Por todo o País, cresce a oferta de passeios em marias-fumaça, que permitem conhecer o Brasil sobre trilhos, preservando a memória ferroviária
Renato Machado
Agência Estado
SÃO PAULO – Uma locomotiva maria-fumaça podia percorrer cerca de 50 quilômetros antes de precisar parar para o abastecimento de água e lenha. Esse era também o momento em que os passageiros aproveitavam para entrar nos trens e iniciar as viagens. Das caixas-d’água ao lado dos trilhos surgiram as estações, e essas foram responsáveis pelo desenvolvimento de muitas cidades no século passado. Só que a imagem de uma pessoa saindo de uma estação para seguir de trem até outro município está apenas na memória. Uma forma de revivê-la é com os trens turísticos, que, apesar das dificuldades, voltam a se proliferar pelo País.
Eles sofreram um forte abalo com a privatização das ferrovias, nos anos 1990. O mercado se voltou totalmente para cargas e praticamente não sobrou espaço para os passageiros e para a memória. Em 2004, só cinco linhas turísticas tinham autorização para funcionar da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
Contrariando a lógica, há atualmente 22 – além de sete pedidos sob análise. “Não houve cuidado de determinar a manutenção dos trens de passageiros durante a privatização, porque a carga é mais rentável”, diz o chefe de trens da regional paulista da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), Anderson Conte. “Mas tentamos ficar com o pouco que sobra para preservar a memória desse mercado.”
Um dos pontos impulsionadores foi a ação das entidades de preservação da memória ferroviária. Além disso, o mercado do turismo passou a ver as viagens sobre trilhos como um negócio lucrativo, oferecendo diversidade de pacotes, incluindo trens de luxo combinados com traslados aéreos e estadas em grandes hotéis.
Seja em uma maria-fumaça do século passado, seja em um vagão moderno, os especialistas afirmam que todos os passeios são válidos para preservar a memória. “Só o fato de recuperar a experiência de ir até uma estação e entrar no trem ajuda a reconhecer a diversidade do transporte”, diz o professor da Unesp e pesquisador de ferrovias Célio José Losnak.
As mesmas características de antigamente são mantidas no passeio Campinas-Jaguariúna, o mais antigo do País. Um guia vai explicando a história da rota, das fazendas ao redor, das cidades e das locomotivas. Violeiros alegram a viagem, que dura três horas, custa R$ 40 e atrai em média mil pessoas por semana.
Plínio e Marlene Marson decidiram desvendar essa rota. Eles saíram de Jaú (SP) especialmente para o passeio. A data também foi escolhida a dedo: o aniversário de 37 anos de casamento. “Aproveitamos para comemorar em um trem, para relembrar o que a gente fazia anos atrás”, diz Marson.
Passeios repletos de nostalgia
Publicado em 18.03.2010
Jornal do Commercio
Turismo ferroviário oferece ângulo diferente das cidades visitadas, além de ajudar a preservar locomotivas. Pacotes variam de R$ 5 a R$ 8 mil
SÃO PAULO – As viagens nos trens turísticos podem ser feitas em bancos de madeira, sob um forte calor e em uma maria-fumaça que anda em certos trechos a menos de 30 km/h. Para os mais apaixonados, essa é a situação ideal. Ou então os passageiros podem deitar em uma confortável cabine com ar-condicionado, com um sofisticado serviço de bordo. Tudo depende do gosto das pessoas e também do bolso. Os roteiros podem variar de R$ 5 a pacotes de R$ 8 mil.
O mais barato, curto e simples também é um dos preferidos de quem gosta do movimento das locomotivas. Na tradicional vila ferroviária de Paranapiacaba, em Santo André, no ABC paulista, os passageiros percorrem cerca de 300 metros, em uma viagem de cerca de 20 minutos. O trajeto é feito em um antigo pátio de manutenção, perto de um museu ferroviário e de outras locomotivas, algumas do século 19.
Os passeios que têm como objetivo preservar a memória ferroviária são a maioria no País. Grande parte deles é operada pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), que assumiu algumas concessões desprezadas pelo mercado ou então manteve acordos com as concessionárias para utilizar os trilhos nos horários ociosos.
“Nosso foco é a cultura e a história e não a paisagem”, diz o gerente da regional Campinas da entidade, Vanderlei da Silva. Ele acrescenta que toda a receita com a venda das passagens é investida na preservação e manutenção das locomotivas históricas e dos trilhos operadores. A ABPF opera trens em Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina.
No Sul do País, o chamado Trem do Vinho tem o objetivo de preservar as culturas gaúcha e italiana. O trajeto entre Bento Gonçalves e Garibaldi é feito desde 1992 em meio a apresentações de teatro e de música, e diversas paradas são feitas para degustações. “Em cada parada, as pessoas experimentam uma coisa. Tem degustação de vinhos em Bento Gonçalves, de suco de uva em Garibaldi e de filtrado doce em Carlos Barbosa”, diz a coordenadora de Marketing da empresa que opera a rota, Mara Pasquali.
A culinária também é um dos fortes das rotas que atravessam Minas Gerais. Mas é somente um. A revitalização das rotas históricas entre São João del Rey e Tiradentes e entre Ouro Preto e Mariana foi alvo de um grande projeto. As estações viraram centros culturais, parques temáticos e museus – onde há locomotivas de diversos modelos, como uma Balden, com mais de 100 anos de uso.
Além dos passeios ferroviários tradicionais, o setor turístico mirou as viagens de trens para criar opções sofisticadas, combinadas com estadas em hotéis de luxos e traslados aéreos, que permitem ao turista visitar em um único pacote atrações localizadas a centenas de quilômetros uma da outra. Um exemplo é o trem Great Brazil Express, cujo pacote de oito dias custa R$ 8 mil. Em dois dias, o trem faz a rota entre Ponta Grossa e Cascavel, no Paraná, e os outros seis dias podem ser no Rio, por exemplo. As cabines são confortáveis, luxuosamente decoradas. “São todos recebidos com champanhe”, diz o diretor comercial da Grand Brazil Express, Adonai de Arruda Filho.
INCÊNDIO
De todos os roteiros autorizados pela Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), apenas cinco não estão em operação. Falta de verbas e brigas políticas são os principais motivos. Mas há também casos em que o vandalismo impede a preservação da memória.
Na virada de 2008 para 2009, três jovens colocaram fogo no trem turístico de Paraguaçu Paulista, um dos atrativos da cidade. Todo um vagão de madeira foi destruído, assim como parte da locomotiva. Foi preciso mais de um ano para restaurar as composições e a reinauguração foi semana passada.(R.M.)
Trem de Campos do Jordão na ativa
Publicado em 18.03.2010
Jornal do Commercio
SÃO PAULO – Depois de 11 meses sem circular, o trenzinho turístico da Estrada de Ferro Campos do Jordão (EFCJ) voltou à ativa e já tem reservas para todos os fins de semana até junho, para o passeio que liga Pindamonhangaba à cidade serrana, conhecida como Suíça Brasileira.
A retomada das atividades ocorreu no Carnaval, mas segundo a diretora de Turismo da EFCJ, Regina Lopes, não foi preciso publicidade para que as viagens lotassem. Havia demanda reprimida, pois o passeio é muito requisitado. “Cerca de 45 mil pessoas eram transportadas por ano, pela estrada, uma das mais antigas do Brasil, tendo sido fundada pelo médico sanitarista Emílio Ribas e inaugurada em 1914, para facilitar o transporte de doentes à serra. O que impedia o tráfego do bondinho era uma barreira que caíra no km 34.
O que mais atrai o público são as belezas naturais da Serra da Mantiqueira, que podem ser apreciadas no percurso de 50 minutos entre as duas cidades, ao longo de 47 quilômetros. Em uma das paradas no trem, na estação Eugênio Lefréve, em Santo Antônio do Pinhal, a atração é a vista das cidades do Vale do Paraíba. A estrada também passa pelo ponto ferroviário mais alto do Brasil, a 1.743 metros de altitude. Os trenzinhos circulam de sexta a domingo, com uma saída na sexta, da estação de Pindamonhangaba. A passagem custa R$ 40.
PAIXÃO POR TRENS
Mas não é só a bonita paisagem natural que faz uma pessoa se interessar por trens. Para alguns, há outros motivos mais fortes. Caso do seu Ivo Arias, um verdadeiro apaixonado por locomotivas. Ele tinha 35 anos quando leu no jornal O Estado de S. Paulo um anúncio de um francês que queria formar um grupo de preservação de material ferroviário. O gosto pelos trilhos já estava no sangue. Seu Ivo, filho e neto de ferroviários, não pensou duas vezes. Decidiu procurar o tal anunciante e se tornou um dos 26 fundadores da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), em setembro de 1976.
Não à toa, quando a ABPF conseguiu a concessão da linha Campinas-Jaguariúna, ele se tornou o primeiro funcionário do trem turístico. Desde então, trabalhou como maquinista, na manutenção, como guia e chefe de estação. Hoje, é coordenador da rota. “De vez em quando, pego os trens para matar a saudade.”
Os primeiros anos foram os mais difíceis, principalmente com a resistência das famílias que haviam invadido as áreas ao longo da ferrovia. “Em 1985, incendiaram dez carros e tudo foi à estaca zero”.
Mesmo com os acertos na linha, o transporte de passageiros entrou em decadência, para sua tristeza. As oportunidades para ferroviários já não existiam mais e nenhum dos quatro filhos seguiu a profissão. “Mas eles são apaixonados pelos trens e estão sempre no passeio. Meus netos brincam com o ferrorama que dei aos meus filhos”, diz com orgulho. (R.M.)
Brasil tem poucos trilhos livres para transporte de passageiros
Publicado em 18.03.2010
Jornal do Commercio
SÃO PAULO – Uma das dificuldades para a expansão dos trens turísticos é justamente que não há mais trilhos para serem utilizados – pelo menos não obsoletos ou destinados ao transporte de passageiros. A malha ferroviária nacional é de 29,8 mil quilômetros, mas 95% está na mão de concessionárias de carga e o restante é da malha metroviária das grandes cidades. A solução então é negociar com os atuais responsáveis pelas vias. E essa situação, em muitos casos, leva ao encarecimento das passagens.
Segundo dados da Associação Brasileira de Operadores de Trens de Turismo e Culturais (Abottc), 30,2% dos valores pagos por passageiro são repassados para as concessionárias. Ou seja, além dos preços das passagens serem mais caros, a simples viagem nos trens se torna inviável.
“O negócio não consegue sobreviver somente com o valor da passagem. Por isso, tentamos agregar outros produtos, fazendo pacotes que às vezes desvirtuam o passeio tradicional”, diz o vice-presidente da Abottc, Adonai Arruda Filho, também diretor da empresa Serra Verde Express.
Mesmo com os valores das passagens maiores, o volume de passageiros de trens turísticos cresceu 9% no ano passado. Somente o trem de luxo que vai de Curitiba a Morretes, e cuja passagem custa R$ 300, transportou no período 150 mil pessoas. Inaugurado no fim do ano passado, o Trem do Pantanal recebeu outros 5 mil turistas, a maioria estrangeira.
Os trens turísticos que fazem passeios para preservar a memória das ferrovias não precisam repassar tanto para as concessionárias, mas por outro lado sofrem para conseguir horários obsoletos nas vias para realizarem os passeios. Por isso, muitas associações realizam os passeios em curtos trajetos, normalmente rejeitados pelo mercado de carga.
A Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF) conseguiu assim a concessão do trecho Campinas-Jaguariúna, nos anos 1980. A entidade havia sido formada três anos antes e obteve o trecho para levar todo material que conseguiu para preservar. Quando veio a privatização, ninguém se interessou pela sua vida.
A explicação é que, por volta dos anos 1950, todas as locomotivas eram a vapor e perdiam o ritmo nas subidas. Por isso, os trajetos eram com muitas curvas e mais longos, para contornar de forma mais suave as montanhas. “Com a chegada das locomotivas a diesel, que subiam facilmente os morros, foram construídas as linhas retificadas, ao lado das antigas, que eram menores, pois podiam subir os morros. E essas atraíram as concessionárias”, diz o chefe de trens da regional paulista da ABPF, Anderson Conte. Por isso, a antiga linha ficou abandonada, até ser passada para a entidade, que hoje realiza o passeio turístico. (R.M.)
Turismo coloca trens na linha
Publicado em 18.03.2010
Jornal do Commercio
Por todo o País, cresce a oferta de passeios em marias-fumaça, que permitem conhecer o Brasil sobre trilhos, preservando a memória ferroviária
Renato Machado
Agência Estado
SÃO PAULO – Uma locomotiva maria-fumaça podia percorrer cerca de 50 quilômetros antes de precisar parar para o abastecimento de água e lenha. Esse era também o momento em que os passageiros aproveitavam para entrar nos trens e iniciar as viagens. Das caixas-d’água ao lado dos trilhos surgiram as estações, e essas foram responsáveis pelo desenvolvimento de muitas cidades no século passado. Só que a imagem de uma pessoa saindo de uma estação para seguir de trem até outro município está apenas na memória. Uma forma de revivê-la é com os trens turísticos, que, apesar das dificuldades, voltam a se proliferar pelo País.
Eles sofreram um forte abalo com a privatização das ferrovias, nos anos 1990. O mercado se voltou totalmente para cargas e praticamente não sobrou espaço para os passageiros e para a memória. Em 2004, só cinco linhas turísticas tinham autorização para funcionar da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
Contrariando a lógica, há atualmente 22 – além de sete pedidos sob análise. “Não houve cuidado de determinar a manutenção dos trens de passageiros durante a privatização, porque a carga é mais rentável”, diz o chefe de trens da regional paulista da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), Anderson Conte. “Mas tentamos ficar com o pouco que sobra para preservar a memória desse mercado.”
Um dos pontos impulsionadores foi a ação das entidades de preservação da memória ferroviária. Além disso, o mercado do turismo passou a ver as viagens sobre trilhos como um negócio lucrativo, oferecendo diversidade de pacotes, incluindo trens de luxo combinados com traslados aéreos e estadas em grandes hotéis.
Seja em uma maria-fumaça do século passado, seja em um vagão moderno, os especialistas afirmam que todos os passeios são válidos para preservar a memória. “Só o fato de recuperar a experiência de ir até uma estação e entrar no trem ajuda a reconhecer a diversidade do transporte”, diz o professor da Unesp e pesquisador de ferrovias Célio José Losnak.
As mesmas características de antigamente são mantidas no passeio Campinas-Jaguariúna, o mais antigo do País. Um guia vai explicando a história da rota, das fazendas ao redor, das cidades e das locomotivas. Violeiros alegram a viagem, que dura três horas, custa R$ 40 e atrai em média mil pessoas por semana.
Plínio e Marlene Marson decidiram desvendar essa rota. Eles saíram de Jaú (SP) especialmente para o passeio. A data também foi escolhida a dedo: o aniversário de 37 anos de casamento. “Aproveitamos para comemorar em um trem, para relembrar o que a gente fazia anos atrás”, diz Marson.
Passeios repletos de nostalgia
Publicado em 18.03.2010
Jornal do Commercio
Turismo ferroviário oferece ângulo diferente das cidades visitadas, além de ajudar a preservar locomotivas. Pacotes variam de R$ 5 a R$ 8 mil
SÃO PAULO – As viagens nos trens turísticos podem ser feitas em bancos de madeira, sob um forte calor e em uma maria-fumaça que anda em certos trechos a menos de 30 km/h. Para os mais apaixonados, essa é a situação ideal. Ou então os passageiros podem deitar em uma confortável cabine com ar-condicionado, com um sofisticado serviço de bordo. Tudo depende do gosto das pessoas e também do bolso. Os roteiros podem variar de R$ 5 a pacotes de R$ 8 mil.
O mais barato, curto e simples também é um dos preferidos de quem gosta do movimento das locomotivas. Na tradicional vila ferroviária de Paranapiacaba, em Santo André, no ABC paulista, os passageiros percorrem cerca de 300 metros, em uma viagem de cerca de 20 minutos. O trajeto é feito em um antigo pátio de manutenção, perto de um museu ferroviário e de outras locomotivas, algumas do século 19.
Os passeios que têm como objetivo preservar a memória ferroviária são a maioria no País. Grande parte deles é operada pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), que assumiu algumas concessões desprezadas pelo mercado ou então manteve acordos com as concessionárias para utilizar os trilhos nos horários ociosos.
“Nosso foco é a cultura e a história e não a paisagem”, diz o gerente da regional Campinas da entidade, Vanderlei da Silva. Ele acrescenta que toda a receita com a venda das passagens é investida na preservação e manutenção das locomotivas históricas e dos trilhos operadores. A ABPF opera trens em Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina.
No Sul do País, o chamado Trem do Vinho tem o objetivo de preservar as culturas gaúcha e italiana. O trajeto entre Bento Gonçalves e Garibaldi é feito desde 1992 em meio a apresentações de teatro e de música, e diversas paradas são feitas para degustações. “Em cada parada, as pessoas experimentam uma coisa. Tem degustação de vinhos em Bento Gonçalves, de suco de uva em Garibaldi e de filtrado doce em Carlos Barbosa”, diz a coordenadora de Marketing da empresa que opera a rota, Mara Pasquali.
A culinária também é um dos fortes das rotas que atravessam Minas Gerais. Mas é somente um. A revitalização das rotas históricas entre São João del Rey e Tiradentes e entre Ouro Preto e Mariana foi alvo de um grande projeto. As estações viraram centros culturais, parques temáticos e museus – onde há locomotivas de diversos modelos, como uma Balden, com mais de 100 anos de uso.
Além dos passeios ferroviários tradicionais, o setor turístico mirou as viagens de trens para criar opções sofisticadas, combinadas com estadas em hotéis de luxos e traslados aéreos, que permitem ao turista visitar em um único pacote atrações localizadas a centenas de quilômetros uma da outra. Um exemplo é o trem Great Brazil Express, cujo pacote de oito dias custa R$ 8 mil. Em dois dias, o trem faz a rota entre Ponta Grossa e Cascavel, no Paraná, e os outros seis dias podem ser no Rio, por exemplo. As cabines são confortáveis, luxuosamente decoradas. “São todos recebidos com champanhe”, diz o diretor comercial da Grand Brazil Express, Adonai de Arruda Filho.
INCÊNDIO
De todos os roteiros autorizados pela Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), apenas cinco não estão em operação. Falta de verbas e brigas políticas são os principais motivos. Mas há também casos em que o vandalismo impede a preservação da memória.
Na virada de 2008 para 2009, três jovens colocaram fogo no trem turístico de Paraguaçu Paulista, um dos atrativos da cidade. Todo um vagão de madeira foi destruído, assim como parte da locomotiva. Foi preciso mais de um ano para restaurar as composições e a reinauguração foi semana passada.(R.M.)
Trem de Campos do Jordão na ativa
Publicado em 18.03.2010
Jornal do Commercio
SÃO PAULO – Depois de 11 meses sem circular, o trenzinho turístico da Estrada de Ferro Campos do Jordão (EFCJ) voltou à ativa e já tem reservas para todos os fins de semana até junho, para o passeio que liga Pindamonhangaba à cidade serrana, conhecida como Suíça Brasileira.
A retomada das atividades ocorreu no Carnaval, mas segundo a diretora de Turismo da EFCJ, Regina Lopes, não foi preciso publicidade para que as viagens lotassem. Havia demanda reprimida, pois o passeio é muito requisitado. “Cerca de 45 mil pessoas eram transportadas por ano, pela estrada, uma das mais antigas do Brasil, tendo sido fundada pelo médico sanitarista Emílio Ribas e inaugurada em 1914, para facilitar o transporte de doentes à serra. O que impedia o tráfego do bondinho era uma barreira que caíra no km 34.
O que mais atrai o público são as belezas naturais da Serra da Mantiqueira, que podem ser apreciadas no percurso de 50 minutos entre as duas cidades, ao longo de 47 quilômetros. Em uma das paradas no trem, na estação Eugênio Lefréve, em Santo Antônio do Pinhal, a atração é a vista das cidades do Vale do Paraíba. A estrada também passa pelo ponto ferroviário mais alto do Brasil, a 1.743 metros de altitude. Os trenzinhos circulam de sexta a domingo, com uma saída na sexta, da estação de Pindamonhangaba. A passagem custa R$ 40.
PAIXÃO POR TRENS
Mas não é só a bonita paisagem natural que faz uma pessoa se interessar por trens. Para alguns, há outros motivos mais fortes. Caso do seu Ivo Arias, um verdadeiro apaixonado por locomotivas. Ele tinha 35 anos quando leu no jornal O Estado de S. Paulo um anúncio de um francês que queria formar um grupo de preservação de material ferroviário. O gosto pelos trilhos já estava no sangue. Seu Ivo, filho e neto de ferroviários, não pensou duas vezes. Decidiu procurar o tal anunciante e se tornou um dos 26 fundadores da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), em setembro de 1976.
Não à toa, quando a ABPF conseguiu a concessão da linha Campinas-Jaguariúna, ele se tornou o primeiro funcionário do trem turístico. Desde então, trabalhou como maquinista, na manutenção, como guia e chefe de estação. Hoje, é coordenador da rota. “De vez em quando, pego os trens para matar a saudade.”
Os primeiros anos foram os mais difíceis, principalmente com a resistência das famílias que haviam invadido as áreas ao longo da ferrovia. “Em 1985, incendiaram dez carros e tudo foi à estaca zero”.
Mesmo com os acertos na linha, o transporte de passageiros entrou em decadência, para sua tristeza. As oportunidades para ferroviários já não existiam mais e nenhum dos quatro filhos seguiu a profissão. “Mas eles são apaixonados pelos trens e estão sempre no passeio. Meus netos brincam com o ferrorama que dei aos meus filhos”, diz com orgulho. (R.M.)
Brasil tem poucos trilhos livres para transporte de passageiros
Publicado em 18.03.2010
Jornal do Commercio
SÃO PAULO – Uma das dificuldades para a expansão dos trens turísticos é justamente que não há mais trilhos para serem utilizados – pelo menos não obsoletos ou destinados ao transporte de passageiros. A malha ferroviária nacional é de 29,8 mil quilômetros, mas 95% está na mão de concessionárias de carga e o restante é da malha metroviária das grandes cidades. A solução então é negociar com os atuais responsáveis pelas vias. E essa situação, em muitos casos, leva ao encarecimento das passagens.
Segundo dados da Associação Brasileira de Operadores de Trens de Turismo e Culturais (Abottc), 30,2% dos valores pagos por passageiro são repassados para as concessionárias. Ou seja, além dos preços das passagens serem mais caros, a simples viagem nos trens se torna inviável.
“O negócio não consegue sobreviver somente com o valor da passagem. Por isso, tentamos agregar outros produtos, fazendo pacotes que às vezes desvirtuam o passeio tradicional”, diz o vice-presidente da Abottc, Adonai Arruda Filho, também diretor da empresa Serra Verde Express.
Mesmo com os valores das passagens maiores, o volume de passageiros de trens turísticos cresceu 9% no ano passado. Somente o trem de luxo que vai de Curitiba a Morretes, e cuja passagem custa R$ 300, transportou no período 150 mil pessoas. Inaugurado no fim do ano passado, o Trem do Pantanal recebeu outros 5 mil turistas, a maioria estrangeira.
Os trens turísticos que fazem passeios para preservar a memória das ferrovias não precisam repassar tanto para as concessionárias, mas por outro lado sofrem para conseguir horários obsoletos nas vias para realizarem os passeios. Por isso, muitas associações realizam os passeios em curtos trajetos, normalmente rejeitados pelo mercado de carga.
A Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF) conseguiu assim a concessão do trecho Campinas-Jaguariúna, nos anos 1980. A entidade havia sido formada três anos antes e obteve o trecho para levar todo material que conseguiu para preservar. Quando veio a privatização, ninguém se interessou pela sua vida.
A explicação é que, por volta dos anos 1950, todas as locomotivas eram a vapor e perdiam o ritmo nas subidas. Por isso, os trajetos eram com muitas curvas e mais longos, para contornar de forma mais suave as montanhas. “Com a chegada das locomotivas a diesel, que subiam facilmente os morros, foram construídas as linhas retificadas, ao lado das antigas, que eram menores, pois podiam subir os morros. E essas atraíram as concessionárias”, diz o chefe de trens da regional paulista da ABPF, Anderson Conte. Por isso, a antiga linha ficou abandonada, até ser passada para a entidade, que hoje realiza o passeio turístico. (R.M.)