Estive no feriado de 12/10 nos Gerais do Machambongo, um trecho do PN Chapada Diamantina pouco conhecido, que fica ao sul de Mucugê. Quem conhece o Parque sabe que Mucugê fica quase no meio dele. A área mais explorada fica entre Lençóis, Capão e Andaraí (Cachoeira da Fumaça e Vale do Paty).
A área é muito bonita. Como desta vez não tinha mapa do local contratei um guia, o excelente Neinho, de Guiné. Além de entender muito da Chapada e de natureza é uma figura humana excepcional. Fizemos a trilha no Sentido Ibicoara-Mucugê.
Passo o relato, recomendando a trilha para quem gosta de descobrir novos lugares.
Fomos de carro até Ibicoara, ao sul de Mucugê, onde amigos de Neinho levaram o meu carro de volta para Mucugê, onde deixaram-no na casa de amigos, na qual eu estava hospedado. Nosso destino final era justamente Mucugê. O sentido Ibicoara- Mucugê é mais vantajoso por dois motivos: é predominantemente descida e, de carro, somos deixados no início da trilha. Se fosse o término (sentido Mucugê-Ibicoara), teríamos de palhetar por estradas de terra até chegarmos a um povoado e procurar uma lotação, para voltarmos a Mucugê (transporte não regular).
Apenas a três horas do início da trilha fica a Toca dos Vaqueiros, quase um hotel 5 estrelas no meio dos gerais. Ela foi construída pelos vaqueiros que traziam o gado para os Gerais, antes do IBAMA proibir a criação destes animais no PN. O esquema é lanchar e lá deixar as mochilas para descer o rio Riachão (que passa em frente à Toca) rumo a Cachoeira da Fumacinha, uma hora e meia de distância. Não há trilha. O negócio é seguir pela margem do rio. No caminho, num banco de areia, Neinho mostrou a pegada de uma onça.
A Fumacinha é de tirar o fôlego. Só não é igual ou maior que sua irmã famosa, a Fumaça, porque a queda se divide em três, sendo que a última é de quase 100 mts de altura (informação do Neinho). Não é possível ver as duas últimas quedas, pois o rio entra em uma garganta estreita em formato de “S”. Entretanto, de um mirante, é possível ver o cânion sensacional rio abaixo. Fundo e estreito, ele tem 9 km de extensão. Daquele ponto não havia como descer, exceto fazendo rappel. Uma excursão à Fumacinha por baixo leva dois dias, pois, apesar do cânion ter apenas 9 kms, o leito do rio é acidentado. É altamente aconselhável fazê-lo em época seca porque uma tromba d’água naquela garganta estreita não deve ser nada agradável...Não conheço os cânions de Aparados da Serra (RS) mas daqueles que conheço na Chapada, sem dúvida é o mais impressionante.
Voltamos à Toca para passarmos a noite. A Toca dos Vaqueiros é uma dormida muito legal. Na minha experiência de trekking na Chapada é um dos melhores locais para se acampar dentro do PN. Tem uma cachoeira um pouco acima no rio ótima para banho. A Toca dispensa a barraca, tranqüilo.
Dia seguinte rumamos pelos gerais, em direção a Tesoura (colo entre duas serras que convergem para este ponto), local de descida para o vale do rio Mucugê. O terreno é fácil neste trecho, com vegetação de campos de altitude. E a orientação é tranqüila. Longe no horizonte, rumo 335 NM, observamos nitidamente a Tesoura. Nesta época, outubro, se encontra água fácil (dois córregos no caminho). O Riachão corria paralelo ao nosso rumo, mais abaixo, seguindo para o Sul, para a Toca de onde saímos. Encontramos no caminho muitos cupinzeiros esburacados no topo, o que indicava uma população bem ativa de tamanduás na área.
Depois de quatro horas, a partir da Toca, passamos a Tesoura e descemos para o vale do rio Mucugê. Uma trilha conduz até perto da nascente do rio, a partir do qual seguimos pela margem direita do mesmo (um atalho, pois o caminho normal pelo Morro do Gobira é mais longo e com mais subida e descida). Esta trilha a margem do rio é pouquíssimo freqüentada e costuma fechar.
No caminho o Neinho mostrou um esqueleto de tatu virado para cima, sinal de que foi atacado e comido por onça. Tristeza foi ver rastros de cavalo com sinais de que estava carregado de “sempre-vivas” (S. mucugensis). Infelizmente a falta de fiscalização e de consciência deixou os gerais quase desertos desta planta endêmica.
Cruzamos o rio num ponto onde mês antes um grupo guiado por Neinho foi atacado por abelhas Arapuá. Elas não picam, não fazem mal, exceto pelo fato de se colarem ao cabelo. Mas o enxame assusta. O Neinho mostrou o ninho delas. Enquanto olhávamos e falávamos sobre elas, parece que ouviram a nossa conversa e saíram de montão da colméia. Foi só o tempo da gente correr.
Chegamos as 16 hrs na Toca do Maluquete, um antigo garimpeiro da região que vivia lá, a beira do Mucugê, não tão boa quanto a Toca do Vaqueiro. Foi nosso pouso na 2ª noite. Pelas três da madruga, acordamos com um barulho de panela batendo na pedra do fogão. Com sono e preguiça não levantei. Só gritei, PSST, SAI MOCÓ! (mocó é um roedor típico na região). Cinco minutos depois o barulho recomeçou. Eu e o guia perdemos a paciência e ligamos as lanternas Petzl, surpreendendo um rato-cachorro dentro da lata de atum que havíamos comido na macarronada da janta. O engraçado é que, ou o bicho não tinha medo de gente ou ficou encandeado pela luz, pois continuou na dele dentro da lata procurando os restos de atum! O Neinho pegou a lata com o roedor e atirou-a para fora da toca. Não voltou a incomodar, provavelmente feliz lambendo a lata.
Dia seguinte seguimos por uma antiga estrada de garimpo que corria paralelo ao Rio Mucugê. Descemos logo para a margem do rio, na altura da Cachoeira da Matinha. Tirei fotos e quando descia para o poção da cachoeira o Neinho apontou para a outra margem: um Meia-Noite pulava pelas pedras e rapidamente se escondeu na mata. Tinha o tamanho de um gato grande. Num primeiro momento pensei que era um felino. Não tive tempo de tirar fotos, pois tinha devolvido a máquina para seu estojo.
Tomei um senhor banho na cachoeira. A Matinha fica apenas a três horas de Mucugê.
O último trecho da caminhada antes da cidade é monótono, pois seguimos por uma estrada de terra. Chegamos a Mucugê por volta de duas da tarde do 3º dia. A pequena cidade, na minha opinião é a jóia da Chapada. Fecho de ouro para qualquer trekking.
Ficamos praticamente dois dias sem ver gente. Esta é uma das partes mais desconhecidas do Parque Nacional e vale a visita. Se Deus permitir volto para conhecer a Fumacinha por baixo e outros trechos da região. Deixo com vcs o telefone de Neinho em Guiné, o qual considero um dos melhores guias da Chapada: (75) 3338-7054 (casa de D. Olga, mãe do Neinho). Tem também o Pierre, da Tatu na Trilha (Vale do Capão) que também faz a trilha. Para quem for, Boa Sorte!!!
“O bom da viagem é a demora”.
Seu Lurde, vaqueiro aposentado, 68 anos, Guiné/BA
Galera:
Estive no feriado de 12/10 nos Gerais do Machambongo, um trecho do PN Chapada Diamantina pouco conhecido, que fica ao sul de Mucugê. Quem conhece o Parque sabe que Mucugê fica quase no meio dele. A área mais explorada fica entre Lençóis, Capão e Andaraí (Cachoeira da Fumaça e Vale do Paty).
A área é muito bonita. Como desta vez não tinha mapa do local contratei um guia, o excelente Neinho, de Guiné. Além de entender muito da Chapada e de natureza é uma figura humana excepcional. Fizemos a trilha no Sentido Ibicoara-Mucugê.
Passo o relato, recomendando a trilha para quem gosta de descobrir novos lugares.
Fomos de carro até Ibicoara, ao sul de Mucugê, onde amigos de Neinho levaram o meu carro de volta para Mucugê, onde deixaram-no na casa de amigos, na qual eu estava hospedado. Nosso destino final era justamente Mucugê. O sentido Ibicoara- Mucugê é mais vantajoso por dois motivos: é predominantemente descida e, de carro, somos deixados no início da trilha. Se fosse o término (sentido Mucugê-Ibicoara), teríamos de palhetar por estradas de terra até chegarmos a um povoado e procurar uma lotação, para voltarmos a Mucugê (transporte não regular).
Apenas a três horas do início da trilha fica a Toca dos Vaqueiros, quase um hotel 5 estrelas no meio dos gerais. Ela foi construída pelos vaqueiros que traziam o gado para os Gerais, antes do IBAMA proibir a criação destes animais no PN. O esquema é lanchar e lá deixar as mochilas para descer o rio Riachão (que passa em frente à Toca) rumo a Cachoeira da Fumacinha, uma hora e meia de distância. Não há trilha. O negócio é seguir pela margem do rio. No caminho, num banco de areia, Neinho mostrou a pegada de uma onça.
A Fumacinha é de tirar o fôlego. Só não é igual ou maior que sua irmã famosa, a Fumaça, porque a queda se divide em três, sendo que a última é de quase 100 mts de altura (informação do Neinho). Não é possível ver as duas últimas quedas, pois o rio entra em uma garganta estreita em formato de “S”. Entretanto, de um mirante, é possível ver o cânion sensacional rio abaixo. Fundo e estreito, ele tem 9 km de extensão. Daquele ponto não havia como descer, exceto fazendo rappel. Uma excursão à Fumacinha por baixo leva dois dias, pois, apesar do cânion ter apenas 9 kms, o leito do rio é acidentado. É altamente aconselhável fazê-lo em época seca porque uma tromba d’água naquela garganta estreita não deve ser nada agradável...Não conheço os cânions de Aparados da Serra (RS) mas daqueles que conheço na Chapada, sem dúvida é o mais impressionante.
Voltamos à Toca para passarmos a noite. A Toca dos Vaqueiros é uma dormida muito legal. Na minha experiência de trekking na Chapada é um dos melhores locais para se acampar dentro do PN. Tem uma cachoeira um pouco acima no rio ótima para banho. A Toca dispensa a barraca, tranqüilo.
Dia seguinte rumamos pelos gerais, em direção a Tesoura (colo entre duas serras que convergem para este ponto), local de descida para o vale do rio Mucugê. O terreno é fácil neste trecho, com vegetação de campos de altitude. E a orientação é tranqüila. Longe no horizonte, rumo 335 NM, observamos nitidamente a Tesoura. Nesta época, outubro, se encontra água fácil (dois córregos no caminho). O Riachão corria paralelo ao nosso rumo, mais abaixo, seguindo para o Sul, para a Toca de onde saímos. Encontramos no caminho muitos cupinzeiros esburacados no topo, o que indicava uma população bem ativa de tamanduás na área.
Depois de quatro horas, a partir da Toca, passamos a Tesoura e descemos para o vale do rio Mucugê. Uma trilha conduz até perto da nascente do rio, a partir do qual seguimos pela margem direita do mesmo (um atalho, pois o caminho normal pelo Morro do Gobira é mais longo e com mais subida e descida). Esta trilha a margem do rio é pouquíssimo freqüentada e costuma fechar.
No caminho o Neinho mostrou um esqueleto de tatu virado para cima, sinal de que foi atacado e comido por onça. Tristeza foi ver rastros de cavalo com sinais de que estava carregado de “sempre-vivas” (S. mucugensis). Infelizmente a falta de fiscalização e de consciência deixou os gerais quase desertos desta planta endêmica.
Cruzamos o rio num ponto onde mês antes um grupo guiado por Neinho foi atacado por abelhas Arapuá. Elas não picam, não fazem mal, exceto pelo fato de se colarem ao cabelo. Mas o enxame assusta. O Neinho mostrou o ninho delas. Enquanto olhávamos e falávamos sobre elas, parece que ouviram a nossa conversa e saíram de montão da colméia. Foi só o tempo da gente correr.
Chegamos as 16 hrs na Toca do Maluquete, um antigo garimpeiro da região que vivia lá, a beira do Mucugê, não tão boa quanto a Toca do Vaqueiro. Foi nosso pouso na 2ª noite. Pelas três da madruga, acordamos com um barulho de panela batendo na pedra do fogão. Com sono e preguiça não levantei. Só gritei, PSST, SAI MOCÓ! (mocó é um roedor típico na região). Cinco minutos depois o barulho recomeçou. Eu e o guia perdemos a paciência e ligamos as lanternas Petzl, surpreendendo um rato-cachorro dentro da lata de atum que havíamos comido na macarronada da janta. O engraçado é que, ou o bicho não tinha medo de gente ou ficou encandeado pela luz, pois continuou na dele dentro da lata procurando os restos de atum! O Neinho pegou a lata com o roedor e atirou-a para fora da toca. Não voltou a incomodar, provavelmente feliz lambendo a lata.
Dia seguinte seguimos por uma antiga estrada de garimpo que corria paralelo ao Rio Mucugê. Descemos logo para a margem do rio, na altura da Cachoeira da Matinha. Tirei fotos e quando descia para o poção da cachoeira o Neinho apontou para a outra margem: um Meia-Noite pulava pelas pedras e rapidamente se escondeu na mata. Tinha o tamanho de um gato grande. Num primeiro momento pensei que era um felino. Não tive tempo de tirar fotos, pois tinha devolvido a máquina para seu estojo.
Tomei um senhor banho na cachoeira. A Matinha fica apenas a três horas de Mucugê.
O último trecho da caminhada antes da cidade é monótono, pois seguimos por uma estrada de terra. Chegamos a Mucugê por volta de duas da tarde do 3º dia. A pequena cidade, na minha opinião é a jóia da Chapada. Fecho de ouro para qualquer trekking.
Ficamos praticamente dois dias sem ver gente. Esta é uma das partes mais desconhecidas do Parque Nacional e vale a visita. Se Deus permitir volto para conhecer a Fumacinha por baixo e outros trechos da região. Deixo com vcs o telefone de Neinho em Guiné, o qual considero um dos melhores guias da Chapada: (75) 3338-7054 (casa de D. Olga, mãe do Neinho). Tem também o Pierre, da Tatu na Trilha (Vale do Capão) que também faz a trilha. Para quem for, Boa Sorte!!!
Peter
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Relatos sobre a Chapada Diamantina:
Relato sobre a Cachoeira da Fumaça pelo Membro thiagomattos
Relato sobre Rio de Contas e Pico das Almas pelo Editor Michelschon
Relato sobre as Gerais do Machabongo pelo Membro peter tofte
Relato sobre a Cachoeira da Fumacinha pelo Membro peter tofte[/linkbox]