Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#483315 por Jorge Soto
07 Jul 2010, 12:45
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http://jorgebeer.multiply.com/photos/album/14/14

"OBÊ-OPÊ", A TRAVESSIA DA INCONFIDÊNCIA
Foi qdo meu gde amigo da OBB, o Bastos, sussurrou uma possível travessia pela Serra de Ouro Branco, no Espinhaço, q surgiu a semente desta caminhada; mas o estopim mesmo foi constatar - após estudar mapas e pesquisar na net - q esta pernada era bem comum durante o "Ciclo do Ouro", pois se localiza num trecho q serviu de palco natural às cidades ao redor, durante a Inconfidência Mineira. Coincidência mais q oportuna, tomamos o feriado de Independência pra percorrer este trecho histórico, saindo de Ouro Branco ate atingir Ouro Preto, cortando as montanhas mineiras em 4 dias moderados, quiçá revivendo um dos mais ricos momentos da historia do Brasil. E com muito carrapato.

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O dia amanhece com típica cerração matinal envolvendo a morraria, mas esta se dissipa bem antes de chegarmos em Ouro Branco, as 7:30. Assim, c/ dia simplesmente frio e nublado, eu, a Cleusa e a Kátia Zander, pisamos nesta pacata cidadezinha mineira e logo estávamos na pracinha principal, tomando um "pingado" numa padoca. Um palco decorado proximo da Igreja Matriz significava q todos se preparavam pros animados festejos pátrios. Pra uma cidade q nasceu na esteira do Ciclo do Ouro e q hj vive apenas do passado isso já é muito.
De onde estávamos podíamos apreciar a imponência da Serra de Ouro Branco, servindo de monumento natural de contemplação à regiao. Mochila nas costas, da igreja tomamos uma rua q descia à nordeste, e logo já estávamos nos limites da cidade, sempre tendo como referencia a enorme serra a nossa frente, mais precisamente uns trilhos brancos q a cortavam na diagonal. Após colher algumas infos com locais (e sermos confundidos com paraquedistas!?), a trilha comeca entre um curral e uma garagem de ônibus, e de cara atravessa um pastado pra se enfiar numa mata ao pé da serra. Era nosso primeiro contato com os carrapatos.

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A trilha margeia um riacho (q pulamos por um brejo) e se divide em vários sulcos q se perdem na mata. Era obvio q haviamos saído do trilho principal, mas como podiamos avistar o trilho no paredão da serra e a mata não era tão fechada resolvemos vara-la de modo a reencontrar o trilho principal mais adiante. Após subirmos um colo por trilhos de vaca dispersos, contornamos algumas arvores e arbustos, reencontramos o trilho principal subindo, sentido nordeste. Aqui notamos muitos carrapatos em nossas roupas, porem havia outros minúsculos (aos montes) q se confundiam com pintas em nossa cintura(!?); as meninas entram em desespero, parando a toda hora pra remocao dos mesmos.
A nebulosidade foi-se faz tempo e agora o sol esquenta, encharcando nossas costas pra valer. A medida q ganhamos altura, a vegetação diminui de tamanho e se reduz a samambaias, capim e alguns arbustos raquíticos de cerrado, principalmente candombás. O trilho - ora arenoso ora por degraus erodidos - vai ficando ingreme e em alguns trechos precisamos do auxilio das mãos pra vencer trechos quase verticais, numa autentica "escalaminhada". Porem, o visual q se descortina a sudoeste serve de alento e revigora qq corpo exausto, sendo possível avistar toda Ouro Branco, as cidades de Conselheiro Lafaiete e Congonhas. Após varias paradas pra retomada de fôlego, sempre acompanhando as torres de alta tensão, alcançamos o topo da serra as 11hrs, onde alem de descansar, fizemos uma boquinha e removemos mais carrapatos do corpo. De acordo com o gps da Kátia, estamos a 1315m de altitude e andamos apenas 5km desde a cidade. Retomando a pernada pelos campos altos sentido nordeste, vemos q o terreno é bem aberto, descampado de capim, bastando apenas acompanhar os inúmeros trilhos de vaca q seguem pela encosta dos suaves morrotes. Logo serpenteamos os afloramentos típicos do Espinhaço, aquelas rochas pontiagudas e lineares emergindo do leste q ate dão o nome à cordilheira. Sem muito esforço e desimpedidamente, caminhamos por largas pastagens, atravessamos dois riachinhos, contornamos algumas florestas e belos campos rupestres, ate cair numa estrada de terra, as 13:20, q decidimos acompanhar sentido nordeste, rumo as enormes montanhas ao fundo. A presenca de marcos constantes nos diz q estamos num trecho da Estrada Real, q acompanha o córrego da Lavrinha pelo vale homônimo.

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Seguindo sinuosamente pela estradinha vale adentro, ora no aberto ora por pequenas florestinhas e sem muito desnivel, fazemos mais uma parada pra lanche à beira do Rio Lavrinha, q corre mansamente a nossa esquerda, as 14:15. Foram 13,5km ate ali. Ainda pela estrada, e agora com o vale se afunilando cada vez mais, passamos por duas bifurcações: a primeira tomamos à direita (a esquerda leva ao Morro do Gabriel); e a segunda, à esquerda, sentido nordeste (a direita provavelmente leva ao arraial de Itatiaia). A esta altura já não andamos mais com largas vistas e sim estamos emparedados por gdes montanhas forradas de vegetação, ate q chegamos numa terceira bifurcacao: a da esquerda desce a um vale, contornando a montanha a nossa frente; mas nos tomamos a direita, q a contorna por cima, supostamente no sentido q temos planejado, nordeste.
Após uma longa piramba e contornada a montanha, a paisagem se abre novamente permitindo-nos estudar q rumo agora tomar, pois a estradinha faz curva e termina numa estação da Copasa. Mas o vale q se descortina diante nosso permitia varias possibilidades: montanhas forradas de vegetação encaixotam o Rio da Ponte, q serpenteia la embaixo; e mais adiante, o rochoso Bico de Pedra, q seria nosso suposto pernoite, porem inviável de acesso de onde nos encontrávamos pois teríamos dois fundos vales pela frente e cristas de ligação estavam distantes e aparentemente cobertas de vegetação. Por serem quase 15:30hrs decidimos entao chegar o mais proximo do vale aos pés do Bico de Pedra, não pelas montanhas ao norte e sim pelas encostas rochosas a leste, aparentemente sem muita vegetação. Ah, e foi aqui tb onde um esquálido cachorro (q apelidamos de "Dog") resolveu nos acompanhar pelos dias seguintes. Se bem q poderia chamar "Carniça" pq tinha um bafo q vou te contar..
Saimos da estrada e descemos a íngreme encosta de pasto um bom tempo, ate entrar numa trilha pela mata fechada q felizmente ia na mesma direção proposta, ate q chegamos no fundo do vale (e do rio) onde haviam restos de algum velho acampamento de garimpeiros. O Rio da Ponte, por sinal, esta cheio de praias fluviais, provavelmente areia assoreada dos inúmeros garimpos da região. Tomando uma picada pra nordeste, saimos da mata ate chegar numa "clareira" q acompanhava o rio, bem à nossa esquerda. A medida q caminhávamos pela "clareira", percebemos q estávamos num mega-charco q irremediavelmente teríamos q cruzar ate a encosta rochosa (e seca) mais proxima. Primeiro foram os pés, depois as canelas, logo afundamos ate a cintura, pra desespero das meninas. Tateávamos bem antes de pisar, com receio de afundarmos de vez, ainda mais depois q a Cleusa molhou a maquina fotográfica e a Kátia quase atolou num trecho, e nestas horas é q veio à mente de todos aquela típica pergunta: "O q eu to fazendo aqui?". Felizmente, o perrengue "quase-terminou" qdo alcançamos terra firme e seca; "quase" pq agora tínhamos q subir uma encosta vertical de terra cedendo nos valendo de escassas raízes podres servindo de "agarras". Pra isto, eu subi primeiro, carregando sofridamente as pesadas mochilas das meninas (o q sera q elas levam a mais?), q subiram na seqüência. Resultado: alem de molhados, estávamos pretos e sujos pela mata queimada.
Novamente no trilho na encosta rochosa, passamos por muitos arbustos espinhentos ate chegar num descampado q devia ser um curral. Alem de já ser tarde, era mais q obvio q não chegaríamos ao Bico de Pedra nem aos pés dele, por isso já iamos estudando algum local pra pernoitar. Entramos outra vez na mata fechada, sempre sentido nordeste, e decidimos pernoitar num espaço razoável q encontramos, bem do lado da trilha, as 17:30. Foram 19km percorridos. A escuridão logo tomou conta daquele vale fundo antes do sol cair atrás das montanhas. Montamos as barracas, tiramos mais carrapatos, colocamos as coisas pra secar e jantamos, exaustos daquele dia de cão. A noite não fora fria conforme o previsto; pelo contrario, fora bem agradável e agraciada pelo ceu pontilhado de estrelas. Não demorou pra cairmos no sono, mesmo com o ruidoso Rio da Ponte rugindo quase bem ao nosso lado.

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Levantamos assim q a luminosidade começou a tomar conta do vale, as 6hrs. Não havia nem orvalho nas barracas pra secar, e depois de um café sem pressa, desmontamos as barracas e começamos a pernada naquele inicio agradável de sexta, as 8hrs. A trilha prosegue pra leste e vira pro sul, mas antes passamos numas passarelinhas de cimento (q vinham da Usina do Barrajao, desativada) q serviam de ótimo mirante das corredeiras rio abaixo. Novamente na trilha, em pouco tempo alcançamos uma casa de garimpeiros, onde abastecemos os cantis. Embora o Ciclo do Ouro tenha terminado, na região ainda há aqueles q se aventuram à vida dura do garimpo e longe da familia, pessoas como Seu Chico e Seu Irineu, q cavando enormes buracos perto dali ganhavam a vida buscando ouro em pó, mas principalmente topázio imperial, onde uma pequena pedrinha podia valer ate U$3mil!! Seu Chico foi muito hospitaleiro conosco; alem de água nos ofereceu um café fresquinho alem de confidenciar q se divertiu vendo-nos o dia anterior cruzar o "pantano", julgando-nos ser caçadores de capivara (!?) e q tem medo de assombração e onça.
A prosa tava ótima mas tínhamos q prosseguir. Assim, seguindo instruções, descemos ate o rio atraves da mata, cruzamos uma pinguela e do outro lado havia uma precária estradinha de terra q subia a serra (sentido leste) em meio a mata fechada, uma subida forte q nos consumiu um bom tempo. A esta altura o "Dog" nos acompanhava novamente e não arredaria pe da gente tão facilmente.

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Chegamos no alto da Serra do Bico de Pedra as 9:45, onde cruzamos novamente com a Estrada Real, q descia pro sul. Porem, nos a cruzamos e tomamos um trilho de cristal claro-fino q continua suavemente pro topo da Serra da Chapada, por um platozao ondulado com vegetação de cerrado. 10hrs tem nova pausa numa bela praia fluvial as margens do Córrego da Cachoeira, com direito ate a "tchibum em trajes sumarios" da Cleusa. A trilha termina num asfalto q cruza a serra sentido nordeste, acompanhando as torres de alta tensão. Cruzamos o asfalto e prosseguimos do outro lado sem muita dificuldade ate chegar nas encostas rochosas da Serra da Chapada. Pulamos uma cerca, acompanhando a crista pro sul, q revela mais cumes e paredoes rochosos. Os horizontes a leste tb se alargam, com o arraial de Chapada aos pés da Serra do trovão, onde deveríamos chegar ate o final do dia.
Deixamos a crista e seguimos pra leste, em direção ao arraial, ao longe, serpenteando muitos afloramentos rochosos e campos rupestres ate chegar num córrego q descia a serra. Pausa pra descanso as 12:30hrs com 30km percorridos. Aqui eu e a Cleusa resolvemos fazer um rápido ataque ao topo, enqto a Kátia se bronzeava nas pedras do rio. No ataque, subimos um descampado de capim pra depois subir pelas lajotas dos afloramentos rochoso, alguns de inclinação quase vertical. No alto (1452m) tivemos uma vista privilegiada da larga crista rochosa e exposta, se estreitando sinuosamente pro norte e pro leste, onde despenca abruptamente aos pés da Represa do Taboao.

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Voltamos as 13:30, fizemos um lanche rápido pra retomar a pernada logo depois. Descemos suavemente o resto de serra ate esbarrar num trilho erodido, q nos levou ao topo de outro morro. Tivemos q desce-lo, pulando de pedra em pedra sua encosta íngreme pra chegar na outra cadeia de morrotes q nos levaria ao sopé da Serra do Trovão, sem necessariamente passar pelo arraial. No fundo do vale (rochoso) corria o furioso Ribeirão Falcão, q formava um belo cânion, com formações rochosas parecidíssimas ao Vale da Lua, na Chap. dos Veadeiros. Passamos pro outro lado do rio, mas a Cleusa demorou um tempão pra convencer o "Dog" a fazer o mesmo. Assim q conseguiu, subimos a suave morraria seguinte atraves do capinzal por um bom tempo, cruzamos uma estrada de terra q saia do Arraial, e após pular uma cerca começamos propriamente dito a subida da Serra do Trovão.

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Aos ziguezagues, fomos ganhando altura gradativamente por trilho claro ora em meio em campos abertos, ora em meio a muito arbusto. Ao bordejar um cinturão de mata ouvimos água e não pensamos duas vezes em abastecer os cantis. Continuando a subida, agora contornando vários afloramentos rochosos, alcançamos o quase-topo da serra as 16:30 e estacionamos definitivamente um degrau antes do platozao final, principalmente pelo topo ser totalmente descampado e demasiado exposto. Já onde estávamos haviam enormes pedras e alguns arbustos q serviam de eventual proteção. Assim, montamos acampamento e logo descansamos os corpos combalidos pelo dia extenuante e dos 34km percorridos ate entao. Na sequencia apreciamos o espetáculo do por-do-sol na cia de um pessoal de Lavras Novas q cavalgava por ali e se impressionou com nossa disposição em pernoitar la. O ceu lentamente foi se tingindo de tons alaranjados ate o Astro-Rei se perder na silhueta recortada das montanhas no horizonte, deixando td na mais absoluta penunbra, com excesao da luz tremula dos pequenos arraiais próximos e de algumas queimadas dispersas nos campos. Após jantar um delicioso nhoque q as meninas preparam (e ate o "Dog" se fartou! Alias, ele comia qq coisa de tão magro q era!), nos recolhemos naquela noite agradavel onde ventou razoavelmente, e o ceu limpo se forrou totalmente de estrelas.

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A manha seguinte começou nublada, com o termômetro marcando 7ºC, mas mesmo assim levantamos cedo, as 5:30. Tomamos café despreocupadamente e deixamos as mochilas engolirem o equipamento pra zarpar a seguir, as 7:30. Continuando pelo alto da serra, atraves do descampado de pasto ralo, logo pudemos observar, a sudeste, a pequena Lavras Novas. O trilho é bem batido e depois de meia hora comeca a descer suavemente a serra em direção ao arraial. Porem, seguimos pra leste de forma a tangenciar o arraial, atravessar uma estrada de terra e continuar em direção a um trilho visível q descia um largo (e aberto) vale e logo se enfiava na mata ao pe dos morros, bordejando os enormes e imponentes rochosos pela direita, a leste.
Chegando no trilho, bastou descer o vale e atingir um riachinho, onde havia uma pequena represinha com um aqueoduto aparentemente desativado. Na seqüência tomamos um trilho q se enfiava na mata, subindo os morrotes seguintes. Aqui tivemos a breve cia do Marco, um local q buscava lenha e com quem pegamos algumas infos. Qdo a trilha estabilizou, no topo do morro, demos de cara com uma precária estradinha de terra, onde tomamos à direita, q continuava pela crista em direção ao sul. Não tardou muito e logo, a esquerda, havia um trilho bem batido (marcado por uma plaquinha) q descia pra leste, nosso objetivo. Tomando este trilho em meio a mata, logo q saimos no aberto a paisagem se abriu de forma primorosa: começávamos a bordejar pelo alto da morraria a belíssima Represa do Custodio, um enorme espelho de água esmeralda encaixotado entre montanhas forradas de vegetação! A vista era realmetne linda e a medida q descíamos em direção à sua margem leste, a comparação com qq acampamento em Torres del Paine foi inevitável!

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Alcançamos o extremo leste da represa as 10:30, e logicamente foi aqui q fizemos uma merecida pausa. O local estava tomado por alguns jovens acampando no bosque proximo e a presença de poucos veículos significava acesso fácil ate ali, porem me surpreendi em não ver nenhuma farofa naquele local maravilhosamente bucólico. Assim, mesmo com vento razoável correndo por ali, as meninas não pensaram duas vezes em cair na água gelada da represa; eu, após muita enrolacao, tb me curvei a necessidade urgencial de um banho revigorante, mesmo q frio. Depois, lanchamos enqto nos secávamos nas lajotas dispostas na margem como espreguiçadeiras. Enfim, um local pra vir e ficar um bom tempo. Ate ali, foram 41km ao total.
Ao meio-dia deixamos aquele belo local e tomamos a estradinha pelo qual os veículos vinham, q bordejando a represa sentido noroeste iria dar na Fazenda do Manso, na guarita do parque Estadual Itacolomi e em Ouro Preto. No entanto, esse não era nosso propósito e tomamos uma bifurcacao (onde havia um marco da Estrada Real), à direita, q em trilho precário bordejava as montanhas e seguia pra Mariana.
E la fomos nos, margeando as encostas forradas de vegetacao das montanhas q inicialmente compõem este inicio (ou fim) da Serra do Itacolomi, ao sul. Inicialmente a trilha-caminho desce suavemente, mas em seguida comeca a subir em direção ao topo da serra, passando por algumas bicas e filetes dágua q surgem no meio da mata. Ao atingir o topo da serra, as 13hrs, sem nenhum visual (pq a mata impede), a trilha continua pela crista p/ leste, mas daqui notamos (a esquerda) um precário trilho, quase escondido ate, q sai da trilha e segue no sentido oposto da crista, sentido noroeste. E é por aqui q temos q ir, inicialmente pela crista pra depois continuar pela encosta direita das enormes montanhas q servem de guardiã à represa. O trilho esta visivelmente em desuso mas é obvio. Dose é ter q atravessar (na raça) algum arbusto maior q cresceu ou matacoes de bambus e samambaias q despencam de cima da encostta em decorrência das chuvas e vão se acumulando no meio da trilha. E claro q nestas eventuais varacoes de mato q ficamos recheados de folhagens e, principalmente, carrapichos, q grudam e custa remover ao se enroscarem no cabelo!

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Pois bem, andamos um bom tempo por este precário trilho, sempre sentido noroeste e bordejando a encosta, nos aproximando cada vez mais dos imponentes rochosos q dão acesso aos campos altos e ao platozao da Serra do Itacolomi, local de nosso suposto pernoite. No entanto, buscar um selado de ligação ate la q tava dificil. As 14:30 a trilha se amplia e fica mais fácil transitar por ela, ate q fomos nos aproximando de um selado cheio de eucaliptos q aparentemente tinha ligação com as montanhas q deveríamos subir. A carta q dispunha mostrava uma trilha nele, mas q não encontramos ou q passamos desapercebido. Foi ai q resolvemos atravessar o mato na raça, no trecho mais estreito do selado, ate atingir a montanha. Péssima ideia. Pegamos água suficiente num córrego proximo e la fomos nos! Inicialmente subimos suavemente matas entre os eucaliptos ate atingir um primeiro topo do selado. Foi ai q começou a ralação. A mata tava tão fechada de bambus, samambaias e toda sorte de arbustos espinhentos ou cortantes q obstruíam qq avanço, mas ainda assim fomos abrindo caminho bravamente. As meninas foram guerreiras tb, se alternando na dianteira na árdua tarefa de abrir caminho. E após um tempo nesse perrengue forcado, acabamos chegando num precipício, a poucos metros de atingir nosso objetivo! Morremos na praia! Estudamos desce-lo e subir do outro lado, mas a possibilidade da noite nos alcançar ali era real. Resultado: tivemos q voltar td novamente, frustrados de ver nosso esforço em vão, ralados, cortados, sujos e cansados.

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Voltamos à trilha e simplesmente continuamos por ela, bordejando as montanhas seguintes em meio a densa mata, sentido norte. A tarde já estava no fim qdo passamos uma porteira e chegamos na estrada de terra q circunda o Parque do Itacolomi. Acampamos proximo dali, numa pequena clareira do lado de uma trilha próxima, q provavelmente dava em alguma fazenda. A esta altura do campeonato os carrapatos já eram nossa companhia habitual, e descobrir algum na camisa, no saco de dormir ou perambulando sobre a gente era normal. Jantamos assim q o manto negro do firmamento cobriu o vale, salpicando o ceu de estrelas e ate de estrelas cadentes, e não demorou muito pra pegarmos no sono. De madrugada acordei em função das coceiras pelo corpo todo (minha barriga parecia panetone!), e me supreeendi com a claridade da lua cheia la fora, iluminando td vale de tons prateados dos quais se destacavam os majestuosos rochosos, próximos a leste, q não conseguíramos atingir o dia anterior.

Levantamos cedo propositalmente naquela manha nublada e encoberta de domingo, principalmente em função de varias decisões a serem tomadas. E foi aqui q me separei das meninas devido a algumas divergências em relação ao roteiro, mas principalmente pelo fato da necessidade das mesmas em retornar ao batente no dia sgte, sem atraso. Da estrada de terra, elas seguiram pela esquerda, alegando q era mais proximo da saída; enqto eu segui pela direita, alegando a mesma coisa. Detalhe: eu q tinha o mapa. De qq forma, não haveria problema algum delas chegar em Ouro Preto, ate pq elas conseguiram carona e chegaram la antes ate do previsto.

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Eu, por minha vez, continuei pela estrada sentido norte em direção a Ouro Preto. Mas foi ai, após menos de meia hora de caminhada, q encontrei a trilha (devidamente marcada por fitas azuis) e o selado de ligação q dava acesso à Serra do Itacolomi, a minha direita! Não pensei duas vezes em fazer um ataque ao pico. A trilha sai da estrada e segue pelo selado ate a encosta rochosa, de onde tem inicio uma subida ingreme atraves de degraus erodidos e muita pedra, eventualmente beirando precipícios. Em pouco tempo alcanço o topo da serra, e dali basta continuar pelo trilho sentido leste, cortando descampados de capim em meio a campos rupestres. O tempo esta totalmente encoberto e não permite nenhum visual, mas o trilho é evidente e obvio. O terreno é aberto e bem exposto, e pelo forte vento q corria aqui, ate dei graças a Deus de termos acampado protegidos naquela noite, pq ali certamente teríamos problemas, sem falar q os pastos estavam totalmente umedecidos por grosso (e frio) orvalho matinal.
Assim, após andar um tempo pela ampla crista de serra com belas sempre-vivas dançando ao vento, as 8:45 finalmente alcanço o guardião de Ouro Preto, o imponente Pico do Itacolomi ("pedra-menina", em tupi guarani), q fica visível qdo as brumas comecam lentamente a se dispersar. Em árdua escalaminhada atraves das lajotas e pedras chega-se ao seu largo topo, de onde se tem uma panorâmica em 360º da região. Pro norte, porem, um mar de nuvens cobre totalmente a paisagem impedindo avistar Ouro Preto, a apenas 6km dali. Após um tempo de contemplação e descanso volto pelo mesmo trilho, embora pudesse retornar por outro, q descia diretamente pra Ouro Preto (em linha reta), mas q tava ocluido por um forte nevoeiro e não quis arriscar um novo perdido desta vez.

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Retornei à estrada de terra em menos de uma hora e dali continuei por ela p/ norte, rumo uma torre da Embratel, onde ela termina. Atrás da torre tem um trilho rochoso q desce o resto da serra, aos ziguezagues, acompanhando postes ate la embaixo. Não tem erro. A medida q ia descendo, o dia clareou de vez, as brumas tinham ido a muito tempo e Ouro Preto surgia na minha frente com td seu esplendor, enfiada no meio da morraria. Olhar pra direita não deixava por menos, com a serra rochosa subindo em diagonal ao Pico do Itacolomi, apontando pro ceu. Não é de se estranhar o pq dele ter sido o "farol dos bandeirantes" no passado.
Cheguei na guarita do parque (e no asfalto) as 11hrs, de onde segui pro centrao da cidade. Antes, porem, comemorei com 2 bem-vindas cervejas a empreitada de mais de 60km percorridos num boteco, no bairro periférico de Bauxita. Fiquei um tempão ali, apreciando a bela vista q se tem da Serra do Itacolomi. O boteco tava cheio de locais e jovens estudantes curtindo um pagode, e não demorou em receber convites pra festas nas trocentas republicas q la tem, pra ver o jogo do Atlético e ate pra um churrasco à tarde. Agora eu sei pq a moçada daqui demora uma década pra se formar.. Declinei dos convites (a contragosto, claro) pq tava afim de conehcer aquele museu a ceu aberto, considerado Patrimonio da Humanidade. Afinal, já q estava ali fui dar um rolê.

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A primeira coisa q faço é me dirigir à Praça Tiradentes e pegar um croqui no Centro de infos turísticas. Francamente, andar por Ouro Preto requer disposição e fôlego, pq qdo não se esta descendo uma ladeira se esta subindo noutra. No entanto, se embrenhar em seus becos, apreciar as muitas igrejas, ver a irreverencia da republicas estudantis oferecendo vagas ou simplesmente estar ali já é uma legitima volta ao passado. Me supreendi c/ o numero de joalherias por metro quadrado aqui. Fui no Mirante, de onde se tem uma geral da cidade e da serra, e na seqüência, de pois de comer algo, fiquei enrolando na Pca Tiradentes, apenas vendo o vai-vem da turistada sentado no monumento ao centro. Não sei pq eu chamava a atenção, quiçá pela enorme cargueira a tira-colo, quiçá pela semelhança com Tiradentes, já q alem de barbado e cabeludo tava bem sujo.. O final de tarde acentua o clima de magia do Brasil Colônia na cidade, mas já era hora de partir. Peguei o busao as 18:50 - apenas pra passar mais frio la dentro q na serra, a noite!? - e chegar em sampa no começo da manha do dia sgte.

Assim, 300 anos depois, as minas de ouro estão quase-vazias. Rebeldia, talves apenas nas republicas estudantis de Ouro Preto. Contudo, atravessar as montanhas das Gerais de maneira independente, tal qual os inconfidentes, é descobrir q as riquezas naturais dali não deixam por menos àquelas q foram outrora motivo de fartura da região. Alem de ser uma volta no tempo, é constatar q passado e presente podem coexistir na mais perfeita harmonia. E q numa pernada recheada de carrapatos pode ser tb um belo tesouro, principalmente qdo ao percorrer estes caminho se exercita o prazer da descoberta.

#483441 por Cris*Negrabela
07 Jul 2010, 20:59
Sensacional , Jorge.
O visual da serra do Ouro Branco é mesmo magnifico... mas esse mundo de carrapatos tirou (quase) toda a minha vontade de pernar por ali hehehe
#483466 por heka
07 Jul 2010, 22:04
Concordo com Negrabela, visual demais, mas os carrapatos tiram um pouco a motivacao, rsrs. Ja passei por isto na Serra do Cipo, mas com os carrapatos estrelas, minusculos.

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