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  1. Foram duas tentativas frustrada. - na primeira, éramos um trio, que sabia apenas a direção em que se encontrava a parte das grandiosas cachoeiras que aquele vale possui. Essa investida resultou na descoberta de um caminho que possivelmente nos levaria ao objetivo, mas devido ao curto tempo que tínhamos para explorar, tivemos que retornar. E foi nesse retorno, num emaranhado de bambus, que perdemos os resquícios da trilha, e nos perdemos por quase 4 hrs, rodando aleatoriamente sem paradeiro nenhum. Foi um sufoco e tanto, sair dali por conta própria. - na segunda tentativa éramos apenas uma dupla (Adilson Silva e Eu), mais precavidos, seguindo pelo mesmo trajeto das vez anterior. Íamos amarrando pedaços de fita zebrada nas árvores, no trecho mais fechado onde nos perdemos noutrora. Pois se tivéssemos que voltar pelo mesmo lugar, não faríamos confusão em meio ao bambuzal, por onde nos perdemos noutra vez. Pois uma chuva forte no final daquela tarde nos obrigou a abortar a missão e adiar os planos para uma possível terceira chance. ____________________________________________________________________________________________________________ Relato Sou do tipo que não tem medo de muitas coisas, mas quando se trata de raios e trovões... ...sexta feira, 20h do dia 4/3/2016, e eu já me adiantava com a janta para não ter que sair de casa em meio a uma tempestade anunciada pelos barulhos aterrorizantes que vinham do céu (mas não teve jeito). Com lágrimas nos olhos, minha esposa perguntava se eu realmente iria sair debaixo do toro que estava por vir. E eu, lógico, como o teimoso que sou, respondi que sim! Mas, se fosse necessário, iríamos abandonar os planos antes de executá- los se o dilúvio viesse a oferecer perigo extremo. Pisei os pés fora de casa, andei cerca de 200 mts, e os raios começaram a cair, cada vez mais próximo da região onde moro. Com pouco mais de 300 mts da caminhada e os raios pareciam explodir do meu lado, e a cada clarão que se abria no céu, em fração de segundos, transformava a noite em dia. Comecei a correr em direção ao ponto de ônibus, como um rato foge de um gato, com um medo danado, Ali fiquei sozinho por 15 min esperando o busão. Fiz posição preventiva contra raios (agachado, com as mãos na cabeça). Pouco me importava o vexame rsrs, eu queria é estar o mais seguro, e distante dali, se possível. E para o meu alívio, quando a chuva começou a desabar repentinamente e com força total, não deu nem 3 min, o tão desejado busão chegou. Só a partir daí que eu me senti mais avontê rs. Embarquei no trem, sentido Estação Estudantes, encontrei o Rafa, e fui contando a ele como já começava minha sessão de adrenalina e medo, referente a jornada que iniciávamos. rs. Chegamos na estação, Vinícius já estava lá. No trem seguinte chegou o Adilson, e para dar mais tempo de entrosamento do grupo, o Paulo chegou uns 6 ou 7 trens depois do nosso. rsrs Pegamos o ônibus que segue até o bairro de Manoel Ferreira, onde desembarcamos uma hora depois, e na sequência, meia noite e dez, iniciamos a trilha que nos levaria em direção ao primeiro pernoite dessa aventura. Se tudo corresse nos conformes, estaríamos na área de acampamento, no máximo 1h30 depois. Mas como sempre há imprevistos, chegamos lá às 2h2O da madruga. A trilha segue em fácil navegação, apenas uma bifurcação a se atentar, mas houve um desmoronamento de terra que encobria a via no meio do caminho. Isso gerou uma certa confusão na cachola, cheguei a citar que estávamos no caminho errado, que não havia aquela curva em todo o trajeto, coisa e tal. Com isso, só perdemos tempo procurando pela continuação da mesma nos arredores. Mas de acordo com o risco que desenhei no mapa, olhando pelo GPS do Vinícius, era nítido que estávamos no rumo certo. E juntando a crença do Adilson, que jurava estarmos na trilha das caminhadas anteriores, seguimos até chegar na primeira "ponte," que na verdade é um tronco fino de árvore, estirado de uma margem à outra do riacho que cruza com a trilha. Como não há possibilidades de ir por cima, descemos até o fluxo de água, saltitando sobre as pedras, e atravessamos. * o que não daria para imaginar, era que essa travessia seria um teste de sobrevivência na volta. Leia mais adiante. Agora eu estava mais tranquilo em relação a nossa localização. Tinha a certeza de que em 15 minutos estaríamos arrastando o "fiofó" em um grosso tronco de árvore, que serve como ponte de nível alto, entre as margens do rio que é mais fundo do que o anterior, e mais trabalhoso a ser atravessado a nado, andando e/ou com cargueiras. Acabado o esfrega esfrega, 10 metros a direita já estava a boa área de acampamento (morada dos borrachudos), que nos aguardava para o tão merecido descanso. rsrs No dia seguinte, depois do desjejum, entre a longa caminhada que margeia o ombro da Serra, resumidamente após cruzar com outras pontes (pinguelas), entrar numa bifurcação a esquerda, e uma picada a direita, a gente chegou no largo e íngreme afluente do Jacuaru, que abastece o Rio Itatinga, uma hora e meia depois do acampamento. Ali, sim, começaria a brincadeira pra queles que gostam de aventura regada a obstáculos. Depois de uma pausa demorada, por conta da mochila do Rafa ter estourado as alças da mochila, e necessitar de costuras, começamos a descer pelo inclinado trepa pedras do primeiro afluente da encosta esquerda. Por hora, o desnível não eram tão forte. Porém, quanto mais avançamos, mais e mais o fluxo de água se colocava na verticalidade nos obrigando a seguir a passos lentos e cautelosos, correndo o risco de sofrer uma queda fatal se a escolha fosse prosseguir pela água. Com 1h encosta abaixo, chegamos no primeiro ponto que nos obrigou a adentrar na mata, seguir por um vara mato relativamente fácil de transpor, mas com uma certa dificuldade de retorno ao leito. Onde se estimava ver o fluxo, só penhasco se via. Só foi possível sair da mata quando chegamos a uma canaleta seca que despenca rumo ao afluente. A decida teve de ser minuciosa. A cada metro uma pedra solta rolava morro abaixo, fazendo a lentidão ser questão de segurança. Descemos um de cada vez. Como era dia de calor, nada melhor do que conseguir se manter num caminho refrescante. E após o tempo perdido para vencer aquela piramba, tocamos revezando entre o leito e a mata da margem esquerda. Logo chegamos ao ponto de parada da investida anterior, onde eu e o Adilson acampamos. Eu julgava que a partir daquele ponto, no "olhômetro"mais 150 mts de avanço seriam o suficiente para dar com os pés nas águas do Itatinga. Mas, vendo o aparelho GPS do Mzk, os números eram bem maiores: 300 mts de forte desnível até lá. Minha inocência me fez acreditar que seria uma descida relativamente tranquila como tinha sido até ali. Mas, na verdade, toda dificuldade do trajeto estaria por dar as caras nas próximas horas. Cachoeiras iam surgindo pelo caminho, e essas mesmas cachoeiras se fizeram nossos caminhos. Nelas, a habilidade de contorcionistas amadores foi indispensável, a aderência de Petter Parker presente em nas mãos cada um teve que vir a tona, e ser posta em prática. Até por que, era nas extremidades das mãos e na aderência das solas dos pisantes que dependiam a segurança de cada membro. Um queda, um acidente mais grave, naquelas bandas seria um caso sério a se resolver. Apesar da confiança coletiva do grupo, a situação não era tão positiva em relação a conclusão do circuito. Quando paramos para ver de que forma o nosso objetivo vinha despencando Serra abaixo, ao olhar no GPS, os paredões gigantescos que se mostravam nas curvas de nível. A empolgação murchou de imediato. O Miyazaki deixou claro sua vontade de dar meia volta se fosse algo absurdo que tivéssemos que subir até alcançar o planalto novamente. Estava disposto a deixar o aparelho de navegação conosco, para podermos prosseguir com o plano, e voltaria pelo mesmo caminho. Mas não era essa a intenção: desmembrar o bando e correr novos riscos estava fora de cogitação. Depois de uma merecida pausa para descansar, comer e por as ideias em comunhão, continuamos a descida em maior parte pela mata esquerda, onde cada vez mais se notável o perigo que era andar por ali, beirando o penhasco que se estendia por dezenas de metros. Isso nos forçava a adentrar mais e mais na selva, subir cristas que não nos permitia descer em direção ao rio, só nos dava vias para subir outra crista, depois mais uma, e assim por diante, até que encontramos uma via (aparentemente) com menos obstáculos. E foi por ali que nos jogamos para ter algum sucesso. Quando a gentileza da floresta se fez favorável, novamente, com a gente, voltamos ao caminho das águas. E assim o Vale se abriu aos nossos olhos, com um buraco enorme, rodeado de paredões rochosos e de vegetação rasteira dependurada sendo pulverizada por um grande spray d'água que vinha por trás de uma rocha. Foi ali que tivemos a certeza que a nossa trupe alcançaria o tão desejado Vale do Rio Itatinga. Como eu ia sempre na frente, escolhendo os caminhos que pareciam mais fáceis para passar, quando olhava para trás, via meus companheiros, pequeninos, se retorcendo entre os vãos encachoeirados de cada aglomerado rochoso que era deixado para trás. O último deles era um buracão enorme, que quando acabei de descer, vi os meninos seguindo em um distância segura, e não me contive. A euforia de querer ver a enorme cachoeira que estava por trás daquele paredão verde, que nos permitia ver apenas o spray se lançar no cenário, foi a força motriz que me impulsionou com maior rapidez ao fundo do vale, que talvez, não recebia uma visita humana há décadas. E lá estava eu, surpreso com a beleza e imponência da Cachoeiras dos Meteoros descendo levemente sinuosa, imensamente furiosa, e causando temor com sua força. Quase 16 horas do dia estavam completas, e já que a decisão conjunta era de não prosseguir rio adentro, travando uma fatídica luta a elevação do vale, procuramos nos atentar a voltar pelo mesmo afluente, atingir o nível do topo da Cach dos Meteoros, e armar acampamento seguro, perto da água, para passarmos a noite. Na manhã seguinte, com o desjejum feito, acampamento recolhido e energia de sobra, ficou a meta de que iríamos varar mato até o Rio principal e explorar até onde o nosso tempo restante permitisse. Foram cerca de oitenta metros em meio a mata fechada, até encontrarmos a cabeceira que queríamos. Ali, no topo de da cachoeira que serve como um mirante esplêndido ao rio cortando o o enorme vale, deixamos nossas mochilas e partimos de encontro à próxima, e não distante, gigantesca cachoeira. Não tinha muito rio a ser vencido, só obstáculos impossibilitando o nosso avanço. Haviam apenas dois pontos de passagem, e esses dois pontos exigiam confronto a contra fluxo da água. Em um deles, onde fiz a primeira tentativa, o refluxo borbulhante não deixava ter uma visão prévia da profundidade. Mesmo assim, me arrisquei, sem sucesso. Não dava pé em alguns pontos, e com o peso dos tênis molhado, não consegui nadar. Quase afundei. Na sequência, não sei se por determinação, teimosia, ou seja lá o que for, analisei o outro ponto de passagem e cruzei o rio com menor dificuldade enquanto meus companheiros assistiam a tudo. Já na outra margem, percebendo que eles não teriam dificuldade para atravessar, fui me adiante trepando em grandes rochas, rastejando entre pequenos vãos, onde só cabia meu corpo, até dar de frente com outra cachoeira ES-PE-TA-CU-LAR (Cachoeira da Pedra Branca). Tão única, que a minha ingenuidade jamais me deixaria imaginar tal formação, com um piscinão enorme, naquela altitude da Serra do mar. SEN-SA-CIO-NAL. Enquanto meus amigos não chegavam, estudando o labirinto rochoso, aproveitei para tomar um banho nas pequenas quedas, refletir e agradecer, em particular, por tudo que eu estava vivendo naquele dia lindo e ensolarado. Claro que rolou um 'nudes' . Quando estávamos todos juntos, compartilhando da mesma alegria, tiramos fotos, contemplamos a majestosa queda, e pouco tempo depois já estávamos palmilhando em direção aos nossos pertences, e em seguida adentrar a mata e chegar novamente no Afluente do Jacuaru. Nosso caminho de volta. Mas, antes desse retorno acontecer, toda a dificuldade que tivemos para subir e alcançar o grande poço da cachoeira, veio com maior complicação na descida. Me lembro de tentar observar alguma forma de descer em segurança, mas abusei da sorte. Os meninos me avisaram de que nada dava para seguir por onde eu mirava nossa passagem. E eu disse: Não, sou vou dar uma olhadinha. Foi nessa hora que eu me agarrei numa rocha, completamente na vertical, apenas com as pontas dos dedos dos pés e das mãos como sustentação do meu corpo. Eu fui, mas não conseguia voltar. As fissuras na rocha estavam em outro ângulo, no sentido contrário e eu não conseguia alcançá-las. Travei! Fiquei paralisado, com medo, só me mexia para respirar e piscar os olhos, grudado feito uma lagartixa naquela parede de uns 4 metros de altura. Altura o suficiente para me arrebentar todo, caso eu caísse. E para piorar o meu estado medroso, o Paulo começa com suas previsões catastróficas. - mano, se você cair daí, vai cair de cabeça nas rochas. Vai se arrebentar todo. Você pode morrer... - tá, Paulo, eu sei disso! Mas você falando essas coisas não está me ajudando em nada. Só me deixando mais tenso. Depois desse momento “encorajador” do Paulo, os meninos conseguiram uma maneira de me estenderem as mãos, e me tirar daquela furada em que me meti. Foi osso! A partir dali a descida pelo rio decorreu de forma lenta, cautelosa, visando a segurança de todos. Já a ascensão, pelo Afluente do Jacuaru, oferta agarras por todo lugar que se passa, agiliza, e muito, o retorno ao Planalto Paulista. Na maioria das vezes estávamos ascendendo pelo leito, escalando rochas e cachoeiras. Mesmo nas vezes em que algum dos nossos quisesse varar mato, eu, que ia na dianteira do grupo, conseguia visualizar alguma via em meio as cachoeiras, que chegavam em seus 10, 15 e até 30 metros, nos mantendo no caminho mais rápido. Isso nos rendeu um ganho de tempo valiosíssimo, e foi uma das partes mais prazerosas dessa aventura. Claro que teve momentos em que a ajuda, de um para o outro, se fazia indispensável. Quando as mãos não alcançavam, para subir algum patamar, um círculo de fita de tecido, cerca de 1 metro, era enrolado nos punhos, servindo como alça de apoio, tanto para quem fosse subir, ou para quem fosse suspender a amigo. Assim, em poucas horas, chegamos no vão de saída do afluente. Onde escolhemos alguns minutinhos para descansar e beliscar alguma coisa e repor as energias. Repentinamente começou uma chuva inesperada, que nos fez sair dali o quanto antes, pois a subida até o bambuzal se tem através de uma piramba dos diabos, sem muitos lugares onde se segurar, com muito barro, que molhado, escorrega feito baba de quiabo, ou óleo sobre azulejo. Pegar aquele trecho já não é a sétima maravilha do mundo, com chuva então... aff. Conseguimos alcançar a trilha na melhor hora. Se ainda estivéssemos no afluente a gente tinha se lascado de cabo à rabo. Iria dar trabalho sair de lá. Foi uma chuva tão forte, mas tão forte, que mais parecia um dilúvio enviado para acabar com a raça humana. Num piscar de olhos a trilha estava coberta de água corrente cobrindo nossos tornozelos, formando mini cachoeiras onde houvesse degraus. Lógico, os tombos eram inevitáveis, o medo contido em cada um se mostrava algumas vezes no silêncio coletivo, ou num raio que caia perto da gente, fazendo um estardalhaço a ecoar pela selva. Nessas horas, creio que quem mais sentia medo era eu. Os pedidos de proteção divina foram inundando minha mente, pois a chuva não cessava, só ganhava força, e tinha resistência para durar mais de uma hora. Quando chegamos na área de acampamento, ela já estava fraca, quase parando, onde fizemos uma pausa para descansar e registrar um depoimento audiovisual. O rio que circunda o acampamento estava cheio, e em questão de minutos o nível aumentou consideravelmente. Tratamos de bater em retirada rapidinho, pois teríamos que cruzá-lo passando por cima de um tronco de árvore, como no dia anterior. Fora esse, há 10 min dali teríamos que atravessar um riacho que não nos permitia ir por cima do fino tronco. A travessia teria de ser feita à pé. E esse era o problema: não saber o quanto ele se elevou. Passados dez minutos de caminhada em ritmo forte, ao longe já dava para ouvir o escândalo que as águas faziam enquanto percorriam seu caminho. Se exagero nenhum, creio que há cinquenta metros já se ouvia o monstro rugir feito leão, estourando como trovão, e provocando medo em qualquer ser vivo que por ali estivesse. Se fosse um grupo menos preparado, com certeza, o pânico seria menor! rs Tínhamos pressa, vencer aquele desafio exigia, ao mesmo tempo, rapidez e coerência, pois já estávamos com os últimos raios de luz do dia, diante de um problema que poderia nos custar a vida de um dos nossos ao tentar resolvê-lo, ou então, a opção menos interessante seria passar mais uma noite na mata. Como não estávamos com essa intenção, passamos a tentar meios que nos tirasse dali o quanto antes, mas a cada minuto corrido a fúria do rio aumentava, e o nervosismo também. Em um lampejo de raciocínio falei: vamos derrubar uma árvore. A gente joga ela até a outra margem e passar por cima. A ideia parecia boa, o Rafa dispunha de um facão, já a execução não seria tão boa assim. Começamos o corte da primeira árvore, não muito grossa, que julgamos ser fácil lançá-la até o outro lado, mas a espessura, fina, não nos ajudaria com a travessia sobre a correnteza. Abandonamos o primeiro tronco e demos mais atenção a um tronco, bem mais grosso, que já estava no chão, cortado por caçadores ou palmiteiros, talvez. Começamos a ergue-lo com muito esforço, mas antes de elevar sua metade, já era notável que não conseguiríamos colocá-lo ereto e soltá-lo na margem oposta. E feito frangotes, que mal suportam o peso de suas calças, largamos o danado no chão. O peso era insuportável, mesmo estando em um grupo de cinco membros (frangotes rs). Enquanto isso, o rio esbravejava, o tempo passava, e a noite se aproximava cada vez mais. Nós, ainda nos encontrávamos na mesma situação: ilhados, sem ter caminhos para prosseguir e correndo o risco de passar a noite na mata. Não que fosse problema, mas não estava na "programação," e não seria vantajoso pra ninguém. A persistência seria a chave que abriria a porta certa. Começamos o corte de outra árvore, mesmo que não fosse tão grossa, suportando nosso peso já era o bastante. Em seguida, já com a pressa trabalhando a todo vapor, após alguns minutos de revezamento... MADEIRAAAAA. rsrs. Conseguimos erguer e lançar aquilo que seria nosso portal para voltarmos a civilização. Ainda estava muito perigoso atravessar sobre dois finos troncos que estavam a 30 cm separados um do outro. Mas teria que ser isso, ou estagnar o retorno. Às pressas, tivemos que analisar os meios e tomar nova iniciativa contra o tempo. Fui o "peão" na linha de frente, respirei fundo, soltei as cordas e disse: eu vou primeiro. O Vinicius, na tentativa de fazer nós que mantivessem preso à corda, estava sendo bombardeado por um ataque de vorazes "Mutucas," e não conseguia se concentrar. Passou o posto ao Potenza, que mesmo sendo vesgo, com baixa luminosidade, e o mais frangote de todos, passou confiança ao se mostrar um exímio fazedor de nós. Tranquei meu fiofó com muito medo, tive que começar a rastejar minhas pregas naquela ponte (se é que pode ser chamada assim), enquanto aquele Tsunami corria debaixo dos meus pés. Isso fazia parte do processo para encorajar o coletivo, que logo na sequência repetia o mesmo processo de esfregar o rabo no tronco (rs). Foi cerca de 1h no olho do furacão. Já com os pés em terra firma, novamente, o nosso ritmo forte foi retomado instintivamente. A ansiedade pelo fim da jornada era tanta, que a cansativa elevação do percurso na volta foi encarada como se estivéssemos numa reta plana interminável. O trecho final, que geralmente demora 1h30 para ser vencido, nos tomou apenas 1h de caminhada ininterrupta. E quando colocamos nossas caras para fora da mata, às 20h30, num engarrafamento a perder de vista, as pessoas olhavam perplexas com o que acabavam de ver: cinco marmanjos, com mochilas enormes e lanternas na cabeça, saindo da mata, às escuras, como se nada estivesse acontecido. Na verdade, muita coisa aconteceu! Mas essas pessoas que se surpreenderam com a aparição de um quinteto maltrapilho, em um lugar e horário inimaginável, jamais sabem o que realmente aconteceu!!! rsrs Ao chegar ponto de ônibus, onde há um boteco de beira de estrada, onde sempre trocamos nossas roupas esfarrapadas "pós trilha," comemoramos e bebemoramos as andanças pela região, conversando com um morador local, tivemos a informação de aquela foi a maior chuva dentre 20 anos. "Ele" afirmou nunca ter vista tanta chuva por aquelas bandas. Até o Rio Biritiba transbordou e invadiu a pista , causando todo aquele engarrafamento na rodovia. Confesso que foi uma surpresa! Pois entre as várias caminhadas e conversas com moradores da região, nunca ouvi falar de rio transbordar por ali. No ombro da Serra. Depois de tudo isso, só nos restou sentar e esperar os busão que nos colocaria no rumo de nossas casas. Onde começamos a chegar a partir das 00h30. Exceto o Vinicius, morador de Campinas, interior de SP, que teve que pernoitar, brevemente, na minha humilde residência e bater em retirada só na manhã seguinte.
  2. "Nem só de glórias vive o aventureiro" Dias antes... Cogitei de realizar um sonho, encarar a respeitável Rainha da Serra do Mar , mas esbarrei com um problema: um raro e belo feriadão de 4 dias. Quem iria querer me acompanhar numa aventura dessas, que pode ser realizada em dois dias e uma noite? (acorda Vagner), ninguém, é lógico. Muitos preferiram se deliciar de roteiros de exigem e fazem jus à tantos dias, ou até mesmo curtir uma longa passagem com a família. “Viajei.” Me vi novamente, de última hora, numa antevéspera, dominado pela ansiedade e a insônia, consultando os mapas e tentando calcular uma rota que se encaixasse com a minha disponibilidade e expectativa. A mente ainda pendia pros lados da Serra do Mar, mais precisamente entre Mogi/Bertioga (Serra do Garrafãozinho), pra poder explorar um lugar onde muitos já estiveram, mas que poucos conhecem, e onde eu estive pela primeira e única vez a dois anos atrás. O topo da Garganta do Gigante. O plano era de “invadir” o Rio Itatinga (invadir o rio?? (não entendi)). Sim, invadir o rio. Pois o mesmo está com seu acesso na margem esquerda totalmente cercado com arame farpado e placas de restrição, proibição de passagem a pessoas não autorizadas a partir dalí. A empresa, CODESP (Companhia Docas do Estado de São Paulo), responsável pelos arredores, notou que muitos aventureiros surgiam de uma trilha que se inicia lá na SP-098, e terminava na Usina que capta água via aquedutos para abastecer a Vila Itatinga e parte da baixada. Através dessa trilha esses aventureiros aproveitavam o deleite duma bela represa, se impressionavam com o belo mirante para o litoral, arriscavam suas vidas na cabeceira da linda e gigante cachoeira, ou, ingressavam além da Usina, chegando a realizar a pouco frequentada travessia Mogi x Bertioga, via Funicular local (ainda ativa). Conclusão: para evitar maiores problemas (como em Paranapiacaba), a empresa meteu um belo de um bloqueio pra barrar “intrusos” como nós. kkk. “Pelo fato de acabar de realizar algo fantástico e inédito (Caminho dos Titãs), talvez eu tenha subestimado o vale do rio Itatinga, pensando que seria mamata chegar até ele e andar em seu leito.” Foi aí que ví que nem só de glórias vive o aventureiro. RELATO PRIMEIRO DIA - ALEGRIAS E FRUSTRAÇÕES Dispondo de pouco tempo pra tal aventura, Adilson Silva, Tony Eduardo (que não sabem recusar convites),e Eu, partimos na direção sul da rodovia, desembarcamos no tradicional ponto de encontro de trilheiros na região, e às 08:00 h do dia 18/04/2015, pusemos nossos pés no início da trilha mais próxima do km 77 penetrando a Serra do Garrafãozinho. Já que não temos um GPS decente, um Garmim por exemplo, fomos munidos apenas de uma bússola digital (lixo) e um mapa offline, e de quebra, dois aplicativos que o reconhecesse. Isso já nos ajudou algumas vezes, mas dessa vez os desgraçados não apresentaram nenhuma funcionalidade logo nos primeiros metros da trilha (não confie nesses malditos). Seguimos apenas com a cara e a coragem somadas à intuição e noção que tenho do lugar (FODEU rs). A longa caminhada de aproximadamente 8 quilômetros não chega a ser difícil, mas se torna uma pagação de promessa quando se tem uma cargueira nas costas e tendo que passar por todos os obstáculos que ela possa oferecer: lamaçal, pedras arredondadas e lisas, pinguelas/pontes feitas de troncos de árvores e afins. Após a segunda ponte, há uma trifurcação, à direita temos uma área de Camping + área de lazer, onde o pessoal se pendura na corda e se joga num lago igualmente no Lago Cristal. A trilha do meio, a que seguimos, leva ao Rio Itatinga, e a trilha da esquerda (não se esqueça dela), foi a trilha da misericórdia. Mais pra frente eu explico. Seguimos até a quarta ponte, pegamos a picada da esquerda, percebemos o engano e retornamos o caminho principal. Passando pelo “vale das bromélias,” com três horas desde que começamos a caminhada, chegamos onde a trilha despenca rumo a Represa Itatinga. Paramos pra comer algo, escondemos nossas mochilas e fomos até lá pra matar a vontade que o Tony tinha de conhecer a tal represa. Toda hora ele perguntava: vai dar pra ver a represa? passava dez minutos: vai dar pra ver a represa? mais dez minutos: vai dar pra ver a represa?Tava parecendo criança indo conhecer o Zoológico na primeira excursão escolar kkk. Vimos que tinha gente por lá, mesmo num feriadão, as roupas de funcionários penduradas no varal caguetavam isso. Pós fotos e vídeos, retornamos até onde deixamos as mochilas, pois naquele ponto começaria o nosso vara mato na tentativa de atingir as profundezas daquele vale. O facão correia solto, fatiando o emaranhado que fechava nosso caminho. Fomos avançando com o rio sempre a nossa direita, tendo seu barulho como referência. As vezes dava pra ver entre as brechas na mata o dito cujo correndo branquinho, nos chamando ao seu encontro, e a gente não podendo atender seu chamado, rs. Depois de muita batalha, avistamos a cabeceira de uma cachoeira, e pelo tanto de tempo que gastamos e o quanto avançamos varando mato, julguei que já tínhamos passado Garganta do Gigante (julguei errado), e era hora de começar a descer a piramba. Quando chegamos as margens do rio, reconheci de imediato, percebi que eu já estive ali antes. Ou seja, quase duas horas se lascando entre espinhos, solo fofo, cipó segurando as pernas e provocando alguns capotes, pra não render porra nenhuma. Mesmo assim, instalamos a corda e decidimos descer pra analisar a situação. Foi alí que eu broxei, e broxei legal. Estávamos num dos mais bonitos mirantes que se tem na região, na cabeceira da tão desejada cachoeira, vendo toda a beleza a nossa frente, num lindo dia de sol e não podendo fazer parte de um dos seus cenários cabulosos. Ficamos alí o tempo suficiente, para tirar fotos, fazer vídeos e concluir que não poderíamos concluir nossa missão. Era suicídio tentar transpor os paredões no fundo do vale, mesmo com auxílio de cordas. A água pulverizada da cachoeira é levada pelo vento vale a dentro e deixa as rochas cheias de limo. Depois de ficarmos um tempo observando a paisagem, fomos vistos por uma pessoa que aparaceu no alto do morro, numa casinha próxima à Usina. Ela olhava, olhava, até que sumiu e repareceu com outra pessoa que apontava em nossa direção e na direção da trilha. Aos poucos foram aparecendo outras pessoas, e outras pessoas, até que chegamos a conclusão de que se tratava de um grupo de turistas que subiram pela Funicular, acompanhados de algum guia, vindos de Bertioga. Pra evitar maiores, saímos logo dalí. Pra mim o rolê tinha acabado alí. Era hora de engolir o orgulho, enfiar o rabinho entre as pernas e vazar. Se o pessoal decidisse voltar pra casa, eu toparia na hora. Mas após discutir as opiniões, decidimos voltar até aqueeela área de lazer + área de Camping que mencionei antes (lembra?), onde tem a trifurcação, e nos deliciar com o que tinha por ali, e quebrar o “cabaço dos meninos,” que nunca haviam pernoitado na mata. Brincamos muito por ali, cada um era dominado pelo espírito moleque, se pendurando na corda, se jogando na água e fazendo a farra. Tava tudo tão bom, que eu até havia deixado de lado a frustração de não ter conseguido alcançar o objetivo planejado e só queria aproveitar. Quando a noite veio dar o ar de sua graça, montamos acampamento, acendemos fogueira depois de muito sacrifício, preparamos o jantar e fomos dormir cedo (os três numa barraca pra dois (imagina o aperto)), na manhã seguinte teríamos muito que aproveitar naquele lago (*SQN). SEGUNDO DIA - NAS ARMADILHAS DO CURUPIRA Com a inquietação e curiosidade que tenho, propus aos meus amigos: - Oh, vamos aproveitar que já estamos aqui e vamos explorar aquela trilha que pegamos ontem por engano. A gente deixa a acampamento montado aqui, e seguimos só com uma mochila, bem leve, só com o necessário. Assim a gente já fica sabendo o que tem por lá e não precisamos voltar aqui noutro dia só pra explorar aquele trecho, e quem sabe não seja por ali o nosso caminho de acesso ao Itatinga. O que vocês acham ? - vamos, demorou. - é só isso que esses sabem responder kkkk. Era 08:30 h quando deixamos nosso abrigo para trás e fomos rumo ao desconhecido, pra horas e horas depois poder voltar com o peito cheio de esperança, alegria, medo, alívio, frustração, preocupação e uma certeza óbvia: Deus é pai, e não padrasto. Ele sempre ampara os filhos teus. ENTENDA O POR QUÊ No dia anterior, quando pegamos por engano aquela trilha a esquerda, com seiscentos metros de caminhada nós demos meia volta por que sabíamos que estávamos seguindo pelo caminho errado. Já dessa vez, seguiríamos até onde desse. E deu muuuita coisa. Meia hora depois de sairmos da área de Camping, já estávamos virando pra esquerda e adentrando tal picada, larga e bem aberta. Ela segue serpenteando um grande bosque de pinheiros e aos poucos vai de afastando do nosso objetivo. Por ora se fecha, por ora se abre novamente, quase a todo tempo em terreno plano, começa a descer em direção interessante, e muito depois de seu início, quando começa a subir um morro, apresenta mais uma bifurcação quase apagada. - E agora, pra onde vamos? Pela lógica, tínhamos que tocar pra direita, e assim fizemos. A caminhada segue agradável e sem dificuldades aparentes até começar a descer, descer e descer. A trilha volta a se fechar com maior frequência, abre as vezes e confunde quando passa por bambuzais a beira de riachos que precisamos atravessá-los mais a frente. Isso nos trouxe tantos problemas na volta. Barulhos de quedas dágua aparecem aos montes no decorrer do caminho, repentinamente, do nada a trilha acaba numa valeta seca, onde com certeza, já correu muita água em época de chuvas fortes, mas que por agora só deixava rochas cheias de limo pra que pudêssemos descer, não tínhamos outra opção, a não ser avançar. Essa valeta tem uma extensão média de cem metros, e nos pega de surpresa quando acaba na beira de um precipício de aproximadamente 35 mts de queda livre totalmente na vertical. Mesmo se estivéssemos com a corda, seria muito ariscado descer por alí. E se descêssemos, qual seria o grau de dificuldade e risco ao subir ? Descartamos rapidinho essa hipótese. Voltamos um pouco pela própria valeta e avistamos um possível acesso a nossa direita. Estudamos os riscos e possibilidades, e decidimos descer pelo caminho semi aberto que ia contornando e se esquivando do paredão. Na grande perca de altitude não tivemos muita dificuldade, a não ser pelo forte declive que parecia se agarrar em nossos pés e nos jogar ladeira abaixo juntos com as pedras que rolavam. O curioso foi que nessa etapa, achamos uma boca de balão perdida em meio a mata, corroída pela maresia que sobe do mar e pela neblina que abraça a serra diariamente. Pelo tamanho da boca, deu pra ter uma ideia de que o balão não era nem um pouquinho pequeno. Iríamos tirar uma foto na volta, mas esquecemos e passamos batidos. A medida que íamos descendo, o barulho forte de água correndo e despencando de rochas ia aumentando. Coisa que aumentava a suspeita de ser o Rio Itatinga, mas ao acabar o emaranhado da mata e o céu clarear mesmo com sua névoa matinal, vimos que se tratava do afluente que deságua no “procurado” não tão longe dalí. E se chegamos até lá, não seria em tal lugar o nosso ponto final. Decidimos descer mais um pouco, e mais um pouco e mais um pouco, até que as necessidades de avanço exigiam cordas, e a nossa havia ficado no acampamento. Descemos até onde deu, sem forçar a barra e sem por em risco nossas vidas. Quando uma cachoeira, consideravelmente alta, nos impediu de prosseguir, demos meia volta e tocamos o retorno exatamente às 11h, subindo tooooda aquela inclinação de volta. Mesmo estando uma temperatura agradável e até fresquinha, o suor pigando demais, a linguá pra fora quase batia no umbigo, as pausas então... huummm, várias. Nunca vi um aclive tão forte quanto aquele. O caminho foi refeito da mesma forma até um pouco depois da saída da canaleta, exatamente até o bambuzal. A partir dali que, sem percebermos, começava o nosso martírio... ...a neblina pairou soberana como acontece na Silent Hill paulistana. Em alguns trechos parecia começo de noite, a densidade era tanta, que em pouco tempo já estávamos molhados, encharcados como se tivéssemos tomado um banho de chuva. Seguindo como quem acredita estar no caminho certo, já com a neblina mais branda, chegamos numa parte onde a mata estava um pouco mais fechada do que quando descemos, continuamos, pois parecia o mesmo lugar de horas atrás. O terreno começou a ganhar altitude, e quando passamos por uma trilha que corta uma plantação de Taioba, saímos numa outra trilha na transversal, larga e que não lembrava em nada o percurso feito mais cedo. Bom, pensamos, vamos seguir pra esquerda que parece ser nossa direção. Seguimos. Passamos por outra trilha a esquerda que realmente nos trouxe a certeza de que aquela não era a nossa rota, pois bem na “esquina” havia uma marcação feita com uma tampa de Toddy, e não vimos nada disso por onde passamos anteriormente. Andamos mais um pouco, e chegamos a um acampamento abandonado por caçadores, seguimos mais um pouco e na dúvida resolvemos voltar e pegar a direção contrária a partir de onde saímos. Fomos por mais um longo período perambulando até constatarmos que por lá também não teríamos bons resultados. Voltamos até as Taiobas, retomamos o caminho que fizemos até o ponto que lembramos e “sabíamos” que estava certo, vasculhamos os arredores, e nada de outro caminho que apontasse uma outra direção. Andávamos um pouco, parando de vez em quando, explorávamos as proximidades na tentativa de encontrar nosso caminho, e nada, repetimos isso várias vezes, e nada. Subimos até aquela trilha transversal com a ideia de avançar bem mais do que a primeira vez, primeiro seguimos pra esquerda, passamos pela tampa de Toddy e pelo acampamento de caçador novamente, seguimos adiante por um bom tempo, e aos poucos só aumentava a confusão em nossas mentes, achando pontos de referência onde não tinha, alegando ter lembrado de tal obstáculo, de tal árvore que aparecia pela frente. Mas, na verdade, era pura ilusão, pois nunca tínhamos passado por ali antes. Quando cruzamos com um riacho, foi batata, era certeza absoluta de que não era por ali e que nunca pisamos ali antes. Havia uma caneca laranja pendurada numa árvore às margens dágua, e logo em seguida o caminho se abria mais e mais com tanta folha derrubada com os golpes de facão de alguém que passara por ali recentemente. As folhas ainda estavam frescas. Resolvemos voltar todo o caminho percorrido e seguir um bom tempo na direção oposta, até ver no que dava. Novamente nas Taiobas, marquei algumas árvores com a faca pra saber que não deveríamos encontra-las de novo. Andamos por muito tempo, agora pra direita, pra poder concluir que aquele também não era o nosso caminho. Voltamos às Taiobas, descemos até o bambuzal, procuramos pelo certo e nada encontramos. Era um sobe/descer de acabar com qualquer um, repetimos isso tantas vezes que o cansaço começou a bater, as pernas fraquejavam, a fadiga era quase dominante se não estivéssemos com o psicológico firme. Havia acabado nossa água, a alimentação já era a base de amendoim, castanhas e bolachas que ainda tinham aos montes. Ainda bem que apareciam riachos por todos os lados e o Clor-in vinha no kit de primeiros socorros dentro da mochila. Os pequenos afluentes que tinham pelo morro poderiam ser nossa válvula de escape, mas quando adentrávamos por eles, explorando e caçando nossas próprias pegadas, vinha a tona uma nova frustração. Em um deles, eu até explorei bastante, subi muito e para alegria dos meus amigos que me esperavam lá pra baixo, eu gritei: Achei, achei nossas pegadas, podem subir. Enquanto eles subiam, eu analisei com mais calma e vi que a ondulação do solo e as sombras das folhas me causaram uma ilusão de ótica, não eram pegadas (eu estava delirando). E já que estávamos ali decidimos continuar subindo. E adivinhem onde saímos ? Na plantação de Taiobas novamente/trilha transversal. CARAAAAALHO. Estávamos andando a horas, sem nem saber pra onde, parecendo baratas tontas. A única resistência que ainda nos movia era a psicológica, por que a física já estava comprometida a tempos. A qualquer tropeço bobo, um capote, a qualquer cipó enroscado nas pernas, outro capote. Tava muito foda. Ainda tivemos coragem pra descer, pela enésima vez, e tentar procurar uma saída a partir do ponto que lembrávamos já ter passado. E foi numa última tentativa, naquela baixada, onde entramos numa área mais fechada da mata pra caçar nossa libertação, que eu me vi mais desorientado do que nunca, vi que estávamos ariscando além do deveríamos e acabaríamos nos perdendo mais ainda. E minhas preocupações não se resumiam apenas e passar mais uma noite na mata e/ou o recente trampo que o Tony arranjou, isso era o de menos. O que realmente me trazia aflição, e até dava medo, era a possibilidade de pernoitar na mata com as roupas encharcadas. Sera que aguentaríamos a queda de temperatura na madrugada ? Uma hipotermia poderia ser fatal. Foi aí que veio a decisão... ...quando abaixei minha cabeça sobre o bastão de caminhada. Reinou um silêncio absoluto, que nem os pássaros cantaram, as árvores não chacoalharam com o vento, que também parou. Foi como se o tempo tivesse sido congelado. - o que foi Vagner, tá passando mal ? - perguntaram meus amigos. Quase sem forças, com a boca seca e uma voz que quase não saiu além dos lábios, respondi: - estou pensando. Só isso. Com a calma de um monge Tibetano, refiz mentalmente todo o caminho que percorremos pela manhã, cheguei a uma conclusão. Comuniquei meus parceiros que o nosso norte estava pra esquerda. - aê pessoal, seguinte: vamos subir esse morro de novo, pegar aquela trilha transversal e tocar pra esquerda, não importa onde vai dar, vamos seguir naquela direção até sei lá onde. Vambora, não podemos ficar aqui batendo cabeça no mesmo lugar. Se por acaso a gente sair numa cidadezinha vizinha, a gente abandona o acampamento e vem buscar amanhã, ou outro dia. O mais importante pra irmos embora já está aqui com a gente: celular, dinheiro e documentos. Vambora, vambora. E lá ia a gente, mais uma vez, morro acima até chegar na trilha transversal. Já não havia mais tempo pra muita coisa, então aproveitamos que a trilha era larga, com um solo bom pra caminhar, e começamos a andar, ou melhor, quase corre. A disparada que demos foi de tanta impulsão que parecia que estávamos andando mais rápido do que se anda no asfalto. Passamos pela tampa de toddy, pelo acampamento de caçador, pela caneca laranja e continuamos sem dar uma pausa. Os cortes na mata aumentava sua intensidade, parecia que alguém ia a nossa frente abrindo caminho, e o que nos restava era seguir esse caminho, que continuava bem aberto e de fácil navegação. Sentamo o pé!! A única coisa que fizemos nos próximos quilômetros, foi andar, andar e andar. E as vezes cair, rs. Passamos por mais um riacho, que dessa vez estava marcado com uma caneca azul pendurada numa árvore. Isso dava a esperança de que o caminho daria nalgum lugar, ou encontraríamos um senhor barbudo, com seu cachorro e seu facão roçando a mata, e seria nessa hora que iríamos pedir uma orientação, ajuda, sei lá. Até a possibilidade de que seríamos resgatados por um Águia da Polícia Militar passou pela minha cabeça. Outra saída seria tentar achar o sinal do celular e contatar os amigos que sabiam por onde estaríamos nos aventurando. Eu os deixei avisados, e isso seria uma chave mestra nas buscas desse trio perdido. Mas não, preferi me concentrar no caminho recém roçado e sair logo dali. A trilha começou a descer muito, fez curvas acentuadas e continuou livre até uma outra bifurcação (e agora ? fudeu!!). Exploramos primeiro a direita, vimos que não deu em nada, tocamos pra esquerda em ritmo mais acelerado, mas não por muito tempo. Uma hora e meia andando em alta velocidade nessa trilha, e a danada acaba num rio (fudeu de novo). Atravessamos esse rio a procura da continuação da mesma, e para nossa desilusão, ela não tinha continuação. Foi aí que desabamos. O desespero começou a dominar um dos nossos, era visível em seu rosto, a reação foi imediata quando propusemos voltar tudo aquilo e tentar um novo recomeço. Um deles sentou-se não chão, desolado, abatido e preocupado, dizendo que não arredaria o pé dali, e que não voltaria por aquele caminho de jeito nenhum e estava decidido a ficar parado ali. Mais uma vez, com uma calma de monge, contornei a situação, pois se via claramente que o desespero era o sentimento dominador naquele momento, e que o auto controle se fazia necessário. Os que estivessem mais fortes psicologicamente teriam que acalmar que fraquejasse. E assim se fez Minutos depois, já estávamos submersos da cintura pra baixo, e na outra margem do rio, preparados para voltar aquela longa caminhada, decidi explorar mais um pouco. Logo a frente estava a continuação da trilha, que não a vimos por conta de umas árvores tombadas e arbustos que encobriam nossa visão. Sentamo o pé novamente. Acabaram os sobe/desce, o terreno era plano e o rio corria sempre a nossa direita e a trilha ia se fechando, sumindo cada vez mais. Pouco mais de dez minutos, chegando perto de um longo e grosso tronco árvore que eu nem dei atenção, o Tony gritou: olha, onde estamos. Meu cérebro levou alguns segundos pra entender a situação, e quando me dei conta, já estávamos saindo no final da trilha, gritando, pulando de felicidade, pois essa trilha é EXATAMENTE aquela da esquerda na trifurcação ao lado do nosso acampamento. A euforia foi tamanha, que o Tony já pulou com roupa e tudo no lago gelado daquele rio, enquanto eu agradecia a Deus e abraçava meu companheiro Adilson. Mas não demorou muito, eu me joguei na água também. Estávamos exausto, fracos e com muuuita fome. Fomos até o acampamento, nossas coisa estavam intactas como as deixamos, e na hora de preparar um almoço (quase janta), vimos que os fósforos estavam encharcados também. Sem muita opção, comemos o que estava pronto, só pra enganar o estômago, desarmamos acampamento e sarpamos no mesmo ritmo em que chegamos. Quando bateu 17:45 h, chegávamos ao fim da trilha, exaustos, aos trapos, com alguns arranhões e carrapatos pelo corpo. Era o final de uma exploração que nos trouxe muitas emoções, uma aventura que chega a ser difícil de explicar como foi, mas que que trouxe vigor às nossas almas e uma certeza em nossas mentes: QUEREMOS VOLTAR NESSE LUGAR, pra poder tentar, por mais uma vez, atingir o utópico Vale do Rio Itatinga. Abraços.
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