Quando estivemos na região, no ano passado, tentamos acessar as grandes quedas do Rio Passa Cinco, mas estávamos de bicicleta e fomos barrados pelo tempo e por uma trilha fechada que nos fez enfiar a viola no saco e dar meia volta e ainda, desconhecendo um maneira de sair de dentro do cânion pelos paredões laterais e não querendo retornar pela mesma trilha cretina que o acessamos, fomos obrigados a dar a volta em toda a serra e voltamos arrastando a língua no chão, desembocando novamente em Ipeúna por volta das nove da noite, dois farrapos humanos humilhados por um terreno cruel, composto por muito areia, pedras e trilhas erodidas. Ficou aquele gostinho de quero mais, apesar do encanto de uma das regiões mais legais para pedalar e praticar todo tipo de fora de estrada, então eu já havia decidido que numa próxima oportunidade, meteria uma mochila nas costas e dessa vez iria fazer o que sei de melhor, usar apenas minhas pernas para próxima aventura na Serra do Itaquerí.
A semana que antecedeu a nossa partida foi de muita chuva e aí formou-se o clima ideal para que pudéssemos pegar as cachoeiras com um bom volume de água, então numa segunda feira de carnaval, apanhei o DEMA na casa dos pais dele e rumamos para Ipeúna no velho NIVA 4X4 , que a muito tempo não saia da garagem. Uma viagem tranquila de não mais de 80 km, nos leva praticamente para o quintal de casa, já que subir a Serra do Itaquerí ou parte da CHAPADA GUARANÍ, já tem se tornado coisa corriqueira, nosso parque de diversões locais.
( Serra do Itaquerí)
Ainda é muito cedo quando desembocamos na minúscula cidade, pacata e vazia como sempre. Sem perder tempo, apontamos nosso nariz para os chapadões de arenito e basalto, onde a Pedra do índio é nossa referência e logo ganhamos as estradinhas de areia e vamos vagarosamente nos deliciando com o visual característico da região e somos obrigados a nos deter por uns minutos para uma foto clássica dos paredões vermelhos, antes mesmo de começar a subida da serra.
Na subida da Serra, engato a reduzida e o Niva desfila suave, comendo cada metro de buraco. Mas a estada piorou muito nos últimos tempos, fazendo com que rochas gigantes ficassem expostas e numa delas, dou uma bobeira e deixo a bruto escapar para um buraco e uma dessas rochas atingi em cheio um braço da suspenção, que se rompe do assoalho. Descemos do carro mais à frente, bem na derradeira curva da serrinha, onde poderíamos pegar uma trilha a pé e irmos visitar as sensacionais grutas , mas como já estamos atrasados, só damos
uma olhada nas avarias e vendo que daria para prosseguir, mesmo que devagar, tocamos em frente e ao chegar numa bifurcação em “T”, viramos à direita, assim como na próxima bifurcação e tomamos a direção que vai passar por uma floresta de eucaliptos e nos levar direto para a Cachoeira da lapinha ou do Carro Caído.
( Cachoiera da Lapinha ou Carro Caído)
Muitos anos atrás, empreendemos uma jornada partindo la das grutas de arenito e subindo todo o cânion da Lapinha, até nos pormos embaixo da grande cachoeira, mas na ocasião, a encontramos com pouquíssima água, mas hoje ela está bufando, certamente seria lindo vê-la desse jeito lá de baixo, mas não vai ser hoje, pois nosso objetivo dessa vez, são outras cachoeiras maiores ainda, então sacamos uma foto e partimos.
O caminho agora é por dentro das florestas de eucaliptos e mais uma vez, na próxima bifurcação, vamos seguir para a esquerda, em direção às placas que indicam o caminho da Cachoeira São José. Daqui para frente, sempre haverá uma placa e quando acabam os eucaliptos, se abre um mundo ensolarado, com propriedades bonitas, com lagoas pitorescas, até que estacionamos num gramado verdinho, junto ao BAR SÃO VALENTIM, a propriedade que guarda a própria CACHOEIRA SÃO JOSÉ e vejam só, com entrada gratuita e por aqui deixaremos nosso jeep estacionado pelos próximos dois dias, agora a nossa jornada continua a pé.
A nossa intenção era acampar dentro do cânion, então abastecemos nossas cargueiras com equipamentos para pernoite, mas ao invés de uma barraquinha, optaremos por redes e toldos. Estacionado o jeep ao lado do bar, numa área meio neutra, nem nos demos ao trabalho de passar no bar e deixaremos para fazer isso na volta. Tomamos imediatamente a continuação da estrada e 5 minutos à frente, vamos ignorar o ramal da esquerda, que é a estrada principal, por onde chegam os carros que não tem tração nas 4 rodas e sobem o caminho por São Pedro. Agora vamos seguir justamente pelas bordas do Cânion Passa Cinco, que estará a nossa esquerda e que em mais 2 minutos, o nosso caminho vai interceptar um MIRANTE, que surpreendentemente vai nos dar uma visão geral para dentro do próprio cânion, onde é possível avistar do lado oposto, uma CACHOEIRA despencando de uns 100 metros de altura, numa das mais belas visões da Serra do Itaquerí.
( Cachoeira lateral do Cânion PASSA CINCO)
E é realmente um assombro de bonito e o meu maior espanto é que uns 15 anos atrás, eu estive no Bar São Valentim acompanhado com a minha filha e nem me dei conta de que existiria esse vale encantador, já que havíamos atolado o próprio Niva ao vir por outro caminho e quando chegamos no bar e na cachoeira do bar, estava fechado, então demos meia volta e retornamos sem saber da existência dessa maravilha. Outra coisa que só saberíamos no dia seguinte, é que aquela cachoeira maravilhosa, que víamos do mirante, nem era a queda principal e que a verdadeira queda do PASSA CINCO, estava escondida no fundo do vale e que não conseguimos ver também, quando estivemos ano passado tentando alcançá-la no passeio de bicicleta.
Abandonamos o mirante e continuamos seguindo pela estradinha, que vai bordejar o cânion, entre mata nativa e plantações de eucaliptos. Vamos caminhar por cerca de quase 2 km junto ao vale e logo depois de passarmos por um grande bambuzal, vamos virar à esquerda e nos manter firmes na principal, inclusive, desprezando uma saída a esquerda e 700 metros depois, andando por dentro de uma floresta de eucaliptos, vamos continuar subindo, sempre para noroeste, desconsiderando outras saídas, tanto para esquerda, quanto para direita, até que a própria estrada vai se aproximar novamente das bordas do cânion, que ainda continua à nossa esquerda e chegaremos a uma espécie de estacionamento e logo a frente, um arremedo de trilha nos leva ao MIRANTE DA PEDRA DO GORILA.
( PEDRA DO GORILA)
De onde paramos nosso carro, até o Gorila, são exatamente 5 KM, com as paradas, num caminhar lento e descompromissado diante de um sol que beirava uns 35 graus de temperatura, gastamos quase duas horas de pernadas, hora de parar para apreciar a vista e fazer um lanche, afinal de contas, a tarde já vai pela metade e a nossa água tem que ser racionada, já que havíamos pego apenas 1 litro por pessoa.
Estamos a pouco mais de 900 metros de altitude, que são mais ou menos as altitudes médias dos relevos das elevações do interior Paulista, principalmente nesses chapadões. Aqui no mirante da Pedra do Gorila é praticamente as bordas norte do Itaquerí, como se estivesse na beirada do mundo. É um cenário belíssimo, onde dá para avistar vários morros testemunhos, tanto que, num cenário isolado, quem não está acostumado com a paisagem pode achar que está, guardando as devidas proporções, na chapada Diamantina.
O sol está realmente muito quente. Depois de umas belas fotos encima da formação rochosa, apanhamos nossas mochilas e partimos. E poderíamos voltar pelo mesmo lugar, para depois voltarmos a interceptar o caminho que nos levaria para a trilha de acesso para dentro do cânion, mas resolvemos voltar por outro caminho, dessa vez vamos nos apegar as bordas do cânion que está do nosso lado direito e não vamos largar mais dela. No início apenas uma trilha, que depois se transforma quase numa estradinha, que vai subir e descer, passando entre os eucaliptos e a mata. Serão 3 km penosos diante da temperatura altíssima, até que do lado direito, um rasgo na floresta nos indica que chegamos ao caminho que procurávamos.
Estamos agora na conhecida TRILHA DO LISINHO, uma trilha usada pelo pessoal do motocross e que praticamente ficou imprestável até para bicicleta, onde se formaram inúmeras valas por causa da erosão e hoje, até passar a pé ficou complicado, mas é por onde nós vamos seguir. É um caminho extremamente liso em alguns momentos, mas pelo menos a sombra da floresta nos ajuda a aguentar a temperatura. Em alguns momentos eu abandono a trilha e prefiro varar um pouco de mato, mas essa também é uma floresta espinhenta, então me contento com os escorregões. Meia hora depois desembocamos no Rio Passa Cinco, estamos finalmente dentro do Cânion.
No ano passado, quando aqui estivemos, o rio era só um arremedo, um palmo de água espalhado no seu leito, mas hoje não, hoje está bufando e até correnteza tem. Não há outra coisa a fazer, tiramos a roupa e pulamos para dentro dele e lá ficamos, arrefecendo a temperatura, deixando a água nos levar pela força do rio, afinal de conta, foi para isso que viemos, para nos entregarmos ao lúdico, sem pressa, sem dar satisfação ao tempo.
Agora temos 2 caminhos a seguir, um do lado esquerdo do rio e um do lado direito. Da outra vez que aqui tivemos, por estarmos de bicicleta, fomos barrados do lado esquerdo subindo o rio e quando tentamos a trilha do lado direito, já não tínhamos mais tempo para ir tentar achar as grandes cachoeiras, então abortamos, mas dessa vez como estamos a pé, o lado esquerdo foi o escolhido. Avançamos por uma trilha consolidada, mas do nada ela começa a desaparecer, cruza um outro afluente e simplesmente começa a subir como quem vai subir de volta para as bordas do cânion, aí tivemos que reconsiderar. Aqueles caminhos pareciam mesmo não levar a lugar nenhum, então tomamos a decisão de abandonar em definitivo e tentar a margem direita. Cruzamos por um brejo, atravessamos o rio e nos vimos cercados por uma floresta de goiabeiras, carregadas com a fruta, que aproveitamos para matar a fome.
Outro arremedo de trilha foi encontrado, mas logo à frente já se perdeu e toca a gente voltar a varar mato até que bem lá na frente, finalmente interceptamos a trilha principal que vem lá da sede da FAZENDA ABANDONADA, que é justamente o caminho que deveríamos ter pego desde o começo. E a trilha é realmente quase uma avenida, que vai atravessando o rio de um lado para o outro várias vezes e talvez venha daí o nome do cânion, por transpormos o rio 5 vezes. Em alguns momentos o próprio rio é o caminho e entre algumas subidas de pedras, vamos nos aprofundando cada vez mais para dentro do cânion, vendo os paredões se fechar sob nossas cabeças, até que interceptamos um grande desmoronamento do lado direito, que marca nossa chegada aos pés das grandes cachoeiras.
Já é finalzinho de tarde e por sorte o sol ainda brilha com força. A partir de quando interceptamos o rio, já andamos quase 2,5 km dentro do cânion e a chegada às CACHOIERAS DO PASSA CINCO é um verdadeiro espanto, porque é a primeira vez que botamos os olhos na queda principal, aquela que despenca bem do fundo vale, que não foi possível enxergar lá de cima do mirante, porque a cachoeira que avistamos é a cachoeira lateral, igualmente bela, mas nem se compara a queda principal.
(Segunda queda da PASSA CINCO)
Aliás, daqui de dentro do vale, nem é possível avistar toda a queda lateral, pelo menos do ângulo de chegada, mas a queda principal, essa sim me surpreendeu, e fico me perguntando porque levei tanto tempo para visita-la, um cenário mágico, totalmente isolada e naquela tarde, um espetáculo contemplado por apenas eu e o Dema, mesmo em uma segunda feira de carnaval. A GRANDE PASSA CINCO, é uma cachoeira com 2 quedas, onde a principal deve ter uns 70 m de altura e a segundo beirando uns 30 metros, mas lá de baixo, parece muito mais. Na queda inferior, forma um lago, que deve ser profundo, mas que nem chegamos a entrar, porque queríamos concentrar nossos esforços na queda superior, mas ainda não sabíamos se seria possível escalar o paredão para ter acesso a ela, já a outra queda lateral, que obviamente é proveniente de outro rio, só é possível ver o salto inferior, que deve ter uns 15 ou 20 metros e que despenca bem ao lado da outra.
Eu e o Dema ficamos analisando o grande paredão do lado esquerdo da queda principal e decidimos que seria por lá que tentaríamos ir ao salto superior, mas decidimos subir de mochila, achamos que não era hora de largarmos nossos equipamentos. Uma névoa aspersava água sobre a gente e sobre o barranco, deixando tudo escorregadio, mas logo no começo da subida, localizamos um arremedo de corda, que nos elevou até um patamar bem mais acima, mas quem fez o trabalho, fez pela metade, porque o próximo lance já tivemos que subir escalaminhando, confiando num tronco podre e liso e quando chegamos mais acima, aí a coisa ficou feia de vez, porque a parede empinou, sem corda, sem tronco, aí tivemos que parar para analisar como seria a subida.
O Dema resolveu meter o louco, agarrou na parede com unhas e dentes e se elevou metro à metro, enquanto eu dava um apoio psicológico lá de baixo. Não que fosse muito alto, mas uma queda ali e a coisa ficava feia. Na minha vez de subir, já não tinha ninguém para tentar me amparar caso eu despencasse, por isso dei uma refugada no começo, mas logo o Dema conseguiu me dar um apoio de mão, para que eu conseguisse me elevar e me segurar numa raiz podre logo acima. A partir dali, foi contornar pela direita, com todo cuidado para não despencar no vazio, e ficar diante de um dos maiores espetáculos da Serra do Itaqueri, a CACHOEIRA DO PASSA CINCO estava vencida.
Enfrente a grande queda, que despenca para dentro de um poço profundo, um mirante alto nos dá abrigo da água que se espalha para quase todos os lados e foi ali que deixamos nossas mochilas. É um turbilhão de água que se joga num dos saltos mais legais da região, por ser algo exclusivo, provavelmente é daqueles lugares que meia dúzia ira chegar por trilha e pela força da água, até com rapel não é uma tarefa fácil.
Para quem olha para cor da água, pode se decepcionar, claro, estamos em terreno basáltico , avermelhado, então o fundo do rio vai refletir uma agua cor de barro, não muito bonita de ver, mas se olharmos pelo ângulo da geologia, iremos desprezar essa primeira impressão e se olharmos pelo ângulo da aventura, já irão ver eu , me jogando para dentro do poço, de roupa e tudo, extasiado com aquele momento, sendo chacoalhado pela força da natureza, que faz o vento bater nas paredes do cânion , girando a água e quem lá dento estiver. Logo o Dema abandona tudo e vem me fazer companhia e aí somos duas crianças largadas embaixo daquele monstro aquático, vendo um arco-íris que passa sobre nossas cabeças em um daqueles momentos que a gente se dá conta de que o passeio valeu cada gota de suor derramado.
( Poço da queda principal da Passa Cinco)
Mas antes de retornar, ainda faltava conhecer a PARTE SUPERIOR DA CACHOIERA LATERAL, que obviamente não da nem para ver lá de baixo e aproveitando que estávamos ali, subimos o barranco da direita e fomos varando mato lateralmente, com todo cuidado para não escorregar, até que conseguimos descer o barranco e nos pormos praticamente embaixo da queda de uns 50 metros de salto, outro espetáculo impressionante. Não era exatamente embaixo da queda, mas num patamar uns 5 metros mais abaixo, o que nos deixava com visão total dela despencando e até tentamos chegar onde o salto caia, mas erramos o lado e perdemos tempo, sem conseguir descer, mas já estávamos satisfeitos com mais esse presente , então tomamos o caminho de volta, apanhamos nossas mochilas e descemos a ribanceira, mas dessa vez, usamos a nossa cordinha para baixar com segurança e rapidamente estávamos de volta ao início das quedas, já de volta a trilha.
( Queda superior da CACHOEIRA lateral)
A nossa intenção era acampar perto das grandes cachoeiras, para isso havíamos levado as redes e o toldo, mas ali era um lugar totalmente imprestável para acampar com um certo conforto, então resolvemos voltar pela trilha e procurar um lugar para acampar na parte mais plana, mais ou menos onde havíamos interceptado a trilha principal. E a volta foi rápida, porque agora já sabíamos o caminho largo e desimpedido e quando chegamos a uns 500 m da sede da fazenda abandonada, nos deparamos com uma clareira maravilhosa e ali demos por encerrado nosso dia intenso de caminhadas, jogamos as mochilas no chão, montamos nossas redes e fomos cuidar do jantar enquanto ainda tínhamos luz do sol.
Logo cedo estávamos de pé, mas não fizemos enforco nenhum para voltar à caminhada, nos envolvemos em bater papo e jogar conversa fora, enquanto tomávamos um café mais demorado e só após isso, nos animamos a desmontar nossas redes e partir. É mais um lindo dia de sol e agora vamos percorrendo o cânion de volta, mas não andamos nem 500 metros pela larga trilha que nos levaria até a sede da fazenda abandonada e quando interceptamos uma grande moita de bambu junto a um brejo, fomos obrigados a nos deter por um instante.
No ano passado, sem conhecer, tentei achar um caminho que nos levasse para fora do cânion, do lado oposto por onde entramos, justamente nesse mesmo local, mas como estávamos de bicicleta, acabei não encontrando caminho algum, mas desta vez estava convicto de que o caminho existia, mas se não houvesse, avançaríamos nem que fosse varando mato parede acima. E realmente, atrás da moita de bambu, um caminho de vaca nos conduz para a beirada do paredão e entre moitas de capim alto, localizamos um sulco de trilha, onde forcei passagem e lá estava ele, um caminho largo, quase uma estradinha. A trilha vai ziguezagueando, abrindo passagem no terreno, quase umas voçorocas, mas perfeitamente passável até para bicicletas e meia hora depois, saímos acima, bem nos pastos, estamos fora do cânion, estamos de volta ao alto dos chapadões da Serra do Itaquerí.
E a visão daqui de cima é lindíssima, inclusive dá para ver a saída do cânion que se abre muito, porque os paredões se afastam, nos apresentando largas vistas dos baixios que rodeiam a serra em que estamos. Agora, nos valendo do terreno quase plano e das pastagens e de terras agricultáveis, vamos nos manter ao lado do cânion, que estará do nosso lado esquerdo, porque vamos nos dirigindo para interceptar os riachos que se jogam para dentro dele, os formadores das grandes quedas do Passa Cinco.
Algumas cercas são puladas, outras passamos nos arrastando por baixo, divisas de propriedades que se estendem até as bordas dos paredões, por certo deverá haver um caminho mais fácil e direto, mas não estamos a fim de procurar. O primeiro riacho é cruzado e esse também deve formar uma cachoeira alta, mas quando estamos enfiados no cânion, não conseguimos nos dar conta, mas logo à frente, somo obrigados a nos afastar das bordas e interceptamos o outro riacho que forma a cachoeira lateral e aí nos aproximamos dos abismos para vê-lo se jogar no vazio.
Claro, ainda nos falta o rio principal, o verdadeiro RIO PASSA CINCO, aquele que entra bem no começo do cânion, o próprio rio que forma a Cachoeira São José, aquela junto ao famoso Bar São Valentim. Eu e o Dema atravessamos o rio para a outra margem e ao nos aproximarmos de uma grande árvore, é possível ver o rio despencar de uma altura colossal para dentro do lago que tomamos banho no dia anterior.
Do topo da grande queda, o horizonte se alargou e nos deixa ver toda a extensão do cânion, inclusive a GRANDE CACHOIERA LATERAL ou parte dela. E é incrível como sobrou somente a vegetação nativa do vale e mais incrível ainda é poder usufruir dessa maravilha sem ter que dar satisfação a ninguém, coisa rara no polo eco turístico de Brotas, que quase faz divisa das terras que estamos, porque tudo é controlado, onde é preciso vender um rim para acessar as cachoeiras e aqui é território livre.
O dia já vai pela metade, então nos despedimos do rio e ganhamos novamente a estrada que nos levou até o Bar São Valentim, onde encomendamos uns espetinhos e fomos nadar na Cachoeira São José, já que a entrada também é gratuita. Não é uma cachoeira alta e a água tem um aspecto escuro, mas não suja, como eu disse, o solo basáltico reflete a cor avermelhada, mas o calor está sufocante, hora de esquecer tudo e se jogar para dentro do poço, lavar a alma e comemorar a caminhada bem-sucedida.
( Cachoeira SÃO JOSÉ)
A SERRA DO ITAQUERÍ, que faz parte também do roteiro da CHAPADA GUARANÍ, no interior de São Paulo, é daqueles lugares que o turismo de massa ainda desconhece, porque se voltam mais para a região de Brotas e esse isolamento torna o lugar mais especial ainda, onde é possível visitar cavernas, cânions, cachoeiras, morros testemunhos, nadar em lagoas, fazer rapel, andar de 4x4, de bicicleta, de moto, a pé, fazer trilhas, travessias, enfim um mundo voltado para a aventura mais raiz e autentica, pequenos vilarejos charmosos que ainda é capaz de conquistar pela beleza e simplicidade.
Quando estivemos na região, no ano passado, tentamos acessar as grandes quedas do Rio Passa Cinco, mas estávamos de bicicleta e fomos barrados pelo tempo e por uma trilha fechada que nos fez enfiar a viola no saco e dar meia volta e ainda, desconhecendo um maneira de sair de dentro do cânion pelos paredões laterais e não querendo retornar pela mesma trilha cretina que o acessamos, fomos obrigados a dar a volta em toda a serra e voltamos arrastando a língua no chão, desembocando novamente em Ipeúna por volta das nove da noite, dois farrapos humanos humilhados por um terreno cruel, composto por muito areia, pedras e trilhas erodidas. Ficou aquele gostinho de quero mais, apesar do encanto de uma das regiões mais legais para pedalar e praticar todo tipo de fora de estrada, então eu já havia decidido que numa próxima oportunidade, meteria uma mochila nas costas e dessa vez iria fazer o que sei de melhor, usar apenas minhas pernas para próxima aventura na Serra do Itaquerí.
A semana que antecedeu a nossa partida foi de muita chuva e aí formou-se o clima ideal para que pudéssemos pegar as cachoeiras com um bom volume de água, então numa segunda feira de carnaval, apanhei o DEMA na casa dos pais dele e rumamos para Ipeúna no velho NIVA 4X4 , que a muito tempo não saia da garagem. Uma viagem tranquila de não mais de 80 km, nos leva praticamente para o quintal de casa, já que subir a Serra do Itaquerí ou parte da CHAPADA GUARANÍ, já tem se tornado coisa corriqueira, nosso parque de diversões locais.
( Serra do Itaquerí)
Ainda é muito cedo quando desembocamos na minúscula cidade, pacata e vazia como sempre. Sem perder tempo, apontamos nosso nariz para os chapadões de arenito e basalto, onde a Pedra do índio é nossa referência e logo ganhamos as estradinhas de areia e vamos vagarosamente nos deliciando com o visual característico da região e somos obrigados a nos deter por uns minutos para uma foto clássica dos paredões vermelhos, antes mesmo de começar a subida da serra.
Na subida da Serra, engato a reduzida e o Niva desfila suave, comendo cada metro de buraco. Mas a estada piorou muito nos últimos tempos, fazendo com que rochas gigantes ficassem expostas e numa delas, dou uma bobeira e deixo a bruto escapar para um buraco e uma dessas rochas atingi em cheio um braço da suspenção, que se rompe do assoalho. Descemos do carro mais à frente, bem na derradeira curva da serrinha, onde poderíamos pegar uma trilha a pé e irmos visitar as sensacionais grutas , mas como já estamos atrasados, só damos/abcdn.aventurebox.com/production/uf/563f5bb456051/adventure/6997328f0abc7/report/6998c3fb731be.jpg)
uma olhada nas avarias e vendo que daria para prosseguir, mesmo que devagar, tocamos em frente e ao chegar numa bifurcação em “T”, viramos à direita, assim como na próxima bifurcação e tomamos a direção que vai passar por uma floresta de eucaliptos e nos levar direto para a Cachoeira da lapinha ou do Carro Caído.
( Cachoiera da Lapinha ou Carro Caído)
Muitos anos atrás, empreendemos uma jornada partindo la das grutas de arenito e subindo todo o cânion da Lapinha, até nos pormos embaixo da grande cachoeira, mas na ocasião, a encontramos com pouquíssima água, mas hoje ela está bufando, certamente seria lindo vê-la desse jeito lá de baixo, mas não vai ser hoje, pois nosso objetivo dessa vez, são outras cachoeiras maiores ainda, então sacamos uma foto e partimos.
O caminho agora é por dentro das florestas de eucaliptos e mais uma vez, na próxima bifurcação, vamos seguir para a esquerda, em direção às placas que indicam o caminho da Cachoeira São José. Daqui para frente, sempre haverá uma placa e quando acabam os eucaliptos, se abre um mundo ensolarado, com propriedades bonitas, com lagoas pitorescas, até que estacionamos num gramado verdinho, junto ao BAR SÃO VALENTIM, a propriedade que guarda a própria CACHOEIRA SÃO JOSÉ e vejam só, com entrada gratuita e por aqui deixaremos nosso jeep estacionado pelos próximos dois dias, agora a nossa jornada continua a pé.
A nossa intenção era acampar dentro do cânion, então abastecemos nossas cargueiras com equipamentos para pernoite, mas ao invés de uma barraquinha, optaremos por redes e toldos. Estacionado o jeep ao lado do bar, numa área meio neutra, nem nos demos ao trabalho de passar no bar e deixaremos para fazer isso na volta. Tomamos imediatamente a continuação da estrada e 5 minutos à frente, vamos ignorar o ramal da esquerda, que é a estrada principal, por onde chegam os carros que não tem tração nas 4 rodas e sobem o caminho por São Pedro. Agora vamos seguir justamente pelas bordas do Cânion Passa Cinco, que estará a nossa esquerda e que em mais 2 minutos, o nosso caminho vai interceptar um MIRANTE, que surpreendentemente vai nos dar uma visão geral para dentro do próprio cânion, onde é possível avistar do lado oposto, uma CACHOEIRA despencando de uns 100 metros de altura, numa das mais belas visões da Serra do Itaquerí.
( Cachoeira lateral do Cânion PASSA CINCO)
E é realmente um assombro de bonito e o meu maior espanto é que uns 15 anos atrás, eu estive no Bar São Valentim acompanhado com a minha filha e nem me dei conta de que existiria esse vale encantador, já que havíamos atolado o próprio Niva ao vir por outro caminho e quando chegamos no bar e na cachoeira do bar, estava fechado, então demos meia volta e retornamos sem saber da existência dessa maravilha. Outra coisa que só saberíamos no dia seguinte, é que aquela cachoeira maravilhosa, que víamos do mirante, nem era a queda principal e que a verdadeira queda do PASSA CINCO, estava escondida no fundo do vale e que não conseguimos ver também, quando estivemos ano passado tentando alcançá-la no passeio de bicicleta.
Abandonamos o mirante e continuamos seguindo pela estradinha, que vai bordejar o cânion, entre mata nativa e plantações de eucaliptos. Vamos caminhar por cerca de quase 2 km junto ao vale e logo depois de passarmos por um grande bambuzal, vamos virar à esquerda e nos manter firmes na principal, inclusive, desprezando uma saída a esquerda e 700 metros depois, andando por dentro de uma floresta de eucaliptos, vamos continuar subindo, sempre para noroeste, desconsiderando outras saídas, tanto para esquerda, quanto para direita, até que a própria estrada vai se aproximar novamente das bordas do cânion, que ainda continua à nossa esquerda e chegaremos a uma espécie de estacionamento e logo a frente, um arremedo de trilha nos leva ao MIRANTE DA PEDRA DO GORILA.
( PEDRA DO GORILA)
De onde paramos nosso carro, até o Gorila, são exatamente 5 KM, com as paradas, num caminhar lento e descompromissado diante de um sol que beirava uns 35 graus de temperatura, gastamos quase duas horas de pernadas, hora de parar para apreciar a vista e fazer um lanche, afinal de contas, a tarde já vai pela metade e a nossa água tem que ser racionada, já que havíamos pego apenas 1 litro por pessoa.
Estamos a pouco mais de 900 metros de altitude, que são mais ou menos as altitudes médias dos relevos das elevações do interior Paulista, principalmente nesses chapadões. Aqui no mirante da Pedra do Gorila é praticamente as bordas norte do Itaquerí, como se estivesse na beirada do mundo. É um cenário belíssimo, onde dá para avistar vários morros testemunhos, tanto que, num cenário isolado, quem não está acostumado com a paisagem pode achar que está, guardando as devidas proporções, na chapada Diamantina.
O sol está realmente muito quente. Depois de umas belas fotos encima da formação rochosa, apanhamos nossas mochilas e partimos. E poderíamos voltar pelo mesmo lugar, para depois voltarmos a interceptar o caminho que nos levaria para a trilha de acesso para dentro do cânion, mas resolvemos voltar por outro caminho, dessa vez vamos nos apegar as bordas do cânion que está do nosso lado direito e não vamos largar mais dela. No início apenas uma trilha, que depois se transforma quase numa estradinha, que vai subir e descer, passando entre os eucaliptos e a mata. Serão 3 km penosos diante da temperatura altíssima, até que do lado direito, um rasgo na floresta nos indica que chegamos ao caminho que procurávamos.
Estamos agora na conhecida TRILHA DO LISINHO, uma trilha usada pelo pessoal do motocross e que praticamente ficou imprestável até para bicicleta, onde se formaram inúmeras valas por causa da erosão e hoje, até passar a pé ficou complicado, mas é por onde nós vamos seguir. É um caminho extremamente liso em alguns momentos, mas pelo menos a sombra da floresta nos ajuda a aguentar a temperatura. Em alguns momentos eu abandono a trilha e prefiro varar um pouco de mato, mas essa também é uma floresta espinhenta, então me contento com os escorregões. Meia hora depois desembocamos no Rio Passa Cinco, estamos finalmente dentro do Cânion.
No ano passado, quando aqui estivemos, o rio era só um arremedo, um palmo de água espalhado no seu leito, mas hoje não, hoje está bufando e até correnteza tem. Não há outra coisa a fazer, tiramos a roupa e pulamos para dentro dele e lá ficamos, arrefecendo a temperatura, deixando a água nos levar pela força do rio, afinal de conta, foi para isso que viemos, para nos entregarmos ao lúdico, sem pressa, sem dar satisfação ao tempo.
Agora temos 2 caminhos a seguir, um do lado esquerdo do rio e um do lado direito. Da outra vez que aqui tivemos, por estarmos de bicicleta, fomos barrados do lado esquerdo subindo o rio e quando tentamos a trilha do lado direito, já não tínhamos mais tempo para ir tentar achar as grandes cachoeiras, então abortamos, mas dessa vez como estamos a pé, o lado esquerdo foi o escolhido. Avançamos por uma trilha consolidada, mas do nada ela começa a desaparecer, cruza um outro afluente e simplesmente começa a subir como quem vai subir de volta para as bordas do cânion, aí tivemos que reconsiderar. Aqueles caminhos pareciam mesmo não levar a lugar nenhum, então tomamos a decisão de abandonar em definitivo e tentar a margem direita. Cruzamos por um brejo, atravessamos o rio e nos vimos cercados por uma floresta de goiabeiras, carregadas com a fruta, que aproveitamos para matar a fome.
Outro arremedo de trilha foi encontrado, mas logo à frente já se perdeu e toca a gente voltar a varar mato até que bem lá na frente, finalmente interceptamos a trilha principal que vem lá da sede da FAZENDA ABANDONADA, que é justamente o caminho que deveríamos ter pego desde o começo. E a trilha é realmente quase uma avenida, que vai atravessando o rio de um lado para o outro várias vezes e talvez venha daí o nome do cânion, por transpormos o rio 5 vezes. Em alguns momentos o próprio rio é o caminho e entre algumas subidas de pedras, vamos nos aprofundando cada vez mais para dentro do cânion, vendo os paredões se fechar sob nossas cabeças, até que interceptamos um grande desmoronamento do lado direito, que marca nossa chegada aos pés das grandes cachoeiras.
Já é finalzinho de tarde e por sorte o sol ainda brilha com força. A partir de quando interceptamos o rio, já andamos quase 2,5 km dentro do cânion e a chegada às CACHOIERAS DO PASSA CINCO é um verdadeiro espanto, porque é a primeira vez que botamos os olhos na queda principal, aquela que despenca bem do fundo vale, que não foi possível enxergar lá de cima do mirante, porque a cachoeira que avistamos é a cachoeira lateral, igualmente bela, mas nem se compara a queda principal.
(Segunda queda da PASSA CINCO)
Aliás, daqui de dentro do vale, nem é possível avistar toda a queda lateral, pelo menos do ângulo de chegada, mas a queda principal, essa sim me surpreendeu, e fico me perguntando porque levei tanto tempo para visita-la, um cenário mágico, totalmente isolada e naquela tarde, um espetáculo contemplado por apenas eu e o Dema, mesmo em uma segunda feira de carnaval. A GRANDE PASSA CINCO, é uma cachoeira com 2 quedas, onde a principal deve ter uns 70 m de altura e a segundo beirando uns 30 metros, mas lá de baixo, parece muito mais. Na queda inferior, forma um lago, que deve ser profundo, mas que nem chegamos a entrar, porque queríamos concentrar nossos esforços na queda superior, mas ainda não sabíamos se seria possível escalar o paredão para ter acesso a ela, já a outra queda lateral, que obviamente é proveniente de outro rio, só é possível ver o salto inferior, que deve ter uns 15 ou 20 metros e que despenca bem ao lado da outra.
Eu e o Dema ficamos analisando o grande paredão do lado esquerdo da queda principal e decidimos que seria por lá que tentaríamos ir ao salto superior, mas decidimos subir de mochila, achamos que não era hora de largarmos nossos equipamentos. Uma névoa aspersava água sobre a gente e sobre o barranco, deixando tudo escorregadio, mas logo no começo da subida, localizamos um arremedo de corda, que nos elevou até um patamar bem mais acima, mas quem fez o trabalho, fez pela metade, porque o próximo lance já tivemos que subir escalaminhando, confiando num tronco podre e liso e quando chegamos mais acima, aí a coisa ficou feia de vez, porque a parede empinou, sem corda, sem tronco, aí tivemos que parar para analisar como seria a subida.
O Dema resolveu meter o louco, agarrou na parede com unhas e dentes e se elevou metro à metro, enquanto eu dava um apoio psicológico lá de baixo. Não que fosse muito alto, mas uma queda ali e a coisa ficava feia. Na minha vez de subir, já não tinha ninguém para tentar me amparar caso eu despencasse, por isso dei uma refugada no começo, mas logo o Dema conseguiu me dar um apoio de mão, para que eu conseguisse me elevar e me segurar numa raiz podre logo acima. A partir dali, foi contornar pela direita, com todo cuidado para não despencar no vazio, e ficar diante de um dos maiores espetáculos da Serra do Itaqueri, a CACHOEIRA DO PASSA CINCO estava vencida.
Enfrente a grande queda, que despenca para dentro de um poço profundo, um mirante alto nos dá abrigo da água que se espalha para quase todos os lados e foi ali que deixamos nossas mochilas. É um turbilhão de água que se joga num dos saltos mais legais da região, por ser algo exclusivo, provavelmente é daqueles lugares que meia dúzia ira chegar por trilha e pela força da água, até com rapel não é uma tarefa fácil.
Para quem olha para cor da água, pode se decepcionar, claro, estamos em terreno basáltico , avermelhado, então o fundo do rio vai refletir uma agua cor de barro, não muito bonita de ver, mas se olharmos pelo ângulo da geologia, iremos desprezar essa primeira impressão e se olharmos pelo ângulo da aventura, já irão ver eu , me jogando para dentro do poço, de roupa e tudo, extasiado com aquele momento, sendo chacoalhado pela força da natureza, que faz o vento bater nas paredes do cânion , girando a água e quem lá dento estiver. Logo o Dema abandona tudo e vem me fazer companhia e aí somos duas crianças largadas embaixo daquele monstro aquático, vendo um arco-íris que passa sobre nossas cabeças em um daqueles momentos que a gente se dá conta de que o passeio valeu cada gota de suor derramado.
( Poço da queda principal da Passa Cinco)
Mas antes de retornar, ainda faltava conhecer a PARTE SUPERIOR DA CACHOIERA LATERAL, que obviamente não da nem para ver lá de baixo e aproveitando que estávamos ali, subimos o barranco da direita e fomos varando mato lateralmente, com todo cuidado para não escorregar, até que conseguimos descer o barranco e nos pormos praticamente embaixo da queda de uns 50 metros de salto, outro espetáculo impressionante. Não era exatamente embaixo da queda, mas num patamar uns 5 metros mais abaixo, o que nos deixava com visão total dela despencando e até tentamos chegar onde o salto caia, mas erramos o lado e perdemos tempo, sem conseguir descer, mas já estávamos satisfeitos com mais esse presente , então tomamos o caminho de volta, apanhamos nossas mochilas e descemos a ribanceira, mas dessa vez, usamos a nossa cordinha para baixar com segurança e rapidamente estávamos de volta ao início das quedas, já de volta a trilha.
( Queda superior da CACHOEIRA lateral)
A nossa intenção era acampar perto das grandes cachoeiras, para isso havíamos levado as redes e o toldo, mas ali era um lugar totalmente imprestável para acampar com um certo conforto, então resolvemos voltar pela trilha e procurar um lugar para acampar na parte mais plana, mais ou menos onde havíamos interceptado a trilha principal. E a volta foi rápida, porque agora já sabíamos o caminho largo e desimpedido e quando chegamos a uns 500 m da sede da fazenda abandonada, nos deparamos com uma clareira maravilhosa e ali demos por encerrado nosso dia intenso de caminhadas, jogamos as mochilas no chão, montamos nossas redes e fomos cuidar do jantar enquanto ainda tínhamos luz do sol.
Logo cedo estávamos de pé, mas não fizemos enforco nenhum para voltar à caminhada, nos envolvemos em bater papo e jogar conversa fora, enquanto tomávamos um café mais demorado e só após isso, nos animamos a desmontar nossas redes e partir. É mais um lindo dia de sol e agora vamos percorrendo o cânion de volta, mas não andamos nem 500 metros pela larga trilha que nos levaria até a sede da fazenda abandonada e quando interceptamos uma grande moita de bambu junto a um brejo, fomos obrigados a nos deter por um instante.
No ano passado, sem conhecer, tentei achar um caminho que nos levasse para fora do cânion, do lado oposto por onde entramos, justamente nesse mesmo local, mas como estávamos de bicicleta, acabei não encontrando caminho algum, mas desta vez estava convicto de que o caminho existia, mas se não houvesse, avançaríamos nem que fosse varando mato parede acima. E realmente, atrás da moita de bambu, um caminho de vaca nos conduz para a beirada do paredão e entre moitas de capim alto, localizamos um sulco de trilha, onde forcei passagem e lá estava ele, um caminho largo, quase uma estradinha. A trilha vai ziguezagueando, abrindo passagem no terreno, quase umas voçorocas, mas perfeitamente passável até para bicicletas e meia hora depois, saímos acima, bem nos pastos, estamos fora do cânion, estamos de volta ao alto dos chapadões da Serra do Itaquerí.
E a visão daqui de cima é lindíssima, inclusive dá para ver a saída do cânion que se abre muito, porque os paredões se afastam, nos apresentando largas vistas dos baixios que rodeiam a serra em que estamos. Agora, nos valendo do terreno quase plano e das pastagens e de terras agricultáveis, vamos nos manter ao lado do cânion, que estará do nosso lado esquerdo, porque vamos nos dirigindo para interceptar os riachos que se jogam para dentro dele, os formadores das grandes quedas do Passa Cinco.
Algumas cercas são puladas, outras passamos nos arrastando por baixo, divisas de propriedades que se estendem até as bordas dos paredões, por certo deverá haver um caminho mais fácil e direto, mas não estamos a fim de procurar. O primeiro riacho é cruzado e esse também deve formar uma cachoeira alta, mas quando estamos enfiados no cânion, não conseguimos nos dar conta, mas logo à frente, somo obrigados a nos afastar das bordas e interceptamos o outro riacho que forma a cachoeira lateral e aí nos aproximamos dos abismos para vê-lo se jogar no vazio.
Claro, ainda nos falta o rio principal, o verdadeiro RIO PASSA CINCO, aquele que entra bem no começo do cânion, o próprio rio que forma a Cachoeira São José, aquela junto ao famoso Bar São Valentim. Eu e o Dema atravessamos o rio para a outra margem e ao nos aproximarmos de uma grande árvore, é possível ver o rio despencar de uma altura colossal para dentro do lago que tomamos banho no dia anterior.
Do topo da grande queda, o horizonte se alargou e nos deixa ver toda a extensão do cânion, inclusive a GRANDE CACHOIERA LATERAL ou parte dela. E é incrível como sobrou somente a vegetação nativa do vale e mais incrível ainda é poder usufruir dessa maravilha sem ter que dar satisfação a ninguém, coisa rara no polo eco turístico de Brotas, que quase faz divisa das terras que estamos, porque tudo é controlado, onde é preciso vender um rim para acessar as cachoeiras e aqui é território livre.
O dia já vai pela metade, então nos despedimos do rio e ganhamos novamente a estrada que nos levou até o Bar São Valentim, onde encomendamos uns espetinhos e fomos nadar na Cachoeira São José, já que a entrada também é gratuita. Não é uma cachoeira alta e a água tem um aspecto escuro, mas não suja, como eu disse, o solo basáltico reflete a cor avermelhada, mas o calor está sufocante, hora de esquecer tudo e se jogar para dentro do poço, lavar a alma e comemorar a caminhada bem-sucedida.
( Cachoeira SÃO JOSÉ)
A SERRA DO ITAQUERÍ, que faz parte também do roteiro da CHAPADA GUARANÍ, no interior de São Paulo, é daqueles lugares que o turismo de massa ainda desconhece, porque se voltam mais para a região de Brotas e esse isolamento torna o lugar mais especial ainda, onde é possível visitar cavernas, cânions, cachoeiras, morros testemunhos, nadar em lagoas, fazer rapel, andar de 4x4, de bicicleta, de moto, a pé, fazer trilhas, travessias, enfim um mundo voltado para a aventura mais raiz e autentica, pequenos vilarejos charmosos que ainda é capaz de conquistar pela beleza e simplicidade.
Fevereiro/2026
Editado por DIVANEI