelado.

 

Estamos a não menos de 1.500 metros da estrada que liga Friburgo a Teresópolis e não caminhamos nem dez minutos, pára ao nosso lado um caminhãozinho velho e nos oferece carona, antes mesmo de dizermos sim, já tem gente montando encima, era o grande final que faltava para completar nossa aventura. Não levou nem dez minutos com os cabelos balançando ao vento e já estávamos saltando no asfalto no exato momento que passava o ônibus que nos levaria para Teresópolis, foi mesmo um golpe de sorte essa carona. Já em Teresópolis, com a Serra dos Órgãos a nos deslumbrar, fomos para uma padaria para comemorarmos mais essa incrível travessia e depois embarcamos para o Rio de Janeiro e de lá nos despedimos do nosso novo amigo Jacó e embarcamos para Campinas, aonde chegamos já pela manhã.

 

Essa grande travessia não poderia ter outro nome, Vale dos Deuses e Vale dos Frades faz jus a grandeza desse lugar. Um lindo Parque Estadual, onde se encontram uma das mais grandiosas paisagens do Brasil com opções para todos os gostos de aventura e eu só tenho a agradecer aos dois grandes amigos que compraram a ideia de realizar essa travessia ao meu lado. Obrigado pela paciência, obrigado pela companhia, obrigado por me agüentarem, obrigado por não se irritarem com as minhas piadas infames e obrigado aos “Deuses” por construírem essa paisagem dos sonhos.

 

Divanei Goes de Paula – Agosto/2015

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