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Vgn Vagner

Travessia: Pedra do Sapo x Pico do Gavião (Peito de Moça) - Biritiba Mirim/SP

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Vgn Vagner    0

Dia 09 de Junho, de 2016... Uma data póstuma.

Data que escolhemos para fazer uma breve travessia no extremo sul de Biritiba Mirim/SP. Data em que o litoral norte paulista amanhecia em prantos. Pois na noite anterior, um acidente histórico, mais grave já ocorrido na Rodovia Mogi/Bertioga, acabava de colocar em luto os moradores daquela região. Um ônibus, da empresa União do Litoral, que levava estudantes da faculdade de Mogi das Cruzes até as cidades litorâneas, por motivos ainda desconhecidos, após fazer uma curva acentuada no quilômetro 84 da rodovia, perdeu o controle, invadiu a pista contrária e tombou indo de encontro com os paredões de rocha da Serra do Mar. Esse acidente foi de tamanho impacto que causou 15 mortes instantâneas, mais 3 foram à óbito já no hospital, e 28 ficaram feridos.

Algumas especulações de que o motorista trafegava em alta velocidade todas as vezes que fazia suas viagens. Inclusive, gerou um bate boca com os alunos/passageiros, que reclamavam sobre isso, antes de saírem para nunca mais volta. Isso se espalhou pela mídia televisiva sensacionalista com facilidade. Com isso, as repercussões tomaram rumos além da nação.

 

#LUTO

 

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RELATO

 

Marcamos de nos encontrar às 07h30, na estação Estudantes da CPTM, e na sequência, às 7h40, pegarmos o ônibus - 392-Manoel Ferreira, mas, devido aos contratempos de sempre, perdemos esse horário.

Quando cheguei de encontro com Diógenes e Cláudia, nos trailers que vendem tudo que é tipo de lanches em frente da faculdade, eles já assistiam o noticiário sobre o acidente, e as expectativas não eram das melhores, pois afirmavam que a rodovia estava interditada. Isso gerou a dúvida: será que vamos conseguir ir até lá e fazer a travessia?

Depois de termos voltados até as catracas da estação para encontra com a Ana e o Paulo, embarcamos no ônibus que saiu às 08h05, e em quase 1h de sacolejo dentro daquele latão coletivo, tivemos tempo suficiente para enturmar os que não se conheciam.

Quando saltamos o ponto final, às 9h15, no bairro de Manoel Ferreira, começamos nossa longa caminhada pela estradinha de terra que acompanha a extensa tubulação que capta água das represas do entorno. Em menos de 50 minutos já abandonávamos as vias de tráfego rural para adentrarmos numa propriedade particular, sem residentes, onde começa a trilha que sobe com destino a Pedra do Sapo. Ainda na estrada, claro, quando vimos que a enorme plantação de pimentões estava carregada deles, não perdemos tempo. Sacamos as sacolinhas e as enchemos com esse leguminoso verde. Uma pena ver que os vermelhos estavam todos danificados e murchos. Um pouquinho depois, duas cachorras, uma alegre, outra arisca, decidiram nos acompanhar. O que surpreendeu com o resultado final.

A trilha já começa com uma subidinha forte, tirando o fôlego de quem escolhe esse caminho como acesso à “Pedra do Anfíbio,” serpenteando até terminar numa transversal que sempre confundi quem chega até ali, pois o caminho mais batido, o da direita, segue para outro lugar totalmente diferente daquele que se deseja chegar. Tomamos a direção certa, descendo o morro até o fundo de um pequeno vale, e quando começamos a subir novamente, da nossa esquerda, se ouve o barulho do único ponto de água que há nesse caminho. Aliás, há uma picada que leva ao encontro com o riacho. Aliás, levamos cachorras para beber água, mas não beberam, e acabaram sendo “renomeadas” (coisas de Ana).

A trilha, pós pequeno vale, vai subindo, subindo e subindo, sempre bem aberta e de facílima navegação, sem muitos obstáculos. O único obstáculo é a inclinação da subida que, mesmo com o frio mínimo de 8°C que tem feito nos últimos dias, fez o suor minar pela testa de cada um e ensopar as costas abafadas pelas mochilas. Despontamos sobre a Pedra da Forquilhas, às 11h00, à oeste da incrível formação rochosa que lembra um sapo.

O tempo que estava aberto enquanto caminhávamos pela mata, rapidinho veio a se fechar com a neblina que subia do litoral. Isso fez com que não perdêssemos tanto tempo por lá, apenas o suficiente para comer alguma coisa e descansar um pouquinho. Nem subimos na cabeça do Sapo (topo), como é de praxe.

Acreditávamos que o vínculo de companheirismo com as cachorras se encerraria ali, pois há um lance de corda na face leste da Pedra, que coloca qualquer ser humano em situação de risco e inviabiliza a descida de qualquer animal daquele porte. Ainda assim, uma delas desceu com a ajuda da Ana. Que insistia em cuidar das cadelinhas como se fossem suas.

 

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Ainda sentados, de costas para o ponto de escalaminhada, estávamos para decidir por qual caminho voltaríamos, já que o caminho da ida já estava descartado. Eu sugeri que seria vantajoso contornar o “mamilo do peito" pela esquerda, pegar o vale que desce em direção à Estrada do Senhor Geraldo e sair na rodovia. Simples assim. Só que não.

O trecho que desce pela esquerda é super navegável, solo em leve declive coberto por folhagem caída das copas. Mas, quando temos que tomar a direção mais à esquerda, para poder contornar a rocha, surge um paredão. A lógica é seguir beirando esse paredão, contorná-lo até seu fim, sair em sua base e seguir com o plano. Só que surge um outro paredão, que nos obriga a se lançar cada vez mais no fundo do vale e em direção contrário do que deveríamos estarmos indo. Ok!, fomos tocando o barco conforme mandava o script. E quando visualizamos a parte que não havia mais paredões a serem contornados, fomos ver por onde poderíamos descer, e o que vem aos nossos pés é uma baita de um precipício com algumas dezenas de metros. Uma queda livre, e totalmente na vertical, que nos obriga a ir cada vez mais no rumo contrário do que deveríamos.

Talvez, por conta do cansaço, mais físico do que psicológico, o grupo começa a perder o ritmo. E mesmo com pouco menos de 3 horas para caminhar, antes de começar a escurecer na mata, em particular, Paulo diz:

 

- você sabe que não vai dar tempo. Né? Tá ligado que a gente vai ter que varar mato no escuro. Né?

- Relaxa, mano. Vai dar sim! - respondi com calma. Foi a única coisa que pude dizer para que esse início de pane não se agravasse e se espalhasse aos demais. Principalmente às meninas.

 

Quando, finalmente, conseguimos contornar e descer os obstáculos que nos colocava fora do itinerário, fomos varando mato sempre em declive e em mata cada vez mais fechada, que nos obrigado a sair novamente da rota desejada. Como se não bastassem os paredões.

Do nada surge uma trilha, e mesmo que nos jogasse fora da direção que deveríamos tomar (o fundo do vale), seria um caminho que daria fluidez no andar da carruagem.

Conforme fomo s descendo, ao longe se ouvia o barulho da água correndo entre as pedras. E não tardou para pisarmos os pés na margem esquerda daquele riacho cor de chá. Ele corria quase sem desnível, ganhando largura e pequenas profundidades com água transparente que permitia ver alguns bancos de areia e o fundo arenoso. Diógenes sugeriu que prosseguíssemos caminhando por dentro desse riacho, enquanto minha preferência era permanecer em solo seco afim de não molhar por completo as botas que eu usaria em uma grande travessia, 4 dias depois. E assim foi. Continuamos por terra, mas fomos obrigados a cruzar esse riacho, quando algumas rochas bloqueavam nossa passagem. Eu e o Paulo estávamos fazendo de tudo para manobrar sobre pedras e galhos que apontavam sobre a água, saltando de um para o outro e pulando até o lado oposto. Já a Ana, afobada do jeito que é, ia na frente, inventou de colocar a perna direita sobre um galho encurvado, que fazia uma alça pendurada vinda de uma árvore, tentou atravessar a parte mais funda dessa forma. Não deu outra. Quando ela fez força para se lançar até a outra margem, a alça cedeu, ela foi descendo em câmera lenta, pediu ajudo do Paulo que estava mais próximo dela, mas não teve jeito. Acabou caindo dentro dágua, e segurando a mão do Paulo, queria puxá-lo para um banho gelado também, rsrs. Foi cômico. ::lol4::

Já era notável que não haveria mais nenhuma piramba pra descer. Estávamos em terreno plano/encharcado, pantanoso. Um brejo na verdade. As clareiras que apontavam no céu mostrava que a estrada que queríamos alcançar estava a nossa esquerda, e quanto mais avançávamos, olhando o GPS do Diógenes e o Tracklog que estava sendo gravado pela Ana, era evidente que estávamos acompanhando a estrada do Sr. Geraldo em paralelo. E sem continuássemos assim não iríamos sair daquele brejo nunca. Pois ainda tinham quase 5 quilômetros de vara mato até o asfalto. Nessa hora o facão teve que comer solto. Mas era uma área tão fechada que não dava espaço para dar os golpes de facão. O que só fazia o Paulo gastar energia e não sair do lugar. Até o momento em que avistei um jardim de bromélias e apontei que deveríamos sair rasgando naquela direção. Direção essa que, não tardou a ser vencida, nos levou à tão sonhada liberdade fora daquele inferno verde. Para alívio da galera. Deu pra notar a satisfação no rosto do Diógenes em sairmos de lá. Satisfação maior ainda em ter conquistado esse pico que há tempo vinha sendo almejado por nós.

Depois de uma pausa para fotos, prosseguimos pela estrada que um dia serviu como passagem de carros que vinham dos bairros mais ao norte, e hoje, nada mais é do que um rasgo em meio a mata, que logo será retomado por sua dona legítima.

Quando pisamos os pés no asfalto da no quilômetro 79 da Rodovia Dom Paulo (vulgo: Mogi/Bertioga), estávamos certos de que havíamos deixado para trás uma travessia que, tão cedo, não será feita novamente, por nós ou qualquer outro grupo que decida atravessar essa rota. Pois é uma encrenca das grandes tentar fazê-la. Recomendada só para experientes.

 

De volta para realidade, os barulhos de carros, ônibus e caminhões quebravam o silêncio enquanto a noite começava a marcar presença. Tínhamos, em média, 2,5 kms a percorrer até o último ponto de ônibus coletivo da pista sul. As cachorras nos acompanhavam, e pelo andar de tudo que possou, estávamos crentes de que elas iriam embora quando nos separássemos. Só que não. Ali começava um episódio extra após finalizarmos a travessia.

 

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