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Rostos cariocas: o Rio de Janeiro além das paisagens


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*Esse não é um relato cujo foco são custos e detalhes técnicos da viagem, é um relato mais pessoal. De qualquer forma, caso tenham dúvidas a respeito de custos e outros aspectos do gênero, ficarei feliz em ajudar :) (fiz a viagem em fevereiro desse ano, 2017)

 

**Texto originalmente publicado no meu blog, Cósmica: https://c-osmica.blogspot.com.br/2017/07/blog-post.html

 

DSC00125.pngDe férias, eu nem sequer sabia que dia da semana era. Mesmo assim, desfrutava de uma manhã quente na praia do Arpoador - cheia de vida, como sempre. Os ambulantes perambulavam pela praia, oferecendo toda a sorte de alimentos e produtos. O sol era forte - provavelmente, estávamos perto do meio dia - e a água esverdeada era calma e convidativa.

 

Foi então que a senhora que vendia "quentinhas" passou. Fez uma pausa e olhou para a água: parecia que o mundo inteiro estava ali. Largou as quentinhas na areia, tirou o avental e fez o que cada ser humano nesse planeta merece fazer pelo menos uma vez na vida: deixou as obrigações na areia e correu para o mar.

 

O caos e a beleza formam uma única composição

 

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O Rio de Janeiro não protagonizou inúmeras composições emblemáticas de nossos grandes nomes Tom Jobim, Chico Buarque e Tim Maia - entre tantos outros, naturalmente - por poucos motivos. As paisagens fazem com que os olhos encantados de seus visitantes sejam incapazes de se distrair por um só segundo, mas é o carioca quem dá vida a esse cenário de natureza soberana.

 

Caricatos como nenhum outro, os cariocas merecem o mérito pelo Rio de Janeiro, que continua lindo e continua sendo apesar dos pesares - a insegurança, a violência e o aparente estado de abandono político e social que assolam a cidade maravilhosa. Em cada esquina, o carioca prova que não apenas é capaz de sobreviver em meio ao caos, mas de viver a vida em estado de eterna alegria, uma esperança que parece nunca morrer.

 

O Rio de Janeiro é do samba

 

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Ao longo do calçadão de Copacabana - sempre repleto de turistas das mais diversas partes do mundo - os quiosques abrigam músicos que fazem suas melodias preencher o ar da praia. Os gêneros musicais escolhidos são inúmeros - talvez seja esse um caminho para a unidade, em meio a tantas culturas misturadas em uma única calçada - mas ao turista desavisado, ou ao que deseja ter sua pele banhada pelo sol carioca, cabe o aviso: não se engane, o Rio de Janeiro é do samba.

 

A noite reserva uma agradável surpresa aos que desejam conhecer de perto o coração da capital carioca: o bar Bip Bip - um boteco de verdade, na Rua Almirante Gonçalves, Copacabana -, tombado como patrimônio do município. Cadeiras e mesas de plástico se espalham pela calçada em frente à pequena e simples fachada, ocupadas por amantes do samba, do choro e da bossa nova que, ao fim de cada canção, estalam os dedos como forma de aplauso - um tratado entre seu Alfredinho, o dono, gerente e coração do lugar, e os frequentadores, que mantêm o volume de suas reações baixo como forma de não tornar o bar um problema aos olhos dos vizinhos.

 

"Simplificar, simplificar, simplificar": Thoureau ficaria satisfeito se lhe fosse possível tomar uma cerveja no Bip Bip, que também faz da simplicidade a sua bandeira. No bar, não há garçons, comandas ou cervejas artesanais - busque você mesmo uma bebida na geladeira e, ao sair do local, informe ao Alfredinho tudo o que você consumiu até então. A honestidade parece ser uma raridade as vezes, mas ainda há quem acredite firmemente nela.

 

Os músicos ali tocam de graça, por amor. Ao primeiro sinal de conversas altas, Alfredinho pede silêncio - o respeito à música é soberano, todos estão ali para ouvi-la. "Atrações confirmadas" é outro dos "luxos" que o Bip Bip não precisa se dar: os músicos vão, por vontade própria e sem aviso prévio - e eles sempre vão. Abre-se das 19h às 2h todos os dias, exceto aos sábados: essa é a única certeza ali, nesse pequeno recanto de Copacabana, onde é o samba quem manda.

 

Os cariocas da gema e existem e eles estão na Sapucaí

 

Nas semanas que antecedem o Carnaval, as escolas de samba realizam ensaios abertos ao público no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Aparentemente pouco divulgado entre os turistas - ao contrário do Carnaval em si, os ensaios lotam as arquibancadas de cariocas: famílias, casais, indivíduos sozinhos, crianças, jovens, idosos, vendedores ambulantes e toda a sorte de pessoas que lhe é possível imaginar. O Carnaval e o samba, no Rio de Janeiro, recebem a mesma paixão que costumamos ver em outras partes do mundo com o futebol.

 

A multidão dentro e fora do Sambódromo, o Cristo Redentor sempre vigilante e visível, lá no alto, e o som dos primeiros tambores tocados pela escola de samba na avenida são recebidos com arrepios pela pele de quem vivencia tamanha grandiosidade e paixão compartilhada pela primeira vez. Alguns minutos dedicados a ouvir a conversa entre os espectadores basta para entender que as escolas de samba, ali, significam muito mais do que nos mostram suas aparições na televisão uma vez por ano: os cariocas sabem suas histórias, seus enredos, suas causas. Elas são temas recorrentes e entusiasmados nas rodas de conversa.

 

Ao final dos ensaios, nota-se que toda a região que envolve a Marquês de Sapucaí, assim como as arquibancadas, também está lotada. Nos rostos de cada pessoa, empolgação. A expressão sincera de quem ama e vive intensamente a cultura do seu lugar de origem - todos os dias, longe das câmeras dos telejornais, dos programas sobre celebridades, ou dos cenários das novelas.

 

A expressão de quem, de fato, vive o Rio de Janeiro. Rostos diversos - rosto de quem acordaria cedo no dia seguinte, rosto de quem se preocupa com as contas no começo do mês, rostos de quem sente na pele o lado ruim do Rio de Janeiro e de quem nunca enjoa de suas paisagens generosas - e, acima de tudo, rostos cariocas.

 

Fotos de Fábio Becker

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