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Jorge Soto

Da Juréia até Iguape... a pé (e à nado)

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DA JURÉIA ATÉ IGUAPE... a pé (e à nado)

 

Tardou 2 anos p/ q se juntassem as condições - e vontade - p/ dar continuidade a uma caminhada q só não finalizei por falta de tempo, a Trilha do Imperador (ou do Telégrafo). Esta, por sua vez, já fora bem tradicional outrora por coincidir c/ uma romaria local, mas atualmente esta proibida por atravessar boa parte da Reserva Ecológica da Juréia. O trecho Guaraú (Peruíbe, litoral sul de SP) ate Barra do Una foi perfeitamente viável num final de semana. Restava apenas o trecho q vai da Barra do Una, segue ate a Pta da Jureia e termina na Barra do Ribeira, em Iguape, 30km depois. Assim, atento ao tempo e à tábua das marés, resolvi de ultima hora "terminar o serviço", numa pernada q exige o mínimo e legitimo espírito "aventureiro" pelas condições acima expostas. De quebra, a beleza singular de um dos rincões de nosso pais q são poucos os privilegiados de pisar. Legalmente, claro.

A lotação q tomei no Term. Jabaquara, as 10hrs, c/ destino a Peruíbe foi ate q bem rápida, e o ceu azul desta vez permitiu apreciar atentamente os detalhes da descida de serra pela Imigrantes, q não ficam atrás da Tamoios. E, num piscar de olhos e passando por Mongaguá e Itanhaem,cheguei em Peruíbe quase meio-dia. Assim, fui p/ rua atrás da rodoviária q é de onde partem os ônibus p/ td qto é canto, incluindo Guaraú e Barra do Una, p/ qual partimos as 13hrs, depois de tempo suficiente p/ um lanche. Viagem q fica emocionante somente depois da Praia do Guaraú, pois a precária estrada de terra serpenteia, em altos e baixos, a verdejante serra q compõe este trecho inicial da Juréia. Após passar pela farofada Cachu do Perequê, pelo Núcleo Itinguçu e da Cachu do Paraíso, é q definitivamente seguimos p/ vila da Barra do Una, onde chegamos as 14:30.

Minha ideia era aguardar o anoitecer p/ cruzar à nado a barra do rio até outra margem (longe da vista do pessoal da Reserva), mas como era cedo fui bisbilhotar as condições do mesmo. Pela praia plana e larga, logo alcancei a ampla foz do belo Rio Una do Prelado, onde apenas alguns pescadores tentavam fisgar alguma coisa nas águas calmas e escuras. O rio, por sua vez, é obstáculo natural p/ inicio da caminhada (na outra margem), já propriedade da Reserva Ecológica. Mas bastou notar a guarita do outro lado fechada q resolvi cruzar-lo naquele mesmo instante afim de andar c/ luz e não à noite, conforme inicialmente previsto! Assim, munido de sacolas de plástico, ensaquei meus poucos pertences, tanto q minha cargueira tava mais p/ mochila de ataque de tao leve: isolante, lanche, 2,5L de água, sobreteto da barraca, rede, lona de plástico, chinelo e a roupa do corpo. Depois de cair na água p/ testar profundidade e correnteza, joguei a mochila nas costas e mergulhei, resoluto a transpor os quase 70m de largura do rio. Inicialmente tive dificuldade em nadar de peito, pois a barrigueira da mochila tornava a mesma "dura" demais nas minhas costas, impedindo de levantar a cabeça p/ respirar satisfatoriamente. Mas bastou solta-la q tive mais tranqüilidade e liberdade em continuar minhas lentas e vigorosas braçadas, sob o olhar perplexo dos pescadores, q deviam estar apostando entre si se chegava lá ou não. Devo ter demorado a "eternidade" de 7min. p/ atravessar o rio, tempo suficiente ora p/ descansar e tomar fôlego qdo preciso, ora p/ compensar as suaves e frias correntezas q tendiam a me levar p/ mangue, bem mais abaixo da margem arenosa q visava.

Qdo pisei em terra firme quase desabei de cansaço, mas a sensação de vencer o rio bastou p/ continuar a pernada, as 15:30. Dei um rapido trato na mochila (apenas p/ constatar q as sacolas vedaram td perfeitamente) e, descalço, tomei a longa, deserta e ampla Praia do Una, q seguia 12km intermináveis p/ sudoeste. Neste longo trajeto, agraciado por um ceu limpo e sol na cara, passei por restos de um barco naufragado, urubus comendo a carcaça de um golfinho e muitos carangueijos, gaivotas, quero-queros e carcarás. A larga faixa de areia, plana e dura, era limitada à direita por uma extensa planície de restinga arbustiva (com cactos!) q se estendia kms, à noroeste, e terminava aos pés da grandiosa Serra do Itatins. A pernada transcorreu tranqüilamente e so teve uma breve pausa num raso riacho q foi motivo p/ um refrescante banho, e numa simpatica capelinha do Bom Jesus, q devia ser o objeto de culto das peregrinações ali efetuadas. Enqto isso, à minha frente o maciço da Serra da Jureia ia lentamente se materializando, onde um curioso pico parecendo o "Garrafão" (do parnaso) chamava minha atenção em sua curta crista, à oeste.

As horas se passam e o sol vai se pondo lentamente atrás da silhueta recortada das montanhas, no mesmo instante em q a maré sobe, deixando a praia cada vez mais estreita e inclinada, agora com areia grossa e fofa. Faltando pouco p/ Ponta da Grajauna, resolvo encostar o isolante na praia, um pouco acima da faixa das marés e antes da restinga. Após comer, me cobri com o sobreteto da barraca e fiz da mochila travesseiro, disposto a dormir. No entanto, o vento continuou soprando do mar - pipocado de luzinhas de embarcações ao longe - assim q a noite caiu, deixando o firmamento coalhado de estrelas, e onde uma "quase" meia-lua iluminava parcialmente a praia ao meu redor. Um espetáculo p/ os olhos, q so fechariam mais tarde vencidos pelo cansaço! A noite de sono bom correu tranqüilamente, fora um sereno frio de madrugada e investidas de carangueijos curiosos da minha presença.

O domingo acordei com o cafuné de um enorme siri, as 5:30. A escuridão lentamente se dissolvia qdo retomei a pernada, logo após comer algo e guardar meus pertences. Minutos depois, outra pequena barra de rio (raso) é facilmente transposta e logo estava no final da praia, onde uma placa ao pé do enorme rochoso indica q estou no "Jureia: Núcleo Grajauna". Uma picada entra na mata de encosta (já maior q a restinga), à direita, onde há mais duas casas fechadas e a trilha se torna uma precária estrada de terra q vai lentamente contornando a ponta. Ignoro uma bifurcacao sai da mesma pela direita, atravessando uma ponte e aparentemente indo planície adentro. Logo depois, deixo a estrada e tomo uma discreta picada, à esquerda, q acompanhando a base do morro se enfia na mata fresca e, em pouco tempo, sobe suavemente ao alto de uma encosta, do outro lado da ponta. A vista privilegiada (a 40m acima do nível do mar) da imponente Ponta da Juréia, iluminada pelos primeiros raios raios do sol é realmente fantástica!

Uma picada desce por degraus erodidos ate a areia e, num piscar de olhos, atravesso a curta praia, indo parar num costao rochoso, onde o mar impede passagem. Mas, saltando de pedra em pedra, vou ganhando altura outra vez em diagonal, ate alcançar uma trilha q o contorna por cima. Tenho minhas duvidas deste trecho ser feito na maré alta, pq ao galgar as pedras as furiosas arrebentações das ondas so não me atingiam pq escolhia o momento apropriado p/ andar, ou seja, qdo o mar se recolhia!! A trilha desce e - outra vez de pedra em pedra - alcanço a areia, onde logo me vejo cruzando os 3km desertos e largos da Praia do Rio Verde, onde apenas algumas gaivotas e maçaricos pareciam se incomodar com minha intromissão. A verdejante ponta da Jureia parece desabar junto ao mar e faz jus ao seu nome q, em tupi-guarani significa "ponto saliente".

Chegando no final da praia, retorno algo de 200m onde acho um trilho arenoso, à direita, q se enfia na restinga arbustiva, passa por uma caixa dagua (e restos de uma construção), e adentra um belo túnel de vegetação p/ depois me ver no interior de uma baixa floresta, típica de mangue, ate alcançar uma pequena casa caiçara, onde parecia haver alguém em seu interior. Logo adiante está o manso Rio Verde e a trilha continua nas pedras da outra margem, contornando a Jureia por cima. Felizmente, os 30m de largura do rio, q ganha este nome por refletir a verdejante serra em torno, foram facilmente vencidos carregando a mochila na cabeça, com água ate o peito, as 8hrs.

Do outro lado, a picada se enfia na mata subindo p/ direita, mas logo beira a encosta em definitivo p/ esquerda, ganhando altura rapidamente. Aqui ha muita água potável na forma de vários pequenos córregos descendo a montanha, e o percurso é feito em gde parte dentro de densa mata, com alguns trechos abertos, permeados de matacoes de samambaias e vistosas bromélias. Num deles, somos brindados com uma vista espetacular da Grajauna e da praia do Rio Verde, 100m acima do rio homônimo. A trilha contorna a ponta e passa a bordeja-la agora p/ sudoeste, subindo e descendo suavemente, tendo um enorme costao e pequenas prainhas logo abaixo, à nossa esquerda. Na seqüência, se embrenha novamente na mata, descendo em ziguezagues q exigem cautela nos trechos escorregadios, principalmente qdo se esta calçando um simplorio chinelo de dedo. Numa curva, a trilha parece descer p/ esquerda e ignorar uma bela e pequena queda dagua, mas o certo é seguir p/ cachoeira, visível no meio da mata. Esta, por sua vez, despeja suas águas num pocinho de água cristalina, onde faço questão de um breve banho. Na seqüência, a trilha continua da base da cachu, bordejando a encosta de mata fechada, onde vamos perdendo altura sutilmente. Numa curva de trilha, temos uma janela na vegetação q permite um visu do outro lado da ponta: os intermináveis 15km da Praia da Jureia em meio a uma vasta planície de restinga! Praia q alcanço as 9hrs, após passar pela Portaria da Reserva, na qual não vi sinal nenhum de vida!

Com o sol começando a bater forte e sem ninguém à vista, não me restou alternativa senão a caminhar por horas aquela enorme e larga praia de chão duro e repleta de bolachas-do-mar em sua areia escura, trecho q seria tedioso não fosse a presença constante de urubus, gaivotas mas principalmente de umas inconvenientes mutucas, q me obrigavam a estar sempre em movimento. O tempo foi passando e a sola calejada do meu pé começando a doer, mas felizmente faltando uns 3km consegui carona c/ um motoqueiro q me deixou na muvucada praia da Barra do Ribeira (sinalizada por uma enorme antena de radio), sob o sol e calor escaldante do meio dia.

Dali bastou cruzar a pequena vila - cujas ruas de terra, areia e grama lembram uma Marujá c/ mais infra - e embarcar na balsa q cruza o grandioso rio Ribeira do Iguape. No outro lado, enqto aguardava o bus das 13:30 p/ Iguape comemorei num boteco o sucesso da empreitada. O cansaço e alguns cochilos quase me fizeram perder o bus, cujo trajeto de pouco mais de uma hr fiz no mundo dos sonhos. Em Iguape, tomei o busao das 15:30 p/ Sampa, onde cheguei 4hrs depois. Exausto e cansado, claro, porem satisfeito de ter tido o privilegio de percorrer um trilho histórico num dos redutos mais preservados de Mata Atlântica, q por conta de suas tantas dificuldades e restricoes de acesso, ironicamente ainda mantem a paz e beleza preservadas.

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Hehehehehe

Belo relato...

Tanto a escrita, com o senso de humor...

Moro em Iguape e morro de vontade de fazer o trajeto com meu marido... Mas não com os romeiros da festa de agosto, daí não tem graça... Mas me falta coragem e fôlego...

Parabéns por sua coragem...

Valeu!!!

Carla Nogueira

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