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CRÔNICAS DE UM MOCHILEIRO III - THE LUCK OF THE IRISH


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PRÓLOGO
A expressão "THE LUCK OF THE IRISH", que pode ser traduzida como "a sorte dos irlandeses", surgiu nos EUA (e não na Irlanda) na segunda metade do século XIX, no contexto da "corrida do ouro", como uma referência aos menosprezados irlandeses que foram bem sucedidos, de alguma forma, na empreitada. A frase também foi largamente utilizada em sentido irônico, haja vista que os irlandeses, na verdade, eram vistos como um povo sem sorte, sobretudo pelo seu passado, dado que a população do país diminuiu em 25% durante o período da Grande Fome (1845-1849): morrendo pela falta de alimentos e/ou de doenças ou emigrando para a América.

Contudo, apesar dos pesares, a sorte, concebida como força invencível a que se atribuem o rumo e os diversos acontecimentos da vida, será utilizada em tom positivo neste texto, fazendo jus ao alegre e otimista espírito irlandês e, sobretudo, a minha estadia na cidade de Dublin - recheada de surpresas boas!

O CHAPÉU DA SORTE E OS PUBS IRLANDESES
Ainda nem me ambientara à rotina na saudosa cidade do Porto, onde iniciara meu intercâmbio havia apenas 3 dias, e já estava mochilando em Dublin, capital da Irlanda, o país conhecido pelos Leprechaun, potes de ouro, pubs, pints de Guiness, pessoas ruivas e, principalmente, pelo famigerado trevo de 4 folhas: o raríssimo trevo que traz boa sorte.

Como sou um grande colecionador de souvenires de viagem, logo após deixar minhas coisas no hostel Avalon House, entrei na primeira loja que encontrei. Depois de vasculhar algumas prateleiras, eis que ele surge: o chapéu irlandês (espécie de boina) cinza que estou usando no canto superior esquerdo da foto que ilustra esse post. Coloquei-o na cabeça para experimentar e ele entrou como se tivesse sido feito sob medida para mim: foi amor à primeira prova! Senti-me o Bilbo Baggins do livro O Hobbit encontrando o Um Anel na caverna do Gollum.

Mal sabia eu, quando o comprei, que se tratava de um autêntico chapéu da sorte, haja vista que, depois de adquiri-lo, eu definitivamente fui contemplado pela "luck of the irish" durante toda minha estadia...

Depois de passear um bocado pela cidade, como já era tarde, resolvi entrar de vez no clima irlandês e curtir uma noitada num pub, sendo a melhor região àquela conhecida por Temple Bar, composta por alguns poucos quarteirões infestados de pubs famosos, dentre eles, o principal, que leva o nome do local e que está escancarado na foto desta crônica.

Antes de continuarmos, vale a curiosidade: na Irlanda, os pubs não têm nada a ver com o que estamos habituados aqui no Brasil. Nada! E repito para quem ainda não se ligou: NADA!! Primeiramente, você não paga para entrar, podendo chegar e sair a hora que quiser, sendo o mais comum beber em diversos locais numa mesma noite. Além disso, você pode usar o banheiro numa boa, mesmo sem consumir e vai poder beber copos enormes de cerveja a preços baixos e camaradas, especialmente pensando no custo de vida local e na realidade da Europa como um todo. Por fim, é muitíssimo comum que tenha música ao vivo, quase sempre rock, entoada fervorosamente pelos frequentadores do local, chacoalhando seus canecos. Sendo assim, a leitura do pub irlandês raiz que faço é a de um estabelecimento para ir extravasar depois do trabalho, cantar, gritar, conhecer gente, beber e sorrir, sem ser explorado...

Voltando, com alguns minutos de Temple Bar eu já estava me sentindo ambientado. Se somarmos isto ao fato de eu estar usando um chapéu típico e ter uma barba enorme rajada de ruivo, eu poderia ser considerado um irlandês nato!

Nota: em nenhum lugar do mundo me senti mais “normal” com uma grande barba do que na Irlanda. Digo mais: em nenhum lugar do mundo ela foi tão reconhecida e valorizada. Que saudades desse povo maravilhoso!

Bom, mas retornando à narração, pouco tempo depois que eu entrara no templo das pints, fui abordado e, hummm deixa eu escolher a palavra com cuidado aqui... fui abordado e assediado por uma das ruivas mais lindas que vi na vida. Chapéu? Sorte? Excepcionalmente neste caso, gosto de acreditar que não tem nada a ver com isso e que foi meu sex appeal, porém, infelizmente, aposto que agora o leitor começou a acreditar na história da Luck of The Irish, né?! Pra merda todo mundo que pensou isso!!! E já que é assim, o desfecho dessa história também não será revelado, afinal, como diz o famigerado ditado, o que acontece em Dublin, fica... em Dublin...???

E vejam só, pra não deixar dúvida alguma de que foi sex appeal, na noite seguinte, logo ao sair de um pub, uma irlandesa morena, do nada!, veio pedir para passar a mão na minha barba e começou a puxar conversa... (Tá bom, tá bom, eu estava usando o chapéu da sorte sim e, como se não bastasse, um trevo, que eu pegara num passeio numa cidade litorânea próxima chamada Howth, no bolso...)

O MOTORISTA DE TÁXI E A PRISÃO KILMAINHAM GAOL
No meu terceiro dia em Dublin, eu ainda tinha vários locais para visitar, porém, tinha hora marcada em alguns e estava meio engessado no roteiro. A primeira parada foi a fábrica da Guiness, onde eu planejara fazer o tour e secar alguns canecos, e depois me dirigir à prisão de Kilmainham Gaol, atualmente desativada e famosa pelas atrocidades cometidas contra os presos no passado.

O grande problema aqui é que os ingressos já estavam esgotados há semanas no site. Como ouvi falar que eles vendiam alguns no dia, resolvi dar um pulo lá e arriscar. O grande problema é que eu tinha menos de uma hora para chegar ao local, partindo da Guiness, e estava mais perdido que filho da puta em dia dos pais...

Desnorteado, depois de alguns pints da stout nacional, e sem conseguir usar meu mapa, comecei a andar às cegas, pois a rua estava deserta e não havia a quem perguntar. Depois de uns 2 quarteirões, por sorte consegui parar um senhor que estava saindo de uma loja de conveniências e perguntei a direção da Prisão de Kilmaihaim Gaol.

Muito gentil ele me explicou e, ao perceber que a quantidade de informações que ele me dera era enorme e o caminho meio longo, decidiu por pegar o carro e me levar até lá! Tentei recusar, sobretudo por medo, afinal, sou brasileiro, logo, desconfiado com pessoas “bem intencionadas”, porém, ele educadamente insistiu e me explicou que era taxista. “AAAHHH cuzão, por isso a gentileza! Então você quer me forçar a pagar uma corrida né?!?!”, eu pensara. Contudo, após mencionar sua profissão, ele logo acrescentou, para que as coisas ficassem às claras: “Estou de folga hoje, vou assistir a uma partida de futebol e só parei aqui pra comprar bebida. Pode vir que a prisão fica meio que no caminho, vou te deixar lá e não precisa me pagar!”. Puta que pariu, e eu esculachando o cara...

Pois bem, topei e, ao subir no carro, por conta dos hábitos de toda uma vida, entrei no que para nós seria o banco do passageiro, ao que ele, achando que era sério, me disse: opa, você vem aqui, eu que vou dirigindo! (a direção e as mãos das ruas são trocadas no Reino Unido e na Irlanda). E lá fomos nós, rumo à prisão, levando mão boba, ops, dando risada o caminho todo: os irlandeses são muito divertidos e fáceis de fazer amizade.

Alguns minutos depois, chegamos à prisão. Por educação, ofereci de pagar a corrida, mas ele prontamente recusou, sendo assim, deixei um chocolate no console e desci. Subi o zíper da calça, digo, ajeitei meu chapéu e entrei no saguão com a bilheteria: graças ao taxista de folga, cheguei a tempo de comprar um dos últimos (4) ingressos para visitação naquele dia, que selou a minha despedida do país...

Como eu ainda tinha muitas horas até o meu tour, andei alguns quilômetros para ir visitar a prefeitura, fui confundido duas vezes com um local, ao me pedirem localizações (bendita barba), visitei a famosa Igreja de Saint Patrick e me perdi. Caí num beco nada a ver e, por sorte, descobri um restaurante francês, très petit, onde resolvi almoçar e comi os melhores ovos benedict da minha vida, com salmão defumado! Depois disso consegui achar o caminho da prisão, fiz um tour animal, voltei para o hostel, já meio tarde, jantei uma costela perto do Temple Bar e fechei minha última noite percorrendo os pubs.

EPÍLOGO – ESQUECERAM DE MIM EM DUBLIN
Na madruga seguinte, por volta das 4 da manhã da segunda-feira, acordei, organizei minha coisas e fui para a recepção aguardar um transfer super barato que me ofereceram quando cheguei. O horário combinado era o das 5 em ponto, porém, já eram 5:05 e nada. 5:10, 5:12, ... adrenalina já a mil, meu cu fechado que não passava nem wifi. Conversei na recepção do hostel e o atendente, preocupado, resolveu ligar pro motorista – recebi a saborosa informação de que minha reserva na van não havia sido feita, por erro de uma pessoa! Filha da puta! Como eu tinha um voucher de pagamento, o cara pediu pra van mudar o caminho e vir me buscar. Até às 5:20, momento em que o motorista chegou, o relógio passou em câmera lenta, porém, não tive mais medo, pois me lembrei de que estava usando o chapéu!

Cheguei com horário apertado, porém, o suficiente para fazer tudo com razoável calma e embarcar e voltar com segurança para começar minha segunda semana de intercâmbio no Laboratório de Biomecânica da Universidade do Porto.

Será que tudo isso foi coincidência? Alucinação de quem vos escreve? Terá o chapéu poderes mágicos? Não sei, mas, sinceramente, gosto de acreditar que eu estava blindado pela luck of the irish no país.

Antes que me perguntem, infelizmente, por conta da distância em relação a sua terra natal, creio eu, o chapéu da sorte meio que perdeu boa parte de seus poderes, tendo, nos dias de hoje, influência mais tímida e restrita, porém, ele ainda é vivo e tem seu charme.

Obrigado a todos que leram até aqui! Até a próxima crônica e... Boa sorte!

FERNANDO PAIOTTI

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