Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#845404 por Ronaldopxo
30 Mai 2013, 00:27
A vontade de conhecer essa região era muito grande. Uma grande dúvida sobre se eu conseguiria fazer essa travessia, ou não, estava relacionada a uma cirurgia de reconstrução do ligamento cruzado do joelho direito, da qual ainda não me recuperei completamente e que me traz dores e falta de firmeza no joelho. E para um cara de 46 anos, 1,60 m de baixura e 60 Kg de magreza, carregar uma mochila de quase 20 Kg durante todo o trajeto, sempre fica a dúvida se o peão agüenta ou não. Mas fé em Deus e pé na tábua.

O projeto inicial seria de um percurso tipo circuito, iniciando e terminando na Lapinha da Serra.
Faria a travessia até o Tabuleiro, subindo aos picos da Lapinha e do Breu, indo para a parte alta e parte baixa da cachoeira do Tabuleiro. Depois passaria pelo Cânion do Peixe Tolo e cortaria o Parque em direção à cachoeira do Bicame. Terminaria retornando para a Lapinha da Serra.
O trajeto a ser percorrido eu tracei com a ajuda de relatos lidos aqui no “Mochileiros”, com a ajuda do Gabriel Peregrino e do Hugo do “Clube dos Aventureiros”, além do Google Earth.
Eu disporia de 10 dias livres. Dois dias seriam para a viagem de ida e volta. Eu ficaria 7 dias na Serra do Cipó e mais um dia para descansar na volta para casa.

Para fazer uma média com a patroa, eu decidi que ficaria apenas 5 dias na Serra, gastando 3 a 4 dias na volta para conhecermos Ouro Preto, Mariana e Congonhas do Campo.
Dessa maneira o tempo para fazer o trajeto ficaria reduzido em dois dias, mas mesmo assim eu achei que conseguiria fazer todo o percurso. Se não desse tempo, paciência.

Minha aventura começou a mais ou menos 1200 km da Lapinha da Serra, quando saí de Maringá às 23:00 horas da quinta-feira, 25-04, em meu Ford Ká 2003 rumo a Minas Gerais. Parei umas duas vezes no caminho para cochilar e na sexta-feira 26-04 por volta das 19:00 horas cheguei no camping do Breu, onde iria pernoitar e deixar o carro pelos dias seguintes.
Foi o tempo de trocar uma rápida conversa com o seu Zinho, montar a barraca, tomar um banho e dormir.
Estava cansado da viagem e o dia seguinte seria puxado.
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a barraquinha e o guerreiro


27-04-2013 (sábado) - 1º dia.
Acordei eram quase 6:00 horas da manhã. Tomei um toddy na barraca, desmontei a barraca, arrumei a mochila e estava pronto para partir. Fui à casa do seu Zinho me despedir e tomei mais um cafezinho. Saí depois em direção ao Pico da Lapinha.
Logo no começo do trajeto havia um pedaço a ser transposto, que apresentava água mais ou menos na altura do joelho. Ali havia uma família, casal e duas filhas adolescentes, com pequenas mochilas que pareciam que iriam começar a travessia. Comecei a tirar a bota para atravessar a água enquanto eles me perguntavam se eu subiria o morro. Disse que sim e eles também pretendiam subi-lo. Foi a única vez que os vi. Acho que desistiram.
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Início

O início da subida foi bem puxado. A linha que eu tinha traçado me fez passar por trechos de escalada que depois achei que poderiam ser evitados caso tivesse dado uma volta maior. Mas tudo bem, logo à frente a trilha ficou mais leve e foi assim até a chegada no que parecia ser um posto de apoio para os Guardas Parque. Ali perto havia um riacho onde aproveitei para encher o cantil, uma vez que eu só tinha trazido um litro de água em outra garrafa.
Dali do posto de guardas até o cume a subida foi bem acentuada, porém sem trechos de escalada. Cheguei ao cume do Pico da Lapinha eram 10:25 da manhã. Visual magnífico. Era tudo o que esperava e mais um pouco.
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cruz

Várias fotos, contemplação, reflexões. Embora não estivesse com muita fome, decidi almoçar ali mesmo. Fiz um miojo e mandei para dentro, ali bem próximo à cruz do Pico da Lapinha. Não tinha planejado isso.
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Lapinha vista de cima

Dali eu avistei três pessoas que pareciam estar vindo para o Pico, mas por uma outra trilha. Seriam os únicos que eu veria por um longo tempo.
A trilha natural parecia descer pelo lado em que as pessoas estavam vindo, mas o trajeto que eu tinha estabelecido era mais uma linha reta até o morro do Breu e ele descia pela encosta próxima de onde eu estava. Decidi encarar a descida. Com a bunda no chão na maioria das vezes, eu desci o que deveriam ser uns 300 a 400 metros de pedras e capim baixo. Depois segui rumo ao Breu.
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descida
A tal da linha mais ou menos reta seguia por onde não havia trilha nenhuma e me fez passar por trechos de capim alto, atravessar pequenos cursos d água e alguns trechos meio encharcados, além de encarar encostas onde o único jeito de subira era escalando.
A minha mochila estava muito pesada, cerca de 20 Kg, e houve instantes em que eu tive medo de despencar morro abaixo, já que os pontos de apoio para os pés eram mito pequenos, quando não pedras que poderiam deslizar.
Eram 13: horas quando passei por um pequeno riacho, onde resolvi tomar um banho. Refez meu ânimo e minhas forças.
Cheguei ao topo de um morro que eu pensava ser o Breu, mas não era. O Breu estava mais adiante. Resolvi deixar ali minha mochila e seguir somente com a câmera, o GPS e a garrafa de água. Facilitou as coisas só que me faria mudar o roteiro (só perceberia depois). A linha que eu tinha feito me fez novamente escalar alguns trechos.
Atingi o cume do morro do Breu eram mais ou menos 15:45 horas. Que lugar mágico. Um visual estonteante. A paisagem do mar de morros por todos os lados que a vista podia alcançar era inesquecível.
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no alto do "Breu"

Depois de outras tantas fotos fui explorar o topo do morro e segui até o ponto em que o GPS indicava que eu deveria seguir para alcançar a trilha mais seguida na travessia. Só tinha um porém, minha mochila tinha ficado lá no outro morro.
Voltei para onde ela estava, mas me restavam poucas horas de luz e menos de meio litro de água.
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no topo do Breu

Cheguei onde a mochila estava e já estava querendo escurecer. Escolhi um local meio protegido dos ventos por uma pedra bem grande e decidi pernoitar ali, a 1550 metros de altitude.
Quando acabei de montar a barraca já estava quase escuro. A barraca barata já apresentou uma vareta rachada, na segunda vez que era montada. Sorte que a Silver Tape deu jeito no problema. Essa noite ventou prá caramba.
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pernoite

Tentei jantar, mas o máximo que consegui comer foi meio gomo de lingüiça e na marra. Levantei durante a noite para sentir o vento, dar umas voltas próximo da barraca e regar as plantas. Estava meio frio, acho que por volta de 10 graus centígrados.
Nesse primeiro dia eu tinha andado 13,7 Km de acordo com o GPS.

28-04-2013 (domingo) – 2º dia.
Acordei ainda não eram 6:00 horas. Saí para fora da barraca e vi que estava no meio das nuvens. Que sensação boa. O problema é que isso me atrasaria e eu tinha apenas cerca de 300 ml de água restante. A visibilidade não passava de 20 metros e tive que esperar as nuvens irem embora.
Só consegui começar a desmontar a barraca já eram 10:00 horas e foi outra sensação inesquecível a das nuvens passando por você, carregadas pelo vento rumo ao céu. Aquele ar molhado passando por você como nuvens de algodão doce. Cara, que bacana.
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nuvens indo embora

Na desmontagem da barraca, mais uma vareta rachada. Na mesma posição que a outra, só que no outro jogo de varetas. E dá-lhe silver tape. Ao lado da rocha que me serviu de quebra-vento alguém havia deixado uma garrafa vazia de Powerade e uma espécie de grelha de alumínio. Devia ser desse ano a julgar pela data de fabricação do isotônico. A garrafinha eu levei embora junto com minha sacola de lixo, mas a grelha era muito pesada e eu deixei lá. A garrafinha acabou me servindo como um reservatório extra de água.
Só que isso tudo me atrasou bastante. Decidi que em vez de seguir de novo rumo ao Breu e depois para a trilha tradicional, eu traçaria uma linha reta em direção a casa da dona Maria. Foi o que fiz. Só que o caminho mais curto nem sempre é o melhor e nem o mais rápido.
Segui primeiro por uma encosta de pedras bem longa, para depois sair em um capim alto, povoado de “sempre-vivas” que deixavam a paisagem bonita. O calor agora era intenso. Tive que passar por dois pequenos riachos, o segundo tinha um trecho pequeno de mata ciliar e uma descida íngreme antes dele.
Ao cruzá-lo um de meus pés escorregou e lá se foi uma bota encharcada. Troquei de meia e segui em frente depois de abastecer minha água.
Mais para frente cheguei ao rio Parauninha. Para chegar onde supostamente haveria uma ponte eu deveria acompanhar sua margem por um grande trecho e eu estava meio que com pressa. Além disso, o terreno não era dos melhores, muito acidentado e com muitas áreas de charcos.
Decidi cruzar o Parauninha. Embrenhei-me no meio da mata ciliar até achar uma área de areia. Tirei as botas, as meias e a calça e coloquei tudo na parte alta da mochila. Subi o Parauninha cerca de 50 metros por dentro da água, que às vezes chegava acima da cintura, até encontrar um ponto onde pudesse atravessar a outra parte de mata até chegar a um pasto.
Depois da mata tinha uma cerca para dificultar um pouco as coisas. Quando passei a cerca pensei que estava tudo beleza, até que vi que havia vários bois e vacas me olhando de rabo de olho. Fazer o que. Voltar não dava. Fui em frente sob os olhares dos bovinos.
Antes que eu pudesse chegar à trilha tradicional ainda passei num trecho encharcado que eu pensei que não fosse tão fundo, mas era. Isso que me custou dois pés encharcados. Mais uma cerca para atravessar e finalmente encontrei a trilha tradicional. Eu estava muito cansado. Eram mais de 2 horas da tarde e o calor era intenso.
Andei até onde não agüentava mais e quando cheguei a um lugar bem aberto vi que teria que dormir ali mesmo. Não adiantava seguir em frente. Eu estava cansado, desanimado e meio perdido. Se tivesse tido uma oportunidade de desistir teria desistido ali. Ainda bem que não tive como.
Eram mais ou menos 16:30 horas. Montei a barraca, jantei uma lata de sardinhas e estava pronto para ir dormir quando ouvi ao longe o barulho de uma moto. Saí para fora e vi a moto vindo lá longe pela trilha, na direção onde eu estava. Fiquei esperando o cara chegar e parei-o para pedir umas dicas e informações.
A conversa foi muito boa e serviu para me animar para o resto da jornada, ele me disse que eu estava no caminho certo e que a casa da dona Maria não estava muito longe. Que ele os conhecia bem e que a parte pior eu já tinha passado. Me levou inclusive para um passeio na garupa da moto, onde me mostrou um outro caminho para o Tabuleiro, que era para onde ele estava indo.
Depois fiquei sabendo que esse cara super bacana e humilde era o dono da rádio Itatiaia, rádio na qual eu tinha ficado ouvindo essa noite o jogo Cruzeiro e Vila Nova. Coincidências que a vida nos proporciona.
Nessa noite fez bastante frio. Ventou bem mais que na noite anterior, mas a barraca estava bem protegida.
Acho que devido ao cansaço eu dormi muito bem.
Nesse segundo dia eu tinha andado somente 11,8 Km, mas estava muito mais cansado que no dia anterior. Quatro bolhas haviam surgido sob as unhas de quatro dedos do pé. Duas em cada pé.


29-04-2013 (segunda-feira) – 3º dia.
A noite de sono me fez muito bem. Acordei por volta de 6:00 horas da manhã, com os ânimos renovados. Cuidei das bolhas e calcei uma meia mais fina dessa vez . Tomei um toddy e comecei a arrumar as coisas.
Saí da barraca e ainda havia muita neblina e um vento ainda forte, que dificultou a desmontagem da barraca. O sobreteto estava encharcado, não sei se pela neblina ou por uma garoa fina que talvez tenha caído enquanto eu dormia e não tenha percebido.
Por volta das 7:15 horas eu já estava seguindo a trilha rumo a casa da dona Maria. Ainda estava bem frio e ventava bastante. Esse foi um trecho bastante prazeroso. Apesar do frio a caminhada rendia bastante e a paisagem ajudava.
Cheguei na casa da dona Maria eram 9:25 e ao chegar já ouvi barulho de marteladas de alguma coisa que seu Zé dOlinta estava consertando. Fui recepcionado por dois cachorros que apesar de latirem muito logo se mostraram amistosos.
Apresentei-me ao seu José. Ficamos ali conversando por um tempo, tomamos café e às 10:25 eu já estava deixando a casa de seu José rumo à parte de cima da cachoeira. Deixei minha mochila pesada na casa deles e levei apenas uma mochila pequena com algumas coisas, GPS, máquina fotográfica, umas bananas que seu José me deu e uma garrafa de água.
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casa da Dona Maria

Depois de mais ou menos uma hora eu cruzei o rio que forma a cachoeira e segui em frente. Era o que a trilha que eu tinha marcado me indicava. Andei por mais um período considerável de tempo até que cheguei ao que seria o “fim da linha”. Eu estava próximo da garganta da cachoeira, conseguia vê-la muito bem, cerca de uns 10 metros a minha frente e a uns 8 metros abaixo de onde eu estava. Porém não havia como descer até o rio. Tive que me contentar, não sem antes tentar vários meios de descer até o rio.
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garganta

Dei meia volta e me dirigi para um ponto que aparecia em meu trajeto com “mirante”. Depois de um tempo cheguei até o mirante. Que visual incrível. Sentei-me à beira de uma pedra com meus pés soltos no ar. Eu deveria estar a cerca de 30 metros acima do nível da garganta da cachoeira. Aquele grande abismo abaixo de mim e à minha frente foram suficientes para lembrar-me da minha insignificância e de quão perfeita é a natureza que é capaz de esculpir tal obra de arte sem a necessidade da mão de nenhum homem. Fiquei ali uma meia hora apreciando o lugar.
Depois disso voltei em direção à casa de seu José. Parei no rio para beber água e me refrescar. Consegui dar uma errada no caminho de volta, o que me fez ter de subir e descer alguns morros pelos quais não seria necessário passar.
Cheguei de volta à casa de seu José eram 16:20. Ele me perguntou sobre a cachoeira e eu disse que não tinha conseguido chegar até a garganta da cachoeira. Foi quando ele me disse que eu deveria ter seguido pelo leito do rio, pulando pedras. Eu não sabia disso. Fica para uma outra vez, quem sabe?
Seu José me emprestou o telefone celular para que ligasse para minha casa. Depois disso me ofereceu o banheiro para um banho quente e me convidou para jantar. O banho quente e a janta foram como presentes de Deus. Foi mais que eu merecia e, além disso, ele me convidou para dormir em sua casa. Eu cheguei a chorar. Esse tipo de gente eu não encontro onde moro. Gente humilde, simples, que ajuda pelo simples prazer de ajudar. Gente que é capaz de repartir o que tem, não simplesmente doar o que lhe sobra. Comemos um queijo fresco com café, enquanto a janta ficava pronta. Depois jantamos e ficamos conversando por algumas horas. Eu, o seu José e a dona Maria, embora ela não falasse muito.
Que pessoas maravilhosas. Quanta sabedoria, simplicidade, humildade e bondade reunidas em duas pessoas. A escola pode propiciar acesso ao conhecimento, mas uma sabedoria como a deles só se aprende na escola da vida. José e Maria, mesmo nome de meus pais. Só o fato de conhecê-los já valia por toda a travessia.
Essa noite eu iria dormir numa cama quentinha, depois de um banho quente, de um jantar delicioso e depois de uma conversa muito bacana. O que mais eu poderia pedir?
Nesse dia eu andei 24,7 Km, mas não estava nem um pouco cansado. O meu joelho não tinha me incomodado, talvez graças a um “remendo” de bandagem que o fisioterapeuta tinha feito ao redor da minha rótula. Apesar disso 3 bolhas estavam bem feias e poderiam me atrapalhar no resto do caminho.


30-04-2013 (terça-feira) – 4º dia.
A cama estava boa e nesse dia eu acordei um pouco mais tarde, às 6:30 horas, mas acordei antes dos donos da casa. Fiquei no quarto tratando de minhas bolhas enquanto esperava eles se levantarem.
Depois que eles se levantaram o seu José fez um café quentinho que tomamos comendo um delicioso requeijão caseiro, feito por dona Maria.
Depois do café acabei de arrumar a mochila e deixei quase toda a comida que eu tinha levado. Eu terminaria minha jornada no povoado do Tabuleiro, voltando para a Lapinha de ônibus, taxi, carona.
O tempo que me restava não seria suficiente para seguir até o Bicame. Seriam menos 3 quilos para carregar e eles fariam melhor uso do que eu.
Saí da casa de seu José eram 8:00 horas, depois de umas fotos e de uma despedida emocionada. Eu deixei ali dois amigos, que apesar do pouco tempo que conhecia eu admirava muito.
Ainda por cima o seu José me presenteou com um cajadinho que ele havia feito para mim. Cara, eu não sabia que eu chorava tão fácil. Nunca fui disso. Acho que estou ficando velho.
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gente de primeira qualidade

A primeira vez que se avista a cachoeira é impressionante. E ela se torna mais impressionante à medida que vamos nos aproximando dela.
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primeira visão da cachoeira

Ás 10:15 horas eu cheguei na portaria do parque. Deixei minha mochila pesada e saí com minha mochila menor rumo à parte de baixo da cachoeira. Levei máquina fotográfica, GPS, água, toalha e um lanchinho de pão sírio com bananada.
Saí da portaria eram 10:50 e às 12:10 eu havia chegado no poço da cachoeira. Dessa vez quando a trilha havia terminado, segundo o GPS, eu segui pelo leito do rio, pulando pedras e 20 a 30 minutos depois tinha chegado ao poço. No caminho encontrei dois caras que voltavam e no breve tempo que conversamos falaram umas 10 vezes sobre quão maravilhoso era o lugar.
Chegando lá eu vi que não haviam exagerado em nada. Eu nunca tinha estado num lugar tão mágico. Eu estava lá sozinho, junto a uma parede de pedras circular e enorme. E à minha frente a cachoeira do Tabuleiro, magnífica, imponente e misteriosa. Assim ela me pareceu.
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cachoeira

Tirei algumas fotografias. Depois tirei minhas roupas e mergulhei na água fria. Voltei para a pedra e lavei minhas roupas. Fiquei ali sentado por um tempo e decidi nadar até uma pedra grande cuja ponta emergia do poço. A água estava muito fria e eu me apavorei no meio do caminho. Pensei que fosse morrer afogado. Era só o que me faltava. Boiei um pouco, me recompus e segui rumo à pedra. Cheguei lá facilmente, com os pensamentos no lugar. Resolvi que ali estava bom para mim.
Depois de uns 10 minutos lagarteando sobre essa pedra, olhando para a cachoeira eu pensei: - “Cara, eu vou vir até aqui, ficar olhando para essa beleza e não vou entrar embaixo de suas águas?”
Pulei na água e fui até umas pedras na base da cachoeira. Segui pelas pedras, muito lisas até embaixo da cascata. Não bem no meio, mas quase lá. Ficar ali com aquela água toda caindo sobre você. Olhar para cima e ver as formas que a água toma em seu caminho descendente. Uma espiral que um cara depois me disse que tinha enxergado ali uma espiral cromossômica. Que emoção. Quem esteve ali não esquece jamais.
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felicidade

Acho que isso foi o mais perto que eu cheguei de sentir o que possa ser a presença de Deus.
Fiquei ali bem uns 15 minutos e depois voltei nadando para a pedra onde estavam minhas roupas a secar.
Mais um tempinho admirando a beleza do lugar e quando iria comer o lanchinho que tinha levado eu ouvi um barulho, que a principio me pareceu de algum passarinho, depois me pareceu o coaxar de alguma rã. Comecei a olhar nas pedras ao redor, quando avistei numa pedra abaixo da que eu estava em pé uma cobra, já com metade de seu corpo esticado no ar, cerca de 1 metro abaixo de mim. O susto foi grande, pulei rapidamente para uma pedra mais atrás e fiquei pensando no que fazer. Ela estava muito perto de minhas coisas. Após um período de hesitação decidi ir até a mochila e pegar a câmera para fotografá-la. O medo me atrasou um pouco e quando eu estava pronto para tirar a foto ela já desaparecia embaixo de outra pedra. Essa cobra deveria ter pouco mais de 1,5 metros. Aí que eu notei que o lugar que eu tinha escolhido para ficar estava cheio de galhos e folhas enroscados, provavelmente trazidos até ali por chuvas passadas. Lugar perfeito para uma cobra ficar. Era hora de voltar. Me despedi da cachoeira, coloquei as roupas rapidamente e tchau.
No caminho de volta encontrei 3 caras de Ipatinga e mais um casal que não lembro onde era. Eles estavam indo para a cachoeira e eu voltando. No caminho de volta outra cobra cruzou a trilha, bem a minha frente. Essa era menor um pouco e verde. A primeira era cinza. (Depois de chegar em casa e pesquisar, acho que eram cobras da mesma espécie, conhecidas como “cobras- cipó”, e que não são venenosas, embora seu jeito de se levantar no ar cause a impressão de que sejam. A diferença na cor deve ser um modo de se camuflar no meio em que se encontram).
Às 14:30 eu estava de volta na sede do parque. Tomei um banho, comi o lanchinho que eu tinha levado para a cachoeira e parti às 15:10 rumo ao Tabuleiro. Meu joelho estava um pouco inchado e atrapalhou um pouco.
O problema maior seria como retornar até a Lapinha.
Trinta minutos depois eu chegava no povoado.
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Tabuleiro
Procurei pelo bar da Cici, que fora indicação do Seu José da Olinta. Cheguei ao bar da Cici e fiquei ali um bom tempo bebendo guaraná, comendo pastel de angu, vendo o jogo do real Madri e conversando com a Aline, filha da Cici. Super gente boa. Me disse que talvez eu conseguisse um frete para a lapinha com uns rapazes da lanchonete do Açaí, bem próximo dali, e que de ônibus só depois do feriado, e que de táxi ficaria muito caro.
Fui para uma pousada ao lado e acertei um quarto com a Zaíde. Agora era esperar os caras abrirem a lanchonete para ver o que rolava.
A Aline foi me avisar que os caras tinham aberto a lanchonete e eu fui até lá. A lanchonete deles se chama “Açaí dos Matutos” e os caras se Chamam Rafinha e Bruno. Dois caras super gente boa. Expliquei minha situação a eles e no fim das contas o Rafinha estava indo para Belo Horizonte e poderia me deixar em Santana do Riacho, embora ficasse um tanto fora de mão para ele. Caiu do céu.
Voltei para a pousada, expliquei a situação para a Zaíde e disse que somente tomaria um banho. Outra pessoa muito bacana.
Antes das 20:00 horas já estávamos a caminho de Santana do Riacho. A viagem foi muito boa. Conversamos bastante e foi mais um amigo que conheci naquele lugar encantado. Gente muito boa.
O Rafa me deixou em frente a uma pousada, ao lado da igreja de Santana do Riacho, a pousada do Jacaré.
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pousada do jacaré

Pernoitei ali, depois de ver televisão por algum tempo e tomar uma sopa vono. Eu tinha comido um açaí e uma empada no bar dos caras.
Nesse dia eu andei 12,9 Km. Fui dormir já com um sentimento de lamento porque a viagem estava chegando ao fim.


01-05-2013 (quarta-feira) feriado – 5º dia
Acordei às 7:00 horas. Banho, cafezinho na pousada e depois partir. Deixei a mochila na pousada para pegar na volta. Levei somente a mochila menor, a barraca, o saco de dormir e uma muda de roupa. O resto pegaria na volta. Às 9:00 horas eu estava a caminho da Lapinha da Serra, onde, depois de uma caminhada muito prazerosa, cheguei por volta do meio-dia.
Fui direto para o camping. Montar a barraca, lavar a roupa e a bota, tomar banho e depois tomar uma cervejinha e comer uns espetinhos, que ninguém é de ferro.
O resto da tarde eu perambulei pela Lapinha, indo algumas vezes até o ponto onde tinha iniciado a travessia. Já estava com saudades.
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lapinha

À noite fui até o Café Bambu, onde conheci algumas pessoas bacanas, como o Cristiano e a namorada, que estão morando na Serra do Cipó e que tinham ido de Bike até a cachoeira do Bicame, o povo da Bahia (Emílio e os filhos Eugênio e Diana) e o Bruno do pedal. Fui dormir cedo, por volta de 20:30.
Nesse dia eu caminhei 13 Km.


No total foram percorridos 76 Km.


No dia 02-05, acordei cedo, desmontei acampamento e deixei a Lapinha, com um pouco de dor no coração por deixar um lugar tão lindo. Ainda tive a chance de dar uma carona para o seu Zinho até Santana do Riacho, onde peguei minha mochila. Também dei carona para Emílio, Eugênio e Diana até Belo Horizonte.

Ficou uma alegria muito grande de ter tido a oportunidade de conhecer um pedaço tão lindo do Brasil e um povo tão bacana. Também ficou uma vontade grande de voltar um dia. Quem sabe para morar ali.

Não consegui chegar até a cachoeira do Bicame, mas aquilo que vi e as experiências que tive ficarão para sempre na memória. A sensação de estar no topo de uma montanha, de acordar em meio às nuvens, de andar por longas horas sozinho e principalmente de ver de perto e ficar sob as águas de da cachoeira do Tabuleiro, só quem viveu sabe como é.

Fica aqui um salve para o Seu Zinho do camping; para a Aline, o Rafinha e o Bruninho, lá no Tabuleiro; para o Emílio, o Eugênio e a Diana, que a essas horas já devem estar de volta a Trancoso; para o Gabriel e o Hugo, que me ajudaram no planejamento; e um grande abraço ao seu José e a Dona Maria, pessoas inesquecíveis.

#846172 por Ronaldopxo
02 Jun 2013, 01:16
Falando um pouco sobre o equipamento utilizado:

- Barraca Nautika Falcon 2: comprei porque era a mais leve, dentre as barracas baratas que minha verba dava. Cerca de 2 Kg. Tamanho bom para uma pessoa e mochila. Como eu já desconfiava, algum problema poderia acintecer. Tive duas varetas, uma de cada jogo de varetas, que simplesmente racharam, abrirama ao meio, como uma vara de bambu sob uma faca, já na segunda vez que a barraca era montada.
Também apareceu um pequeno rasgo, cerca de 5 a 8 mm, no sobreteto, no dia que eu viria embora. Era a quarta vez que a barraca era montada.
Está certo que nesses dias ventou bastante, mas mesmo assim não foi nenhum tornado.

PS. Contactei a Nautika e eles ficaram de consertar os danos. Já enviei a barraca e estou aguardando.

- Botas Salomon 3D Fastpacker MID GTX: A princípio eu iria com botas Finisterre, da Nômade. Decidi ir com essas Salomon. Já tinha feito várias caminhadas com essas botas.
A meu ver as Finisterre são melhores. Perdi 4 unhas, duas em cada pé, devido a bolhas de sangue que se formaram sob as unhas. Pode ser que as meias mais grossas que eu usei nos primeiros dias tenham a ver com as bolhas. Pode ser que o fato de eu ter encharcado os pés também tenha. Acho que o bico das botas, principalmente nas partes de descida das montanhas, onde havia muitos pedaços com pedras soltas também ajudou muito na formação das bolhas. Nunca tive esse problema com as Nômade.
Também acho que ela não é tão impermeável quanto a Finisterre, isto é, uma poça d água mais rasa já é suficiente para fazer com que entre água para dentro da bota.
Outro problema é que ela pega cheiro mais fácil. A palmilha também não é tão confortável quanto a da Finisterre, mas nada que incomode. A aderência em lugares escorregadios, principalmente pedras molhadas, ou cobertas com limo, também é inferior à da Finisterre. Outra coisa que atrapalhou um pouco foi o fato de que os cadarços se desamarravam facilmente, mesmo com laçada dupla.

Como vantagens eu citaria o fato de serem leves e de secarem rápido.

-Mochila Crampon 68 Trilhas e Rumos: Boa mochila. Não é muito pesada e cabe bastante coisa. Deveria ter levado uma mochila menor. Teria carregado menos coisa e consequentemente menos peso. a pequena mochila destacável que vem acoplada, é uma mão na roda. Ajuda muito quando você quer, por exemplo, atacar um pico, ou uma cachoeira. Dá para levar tranquilamente um lanche, toalha, muda de roupa, etc. Passou no teste.

- Saco de dormir Micron X-lite Náutika:- Já tinha usado e sabia que seria o suficiente. Não é volumoso e para as temperaturas encontradas seria suficiente. Levei um liner Reactor Thermolite da Sea to Summit. Usei também e é um produto muito bom. Esse conjunto liner mais saco de dormir seria o suficiente, penso eu, para temperatura de até zero graus. Devo ter pego uns 6 a 7 graus e não senti nem um pouco de frio. Teve uma noite que dormi só com o liner.

- Corta vento Minuano Trilhas e rumos: - Bom, leve e enxuga rápido. Serviu muito bem para as manhãs frias, mas não geladas. Aprovado.

Quanto a roupas, eu não tenho roupas caras. Mas gostaria de deixar aqui uma menção honrosa a uma camiseta que tenho já há algum tempo, que já usei um monte de vezes e que acho que é uma peça excelente, que vale muito mais do que custa. É uma camiseta Nord Outdoor dry, que comprei na Centauro. Paguei barato na camiseta, menos de 50 reais e ela continua boa até hoje. Já tem quase dois anos. É leve, confortável, não fica com cheiro de suor, seca super rápido. Nota 10.


Também segue o link para um vídeo que eu fiz da travessia. Quem quiser perder um tempinho, é só assistir:

http://www.youtube.com/watch?v=RW4kXrhm91g
#846258 por Sandro
02 Jun 2013, 14:14
Ótimo relato Ronaldo, parabéns.

... além disso, ele me convidou para dormir em sua casa. Eu cheguei a chorar. Esse tipo de gente eu não encontro onde moro. Gente humilde, simples, que ajuda pelo simples prazer de ajudar. Gente que é capaz de repartir o que tem, não simplesmente doar o que lhe sobra.

Você conseguiu descrever de forma justa, clara e poética a grandeza dessa nossa gente que encontramos pelo interior. ::otemo::
É bem como aquela musica cantada pela banda Pato Fu...
"Vai diminuindo a cidade
Vai aumentando a simpatia
Quanto menor a casinha
Mais sincero o bom dia...
...
Café tá quente no fogo
Barriga não tá vazia
Quanto mais simplicidade
Melhor o nascer do dia"

Abraço
#846527 por Otávio Luiz
03 Jun 2013, 09:52
Show de bola!!!!!! Lugarzinho abençoado... ::otemo::
As bolhas embaixo das unhas não seria bota pequena?
Isso já aconteceu comigo, bota pequena (mas que parecia no tamanho antes de começar a caminhar) e descida já me fizeram perder algumas unhas.
#848134 por Ronaldopxo
07 Jun 2013, 07:14
Sandro, Otávio Luiz e Francisco Cardoso.
Obrigado pelas palavras e por lerem o relato.

Quanto à bota, até agora não sei se foi culpa dela. Talvez tenha sido o conjunto descida íngreme + meia grossa e molhada + bico da bota duro, não sei ao certo. Sei que quando passei a usar a meia fina as bolhas, envoltas em esparadrapo, não incomodavam tanto.

E realmente o lugar é lindo e as pessoas são muito boas.

Eu não conhecia essa música, mas ela sintetiza tudo.

Abraços.

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