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  1. Em dois anos, perdi tudo o que um dia já tive. Não sou ninguém. Não tenho nada. Nunca antes estive tão fundo no poço. Minha avó morreu. Meu avô morreu. Meu pai cortou contato comigo pq não é mais obrigado a pagar pensão (sou maior de idade) e minha meia-irmã mais nova me odeia por mentiras da mãe dela. A única garota que já amei ficou farta de mim e me trocou pelo meu amigo negão. Ex-amigo, devo dizer. Fui demitido duas vezes. Meu óculos quebrou. Estou perdendo a visão do olho esquerdo e a cirurgia custa no mínimo cinco mil reais. Tenho mais de 1,80m de altura e "peso" 50kg. Eu não tenho amigos. Eu não sei o que fazer. Não importa o que eu faça ou o quanto me esforce nada parece surtir resultado! Já fui o aluno mais destacado durante anos consecutivos em escola particular. Fui aprovado em faculdades na Europa e nos EUA mas não pude ir por falta de dinheiro. Recebi várias propostas de universidades aqui no Brasil mas o mesmo aconteceu. Tentei empreender e fracassei. Sozinho não consegui multiplicar dinheiro e evoluir meu negócio. Sou vendedor ambulante de guloseimas. Sou a decepção da minha mãe. Nossa casa não tem energia elétrica, estando atrasado o pagamento há vários anos. Cortaram nossa luz. Temos de pagar mais de oito mil reais para religarem. Todos os dias, meu padrasto conecta a rede da casa a uma bateria de carro. Quando descarrega ao anoitecer ele recarrega na oficina de um amigo. As vezes, a mesma bateria dura dois dias. Guardamos nossa comida numa caixa de isopor que meu padrasto enche de gelo comprado numa fábrica aqui do bairro. Moramos no bairro mais periférico, na casa mais antiga e decadente da rua. Sou grato a Deus por zelar por mim e pela minha família nesta pandemia. E, também, pela garota que amo. A última vez em que a vi ela parecia feliz. Estava bem. Estava saudável. Estava entrando na sala do cinema com o negão. Estou estudando para entrar na Escola de Sargentos das Armas e tentar subir na vida. Quero retribuir tudo que minha mãe já fez e já passou por mim. Quero dar um sítio a ela. O tratamento das varizes. O tratamento dos olhos. O tratamento de obesidade da minha avó. A dieta com restrição à lactose do meu irmãozinho. Eu não sei o que fazer. Sacrifiquei tudo: vida social, relacionamento, CLT (sendo ambulante, faço dinheiro todos os dias), amigos, bens materiais, lazer, vaidade. E não adianta. Sou um inútil. Não consigo fazer nada pela minha família quando eles mais precisam de mim. No fundo, eu só quero colocar minha mochila velha nas costas e sumir no mundo. Viajar. Abstrair. Me desintoxicar do mundo. Viver é diferente de estar vivo.
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