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EXPEDIÇÃO QUEIMADA DO FRADE: Série 30 anos de Montanhismo( relato 2020)

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QUEIMADA DO FRADE – Ilhabela-SP

............................ Pouco antes das quatro da tarde, o homem que arrastou o último pedaço de corda, se livra dela, galga o último cocuruto e ascende ao cume, solta um grunhido seguido por um palavrão meio que inaudível pela sua voz embargada. Aos pés da parede que antecedem o topo, eu e o Thiaguinho nos cumprimentamos acaloradamente, enquanto Paulo Potenza ainda está suspenso na corda. Pouco abaixo de onde estamos, Morato tenta consolar a Lu Dep que simplesmente se desmancha de tanto chorar, como a se livrar da tenção que antecedeu a expedição, que agora está próxima de ter um fim glorioso.......... ..........

Voltando de uma outra expedição até um pico selvagem na região da Praia do Bonete, nosso barco chacoalha de um lado para o outro, enquanto nossos olhos não conseguem se despregar da grandiosidade da serra e das montanhas que nos cercam:

- Que montanha extraordinária é aquela Thiaguinho?

- Aquele rochoso é a Queimada do Frade, Diva. Mas acho difícil conseguir bater cume sem equipamentos de escalada.

- Porra Thiaguinho, parece haver uma linha de árvores, talvez encontremos uma rota viável até o cume.

- Pois é Diva, só tem um jeito de descobrir, indo lá.

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Aquela montanha foi capaz de me desconsertar e é incrível que das muitas vezes que estive na região da Ilhabela, eu nunca havia botado os olhos nela, ou porque estava na trilha, onde não é possível vê-la, ou porque estava sempre encoberta pelas nuvens . O certo é que aquela primeira conversa foi o estopim para me tirar da zona de conforto e procurar informações sobre a montanha. As pesquisas não me levaram a lugar nenhum. Não havia nada, nenhuma informação de que houvesse alguma trilha ou que alguém já tivesse ascendido ao cume. Vasculhei toda a rede de computadores, busquei informações com outros montanhistas e a grande maioria esmagadora, nem sabia do que eu estava falando. Os mapas de satélites apresentaram uma coincidência absurda e as próprias cartas topográficas apontaram cume em lugares diferentes, numa altitude aproximada de 931 metros. Parece pouco, principalmente para quem não conhece as montanhas da Serra do Mar Paulista, mas são picos selvagens, cercados de mistérios e guardados por uma vegetação criada por satanás, onde bambus, cipós espinhudos, pedras gigantes, cobras venenosas e uma variedade de obstáculos, fazem dessas montanhas as mais difíceis de serem subidas no país.

A vida seguiu, o Queimada do Frade foi deixada de lado e alguns meses atrás, um convite do próprio Thiaguinho para subir uma montanha selvagem que fica justamente atrás da Queimada, nos fez novamente voltarmos nossos olhos para ele:

No meio das nuvens, como um fantasma que surge do além, aquela montanha foi se materializando aos poucos diante dos nossos olhos. Já era final de tarde e a gente havia enfrentado um dia duro varando mato, na tentativa de alcançar o cume do Pico do Papagaio, mas era justamente o ASSOMBRO DO QUEIMADA DO FRADE que nos hipnotizava naquele momento. Aquela montanha em forma de pirâmide era coisa mais linda que eu já havia presenciado na Serra do Mar Paulista durante esses quase 30 anos de montanhismo, tanto que passei a compará-la com o Alpamayo, a montanha mais bonita do mundo. Estávamos vendo o Queimada do Frade pela sua face desconhecida e é bem provável que ninguém ou quase ninguém conhecesse aquela face obscura, que claramente só poderia ser subida com equipamentos pesados para abrir vias de escalada.

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( Queimada do Frade visto do Papagaio)

O Encantamento com a visão do Queimada a partir do selvagem Pico do Papagaio (1307 m), reacendeu a fogueira interna de cada explorador selvagem que ali estava, mas acabou por jogar mais dúvidas ainda, se seria possível subir a face voltada para o mar sem equipamentos de escalada. O certo é que voltamos para casa e eu não parava mais de pensar naquela montanha icônica e eu que pensei que pouca coisa poderia me surpreender ainda na Serra do Mar.

Finalmente marcada a data para a tentativa de subir a montanha, chegou a hora de sentar e tentar estudar como seria a escalada até ela. Em todas as nossas Expedições, sempre priorizamos o modo SERTANISTA, que é o jeito simples e descomplicado de fazer as coisas, sem carregar grandes equipamentos técnicos, nos valendo de pequenas cordinhas tanto para ir ao cume de montanhas, quanto para as descidas de rios, mas desta vez a gente iria mudar os procedimentos, havia chegado a hora de adaptarmos os equipamentos de escalada, caso contrário as chances de fazer cume seriam mínimas, ainda mais porque grande parte do grupo já vinha se dedicando ao mundo da escalada, então ficou decidido que levaríamos uma corda de 60 metros e todos estariam munidos com os equipamentos individuais, desde cadeirinha, sapatilha, solteira e outros apetrechos relacionados ao esporte.

Do grupo que se formou para tentar subir a montanha, com exceção do Flórido, todos os outros que estavam no Papagaio confirmaram presença e os dois novos integrantes eram nada mais nada menos que o VGN Vagner e o Paulo Potenza , dois amigos das antigas que integravam o grupo de exploradores do passado e os outros 3 eram uma dupla do Paraná, os novos amigos Morato e Lu Dep , além de outro ícone das expedições selvagens, Thiago Silva, ou simplesmente Thiaguinho. E foi justamente o Thiaguinho quem se prontificou para nos levar de São Paulo para São Sebastião, onde chegamos no início da noite, bem a tempo de encontrar a dupla paranaense, que chegou logo em seguida.

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EQUIPE: atrás ( Potenza, Lu Dep e Divanei) na frente( Morato,Tiaguinho e Vagner)

Depois de um breve lanche, cruzamos o canal de São Sebastião através da BALSA que faz o percurso em menos de meia hora e nos deixa já em Ilhabela e mais 10 minutos de caminhada , já estamos estacionados no ponto de ônibus, esperando o transporte que vai para o sul da ilha, em direção a Borrifos, que já é o final da estrada e praticamente o início da trilha para a praia do Bonete.

Até então tudo parecia transcorrer na maior normalidade, ainda mais que quando o ônibus chegou, Paulo Potenza gritou:

- Diva, faz a minha aí cara, esqueci a carteira no fundo da mochila, depois te armo! E nada poderia ser mais normal que o velho golpe de esquecer a carteira no fundo da mochila (hahahahhaha, desculpe Potenza, mas eu não poderia perder a piada , heheheheheh)

Pouco mais de uma hora, esse foi o tempo que o ônibus gastou para nos desovar num fim de estrada escura, pouco depois das 11 da noite. A rota que traçamos no mapa, partindo uns 200 metros à frente, seria o momento que abandonaríamos a estrada e nos enfiaríamos no mato, num caminho aleatório, tentando encontrar uma linha de mato que pudesse ser varada com o menor esforço possível. Por sorte, depois de andar esses quase 200 metros ou menos, demos de cara com um pequeno riacho e interceptamos um caminho batido do lado esquerdo, provavelmente usado para dar manutenção em algumas mangueiras que captavam água mais acima. Então, nos valendo desse caminho e do próprio riacho, ganhamos altitude, subindo de pedra em pedra e menos de 40 minutos depois, localizamos uma excelente área para acamparmos, então jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrada nossa curta caminhada noturna.

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Bem no meio do riacho, uma enorme rocha nos chamamos para um lindo BIVAC. Nossa cama estava pronta, era só estender nossos isolantes e sacos de dormir, mas em volta, grandes árvores deram suporte para que a outra metade do grupo montasse suas redes. A noite foi agradável, apesar de estarmos no inverno, não havia previsão de chuva e o barulho do riacho embalou nosso sono até as sete da manhã.

A previsão do tempo era de temperaturas acima dos 30 graus e logo pela manhã isso se confirmou. Nossas mochilas estavam carregadas com equipamentos pesados para escalada e além disso, já saímos com mais de 3 litros de água, já que a qualquer momento sabíamos que abandonaríamos o rio. E realmente foi isso que aconteceu, não deu nem 20 minutos e o riacho que nos fazia companhia, simplesmente tomou outro rumo, então foi hora de nos despedirmos dele e cairmos fora para a direita.

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Num primeiro momento, varamos mato para leste, muito por causa de um resquício de trilha que acabamos encontrando e pensávamos que poderíamos encontrar algum rancho de caçador, mas surpreendentemente fomos cair bem no leito de outro riacho com grandes lajes. O nosso gps marcava 170 metros de altitude e já contabilizávamos mais de 1, 1 km de caminhada desde a estrada.

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Encontrar mais esse rio foi realmente uma grande sorte, já que poder avançar ganhando altitude sem ter que varar mato é algo excelente, ainda mais porque era um rio com pouca água e avanço fácil, além de muito cênico. Vez ou outra, quando o rio dava uma dificultada, conseguíamos localizar vestígios de trilha do lado esquerdo e assim que o rio aplainava novamente e as lajes se estendiam e davam passagem facilmente, voltávamos a desfilar sobre ele, até que surpreendentemente, acima dos 300 metros de altitude, demos de cara com mangueiras de captação de água, que foram instaladas dentro de um pequeno e bonito cânion.

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Subimos mais uns 300 metros, ganhando mais uns 50 de elevação, uma parede gigantesca simplesmente interrompe nosso caminho, hora de parar e aproveitarmos para fazermos um lanche antes de cairmos fora do rio, já que claramente ele não serviria mais ao nosso propósito, mas antes de abandoná-lo, resolvemos deixar nossas mochilas e subir o rio por uns 3 minutos para ver o que haveria no meio do grande cânion.

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Quando lá cheguei, os meninos já estavam. O pórtico de entrada da GRUTA era impressionante, assim como o barulho das andorinhas que reverberavam nas paredes da caverna, misturadas ao som da água que despencava na boca, transformando tudo num cenário belíssimo. Além da água que despencava na boca, provavelmente oriunda de algum afluente, o rio principal se encarregava de cavar a rocha por cima como se fosse uma verdadeira claraboia.

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Aquela formação natural foi mais um grande achado na ilha, ainda porque não dávamos nada por aquele rio, mas é assim mesmo, a Serra do Mar Paulista nunca para de nos surpreender e quanto mais nos enfiamos no coração da floresta, mais voltamos de lá com alguma paisagem inimaginável e quanto mais difícil o acesso, mais surpreendente.

Pouco depois das dez da manhã, abandonamos o rio em definitivo, mesmo porque, ele tomou o rumo que não nos serviria. Aliás, quando havíamos pego esse rio, navegamos para o norte e agora saindo à direita, voltaríamos a navegar meio para o leste novamente. Claro que olhando no traklog, vemos que fizemos uma volta, mas foi um caminho necessário para que deixássemos de enfrentar grandes vara mato, nos livrando de uma infinidade de bambus e mesmo que tenhamos andado mais, economizamos muito tempo, tanto que estávamos quase na cota 400 de altitude e havíamos andado pouco mais de 2 horas até ali. Mas agora a moleza havia acabado, chegou a hora de cair na floresta em definitivo, varar todo tipo de vegetação e aguentar mais uns 400 metros de desnível até o colo da montanha, onde definitivamente começaria a escalada e o calor estava de lascar e faria sua primeira vítima.

Surpreendentemente, apesar de um ou outro capão de bambuzinhos entrelaçados que atravessaram o nosso caminho, essa parte da ilha estava dezena de vezes melhor para varar mato, do que o caminho que havíamos feito para subir o Papagaio meses antes. E apesar de termos muitos matacões para nos livrarmos, a caminhada estava rendendo muito, avançávamos numa velocidade impressionante e talvez por empreendermos um ritmo alucinante num calor absurdo, a Lu Dep começou a ficar um pouco para trás. É certo que um ritmo forte vai minando as energias da gente, mas o fato de estarmos com uma mochila muito mais pesada que o habitual por causa dos equipos de escalada, contribui ainda mais para a estafa, mas na minha opinião, a galera paranaense tem o hábito de andar com uma mochila muito acima do peso, pelo menos parece incompatível com essa atividade por não se tratar de trilhas qualquer, mas como sempre dizemos: “ Seu luxo, seu peso” e tem o fato das individualidades, o que é bom para mim, talvez não seja para outros. O certo é que a Lu Dep se perdeu das nossas vistas por um minuto, depois de galgarmos uma grande subida e de onde estávamos, ouvimos um som abafado e ao perguntarmos do que se tratava, não recebemos mais respostas. Os meninos largaram as mochilas e retornaram imediatamente e encontraram ela desfalecida, como uma bela adormecida, mas como ali príncipes não haviam, os sapos toscos jogaram água na cara dela, que voltou a vida imediatamente.

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Decidimos distribuir partes dos equipamentos dela para aliviar o peso da mochila, o que levou a Lu Dep a ficar bem puta, já que ninguém quer se sentir um inútil que não consegue carregar nem o que trouxe, mas explicamos para ela que ali era um time e que não era porque ela era mulher, porque isso acontece com todos nós também. A subida seguiu e pouco depois das 13 horas, atingimos finalmente o colo entre uma montanha sem nome e o próprio Queimada do Frade, hora de virar definitivamente para o norte e darmos início a escalada propriamente dita, mas antes, desabamos ao lado de grandes abrigos de rochas gigantes, uma pausa para o almoço e para traçarmos um plano, a cartada final que delimitava o fracasso da gloria.

Eu estava apreensivo, havia chegado a hora crucial daquela expedição. Estávamos na cota 750 de altitude e tecnicamente, ainda sem enxergar nada além de uma sombra gigantesca perdida por entre as arvores, teríamos que tentar subir uma parede de 200 metros de desnível. Havíamos trazido uma tonelada de equipamentos de escalada, mas isso não garantia o sucesso da expedição e nem bater no cume, ainda mais se déssemos de cara com uma parede lisa. A discussão ali na hora foi acalorada, cada qual imaginava a subida por um lugar diferente, querendo adivinhar olhando os mapas de satélite, mas no fim, chegamos a um consenso, que era o de ir tocando em frente e ir resolvendo os problemas conforme eles fossem aparecendo.

Ali onde estávamos, não havia nenhum vestígio de trilha e é bem provável que a muitos anos ninguém botava os pés lá e estou me referindo a algum nativo caçador ou palmiteiro, então miramos para a encosta da parede e seguimos reto, procurando um caminho entre grandes arvores frondosas, tentando seguir uma linha de arvores, que é uma boa estratégia para podermos ganhar altitude com segurança, passamos por uma sequência de rochas e fomos ganhando altitude lentamente até que batemos numa parede gigante com uma PEDRA PARTIDA AO MEIO , de onde descia uma CORDA AZUL , tipo aquelas cordas marítimas de náilon, usadas para amarrar barcos.

Bom, ali tecnicamente começava a escalada. O fato de haver uma corda podre ali pendurada, poderia ser lido de duas maneiras: Estava claro que aquela corda que desmanchava nas mãos ao ser tocada, estava ali a mais de uma década e que foi colocada por algum nativo, não era o tipo de corda usada por montanhistas, restava saber se foi uma tentativa de algum local conquistar o cume e se realmente teriam conseguido, mas essas perguntas só poderiam ser respondidas mais para frente, dependendo da dificuldade da empreitada.

Posicionados ali, naquela PEDRA FENDADA, os meninos que iam à frente já trataram de escalar o lance e ancorar umas três fitas de escaladas, que era muito mais fácil do que esticar um pedaço de corda, por ser um lance curto. A partir desse momento, o grupo acabou se posicionando com o Vagner à frente se encarregando da escalada, sendo apoiado imediatamente pelo Potenza, que era quem dava o suporte técnico com as cordas e fitas. Na terceira colocação estava o Thiaguinho, que era o homem que carregava a corda de 60 metros e o responsável por liberara-la. Logo em seguida se posicionou o Morato e a Lu Dep e eu fechava a fila, fazendo as vezes de cu de tropa, já que a minha função era dar suporte para que a Lu conseguisse subir nas cordas, tipo uma alavanca humana para romper a inércia.

No início, sem enxergar muito o que acontecia, eu só ouvia a gemedeira de alguns diante da dificuldade de escalar o lance da CORDA AZUL, ainda mais por fazer a escalada com as mochilas às costas. A Lu Dep teve uma dificuldade, mas nada que um ombro amigo não conseguisse resolver e sendo sincero, eu achei um lance extremamente fácil e nem as fitas usei, acontece que ao invés de usar a força, ali tem que usar a perna em oposição, como se fosse subir uma chaminé na escalada clássica, tudo isso se apoiando no tronco de um pequeno arbusto logo acima, que é muito melhor do que se segurar numa fita ou em algum pedaço de corda podre.

Enfim, vencido esse lance, a subida inclina e entra numa sequência de bromélias gigantes, onde, caso precisássemos, poderíamos extrair água para uma emergência. Depois das bromélias, alguns minutinhos vamos bater de frente com uma parede desprovida de mata, um rochoso com vegetação rasteira de musgos esverdeados, onde já é óbvio que teremos que subi-la nos valendo de uma linha de pequenos arbustos que vemos a esquerda. É uma subida íngreme, como serão todas daqui para frente e é preciso ir nos agarrando onde dá para ganharmos altitude até que desembocamos em outra parede rochosa, essa totalmente intransponível.

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Nessa próxima parede, conseguimos juntar todo o grupo novamente. Era uma parede alta e certamente ter que escalar iria nos causar um problema enorme por causa da exposição e de não encontrarmos uma só árvore para fazermos uma proteção descente. O Vagner percorreu a parede para a direita e voltou “assustado” com o abismo e já avisou que era impossível prosseguir por ali. O Potenza e o Thiaguinho viraram para ESQUERDA e um deles conseguiu escalar uns 3 metros de rocha e conseguiu ancorar as fitas num arbusto. E esse era mesmo o caminho, ao dar de frente com a parede intransponível, tem que percorrer uns 15 metros para a esquerda, beirando a rocha mesmo e subir para onde está a linha de árvores. A subida desse trecho não foi difícil, apenas é preciso ir ganhando altitude no meio da vegetação, que em poucos minutos novamente vai nos levar para uma nova parede, numa esquina da montanha, onde é possível, indo um pouco para a esquerda, vislumbrar um abismo imenso.

Até então, a escalada estava sendo perfeita, estávamos conseguindo achar caminhos que estavam no levando cada vez mais para cima, mas não tínhamos a menor ideia se conseguiríamos bater no cume por ali, poderia chegar uma hora que simplesmente poderíamos ser barrados pela montanha e ser o fim da linha para a gente. Mas não poderíamos nos dar ao luxo de pensar nisso, tínhamos que seguir em frente, continuar lutando, acreditando que poderia dar certo e mesmo que estivéssemos resolvendo os problemas com uma velocidade impressionante, o simples fato de estarmos em 6 pessoas, ainda tornavam os procedimentos de subida de cada lance, um pouco moroso.

Ao chegarmos em mais essa parede, onde havia um amontoado de musgos brancos tipo uma esponja, percebemos que teríamos que esticar uma corda e que dessa vez as fitas emendadas não resolveriam o problema. Mas não era uma parede qualquer, era uma parede com uma grande inclinação e mesmo que ela fosse forrada com um pouco de vegetação rasteira, a umidade a tornava um verdadeiro tobogã, escorregadia por causa do excesso de umidade e o Vagner teve que se virar para escalá-la e levar nossa corda até uns 20 metros mais acima e ancorar numa árvore para que pudéssemos subir com segurança. Ganhamos a parte exposta e caímos novamente no mato que nos levou até uma grande rocha também exposta.

Esse novo lance, numa ROCHA EXPOSTA ABAULADA, não era muito grande, mas teve que ser escalada na aderência da bota, beirando um abismo do lado esquerdo. Enquanto o Vagner escalou e seguiu procurando a sequência da parede, o Potenza se posicionou acima dessa rocha abaulada, esticou as fitas e fez a segurança de quem subia. É um lance extremamente fácil, mas me pareceu que a galera não entendeu que a melhor maneira de ganhar altura, seria justamente se agarrando na fita e ir jogando o corpo todo para esquerda, beirando o abismo e subir praticamente caminhado, ao invés de se acabar de tanto fazer força para escalar.

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Depois dessa rocha, nada muda, é mais uma sequência de mato ralo, ganhando altitude até darmos de frente com um AMONTOADO DE ROCHAS GIGANTES, que num primeiro momento achamos que poderia ser o cume. E quando lá cheguei, já que eu era o último, encontrei o Potenza amarrando as fitas num arbusto logo acima de uma grande rocha e o Vagner e o Thiaguinho já estudavam como chegariam na rocha maior, que talvez fosse o cume. Fiquei ali, tentando fazer a Lu Dep tomar impulso para conseguir vencer esse lance, mas ela não desempacava do chão, mesmo a gente tentando fazer um estribo com as fitas. Então foi aí que analisando bem o terreno, vislumbrei uma nova rota lateral, onde uma FENDA encoberta por mato poderia resolver o problema. Era muito obvio que subir por dentro da fenda era muito melhor, mas entendo que num primeiro momento, por beirar um lance exposto, os meninos optaram por se afastar dela. Mas depois que eu amassei o mato na subida, a Lu Dep veio atrás e com calma e tranquilidade nos posicionarmos nos pés da grande parede e cruzarmos entre uma rocha e outra.

Os meninos que iam à frente, já descobriram que ali não era o cume e deram instruções para que contornássemos a grande rocha pela esquerda. E assim fizemos até ganharmos o mato e nos afastarmos dela e subirmos para valer, contornar outra ROCHA ISOLADA pegando para a direita ao batermos de frente com ela e irmos nos juntar mais acima com todos do grupo.

Agora o caldo havia entornado. A nossa frente uma PAREDE VERTICAL ameaçava nos barrar e nessa hora eu pensei que fôssemos ter que apelar para os equipamentos de escalada que havíamos trazido às duras penas. O problema era que a parede estava forrada de musgos, não tinha como simplesmente tentar meter uma aderência por uns 15 metros até alcançar um arbusto mais acima, não dava para usar as sapatilhas de escalada. Ali teria que ser na raça, no modo SERTANISTA ou então era pegar o caminho de volta e engolir o fracasso. O clima parecia tenso, havia chegado a hora da cartada final e o Vagner pediu licença para tentar primeiro, mas na ansiedade, nem levou a corda e enquanto ele se pendurava na parede, eu e o Thiaguinho tratamos logo de ir desenrolando. E enquanto fazíamos isso, não tirávamos os olhos do Vagner que era auxiliado pelo Potenza.

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( Escalada final, antes do cume)

Quando o Vagner tocou o arbusto e se livrou da parede exposta, foi como se o tempo simplesmente parasse. Lá embaixo, com os olhos esbugalhados e a respiração pausada, acompanhamos quando ele galgou um lance de musgos, que pareciam grama e desapareceu na curva do mundo. Eu e o Thiaguinho nos detivemos na tarefa de desenrolar a corda e por alguns segundos, nos entregamos completamente na arte de ouvir, de buscar as informações que tanto esperávamos:

- É CUME CARALHO, É CUME !!!!!

A voz embargada não deixava dúvidas, o Vagner estava extremamente emocionado e eu e o Thiaguinho nos abraçamos ali mesmo, percebemos o exato momento da glória, nos demos conta do feito que acabávamos de realizar, estávamos prestes a escrever mais uma página no nosso livro da vida de exploradores selvagens na Serra do Mar Paulista. Pouco abaixo de nós, num canto isolado, a Lu Dep desaba a chorar enquanto era consolada pelo Morato, talvez o motivo não fosse o mesmo que o nosso, mas sim poder pôr para fora toda a tensão que ela vinha carregando nessa expedição e agora diante dos seus olhos, viu se materializar o sucesso daquela empreitada, percebeu o quanto ela foi forte para suportar e poder chegar onde provavelmente quase ninguém havia chegado antes.

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( Morato chegando no cume)

Enquanto o Vagner se mantinha no topo, o Potenza já tratou logo de escalar a parede e levar a nossa corda e ancorá-la num arbusto que antecede a subida final para o cume. O Thiaguinho foi o próximo a subir e aproveitando o vácuo deixado, me livrei da condição de cu de tropa e deixei para o Morato a missão de auxiliar a Lu Dep na escalada. Me agarrei à corda e mantive os braços firmes, tentando fazer com que meus pés não escorregassem. Cheguei no arbusto, me livrei da corda e ganhei o musgo em forma de grama, mas antes de escalar essa parte exposta, sentei-me ali, já um tanto emocionado, liguei minha câmera e fiz o registro dos minutos finais que antecedeu minha chegada ao cume. E quando lá cheguei, fui recebido pelos três meninos que já haviam chorado o suficiente e então nos abraçamos, nos cumprimentamos e comemoramos o sucesso daquele projeto, que havia sido pensado no ano passado e que naquele exato momento, acabara de se concretizar e o cume do QUEIMADA DO FRADE (931 m), não era mais um ponto perdido numa carta topográfica.

Surpreendentemente, era um cume largo, espaçoso, muito diferente do que havíamos imaginado, porque pensávamos que poderia ser difícil achar lugar para comportar 06 pessoas no cume, mas ele era imenso, com uns 4 metros de largura por uns 50 metros de comprimento. O cume era marcado por uma pequena rocha exposta de não mais que uns 50 cm de largura, com uma vegetação de pequenos arbustos tomando conta do resto.

Em seguida a Lu Dep e o Morado ascenderam ao cume e também foram recebidos com as honras que mereciam. Mal passava das 4 da tarde e o tempo estava perfeito, não fazia frio e uma brisa soprava preguiçosamente. Ao nosso redor, montanhas a perder de vista e um mar que parecia manso, se abria numa vastidão avassaladora, porque não era possível ver nenhuma parte do continente com alguma civilização, somente 2 ou 3 barquinhos, que desfilavam na imensidão azul.

Agora estávamos ali, numa pequena ponta isolada do mundo, 06 montanhistas incomunicáveis, aplaudindo um sol alaranjado que ia se deitar a oeste, num cenário de sonhos. E quando o sol se foi, nos juntamos no cume para celebrar a vida e jantarmos juntos. A noite chegou qualhado de estrelas, deixando rastros de meteoros e satélites para todos os lados. A escuridão era quase que total, já que ainda não havia lua e apenas uma ou outra luzinha podia ser vista junto ao mar na direção sul, vinda do fim de estrada que havíamos partido.

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Não havia previsão de chuva e como o tempo estava extremamente seco, a galera resolveu apenas bivacar, já que não havia como montar as redes. Mas eu consegui dar um jeito, juntei 3 arbustos, enrolei as fitas de escalada neles de um lado e do outro e instalei minha rede, já que eu era o único com peso pena capaz de desafiar a fragilidade das arvorezinhas.

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Antes das 06 da manhã a galera pulou da cama para ver o sol nascer, mas eu queria mesmo era aproveitar aquele soninho gostoso que só a paz das montanhas é capaz de nos dar. O sol nasceu entre a extensão da Serra do Papagaio, no meio de dois bicos de pedra. Aliás, meses atrás a gente se deslumbrava com a majestosa visão do Queimada do Frade do alto do Papagaio, agora a gente via o Papagaio de um outro ângulo e assim vamos zerando a vida nessas paisagens que poucos tiveram a honra de colocar os olhos.

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Enquanto a água do café fervia, tratamos de instalar o LIVRO DE CUME DO QUEIMADA DO FRADE. Pensei em colocá-lo na pedra principal do cume, mas por incrível que pareça, não encontramos nenhuma outra rocha para poder escorar a capsula, porque o pico mais rochoso de Ilhabela, só tem uma miséria rocha no cume, então amarrei num arbusto, onde protegemos com um saco plástico.

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Outra visão incrível, é a sombra do Queimada sendo projetada em direção ao mar, mostrando a magnitude e a inclinação dessa montanha. Na carta temos uma altitude de 931 metros, mas nossos gps chegaram a marcar bem mais do que isso e quem sabe um dia alguém consiga levar um equipamento bem preciso e possa fazer uma medição oficial. No cume não encontramos qualquer vestígio que alguém já tenha chegado lá e se chegaram, posso apostar que a pelo menos uma década ninguém pisa lá, mas também pouco importa, para a gente que chegou com ZERO INFORMAÇÕES, é como se fossemos os primeiros, a satisfação da conquista é a mesma.

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O cume do Queimada se estende para o norte e olhando para sua esquerda, vemos um sub-cume, uma ponta menor bem no colo entre o Pico do Simão e analisando friamente, acho que possa ser possível empreender uma subida por esse lado, é pura especulação, mas seria uma linda ligação, caso isso fosse possível. Ainda olhando para o norte/nordeste, temos a cadeia do Pico do Papagaio, com o bico proeminente e seus domos subsequentes e são tantos outros picos selvagens, outras montanhas, praias e cachoeiras a perder de vista que chamar essa ilha de ILHA DA MAGIA não seria nenhum exagero.

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( Pico do Papagaio visto do Queimada)

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( CROQUI DA ESCALADA)

A vontade é de ficar ali, não ir mais embora. Dali de cima o mundo parece mesmo tão simples e a vida tão descomplicada, mas como não é possível ser feliz para sempre, foi preciso abandonar tudo e descer e como agora não precisávamos mais estudar o caminho, apenas esticamos as cordas e despencamos montanha abaixo em menos da metade do tempo que havíamos gastos para subir essa parte, que tivemos que escalar e quando retornamos no colo da montanha , lá pela cota 700 de altitude, nos jogamos no chão para um descanso e um belo almoço improvisado, antes de começarmos a descida final.

A descida foi muito rápida e só nos enroscamos entre um ou outro matacão, mas quando batemos de volta no riacho que havíamos subido, fizemos mais uma pausa para nos afogarmos de tanta beber água, agora sem miséria. Descendo o rio e voltando no pequeno cânion onde estavam instalados as mangueiras, os meninos resolveram fazer outra pausa para se refrescar, mas eu desci uns 50 metros e fui conferir até encontrar a trilha que era usada para dar manutenção nas próprias mangueiras e como ela perturba na direção que desejávamos, nos mantivemos firmes nela, mas logo notamos que ela tomaria outro barco e nos levaria até os fundos de uns condomínios, mesmo assim, achamos melhor do que ter que varar mato. A trilha passou por uma grande rocha em forma de diamante , alcançou depois uns reservatórios de água e nos desovou numa rua de um condomínio e sobre os olhares tortos de alguns moradores que abordaram nos intimidar, avançaram rapidamente sem dar maiores confianças e interceptamos a rodovia principal , bem a tempo de pegar o ônibus para o centro de Ilhabela.

Sem perder muito tempo, nos dirigimos para a balsa e cruzamos o Canal de São Sebastião para o lado do continente, deixando para trás essa ilha que há muitos anos nos encanta, um cenário de outro mundo, povoada de montanhas selvagens, rios espetaculares e praias paradisíacas e para encerrar essa expedição, nos detivemos junto à rua do porto para comemorar, comendo até não aguentar mais e tiramos aquela foto tradicional montados no leão que capturamos na selva da ilha, para provar a nossa bravura.

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Talvez nunca saberemos quantos atingiram esse cume antes da gente, o certo é que pelo aspecto que encontramos, quase que dá para afirmar que há mais de década não pisava ninguém lá, mesmo porque, não havia qualquer sinal de que tivesse ascendido ao topo, mesmo que tenhamos encontrado vestígios de uma corda marítima que praticamente derreteu no início das paredes que se tem que escalar. Mas isso um pouco importante, nada poderia apagar a nossa satisfação e o nosso encantamento com essa montanha selvagem, que para mim figura entre as montanhas mais belas, não só da Serra do Mar Paulista, como de todas as montanhas desse imenso país. A grande diferença é que para poder ver-la em todo o seu esplendor, será necessário enfrentar uma das piores vegetações que se pode enfrentar, porque ela só é possível ser vista de outra montanha ainda pior de subir e para piorar, o seu próprio cume só é reservado para quem não se intimida com grandes paredes à beira de abismos perigosos.

AGOSTO DE 2020

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Editado por DIVANEI
Colocando fotos.

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