As coisas aconteceram numa velocidade que não tive como controlar, muito porque, naquele momento eu já era voto vencido. Dema e Jota se recusaram a prosseguir nos últimos 10 ou 15 minutos, que finalizaria a parte da descida da Serra do Mar Paulista. Jota alegou que passar pela comunidade (favela) da Água Fria, era pedir para ser assaltado, correndo o risco de tomar um tiro, já que apenas nós três estaríamos fazendo a Rota nesse feriado e não havia possibilidade de descer em grupo. Estava estampado na minha cara que eu não estava contente em abandonar a rota já no seu final, mas não sou de ficar de mi-mi-mi, então aceitei a derrota e simplesmente empurrei a bike numa subida de não mais de 100 metros, que conecta a rota Marcia Prado à rodovia dos Imigrantes, entre os túneis Geraldo Rodrigues e Plínio Marcos.
O Túnel Plínio Marcos, como os outros, não tem acostamento, por isso mesmo é proibido o acesso de bicicleta, porque o perigo é real e eu levantei essa lebre, mas fui ignorado. Dema e Jota estão alucinados, botam pressão para eu me adiantar, mas eu, já um tanto nervoso, não consigo conectar minha luz sinalizadora no bagageiro da bicicleta.
- Vamos Divanei, se adianta, precisamos aproveitar o intervalo entre um carro e outro para pegar embalo e não sermos atropelados dentro do túnel.
O Dema e o Jota são ciclistas experiente, eu um Zé coitado qualquer, que pedala uma vez por ano e para falar a verdade, tô cagado de medo de enfrentar esse túnel, que na verdade, nem deveríamos estar ali.
- Vamos, vamos Divanei, bota as marchas pesadas, porque temos que atingir uns 60km por hora pelo menos. Cara e cuidado, não pedala nem na pista, nem no canto, para não escorregar nas sujeiras que se acumulam na lateral.
O que se seguiu foi um momento atabalhoado, algumas tentativas frustradas de acessar a pista e o túnel. Me puseram na frente, mas arreguei, na verdade, eu já havia arregrado muitos antes de deixar a rota oficial. Refuguei várias vezes na tentativa e quando vi, fui atropelado pelos dois, que passaram por mim, como a dizer: saí da frente seu prego.
Eu havia colocado nas marchas pesadas e quando vagou um espaço, tomei coragem e dei impulso, só não contava que mal sairia do lugar, óbvio que minhas pernas não dariam conta de fazer a bicicleta se mover, sem um esforço absurdo, que evidentemente eu não coloquei, então quase que eu caí com a bike parada, mas a adrenalina me fez dar tudo que eu tinha numa segunda tentativa. Adentrei ao túnel mal iluminado, como se fora arrastado para o matadouro e quando o primeiro carro lambeu a minha “bunda”, meu coração quase saiu pela boca e então pedalei mais rápido que uma Artêmis indo para lua.
A bicicleta balança de um lado para o outro. Tento me manter estável, fugir do canto da pista, onde alguns pedaços de calotas e outras sujeiras, me convida a cair. Estou alucinado, em transe, meu cérebro é alimentado por substancias que me deixam alerta, como a me dizer: “Pedala seu desgraçado, pedala o mais rápido que você conseguir ou vamos morrer nessa merda”. São pouco mais de 3 km de túnel, mas para mim, durou a eternidade e quando a luz surgiu no fim do túnel, lá estava os miseráveis, com sorriso sarcástico no canto da boca e da minha boca, ouviram apenas uma frase:
- EU TERIA PREFERIDO TOMAR UM TIRO, SEUS FILHOS DA PUTA !!!
Desde a nossa adolescência, que o Dema falava em descer para praia de bicicleta, mesmo que nem ele soubesse qual o caminho poderia lhe levar ao mar. Foi um naqueles amigos de infância que vi crescer encima de uma bike. Eu por outro lado, usava a bicicleta por necessidade, para ir e voltar do trabalho, mas com o tempo fui largando e subia numa bike esporadicamente, enquanto o Dema fez do veículo um estilo de vida. Mesmo depois de velhos, hora ou outra surgia essa história de descer para o litoral pedalando e o Dema dizia que os amigos dele do pedal, só era conversa fiada, nunca saiam da moita, então eu mesmo, cansado dessa ladainha, me ofereci para ajudar a realizar esse desejo e prometi começar a treinar para poder chegar, mas na realidade, eu também era outro que pulei para trás da touceira e por lá fiquei, me fingindo de morto.
São Paulo ao longo da sua história, priorizou carros, tanto que praticamente todas as rodovias que levam do planalto ao mar, tem algum tipo de restrição e outras proibições cretinas, então foi necessário um movimento sem precedentes para que um caminho até a praia fosse estabelecido, ligando a maior cidade da América do Sul até o litoral. O caminho sempre existiu, mas administrações míopes e tacanhas, sempre estavam prontos para proibir e não regulamentar. Uma das pessoas que se engajaram nesse movimento, a então ciclo turista MARCIA PRADO, acabou perdendo a vida na Av. Paulista em 2009 e foi aí então que começou ou se acentuou os movimentos e num desses eventos, ainda clandestinos em 2012, colocou 10 mil ciclistas, tentando pressionar o Estado, que não se comoveu. Entre um evento e outro, em 2017 milhares de ciclistas estabeleceram um dia “D” para forçar o governo a abrir a rota, que já havia ganhado o nome de Márcia Prado, mas o que ganharam foi uma repressão violenta da polícia e foram atacadas covardemente por bombas de gás e jatos de água e recebidos com cassetetes.
Depois de toda essa repercussão, finalmente o governo do Estado abriu negociações e em 30 de maio de 2018, uma lei oficializou de vez a rota de ciclo turismo e nesse mesmo ano, o evento de dezembro colocou impressionantes 40 mil ciclistas na rota e ai não teve mais jeito, a negativa de construir uma ciclovia oficial e passarelas, que segundo o governo era gastar milhões de reais para meia dúzia passear, desmoronou e o governo foi obrigado a abrir as pernas , tanto que em 2024 as obras foram inauguradas, uma vitória para os amantes do ciclismo Paulista.
Voltando para 2026, num feriado da Páscoa, que ainda não havíamos programado nada, me surgiu a ideia de finalmente dar cabo desse roteiro para praia. Então montei a logística, avisei o Dema, convidei alguns amigos paulistanos, mas no fim, só o Jota Carlos se apresentou em condições, então pedi para minha filha apanhar eu e o Dema e nos levar com bicicleta e tudo para a rodoviária de Campinas, onde embarcamos com as bikes sem nenhum problema, mas correndo contra o tempo, porque teríamos que chegar ao nosso hotel até a meia noite.
E é realmente um espetáculo, chegar na capital Paulista e poder embarcar com nossas bicicletas dentro do metrô, mesmo que em horários específicos durante a semana e livres nos fins de semana e feriados. O metro paulista é de longe um dos melhores do mundo, ainda que não haja tantas linhas como em outras grandes cidades do mundo. Nós do interior ficamos sempre maravilhados com tudo isso e vamos nos divertindo com o zoológico humano que vai desfilando nos trens e correndo contra o tempo, desembarcamos na ESTAÇÃO SOCORRO e pedalamos mais 10 minutos até nossa habitação, onde chegamos às 23:55.
- Divanei, acorda seu vagabundo.
Me levando atordoado, abro a janelo do quarto do hotel e lá está o JOTA, gritando feito uma gralha velha. Puta que pariu, o relógio não despertou e eu e o Dema acabamos perdendo a hora combinada. Em 15 minutos descemos com as bike, tomamos café num boteco com o Jota e nos pomos a pedalar por volta das 7 da manhã. A ROTA MARCIA PRADO, não começa ali, obviamente, mas eu tive que escolher a Estação Socorro porque foi justamente onde consegui encontrar um hotel que coubesse no nosso bolso. As estações ficam ao lado da CICLOVIA DO RIO PINHEIROS e foi para ela que nos dirigimos, mas quem disse que existe um acesso por ali. Por isso, atravessamos o viaduto que cruza o rio e fomos parar na margem oposto e tivemos que pedalar para o lado errado até atingirmos a passagem sobre o rio Guarapiranga, passar embaixo da ponte Santo Amaro, Ponte Transamérica e cruzar o rio Pinheiros encima da Ponte João Dias, voltando a pedalar para o sul, agora sim para o lado certo da ciclovia do Pinheiros.
( Ciclovia do Rio Pinheiros)
Pedalar pela Ciclovia é realmente muito prazeroso e algo diferente para gente do interior. Passamos por uma ponte estaiada, pela Estação Jurubatuba e pouco antes de chegar na Ponte da Av. Jair ribeiro, uma saída à esquerda vai nos levar no início OFICIAL DA ROTA MÁRCIA PRADO, que tem o acesso pela Av. Miguel Antunes, onde é possível estacionar o carro e até então, pedalamos pouco mais de 12 km.
O início da rota Márcia Prado, é um lugar onde muitas tribos se encontram para pedalar, mas nessa SEXTA FEIRA SANTA, ninguém parece ter se animado para ir à praia pedalando, então tomamos nosso rumo, curvamos nossa rota passando encima da própria Ponte Jair ribeiro, cruzando novamente por cima do Rio Pinheiros e vamos pedalar por uns 3 km pela larga avenida, que vai mudando de nome pelo caminho até pegarmos para a direita na João Goulart, interceptarmos a Rua Jequirituba bem no acesso para o metrô Interlagos, subir uma ladeira dos infernos, sempre beirando a linha do trem, que vai findar na grande Av. Belmira Marin.
( Inicio ROTA MÁRCIA PRADO)
E aqui faço um parêntese: É absolutamente FALSA a expressão, descer para praia pela Rota Marcia Prado, porque esse primeiro trecho e outros também, são recheados de subidas intermináveis, que vai minando a energia da gente, por isso é preciso ter cautela e pedalar com inteligência para não se quebrar no caminho. Estando na Av. Belmira Marin, vamos nos agarrar a ela e pedalar por cerca de 7 km até finalmente desembarcarmos para um descanso merecido junto a BALSA que vai cruzar a represa de Guarapiranga rumo a ILHA DO BORORÉ.
Até a PRIMEIRA BALSA, já pedalamos cerca de 25 km e mesmo que o dia ainda nem passou das 10 da manhã, já estamos varados de fome, então aproveitamos para comer alguma coisa, enquanto apreciamos a paisagem. E é incrível que tudo isso pertença ainda a Capital Paulista, na divisa do Grajaú com Parelheiros, um fim de mundo no extremo sul da cidade, mostrando o gigantismo dessa metrópole.
Estou lá, de boa, mordendo meu lanche, quando o operador da balsa dá um grito.
- E aí ciclista, vai ou não vai ?
Eu havia me distraído e nem percebi que todos já estavam a bordo. As balsas levam carros, gente e bicicletas, tudo de graça. A represa tem quase um status de mar de tão imensa e em uns 20 minutos, já estamos desembarcando em terra firme, na famosa ILHA DO BORERÉ, que olhando no mapa, não passa de uma península. Retomamos a pedalada, agora na Estrada ITaquaquecetuba e uns 500 m depois, somos obrigados a parar imediatamente.
Assim que desembarcamos da balsa que nos deixa na ILHA DO BORORÉ, mal deu tempo de aquecer os músculos, quando inesperadamente , duas senhorinhas saindo de dentro da Capela de São Sebastião, se jogam na frente das nossas bicicletas, quase que esbaforidas. Mãos a balançar , quase que a implorar pela nossa parada.
Num primeiro momento me assustei, fiz menção de desviar, uma ação de defesa , mas apertei o freio , me reequilíbrei e parei imediatamente com o chegada do Dema e do Jota e foi quando as beatas falaram:
"-ô meus filhos, cêis num ajuda a gente a carregar os andor dos santos da capela ?"
Foi um pedido bem inusitado e me lembrei das palavras da minha mulher, católica fervorosa, sobre eu ir fazer a descida para praia partindo de São Paulo em plena sexta-feira santa.
FUI PORQUE TINHA UMA MISSÃO! 😁😁😁😁😁😁
Voltando a pedalar, agora vamos cruzar toda a “ilha”, passando por uma floresta, atravessar por baixo do Rodoanel e aí vemos uma paisagem estranha, parecendo mesmo que estamos a pedalar pelo litoral, até que uns 7 km, desde quando desembarcamos da balsa, somos apresentados a outra BALSA, num lugar mais deserto, parecendo mais fim de mundo ainda.
A balsa estaciona e todos embarcam, gente, carro, bikes e cachorros, que parecem que ficam ali apenas para passear. E essa balsa tecnicamente nos tira da ilha do Bororé e vamos continuar pedalando, mas agora por estrada de terra por pelo menos mais 6 km, até cruzarmos com outra estrada asfaltada e termos que quebrar para a direita, o que é bem estranho, já que a Rodovia dos Imigrantes está ali bem pertinho, mas para a esquerda, então olhando no mapa, vemos que teremos que fazer um grande desvio só para acessá-la mais à frente. Estamos agora na Estrada do Rio Acima e antes de percorre-la por pouco mais de 1 km, vamos fazer uma parada estratégica num bar bem ali na bifurcação. Nosso relógio bate 11 horas em ponto. No bar, músicas sertanejas raiz, tocam no último volume, enquanto luzes coloridas tipo neon, piscam freneticamente, iluminando desenhos tão coloridos quando. Jota entra e pede umas garrafas d’água, enquanto isso eu olho para aquele ambiente e já faço juízo de valor. Ninguém quer falar, ninguém quer julgar, então ficamos ali, tomando fôlego, nos hidratando, mas ao saímos do estabelecimento, ninguém segurou o riso e soltou logo o que estava pensando: “ESSA PORRA É UMA ZONA !!!!”🤣🤣🤣🤣🤣
Um km depois, deixamos a Estrada do Rio Acima e tomamos o rumo da esquerda, agora na Estradinha do Matarazo, um caminho de terra, que vai cruzando vários sítios, descendo e subindo e numa descida alucinante, uns 4 km de pedalada, passamos batido , quando deveríamos ter pegado a bifurcação para a direita e tivemos que retornar um pouquinho. Mais 2 km , o caminho vai curvando até , finalmente interceptarmos a RODOVIA DOS IMIGRANTES, bem embaixo de uma grande ponte.
( ESCADA PARA IMIGRANTES)
Passando portanto, embaixo da ponte, vamos encontrar do lado esquerdo, uma escadaria com um rampa de concreto ao lado, onde é possível subir pela escada empurrando as bicicletas e atingindo o alto, damos de cara com a CICLOVIA ao lado da Imigrantes. E essa é uma das obras que o governo do Estado, junto com as concessionárias, foram obrigados a construir depois de muita luta e pressão dos ciclistas e pedalando por mais uns 3 km, vamos nos deparar com algo que chega e impressionar em se tratando de Brasil, uma PASSARELA enorme, apenas para passagem de bicicletas, que vai nos ajudar a cruzar todas as 2 faixas da rodovia que interliga a Anchieta com a Imigrantes, com segurança.
Atravessando a passarela, encontramos outra ciclovia, agora voltando às margens dessa interligação até estarmos novamente ao lado da Imigrantes, por onde agora iremos pedalar por mais uma ciclovia e até aqui, batemos 50 km de pedaladas intensas e estamos felizes por finalmente termos um pouquinho de refresco, por começarmos o processo de descida por dentro da Serra do Mar.
Quando colamos novamente na Imigrantes, vamos pedalar por 1 km até chegarmos numa construção, parecendo um portal de entrada de cidade, aí a ciclovia acaba e adentramos num caminho ruim, até que ela vira uma trilha, cheio de lama, alguns lugares é preciso desmontar das bikes para conseguir passar e olhando no mapa, já vemos que estamos na TRILHA DO RANCHO e percorrendo mais 1km , nos vemos agora pedalando na ESTRADA DE MANUTENÇÃO, o nosso caminhão oficial e agora regulamentado para cruzar a Serra do Mar Paulista até a praia.
No início, vamos pegar algumas pequenas subidas, nada muito grande, mas para poupar energia, eu e Jota preferimos passar desmontados. Daqui para frente, estamos embaixo das pistas da Rodovia dos Imigrantes, passando sob pontes descomunais, uma obra prima da engenharia mundial. Inaugurada em 1976, que consumiu o trabalho de 13 mil homens.
A chegada a Serra do Mar é o momento glorioso dessa viagem sobre 2 rodas. E eu não imaginava o quão deslumbrante era esse cenário, que até então, eu supunha ser apenas um caminho pela fria estrada de manutenção. A partir de agora, vamos descendo, as vezes em declives alucinantes, onde os freios precisam estar em dia. A estradinha estreita vai serpenteando, deixando para trás curvas alucinantes, paisagens espetaculares e abismos descomunais, sem contar com pilastras gigantes sobre nossas cabeças, que vamos cruzando boquiabertos, um sentimento de liberdade e euforia que vai nos consumindo por completo.
O dia já havia passado muito da sua metade e o sol se encarregava de jogar muita iluminação, até nos caminhos mais fechados, passagens em meio a caminhos apertados, quando a estradinha afunilava em certos trechos, até que pouco depois da uma da tarde, fomos surpreendidos com mais uma mirante espetacular, bem na curva da estrada, mirante esse que nos apresentava vistas das montanhas opostas, onde os trens de cargas descem em direção ao litoral, que aliás , nos fez lembrar de expedições passadas, quando em explorações a rios selvagens, usávamos o próprio trem para nos levar de volta a civilização, mesmo que clandestinamente, é claro.
Hora ou outra, a estradinha lambia a própria rodovia principal, mas continuava cruzando por baixo de grandes pontes, beirando túneis. As vezes a descida se estabilizava e o caminho voltava a subir levemente, para depois despinguelar para baixo, perdendo altitude vertiginosamente, até quase tocarmos mais pontilhões gigantes.
O cenário ia ficando cada vez mais fascinante e começou a nos intrigar umas construções em forma de reservatórios de água e quando vimos um com uma escadinha de vergalhões de ferro, tivemos que nos deter e subir para investigar, mas como pensávamos, eram reservatórios de água mesmo, só não descobrimos para que serviam e foi lá de cima que tudo aconteceu: Jota havia se mantido na estrada, enquanto eu e o Dema havíamos subido e foi lá de cima que ouvimos o Jota gritar que havia visto as árvores balançarem e não demorou muito para um bando de macacos começarem a cruzar de um lado para o outro, saltando no topo das árvores gigantes. Um , dois, três , dez, dezenas de animais , algumas mães com seus filhotes nas costas, foi algo cinematográfico.
Seguimos pedalando, devagar, curtindo cada curva do caminho e as 14:00 chegamos num marco dessa rota histórica. Estamos justamente na CACHOEIRA DO TÚNEL IMIGRANTES, uma bela queda d’água, junto a um túnel escavado na rocha bruta e que não recebeu qualquer acabamento. Como o calor estava insuportável, não tive dúvidas em tirar a roupa e pular para dentro da água fria e por lá ficar até que a temperatura do meu corpo arrefecesse. Em frente da cachoeira, outra ponte descomunal. Nesse local é possível encontrar motos e até carros, que chegam até ali usando o túnel, mesmo sendo ilegal, já que a rota é aberta somente para bikes e carros oficiais, até então, já pedalamos por 60 km.
Comemos alguma coisa e voltamos à nossa jornada, passamos por baixo de uma ponte e deixamos que a força da gravidade nos carregue para baixo, até que voltamos a subir um pouco e nosso caminho vai curvando e somos apresentados ao vale do RIO PASSAREÚVA e logo à frente, vamos nos deter novamente diante de uma belíssima cachoeira, junto a uma grande ponte, e desde a última cachoeira até essa outra, pedalamos uns 3,5 km.
( Rio PASSAREÚVA)
Nesse trecho, é possível encontrar muitos veículos clandestinos, vindo do túnel que passamos e talvez de algum outro lugar que acabei não identificando, por isso nos próximos 3 ou 4 km, vamos pedalar com mais cuidado, ainda que nos sentíssemos seguros, estávamos sempre atentos e por volta das TRÊS da tarde, tropeçamos nas piscinas naturais, onde uma dezena de pessoas, vindas das comunidades que estão logo abaixo, se esbaldavam nas águas cristalinas oriundas do interior da Serra do Mar e foi aí que o Jota nos chamou para um conversa, que sinceramente, acabou não me agradando muito.
Estávamos há não mais que uns 15 minutos de terminar o trecho da Serra do Mar e eu estava muito contente que tudo tinha certo até o momento, tudo vinha correndo exatamente como o planejado, mas o o Jota insistiu:
- Gente, é o seguinte, eu já estive nesse pedaço dessa rota e daqui para frente, estaremos entrando em um trecho extremante perigoso, onde há relatos de vários assaltos aos ciclistas, inclusive, até tiro já tomaram, então como estamos só em 3, vamos evitar esse final e nos agarrarmos ao caminho pelo túnel mesmo, que aliás, está aqui perto da gente, só subir esse trecho à esquerda e pouco mais de 100 m, estaremos na boca dele (Túnel Plínio Marcos) e mesmo sendo proibido, é o melhor a fazer.
Claro, num primeiro momento, tento demover o Jota dessa ideia, porque eu queria seguir o trajeto original, manter o puritanismo da rota, mas o Jota foi firme, bateu o pé, fez beicinho , não quis nem ouvir, ainda mais quando o próprio Dema já se mancomunou com o meliante, então fiquei falando sozinho, um derrotado, que sem ter o que questionar, botei a mochilinha nas costas e emburrei meu “cavalo” até a rodovia dos Imigrantes, na junção de 2 túneis e que Deus tenha piedade das nossas almas por essa ideia estúpida.
O Jota e o Dema estavam confabulando, quando encostei neles e já foram me dando a ordem.
- Divanei, você vai na frente, assim que vagar um espaço entre um carro e outro, trata de pedalar o mais rápido que puder e não cola muito no lado direito para não escorregar na sujeira e nem no lado esquerdo, para não ser atropelado, ou seja, mantenha-se junto a marcação da faixa.
O barulho dos carros passando numa velocidade absurda, mal deixava a gente conversar. Eu estava extremamente nervoso e a situação viria a piorar, porque os meninos começaram a botar pressão para eu ir logo, mas eu não havia conseguido nem prender a lanterna traseira na bicicleta, porque o túnel era um tanto escuro e eu estava apavorado.
-Vamos Divanei, você tem que ir, tem que entrar no túnel, põe na marcha pesada e não para de pedalar até sair do outro lado.
Eu sabia o que fazer, mas não fiz e nenhum intervalo entre um carro e outro me parecia o suficiente.
- Divanei, pelo amor de Deus, vai, entra, pedala, agora, vamos, vamos.
Não, eu não entrei e quando vi, Dema e Jota, simplesmente passaram atropelando tudo, me deixaram para trás, agora em solitário, brigando com meu eu interior, tentando convencer a mim mesmo, que eu precisava vencer a inércia e pedalar. Coloquei na marcha pesada, subi na bike e quase caí parado, não botei força suficiente para sair do lugar. Na segunda tentativa, num espaço grande entre um carro e outro, a bicicleta andou e eu pedalei, pedalei como nunca havia pedalado na vida.
O túnel Plinio Marcos tem cerca de 3 km, mas sob tensão é maior que o do canal da Mancha e quando o primeiro carro passou e me fez balançar de um lado para o outro, eu achei que levaria uma queda, mas nada poderia fazer, porque ir para a lateral seria pior, por causa do excesso de lixo e pedaços de calotas que me convidava para um tombo ainda pior. Entrei em transe, os músculos endureceram e eu já pedalava no automático e a cada lambida de um carro, eu quase enfartava.
Quando saí do túnel, a luz quase me cegou, eu estava transtornado e ao encontrar os safados, rindo de felicidades, soltei um palavrão ofendendo a mãe dos dois, mas um minuto depois, lá estávamos nós, nos cumprimentando, eufóricos pela aventura inusitada.
Agora estávamos definitivamente sob os domínios da Rodovia dos Imigrantes e por ela vamos pedalar, sempre seguindo as placas em direção a cidade de Santos, inclusive, cruzar pela bonita Ponte Estaiada de Cubatão. Continuando enfrente e depois de ter pedalado por cerca de 11 km, desde a saída do túnel, tomamos um perdido e ai ao invés de continuar seguindo, acabamos subindo a Ponte Deputada Mariangela Duarte e fomos nos enfiando em uns becos , por alguns bairros periféricos e tentando seguir o caminho do GPS para nos levar à Santos, caímos numa área de comunidades, que parecia mais a anti-sala do inferno. Eu ia a frente operando o celular, atrás de mim, Jota e Dema consternados com a rumo tomado, que nos levou à um lugar onde o lixo tomava conta do cenário e mesmo que ninguém tenha dito nada, achamos que ser assaltado ali era questão de tempo, mas talvez só tenha sido preconceito mesmo, mas melhor não ariscar e sair vazado imediatamente.
O certo é que apontamos nosso nariz para o mar, agora o que interessava era chegar e quando tocamos a avenida que beirava a praia, na primeira oportunidade, adentramos na areia e como quem chega na terra prometida, largamos nossas bicicletas junto a água e comemoramos nossa chegada triunfal, havíamos vencido a travessia proposta, quase 100 km após ter partido da maior cidade da América do Sul.
Esquecemos de olhar para o mapa e nem percebemos que não havíamos chegado em Santos, mas sim em São Vicente, na Praia do Itaguaré, então fiz questão de que pedalássemos um pouco mais, para finalizar por completo na PRAIA DE JOSÉ MENINO, que aliás, é muito mais bonita que a anterior, aí sim, finalmente SANTOS estava aos nossos pés, mais comemoração e orgulho de ter chegado, cansados, mais inteiros.
SANTOS é uma cidade bem charmosa, com cerca de 500 mil habitantes, apesar de ser um centro portuário, aliás, o maior porto da América Latina, mesmo assim, tem uma orla agradabilíssima, onde orgulha-se de hospedar o maior e mais longo jardim a beira mar do planeta. Aproveitamos para concertar um pneu de uma das bicicletas que acabou furando, rodamos um pouco pela praia e fomos descansar numa birosca que alugamos de última hora, nossa missão naquele dia já havia se cumprido.
A ROTA MÁRCIA PRADO, acabou por se tornar um marco nos roteiros de ciclo turismo do Brasil, mas eu mesmo, nunca tinha imaginado que o caminho que cruza a nossa SERRA DO MAR PAULISTA, pudesse ser algo tão espetacular, tanto que negligenciei por todo esse tempo , apesar de ser um entusiasta da nossa selva Paulista, tendo explorado praticamente quase tudo em todas as regiões do Estado, acabei por desdenhar dessa parte da serra, mas felizmente acordei em tempo e na minha opinião, esse não é um roteiro local, é um roteiro que deveria constar nos guias da cidade de São Paulo, como algumas das rotas internacionais, que acabamos fazendo quando estamos fora do pais, porque além de juntar bicicleta, junta um dos cenários mais incríveis do planeta.
ROTA MÁRCIA PRADO
( Dema, Divanei e Jota Carlos)
As coisas aconteceram numa velocidade que não tive como controlar, muito porque, naquele momento eu já era voto vencido. Dema e Jota se recusaram a prosseguir nos últimos 10 ou 15 minutos, que finalizaria a parte da descida da Serra do Mar Paulista. Jota alegou que passar pela comunidade (favela) da Água Fria, era pedir para ser assaltado, correndo o risco de tomar um tiro, já que apenas nós três estaríamos fazendo a Rota nesse feriado e não havia possibilidade de descer em grupo. Estava estampado na minha cara que eu não estava contente em abandonar a rota já no seu final, mas não sou de ficar de mi-mi-mi, então aceitei a derrota e simplesmente empurrei a bike numa subida de não mais de 100 metros, que conecta a rota Marcia Prado à rodovia dos Imigrantes, entre os túneis Geraldo Rodrigues e Plínio Marcos.
O Túnel Plínio Marcos, como os outros, não tem acostamento, por isso mesmo é proibido o acesso de bicicleta, porque o perigo é real e eu levantei essa lebre, mas fui ignorado. Dema e Jota estão alucinados, botam pressão para eu me adiantar, mas eu, já um tanto nervoso, não consigo conectar minha luz sinalizadora no bagageiro da bicicleta.
- Vamos Divanei, se adianta, precisamos aproveitar o intervalo entre um carro e outro para pegar embalo e não sermos atropelados dentro do túnel.
O Dema e o Jota são ciclistas experiente, eu um Zé coitado qualquer, que pedala uma vez por ano e para falar a verdade, tô cagado de medo de enfrentar esse túnel, que na verdade, nem deveríamos estar ali.
- Vamos, vamos Divanei, bota as marchas pesadas, porque temos que atingir uns 60km por hora pelo menos. Cara e cuidado, não pedala nem na pista, nem no canto, para não escorregar nas sujeiras que se acumulam na lateral.
O que se seguiu foi um momento atabalhoado, algumas tentativas frustradas de acessar a pista e o túnel. Me puseram na frente, mas arreguei, na verdade, eu já havia arregrado muitos antes de deixar a rota oficial. Refuguei várias vezes na tentativa e quando vi, fui atropelado pelos dois, que passaram por mim, como a dizer: saí da frente seu prego.
Eu havia colocado nas marchas pesadas e quando vagou um espaço, tomei coragem e dei impulso, só não contava que mal sairia do lugar, óbvio que minhas pernas não dariam conta de fazer a bicicleta se mover, sem um esforço absurdo, que evidentemente eu não coloquei, então quase que eu caí com a bike parada, mas a adrenalina me fez dar tudo que eu tinha numa segunda tentativa. Adentrei ao túnel mal iluminado, como se fora arrastado para o matadouro e quando o primeiro carro lambeu a minha “bunda”, meu coração quase saiu pela boca e então pedalei mais rápido que uma Artêmis indo para lua.
A bicicleta balança de um lado para o outro. Tento me manter estável, fugir do canto da pista, onde alguns pedaços de calotas e outras sujeiras, me convida a cair. Estou alucinado, em transe, meu cérebro é alimentado por substancias que me deixam alerta, como a me dizer: “Pedala seu desgraçado, pedala o mais rápido que você conseguir ou vamos morrer nessa merda”. São pouco mais de 3 km de túnel, mas para mim, durou a eternidade e quando a luz surgiu no fim do túnel, lá estava os miseráveis, com sorriso sarcástico no canto da boca e da minha boca, ouviram apenas uma frase:
- EU TERIA PREFERIDO TOMAR UM TIRO, SEUS FILHOS DA PUTA !!!
Desde a nossa adolescência, que o Dema falava em descer para praia de bicicleta, mesmo que nem ele soubesse qual o caminho poderia lhe levar ao mar. Foi um naqueles amigos de infância que vi crescer encima de uma bike. Eu por outro lado, usava a bicicleta por necessidade, para ir e voltar do trabalho, mas com o tempo fui largando e subia numa bike esporadicamente, enquanto o Dema fez do veículo um estilo de vida. Mesmo depois de velhos, hora ou outra surgia essa história de descer para o litoral pedalando e o Dema dizia que os amigos dele do pedal, só era conversa fiada, nunca saiam da moita, então eu mesmo, cansado dessa ladainha, me ofereci para ajudar a realizar esse desejo e prometi começar a treinar para poder chegar, mas na realidade, eu também era outro que pulei para trás da touceira e por lá fiquei, me fingindo de morto.
São Paulo ao longo da sua história, priorizou carros, tanto que praticamente todas as rodovias que levam do planalto ao mar, tem algum tipo de restrição e outras proibições cretinas, então foi necessário um movimento sem precedentes para que um caminho até a praia fosse estabelecido, ligando a maior cidade da América do Sul até o litoral. O caminho sempre existiu, mas administrações míopes e tacanhas, sempre estavam prontos para proibir e não regulamentar. Uma das pessoas que se engajaram nesse movimento, a então ciclo turista MARCIA PRADO, acabou perdendo a vida na Av. Paulista em 2009 e foi aí então que começou ou se acentuou os movimentos e num desses eventos, ainda clandestinos em 2012, colocou 10 mil ciclistas, tentando pressionar o Estado, que não se comoveu. Entre um evento e outro, em 2017 milhares de ciclistas estabeleceram um dia “D” para forçar o governo a abrir a rota, que já havia ganhado o nome de Márcia Prado, mas o que ganharam foi uma repressão violenta da polícia e foram atacadas covardemente por bombas de gás e jatos de água e recebidos com cassetetes.
Depois de toda essa repercussão, finalmente o governo do Estado abriu negociações e em 30 de maio de 2018, uma lei oficializou de vez a rota de ciclo turismo e nesse mesmo ano, o evento de dezembro colocou impressionantes 40 mil ciclistas na rota e ai não teve mais jeito, a negativa de construir uma ciclovia oficial e passarelas, que segundo o governo era gastar milhões de reais para meia dúzia passear, desmoronou e o governo foi obrigado a abrir as pernas , tanto que em 2024 as obras foram inauguradas, uma vitória para os amantes do ciclismo Paulista.
Voltando para 2026, num feriado da Páscoa, que ainda não havíamos programado nada, me surgiu a ideia de finalmente dar cabo desse roteiro para praia. Então montei a logística, avisei o Dema, convidei alguns amigos paulistanos, mas no fim, só o Jota Carlos se apresentou em condições, então pedi para minha filha apanhar eu e o Dema e nos levar com bicicleta e tudo para a rodoviária de Campinas, onde embarcamos com as bikes sem nenhum problema, mas correndo contra o tempo, porque teríamos que chegar ao nosso hotel até a meia noite.
E é realmente um espetáculo, chegar na capital Paulista e poder embarcar com nossas bicicletas dentro do metrô, mesmo que em horários específicos durante a semana e livres nos fins de semana e feriados. O metro paulista é de longe um dos melhores do mundo, ainda que não haja tantas linhas como em outras grandes cidades do mundo. Nós do interior ficamos sempre maravilhados com tudo isso e vamos nos divertindo com o zoológico humano que vai desfilando nos trens e correndo contra o tempo, desembarcamos na ESTAÇÃO SOCORRO e pedalamos mais 10 minutos até nossa habitação, onde chegamos às 23:55.
- Divanei, acorda seu vagabundo.
Me levando atordoado, abro a janelo do quarto do hotel e lá está o JOTA, gritando feito uma gralha velha. Puta que pariu, o relógio não despertou e eu e o Dema acabamos perdendo a hora combinada. Em 15 minutos descemos com as bike, tomamos café num boteco com o Jota e nos pomos a pedalar por volta das 7 da manhã. A ROTA MARCIA PRADO, não começa ali, obviamente, mas eu tive que escolher a Estação Socorro porque foi justamente onde consegui encontrar um hotel que coubesse no nosso bolso. As estações ficam ao lado da CICLOVIA DO RIO PINHEIROS e foi para ela que nos dirigimos, mas quem disse que existe um acesso por ali. Por isso, atravessamos o viaduto que cruza o rio e fomos parar na margem oposto e tivemos que pedalar para o lado errado até atingirmos a passagem sobre o rio Guarapiranga, passar embaixo da ponte Santo Amaro, Ponte Transamérica e cruzar o rio Pinheiros encima da Ponte João Dias, voltando a pedalar para o sul, agora sim para o lado certo da ciclovia do Pinheiros.
( Ciclovia do Rio Pinheiros)
Pedalar pela Ciclovia é realmente muito prazeroso e algo diferente para gente do interior. Passamos por uma ponte estaiada, pela Estação Jurubatuba e pouco antes de chegar na Ponte da Av. Jair ribeiro, uma saída à esquerda vai nos levar no início OFICIAL DA ROTA MÁRCIA PRADO, que tem o acesso pela Av. Miguel Antunes, onde é possível estacionar o carro e até então, pedalamos pouco mais de 12 km.
O início da rota Márcia Prado, é um lugar onde muitas tribos se encontram para pedalar, mas nessa SEXTA FEIRA SANTA, ninguém parece ter se animado para ir à praia pedalando, então tomamos nosso rumo, curvamos nossa rota passando encima da própria Ponte Jair ribeiro, cruzando novamente por cima do Rio Pinheiros e vamos pedalar por uns 3 km pela larga avenida, que vai mudando de nome pelo caminho até pegarmos para a direita na João Goulart, interceptarmos a Rua Jequirituba bem no acesso para o metrô Interlagos, subir uma ladeira dos infernos, sempre beirando a linha do trem, que vai findar na grande Av. Belmira Marin.
( Inicio ROTA MÁRCIA PRADO)
E aqui faço um parêntese: É absolutamente FALSA a expressão, descer para praia pela Rota Marcia Prado, porque esse primeiro trecho e outros também, são recheados de subidas intermináveis, que vai minando a energia da gente, por isso é preciso ter cautela e pedalar com inteligência para não se quebrar no caminho. Estando na Av. Belmira Marin, vamos nos agarrar a ela e pedalar por cerca de 7 km até finalmente desembarcarmos para um descanso merecido junto a BALSA que vai cruzar a represa de Guarapiranga rumo a ILHA DO BORORÉ.
Até a PRIMEIRA BALSA, já pedalamos cerca de 25 km e mesmo que o dia ainda nem passou das 10 da manhã, já estamos varados de fome, então aproveitamos para comer alguma coisa, enquanto apreciamos a paisagem. E é incrível que tudo isso pertença ainda a Capital Paulista, na divisa do Grajaú com Parelheiros, um fim de mundo no extremo sul da cidade, mostrando o gigantismo dessa metrópole.
Estou lá, de boa, mordendo meu lanche, quando o operador da balsa dá um grito.
- E aí ciclista, vai ou não vai ?
Eu havia me distraído e nem percebi que todos já estavam a bordo. As balsas levam carros, gente e bicicletas, tudo de graça. A represa tem quase um status de mar de tão imensa e em uns 20 minutos, já estamos desembarcando em terra firme, na famosa ILHA DO BORERÉ, que olhando no mapa, não passa de uma península. Retomamos a pedalada, agora na Estrada ITaquaquecetuba e uns 500 m depois, somos obrigados a parar imediatamente.
Assim que desembarcamos da balsa que nos deixa na ILHA DO BORORÉ, mal deu tempo de aquecer os músculos, quando inesperadamente , duas senhorinhas saindo de dentro da Capela de São Sebastião, se jogam na frente das nossas bicicletas, quase que esbaforidas. Mãos a balançar , quase que a implorar pela nossa parada.
Num primeiro momento me assustei, fiz menção de desviar, uma ação de defesa , mas apertei o freio , me reequilíbrei e parei imediatamente com o chegada do Dema e do Jota e foi quando as beatas falaram:
"-ô meus filhos, cêis num ajuda a gente a carregar os andor dos santos da capela ?"
Foi um pedido bem inusitado e me lembrei das palavras da minha mulher, católica fervorosa, sobre eu ir fazer a descida para praia partindo de São Paulo em plena sexta-feira santa.
FUI PORQUE TINHA UMA MISSÃO! 😁😁😁😁😁😁
Voltando a pedalar, agora vamos cruzar toda a “ilha”, passando por uma floresta, atravessar por baixo do Rodoanel e aí vemos uma paisagem estranha, parecendo mesmo que estamos a pedalar pelo litoral, até que uns 7 km, desde quando desembarcamos da balsa, somos apresentados a outra BALSA, num lugar mais deserto, parecendo mais fim de mundo ainda.
A balsa estaciona e todos embarcam, gente, carro, bikes e cachorros, que parecem que ficam ali apenas para passear. E essa balsa tecnicamente nos tira da ilha do Bororé e vamos continuar pedalando, mas agora por estrada de terra por pelo menos mais 6 km, até cruzarmos com outra estrada asfaltada e termos que quebrar para a direita, o que é bem estranho, já que a Rodovia dos Imigrantes está ali bem pertinho, mas para a esquerda, então olhando no mapa, vemos que teremos que fazer um grande desvio só para acessá-la mais à frente. Estamos agora na Estrada do Rio Acima e antes de percorre-la por pouco mais de 1 km, vamos fazer uma parada estratégica num bar bem ali na bifurcação. Nosso relógio bate 11 horas em ponto. No bar, músicas sertanejas raiz, tocam no último volume, enquanto luzes coloridas tipo neon, piscam freneticamente, iluminando desenhos tão coloridos quando. Jota entra e pede umas garrafas d’água, enquanto isso eu olho para aquele ambiente e já faço juízo de valor. Ninguém quer falar, ninguém quer julgar, então ficamos ali, tomando fôlego, nos hidratando, mas ao saímos do estabelecimento, ninguém segurou o riso e soltou logo o que estava pensando: “ESSA PORRA É UMA ZONA !!!!”🤣🤣🤣🤣🤣
Um km depois, deixamos a Estrada do Rio Acima e tomamos o rumo da esquerda, agora na Estradinha do Matarazo, um caminho de terra, que vai cruzando vários sítios, descendo e subindo e numa descida alucinante, uns 4 km de pedalada, passamos batido , quando deveríamos ter pegado a bifurcação para a direita e tivemos que retornar um pouquinho. Mais 2 km , o caminho vai curvando até , finalmente interceptarmos a RODOVIA DOS IMIGRANTES, bem embaixo de uma grande ponte.
( ESCADA PARA IMIGRANTES)
Passando portanto, embaixo da ponte, vamos encontrar do lado esquerdo, uma escadaria com um rampa de concreto ao lado, onde é possível subir pela escada empurrando as bicicletas e atingindo o alto, damos de cara com a CICLOVIA ao lado da Imigrantes. E essa é uma das obras que o governo do Estado, junto com as concessionárias, foram obrigados a construir depois de muita luta e pressão dos ciclistas e pedalando por mais uns 3 km, vamos nos deparar com algo que chega e impressionar em se tratando de Brasil, uma PASSARELA enorme, apenas para passagem de bicicletas, que vai nos ajudar a cruzar todas as 2 faixas da rodovia que interliga a Anchieta com a Imigrantes, com segurança.
Atravessando a passarela, encontramos outra ciclovia, agora voltando às margens dessa interligação até estarmos novamente ao lado da Imigrantes, por onde agora iremos pedalar por mais uma ciclovia e até aqui, batemos 50 km de pedaladas intensas e estamos felizes por finalmente termos um pouquinho de refresco, por começarmos o processo de descida por dentro da Serra do Mar.
Quando colamos novamente na Imigrantes, vamos pedalar por 1 km até chegarmos numa construção, parecendo um portal de entrada de cidade, aí a ciclovia acaba e adentramos num caminho ruim, até que ela vira uma trilha, cheio de lama, alguns lugares é preciso desmontar das bikes para conseguir passar e olhando no mapa, já vemos que estamos na TRILHA DO RANCHO e percorrendo mais 1km , nos vemos agora pedalando na ESTRADA DE MANUTENÇÃO, o nosso caminhão oficial e agora regulamentado para cruzar a Serra do Mar Paulista até a praia.
No início, vamos pegar algumas pequenas subidas, nada muito grande, mas para poupar energia, eu e Jota preferimos passar desmontados. Daqui para frente, estamos embaixo das pistas da Rodovia dos Imigrantes, passando sob pontes descomunais, uma obra prima da engenharia mundial. Inaugurada em 1976, que consumiu o trabalho de 13 mil homens.
A chegada a Serra do Mar é o momento glorioso dessa viagem sobre 2 rodas. E eu não imaginava o quão deslumbrante era esse cenário, que até então, eu supunha ser apenas um caminho pela fria estrada de manutenção. A partir de agora, vamos descendo, as vezes em declives alucinantes, onde os freios precisam estar em dia. A estradinha estreita vai serpenteando, deixando para trás curvas alucinantes, paisagens espetaculares e abismos descomunais, sem contar com pilastras gigantes sobre nossas cabeças, que vamos cruzando boquiabertos, um sentimento de liberdade e euforia que vai nos consumindo por completo.
O dia já havia passado muito da sua metade e o sol se encarregava de jogar muita iluminação, até nos caminhos mais fechados, passagens em meio a caminhos apertados, quando a estradinha afunilava em certos trechos, até que pouco depois da uma da tarde, fomos surpreendidos com mais uma mirante espetacular, bem na curva da estrada, mirante esse que nos apresentava vistas das montanhas opostas, onde os trens de cargas descem em direção ao litoral, que aliás , nos fez lembrar de expedições passadas, quando em explorações a rios selvagens, usávamos o próprio trem para nos levar de volta a civilização, mesmo que clandestinamente, é claro.
Hora ou outra, a estradinha lambia a própria rodovia principal, mas continuava cruzando por baixo de grandes pontes, beirando túneis. As vezes a descida se estabilizava e o caminho voltava a subir levemente, para depois despinguelar para baixo, perdendo altitude vertiginosamente, até quase tocarmos mais pontilhões gigantes.
O cenário ia ficando cada vez mais fascinante e começou a nos intrigar umas construções em forma de reservatórios de água e quando vimos um com uma escadinha de vergalhões de ferro, tivemos que nos deter e subir para investigar, mas como pensávamos, eram reservatórios de água mesmo, só não descobrimos para que serviam e foi lá de cima que tudo aconteceu: Jota havia se mantido na estrada, enquanto eu e o Dema havíamos subido e foi lá de cima que ouvimos o Jota gritar que havia visto as árvores balançarem e não demorou muito para um bando de macacos começarem a cruzar de um lado para o outro, saltando no topo das árvores gigantes. Um , dois, três , dez, dezenas de animais , algumas mães com seus filhotes nas costas, foi algo cinematográfico.
Seguimos pedalando, devagar, curtindo cada curva do caminho e as 14:00 chegamos num marco dessa rota histórica. Estamos justamente na CACHOEIRA DO TÚNEL IMIGRANTES, uma bela queda d’água, junto a um túnel escavado na rocha bruta e que não recebeu qualquer acabamento. Como o calor estava insuportável, não tive dúvidas em tirar a roupa e pular para dentro da água fria e por lá ficar até que a temperatura do meu corpo arrefecesse. Em frente da cachoeira, outra ponte descomunal. Nesse local é possível encontrar motos e até carros, que chegam até ali usando o túnel, mesmo sendo ilegal, já que a rota é aberta somente para bikes e carros oficiais, até então, já pedalamos por 60 km.
Comemos alguma coisa e voltamos à nossa jornada, passamos por baixo de uma ponte e deixamos que a força da gravidade nos carregue para baixo, até que voltamos a subir um pouco e nosso caminho vai curvando e somos apresentados ao vale do RIO PASSAREÚVA e logo à frente, vamos nos deter novamente diante de uma belíssima cachoeira, junto a uma grande ponte, e desde a última cachoeira até essa outra, pedalamos uns 3,5 km.
( Rio PASSAREÚVA)
Nesse trecho, é possível encontrar muitos veículos clandestinos, vindo do túnel que passamos e talvez de algum outro lugar que acabei não identificando, por isso nos próximos 3 ou 4 km, vamos pedalar com mais cuidado, ainda que nos sentíssemos seguros, estávamos sempre atentos e por volta das TRÊS da tarde, tropeçamos nas piscinas naturais, onde uma dezena de pessoas, vindas das comunidades que estão logo abaixo, se esbaldavam nas águas cristalinas oriundas do interior da Serra do Mar e foi aí que o Jota nos chamou para um conversa, que sinceramente, acabou não me agradando muito.
Estávamos há não mais que uns 15 minutos de terminar o trecho da Serra do Mar e eu estava muito contente que tudo tinha certo até o momento, tudo vinha correndo exatamente como o planejado, mas o o Jota insistiu:
- Gente, é o seguinte, eu já estive nesse pedaço dessa rota e daqui para frente, estaremos entrando em um trecho extremante perigoso, onde há relatos de vários assaltos aos ciclistas, inclusive, até tiro já tomaram, então como estamos só em 3, vamos evitar esse final e nos agarrarmos ao caminho pelo túnel mesmo, que aliás, está aqui perto da gente, só subir esse trecho à esquerda e pouco mais de 100 m, estaremos na boca dele (Túnel Plínio Marcos) e mesmo sendo proibido, é o melhor a fazer.
Claro, num primeiro momento, tento demover o Jota dessa ideia, porque eu queria seguir o trajeto original, manter o puritanismo da rota, mas o Jota foi firme, bateu o pé, fez beicinho , não quis nem ouvir, ainda mais quando o próprio Dema já se mancomunou com o meliante, então fiquei falando sozinho, um derrotado, que sem ter o que questionar, botei a mochilinha nas costas e emburrei meu “cavalo” até a rodovia dos Imigrantes, na junção de 2 túneis e que Deus tenha piedade das nossas almas por essa ideia estúpida.
O Jota e o Dema estavam confabulando, quando encostei neles e já foram me dando a ordem.
- Divanei, você vai na frente, assim que vagar um espaço entre um carro e outro, trata de pedalar o mais rápido que puder e não cola muito no lado direito para não escorregar na sujeira e nem no lado esquerdo, para não ser atropelado, ou seja, mantenha-se junto a marcação da faixa.
O barulho dos carros passando numa velocidade absurda, mal deixava a gente conversar. Eu estava extremamente nervoso e a situação viria a piorar, porque os meninos começaram a botar pressão para eu ir logo, mas eu não havia conseguido nem prender a lanterna traseira na bicicleta, porque o túnel era um tanto escuro e eu estava apavorado.
-Vamos Divanei, você tem que ir, tem que entrar no túnel, põe na marcha pesada e não para de pedalar até sair do outro lado.
Eu sabia o que fazer, mas não fiz e nenhum intervalo entre um carro e outro me parecia o suficiente.
- Divanei, pelo amor de Deus, vai, entra, pedala, agora, vamos, vamos.
Não, eu não entrei e quando vi, Dema e Jota, simplesmente passaram atropelando tudo, me deixaram para trás, agora em solitário, brigando com meu eu interior, tentando convencer a mim mesmo, que eu precisava vencer a inércia e pedalar. Coloquei na marcha pesada, subi na bike e quase caí parado, não botei força suficiente para sair do lugar. Na segunda tentativa, num espaço grande entre um carro e outro, a bicicleta andou e eu pedalei, pedalei como nunca havia pedalado na vida.
O túnel Plinio Marcos tem cerca de 3 km, mas sob tensão é maior que o do canal da Mancha e quando o primeiro carro passou e me fez balançar de um lado para o outro, eu achei que levaria uma queda, mas nada poderia fazer, porque ir para a lateral seria pior, por causa do excesso de lixo e pedaços de calotas que me convidava para um tombo ainda pior. Entrei em transe, os músculos endureceram e eu já pedalava no automático e a cada lambida de um carro, eu quase enfartava.
Quando saí do túnel, a luz quase me cegou, eu estava transtornado e ao encontrar os safados, rindo de felicidades, soltei um palavrão ofendendo a mãe dos dois, mas um minuto depois, lá estávamos nós, nos cumprimentando, eufóricos pela aventura inusitada.
Agora estávamos definitivamente sob os domínios da Rodovia dos Imigrantes e por ela vamos pedalar, sempre seguindo as placas em direção a cidade de Santos, inclusive, cruzar pela bonita Ponte Estaiada de Cubatão. Continuando enfrente e depois de ter pedalado por cerca de 11 km, desde a saída do túnel, tomamos um perdido e ai ao invés de continuar seguindo, acabamos subindo a Ponte Deputada Mariangela Duarte e fomos nos enfiando em uns becos , por alguns bairros periféricos e tentando seguir o caminho do GPS para nos levar à Santos, caímos numa área de comunidades, que parecia mais a anti-sala do inferno. Eu ia a frente operando o celular, atrás de mim, Jota e Dema consternados com a rumo tomado, que nos levou à um lugar onde o lixo tomava conta do cenário e mesmo que ninguém tenha dito nada, achamos que ser assaltado ali era questão de tempo, mas talvez só tenha sido preconceito mesmo, mas melhor não ariscar e sair vazado imediatamente.
O certo é que apontamos nosso nariz para o mar, agora o que interessava era chegar e quando tocamos a avenida que beirava a praia, na primeira oportunidade, adentramos na areia e como quem chega na terra prometida, largamos nossas bicicletas junto a água e comemoramos nossa chegada triunfal, havíamos vencido a travessia proposta, quase 100 km após ter partido da maior cidade da América do Sul.
Esquecemos de olhar para o mapa e nem percebemos que não havíamos chegado em Santos, mas sim em São Vicente, na Praia do Itaguaré, então fiz questão de que pedalássemos um pouco mais, para finalizar por completo na PRAIA DE JOSÉ MENINO, que aliás, é muito mais bonita que a anterior, aí sim, finalmente SANTOS estava aos nossos pés, mais comemoração e orgulho de ter chegado, cansados, mais inteiros.
SANTOS é uma cidade bem charmosa, com cerca de 500 mil habitantes, apesar de ser um centro portuário, aliás, o maior porto da América Latina, mesmo assim, tem uma orla agradabilíssima, onde orgulha-se de hospedar o maior e mais longo jardim a beira mar do planeta. Aproveitamos para concertar um pneu de uma das bicicletas que acabou furando, rodamos um pouco pela praia e fomos descansar numa birosca que alugamos de última hora, nossa missão naquele dia já havia se cumprido.
A ROTA MÁRCIA PRADO, acabou por se tornar um marco nos roteiros de ciclo turismo do Brasil, mas eu mesmo, nunca tinha imaginado que o caminho que cruza a nossa SERRA DO MAR PAULISTA, pudesse ser algo tão espetacular, tanto que negligenciei por todo esse tempo , apesar de ser um entusiasta da nossa selva Paulista, tendo explorado praticamente quase tudo em todas as regiões do Estado, acabei por desdenhar dessa parte da serra, mas felizmente acordei em tempo e na minha opinião, esse não é um roteiro local, é um roteiro que deveria constar nos guias da cidade de São Paulo, como algumas das rotas internacionais, que acabamos fazendo quando estamos fora do pais, porque além de juntar bicicleta, junta um dos cenários mais incríveis do planeta.
Divanei, abril - 2026